10 de abril de 2019

Capítulo 9 - Ao longe os salões


VOANDO PELO AR COM Gwyn, Diana se sentiu livre, apesar de sua preocupação incômoda sobre Emma e
Julian. Ela supôs que eles estavam seguros em casa, mas ela não gostava da ideia de não ser capaz de vê-los.
Isso a fez perceber o quanto eles se tornaram sua família nos últimos cinco anos, e como ela se sentia
desconectada de Alicante.
Andando pelas ruas, até rostos familiares pareciam máscaras de estranhos. Você votou em Horace Dearborn
para Inquisidor? Você culpa os Blackthorns pela morte da própria irmã? Você acredita que fadas são monstros?
Quem é você realmente?
Ela segurou Gwyn com mais força quando eles pousaram em sua pequena clareira agora familiar entre as
tílias. A lua tinha diminuído e a clareira estava cheia de silêncio e sombra profunda. Gwyn desmontou primeiro e
ajudou Diana a descer. Desta vez, ele não trouxera alforjes cheios de comida, mas uma espada sem corte na
cintura. Diana sabia que ele confiava nela, e ele não fez perguntas quando ela pediu que ele a trouxesse aqui
hoje à noite. Ele não confiava em outros Shadowhunters, e ela não podia culpá-lo por isso.
Uma luz surgiu entre as sombras, e Jia saiu de trás de uma pedra inclinada. Diana franziu a testa quando a
Consulesa se aproximou deles. A última vez que Diana esteve aqui, a terra estava verde sob seus pés. Agora os
sapatos de Jia rangiam em musgo seco, marrom e preto. Poderia ser simplesmente porque o Inverno estava se
aproximando, mas a praga…
— Diana — Disse Jia. — Eu preciso da sua ajuda.
Diana levantou a mão.
— Primeiro preciso saber por que não posso ver Emma e Julian. Por que estou sendo mantida longe deles?
— Todo mundo deve ser mantido longe deles — Disse Jia. Ela sentou-se cuidadosamente em uma pedra chata,
os tornozelos cruzados. Ela não tinha um fio de cabelo fora do lugar. — Horace disse que não quer comprometer
seu testemunho.
Diana fez um barulho incrédulo.
— Como ele está planejando forçá-los a testemunhar? Não há Espada Mortal!
— Eu entendo o quão preocupada você deve estar — Disse Jia.
— Mas falei com Simon antes de ele partir para Nova York. Ele e Isabelle conseguiram ver Emma e Julian esta
manhã e disseram que eles estavam bem e que o encontro deles com Horace ocorreu tão bem quanto se poderia
esperar.
Uma mistura de alívio e aborrecimento tomou conta de Diana.
— Jia, você tem que fazer alguma coisa. Dearborn não pode mantê-los isolados até um futuro imaginário em
que a Espada estiver consertada.
— Eu sei — disse Jia. — É por isso que eu queria me encontrar com você. Lembra quando pedi para você ficar
comigo?
— Sim — disse Diana.
— A Tropa está ciente da praga na floresta — disse Jia. — Afinal, Patrick levou Manuel com ele para ver, antes
de percebermos o quão perigosos todos eles eram, até mesmo as crianças — ela suspirou e olhou para Gwyn,
que estava sem expressão. Com seus anos de experiência nos duelos políticos das Cortes das Fadas, Diana não
pôde deixar de imaginar o que ele achava de tudo isso. — Eles decidiram usá-lo como uma ferramenta política.
Eles vão reivindicar isso como trabalho das fadas especificamente. Eles querem queimar a floresta para matar a
praga.
— Isso não vai matar a praga — disse Gwyn. — Só vai matar a floresta. A praga é a morte e a decadência. Você
não pode destruir a própria destruição mais do que você pode curar veneno com veneno.
Jia olhou para Gwyn novamente, desta vez dura e diretamente.
É magia de fada? A maldição?
— Não é uma magia de fada que eu já vi, e eu vivi muito tempo — Disse Gwyn. — Eu não estou dizendo que o
Rei Unseelie não tem nenhum dedo nisso. Mas esta é uma magia mais demoníaca do que qualquer outra usada
no Reino das Fadas. Não é natural, mas não é não natural.
— Então queimar a floresta não vai adiantar nada? — Disse Diana.
— Vai adiantar alguma coisa — disse Gwyn. — Isso expulsará os Submundanos que chamam Brocelind de lar
— todas as fadas e matilhas de lobisomem que vivem lá há gerações.
— É uma desculpa, acredito, para começar a expulsar os Submundanos de Idris — Disse Jia. — Dearborn
pretende usar o medo dos Nephilim para criar leis anti-Submundanos mais rigorosas. Eu sabia que ele faria isso,
mas não esperava que sua tentativa de esvaziar Idris dos Submundanos viesse tão rápida.
— Você acha que a Clave se alinharia a ele? — Perguntou Diana.
— Temo que sim — Disse Jia com uma amargura raramente expressa. — Eles estão tão focados em seu medo e
ódio que não veem que estão ferindo a si mesmos. Eles comeriam um banquete envenenado se achassem que os
Submundanos estivessem comendo com eles.
Diana abraçou a si mesma para não tremer.
— Então, o que podemos fazer?
— Horace fará uma reunião em dois dias. Será sua primeira oportunidade de apresentar seus planos ao
público. As pessoas te respeitam — os Wrayburns são uma família orgulhosa e você lutou bravamente na Guerra
Maligna. Deve haver outros como nós que se levantem e resistam a ele. Mesmo que haja tantos com medo de
falar.
