10 de abril de 2019

Capítulo 7 - Flores de pedra

Era uma noite clara na Califórnia, com um vento quente soprando do deserto para o interior, e a lua estava clara e muito alta no céu quando Cristina saiu pela porta dos fundos do Instituto e hesitou no primeiro degrau.
Tinha sido uma noite estranha — Helen e Aline haviam feito espaguete e deixado a panela no fogão para que qualquer pessoa que gostasse pudesse vir e se servir. Cristina jantara com Kit e Ty, que tinham olhos brilhantes e distantes, apanhados em seu próprio mundo; em algum momento Dru entrou com tigelas e as colocou na pia.
— Eu jantei com Tavvy em seu quarto — ela anunciou, e Cristina – sentindo-se completamente à deriva – gaguejou algo sobre como ela estava feliz por eles terem comido.
Mark não apareceu.
Cristina esperou até a meia-noite antes de colocar um vestido e uma jaqueta jeans para ver Mark. Era estranho ter suas próprias roupas de volta, seu quarto com sua árvore de vida, os próprios lençóis e cobertores. Não era bem voltar para casa, mas era próximo.
Ela parou no topo da escada. Ao longe, as ondas se erguiam e se desfaziam. Ela esteve neste mesmo lugar uma vez e viu Kieran e Mark se beijando, Kieran abraçando Mark como se ele fosse tudo no mundo.
Parecia há muito tempo agora.
Ela desceu os degraus, o vento batendo na bainha de seu vestido amarelo claro, fazendo-o parecer uma flor.
O “estacionamento” era na verdade um grande retângulo de areia raiada onde o carro do Instituto ficava — pelo menos isso os Centuriões não pareciam ter incendiado, o que já era alguma coisa. Perto do terreno havia estátuas de filósofos e dramaturgos gregos e romanos, refletindo palidamente sob as estrelas, colocadas ali por Arthur Blackthorn. Eles pareciam deslocados no chaparral das colinas de Malibu.
— Dama das Rosas — disse uma voz atrás dela.
Kieran! ela pensou, e se virou. E, claro, não era Kieran - era Mark, cabelos loiros claros despenteados, jeans e uma camisa de flanela, que ele abotoou ligeiramente errado. Mark a fez corar, em parte por sua proximidade e em parte por ter pensado por um momento que ele poderia ser outra pessoa.
Era só que Kieran era o único que a chamava de Dama das Rosas.
— Eu não posso suportar todo esse ferro — disse Mark, e ele parecia mais cansado do que ela já ouvira alguém soar. — Não posso suportar esses espaços internos. E senti tanto a sua falta. Você iria ao deserto comigo?
Cristina se lembrou da última vez em que estiveram no deserto e o que ele havia dito. Ele havia tocado seu rosto: Estou imaginando você? Eu estava pensando em você e agora você está aqui.
Fadas não podiam mentir, mas Mark podia, e ainda assim foi a sua dolorosa honestidade que capturou o coração de Cristina.
— Claro que vou — disse ela.
Ele sorriu e o sorriso iluminou seu rosto. Ele atravessou o estacionamento, Cristina ao seu lado, seguindo uma trilha quase invisível entre arbustos emaranhados e pedras envoltas em samambaias.
— Eu costumava andar aqui o tempo todo quando era mais jovem — disse ele. — Antes da Guerra Maligna. Eu costumava vir aqui para pensar nos meus problemas. Refletir sobre eles, ou como quiser chamar.
— Que problemas? — Ela brincou. — Românticos?
Ele riu.
— Eu nunca namorei ninguém de verdade naquela época — disse ele. — Vanessa Ashdown por cerca de uma semana, mas só... bem, ela não era muito legal. Então tive uma queda por um garoto que era do Conclave, mas a família dele se mudou de volta para Idris depois da Guerra Mortal, e agora eu não me lembro do nome dele.
— Oh querido — disse ela. — Você olha para os meninos em Idris agora e pensa “pode ser ele”?
— Ele teria vinte anos agora — disse Mark. — Até onde sei, ele é casado e tem uma dúzia de filhos.
— Aos vinte anos? — perguntou Cristina. — Ele teria que ter trigêmeos todos os anos durante quatro anos!
— Ou dois conjuntos de sêxtuplos — disse Mark. — Poderia acontecer.
