10 de abril de 2019

Capítulo 5 - Imensidão cristalina


Quando Emma entrou no quarto de Cristina, encontrou a amiga arrumando as malas.
O jeito de Cristina arrumar as malas era como tudo o mais que fazia: organizado e preciso. Ela enrolara cuidadosamente todas as roupas para que não ficassem amassadas, envolvera as coisas úmidas em plástico e guardara os sapatos em pacotinhos para que não marcassem nenhum tecido.
— Você sabe que quando eu arrumo as coisas, simplesmente jogo tudo dentro da mala e depois me sento em cima dela enquanto Julian tenta fechar, não é? — perguntou Emma.
Cristina ergueu o olhar e sorriu.
— Me dá urticária só de pensar nisso.
Emma se apoiou na parede. Ela se sentia exausta e estranhamente solitária, como se Cristina e os Blackthorn já tivessem partido.
— Por favor, prometa que você vai estar no Instituto de Los Angeles quando eu voltar — falou ela.
Cristina parou. Baixou o olhar para a mala emprestada pelos Penhallow aberta na cama e mordeu o lábio.
— Você sabe quanto vai demorar?
— Uns dias.
— Acha que a família vai querer que eu fique? — Cristina voltou os olhos escuros e arregalados para Emma. — Eu poderia simplesmente ir para casa. Meu ano de intercâmbio não acabou, mas eles entenderiam. Eu sinto como se estivesse me intrometendo...
Emma se afastou da parede, balançando a cabeça vigorosamente.
— Não, não... você não está, Tina, não está. — Rapidamente ela descreveu a conversa com Jem e a questão da contaminação das Linhas Ley. — Jem pensou que eu fosse voltar para Los Angeles — falou. — Ele me pediu para entrar em contato com Catarina e ajudá-la a descobrir mais sobre as Linhas Ley, mas terá que ser você. Helen e Aline estarão tão ocupadas com as crianças, e com a tristeza, e com todo mundo... Eu sei que você dá conta, Cristina. Confio em você.
Cristina esboçou um sorriso meio triste.
— Eu também confio em você.
Emma se sentou na cama, que rangeu em protesto, e ela chutou o móvel, machucando o calcanhar, mas, de alguma forma, aliviando todos os seus sentimentos.
— Não quero dizer que Helen e Aline não vão ajudar. É só que todos estão arrasados de tristeza. Vão precisar de alguém que não esteja... eles vão precisar de você. — Ela respirou fundo. — Mark vai precisar de você.
Cristina arregalou os olhos e subitamente Emma se lembrou do rosto de Mark uma hora atrás, na cozinha, quando ela e Julian deram a notícia de que a família ia voltar para Los Angeles à noite sem eles dois. A expressão dele ficara tensa. Balançando a cabeça, ele dissera:
— Péssimas notícias. Eu não posso... — E se calara, sentando-se à mesa, com as mãos levemente trêmulas.
Helen, que já se sentara, tinha ficado branca, mas não dissera nada. Aline apoiara uma das mãos no ombro de sua mulher. Dru optara por deixar o cômodo em silêncio. Depois de um instante, Mark se levantara e fora atrás dela, e Tavvy protestava, oferecendo centenas de razões diferentes para Julian ir com eles e para não terem que ficar ali, sugerindo que o Inquisidor poderia ir a Los Angeles ou que eles poderiam ser interrogados via Skype, e Emma teria dado risada daquelas ideias simplórias se não estivesse se sentindo tão péssima.
— Nós vamos para casa? — repetira Helen. Julian tinha se curvado para falar baixinho com Tavvy; Emma não conseguia ouvi-los mais. — De volta para Los Angeles?
— Eu fico muito feliz por vocês, e Jia falou que acha que vocês podem ficar — dissera Emma.
— Ela espera — corrigiu Aline. — Minha mãe espera que a gente possa ficar. — Ela parecia calma, mas apertava o ombro de Helen com força.
— Mas não sem vocês — falou Helen, parecendo confusa. — Nós deveríamos ficar pelo tempo que vocês estiverem aqui...
— Não. — Para surpresa de todos, era Ty. — Isso seria perigoso para Mark e para você. O plano faz sentido.
Kit dera um olhar indecifrável para Ty, parecendo ao mesmo tempo preocupado e mais alguma coisa.
— Casa — falou Helen e seus olhos brilharam por causa das lágrimas. Ela olhou para Julian, mas ele estava pegando Tavvy no colo e o levou para fora do cômodo. — Eu não sei se choro de tristeza ou de felicidade — emendou, esfregando as lágrimas com dedos úmidos.
Aline beijou o topo da cabeça de sua mulher.
— Acho que as duas coisas.
