5 de abril de 2019

Capítulo 8

Elena não conseguia se mexer. Sentia-se entorpecida, os braços e pernas pesados e paralisados. Seu coração batia cada vez mais rápido, o afluxo de sangue martelando nos ouvidos, mas ela continuou parada.
Diante do fogo, Klaus se espreguiçou e sorriu, estendendo as mãos. Virou-as lentamente, examinando-as, admirando os dedos longos e os braços fortes.
— Sem cicatrizes — disse ele. Falava baixo, mas suas palavras ressoavam pela clareira. — Estou inteiro novamente. — Ele virou a cabeça para trás para ver a Lua em quarto crescente no alto e seu sorriso se ampliou. — E voltei para casa — completou.
Ethan se desvencilhou do braço frouxo de um Stefan em choque e caiu de joelhos.
— Klaus — falou em tom de veneração.
Klaus baixou os olhou para ele com uma curiosidade indiferente. Ethan abriu a boca para dizer mais alguma coisa, a expressão de arrebatamento, mas antes que conseguisse, Klaus estendeu o braço, passou as mãos fortes e graciosas pelo queixo de Ethan, e puxou.
Com um barulho terrível de tendões se rompendo, a cabeça de Ethan foi arrancada do pescoço como uma rolha saindo de uma garrafa. O corpo caiu de lado, sem vida, abandonado. Klaus ergueu a cabeça e a segurou diante de si enquanto o sangue escorria por seus braços. A sua volta, os seguidores de Ethan tremeram de medo, mas ninguém se mexeu. Perto de Elena, Chloe arfou.
Stefan, com o rosto sujo do sangue de Ethan, observava Klaus atentamente, virando o corpo para ter uma boa posição de ataque. Não, pensou Elena, assustada, desejando que Stefan voltasse. Não tinha se esquecido da força de Klaus. Como se tivesse ouvido seus pensamentos, Stefan recuou um pouco, lançando um olhar de alerta a sua tropa reunida, que observava Klaus agora com pavor.
O Antigo contemplou o rosto mortiço de Ethan por um momento, depois jogou a cabeça de lado. Levando a mão direita à boca, lambeu pensativamente o sangue de Ethan com a língua rosada e comprida, e o estômago de Elena se revirou. Vê-lo matar Ethan tão despreocupadamente já foi terrível, mas havia algo de obsceno no prazer sensual e relaxado que ele demonstrava ao provar os filetes de sangue.
— Delicioso — disse Klaus, a voz suave. — Gosto mais do sabor humano do que vampiro, mas este era jovem e fresco. Seu sangue ainda era doce. — Ele olhou friamente a clareira. — Quem será o próximo?
Então, através da clareira iluminada pela fogueira, seus olhos se fixaram nos de Elena e sua cabeça se ergueu como um cachorro farejando um cheiro, a expressão passando da indiferença para a atenção. Elena engoliu em seco, a garganta ardendo, o coração ainda batendo como um passarinho frenético preso no peito. Os olhos de Klaus eram muito azuis, mas não o azul-claro dos de Matt ou o azul-celeste tropical de Zander. Os olhos de Klaus pareciam gelo fino sobre a água escura.
— Você — disse Klaus para Elena, quase com gentileza. — Eu queria vê-la de novo. — Ele sorriu e abriu as mãos. — E aqui está você, em meu renascimento, para me receber. Venha até mim, pequena.
Elena não queria se mexer, mas mesmo assim cambaleou até Klaus, os pés se arrastando sem o seu consentimento, como se acionados por outra pessoa.
Ela ouviu o sussurro em pânico de Matt a suas costas — “Elena!” — e ele a segurou pelo braço, fazendo-a parar, agradecida. Mas não havia tempo para agradecer: Klaus se aproximava.
— Devo matá-la agora? — perguntou ele a Elena, no tom íntimo de um amante. — Desta vez você não parece ter um exército de fantasmas enfurecidos, Elena. Posso acabar com você em segundos.
— Não. — Stefan avançou, o rosto severo e desafiador.
Meredith se colocou a seu lado e eles ficaram ombro a ombro, olhando furiosos para Klaus. Atrás deles, Zander e a Alcateia, lobos e humanos, agrupavam-se, colocando-se entre Elena e Klaus. Zander encarava Klaus de olhos atentos, os pelos eriçados e agitados. Lentamente, seus lábios se repuxaram sobre os dentes e o lobisomem rosnou.
Klaus olhou para eles com certa surpresa, depois riu, divertindo-se genuinamente.
— Ainda inspirando devoção, não é, menina? — perguntou ele a Elena, atrás do grupo. — Talvez, afinal, você tenha parte do espírito de minha Katherine.
Num movimento suave, ele avançou e pegou Stefan pelo pescoço, jogando-o de lado com a facilidade como que teria atirado um espantalho. Elena gritou ao ver Stefan cair com um baque pesado do outro lado do fogo e jazer imóvel.
Meredith, segura de si e preparada, imediatamente girou o bastão em direção da cabeça de Klaus, que ergueu uma das mãos e pegou o bastão em pleno ar, arrancando-o de Meredith sem sequer olhar para ela. Ele jogou o bastão de lado com a mesma despreocupação com que atirara o corpo de Stefan e andou rapidamente pela multidão, golpeando a Alcateia de Zander e os vampiros de Ethan com uma eficiência brutal e despreocupada.
Do outro lado da fogueira, Stefan se colocava de pé, trôpego. Mas Elena sabia que, mesmo com sua velocidade de vampiro, não conseguiria alcançar Klaus antes que este chegasse a Elena.
Antes que ela conseguisse piscar, Klaus estava parado bem a sua frente, os dedos segurando dolorosamente seu queixo. Ele virou sua cabeça para trás, voltando seu rosto para ele, obrigando-a a olhar em seus olhos gélidos e risonhos.
— Eu lhe devo uma morte, linda — disse ele, sorrindo. Elena sentia Chloe tremendo ao lado e mão de Matt em seu braço, fria de medo, mas firme.
— Deixa-a em paz — disse Matt, e Elena o conhecia o suficiente para saber a dificuldade que ele tinha para impedir que a voz ficasse trêmula.
Klaus o ignorou, os olhos fixos em Elena.
Eles se encaravam, e Elena tentou fazer com que seu olhar fosse o mais desafiador possível. Se Klaus ia matá-la agora, não se rebaixaria chorando e implorando piedade. Não faria isso. Mordeu com força a superfície interna da bochecha, tentando se concentrar na dor física e não em seu medo.
Então Stefan subitamente estava ali, segurando o braço de Klaus com toda a força, mas sem fazer nenhuma diferença. A mão de Klaus continuava firme em seu queixo, os olhos fixos nos dela. O momento pareceu se estender por anos.
Uma nova loucura, mais tempestuosa do que Elena já vira, brotava nos olhos de Klaus.
— Eu vou matá-la — disse ele, quase com afeto, apertando seu rosto entre os dedos para que Elena soltasse um gemido involuntário de dor e de protesto. — Mas não ainda. Quero que fique esperando por mim, que pense em mim procurando por você. Não saberá quando, mas será em breve.
De forma rápida e surpreendente, ele a puxou para si e plantou um beijo frio em sua boca. Seu hálito era fétido, e o gosto do sangue de Ethan em seus lábios lhe deu ânsia de vômito.
Por fim, ele abriu a mão e a soltou. Elena cambaleou vários passos para trás, limpando a boca furiosamente.
— Nos vemos de novo, pequena — disse Klaus, e se foi, mais rápido do que os olhos de Elena conseguiram acompanhar.
Matt segurou Elena antes que ela caísse. Um instante depois, os braços fortes de Stefan estavam em volta dela, e Matt a soltou.
Todos pestanejavam e sentiam-se tontos, como se a saída de Klaus tivesse deixado um vácuo. Os vampiros Vitale olhavam-se hesitantes e, antes que Meredith e os demais pudessem se recompor o suficiente para recomeçar a luta, os vampiros estavam partindo, correndo numa turba desorganizada e em pânico. Meredith pegou a estaca do cinto, mas era tarde demais. De cenho franzido, ela atravessou em silêncio a clareira para pegar o bastão, virando-o nas mãos à procura de algum dano.
Zander, com o pelo ensanguentado e desgrenhado da luta, baixou a cabeça, e a Alcateia se reuniu em volta dele, ansiosa. Um dos lobos lambia rapidamente sua ferida, e Zander se encostou nele.
Chloe não tinha desaparecido com os outros vampiros. Em vez disso, estava ao lado de Matt, mordendo os lábios com os dentes rombudos e olhando o chão. Depois de um momento, Matt a abraçou com cuidado e Chloe se aconchegou a seu lado.
Elena suspirou profundamente e manteve a cabeça no ombro de Stefan. Ainda sentia o gosto do beijo odioso de Klaus, e as lágrimas ardiam em seus olhos.
Ethan estava morto, mas nada se acabara. A luta estava apenas começando.


