5 de abril de 2019

Capítulo 5

Quando Stefan bateu na porta do apartamento de Damon, ele atendeu quase imediatamente, fuzilou Stefan com os olhos e tentou bater a porta na cara dele.
— Para — disse Stefan, metendo o ombro na porta. — Você deve ter conseguido sentir que era eu.
— Eu sabia que você continuaria batendo ou acharia um jeito de entrar se eu não atendesse — disse Damon com ferocidade. — Então, estou atendendo. Agora, vá embora.
Damon parecia arrasado. Mas nada conseguia tirar a elegância de suas feições, embora estivessem contraídas e abatidas, e as maçãs do rosto, pálidas de tensão. Seus lábios também estavam pálidos, os olhos escuros injetados e o cabelo preto, em geral liso, desgrenhado. Stefan ignorou suas palavras e se aproximou ainda mais, tentando encarar o irmão.
— Damon. Encontrei a garota no bosque ontem à noite.
Qualquer um que não conhecesse Damon tão bem quanto Stefan — portanto, qualquer um que não fosse Stefan — teria deixado passar a fração de segundo de imobilidade antes de o rosto de Damon assumir uma expressão de frio desdém.
— Veio me pregar sermão, maninho? Não tenho tempo agora, mas quem sabe outro dia? Talvez na semana que vem?
Ele fitou Stefan, depois virou o rosto com desprezo. De repente, Stefan se sentiu novamente uma criança, em casa, todos aqueles séculos atrás, com o irmão mais velho atrevido, encantador, desprezível e enfurecedor o colocando em seu devido lugar.
— Ela ainda está viva — disse Stefan com firmeza. — Eu a levei para casa. Ela está bem.
Damon deu de ombros.
— Que gentileza a sua. Sempre o cavaleiro parfait.
Stefan levantou rapidamente a mão e segurou Damon pelo braço.
— Mas que droga, Damon — disse ele, frustrado —, para de brincadeira. Vim dizer que você precisa ter cuidado. Se tivesse matado aquela menina, poderiam ter pegado você.
Damon piscou para ele.
— É isso? — perguntou ele, a voz um pouquinho menos hostil. — Você quer que eu tenha cuidado? Não tem nenhum impulso incontrolável de me repreender, maninho? De me ameaçar, talvez?
Stefan suspirou e desmoronou no batente da porta, a urgência se esvaindo.
— E repreender você adiantaria alguma coisa, Damon? Ou ameaçá-lo? Nunca funcionou. Só não quero que mate ninguém. Você é meu irmão e precisamos um do outro.
A expressão de Damon enrijeceu novamente, e Stefan reconsiderou suas palavras. Às vezes falar com Damon era como andar num campo minado.
— Eu preciso de você, de qualquer modo — disse ele. — Você salvou a minha vida. O que, caso não tenha percebido, já aconteceu muitas vezes no último ano.
Damon se recostou do outro lado do batente e examinou Stefan, de expressão pensativa, mas continuou em silêncio. Desejando saber o que Damon estava pensando, Stefan enviou uma onda indagativa de Poder para o irmão, tentando apreender seu estado de espírito, mas Damon meramente o olhou com escárnio, fechando-se para ele com facilidade.
Stefan baixou a cabeça e massageou a ponte do nariz com o polegar e o indicador. Será que sempre seria assim, pelos próximos longos séculos?
— Olha — disse ele. — Já tem muita coisa acontecendo com os outros vampiros no campus sem que você comece caçar de novo. Ethan ainda está vivo e pretende trazer Klaus de volta amanhã à noite.
Damon franziu profundamente a testa por um momento, depois se suavizou. Seu rosto podia ter sido entalhado em pedra.
— Não podemos impedi-lo sem você — continuou Stefan, com a boca seca.
Os olhos negros como a noite de Damon não transmitiam nada, então ele abriu o mais breve e brilhante sorriso.
— Desculpe. Não estou interessado.