— Não tenho medo — disse Diana, e viu Gwyn olhando-a com admiração.
— O mundo pode mudar rapidamente — Disse Jia. — Um dia, o futuro parece promissor e, no dia seguinte,
nuvens de ódio e fanatismo se juntam como se tivessem sido sopradas de algum mar inimaginável.
— Elas sempre estiveram lá, Jia — Disse Diana. — Mesmo que não quiséssemos reconhecê-las, elas sempre
estiveram no horizonte.
Jia parecia cansada, e Diana se perguntou se ela andara até lá, embora duvidasse que o esforço físico tivesse
cansado a Consulesa.
— Eu não sei se podemos reunir forças o suficiente para limpar os céus novamente.

— Ok — Disse Kit. — Primeiro, vamos fazer uma chave de tensão com o clipe de papel.
— Nós vamos fazer o que com o quê? — Dru prendeu o cabelo atrás das orelhas e olhou para Kit com os olhos
arregalados. Ambos estavam sentados em cima de uma das grandes mesas da biblioteca, com um cadeado e uma
pilha de clipes entre eles.
Ele gemeu.
— Não me diga que você não sabe o que é um clipe de papel.
Ela parecia indignada.
— Claro que eu sei. É isso aqui — Ela apontou um clipe com o dedo. — Mas o que estamos fazendo?
— Eu vou te mostrar. Pegue um clipe.
Ela pegou um.
— Dobre em forma de L — ele instruiu. — A parte reta é a parte superior. Ok, bom. — Seu rosto estava
deformado em uma careta de concentração. Ela vestia uma camiseta preta que dizia “Além da sepultura” e
mostrava uma lápide quebrada.
Kit pegou um segundo clipe e endireitou-o completamente.
— Esta é a sua ferramenta — disse ele. — O que você está segurando é uma chave de tensão.
— Tudo bem — disse ela. — Agora, como você usa isso para destrancar a fechadura?
Ele riu.
— Calma aí. Ok, pegue o cadeado, você vai pegar a chave de tensão e inseri-la na parte inferior do buraco da
fechadura, que é chamada de linha de corte.
Dru fez o que ele havia instruído. Sua língua cutucou um canto da boca: ela parecia uma menininha
concentrada em um livro.
— Vire na direção em que a fechadura giraria — ele disse. — Esquerda, não — isso mesmo. Assim. Agora
segure a chave de tensão com a outra mão.
— Não, espere… — ela riu. — Isso é confuso.
— Ok, eu vou te mostrar. — Ele deslizou o segundo clipe na própria fechadura e começou a movê-lo para
frente e para trás, tentando empurrar o grampo para cima. Seu pai o ensinara a sentir os pinos da fechadura —
essa fechadura tinha cinco — e ele começou a movê-los delicadamente, levantando um pino após o outro. — Vire
sua chave — disse ele de repente, e Dru pulou. — Vire-a para a direita.
Ela torceu, e o cadeado se abriu. Dru deu um grito abafado.
— Isso é tão legal!
Kit sentiu vontade de sorrir para ela — nunca lhe ocorrera querer uma irmãzinha, mas havia algo de bom em
ter alguém para ensinar as coisas.
— Ty sabe como fazer isso? — Perguntou ela.
— Acho que não — disse Kit, trancando o cadeado e entregando a ela. — Mas ele provavelmente aprenderia
rápido — ele entregou-lhe a chave de tensão e sentou-se. — Sua vez.
Ela gemeu.
— Não é justo.
— Você só aprenderá fazendo — era algo que o pai de Kit sempre dissera.
— Você soa como Julian. — Dru soltou uma risadinha e começou a mexer no cadeado. Suas unhas estavam
pintadas com um esmalte preto lascado. Kit ficou impressionado com a delicadeza com que ela segurava a chave
e o pino.
— Eu nunca pensei que alguém diria que eu soo como Julian Blackthorn.
Dru olhou para cima.
— Você sabe o que quero dizer. Coisas de pai — ela torceu a chave de tensão. — Estou feliz que você seja
amigo de Ty. — Ela disse inesperadamente. Kit sentiu seu coração dar um solavanco súbito no peito — quero
dizer, ele sempre teve Livvy. Então ele nunca precisou de nenhum outro amigo. Era como um pequeno clube que
ninguém poderia entrar, mas então você chegou e entrou.
Ela fez uma pausa, ainda segurando o cadeado. Ela estava olhando para ele com olhos muito parecidos com os
de Livvy, aquele largo verde azulado com cílios escuros.
— Eu sinto muito? — ele disse.
— Não sinta. Eu sou nova demais. Ty nunca teria me deixado entrar, mesmo se você não tivesse aparecido —
ela disse isso com naturalidade. — Eu amo Julian. Ele é como o melhor pai do mundo. Você sabe que ele sempre
te colocará em primeiro lugar. Mas Ty sempre foi o irmão legal. Ele tinha coisas incríveis em seu quarto, e os
animais gostavam dele, e ele sabia de tudo…
Ela se interrompeu, suas bochechas ficando rosadas. Ty tinha entrado no cômodo, o cabelo em cachos macios
e úmidos, e Kit sentiu um solavanco, como se seu estômago estivesse se revirando. Ele disse a si mesmo que
provavelmente se sentia desconfortável porque Ty os havia abordado falando sobre ele.
— Estou aprendendo a arrombar cadeados — disse Dru.