Emma estava na metade da escada, a caminho do quarto de Cristina, quando avistou Mark, recostado na parede do patamar da escada e parecendo um tanto deprimido.
— Dru não me deixa entrar para conversar — explicou. — Estou preocupado. É típico das fadas sofrer solitariamente, mas até onde entendo, não é típico de um Caçador de Sombras.
Emma hesitou. Ela estava prestes a dizer que não era incomum Dru se trancar sozinha no quarto, mas a menina parecera bem mais do que um pouco chateada quando deixara a cozinha.
— Continue tentando — aconselhou ela. — Às vezes você tem que bater por uns vinte minutos mais ou menos. Ou pode se oferecer para ver um filme de terror com ela.
Mark pareceu abatido.
— Não creio que fosse gostar de ver um filme de terror.
— Nunca se sabe — falou Emma.
Ele tinha se virado para voltar a subir a escada, mas hesitou.
— Também estou preocupado com você e com Jules — falou em voz mais baixa. — Não gosto do Inquisidor nem da ideia de você ser interrogada por ele. Ele me faz lembrar do Rei Unseelie.
Emma ficou surpresa.
— Sério?
— Eles me dão a mesma sensação — falou Mark. — Não consigo explicar, mas...
Uma porta se abriu no patamar acima deles. Era Cristina. Ela deu um passo para frente e baixou o olhar.
— Emma? Eu queria saber se você estava...
Ela se calara ao ver Mark, e os dois se entreolharam de um jeito que fez Emma se sentir totalmente invisível.
— Não pretendia interromper — falou Cristina, mas ainda encarava Mark, que retribuía o olhar como se os olhos de ambos estivessem irremediavelmente entrelaçados.
Mark se obrigara a sair do transe, como se estivesse tentando se livrar de teias de aranha ou de sonhos.
— Está tudo bem... eu tenho que falar com Drusilla. — Com um salto, ele subiu a escada e sumiu da vista, desaparecendo na curva do corredor.
Cristina mudou de atitude e convidou Emma para entrar, e agora era como se o momento com Mark nunca tivesse acontecido, embora Emma estivesse se coçando para tocar no assunto.
— Mark vai precisar de você — disse ela outra vez, e Cristina retorceu as mãos no colo.
— Mark — falou, e fez uma pausa. — Eu não sei o que Mark está pensando. Acho que está zangado comigo.
— Por que ele estaria zangado com você?
— Por causa de Kieran — explicou ela. — As coisas não terminaram bem entre eles, e agora Kieran está na Scholomance e longe, e isso é por culpa minha.
— Você não fez eles terminarem — protestou Emma. — Para falar a verdade, você os ajudou a ficarem juntos por mais tempo. Lembra? O trisal fada dos sonhos.
Cristina abaixou o rosto para as mãos.
— Mrfuffhfhsh — falou.
— O quê?
— Eu disse — Cristina ergueu o rosto e repetiu: — que Kieran me mandou um bilhete.
— Mandou? Como? Quando?
— Hoje de manhã. Numa bolota. — Cristina entregou um pedacinho de papel a Emma. — Não esclarece muita coisa.

Dama das Rosas,
Embora a Scholomance seja fria, e Diego, um tédio, ainda lhe sou grato por encontrar valor suficiente em minha vida para preservá-la. Sua bondade rivaliza com sua beleza. Meus pensamentos estão com você.
Kieran

— Por que ele mandou isso para você? — Emma devolveu o bilhete para Cristina e balançou a cabeça. — Isso é esquisito. Ele é muito esquisito!
— Acho que ele só queria me agradecer pelo plano de fuga — protestou Cristina. — Só isso.
— As fadas não são muito chegadas em agradecer às pessoas — falou Emma. — Isso aí é um bilhete romântico.
Cristina corou.
— É só o jeito de se expressar das fadas. Não significa nada.
— Quando se trata de fadas — falou Emma num tom sombrio —, tudo significa alguma coisa.


Dru ignorou as batidas à porta. Não era difícil... desde que Livvy morrera, era como se ela estivesse debaixo d’água e tudo estivesse acontecendo num lugar longínquo, muito acima da superfície. As palavras pareciam ecos e as pessoas eram como borrões que iam e vinham como raios de sol ou sombra. Às vezes ela repetia para si as seguintes palavras: Livvy, minha irmã Livvy, está morta. Mas elas também não pareciam reais. Mesmo ao observar a pira ardendo, era como se aquilo estivesse acontecendo a outra pessoa.
Ela olhou pela janela. As torres demoníacas reluziam feito fragmentos de um vidro ornamentado. Dru as odiava — toda vez que estivera em Alicante, coisas horríveis aconteceram. Pessoas morreram. Helen fora exilada.