Ambos estavam rindo agora, levemente, do modo como as pessoas ficavam contentes por estarem juntas. Senti sua falta, dissera ele, e por um momento Cristina se esqueceu dos últimos dias e ficou feliz de estar com Mark naquela bela noite. Ela sempre amou as formas dos desertos: os emaranhados reluzentes de artemísia e espinhos, as enormes sombras das montanhas ao longe, o cheiro de pinheiro-alvar e cedro, a areia dourada tornada prateada ao luar. Quando chegaram ao topo plano de uma colina íngreme, o chão descia abaixo deles e ela pôde ver o oceano à distância, seu brilho tocado pelo vento alcançando o horizonte em um sonho de prata e preto.
— Este é um dos meus lugares favoritos. — Mark afundou na areia, apoiando-se para trás em suas mãos. — O Instituto e a rodovia estão escondidos e o mundo todo vai embora. É só você e o deserto.
Ela sentou-se ao lado dele. A areia ainda estava quente da luz do sol que absorvera durante o dia. Ela cavou os dedos, feliz por ter calçado sandálias.
— É aqui que você costumava refletirr?
Ele não respondeu. Parecia ter ficado absorto em olhar para as próprias mãos; elas tinham cicatrizes leves por toda parte, calejadas como as de algum Caçador de Sombras, sua runa de Clarividência tomando a mão direita.
— Está tudo bem — disse ela. — Não há problema em você não conseguir ficar de pé no ferro ou em espaços internos ou em salas fechadas, nem na vista do oceano nem em nada. Sua irmã acabou de morrer. Não há nada que você possa sentir que esteja errado.
O peito dele se elevou com uma respiração irregular.
— E se eu te contasse – se lhe dissesse que estou de luto por minha irmã, mas desde que, há cinco anos, decidi que ela estava morta, que toda a minha família estava morta, eu já fiquei de luto de alguma forma? Que minha dor é diferente da tristeza do resto da minha família e, portanto, não posso falar com eles sobre isso? Eu a perdi e então eu a ganhei e a perdi novamente. É mais como se a experiência fosse a de ter um breve sonho.
— Pode ser que seja mais fácil pensar dessa maneira — disse ela. — Quando perdi Jaime – embora não seja o mesmo – quando ele desapareceu e nossa amizade terminou, eu sofri por ele apesar da minha raiva, e então comecei a me perguntar, às vezes, se eu o tinha sonhado. Ninguém mais falou dele, e pensei que talvez ele nunca tivesse existido. — Ela ergueu os joelhos, colocando os braços ao redor deles. — E então eu vim para cá e ninguém o conhecia, e foi ainda mais como se ele nunca tivesse existido.
Mark estava olhando para ela agora. Ele era prateado e branco ao luar e tão bonito para ela que seu coração se partiu um pouco.
— Ele era seu melhor amigo.
— Ele ia ser meu parabatai.
— Então você não apenas o perdeu — disse Mark. — Você perdeu a Cristina. Aquela com um parabatai.
— E você perdeu aquele Mark — disse ela. — Aquele que era irmão de Livia.
Seu sorriso era irônico.
— Você é sábia, Cristina.
Ela ficou tensa contra os sentimentos que se elevaram nela ao ver o sorriso dele.
— Não. Eu sou muito tola.
O olhar dele se aguçou.
— E Diego. Você também o perdeu.
— Sim — ela disse. — E eu o amava – ele foi meu primeiro amor.
— Mas você não o ama agora? — Seus olhos tinham escurecido; azul e dourado para um preto mais profundo.
— Você não deveria ter que perguntar — ela sussurrou.
Ele estendeu a mão para ela; o cabelo dela estava solto e solto, e ele pegou uma mecha e enrolou-a em volta do dedo, seu toque incrivelmente gentil.
— Eu precisava saber — disse ele. — Eu precisava saber se eu poderia beijar você e tudo ficaria bem.
Ela não podia falar; mas assentiu, e ele enfiou as mãos no cabelo dela, levantou um punhado de mechas no rosto e beijou-as.
— Dama das Rosas — ele sussurrou. — Seu cabelo, como rosas negras. Eu tenho desejado você.
Me queira então. Me beija. Tudo. Tudo, Mark. Seus pensamentos se dissolveram quando ele se inclinou para ela; quando ela murmurou contra sua boca, foi em espanhol. — Bésame, Mark.
