10 de abril de 2019

Capítulo 6 - Do alto de soberba torre

Emma acordou com uma forte dor de cabeça ao ouvir uma batida na porta de seu quarto. Ela tinha adormecido no chão ainda de uniforme; seu cabelo estava úmido e grudado na bochecha. Ela se sentia, e suspeitava que se parecia, como uma sobrevivente de um naufrágio.
— Entre — ela disse, e a porta se abriu. Era Julian.
Ela se sentou. Por um momento eles apenas se encararam. Emma sentiu seu corpo todo gelar, ele notaria seu rosto manchado, suas roupas amassadas. Mesmo não a amando, ele se sentiria…
— É melhor você se arrumar e trocar de roupa — ele disse. Ele usava calça jeans e um suéter azul e parecia ter dormido bem. Ele parecia bem. Parecia um desconhecido bonito, alguém que ela não conhecia.
Não havia nenhuma rispidez em sua voz, apenas uma calma pragmática. Ela não precisava se preocupar se ele sentia pena dela, ou culpa; ele não sentia nada.
— Dane Larkspear acabou de vir entregar uma mensagem — ele disse. — O Inquisidor quer nos ver imediatamente.


No momento em que Cristina abriu a porta da cozinha, Helen surgiu de trás do balcão segurando uma concha e sorrindo de forma radiante.
— Bom dia!
Cristina tinha acordado cedo, seu corpo confuso por causa do fuso horário entre Los Angeles e Idris, e se arrastado sonolenta até a cozinha, atrás de uma xícara de café e torradas. O cumprimento animado de Helen a fez querer deitar e tirar um cochilo na mesa. Ela jamais entenderia pessoas matinais, especialmente as que funcionavam sem uma boa dose de cafeína.
— Estou fazendo mingau de aveia — Helen continuou.
— Ah — disse Cristina. Ela realmente não gostava de mingau de aveia.
— A Aline está no escritório, tentando entender toda aquela papelada. Parece que os centuriões viraram o lugar de cabeça para baixo. — Helen fez uma careta.
— Eu sei. — Cristina olhou saudosamente para a cafeteira. Seria mal-educado passar por Helen para pegar os grãos de café e o filtro?
— Nem se dê ao trabalho — Helen disse — Os centuriões deixaram café mofado no bule. — ela apontou para a pia onde o bule estava de molho.
Instantaneamente, Cristina odiou ainda mais os centuriões.
— Tem alguma coisa que eles não estragaram?
— E eles deixaram roupa suja — Mark falou, entrando com seu cabelo molhado; ele devia ter acabado de tomar banho. Cristina sentiu o imediato e incontrolável frio na barriga, e se sentou num banquinho. Ela podia ver a pele em volta do pulso de Mark que ainda estava sarando, onde o feitiço de ligação o ferira; ela tinha um igual. Os olhos dele brilhavam com a luz da manhã, azul e dourado como o coração do oceano; ela desviou o olhar dele rapidamente e passou a estudar um azulejo da cozinha que mostrava o corpo de Hector sendo arrastado pelos muros de Tróia. — Tanta roupa suja, pilhas e pilhas de roupa suja.
— Eu lavo a roupa. — Helen tinha saído do fogão e agora estava mexendo em uma vasilha de forma fervorosa. — Estou cozinhando mingau de aveia.
— Ah — disse Mark. Ele olhou dentro dos olhos de Cristina rapidamente. Um momento compartilhado entre duas pessoas que não gostavam de mingau de aveia.
Mais Blackthorns começaram a entrar na cozinha: Ty, seguido por Kit, depois Dru e Tavvy. Havia um zumbido de vozes e por um segundo tudo quase parecia normal. Quase. Sem Emma, ela sabia, o Instituto nunca seria normal para ela. Emma foi a primeira pessoa que ela conheceu em Los Angeles; Emma havia se tornado sua amiga instantaneamente e sem hesitar. Sua apresentação a Los Angeles tinha sido visitar todos os lugares favoritos da Emma, suas praias secretas e trilhas do cânion; tinha sido andar juntas de carro com o rádio ligado e os cabelos soltos, comer cachorro-quente no Pink’s e torta no Apple Pan de madrugada.
Era difícil não se sentir desamparada agora, sem uma âncora, um barco solto na maré. Mas ela se agarrou ao que Emma lhe disse: Eles vão precisar de você, Mark vai precisar de você.
Ty pegou um saco de salgadinho do balcão e o entregou a Kit, que o respondeu com um joinha. Eles tinham sua própria forma de se comunicar, quase como Emma e Julian.
— Você não vai precisar disso — Helen falou. — Estou fazendo mingau de aveia! — ela apontou para a mesa com a colher: Ela tinha colocado duas tigelas idênticas para o mingau e até um vaso com algumas flores recém-colhidas.
— Ah — disse Kit.
— Eu quero panquecas — declarou Tavvy.
— Nós não vamos ficar para o café da manhã — disse Ty — Kit e eu vamos à praia. Vemos vocês depois.
— Mas… — Helen começou, mas era inútil; eles já haviam saído, Ty arrastando Kit atrás de si com uma mão firme no pulso do outro menino. Kit deu de ombros se desculpando antes de desaparecer pela porta.
— Eu odeio mingau de aveia — disse Dru. Ela sentou a mesa, fazendo careta.
— Eu também odeio mingau de aveia — disse Tavvy, se arrastando para o lado da irmã. Ele fez uma careta também, e por um momento a semelhança entre eles se tornou quase cômica.
— Bem, mingau é o que tem para hoje — disse Helen — Mas posso fazer torradas também.