Estava acomodada no parapeito da janela e ainda segurava uma camiseta enrolada. Helen. Por muito tempo, tudo que eles queriam era Helen de volta. Tinha sido um objetivo da família, assim como querer Mark de volta, querer o fim da Paz Fria e que Jules fosse feliz, fazendo sumir aquela eterna ruguinha de preocupação entre seus olhos.
Mas agora Helen estava de volta. Ela tinha voltado e aparentemente ia substituir Jules. Helen vai tomar conta de vocês, dissera ele. Como se pudesse simplesmente largá-los e Helen pudesse recolhê-los, como se eles não fossem uma família, mas uma moedinha caída no chão. Ou um bichinho.
Você está me tratando feito um bichinho, pensou ela, e se perguntou o que aconteceria se dissesse isso a Jules. Mas ela não podia. Desde a morte de Livvy, aquela ruga de preocupação entre as sobrancelhas desaparecera, substituída por uma expressão vazia que era mil vezes pior. Ter Mark de volta era uma coisa. Mark ficara feliz por estar entre eles, mesmo agindo esquisito e dizendo coisas estranhas de fada, mas ele dissera que Drusilla era bonita, e até tentara cozinhar alguma coisa, mesmo sem ter a mínima ideia de como fazê-lo. Mas Helen era magra, linda e distante; Dru se lembrava de quando ela partira para a Europa para o ano de intercâmbio, dando um aceno indiferente e demonstrando uma ansiedade para ir embora que soara como um tapa na cara. E aí ela voltara com Aline, radiante e feliz, mas Dru jamais se esquecera da alegria dela ao deixá-los.
Ela não vai querer ver filmes de terror comigo nem comer pipoca doce, pensou Dru. Provavelmente ela não come nada além de pétalas deflores. Não sabe nada a meu respeito e nem vai se esforçar para saber. Desenrolando a camiseta que segurava, ela pegou o canivete e o bilhete que Jaime Rocio Rosales lhe dera em Londres. Tinha lido tantas vezes que o papel estava fino e gasto. Ela se curvou sobre ele, aninhando-se no parapeito enquanto Mark batia à porta e chamava seu nome em vão.


A casa parecia muito vazia.
A viagem de ida e volta para a sala do Portal no Gard tinha sido caótica, com Tavvy reclamando, e Helen perguntando freneticamente a Julian sobre o funcionamento diário do Instituto, e a estranha eletricidade entre Cristina e Mark, e Ty fazendo algo mais estranho ainda com seu telefone. Na caminhada de volta, Diana misericordiosamente quebrara o silêncio entre Emma e Julian e falava sobre se iria ou não vender a loja de armas na rua Flintlock. Emma sabia que Diana estava fazendo um esforço consciente para evitar interrupções desconfortáveis na conversa, mas ela apreciava mesmo assim.
Agora Diana se fora, e Emma e Julian subiram os degraus da casa do canal em silêncio. Vários guardas foram postados ao redor do lugar, mas ainda parecia vazio. A casa estava cheia de gente naquela manhã; agora só restavam ela e Julian. Ele fechou o ferrolho na porta da frente e se virou para subir as escadas sem uma palavra.
— Julian — chamou ela. — Nós precisamos… Eu preciso falar com você.
Ele parou onde estava, a mão no corrimão. Ele não se virou para olhá-la.
— Isso não é um clichê? — ele comentou. — Nós precisamos conversar?
— Sim, foi por isso que eu mudei para “eu preciso falar com você”, mas de qualquer forma, é um fato e você sabe disso — disse Emma. — Especialmente desde que nós estaremos sozinhos um com o outro durante os próximos dias. E temos que enfrentar o Inquisidor juntos.
— Mas isso não é sobre o Inquisidor. — Ele finalmente se virou para olhar para ela, e seus olhos queimavam como um ácido azul-esverdeado. — É?
— Não — disse Emma.
Por um momento, ela se perguntou se ele iria se recusar a ter uma conversa, mas ele finalmente deu de ombros e liderou o caminho para o andar de cima sem mais uma palavra.
Em seu quarto, ela fechou a porta e ele riu, um riso cansado.
— Você não precisa fazer isso. Não há mais ninguém aqui.
Emma podia pensar em uma ocasião em que ficariam felizes em ter uma casa só para eles. Quando era um sonho que eles compartilharam. Uma casa para si, para sempre, uma vida própria. Mas parecia quase uma blasfêmia pensar nisso com Livvy morta.
Ela rira mais cedo, com Cristina. Um lampejo de alegria na escuridão. Agora ela queria tremer quando Julian se virou, o rosto ainda vazio, e olhou para ela.