Eles afundaram na areia, entrelaçados, as mãos dele correndo pelo cabelo dela. Sua boca estava morna na dela e depois quente, e a gentileza se foi, substituída por uma intensidade feroz. Foi maravilhosamente como cair; ele a puxou para baixo, a areia embalando seu corpo, e suas mãos correram sobre ele, tocando todos os lugares que ela desejava tocar: o cabelo, o arco das costas, as saliências das omoplatas.
Ele já estava muito mais presente do que quando chegou ao Instituto, quando parecia que um vento forte poderia levá-lo. Ele ganhou peso, massa, e ela apreciou a solidez dele, os músculos longos e elegantes que se curvavam ao longo de sua espinha, a largura e o calor de seus ombros. Ela passou as mãos por baixo da camisa dele, onde a pele estava lisa e ardendo, e ele engasgou em sua boca.
— Te adoro — ele sussurrou, e ela riu.
— Onde você aprendeu isso?
— Eu pesquisei por aí — disse ele, segurando a parte de trás do pescoço dela, roçando beijos ao longo de sua bochecha, sua mandíbula. — É verdade. Eu te adoro, Cristina Mendoza Rosales, filha de montanhas e das rosas.
— Eu também te adoro — ela sussurrou. — Mesmo que seu sotaque seja terrível, eu adoro você, Mark Blackthorn, filho dos espinhos. — Ela passou a mão pelo rosto dele e sorriu. — Embora você não seja tão espinhoso.
— Você prefere que eu tenha uma barba? — Mark brincou, esfregando sua bochecha contra a dela, e ela riu e sussurrou para ele que sua camisa estava abotoada errada.
— Eu posso consertar isso — disse ele, e puxou; ela ouviu alguns dos botões estourarem e esperou que não fosse uma camiseta favorita. Ela ficou maravilhada com a linda pele nua dele, salpicada de cicatrizes. Seus olhos se aprofundaram em cor; eles eram negros como as profundezas do oceano agora, tanto o azul quanto o dourado.
— Eu amo o jeito como você olha para mim — disse ele.
Ambos pararam de rir; ela correu as palmas das mãos até o peito nu, o estômago, até o cinto do jeans, e ele meio que fechou os olhos. Suas próprias mãos foram para os botões que desciam pela frente do vestido dela. Ela continuou a tocá-lo enquanto ele os desabotoava, do pescoço até a bainha, até que o vestido caiu e ela estava deitada sobre ele apenas de sutiã e calcinha.
Ela teria esperado sentir-se autoconsciente. Sempre foi assim com Diego. Mas Mark a olhava como se estivesse atordoado, como se tivesse desembrulhado um presente e achasse que era a única coisa que ele sempre quis.
— Posso tocar em você? — Ele perguntou, e quando ela disse sim, ele exalou um suspiro trêmulo. Ele abaixou-se lentamente sobre ela, beijando sua boca, e ela envolveu suas pernas ao redor de seus quadris, o ar do deserto em sua pele nua como seda.
Ele seguiu um caminho de beijos pela garganta dela; beijou-a onde o vento lhe tocava a pele, a barriga e os seios, os picos dos quadris. No momento em que ele deslizou seu corpo de volta até a sua boca, ela estava tremendo. Eu quero tocá-lo, tenho que tocá-lo, ela pensou vagamente; ela deslizou a mão pelo corpo dele e sob o cós da calça jeans. Ele respirou fundo, murmurando entre beijos para ela não parar. Seu corpo manteve o ritmo do movimento da mão dela, seus quadris pressionando mais e mais contra ela. Até que ele se afastou, sentando-se, sua respiração vindo em suspiros duros.
— Nós temos que parar – ou vai acabar agora — disse ele, soando mais humano e menos fada do que ela se lembrava dele já soando antes.
— Você me disse para não parar — ela apontou, sorrindo para ele.
— Eu disse? — Ele devolveu, parecendo surpreso. — Eu quero que seja bom para você também, Cristina — disse ele. — Eu não sei o que você e Diego…
— Nós não… — ela interrompeu. — Eu sou virgem.
— Você é? — Ele parecia absolutamente chocado.
— Eu não estava pronta. Agora, estou.
— Eu apenas pensei... você estava namorando há muito tempo...