— Nada de torradas — falou Tavvy — Panquecas.
Helen desligou o fogão. Por um momento ela apenas encarou a panela de mingau esfriando. E num tom de voz baixo, ela disse:
— Eu não sei fazer panquecas.
Cristina se levantou apressada do banquinho.
— Helen, me deixe ajuda-la a preparar alguns ovos e torradas.
— Julian sabe fazer panquecas — resmungou Tavvy.
Helen tinha dado espaço para Cristina no balcão perto do fogão. Cristina lhe entregou o pão; e enquanto Helen o colocava na torradeira, Cristina viu que as mãos dela tremiam.
— Eu realmente não quero comer ovos no café — disse Dru. Ela pegou uma das flores que estavam no vaso e arrancou seu miolo, pétalas se espalharam pela superfície da mesa.
— Qual é, vocês dois — disse Mark, indo até seus irmãos mais novos e bagunçando seus cabelos de forma carinhosa — Nós acabamos de voltar, não peguem pesado com a Helen.
— Bem, ela não precisa fazer o café da manhã — falou Dru — Nós podemos fazer isso sozinhos.
Helen se apressou com o prato de torradas, colocando-o na mesa. Dru o encarou sem expressão.
— Qual é, Dru — ela disse — apenas coma o pão.
Dru enrijeceu sua postura.
— Não me diga o que devo ou não devo comer — ela disse.
Helen vacilou. Tavvy alcançou o pote de geleia e o abriu, sacudindo até que toda a geleia estivesse espalhada pelo seu prato, a mesa e suas mãos. Ele riu.
— Não, não! — Helen exclamou, arrancando o pote das mãos dele — Tavvy você não pode fazer isso!
— Eu não tenho que obedecer você. — Tavvy respondeu. Seu rostinho ficando corado — eu nem te conheço.
Ele passou por Dru e saiu disparado da cozinha. Depois de um segundo, Dru lançou um olhar reprovador para Helen e foi atrás dele.
Helen continuou onde estava, segurando o pote de plástico vazio e lágrimas escorrendo pelo rosto.
Cristina sentiu um aperto no coração. Tudo o que ela queria era agradar os irmãos, mas eles eram incapazes de perdoá-la por não ser Julian.
Ela se virou em direção a Helen, mas Mark já estava lá. Colocando seus braços ao redor da irmã, sujando sua camiseta de geleia.
— Está tudo bem — Cristina o ouviu dizer. — Assim que eu voltei, eu estava sempre estragando as coisas. Eu fazia tudo errado…
Sentindo-se uma intrusa, Cristina saiu da cozinha; certos momentos familiares eram particulares. Ela seguiu pelo corredor devagar (ela tinha certeza de que havia outra cafeteira na biblioteca), metade de seus pensamentos focados no que Mark havia dito a Helen. Ela se perguntou se ele realmente se sentia desse jeito.
Ela se lembrava da primeira vez em que o vira, encolhido contra a parede de seu quarto enquanto o vento levantava as cortinas ao seu redor como velas de navio. A conexão que ela sentira com ele foi imediata, ela não o conheceu antes de ele ter sido levado pela Caçada e não tinha nenhuma expectativa de como ele era ou deveria ser. Isso os tinha aproximado com tanta intensidade quanto o feitiço de ligação, mas e se tudo tivesse mudado? E se o que eles tinham estivesse quebrado de forma irreparável?
— Cristina!
Ela se virou. Mark estava atrás dela, corado; ele tinha corrido para alcançá-la. Ele parou quando ela se virou e hesitou por um momento, parecia alguém prestes a dar o último passo para pular de um penhasco.
— Eu preciso ficar com a Helen agora — ele falou — mas tenho que falar com você. Estou precisando falar com você desde… já faz um bom tempo. Me encontre no estacionamento essa noite, quando a lua já estiver alta no céu.
Ela assentiu, muito surpresa pra falar qualquer coisa. No momento em que percebeu que “quando a lua já estiver alta no céu” não era lá muito útil — e se estivesse nublado? — ele já tinha desaparecido pelo corredor. Com um suspiro, ela foi enviar uma mensagem de fogo para Catarina Loss.


Poucos dias haviam se passado desde a morte de Robert Lightwood, mas Horace Dearborn já havia redecorado o escritório por completo.
A primeira coisa que Emma notou foi que a tapeçaria da Batalha de Burren havia sumido. Agora a lareira estava acesa, e na parte de cima dela a imagem de Alec Lightwood havia sido substituída pela imagem de Zara Dearborn. Era um retrato dela uniformizada, com seu longo cabelo castanho claro alcançando sua cintura em duas tranças no estilo viking. ZARA DEARBORN, HEROÍNA DA CLAVE, dizia a placa dourada na moldura.
— Sutil — Julian comentou.
Ele e Emma tinham acabado de entrar no escritório de Horace; o Inquisidor estava inclinado sobre a escrivaninha e tamborilava os dedos, claramente ignorando-os. Pelo menos a escrivaninha era a mesma, apesar de uma grande placa pendurada atrás dele dizer: PUREZA É FORÇA, FORÇA É VITÓRIA, PORTANTO PUREZA É VITÓRIA.
Dearborn se endireitou.
— Heroína da Clave talvez seja modesto demais — ele disse pensativo, deixando bem claro ter ouvido o comentário de Julian. — Eu estava pensando em algo como “Boadicea moderna”, caso vocês não saibam quem ela foi…
— Eu sei quem foi Boadicea — falou Julian, sentando-se; Emma o imitou. As cadeiras também eram novas, o estofamento era duro — Uma rainha guerreira da Grã-Bretanha.