— Ok — Ty lhe deu um olhar superficial. — Mas preciso falar com Kit agora.
Kit deslizou rapidamente de seu assento, quase derrubando a pilha de clipes de papel.
— Dru está indo muito bem — disse ele.
— Ok — Ty disse novamente. — Mas preciso falar com você.
— Então fale — disse Dru. Ela colocou a ferramenta de abrir fechaduras na mesa e olhou para Ty.
— Não com você aqui — disse ele.
Tinha sido bastante óbvio, mas Dru fez um barulho de dor mesmo assim, e pulou da mesa. Ela saiu da
biblioteca batendo a porta atrás dela.
— Isso não foi… ela não estava… — Kit começou. Ele não conseguiu terminar, no entanto; ele não podia
repreender Ty. Agora não.
Ty abriu o zíper do casaco e enfiou a mão bruscamente no bolso interno.
— Precisamos ir ao Mercado das Sombras esta noite — disse ele.
Kit puxou seu cérebro de volta ao presente.
— Estou proibido de entrar no Mercado. Suspeito que você também esteja.
— Podemos fazer uma petição no portão — disse Ty. — Eu li sobre pessoas fazendo isso. O Mercados das
Sombras têm portões, certo?
— Sim, existem portões. Eles estão marcados. Eles não mantêm as pessoas fora ou dentro; eles são mais como
pontos de encontro. E sim, você pode fazer uma petição ao chefe do Mercado, exceto que neste caso o chefe é
Barnabé e ele me odeia.
Ty pegou um clipe de papel da mesa e olhou para ele com interesse. Havia hematomas em seu pescoço, Kit
percebeu de repente. Ele não se lembrava deles, o que lhe pareceu estranho, mas depois, quem notava todos os
machucados na pele de outra pessoa? Ty deve ter conseguido eles quando eles lutaram contra os Cavaleiros em
Londres.
— Só temos que convencê-lo de que nos deixar entrar é algo do seu interesse.
— Como você planeja fazer isso? Não somos exatamente os melhores negociadores.
Ty, que estava arrumando o clipe de papel, deu a Kit um de seus raros sorrisos que parecia o nascer-do-solsobre-
a-água.
— Você é.
— Eu… — Kit percebeu que estava sorrindo, e parou. Ele sempre tinha um tom sarcástico e nunca aceitava
elogios facilmente, mas era como se houvesse algo sobre Ty Blackthorn que desatava todos os nós de proteção
que ele mantinha. Ele se perguntou se era isso o que as pessoas queriam dizer quanto a se se sentirem desfeitas.
Ty franziu a testa como se não tivesse notado o sorriso estúpido de Kit.
— O problema é que — ele disse. — Nenhum de nós dirige. Não temos como chegar ao mercado.
— Mas você tem um iPhone — disse Kit. — Na verdade, existem vários no Instituto. Eu os vi.
— Claro — disse Ty. — Mas….
— Vou apresentar a você uma invenção maravilhosa chamada Uber — disse Kit. — Sua vida está prestes a
mudar, Ty Blackthorn.
— Ah, Watson — disse Ty, colocando o clipe no bolso. — Você pode não ser luminoso, mas é um extraordinário
condutor de luz.

Diego ficou surpreso que Gladstone quisesse trancá-los na biblioteca. Ele nunca pensou nela como uma sala
particularmente segura. Uma vez que ambos estavam lá dentro, Diego tirou as armas e a estela e, assim que a
sólida porta de carvalho foi trancada, Diego começou a procurar as vantagens que a biblioteca tinha como uma
prisão.
As paredes eram grossas e não havia janelas, exceto pelo vidro maciço no teto muitos pés acima. As paredes
íngremes tornavam impossível subir e quebrá-lo, e nada na sala rendia como uma arma útil. Eles poderiam jogar
livros, Diego supôs, ou tentar virar as mesas, mas ele não imaginou que quaisquer dessas coisas funcionassem.
Ele andou até onde Kieran estava sentado, ao pé da maciça árvore que crescia do chão. Se ele fosse alto o
suficiente para chegar ao teto, pensou Diego… Kieran estava encurvado contra o tronco. Ele tinha enfiado as
palmas das mãos em seus olhos, como se ele pudesse cegar a si mesmo.
— Você está bem? — Perguntou Diego.
Kieran baixou as mãos.
— Sinto muito — ele olhou para Diego, que podia ver as marcas das palmas de Kieran contra as maçãs do
rosto.
— Está tudo bem. Você foi ferido. Eu posso procurar maneiras de sair daqui sozinho — disse Diego,
deliberadamente o entendendo mal.
— Não, eu sinto muito — Kieran sufocou. — Eu não posso.
— Você não pode o quê?
— Afastar-me disso. Eu me sinto culpado, como se estivesse emaranhado em uma cortina de espinhos. Todo o
caminho que eu sigo eu sou perfurado novamente.
A piscina faz você sentir cada ferida que você já causou aos outros.
— Não há nenhum de nós sem culpa — disse Diego, e ele pensou em sua família, em Cristina. — Cada um de
nós feriu alguém, inadvertidamente ou não.