Ela se aproximou dele, incapaz de se impedir de estudar o rosto dele. Ele lhe explicara uma vez que o que o fascinava na pintura e no desenho era o momento em que uma ilustração adquiria vida. A pincelada de tinta ou caneta que transforma um desenho de uma cópia plana para uma interpretação viva e que respirava – o sorriso de Mona Lisa, o olhar nos olhos da Moça com Brinco de Pérola.
Isso era o que estava faltando em Julian, ela pensou, tremendo novamente. As milhares de emoções que sempre viveram por trás de suas expressões, o amor — por ela, por seus irmãos —por trás de seus olhos. Até mesmo sua preocupação parecia ter desaparecido, e isso era mais estranho que qualquer outra coisa.
Ele sentou-se na beira da cama. Havia um caderno de desenho de espiral ali; Ele empurrou descuidadamente para o lado, quase debaixo de um dos travesseiros. Julian geralmente era meticuloso em relação a seus materiais de arte; Emma afundou a vontade de resgatar o bloco de rascunho. Ela se sentiu perdida no mar. Tanto parecia ter mudado.
— O que está acontecendo com você? — ela perguntou.
— Eu não sei o que você quer dizer — disse Julian. — Eu estou de luto pela minha irmã. Como eu deveria estar agindo?
— Não assim — disse Emma. — Eu sou sua parabatai. Eu posso dizer quando algo está errado. E a tristeza não está errada. A tristeza é o que estou sentindo, o que sei que você estava sentindo ontem à noite, mas Julian, o que sinto em você agora não é isso. E isso me assusta mais do que tudo.
Julian ficou em silêncio por um longo momento.
— Isso vai soar estranho — disse ele finalmente. — Mas eu posso tocar em você?
Emma deu um passo à frente, de modo que ela estava entre as pernas dele, ao alcance do braço.
— Sim — ela disse.
Ele colocou as mãos nos quadris dela, logo acima da faixa de seus jeans. Ele a puxou para mais perto, e ela colocou as mãos gentilmente nas laterais do rosto dele, enroscando as pontas dos dedos contra as maçãs do rosto dele.
Ele fechou os olhos e ela sentiu seus cílios roçarem as laterais de seus dedos. O que foi? ela pensou. Julian, o que foi?
Não era como se ele nunca tivesse escondido nada dela antes. Ele escondeu toda uma vida secreta dela por anos. Às vezes, ele era como um livro escrito em uma linguagem indecifrável. Mas agora ele era como um livro que havia sido fechado e trancado com uma dúzia de cadeados pesados.
Ele inclinou a cabeça contra ela, o cabelo macio e ondulado roçando sua pele onde sua camiseta subia. Ele levantou a cabeça ligeiramente e ela sentiu o calor de sua respiração através do tecido. Ela estremeceu quando ele deu um beijo suave no ponto logo acima do osso do quadril; quando ele olhou para ela, seus olhos estavam febris.
— Acho que resolvi nosso problema — disse ele.
Ela engoliu seu desejo, sua confusão, seu emaranhado de sentimentos indiferentes.
— O que você quer dizer?
— Quando Robert Lightwood morreu — disse Julian. — Perdemos nossa chance de exílio. Eu pensei que talvez a tristeza, a dor esmagadora disso, me fizesse parar de amá-la. — Suas mãos ainda estavam nos quadris de Emma, mas ela não se sentia confortada por isso: Sua voz era terrivelmente sem entonação. — Mas não parou. Você sabe disso. Noite passada…
— Nós paramos — disse Emma, suas bochechas corando como ela se lembrava: o chuveiro, o emaranhado de lençóis, o gosto de sal e sabão dos beijos.
— Não são as ações, são as emoções — disse Julian. — Nada me fez parar de te amar. Nada me fez diminuir ainda mais. Então eu tive que consertar isso.
Um frio de pavor se instalou no estômago de Emma.
— O que você fez?
— Eu falei com Magnus — disse Julian. — Ele concordou em fazer um feitiço. Magnus disse que esse tipo de mágica, que bagunça as emoções das pessoas, pode ter repercussões perigosas, mas…
— Bagunça suas emoções? — Emma deu um passo para trás, e suas mãos caíram para os lados. — O que você quer dizer?
— Ele as levou — disse Julian. — Minhas emoções. Meus sentimentos por você. Eles foram embora.
— Eu não entendo. — Emma sempre se perguntou por que as pessoas diziam uma coisa dessas quando elas entendiam perfeitamente. Ela percebia agora: era porque elas não queriam entender. Era uma maneira de dizer: Não, você não quer dizer isso. Não o que acabou de falar. Me diga que não é verdade.