— O tio do Julian era um historiador — disse Emma.
— Ah sim, foi o que a Zara me disse — Horace se sentou de um modo bruto em sua própria cadeira, atrás da mesa de mogno. Ele era um homem grande, ossos largos e um rosto indescritível, apenas seu tamanho era marcante, suas mãos enormes, seus ombros largos espremidos no material do uniforme. Eles ainda não deviam ter tido tempo para fazer um especificamente para ele. — Agora, crianças. Devo admitir que estou surpreso com vocês dois. Sempre existiu uma… ligação vibrante entre as famílias Blackthorn e Carstairs com a Clave.
— A Clave mudou — disse Emma.
— Nem toda mudança é para pior — falou Horace — Isso já vem acontecendo há muito tempo.
Julian ergueu seus pés, colocando suas botas na mesa de Horace. Emma piscou. Julian sempre teve um coração rebelde, mas raramente agia de acordo. Ele sorriu como um anjo e disse:
— Por que você simplesmente não nos conta o que quer?
Os olhos de Horace se arregalaram. Havia raiva neles, mas sua voz era suave enquanto ele falava.
— Vocês dois realmente foderam tudo — ele disse — mais do que imaginam.
Emma estava surpresa. Caçadores de Sombras adultos, especialmente aqueles em posições de poder, raramente xingavam na frente de qualquer um que eles consideravam crianças.
— O que você quer dizer? — ela perguntou.
Ele abriu a gaveta da mesa e tirou um caderno com uma capa de couro preto.
— As anotações de Robert Lightwood — ele falou. — Ele as escrevia depois de cada reunião. Ele as escreveu após a reunião que teve com vocês.
Julian ficou pálido; ele claramente se lembrava do caderno. Robert deveria ter escrito nele após Emma sair do escritório acompanhada de Manuel.
— Eu sei o que contaram para ele sobre a relação de vocês — Dearborn saboreava as palavras — Parabatai apaixonados. Nojento. E eu sei o que vocês pediram a ele. Exílio.
Apesar de a cor ter sumido do seu rosto, a voz de Julian era estável.
— Eu ainda acho que você deveria nos contar o que quer da gente.
— Se apaixonar pelo seu parabatai é, devo lembrá-los, uma quebra de contrato. O contrato que vocês têm como Nephilim, com a Clave. Isso suja a mais sagrada das nossas ligações sagradas. — Ele colocou o caderno de volta na gaveta. — Mas eu não sou um homem inflexível. Cheguei a uma solução mutuamente benéfica para todos os nossos probleminhas. E para alguns dos grandes problemas também.
— Soluções normalmente não são de mútuo benefício quando uma das partes detém todo o poder — disse Julian.
Dearborn o ignorou.
— Se vocês concordarem em serem enviados a uma missão no Reino das Fadas, se prometerem encontrar e matar Annabel Blackthorn lá e trouxerem o Volume Negro dos Mortos, eu honrarei a promessa de Robert. Exílio e discrição. Ninguém nunca saberá.
— Você não pode ter certeza de que ela está no Reino das Fadas — começou Julian.
— Você está de brincadeira com a minha cara — Emma disse ao mesmo tempo.
— Minhas fontes dizem que ela está escondida na corte Unseelie, e não, eu não estou “brincando” — falou Dearborn. — Eu juraria segurando a espada mortal se Carstairs não a tivesse quebrado.
Emma corou.
— Pra que você quer o Volume Negro? Planeja ressuscitar algum morto?
— Eu não tenho nenhum interesse em um lamentável livro de divertimentos necromânticos para feiticeiros — disse Horace — além de mantê-lo longe das mãos da Annabel e do Rei Unseelie. E não ousem considerar tentar me enganar com imitações e cópias. Eu saberei, e punirei vocês. Eu quero o Volume Negro sob controle dos Nephilim, não seres do Submundo.
— Você não deve ter gente mais velha, mais capaz de fazer isso? — perguntou Julian.
— Essa missão deve ser realizada em segredo absoluto — Dearborn respondeu. — Quem tem um motivo melhor para manter segredo do que vocês?
— Mas o tempo funciona diferente no Reino das Fadas — disse Julian. — Nós poderíamos acabar voltando dez anos depois, isso não o ajudaria muito.
— Ah — Dearborn se sentou. Havia uma pilha de tecidos atrás dele, em um dos cantos da sala; Emma percebeu com baque que era a tapeçaria da batalha de Burren, jogada no canto como se fosse lixo. Estranho para um homem que clamava dar valor para a história dos Nephilim. — Há muito tempo, três medalhões foram dados à Clave pelo Povo das Fadas. Eles impediam que o tempo mudasse no Reino das Fadas. Um deles sumiu, mas vocês receberão um dos outros dois que sobraram. Vocês podem devolver quando voltarem.
Um medalhão? Emma se lembrava do colar de Cristina, seu poder de controlar o tempo no Reino das Fadas.
Um deles sumiu…
— E como espera que a gente volte? — Emma disse — Não é como se voltar do Reino das Fadas fosse fácil para um humano.
— Vocês vão usar o mapa que receberão para localizar um lugar chamado O Cruzamento de Bram — explicou Horace. — Lá, encontrarão um amigo pronto para trazê-los para casa. — Ele cruzou seus dedos. — Eu vou lidar com o fato de que vocês não estão em Alicante colocando guardas ao redor da casa de Princewater. O boato será que vocês estão em prisão domiciliar até que o assunto da Espada Mortal seja esclarecido. Mas eu devo insistir que vocês encontrem o livro e retornem dentro de quatro dias. Ou então assumirei que vocês decidiram agir por conta própria, nesse caso eu não terei outra escolha a não ser trazer o seu segredo a público.