Numa árvore alta acima da clareira, um grande corvo preto agitou as penas, olhando o campo de batalha abaixo. Tinha observado o confronto criticamente, pensando nas coisas que teria feito de forma diferente, mais agressiva. Mas não, este não era mais o lugar de Damon. Não queria ser visto, não queria se envolver com Elena, Stefan e todos os seus problemas. Mas o cheiro de sangue e o fogo o levaram ali.
Depois de tudo, ainda queria salvar Elena e Stefan, não queria? Foi o que o atraiu à batalha, o impulso quase anormal de fazer o que mandava sua constituição: matar. Quando viu Klaus jogar o irmão de lado, ele se retesou inteiro para o ataque. E quando o vampiro Original e arrogante teve a ousadia de tocar em Elena — A Elena de Damon, seu coração ainda insistia —, Damon voou para as margens da clareira, a pulsação normalmente lenta batendo furiosamente.
Mas não precisavam dele, não o queriam; Damon estava farto deles. Tinha tentado — tinha feito o melhor que pôde, tinha mudado — tudo pelo amor de Elena e pela amizade que enfim descobrira ter pelo irmão. Depois de séculos importando-se apenas consigo mesmo, Damon de repente foi apanhado no mundo de Elena, envolvido na vida de alguns adolescentes mortais, tornando-se alguém que mal reconhecia.
E isso não teve importância. No fim, Damon foi deixado de fora.
Klaus partira e eles estavam bem. Essa luta não era dele. Não mais. Agora, só o que tinha era o manto da noite e o conforto frio de mais uma vez depender apenas de si mesmo, e de mais ninguém.
Ele estava, disse para si mesmo impetuosamente, livre.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!