— Enquanto nossos sentimentos não forem mútuos — ele disse. — Não é um problema, certo? A maldição não pode acontecer.
— Talvez. — Emma respirou fundo, tremendo. — Mas não é apenas como você se sente em relação a mim. Você está diferente. Não discutiu com Jia por deixar as crianças…
Ele pareceu um pouco surpreso.
— Eu suponho que não — disse ele. Ele se levantou, estendendo a mão para ela, mas ela se afastou. Ele deixou cair o braço. — Magnus disse que essas coisas não são precisas. Por isso foi um problema. Feitiços de amor, feitiços de amor verdadeiro, o tipo que faz você se apaixonar por alguém, são magia negra. Eles são uma maneira de forçar a emoção nas pessoas. O que ele fez comigo é quase o oposto, ele não estava forçando nada em mim, eu até pedi, mas ele disse que as emoções não são singulares, é por isso que não há verdadeiras mágicas de “cancelar o amor.” Todos os seus sentimentos estão ligados a outros sentimentos, e eles estão ligados aos seus pensamentos e a quem você é.
Algo vibrou em seu pulso quando ele gesticulou: parecia um laço de tecido vermelho.
— Então ele disse que faria o melhor para afetar apenas uma parte das minhas emoções. A parte do eros. Amor romântico. Mas ele disse que provavelmente afetaria tudo o que eu também sentia.
— E afetou? — Emma disse.
Ele franziu a testa. E observá-lo franzir a testa partiu-lhe o coração: era uma emoção, mesmo que apenas frustração ou espanto.
— Sinto-me como se estivesse atrás de um painel de vidro — disse ele. — E todo mundo está do outro lado. Minha raiva ainda está lá, posso senti-la facilmente. Eu estava com raiva de Jia. E quando subi a pira atrás de Ty foi instinto, uma necessidade de protegê-lo, mas não havia pensamento consciente para isso. — Ele olhou para as mãos enfaixadas. — Ainda sinto pesar por Livvy, mas é suportável. Não parece arrancar o meu ar. E você…
— E nós — Emma disse severamente.
— Eu sei que te amei — disse ele. — Mas eu não consigo sentir isso.
Amei. O pretérito do verbo era como levar um soco; ela deu outro passo para trás, em direção à porta. Ela tinha que sair do quarto.
Suplique-me para não deixar-te — recitou ela, segurando a maçaneta. — Mas você me deixou. Você me deixou, Julian.
— Emma, pare — disse ele. — Ontem à noite, quando fui a Magnus, a maldição estava acontecendo. Eu senti. Eu sei, eu sei que não suportaria mais uma pessoa morrendo.
— Eu nunca teria concordado em ficar aqui se soubesse o que você fez. Você poderia ao menos ter me contado. Honestidade não é uma emoção, Julian.
Com isso, ela pensou, ele recuou — embora pudesse ter sido um indício de surpresa.
— Emma…
— Chega — disse ela, e fugiu do quarto.


Ela não estava esperando por Gwyn, Diana disse a si mesma. Ela definitivamente não estava sentada em sua cama nas primeiras horas da manhã, vestindo uma bela camisola de seda que encontrou em seu armário, mesmo que normalmente vestisse um pijama, por qualquer motivo que não fosse limpar espadas.
Ela tinha três ou quatro espadas espalhadas pela colcha, e as polia na tentativa de trazer de volta um pouco de sua glória original. Elas já foram gravados com rosas, estrelas, flores e espinhos, mas, ao longo dos anos, algumas tinham escurecido e descolorido. Ela sentiu uma pontada de culpa por ter negligenciado a loja de seu pai, misturada com a velha culpa familiar que sempre acompanhava quando pensava neles.
Houve um tempo em que tudo o que ela queria era ser Diana e ser dona da Flecha de Diana, quando ansiava por Idris e a chance de ser ela mesma no país natal dos Caçadores de Sombras. Agora, ela sentia uma inquietação que ia além disso; as velhas esperanças pareciam confinadas demais, como se fossem uma velha roupa que não lhe servia mais. Talvez você superasse seus sonhos à medida que seu mundo se expandia.
Tap. Tap. Diana levantou e saiu da cama no momento em que a janela sacudiu. Ela destrancou a janela e se inclinou para fora. Gwyn pairava ao nível de seus olhos, seu cavalo sarapintado brilhando à luz das torres demoníacas. Seu elmo estava pendurado por uma alça no pescoço de seu cavalo; havia uma espada enorme nas costas, o cabo enegrecido por anos de uso.
— Eu não pude vir mais cedo — disse ele. — Vi a fumaça no céu hoje e observei de cima das nuvens. Você pode vir comigo para onde é seguro?