— Você não entende. — Kieran estava balançando a cabeça. Uma mecha de cabelo caiu através de sua testa,
prata escurecendo até tornar-se azul. — Quando eu estava na Caçada, eu era uma palha flutuando no vento ou
na água e tudo o que eu fazia era agarrar-me às outras palhas. Eu acreditava que não tinha efeito no mundo, que
eu importava tão pouco que não podia ajudar nem prejudicar — ele esticou as mãos em punhos. — Agora eu
senti a dor que era de Emma e a tristeza que era de Mark, e a dor de todos que eu machuquei na Caçada, até
mesmo a dor de Erec quando ele morreu. Mas como eu poderia ter sido a pessoa que causou tanta dor quando
sou alguém cujas ações estão escritas na água?
Seus olhos, pretos e prateados, estavam assombrados. Diego disse:
— Kieran. Você não causou apenas dor neste mundo. A piscina não mostra as coisas boas, apenas as que
machucam.
— Como você sabe? — Kieran chorou. — Nós mal nos conhecemos, você e eu…
— Por causa de Cristina — disse Diego. — Cristina tinha fé em você. Fé verdadeira, imaculada e ininterrupta.
Por que acha que eu concordei em te esconder aqui? Porque ela acreditava que você era bom e eu acreditei nela.
Ele parou antes que ele pudesse dizer demais, mas Kieran já tinha estremecido à menção de Cristina. Sua
próxima pergunta intrigou Diego.
— Como posso encará-la novamente? — Ele disse.
— Você se importa tanto com o que ela pensa? — Perguntou Diego. Não tinha ocorrido a ele que Kieran se
importaria. Certamente ele não conhecia Cristina tão bem.
— Mais do que você imagina ou adivinharia — disse Kieran. — Como você a enfrentou novamente, depois que
você se comprometeu com Zara e partiu seu coração?
— Sério? — Diego se sentia alfinetado. — Precisamos trazer isso à tona?
Kieran olhou para ele com olhos selvagens. Diego suspirou.
— Sim, eu desapontei Cristina e perdi seu respeito, você deve saber como é isso. Desiludir alguém que você
amava. Desapontar a si mesmo.
— Talvez não exatamente — disse Kieran, com uma sombra de sua antiga ironia. — Ninguém me chama de
Kieran Perfeito.
— Eu não me chamo de Diego Perfeito! — Diego protestou, sentindo que a conversa havia se dispersado. —
Ninguém chamaria a si mesmo assim!
Houve um barulho na porta. Ambos se viraram, prontos para o perigo, mas quando se abriu, Diego ficou
chocado ao ver Divya no limiar.
Ela parecia ter estado em uma briga. Arranhada e sangrando, ela segurou a chave.
— Eu consegui isso de Gladstone em meio ao caos da enfermaria — disse ela. — Duvido que tenhamos muito
tempo antes que ele perceba que sumiu.
Diego passou por ela e abriu uma fresta da porta da biblioteca.
O corredor estava vazio.
— O que está acontecendo? Onde está Rayan?
— Tentando descobrir o que os outros, aqueles que vieram de Alicante e não estão na Tropa, sabem. Todas as
estelas foram confiscadas. Zara voltou para Idris pouco depois de você levar Kieran embora. E Gladstone está na
enfermaria com Samantha — disse Divya. — Ela não para de gritar — ela mordeu o lábio. — Isso é muito ruim.
Kieran se levantou, embora ainda estivesse usando a árvore para se sustentar.
— Vocês dois devem correr — disse ele. — Deem o fora daqui. Sou eu quem eles querem, vocês já se
arriscaram demais por mim.
Divya deu-lhe um olhar irônico.
— Pelo Anjo, ele está todo altruísta depois que caiu naquela piscina. Fada, você não me fez nenhum mal.
Estamos bem.
— Eu fiz você se preocupar e sentir medo — disse Kieran, olhando para ela com um olhar assombroso. — Você
estava com medo do que poderia acontecer com você e com os outros, da retaliação por me esconder. Você temia
por Rayan — ele olhou para Diego. — E você…
— Não. — Diego levantou a mão. — Eu não quero ouvir sobre meus sentimentos.
— É o que todo homem diz — Divya brincou, mas seus olhos estavam muito brilhantes. — Olha, há mais coisas
que preciso contar, e acho melhor vocês ouvirem. Ouvi Zara rir com Gladstone na enfermaria antes de Samantha
ser trazida. O Inquisidor enviou dois Caçadores de Sombras em uma missão suicida ao Reino das Fadas para
encontrar o Volume Negro.
— Jace e Clary? — Diego disse, intrigado. — Essa não é uma missão suicida.
— Eles, não. Emma e Julian Blackthorn. Eles foram embora ontem.
— Eles nunca concordariam com uma missão suicida — disse Kieran. — Julian não deixaria seus irmãos e
irmãs. Nunca.
— Eles não sabem que é uma missão suicida. Dearborn enviou alguém para segui-los e matá-los antes que eles
possam voltar.
— Isto é contra a lei — foi tudo o que Diego pôde pensar em dizer e ele imediatamente se sentiu ridículo.
— Horace Dearborn não se importa com suas leis — disse Kieran. Suas bochechas estavam coradas com uma
cor escura. — Ele não se importa com nada além de promover seu propósito. Para ele, um Nephilim que não
concorda com ele não é melhor do que um Submundano. Eles são todos vermes a serem destruídos.
— Kieran está certo — disse Divya. — Ele é o Inquisidor, Diego. Ele vai mudar todas as leis, mudá-las para que
ele possa fazer o que quiser.