— Nem todas as relações são sobre sexo — disse ela, e então se perguntou se fazer essa declaração enquanto estavam deitados seminus em uma colina a tornava um pouco menos convincente. — As pessoas só devem fazer sexo se quiserem, e eu quero, com você.
— E eu quero com você — respondeu ele, seus olhos suavizando. — Mas você tem a runa?
A runa.
A runa do controle de natalidade. Cristina nunca havia colocado aquilo; ela nunca pensou que estava tão perto de precisar disso.
— Oh, não — disse ela. — Minha estela está no Instituto.
— A minha também — disse ele.
Cristina quase deu uma risadinha com o olhar desapontado no rosto dele, embora sentisse o mesmo.
— Ainda assim — disse ele, ganhando vida. — Há muito mais que posso fazer para você se sentir bem. Permita-me?
Cristina se acomodou na areia, sentindo que poderia morrer de tanto corar.
— Tudo bem.
Ele voltou para os braços dela, e eles se abraçaram e beijaram a noite toda, e ele a tocou e mostrou a ela que ele realmente sabia como fazê-la se sentir bem – tão bem que ela tremeu em seus braços e abafou seus gritos contra o ombro dele. E ela fez o mesmo por ele, e desta vez ele não pediu para ela parar, mas arqueou as costas e gritou o nome dela, sussurrando depois que ele a adorava, que ela o fazia se sentir completo.
Eles decidiram voltar ao Instituto quando o alvorecer começou a transformar o céu em uma cor rosada, e dedos de luz iluminaram sua planície no topo da colina. Voltaram pela trilha de mãos dadas e só soltaram os dedos quando chegaram à porta dos fundos do Instituto. A porta ficou presa quando Mark a empurrou, e ele pegou sua estela para rabiscar uma rápida runa de abertura na madeira.
Ele a abriu e a segurou para Cristina, que passou por ele na entrada. Ela se sentia incrivelmente desgrenhada, com areia presa à metade do corpo e o cabelo uma bagunça emaranhada. Mark não parecia muito melhor, especialmente considerando que a maioria dos botões tinha sido arrancada de sua camisa.
Ele sorriu para ela, um sorriso doce e de derreter o coração.
— Amanhã à noite…
— Você está com sua estela. — disse Cristina.
Ele piscou.
— O quê?
— Você está com sua estela. Me disse que não estava, quando eu precisava fazer a runa do controle de natalidade. Mas você acabou de usá-la para abrir a porta.
Ele desviou o olhar, e qualquer esperança que Cristina tinha de ele simplesmente ter se esquecido ou ela estar errada desapareceu.
— Cristina, eu…
— Eu simplesmente não sei porque você mentiu para mim — disse ela.
Ela se afastou dele e subiu as escadas que levavam ao seu quarto. Seu corpo estava zumbindo de felicidade; agora ela se sentia atordoada, pegajosa e precisando de um banho. Ela ouviu Mark chamar seu nome atrás dela, mas não se virou.


Diego dormia e sonhava inquieto com piscinas de água azul nas quais uma mulher morta flutuava. Então ele só ficou um pouco chateado ao ser acordado pelo impacto de uma bota voadora.
Ele se sentou, alcançando automaticamente o machado ao lado de sua cama. A próxima coisa que o atingiu foi uma bola de meias, que não doeu, mas foi irritante.
— O quê? — Ele falou. — O que está acontecendo?
— Acorde — disse Divya. — Pelo Anjo, você ronca como um motor de caminhão.— Ela gesticulou para ele. — Coloque suas roupas.
— Por quê? — disse Diego, no que ele sentia ser uma maneira muito razoável.
— Eles levaram Kieran — disse Divya.
— Quem levou Kieran? — Diego estava de pé, pegando um suéter e enfiando os pés em meias e botas.
— A Tropa — disse Divya. Ela própria parecia como se tivesse acabado de acordar; o cabelo grosso e escuro estava emaranhado, e ela usava uma jaqueta desabotoada sobre o uniforme. — Eles invadiram meu quarto e o agarraram. Nós tentamos lutar contra eles, mas havia muitos.
O coração de Diego disparou: Kieran estava sob sua proteção. Se ele foi machucado, Diego teria falhado, não apenas com Cristina, mas consigo mesmo. Ele agarrou seu machado.