— O que o faz pensar que nós somos capazes de fazer isso em quatro dias? — perguntou Julian.
— Porque vocês não têm outra opção — Horace respondeu.
Emma trocou um olhar com Julian. Ela suspeitava que os sentimentos dele, independente de como estivessem, refletiam o mesmo que os dela — dúvida e desespero. Eles não podiam confiar em Horace Dearborn, mas se não concordassem com esse plano, ele destruiria suas vidas. Suas marcas seriam arrancadas. Eles jamais veriam os outros Blackthorns novamente.
— Não há motivo para vocês se mostrarem tão desconfiados — disse Dearborn — nós estamos juntos nessa. Nenhum de nós quer que Annabel Blackthorn ou o Rei Unseelie tenha posse de algo tão poderoso como o Volume Negro — ele deu um sorriso amarelo. — Além disso, Julian, eu achei que você ficaria contente. Essa é sua chance de matar Annabel Blackthorn e arrancar o precioso livro dela de suas mãos. Pensei que você iria querer vingança.
Incapaz de aguentar a forma como o Inquisidor encarava Julian, Emma se levantou.
— Eu quero a Cortana. Ela pertenceu ao meu pai antes de ser minha, e tem pertencido à minha família antes mesmo de Jem e Cordelia Carstairs. Me devolva.
— Não — disse Horace, sua boca fina em uma linha reta — Nós ainda estamos investigando como ela foi capaz de quebrar a Espada Mortal. Nós os proveremos com armas, comida, um mapa, e todo o uniforme que precisarem, mas nada de Cortana.
— Lâminas serafim não funcionam na Terra das Fadas — disse Julian — E nossas runas também não.
Dearborn bufou.
— Então vocês receberão adagas, espadas e arcos. Vocês terão todas as armas das quais vão precisar — ele se levantou — Eu não me importo com o que usarão para matar Annabel Blackthorn. Apenas matem-na. Vocês trouxeram aquela vadia até nós. É responsabilidade de vocês se livrarem dela.
Julian tirou suas botas da mesa.
— Quando você pretende que seja a nossa partida?
— E como nós vamos chegar lá? — Emma questionou.
— Isso é pouco relevante para mim — disse Dearborn — E sobre quando partirão, pode muito bem ser agora. Não é como se vocês tivessem algo a fazer em Alicante — ele gesticulou em direção à porta, como se não pudesse esperar para se livrar deles — Vão para casa e embalem qualquer item pessoal de que precisem. E não percam tempo. Guardas irão buscá-los em breve. Estejam prontos.
— Certo — disse Emma. Ela caminhou até o canto da sala e pegou a tapeçaria de Alec. — E eu fico com isso.
Era surpreendentemente pesado. Dearborn ergueu suas sobrancelhas, mas não disse nada enquanto ela saía do escritório carregando o tecido.


— Aonde estamos indo? — Kit perguntou. Ele carregava o pacote de batatas, resquícios de sal e gordura estavam em seus dedos. Era um café da manhã esquisito, mas ele já tinha vivido coisas mais estranhas em sua vida. Além disso, a brisa do mar estava erguendo seu cabelo de sua testa, a praia estava vazia, e ele e Ty andavam em uma névoa dourada de areia e sol. Apesar de tudo, seu humor estava melhorando.
— Lembra-se da caverna? — disse Ty — Aquela em que nós vimos a Zara conversando com Manuel?
— Aham — Kit disse, e quase completou, quando nós estávamos com a Livvy, mas ele sabia que era isso que Ty quis dizer com “nós”. Esta era uma palavra que para ele sempre incluiria Livvy. A sombra da memória apagou o bom humor de Kit: Ele se lembrava daquela noite, Livvy rindo, Ty segurando uma estrela-do-mar — o sal do ar enrolando o seu cabelo normalmente liso, e seus olhos com um eco prateado como a lua. Ele estava sorrindo, seu verdadeiro, brilhante sorriso de Ty. Kit havia se sentindo mais próximo dos dois do que já sentira de qualquer outra pessoa.
— Espera, por que estamos indo até lá?
Eles alcançaram a parte da praia onde longos dedos de granito saíam da superfície do oceano. As ondas aceleravam no mar, batendo contra as pedras, espirrando uma nuvem branco-prateada.
Ty alcançou o pacote de salgadinho, seu braço encostando no de Kit.
— Porque nós vamos precisar de ajuda para fazer necromancia. Não podemos fazer isso sozinhos.
— Por favor, me diga que nós não precisamos da ajuda de um exército de zumbis, eu odeio exércitos de gente morta.
— Não um exército de zumbis. Hypatia Vex.
Kit quase derrubou as batatinhas.
— Hypatia Vex? A feiticeira de Londres?
— Aham — disse Ty — Presta atenção, Watson.
— Isso não é um “presta atenção” — disse Kit — Como que eu ia saber que você entrou em contato com ela? Eu não achei que ela gostasse muito de nós.
— E isso importa?
— Você tem um bom argumento — Kit parou, areia voando ao redor dos seus tênis. — Chegamos.
O buraco escuro na pedra se abriu diante deles. Ty parou também, remexendo os bolsos de seu casaco.
— Eu tenho uma coisa para você.
Kit enrolou o pacote de salgadinho e o deixou preso atrás de uma pedra.
— Tem?
Ty mostrou uma pequena pedra branca, do tamanho de uma bola de golfe, com uma runa desenhada na superfície.
