5 de abril de 2019

Capítulo 7

O sol se punha enquanto Elena e os outros entravam no bosque. Ela alcançara os amigos ao saírem do esconderijo, e Stefan, em voz baixa, contou-lhe o que tinha acontecido enquanto seguiam Chloe. Eles estavam andando na mata escura pelo que já parecia um bom tempo, todos tensos e calados.
Galhos batiam no rosto de Elena, e ela desejou ter a visão noturna de um vampiro ou de um lobisomem, ou os instintos aguçados de caçadora de Meredith. Até Matt, andando estoicamente ao lado dela, de olhos fixos em Chloe mais à frente, parecia esbarrar em menos coisas do que Elena. Ela estava prestes a desejar que seus Poderes de Guardiã entrassem em ação; este provavelmente era o tipo de coisa para que serviriam, pouco importava se ela realmente queria ou não esses Poderes.
Finalmente, um feixe de luz laranja e bruxuleante apareceu ao longe, e eles seguiram na direção dele em silêncio.
Elena corria a meio passo, a respiração áspera e ofegante. Pelo menos agora que Stefan e a Alcateia reduziram o ritmo para se adaptar a Meredith e Matt, ela talvez conseguisse acompanhar o grupo.
À medida que se aproximavam, percebeu que a luz que bruxuleava era de uma fogueira. Os lobos à frente aprumaram as orelhas. Depois, de repente, correram com Stefan, as longas passadas devorando a distância e deixando os humanos pra trás. Chloe seguia alguns passos atrás. As mãos fortes de Matt e Meredith se fecharam nos braços de Elena e a colocaram entre os dois, correndo atrás dos outros. Ela cambaleava, uma dor aguda disparando pelo lado do corpo, mas eles a mantiveram de pé e em movimento.
Um instante depois, ouviram o que Stefan e a Alcateia tinham escutado. Um pesado cântico de muitas vozes parecia pulsar e reverberar pela cabeça de Elena. Acima do murmúrio, surgiu uma única voz, bradando com intensidade. Não sabia dizer que língua estavam falando, embora parecesse antiga e gutural. Não era latim, pensou ela, mas podia ser grego, nórdico arcaico ou alguma coisa muito mais antiga, dos primeiros tempos do mundo. Sumério, pensou ela desenfreadamente. Inca. Quem saberia?
Quando chegou à clareira, seus olhos arderam da fumaça e da luz do fogo, e no início só o que ela viu foi uma confusão de formas escuras distorcidas contra a luz. À medida que seus olhos se adaptavam, viu Ethan, ainda com a aparência desarmoniosa do veterano universitário que era havia não muito tempo, liderando o cântico. Sua testa estava ligeiramente franzida de concentração e ele estendia um cálice cheio de sangue escuro e denso como se não passasse de vinho. Por que eles não o estão detendo?, pensou Elena, e então os corpos em luta diante dela entraram em foco.
Stefan, brutalmente elegante, rasgava a garganta de um vampiro alto e um pouco recurvado. Elena o reconheceu vagamente como alguém que vira pelo campus antes que todos os aspirantes à Vitale Society fossem transformados em vampiros. Perto dali, os lobisomens também lutavam, os lobos flanqueando e protegendo os humanos, travando a batalha juntos, cada um deles perfeitamente sintonizado com a posição dos outros. Os vampiros que no momento não estavam envolvidos na batalha formaram um círculo em torno de Ethan, protegendo-o do ataque enquanto ele continuava o ritual.
Meredith se lançou na luta, faiscando as pontas prateadas de seu bastão na luz da fogueira. Elena e Matt, muito conscientes de sua falta de poderes sobrenaturais, ficaram para trás, no perímetro da clareira. Chloe se colocou a pouca distância deles, de olhos fixos na batalha. Mordia o lábio, abraçando-se, e Elena sentiu uma onda aguda de compaixão por ela: lembrava-se dos desejos angustiantes de ser uma nova vampira e o modo como cada movimento de seu senhor parecia desafiar você. Devia ser angustiante para Chloe não se envolver no confronto.
Matt observava Chloe, a testa enrugada de preocupação, mas mantinha distância, colocando-se num ângulo que protegia Elena de Chloe, assim como dos outros vampiros Vitale. Ele deve se lembrar de como um vampiro novo pode ser volátil. Elena apertou seu braço, agradecida.