— Temos que ir — disse Kieran. — Não há um momento a perder. Nós temos que dizer aos Blackthorns. Mark
e Cristina…
— Todas as saídas estão guardadas — disse Divya. — Eu não estou dizendo que é impossível, mas vamos
precisar de Rayan e Gen e os outros. Nós não podemos lutar contra a Tropa sozinhos. Especialmente sem
estelas. Nós precisamos planejar…
— Não temos tempo para planejar — Kieran começou.
Diego pensou de repente em Cristina, na maneira como ela escreveu sobre Kieran em sua carta, pedindo
Diego para escondê-lo. O fascínio que ela tinha com fadas, mesmo quando ela era uma garotinha, o jeito que ela
chorou quando a Paz Fria foi aprovada, dizendo a Diego de novo e de novo que fadas eram boas e que seus
poderes faziam parte da abençoada magia do mundo.
— Kieran — disse Diego bruscamente. — Você é um príncipe do Reino das Fadas. Seja um príncipe do Reino
das Fadas.
Kieran deu-lhe um olhar selvagem e sombrio. Sua respiração estava irregular.
Divya olhou para Diego como se dissesse o que você está fazendo? Kieran acabara de se escorar em um ramo
da árvore.
Ele fechou seus olhos pretos e prateados. Seu rosto era uma máscara pálida. Sua mandíbula apertou-se
mesmo quando as folhas da árvore começaram a farfalhar, como num vento forte, como se a árvore o estivesse
chamando.
— O que está acontecendo? — Sussurrou Divya.
A luz crepitava em cima e embaixo da árvore — não um relâmpago, mas, sim, faíscas puras e brilhantes. Elas
circulavam Kieran como se o estivessem contornando com tinta dourada. Seu cabelo havia se transformado em
um estranho verde-ouro, algo que Diego nunca tinha visto antes.
— Kieran — Diego começou.
Kieran jogou as mãos para cima. Seus olhos ainda estavam fechados; palavras sendo derramadas de sua boca,
uma língua que Diego nunca ouvira. Ele desejou que Cristina estivesse aqui. Cristina poderia traduzir. Kieran
começou a gritar e Diego pensou ter ouvido a palavra “Lança do Vento” repetidas vezes.
Lança do Vento? pensou Diego. Esse não é…?
— Há pessoas chegando! — Divya gritou. Ela correu para a porta da biblioteca, bateu-a, fechando-a, e trancou,
mas ela estava balançando a cabeça. — Tem muitos deles. Diego…
O teto de vidro explodiu. Tanto Diego quanto Divya arfaram.
Um cavalo branco caiu do teto. Um cavalo branco voador, orgulhoso e lindo. O vidro foi pulverizado e Diego
mergulhou debaixo de uma mesa próxima, arrastando Divya com ele. Kieran abriu os olhos; ele alcançou Lança
do Vento, dando-lhe boas-vindas quando ele cortou o ar, rápido como uma flecha, leve como uma semente de
espinheiro.
— Pelo Anjo em boas-vindas — Divya sussurrou. — Deus, eu costumava amar pôneis quando era pequena.
Kieran pulou nas costas de Lança do Vento. Seu cabelo havia voltado para o azul-preto habitual, mas ele ainda
estava crepitando com energia, faíscas saindo de suas mãos enquanto se movia. Ele estendeu a mão para Diego,
que saiu de debaixo da mesa, Divya ao lado dele, suas botas mastigando o vidro quebrado.
— Venham comigo — Kieran chamou. A sala estava cheia de vento e frio, o cheiro dos Cárpatos e água do lago.
Acima deles, a janela quebrada abria-se para um céu cheio de estrelas. — Vocês não estarão seguros aqui.
Mas Divya balançou a cabeça. Esmagando o desejo de escapar daquela vermelhidão dentro dele, Diego fez o
mesmo.
— Vamos ficar e lutar — ele disse. — Nós somos Caçadores de Sombras. Nós não podemos fugir e deixar que o
pior entre nós tome o poder. Nós devemos resistir.
Kieran hesitou assim que a porta da biblioteca se abriu. Gladstone e uma dezena de membros da Tropa
entraram, seus olhos se arregalando.
— Parem-no! — Gladstone gritou, jogando um braço em direção a Kieran. — Manuel, Anush…
— Kieran, vá! — Diego rugiu, e Kieran agarrou a crina de Lança do Vento; eles explodiram no ar antes que
Manuel pudesse fazer mais do que dar um passo à frente. Diego pensou ter visto Kieran olhar para ele uma
última vez antes que Lança do Vento atravessasse o teto e brilhar como uma faixa branca no céu.
Diego ouviu alguém aparecer atrás dele. Do outro lado da sala, Divya estava olhando para ele. Havia lágrimas
em seus olhos. Atrás dela, sua prima Anush estava a algemando.
— Você vai se arrepender de ter feito isso — disse Manuel, o sussurro satisfeito raspando no ouvido de Diego.
— Sinto muito, Rocio Rosales.
E, então, só havia escuridão.

Emma foi levada para trás de Nene em seu palafrém cinza, enquanto Julian cavalgava atrás de Fergus, então não
havia chance de conversar. Frustração agitou dentro de Emma enquanto cavalgavam sob as árvores verdes,
lanças douradas de luz brilhando através das aberturas e transformando-se em um bronze mais profundo
conforme o dia avançava.
Ela queria falar com Julian, queria criar um plano para o que eles iriam fazer quando chegassem à Corte
Seelie. O que eles diriam à Rainha? Como eles sairiam de novo? O que eles queriam a ela?