— Sua pedra enfeitiçada. Todo Caçador de Sombras tem uma — ele pegou a mão de Kit despreocupadamente e colocou a pedra em sua palma. Uma onda quente inundou o estômago de Kit, surpreendendo-o. Ele nunca tinha se sentido assim antes.
— Obrigado — ele disse. — Como eu ligo isso?
— Feche seus dedos ao redor da pedra e pense em luz — falou Ty — Imagine um interruptor de luz ligando; foi o que o Julian me disse. Vem, eu te mostro.
Kit segurou a pedra desajeitadamente enquanto eles seguiam a trilha até a entrada da caverna. Alguns passos mais para dentro e a escuridão os envolveu como veludo, abafando o som das ondas do lado de fora. Kit mal conseguia enxergar Ty, a sombra de uma sombra ao seu lado.
Como ligar um interruptor, ele pensou, e fechou seus dedos ao redor da pedra enfeitiçada. Ela deu leve tranco antes da luz se espalhar, iluminando o corredor familiar. Estava muito parecido com o que era antes, feito de pedra e cheio de aranhas, lembrando Kit de um túnel subterrâneo no primeiro filme do Indiana Jones.
Pelo menos dessa vez eles sabiam onde estavam indo. Eles seguiram a curva do corredor até chegar a uma enorme câmara de pedra. As paredes eram de granito, mas linhas pretas corriam por elas, mostrando onde tinham rachado muito tempo atrás. O cômodo cheirava a algo doce — provavelmente a fumaça que se erguia das velas localizadas na mesa de madeira no centro do lugar. Uma figura encapuzada, usando um manto preto e com seu rosto escondido pelas sombras estava sentada onde Zara estivera da última vez que eles estiveram ali.
— Hypatia? — perguntou Ty, dando um passo à frente.
A figura ergueu um único dedo silenciador. Ambos, Kit e Ty, hesitaram enquanto duas mãos enluvadas se ergueram e retiraram o capuz.
Ty lambeu seus lábios secos.
— Você… não é a Hypatia — ele se virou para Kit — Esse não é ela.
— Não — Kit concordou — Parece ser um cara verde e com chifres.
— Eu não sou a Hypatia, mas ela me enviou — disse o feiticeiro. — Nós já nos encontramos antes, nós três. No Mercado das Sombras de Londres.
Kit se lembrava das rápidas mãos verdes em movimento.
— Devo dizer que nunca achei que teria o prazer de entreter o Herondale Perdido.
— Shade — ele falou.
O feiticeiro parecia satisfeito.
— Não é meu verdadeiro nome, mas serve.
Ty balançava a sua cabeça.
— Eu quero negociar com Hypatia — ele falou. — Não com você.
Shade se inclinou em sua cadeira.
— A maioria dos feiticeiros não mexe com necromancia — ele disse calmamente. — Hypatia não é diferente; na verdade, ela é mais esperta que a maioria. Ela quer comandar o Mercado das Sombras um dia, e não vai arruinar suas chances.
A expressão de Ty pareceu se estilhaçar, como o rosto rachado de uma estátua.
— Eu nunca disse nada sobre necromancia…
— Sua irmã gêmea acabou de morrer — disse Shade — e você contatou uma feiticeira com um pedido desesperado. Não é necessário ser um gênio para adivinhar o que você quer.
Kit colocou a mão no ombro de Ty.
— Nós não precisamos ficar aqui — ele sussurrou — podemos apenas ir…
— Não — Shade falou — Me escutem antes, pequenos Caçadores de Sombras, se vocês desejam a minha ajuda. Eu entendo. O luto enlouquece as pessoas, vocês procuram uma forma de acabar com isso.
— Sim — disse Ty — Eu quero trazer minha irmã de volta. Eu vou trazer minha irmã de volta.
Os olhos escuros de Shade estavam insensíveis.
— Você deseja ressuscitar os mortos. Tem ideia de quantas pessoas querem isso? Não é uma boa ideia. Sugiro que desista. Eu poderia te ajudar com outra coisa. Você já teve vontade de mover objetos com a sua mente?
— Claro — disse Kit — Parece incrível — Qualquer coisa menos isso.
— Eu tenho o Volume Negro dos Mortos — disse Ty — Ou pelo menos uma cópia dele.
Ele não pareceu perceber a surpresa no rosto de Shade, mas Kit sim. Isso aumentou tanto seu orgulho de Ty quanto sua preocupação.
— Bem — disse Shade por fim — isso é melhor do que o original.
Que coisa esquisita de se dizer, pensou Kit.
— Não é com o feitiço que precisamos de ajuda — falou Ty — nós precisamos de ajuda para conseguir os ingredientes do feitiço. Alguns são fáceis de arranjar, mas Caçadores de Sombras não são bem-vindos no Mercado das Sombras, então se você for, eu posso te dar o dinheiro, ou nós podemos te dar armas preciosas do Instituto…
— Eu mesmo pensei em vendê-las, uma vez. — Kit estava satisfeito.
Shade ergueu suas mãos enluvadas.
— Não. Eu ajudarei vocês, tudo bem? Mas isso não será rápido e também não será fácil.
— Bom — disse Ty, mas Kit ficou instantaneamente desconfiado.
— Por quê? — perguntou Kit — Por que nos ajudaria? Você não aprova…
— Não aprovo — respondeu Shade — Mas se não for eu, será outra pessoa, outro feiticeiro com menos escrúpulos. Pelo menos eu posso ter certeza que vocês farão isso da melhor forma possível. Eu posso ensiná-los a realizar o feitiço corretamente. Posso arranjar um catalisador para vocês, uma fonte limpa de energia que não corrompa o que vocês querem fazer.