— Diego, pare — disse Divya. — Você não pode agredir Manuel com o machado até a morte. Ele ainda é um estudante.
— Bem. Eu vou pegar uma lâmina mais curta. — Diego atirou o machado contra a parede com um estrondo e pegou uma adaga. — Para onde eles levaram Kieran?
— O Lugar da Reflexão, ou pelo menos foi o que eles disseram — respondeu Divya. — Rayan está procurando por eles. Vamos.
Diego sacudiu as últimas teias de aranha de sono da cabeça e correu atrás de Divya. Eles se apressaram pelos corredores, chamando por Rayan.
— O Lugar da Reflexão — disse Diego. — Isso não parece tão ruim. É um lugar para meditação silenciosa ou…?
— Não. Você não entende. É chamado de Local da Reflexão porque há um espelho d’água, mas não é um espelho d’água normal. Algumas pessoas chamam de Fonte.
Oh. Diego conhecia a Fonte, uma sala secreta onde uma piscina era cheia de água encantada. Olhar dentro da água era contemplar sua própria alma: ver todo o mal que você já havia cometido, intencionalmente ou não.
— É horrível para qualquer um — disse Divya. — E para alguém na Caçada Selvagem, poderia matá-lo.
— O quê? — Eles dobraram uma esquina e encontraram um raio de luz. Era Rayan, parado no meio de um longo corredor, com uma expressão sombria. Ele tinha uma espada enorme presa às costas.
— Eles acabaram de entrar na Fonte — disse ele. — Eu não pude segui-los – não estou com a minha estela. Algum de vocês está?
— Eu estou — disse Diego, e eles correram por um corredor curto e inclinado até um conjunto de portas fechadas. Risadas altas saíam de dentro da sala.
Diego rabiscou uma rápida runa de abertura na porta. Ela se abriu com uma nuvem de ferrugem e eles entraram.
A Fonte era um espaço amplo com piso de granito, livre de qualquer mobília. As paredes eram de rocha áspera, brilhando com mica. No centro da sala havia uma piscina forrada de azulejos com água tão clara e límpida que refletia como um espelho. Letras douradas de metal decoravam o chão: Então o Senhor abriu a fonte, e dela saiu água.
— Bem, Graças ao Anjo — retrucou Manuel, que estava encostado a uma parede distante em uma pose de total desinteresse. — Veja quem está aqui para nos salvar.
Zara deu uma risadinha. Ela estava cercada por um grupo de outros membros da Tropa – entre eles, Diego reconheceu vários estudantes da Scholomance e seus familiares. Mallory Bridgestock e Milo Coldridge. Anush Joshi, primo de Divya. Vários Centuriões estavam lá também: Timothy Rockford, Samantha Larkspear e Jessica Beausejours estavam de pé, sorrindo enquanto Anush arrastava Kieran em direção à piscina no centro da sala.
Kieran se torcia e revirava em seu aperto; havia sangue em seu rosto, em sua camisa.
— É uma punição justa para o principezinho, não acha? — disse Zara. — Se você olhar ou nadar na água da piscina, sentirá a dor que causou aos outros. Então, se ele é inocente, deve ser bom para ele.
— Ninguém é tão inocente assim — disse Rayan. — A piscina deve ser usada com parcimônia, para permitir que os alunos busquem a verdade dentro de si mesmos. Não como um dispositivo de tortura.
— Que pensamento interessante, Rayan. — disse Manuel. — Obrigado por compartilhar. Mas eu não vejo Gladstone correndo aqui para nos impedir, não é? É possível que você não quisesse ter problemas por abrigar um fugitivo fada?
— Acho interessante que você saiba tanto sobre Kieran — disse Divya. — É possível que você soubesse que ele estava aqui e não queria denunciá-lo para que pudesse torturá-lo e matá-lo você mesmo?
Ela estava certa, pensou Diego, mas nada disso estava ajudando Kieran, que sufocava e engasgava com o próprio sangue.
Eu jurei que iria protegê-lo. Diego procurou por seu machado, apenas para perceber que não estava lá. Ele viu os olhos de Zara se estreitarem e se virou; Divya puxou a espada de Rayan da bainha e apontou para a Tropa.