Ela começou a sair pela janela antes que ele terminasse a pergunta. Deslizar para as costas do cavalo na frente dele parecia familiar agora, assim como ser circundada por seus enormes braços. Ela sempre foi uma mulher alta, e poucas coisas a faziam sentir-se pequena e delicada, mas Gwyn fazia. Era, no mínimo, um sentimento novo.
Ela deixou sua mente vagar enquanto eles voavam em silêncio, passando pela cidade, por cima de suas muralhas e dos Campos Eternos.
As piras haviam queimado até as cinzas, cobrindo a grama em estranhos círculos de cinza descascada. Seus olhos ardiam e ela desviou o olhar apressada para a floresta: as árvores verdes se aproximando e depois se estendendo abaixo deles, os riachos de prata e o ocasional surgimento de uma mansão de pedra nas margens da floresta.
Ela pensou em Emma e Julian, no choque solitário no rosto de Emma quando a Consulesa lhes disse que precisariam ficar em Idris, no preocupante vazio de Julian. Ela sabia a que o vazio do choque poderia forçá-lo.
Ela podia ver em Ty, também, o profundo silêncio e quietude causados por uma dor tão grande que nenhum lamento ou lágrimas a tocariam.
Lembrou-se da própria perda de Aria, como se deitara no chão da cabana de Catarina, girando e torcendo o corpo como se pudesse de algum modo escapar da dor de sentir falta da irmã.
— Chegamos — disse Gwyn, e eles estavam pousando na clareira da qual ela se lembrava. Gwyn desmontou e se aproximava para ajudá-la a descer.
Ela acariciou a lateral do pescoço do cavalo, que cutucou-a com seu focinho macio.
— Seu cavalo tem um nome?
Gwyn pareceu intrigado.
— Nome?
— Vou chamá-lo de Orion — disse Diana, sentando-se no chão. A grama embaixo dela era nova, e o ar tinha cheiro de pinheiros e flores. Ela recostou-se nas mãos e parte da tensão começou a sair de seu corpo.
— Eu gostei disso. O meu corcel ser nomeado por você.
Gwyn se sentou em frente a ela, mãos grandes ao lado do corpo, a testa franzida de preocupação. Seu tamanho e volume de alguma forma o faziam parecer mais desamparado do que ele seria de outra forma.
— Eu sei o que aconteceu — disse ele. — Quando a morte vem de maneiras grandes e inesperadas, a Caçada Selvagem sabe. Nós ouvimos as histórias contadas pelo sangue derramado.
Diana não sabia o que dizer — que a morte era injusta? Que Livvy não merecia morrer assim, ou de qualquer forma? Que os corações partidos dos Blackthorns nunca seriam os mesmos? Tudo parecia banal, já cem vezes dito e compreendido. Em vez disso, ela disse:
— Acho que eu gostaria que você me beijasse.
Gwyn não hesitou. Ele estava ao lado dela em um momento, gracioso apesar de seu tamanho. Ele colocou os braços ao redor dela e, então, ela estava cercada pelo calor e pelo cheiro da floresta e dos cavalos. Ela franziu o nariz levemente e sorriu, e ele beijou sua boca sorridente.
Foi um beijo gentil, mesmo com todo o seu tamanho. A suavidade de sua boca contrastava com a aridez de sua barba e a musculatura dura sob suas mãos quando ela as colocou timidamente sobre os ombros e acariciou.
Ele se inclinou para o toque com um baixo ronronar de prazer. Diana estendeu a mão para acariciar seu rosto, maravilhada com a sensação da pele de outra pessoa. Fazia muito tempo que ela imaginara algo assim: o luar e as flores eram para outras pessoas.
Mas aparentemente não. Suas grandes mãos acariciavam os cabelos dela. Ela nunca se sentiu tão quente ou tão bem cuidada, tão completamente contida no afeto de outra pessoa. Quando pararam de beijar, foi tão natural como quando começaram, e Gwyn a puxou para mais perto, colocando-a sobre seu corpo. Ele riu.
— O quê? — Ela perguntou, esticando a cabeça para cima.
— Eu me perguntei se beijar uma fada era diferente de beijar uma Caçadora de Sombras — disse ele com um sorriso surpreendentemente infantil.
— Eu nunca beijei um — disse ela. Era verdade. Há muito tempo, ela era tímida demais para beijar alguém e triste demais, e depois… — Eu beijei alguns mundanos. Eu os conheci em Bangkok; alguns eram trans, como eu. Mas naquela época eu sempre sentia muito como se estivesse mantendo o segredo de ser Nephilim, e isso caiu como uma sombra entre eu e outras pessoas… — Ela suspirou. — Sinto que talvez você seja a única pessoa além de Catarina que realmente sabe tudo sobre mim.