— Mas você não irá ao Mercado das Sombras? — perguntou Kit.
— O feitiço só funciona se a pessoa que for lançar o feitiço tiver coletado os ingredientes — disse Shade — e serão vocês que vão realizá-lo, mesmo se precisarem de mim para direcioná-los. Então o que quer que esteja entre vocês dois e as pessoas do Mercado das Sombras, e eu mesmo vi parte disso, resolvam — a voz dele estava rouca — Vocês são espertos, vão achar alguma forma. Quando tiverem o que precisam, voltem até mim. Eu vou permanecer aqui na gruta enquanto estiverem interessados nesse projeto maluco. Mas me mandem uma mensagem se quiserem vir fazer uma visita. Eu gosto da minha privacidade.
O rosto de Ty estava iluminado de alívio, e Kit sabia no que ele estava pensando: uma etapa realizada, um passo mais próximo de ter a Livvy de volta. Shade o olhou e sacudiu a cabeça, seu cabelo branco brilhando por causa da luz das velas.
— Mas é claro, se vocês reconsiderarem e eu nunca mais ouvir falar de vocês, será ainda melhor — ele disse. — Pensem nisso, crianças. Algumas luzes nunca foram destinadas a brilhar por muito tempo.
Ele fechou seus dedos enluvados ao redor da chama da vela mais grossa, apagando-a. Um fio de fumaça branca subiu em direção ao teto. Kit encarou Ty novamente, mas ele não tinha reagido; talvez nem tivesse escutado o que Shade disse. Ele estava sorrindo para si mesmo; não o sorriso arrebatador do qual Kit sentiu falta na praia, mas um silencioso sorriso particular.
Se nós vamos seguir com isso, eu vou ter que aguentar tudo sozinho. Kit pensou. Qualquer culpa, qualquer apreensão. É apenas minha.
Ele desviou o olhar do feiticeiro antes que Shade pudesse encontrar qualquer dúvida em seu olhar.
Algumas luzes nunca foram destinadas a brilhar por muito tempo.


— Eu não acredito que os Centuriões deixaram tanta bagunça. — Helen disse.
Por anos, Helen prometera a Aline que a levaria para um tour completo pelo Instituto e lhe mostraria todos os lugares favoritos de sua infância.
Mas apenas parte da mente de Helen mostrava os arredores para Aline. Parte dela focava na destruição que os Centuriões deixaram para trás no Instituto — toalhas espalhadas por todo canto, manchas nas mesas, e comida velha apodrecendo na geladeira e na cozinha. Parte dela pensava na mensagem que ela tinha enviado através de outra fada para sua tia Nene na Corte Seelie. Mas a maior parte estava em sua família.
— Aqueles babacas não são o que está realmente te incomodando — disse Aline. Elas estavam a alguma distância do Instituto. De onde estava, era possível ver o deserto, coberto de flores silvestres e folhagem verde, e o oceano, azul e brilhante ao fundo. Havia oceano na Ilha Wrangel, frio, intimidador e belo, de forma alguma convidativo. Esse era o mar da sua infância — o mar de dias longos passados pulando ondas com seus irmãos e irmãs.
— Você pode me contar qualquer coisa, Helen.
— Eles me odeiam — Helen disse baixinho.
— Quem te odeia? — exigiu Aline — Eu vou matá-los.
— Meus irmãos e irmã — disse Helen. — Mas, por favor, não os mate.
Aline parecia surpresa.
— O que você quer dizer com eles te odeiam?
— O Ty me ignora — disse Helen — Dru rosna pra mim. Tavvy odeia que eu não seja o Julian. E Mark, bem, Mark não me odeia, mas a mente dele parece distante. Eu não posso arrastá-lo para isso.
Aline cruzou seus braços e encarou o oceano pensativamente. Isso era uma das coisas que Helen amava em sua esposa. Se Helen dissesse que algo estava errado, Aline consideraria a situação de todos os ângulos. Ela nunca era desdenhosa.
— Eu pedi ao Julian para dizer às crianças que eu estava feliz na Ilha Wrangel — disse Helen. — Eu não queria que se preocupassem. Mas agora, acho que eles acreditam que eu passei todos esses anos sem me importar por estar longe deles. Eles não fazem ideia do quanto senti saudade deles. Eles não sabem quão mal me sinto por Julian ter aguentado toda essa responsabilidade, por todos esses anos. Eu não sabia.
— O negócio é — disse Aline — eles não te veem só como a substituta do Julian, a pessoa que cuida deles. Você também surgiu na vida deles no momento em que a Livvy os deixou.
— Mas eu também amava a Livvy! Eu também sinto falta dela…
— Eu sei — disse Aline gentilmente — mas eles são só crianças. Estão lidando com o luto como podem. Eles não sabem porque estão bravos, apenas estão.
— Eu não consigo fazer isso — Helen tentou manter sua voz estável, mas era quase impossível. Ela torceu para que isso fosse amenizado pelo som das ondas quebrando abaixo delas, mas Aline a conhecia muito bem. Ela conseguia sentir quando Helen estava chateada, mesmo quando ela estava se esforçando para não mostrar — É muito difícil.
— Querida — Aline se aproximou, enlaçando seus braços ao redor de Helen, tocando seus lábios levemente no da outra mulher — Você consegue. Você consegue fazer qualquer coisa.