Mas parte dela também estava zangada demais para falar com Julian — como ele ousava manter uma parte
maciça do seu plano escondida dela? Como ele a deixou andar cegamente no Reino das Fadas, acreditando que
tinham uma missão quando aparentemente eles tinham outra? E uma parte menor e mais fria dentro dela disse:
A única razão pela qual ele não lhe disse é porque ele sabia que você ia recusar-se a seguir o plano dele.
Qualquer que fosse o plano, Emma não teria gostado.
E, ainda mais fundo, onde ela mal tinha as palavras para o que sentia, ela sabia que se não fosse pelo feitiço,
Julian nunca teria feito isso, porque ela nunca foi uma das pessoas que Julian manipulou e mentiu. Ela era da
família, fazia parte de seu círculo de proteção, e por causa disso ela perdoou as mentiras e os planos, porque
eles não foram direcionados a ela. Eles foram dirigidos aos inimigos da família. O Julian que teve que mentir e
manipular era uma pessoa criada por uma criança assustada para proteger as pessoas que ele amava. Mas e se o
feitiço tivesse feito essa pessoa real? E se esse era quem Julian era agora?
Eles haviam deixado a floresta para trás e estavam em um lugar de campos verdes que não mostrava sinais de
habitação, apenas grama verde ondulando por milhas, com manchas pontuadas de flores azuis, roxas e
montanhas violetas à distância. Uma colina surgiu à frente deles como uma onda verde, e Emma arriscou um
olhar para Julian enquanto a frente da colina se erguia como uma ponte levadiça, revelando a entrada maciça de
mármore.
As coisas no Reino das Fadas raramente pareciam duas vezes iguais, Emma sabia; a última vez que eles
entraram na Corte Seelie foi por meio de uma colina onde eles encontraram um corredor estreito; agora eles
andavam rumo a um elegante portão de bronze com arabescos de cavalos empinando. Nene e Fergus
desmontaram, e só depois que Emma deslizou para o chão de mármore, ela viu que as rédeas de ambos os
cavalos tinha sido tomado por diminutas fadas esvoaçantes com asas azuis, vermelhas e douradas abertas.
Os cavalos se chocaram, liderados pelas pequenas fadas zumbis.
— Eu poderia usar uma daquelas para fazer meu cabelo de manhã — disse Emma para Nene, que lhe deu um
sorriso ilegível. Era enervante o quanto Nene parecia com Mark — o mesmo cabelo louro-encaracolado e ossos
estreitos.
Fergus estreitou os olhos.
— Meu filho é casado com uma dessas fadas pequenas — ele disse. — Por favor, não façam perguntas
intrusivas sobre isso.
Julian levantou as sobrancelhas, mas não disse nada. Ele e Emma ficaram um ao lado do outro enquanto
seguiam Nene e Fergus da sala de mármore a um corredor cheio de terra.
— Acho que tudo ocorreu de acordo com o seu plano, não? — Disse Emma friamente, sem olhar para Julian.
Ela podia senti-lo ao lado dela, no entanto, seu calor familiar e sua forma. O parabatai que ela teria reconhecido
surda e vendada. — Se você está mentindo sobre ter o Volume Negro, as coisas não vão ocorrer bem para nós
dois.
— Eu não estou mentindo — disse ele. — Havia uma loja de cópias perto do Instituto de Londres. Você verá.
— Nós não deveríamos sair do Instituto, Julian…
— Esta foi a melhor opção — disse Julian. — Você pode ser muito sentimental para ver claramente, mas isso
nos aproxima do que queríamos.
— Como? — Emma assobiou. — Qual é a razão de virmos falar com a Rainha Seelie? Não podemos confiar nela
mais do que podemos confiar em Horace ou Annabel.
Os olhos de Julian brilharam como as pedras preciosas colocadas nas paredes do longo túnel. Eles brilhavam
em listras de jaspe e quartzo. O chão sob os pés tinha se tornado azulejo polido, um verde-leitoso branco.
— Não confiar na Rainha é parte do meu plano.
Emma queria chutar uma parede.
— Você não deveria ter um plano que inclua a Rainha, entende? Estamos todos lidando com a Paz Fria por
causa da traição dela.
— Esses sentimentos anti-Reino das Fadas… — disse Julian, abaixando-se sob uma cortina cinza de renda. —
Estou surpreso com você.
Emma andou atrás dele.
— Não tem nada a ver com as fadas em geral. Mas a Rainha é um pouco sem limites já que… — Oi, Majestade!
Ah, droga. Parecia que a cortina cinzenta pela qual passaram era a entrada para a Corte da Rainha. A própria
Rainha estava sentada no meio do cômodo, em seu trono, olhando para Emma friamente.
A câmara parecia como antes, como se o cômodo tivesse sido varrido por um incêndio anos atrás e ninguém
tivesse realmente limpado o dano. O chão de mármore estava enegrecido e rachado. O trono da Rainha estava
manchado de bronze, a parte de trás dele subindo acima de sua cabeça em um pergaminho em forma de leque.
As paredes estavam arrancadas aqui e ali, como se um animal enorme tivesse cavado coágulos de mármore com
suas garras.
A Rainha era chama e osso. Suas clavículas se erguiam do corpete de seu vestido azul e dourado
intricadamente adornado, seus braços nus eram longos e finos como varas. Tudo ao seu redor despencava em
seu rico cabelo ruivo como grossas ondas como sangue e fogo. Em seu rosto branco e estreito, olhos azuis
brilhavam como chamas de gás brilhavam.
Emma limpou a garganta.