— O quê? — Stefan sentiu como se tivesse levado um chute na barriga. Esperava um Damon sarcástico e na defensiva. Mas depois de o irmão tê-lo salvado de Ethan, a última coisa que esperava era indiferença.
Damon deu de ombros, endireitando-se e ajeitando as roupas, espanando uma poeira imaginária da camisa preta.
— Pra mim, chega — disse ele, num tom despreocupado. — Já não tem mais graça me meter nos assuntos de seus humanos de estimação. Se Ethan trouxer Klaus de volta, que lide com ele. Duvido que vá fazer algum bem a Ethan.
— Klaus se lembrará de que você o atacou — disse Stefan. — Virá atrás de você.
Arqueando uma sobrancelha, Damon sorriu novamente, expondo rápida e selvagemente os dentes brancos.
— Duvido que eu seja a prioridade dele, maninho — disse ele.
E era verdade, Stefan se lembrava. Naquela última e terrível batalha com Klaus, Damon tinha apunhalado o Antigo com freixo branco, impedindo-o de dar o golpe fatal em Stefan. Mas não foi ele o responsável pela morte de Klaus. Stefan tinha engendrado a luta contra Klaus e feito o que pôde para matá-lo. Mas no fim fracassou também. Foi Elena, levando um exército de mortos contra o vampiro Original, que o matou.
— Elena — disse Stefan, desesperado. — Elena precisa de você.
Ele tinha convicção de que isto funcionaria, que a armadura de Damon racharia. Damon sempre cumpria seus deveres com Elena.
Mas desta vez os lábios de Damon se curvaram num sorriso malicioso.
— Tenho certeza de que você vai conseguir resolver as coisas — respondeu levianamente, a voz fria. — Agora o bem-estar de Elena é sua responsabilidade, não minha.
— Damon...
— Não. — O irmão ergueu a mão num alerta. — Já disse. Pra mim acabou. — E, com um movimento rápido, bateu a porta na cara de Stefan.
Stefan apoiou a testa na porta, sentindo-se derrotado.
— Damon — disse ele novamente. Sabia que Damon podia ouvi-lo, mas do apartamento só houve silêncio. Lentamente, ele se afastou da porta. Seria melhor não pressionar Damon, não quando ele estava nesse humor.
Nesse humor, era capaz de qualquer coisa.


— Que bom que você veio me ver, Elena — disse o professor Campbell. — Fiquei preocupado com você depois que... — Ele olhou discretamente em volta e baixou o volume, embora estivessem sozinhos na sala. — Depois de nossa última conversa. — Ele a olhou com cautela, a expressão em geral inquisitiva e um tanto presunçosa abalada pela incerteza.
— Desculpe ter fugido daquele jeito, James — Elena olhou a xicara de café com leite e açúcar que ele lhe dera. — É que... quando você me disse que eu era uma Guardiã e me contou a verdade sobre o que houve com meus pais, precisei de algum tempo para pensar. No verão passado, eu conheci algumas Guardiãs. Elas eram poderosas, mas tão desumanas.
Ainda não conseguia aceitar que deveria se tornar uma delas. Toda a ideia era tão desmedida e apavorante que sua mente ficava se esquivando dela, concentrando-se nas preocupações imediatas e reais, como nos vampiros do campus.
As mãos de Elena tremiam um pouco, fazendo o café se agitar e formar um redemoinho. Ela segurou a xícara com mais cuidado.
James lhe deu um tapinha gentil no ombro.
— Bem, tenho feito algumas pesquisas e acho que tenho boas notícias.
— Estou precisando de boas notícias — disse ela com ternura, de forma quase suplicante. — Não entendo realmente como seria uma Guardiã humana. Eu seria diferente de uma Guardiã Celestial?
James sorriu pela primeira vez desde que ela entrara em sua sala.
— Depois que conversamos — disse ele —, entrei em contato com todos os meus antigos colegas que estudaram mitologia ou magia, qualquer um que eu achasse que pudesse saber alguma coisa sobre as Guardiãs.