Gwyn fez um barulho baixo e pensativo.
— Eu gosto de tudo o que sei sobre você.
E eu gosto de você, ela queria dizer. Ela ficou chocada com o quanto gostava dele, esse estranho homem fada com sua grande gentileza e igual capacidade de violência. Ela experimentara seu lado gentil, mas pelas histórias de Mark, ela sabia que havia outro lado dele: o que liderava a Caçada Selvagem em seu caminho sangrento entre as estrelas.
— Vou contar tudo a eles — ela disse. — Emma e Julian. Estamos todos juntos, presos aqui em Idris, e eu os amo como se fossem meus irmãos mais novos. Eles deveriam saber.
— Faça isso se for tranquilizá-la — disse Gwyn. — Você não lhes deve nada; cuidou deles e os ajudou, e eles a conhecem como quem você é. Nenhum de nós deve cada pedaço da história de nossa alma a outra pessoa.
— Estou fazendo isso por mim. Eu serei mais feliz.
— Então faça. — Gwyn deu um beijo em sua cabeça.
Diana sentou-se no círculo quente de seus braços e pensou em Livvy e em como a tristeza e o contentamento podiam compartilhar um lugar no coração humano. Ela se perguntou que perdas Gwyn tinha sofrido em sua vida. Ele deve ter tido uma mãe, um pai, irmãos e irmãs, mas ela não podia imaginá-los e ainda não conseguia perguntar.
Mais tarde, quando caminhavam para o cavalo de Gwyn para a viagem de volta a Alicante, ela notou que as pontas dos seus dedos estavam manchadas de cinza e franziu a testa.
Cinzas das piras devem ter sido sopradas ao vento naquela manhã, mas ainda assim. Era muito estranho.
Ela tirou isso de sua mente quando Gwyn a ergueu nas costas de Orion e eles voaram rumo às estrelas.


Os quartos da Scholomance não eram tão agradáveis quanto os quartos da maioria dos Institutos, nem tão desagradáveis quanto os da Academia dos Caçadores de Sombras. Eles eram limpos e vazios e davam, na opinião de Diego, uma sensação de mosteiros. Cada quarto tinha duas camas, duas escrivaninhas pesadas e — graças à ausência de closets — dois guarda-roupas maciços.
Devido ao baixo número de matrículas, Diego geralmente não tinha um companheiro de quarto, mas no momento, Kieran estava deitado em um emaranhado ranzinza no chão, envolto em cobertores.
Dobrando os braços atrás da cabeça, Diego olhou para o teto. Ele memorizou os caroços e elevações no gesso. Pela primeira vez em sua vida, não tinha concentração para ler ou meditar. Sua mente escorregava como uma aranha nervosa entre Jaime, Cristina, os Dearborn e o novo Inquisidor.
Sem mencionar o infeliz príncipe fada que se debatia no chão.
— Quanto tempo você está planejando me manter aqui? — A voz de Kieran estava abafada. Ele tirou um pedaço do cobertor do rosto e olhou para o teto como se pudesse entender o que Diego viu nele.
— Manter você aqui? — Diego rolou para o lado. — Você não é um prisioneiro. Pode ir embora quando quiser.
— Eu não posso — disse Kieran. — Eu não posso voltar para a Caçada Selvagem sem trazer a ira do Rei sobre a Caçada. Não posso voltar para o Reino das Fadas, pois o Rei me encontrará e me matará. Não posso vagar pelo mundo como uma fada selvagem, pois serei reconhecido e ainda não sei se o Rei está me procurando.
— Por que não volta ao Instituto de Los Angeles? Mesmo se estiver com raiva de Mark, Cristina irá…
— É por causa de Mark e Cristina que não posso ir para lá — o cabelo de Kieran estava mudando de cor na penumbra, azul escuro à branco pálido. — E não estou zangado com nenhum deles. É só que eu não quero... — ele se sentou. — Ou talvez eu queira muito.
— Nós podemos descobrir quando chegar a hora — disse Diego. — O que será melhor para você.
Kieran olhou para ele, um olhar estranho e agudo que fez Diego se apoiar em seu cotovelo.
— Não é isso o que você sempre faz? — ele perguntou. — Decide que encontrará uma solução quando chegar a hora, mas quando o pior acontece, você se vê despreparado.
Diego abriu a boca para protestar quando houve uma batida na porta. Kieran foi embora num piscar de olhos, tão rápido que Diego só pôde adivinhar para onde ele havia desaparecido.
Diego pigarreou e gritou:
Pásale!
Divya entrou no quarto, seguido por Rayan. Eles estavam em seus uniformes, Rayan vestindo um suéter grosso sobre o dele. Tanto ele quanto Divya acharam difícil se acostumar com o ar frio na Scholomance.