— Já que a Rainha é tão brilhante quanto à luz do sol — disse ela. — Isso é o que eu ia dizer.
— Você não vai me cumprimentar dessa maneira informal, Emma Carstairs — ela disse. — Você entendeu?
— Eles foram assaltados na estrada e atacados — disse Nene. — Nós enviamos fadas mensageiras à frente
para lhe dizer …
— Eu ouvi — disse a Rainha. — Isso não desculpa a grosseria.
— Eu acho que a loira estava prestes a chamar a Rainha de vassoura — Fergus murmurou para Nene, que
parecia tão exasperada quanto os cortesãos de fada jamais pareceriam.
— É verdade — disse Emma.
— Ajoelhem-se — Rebateu a Rainha. — Ajoelhem-se, Emma Carstairs e Julian Blackthorn, e mostrem o devido
respeito.
Emma sentiu o queixo subir como se tivesse sido puxado em uma corda.
— Nós somos Nephilim — ela disse. — Nós não nos ajoelhamos.
— Por que os Nephilim são gigantes na terra, com a força de mil homens? — O tom da Rainha foi gentilmente
zombeteiro. — Até mesmo os poderosos caem.
Julian deu um passo em direção ao trono. Os olhos da Rainha baixaram-se, avaliando, medindo.
— Você prefere um gesto vazio ou algo que você realmente quer? — Ele perguntou.
Os olhos azuis da Rainha brilharam.
— Você está sugerindo que você tem algo que eu verdadeiramente quero? Pense com cuidado. Não é fácil
adivinhar o que uma monarca deseja.
— Eu tenho o Volume Negro dos Mortos — disse Julian.
A Rainha riu.
— Eu ouvi dizer que você o perdeu — disse ela. — Junto com a vida de sua irmã.
Julian ficou branco, mas sua expressão não mudou.
— Você nunca especificou qual cópia do Volume Negro você queria. — Com a Rainha e Emma olhando, ele
enfiou a mão na mochila e tirou um manuscrito branco encadernado. Buracos foram perfurados no lado
esquerdo junto com laços de plástico grossos. A Rainha se recostou, o cabelo vermelho-fogo brilhante contra o
metal escuro de seu trono.
— Esse não é o Volume Negro.
— Eu acho que se você examinar as páginas vai descobrir que é — disse Julian. — Um livro é composto pelas
palavras que ele contém, nada mais. Tirei fotos de todas as páginas do Volume Negro com meu telefone e ele foi
impresso e encadernado em uma loja de cópias.
A Rainha inclinou a cabeça, e o círculo de ouro fino amarrando em sua testa cintilou.
— Eu não entendo as palavras de seus feitiços e rituais mortais — ela disse. Sua voz subiu para um tom agudo.
Por trás dos olhos que, às vezes zombavam e, às vezes riam, Emma pensou ter vislumbrado a verdadeira Rainha,
e o que aconteceria se alguém cruzasse seu caminho erroneamente, e ela se sentiu fria. — Eu não vou ser
enganada ou ridicularizada, Julian Blackthorn, e eu não confio em seus truques. Nene, pegue o livro dele e
examine-o!
Nene se adiantou e estendeu a mão. Nos cantos sombrios do cômodo, houve um movimento; Emma percebeu
que as paredes estavam forradas de guardas-fadas em uniformes cinza. Não é à toa que eles permitiram que ela
e Julian entrassem carregando suas armas. Devia haver cinquenta guardas aqui e mais nos túneis.
Deixe Nene examinar o livro, Julian, ela pensou, e, de fato, ele o entregou sem um murmúrio e assistiu
calmamente enquanto Nene olhava, seus olhos folheando as páginas. Por fim, ela disse:
— Isso foi feito por um especialista calígrafo. As pinceladas são exatamente como eu me lembro.
— Um calígrafo habilidoso chamado OfficeMax — murmurou Julian, mas Emma não sorriu para ele.
A Rainha ficou em silêncio por um longo tempo.
A batida de seu pé calçado era o único som na sala enquanto todos esperavam que ela falasse. Finalmente ela
disse:
— Esta não é a primeira vez que você me apresenta uma questão complexa, Julian Blackthorn, e suspeito que
não será a última.
— Não é para ser complexa — disse Julian. — É o Volume Negro. E você disse que se nós lhe déssemos o
Volume Negro, você nos ajudaria.
— Não é bem assim — disse a Rainha. — Eu me lembro de fazer promessas, mas algumas podem não ser mais
relevantes.
— Estou lhe pedindo para lembrar que você nos prometeu ajuda — disse Julian. — Estou pedindo para nos
ajudar a encontrar Annabel Blackthorn aqui no Reino das Fadas.
— Já estamos aqui para encontrá-la — disse Emma. — Nós não precisamos disso… isso… essa ajuda pessoal.
— Ela olhou para a Rainha.
— Temos um mapa que mal funciona — disse Julian. — A Rainha tem espiões por toda parte do Reino das
Fadas. Podemos levar semanas para encontrar Annabel. Nós poderíamos passear por Reino das Fadas para
sempre, enquanto a nossa comida se esgota. A Rainha poderia nos levar direto a ela, pois nada acontece neste
reino sem o conhecimento dela.
A Rainha sorriu maliciosamente.
— E o que você quer de Annabel quando encontrá-la? O egundo Volume Negro?
— Sim — disse Julian. — Você pode manter esta cópia. Eu preciso pegar o Volume Original para levar comigo
para Idris e provar à Clave que não está mais no mãos de Annabel Blackthorn. — Ele fez uma pausa. — E eu
quero vingança. Pura e simples.