— Chega — ela disse. — Parem com isso, todos vocês. E eu estou especialmente envergonhada de você, Anush. — ela adicionou, atirando em seu primo um olhar sombrio. — Você sabe o que é ser tratado injustamente. Quando sua mãe descobrir…
Anush soltou Kieran com um empurrão. Ele aterrissou na beira da fonte com um grunhido de agonia.
Afaste-se da água, pensou Diego, mas Kieran estava claramente ferido; Ele se ajoelhou no lugar, ofuscado e ofegante.
— Estamos nos divertindo um pouco — protestou Anush.
— O que você vai fazer, Divya, nos atacar? — perguntou Samantha. — Só por nos divertirmos um pouco?
— Ele está sangrando — disse Diego. — Isso é mais do que apenas um pouco de diversão. E o que acontece se você matá-lo? Realmente quer lidar com as conseqüências? Ele é o filho do Rei Unseelie.
Houve um estrondo de descontentamento entre a Tropa. Claramente eles nunca pensaram sobre isso.
— Tudo bem, tudo bem — disse Zara. — Seja um estraga-prazeres. Mas eu sabia que ele estava aqui, escondido no seu quarto. — disse ela a Diego. — Eu vi uma noz vazia no seu chão. Então isso é culpa sua. Se não o tivesse trazido para cá, nada disso teria acontecido.
— Dá um tempo, Zara — disse Divya, ainda segurando a espada na horizontal. — Diego, vá buscar Kieran.
Diego começou a atravessar a sala, e Manuel falou.
— Por que você não olha para a água, Rocio Rosales? — ele perguntou. — Se acha que sua alma é tão limpa. Deve ser indolor para você.
— Cállate la pinche boca — disparou Diego, quase ao lado de Kieran; o príncipe das fadas estava tossindo, sangue nos lábios. Ele começou a se levantar quando Manuel se moveu com a velocidade de uma cobra: plantando uma bota nas costas de Kieran, ele o chutou na água.
Diego se lançou para frente, pegando a parte de trás da camisa de Kieran, mas não antes de Kieran ter ficado cara a cara com a água da piscina. Diego puxou-o para fora, tossindo e ofegando, e tentou colocá-lo de pé; Kieran cambaleou e Rayan o pegou.
— Saia daqui — disse Samantha, caminhando na direção deles. — Quando o inquisidor ouvir sobre isso…
— Samantha!— Jessica chamou em alarme, mas já era tarde demais; Samantha havia escorregado na água na beira da piscina e caiu com um grito.
— Pelo Anjo. — Divya abaixou a espada, olhando. — Ela…
Samantha emergiu, gritando. Foi um grito terrível, como se ela estivesse morrendo, ou assistindo alguém que amava morrer. Foi um grito de horror e repulsa e miséria.
Os membros da Tropa ficaram atônitos; apenas alguns se moveram em direção a Samantha. Mãos entraram na água, agarraram seus braços e a puxaram para fora. As mãos de Kieran. Ainda tossindo sangue, ele depositou Samantha ao lado da piscina. Ela rolou, vomitando e engasgando água, enquanto Zara se forçava entre Samantha e o príncipe das fadas.
— Afaste-se dela — ela rosnou para Kieran.
Ele se virou e mancou em direção a Diego. Diego pegou Kieran e ele quase desmoronou. A Tropa estava ocupada com Samantha; não havia tempo a perder. Enquanto Diego se apressava para sair da sala, apoiando Kieran entre ele e Rayan, Divya seguia com a espada erguida, e ele estava quase certo de que podia ouvir Manuel rindo.


— Ok — disse Julian. — Vamos ver o que temos.
Eles estavam no que Emma só poderia descrever como uma clareira. Clareiras eram o tipo de coisa com a qual ela não tinha muita experiência — não havia muitas em Los Angeles — mas esta era definitivamente uma: aberta e gramada, cercada por árvores, cheia de luz do sol e o zumbido baixo do que poderia foram insetos ou pequenos duendes.
Nunca se sabia no Reino das Fadas.
Ela ainda estava tonta da viagem através do portão das fadas, enterrado na Floresta Brocelind. Como Horace sabia sobre ele, ela não conseguia adivinhar. Talvez fosse informação dada a todos os altos funcionários da Clave. Ele estava impaciente, quase empurrando-os sem cerimônia, mas não tão impaciente para dar a Emma o medalhão, e aos dois, mochilas pretas cheias de armas, equipamentos e comida.