Helen relaxou nos braços de sua esposa. Quando conheceu Aline pela primeira vez, ela achou que a outra garota era mais alta que ela, mas mais tarde percebeu que era a forma como Aline se portava. Ereta e altiva. A consulesa, mãe dela, se portava da mesma forma, com o mesmo orgulho — não que elas fossem arrogantes, mas era mais próximo disso do que simples confiança, pensava Helen. Ela se lembrava da primeira carta de amor que Aline lhe escreveu. O mundo mudou, pois de marfim e ouro você se formou. As curvas dos seus lábios reescrevem a história. Mais tarde, ela descobriu que era uma citação de Oscar Wilde, e disse para Aline, sorrindo, Você tem muita coragem.
Aline tinha olhado de volta para ela firmemente. Eu sei. Eu tenho.
Ambas tinham, sempre, e isso as manteve em um bom lugar. Mas essa não era uma situação onde coragem importava tanto quanto paciência. Helen tinha esperado que seus irmãos e irmã mais nova a amassem; ela precisava disso, de certa forma. Agora ela percebia que precisava mostrar a eles seu amor primeiro.
— De certa forma, a raiva deles significa algo bom — disse Aline. — Significa que eles sabem que você sempre vai amá-los, não importa o que aconteça. Eventualmente eles vão parar de testá-la.
— Tem alguma forma de acelerar o “eventualmente”?
— Ajudaria pensar nisso como “um dia”?
Helen suprimiu uma risada.
— Não.
Aline acariciou seu ombro gentilmente.
— Não custava tentar.


Havia uma dúzia ou mais de guardas plantados quando Emma e Julian retornaram para casa. Era um dia claro, e o sol refletia nas espadas presas nos ombros deles e na água no canal.
Enquanto eles subiam as escadas, Dane Larkspear estava inclinado contra um dos lados da porta, seu rosto branco contrastando contra o cabelo preto. Ele piscou para Emma enquanto Julian, ignorando-o, pegava sua estela.
— Que bom te ver.
— Não posso dizer o mesmo — falou Emma — Cadê sua gêmea malvada? E eu quero dizer literalmente. Ela é sua gêmea, e ela é malvada.
— É, eu entendi — disse Dane, revirando os olhos — Samantha está na Scholomance. E vocês têm visitas.
Emma ficou tensa.
— Na casa? O motivo para ter guardas não é mantê-los longe?
Dane riu.
— Por favor. O motivo de estarmos aqui é para manter vocês por perto.
Julian desenhou uma runa de desbloqueio na porta e lançou um olhar sombrio para Dane.
— Quinze contra dois?
O sorriso de Dane se alargou.
— Só lembrando vocês quem realmente está no controle — ele disse — Nós controlamos a situação. Eu não me sinto mal por isso.
— Você não poderia — Julian respondeu, e entrou na casa.
— Como se eu já não estivesse péssima com toda essa situação — Emma resmungou, e seguiu Julian.
Ela estava alerta — não tinha gostado da forma como Dane dissera a palavra “visitas”. Ela fechou a porta da frente devagar, mão na bainha da adaga em seu cinto de armas.
Ela ouviu Julian chamando seu nome.
— Na cozinha — ele falou — Está tudo bem, Emma.
Normalmente ela confiava em Julian mais do que confiava em si mesma. Mas as coisas estavam diferentes agora. Ela entrou cuidadosamente na cozinha, apenas soltando sua adaga quando viu Isabelle sentada na mesa, suas longas pernas cruzadas. Ela vestia um casaco de veludo curto e uma saia longa de tule. Joias de prata brilhavam em seus pulsos e tornozelos.
Simon estava sentado em uma das mesas da cozinha, cotovelos na mesa, óculos de sol empurrados para cima da cabeça.
— Espero que não se importem — ele disse — Os guardas nos deixaram entrar.
— Nem um pouco — respondeu Julian, se inclinando contra um dos cantos — Estou apenas surpreso que eles deixaram.
— Persuasão amigável — disse Isabelle, e abriu um sorriso que era todo de dentes. — A Tropa não tem todo o poder ainda. Nós conhecemos muitas pessoas em posições importantes.
— Onde vocês estavam? — Simon inquiriu. — Os guardas não nos disseram nada.
— O Inquisidor queria conversar com a gente — falou Emma.
Simon franziu a testa.
— Dearborn? Você quer dizer que ele queria interrogar vocês?
— Não exatamente — Emma tirou sua jaqueta e a colocou nas costas de uma cadeira — Ele queria nos pedir um favor. Mas o que vocês estão fazendo aqui?
Isabelle e Simon trocaram um olhar.
— Nós temos algumas notícias ruins — Simon disse.
Emma os encarou firmemente. Izzy parecia cansada, Simon, tenso, mas isso não era nenhuma surpresa. Ela apenas podia imaginar como estava sua aparência.
— Meus irmãos e irmãs… — Julian começou, sua voz apertada, e Emma o encarou. Ela se lembrava do que ele tinha dito sobre escalar a pira atrás de Ty; foi instinto, a necessidade de protegê-lo, não havia nenhuma consciência naquilo.
— Nada parecido com isso — disse Simon — Jace e Clary não voltaram no horário planejado.
Sem palavras, Emma caiu na cadeira no lado oposto ao de Simon.
— Isso é interessante — Julian falou. — O que você acha que aconteceu?
Simon o olhou de forma esquisita. Isabelle o cutucou com seu joelho, e através de sua surpresa e preocupação, Emma a ouviu sussurrar algo sobre a recente morte da irmã de Julian e como ele provavelmente ainda estava em choque.
— Talvez eles só estejam atrasados porque o tempo age de forma diferente no Reino das Fadas — disse Emma. — Ou eles receberam um dos medalhões?