Mais uma vez, pensou: se eu tiver mesmo de ser uma Guardiã, agora seria uma boa hora para que alguns Poderes se ativassem. Tentou sentir se por acaso não havia algo mudando em seu íntimo, como se investigando um dente frouxo com a língua, mas não percebeu nada de diferente. Não havia a sensação de potencial se desenrolando dentro dela, como sentira por um breve período depois de sua ressurreição, quando estava repleta dos misteriosos e perigosos Poderes das Asas. Só a Elena mortal e cotidiana, sem ter como ajudar agora.
Enquanto olhava, um vampiro agarrou o flanco de um lobo branco e imenso  Zander  e o jogou para o lado com muita agilidade e força. O corpo do lobo bateu pesadamente no chão perto da margem da clareira e ficou imóvel. O coração de Elena parou. Ah, não, pensou ela, avançando involuntariamente, mas Matt a segurou. Oh, Bonnie.
O lobo ficou imóvel por um momento, e Elena não conseguia ver se ele respirava. Depois, lentamente, se levantou, com a lateral do corpo ofegante. Havia traços de sangue e lama em seu pelo branco. Zander cambaleou um pouco, depois pareceu encontrar o equilíbrio e, rosnando, voltou à luta. Com uma investida súbita, colocou uma vampira de joelhos, e Daniel, de estaca na mão, completou o serviço com um golpe rápido.
Quando Elena tinha chegado à clareira, os combatentes pareciam se igualar e parecia impossível romper o muro de vampiros para impedir que Ethan realizasse o ritual. Mas Meredith passou a girar como um dervixe, a arma voando, e a maré da batalha começava a virar, de forma lenta mas evidente. Meredith e Stefan trocaram um olhar, e ela começou a lutar para se aproximar mais da fogueira, avançando constantemente na direção de Ethan mesmo enquanto virava o bastão para golpear um vampiro, derrubando-o no chão. Os olhos de Elena mal conseguiram acompanhá-la quando Meredith desembainhou uma faca de caça e, com um golpe cruel da lâmina, decepou a cabeça do vampiro. O corpo tombou para trás, e de repente abriu-se um caminho pela multidão entre Stefan e Ethan.
Stefan empurrou o vampiro com quem lutava e deu um longo salto na direção de Meredith, caindo de pé na frente de Ethan. O cântico titubeou e parou. Stefan esticou os braços e envolveu o pescoço de Ethan com a mão, pouco acima da traqueia, firmou a pegada e apertou. O vampiro mais novo sufocou e murmurou, as mãos arranhando desesperadamente as de Stefan. Estendendo para baixo o outro braço, Stefan tateou o lado do próprio corpo e pegou uma estaca. Os olhos dourados de Ethan se arregalaram quando Stefan cravou a estaca em seu peito.
Elena ouviu Chloe gemer levemente, mas a vampira não se moveu.
— Adeus, Ethan — disse Stefan. Sua voz era baixa e categórica, e não colérica, mas Elena ouviu, assim como os outros.
Todos pararam de lutar, os braços estendidos contra os adversários, os olhos voltados para Stefan e Ethan. Era como se todos prendessem a respiração. Depois os vampiros começaram a rosnar e guinchar, lutando para chegar a seu senhor. Mas os lobos foram mais rápidos do que Elena poderia ter imaginado, formando um círculo em torno de Ethan e Stefan, mantendo os vampiros atrás. Elena respirou longamente, aliviada. Stefan chegou a tempo. O pior não aconteceria. Klaus, o louco, o vampiro Original, permaneceria morto.
Ethan fuzilava Stefan com o olhar, mas seus lábios lentamente se curvaram para cima num sorriso terrível. Tarde demais, articulou ele em silêncio, e o cálice em sua mão virou. O sangue vermelho e denso foi despejado no fogo.
Assim que o sangue tocou o fogo, este estourou em altas chamas azuis. Elena se encolheu e protegeu os olhos da súbita explosão de luz. Em volta dela, todos se retraíram, vampiros, humanos e lobisomens.
As chamas e a clareira se encheram de fumaça. Elena tremia, tossindo, os olhos lacrimejando, e sentia Matt ofegante e trêmulo ao seu lado.
Quando a fumaça começou a se dissipar, uma figura alta, de pele dourada, tomou forma e saiu das chamas. Elena o conhecia. Pensou, como na primeira vez em que o viu, que ele parecia o demônio, se o demônio fosse bonito.
Ele estava nu ao sair do fogo, o corpo ágil e musculoso, e ergueu a cabeça altivamente. O cabelo era branco, os olhos, azuis. O sorriso era alegre e insano, e cada movimento era uma promessa de destruição.
Um raio estalou nos céus, e ele jogou a cabeça para trás, rindo com o que parecia um prazer maligno.
Klaus tinha ressuscitado.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!