A última coisa que ele disse foi:
— Lembrem-se, vocês estão indo em direção à Corte Unseelie. Sigam o mapa.
Um mapa não funcionaria no Reino das Fadas, Emma pensou, mas Horace a empurrou em direção ao portão de galhos retorcidos, e um momento depois ela estava caindo de joelhos na grama verde e o cheiro de fadas enchia seu nariz e na boca.
Ela estendeu a mão e tocou o medalhão. Não havia um anjo, como o da Cristina; na verdade, parecia carregar o brasão arrancado de uma família Caçadora de Sombras. Do contrário, parecia muito com o colar dos Rosales. Era um peso reconfortante na base de sua garganta.
— A Clave nos embalou sanduíches — disse Julian, olhando em sua mochila. — Acho que para hoje, porque eles não vão durar. Há queijo, pão, carne seca e frutas. Algumas garrafas de água.
Emma se aproximou dele para ver o que ele estava desembalando e espalhando na grama. Ele tirou dois cobertores cinzentos, uma variedade de armas — eles também carregavam armas nos cintos — e roupas dobradas.
Quando Julian os sacudiu para fora, eles se revelaram linho liso em tons de terra, presos com laços e fitas, sem zíperes ou botões.
— Roupas do Reino das Fadas — disse Emma.
— É uma boa ideia — disse Julian. Ambas as roupas consistiam em uma túnica comprida, calça amarrada na frente e coletes feitos de couro rígido. — Nós devemos nos trocar. Quanto mais tempo ficarmos na vestimenta dos Caçadores de Sombras, mais seremos um alvo.
Emma pegou o conjunto menor de roupas e foi para trás de um grupo de árvores para trocar de roupa. Ela gostaria de ter pedido a Julian para ir com ela, especialmente quando ela estava pulando em um pé, puxando as calças com uma mão enquanto segurava o cinto de armas com a outra. Ela raramente se sentia mais vulnerável ao ataque, mas mesmo que Julian a tivesse visto sem roupas, parecia estranho agora. Ela não tinha certeza de como esse novo Julian, o sem sentimentos, reagiria, e não tinha certeza se queria saber.
Pelo menos, as roupas das fadas eram confortáveis, macias e leves. Quando ela emergiu das árvores, piscou à luz do sol por um momento, procurando por Julian.
Ela o viu quando ele se virou; ele segurava o que parecia um pedaço de pergaminho velho, franzindo a testa. Ele havia colocado as calças das fadas, mas estava nu da cintura para cima.
Seu estômago se apertou. Emma tinha visto Julian sem camisa na praia muitas vezes, mas de alguma forma, isso era diferente. Talvez porque agora ela soubesse como era passar as mãos sobre os ombros dele, dourado pálido à luz do sol. Ele era todo musculoso, os sulcos em seu abdômen nitidamente definidos. Ela havia beijado sua pele enquanto ele passava as mãos pelos cabelos dela, dizendo Emma, Emma, na voz mais gentil. Agora ela o observava como uma espectadora curiosa.
Mas ela não conseguia parar. Havia algo sobre isso — ilícito, ansioso— como se Julian fosse um estranho perigoso. Seu olhar deslizou sobre ele: seu cabelo, macio, escuro e grosso, ondulando onde tocava sua nuca; seus quadris e clavículas criavam elegantes arcos sob sua pele; suas runas descreviam espirais e voltas em seu peito e bíceps. Sua runa parabatai parecia brilhar sob o sol. Ao redor de seu pulso estava a mesma tira de tecido marrom avermelhado.
Ele ergueu o rosto naquele momento e a viu. Abaixou o pergaminho que estava segurando, inclinando-o para cobrir a coisa em seu pulso.
— Venha aqui. — ele chamou. — E olhe para o mapa. — E se virou, pegando sua camisa. No momento em que ela chegou perto dele, ele vestira a túnica e a tira foi coberta.
Ele entregou o mapa e ela esqueceu todo o resto. Ela examinou-o quando ele se ajoelhou, desembalando a comida de uma das mochilas.
O pergaminho mostrava um esboço de Reino das Fadas — as Montanhas Thorn, vários lagos e riachos e as Cortes Seelie e Unseelie. Ele também mostrava um ponto vermelho brilhante que parecia tremer um pouco, como se não fizesse parte da página.