— Eles não são afetados pela magia temporal no Reino das Fadas por causa do sangue de anjo extra deles — disse Isabelle — Por isso a Clave os escolheu para essa missão. As runas deles ainda funcionam, mesmo nas partes de terra morta. — Ela franziu o cenho — Que medalhões?
— Ah — Emma trocou um olhar com Julian — A Clave tem medalhões que impedem essa alteração de tempo no Reino das Fadas. Dearborn nos deu um.
Isabelle e Simon trocaram um olhar desnorteado.
— O quê? Por que ele daria isso a vocês…?
— O favor que Dearborn nos pediu — disse Julian — envolve o Reino das Fadas.
Simon se endireitou, trincou sua mandíbula, seu rosto sério de uma forma que lembrou Emma que ele não era apenas o noivo simpático e tranquilo de Isabelle Lightwood. Ele era um herói por conta própria. Ele tinha encarado o Anjo Raziel sozinho. Poucos além de Clary podiam dizer o mesmo.
— Ele fez o quê?
— Eu explico — falou Julian, e ele o fez. De uma forma, econômica, seca e pálida sem emoção. De qualquer forma, quando ele acabou, Isabelle e Simon pareciam furiosos.
— Como ele ousa — disse Simon — como pode pensar…
— Mas ele é o Inquisidor agora. Ele deve saber que Clary e Jace não voltaram — interrompeu Isabelle — A Clave sabe que é perigoso, especialmente agora. Por que ele enviaria vocês?
— Porque Annabel fugiu para o Reino das Fadas, e ele acha que a Annabel é problema nosso — Emma disse.
— É ridículo; vocês são apenas crianças — falou Simon.
Isabelle o chutou levemente.
— Nós fizemos muita coisa quando éramos crianças.
— Porque nós não tínhamos o que fazer — disse Simon — Porque nós não tínhamos opção — ele se virou para Emma e Julian — Nós podemos tirar vocês dessa. Podemos esconder vocês.
— Não — falou Julian.
— Ele quer dizer que nós também não temos opção — disse Emma — Tem uma possibilidade grande do Volume Negro ser usado para algo terrível, ou pela Annabel ou pelo Rei Unseelie. E não há como saber quem vai se machucar, e nós temos uma chance maior de encontrar o livro. Ninguém mais teve que lidar com Annabel nos últimos séculos. De uma forma esquisita, Julian é quem a conhece melhor.
— E nós podemos procurar por Jace e Clary. Não é como se Horace fosse enviar outra pessoa pra procurar por eles — completou Julian.
Isabelle o olhou duramente.
— Porque ele é um babaca, você quer dizer?
— Porque ele não gosta do apoio que eles têm, ou da forma como as pessoas os enxergam, e ao Alec e a vocês — disse Julian. — Quanto mais tempo eles estiverem longe, melhor para ele. Ele quer consolidar poder, não precisa de heróis voltando. Tenho certeza de que Jia vai tentar ajudar, mas ele não vai facilitar para ela. Ele sempre pode ficar atrapalhando o caminho dela.
Julian estava muito pálido, e seus olhos pareciam com o vidro marinho no seu bracelete. O parabatai dela podia não estar sentindo nada, Emma pensou, mas ele ainda entendia os sentimentos das outras pessoas, quase bem demais. Ele tinha apresentado o único argumento que Simon e Isabelle não seriam capazes de recusar: a segurança de Clary e Jace.
Ainda assim, Simon tentou.
— Nós podemos pensar em alguma coisa nós mesmos — ele disse. — Alguma forma de procurar por eles. A oferta de esconder vocês ainda está de pé.
— Eles vão castigar a minha família se eu desaparecer — Julian respondeu. — Essa é uma nova Clave.
— Ou talvez apenas o que sempre esteve por baixo da antiga — apontou Emma. — Vocês podem jurar que não contarão a ninguém, nem mesmo a Jia, sobre estarmos indo para o Reino das Fadas?
Ninguém pode saber. Se Jia confrontar Horace, ele contará nosso segredo.
Simon e Isabelle pareciam preocupados, mas ambos prometeram.
— Quando ele pediu para vocês partirem? — perguntou Isabelle.
— Logo — respondeu Julian — Nós só voltamos para arrumar nossas coisas.
Simon resmungou um xingamento. Isabelle balançou a cabeça, então se abaixou e retirou uma corrente de um dos seus belos tornozelos. Ela o entregou para Emma.
— Isso é ferro abençoado. Perigoso para as fadas. Use isso e poderá dar um belo chute.
— Obrigada — Emma aceitou a corrente e a enrolou duas vezes em seu pulso, fechando-a apertada.
— Eu tenho alguma coisa de ferro? — Simon olhou ao redor e então colocou a mão no bolso, tirando de lá uma miniatura de um boneco de arqueiro — Esse é meu personagem de Dungeons e Dragons, Lorde Montgomery...
— Ai meu Deus — exclamou Isabelle.
— A maioria das figuras de ação são feitas de estanho, mas essa é de ferro. Eu a consegui no Kickstarter — Simon a ofereceu para Julian — apenas pegue, pode ser útil.
— Eu não entendi metade do que você disse, mas obrigado — disse Julian, colocando o brinquedo no bolso.
Houve um momento de silêncio constrangedor. Foi Isabelle quem o quebrou, seu olhar escuro passando de Julian para Emma, e então de volta.
— Muito obrigada — ela disse — Vocês dois. Isso é algo extremamente corajoso de se fazer — ela respirou fundo. — Quando encontrarem Clary e Jace, e eu sei que encontrarão, contem a Jace sobre Robert. Ele deve saber o que aconteceu com sua família.

4 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!