— Não há nada simples sobre a vingança e nada puro — disse a Rainha, mas seus olhos brilhavam com
interesse.
Se a Rainha sabia tanto, por que ela simplesmente não matou Annabel e pegou o Volume Negro? Emma se
perguntou. Por causa do envolvimento com a Corte Unseelie? Mas ela manteve a boca fechada — ficou claro que
ela e Julian não estavam de forma alguma em acordo com a Rainha.
— Antes, você desejava um exército — disse a Rainha. — Agora você só me quer para encontrar Annabel para
você?
— É uma barganha melhor para você — disse Julian, e Emma notou que ele não tinha dito “sim.” Ele queria
mais do que isso da Rainha.
— Talvez, mas eu não serei a palavra final sobre o mérito deste volume — disse a Rainha. — Eu preciso ter um
especialista concordando primeiro. E você deve permanecer na Corte até que isso seja feito.
— Não! — Emma disse. — Nós não vamos ficar no Reino das Fadas por tempo indeterminado — Ela girou para
Julian. — É assim que eles te pegam! Com quantidades de tempo indeterminadas!
— Vou cuidar de vocês dois — disse Nene inesperadamente. — Por causa de Mark. Eu vou cuidar de vocês e
me certificar de que nenhum dano aconteça.
A Rainha lançou um olhar hostil a Nene antes de voltar a olhar para Emma e Julian.
— O que você diz?
— Não tenho certeza — disse Julian. — Pagamos um alto preço por este livro em sangue e perda. Para sermos
instruídos a esperar…
— Ah, muito bem — disse a Rainha e, em seus olhos, Emma viu uma luz estranha de ânsia. Talvez ela estivesse
mais desesperada pelo livro do que Emma pensava? — Como sinal da minha boa fé, darei a você parte do que
prometi. Eu vou te dizer, Julian, como certos laços podem ser quebrados. Mas eu não vou contar a ela — ela
gesticulou para Emma. — Isso não fazia parte da barganha.
Emma o ouviu inalar arduamente. Os sentimentos de Julian por ela podiam estar mortos, ela pensou, mas por
alguma razão, ele ainda queria isso desesperadamente, o conhecimento de como seu laço podia ser dissolvido.
Talvez isso era um desejo atávico, como ele havia descrito seu desejo de proteger Ty — uma profunda
necessidade de sobrevivência enraizada?
— Nene — disse a Rainha. — Por favor, escolte Emma até o quarto em que ela esteve na última vez que foi
uma convidada da Corte.
Fergus gemeu. Tinha sido seu quarto em que Emma e Julian tinham dormido anteriormente. Nene se
aproximou da Rainha, colocou a cópia do volume preto aos seus pés, e recuou para ficar ao lado de Emma. A
Rainha sorriu com os lábios vermelhos.
— Julian e eu permaneceremos aqui para falar em particular — disse ela. — Guardas, vocês pode me deixar.
Nos deixar.
— Eu não preciso — disse Emma. — Eu sei do que se trata, quebrar todas as ligações parabatai. Nós não
precisamos ouvir sobre isso. Isso não vai acontecer.
O olhar da Rainha foi desdenhoso.
— Pequena garota tola — ela disse. — Você provavelmente pensa que está protegendo algo sagrado. Algo bom.
— Eu sei que é algo que você não entenderia — disse Emma.
— O que você diria — disse a Rainha. — Se eu dissesse que existe uma corrupção no coração do vínculo
parabatai? Um veneno. Uma escuridão nele que espelha sua bondade. Há uma razão pela qual parabatai não
podem se apaixonar e é mais monstruoso do que tudo que você poderia imaginar — sua boca brilhava como um
maçã envenenada enquanto sorria. — A runa parabatai não foi dada a você pelo Anjo, mas pelos homens, e os
homens são falhos. Davi, o Silencioso e Jonathan Caçador de Sombras criaram a runa e a cerimônia. Você
imagina acha que ela não traz consequências?
Era verdade, e Emma sabia disso. A runa parabatai não estava no Livro Cinza. Mas nem a runa da Alliance
que Clary havia criado, e isso era considerado um bem universal.
A Rainha estava torcendo a verdade para se adequar a si, como sempre fazia. Os olhos dela, fixos em Emma,
eram pedaços de gelo azul.
— Eu vejo que você não entende — ela disse. — Mas você irá.
Antes que Emma pudesse protestar, Nene pegou seu braço.
— Venha — ela murmurou. — Enquanto a Rainha ainda está de bom humor.
Emma olhou para Julian. Ele não tinha se movido de onde estava, as costas rígidas, seu olhar fixado
firmemente na Rainha. Emma sabia que deveria dizer alguma coisa. Protestar, dizer a ele não ouvir as palavras
malandrinas da Rainha, dizer que não havia maneira, não importava o que estava em jogo, de justificar a quebra
de todos os laços parabatai no mundo.
Mesmo que isso os libertasse. Mesmo que isso trouxesse Julian de volta para ela. Ela não pôde dar voz às
palavras.
Ela saiu da câmara da Rainha ao lado de Nene sem nenhuma outra palavra.

2 comentários:

  1. Sinceramente , o ciclo dos primeiros livros apenas se renova , nada muda nessa serie.

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  2. manoooo, a runa parabatai não velho. não depois de ler TID e toda a relação do jem e do will

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Boa leitura, E SEM SPOILER!