Agora que tinha informações para compartilhar, James perdeu a hesitação e pareceu engrandecer, os ombros relaxando enquanto enfiava os polegares no colete do terno.
— Diz a lenda —sua voz assumiu um tom professoral — que os Guardiões humanos são raros, mas sempre existem dois ou três no mundo. Em geral, os pais deles são recrutados da mesma forma que as Guardiãs recrutaram os seus, então os filhos são entregues aos Guardiões para treinamento quando entram na adolescência.
Elena fechou os olhos por um momento, estremecendo. Não conseguia imaginar ser entregue aos Guardiões e perder sua vida humana tão jovem. Mas se tivesse sido assim, a mãe e o pai ainda estariam vivos.
— Quando os Guardiões humanos chegam à idade adulta... Mais ou menos na sua idade, Elena — continuou James —, ficam onde há uma alta concentração de linhas de força e, portanto, uma grande quantidade de atividade sobrenatural.
— Como aqui — disse Elena. — E em Fell’s Church.
James concordou com a cabeça.
— As evidências indicam fortemente que os Guardiões recrutam possíveis pais de lugares com muitas linhas de força. Assim, os Guardiões humanos podem ficar perto de seus lares.
— Mas para que servem os Guardiões humanos? O que eu devo fazer? — Ela percebeu que segurava a xícara com tanta força que podia quebrá-la, então a colocou na mesa e manteve os braços na cadeira.
— O papel dos Guardiões humanos é proteger os inocentes do sobrenatural na Terra — disse James. — Eles mantêm o equilíbrio. E parece que os Guardiões desenvolvem poderes diferentes, dependendo do que é necessário onde moram. Assim, não sabemos exatamente quais são os seus exatos poderes antes de eles começarem a se manifestar.
— Proteger os inocentes, com isso eu posso lidar — Elena abriu um sorriso trêmulo para James.
Não tinha tanta certeza quanto a “manter o equilíbrio”. Em sua opinião, as Guardiãs da Corte Celestial ficaram tão obcecadas com o equilíbrio e a ordem que se esqueceram dos inocentes. Ou talvez os inocentes fossem preocupação exclusiva dos Guardiões Terrenos. Mas, se isso fosse verdade, alguém não teria protegido seus pais?
James também sorriu.
— Foi o que pensei. E — disse ele, com ar de quem guardou o melhor para o final — meus colegas localizaram um dos outros Guardiões Terrenos. — Ele pegou uma folha de papel de uma pasta na mesa e lhe entregou.
Era a impressão de uma fotografia colorida, um pouco granulada. Nela, um homem de cabelos pretos, talvez um ou dois anos mais velho do que Elena, sorria para a câmera. Seus olhos castanhos estavam semicerrados à luz do sol e os dentes brancos reluziam contra a pele morena.
— Seu nome é Andrés Montez, ele é um Guardião humano que mora na Costa Rica. Minhas fontes não tem muitas informações pessoais sobre ele, mas tentaram entrar em contato. Espero que ele esteja disposto a vir à Dalcrest ensinar a você o que sabe. —James hesitou, depois acrescentou: — mas, como Guardião, imagino que provavelmente já saiba tudo sobre você.
Elena acompanhou com o dedo o rosto de Andrés na fotografia. Queria conhecer outro Guardião? Aqueles olhos escuros, porém, pareciam gentis.
— Seria bom falar com alguém que possa me dizer o que esperar — disse ela a James, levantando a cabeça. — Obrigada por encontrá-lo.
James assentiu.
— Falo com você assim que conseguir trazê-lo pra cá.
Apesar da notícia de que havia outra pessoa semelhante, alguém que pudesse compreendê-la, o estômago de Elena se revirou e ela sentiu como se estivesse caindo, descendo numa espiral em direção a algo profundo, escuro e desconhecido. Será que Andrés poderia dizer o que ela mais precisava saber? Ela ainda seria Elena depois que seu destino a dominasse?

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Boa leitura, E SEM SPOILER!