— Esse ponto nos representa — disse Julian, guardando sanduíches. — Eu entendi o mapa – mostra onde estamos em relação às Cortes. Nenhum mapa real funcionaria aqui. A paisagem de Reino das Fadas sempre muda, e a Corte Unseelie se movimenta. Mas desde que isto mostra aonde nós estamos e onde a Corte Unseelie está, contanto que nós continuemos caminhando em sua direção, nós ficaremos bem.
Emma sentou-se na grama em frente a ele e pegou um sanduíche. Eles eram de queijo, alface e tomate — não o favorito dela, mas ela não se importava, já que estava faminta o suficiente para comer praticamente qualquer coisa.
— E quanto a Jace e Clary? Nós dissemos a Simon e Isabelle que nós iríamos procurá-los.
— Temos apenas quatro dias — disse Julian. — Nós temos que encontrar o Volume Negro primeiro, ou Horace destruirá nossas vidas.
E a vida das crianças. E a de Helen e Aline. E até mesmo de Cristina, porque ela sabia do nosso segredo e não contou. Emma sabia que era tudo verdade, e Julian estava sendo prático. Ainda assim, ela desejou que ele parecesse mais arrependido que eles não pudessem procurar por seus amigos ainda.
— Mas podemos procurá-los se encontrarmos o livro? — disse Emma.
— Se ainda tivermos tempo no relógio de Horace — disse Julian. — Eu não vejo porque não.
— Quatro dias não é muito tempo. Você acha que esse plano poderia funcionar? Ou Horace está apenas tentando nos matar?
— Seria uma maneira bem elaborada para nos matar — disse Julian. Ele deu uma mordida no sanduíche e olhou meditativamente ao longe. — Ele quer o Volume Negro. Você o ouviu. Não acho que ele se importe como conseguir, e nós provavelmente teremos que prestar atenção em nossos movimentos. Mas desde que tenhamos isso em nossas mãos… — Ele apontou para o mapa. — Veja. A Encruzilhada de Bram.
O fato de que seu ponto de extração realmente existia fez Emma se sentir um pouco melhor.
— Eu gostaria de saber o que ele fará com o Volume Negro — resmungou Emma.
— Provavelmente nada. Ele quer que as fadas não o possuam. Seria um golpe político para ele. O Cônsul não conseguiu, ele sim, ele o segura na próxima reunião do Conselho e elogia a si mesmo.
— Ele provavelmente dirá que Zara encontrou — Emma apontou — e então parou, olhando para Julian. — Você está comendo alface.
— Sim? — Ele estava inclinado sobre o mapa, seus dedos mantendo-o aberto.
— Você odeia alface. — Ela pensou em todas as vezes que ele comeu alface na frente das crianças para ser um bom exemplo e depois reclamou para ela mais tarde que tinha gosto de papel crocante. — Você sempre odiou.
— Eu odeio? — Ele parecia intrigado. Ele levantou-se, começando a juntar suas coisas. — Nós devemos ir. Desta vez viajamos de dia. Há muitas coisas estranhas no Reino das Fadas à noite.
É só alface, Emma disse para si mesma. Não é tão importante. Ainda assim, ela se viu mordendo o lábio enquanto se inclinava para pegar sua mochila. Julian prendia a besta nas costas; sua mochila estava pendurada no outro ombro.
Da mata veio um ruído estridente, o tipo que um ramo quebrando poderia fazer. Emma se virou, a mão no quadril, sentindo o cabo de uma faca.
— Você ouviu isso?
Julian apertou a alça de sua besta. Ficaram ali por longos momentos, em guarda, mas não houve um segundo som e nada apareceu. Emma desejou ferozmente uma runa de Visão ou Audição apurada.
— Pode não ter sido nada — Julian falou finalmente, e embora Emma soubesse que ele não estava realmente tentando consolá-la, apenas tentando levá-los para a estrada, ainda parecia algo que o Julian que ela conhecia diria.
Em silêncio, eles se afastaram da clareira, que momentos antes brilhava com a luz do sol e agora parecia sinistra e cheia de sombras.

2 comentários:

  1. aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh Tô aqui pulanddo de alegria muito obrigado Karina. beijos!!!!

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  2. Estou torcendo para que a Cristina e o Mark fiquem juntos .

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Boa leitura, E SEM SPOILER!