Divya carregava uma luz enfeitiçada, seus raios iluminando uma expressão ansiosa.
— Diego — disse ela. — Kieran está aqui?
— Acho que ele está debaixo da cama — disse Diego.
— Isso é estranho — disse Rayan. Ele não parecia ansioso, mas Rayan raramente traía muita emoção.
— Ele poderia estar no guarda-roupa — disse Diego. — Por quê?
— A Tropa — disse Divya. — Zara e alguns dos outros, Samantha e Manuel e Jessica, acabaram chegar com o professor Gladstone.
Kieran saiu de debaixo da cama. Havia uma bola de poeira no cabelo dele.
— Eles sabem que estou aqui? — Ele se sentou, os olhos brilhando. — Me dê uma arma. Qualquer arma.
— Acalme-se — Divya levantou a mão. — Na verdade, estávamos pensando em uma abordagem mais contida. Como escondê-lo.
— Eu já estava me escondendo — apontou Kieran.
— Ele estava debaixo da cama — disse Diego.
— Sim, mas já que Zara Dearborn está prestes a falar com Diego, este não é o quarto mais seguro — disse Rayan. — E a Tropa suspeita de lealdade de Diego à causa deles de qualquer maneira.
— É mesmo — disse Divya. — Nós os ouvimos conversando.
Ela estendeu a mão para Kieran como se para ajudá-lo a se erguer. Ele olhou com surpresa, depois levantou-se sem ajuda.
— Eu não a mataria se ela estivesse desarmada — disse Kieran. — Eu a desafiaria para uma luta justa.
— Sim, e então todos saberiam que você estava aqui, incluindo a Clave — disse Divya. Ela estalou os dedos. — Vamos. Vamos lá. Pare de perder tempo.
Kieran parecia um pouco atordoado. Ele olhou para Diego e Diego assentiu.
— Será mais seguro para nós dois.
— Você que manda — disse Kieran, e seguiu Rayan e Divya para fora do quarto, a luz enfeitiçada oscilando sobre todos eles. Eles escorregaram nas sombras e foram embora; Diego mal teve tempo de sair da cama e vestir uma camiseta antes que a porta se abrisse.
Zara estava na porta com as mãos nos quadris, carrancuda. Diego se perguntou se deveria agradecê-la por bater, mas decidiu que ela provavelmente não entenderia o sarcasmo.
— Estou farta de você — disse ela.
Diego recostou-se no guarda-roupa e cruzou os braços sobre o peito. Os olhos de Zara desceram para seus bíceps. Ela sorriu.
— Eu realmente tive esperança para a nossa aliança — disse ela. — Mas é melhor você se endireitar e parar de simpatizar com os membros do Submundo, criminosos e ingratos.
— Ingratos? — Diego ecoou. — Só posso sair com os agradecidos?
Zara piscou.
— O quê?
— Não tenho certeza se essa palavra significa o que você acha que significa — disse Diego. — Inglês é minha segunda língua, mas…
— Os Blackthorns são ingratos — esclareceu ela. — Você precisa esquecê-los e a todos associados a eles.
Os olhos dela o perfuraram.
— Se você quer dizer Cristina, somos apenas amigos…
— Eu não me importo. Os Blackthorns são terríveis. Mark é um mestiço, Ty é um pouco recluso, Dru é gorda e estúpida, e Julian é como… como Sebastian Morgenstern.
Diego começou a rir.
— Ele é o quê?
Ela corou.
— Ele ressuscitou os mortos!
— Ele não ressuscitou, na verdade — disse Diego, embora soubesse que isso não importava. A Tropa mudava constantemente as regras do jogo quando tentavam argumentar. Eles não se importavam muito se as provas eram precisas, nem se interessariam pela diferença entre ressuscitar os mortos e apenas associar-se a eles.
— Você vai se arrepender quando ele estiver queimando o mundo — ela disse sombriamente.
— Eu aposto que vou — disse Diego. — Olha, você tem mais alguma coisa a dizer? Porque é o meio da noite e eu gostaria de dormir um pouco.
— Lembre-se por que você concordou em ficar noivo de mim em primeiro lugar — disse ela, com um sorriso afiado. — Talvez você devesse pensar em quais seriam as consequências se eu tivesse que acabar com tudo.
Ela se virou para ir e Diego a viu parar, como se tivesse visto algo que a surpreendeu. Ela lançou um último olhar para ele e saiu pelo corredor.
Não havia trancas na porta. Tudo o que Diego podia fazer era chutá-la antes de cair de novo na cama. Ele olhou para o teto novamente, mas desta vez ele não forneceu distração.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!