5 de abril de 2019

Capítulo 4

Elena não contou a ninguém sobre a menina que encontraram no bosque. Ela e Stefan sacudiram a garota e despejaram água fria em seu rosto, tentando despertá-la sem ter de levá-la ao hospital. O sangue se acumulava nas ataduras que eles colocaram nas feridas da menina — Damon tinha mordido fundo demais, dissera Stefan —, e finalmente Stefan deu-lhe sangue do próprio pulso, fazendo careta, para ajudar na cura. Ele não achava certo fazer isso, Elena sabia: a troca de sangue era íntima demais, o que para Stefan significava amor, mas que outra coisa podiam fazer? Não podiam deixar que ela morresse.
Quando a garota finalmente recuperou a consciência, Stefan a influenciou a esquecer o que tinha acontecido, e ele e Elena a ajudaram a voltar à irmandade. Quando a deixaram, perto do amanhecer, ela estava corada e dando risadinhas, certa de que só tinha ficado fora até tarde demais, bebendo numa noite fabulosa.
De volta ao seu quarto de alojamento, Elena tentou dormir, mas estava agitada demais. Revirava-se debaixo dos lençóis de algodão limpos, lembrando-se da frustração nos olhos de Stefan ao dizer a ela, Foi Damon, e o lampejo de pânico reprimido que percebeu quando ele disse: Temos de manter isso em segredo.
Elena sabia que Damon ainda se alimentava de humanos, embora em geral conseguisse não pensar nisso. Mas ele não tinha causado nenhum dano real, não por um bom tempo. Ultimamente usava seu Poder para convencer meninas bonitas a dar seu sangue de boa vontade, depois as deixava sem nada além de uma vaga lembrança de uma noite passada com um homem encantador e misterioso com um sotaque italiano. Se é que se lembravam de alguma coisa. Às vezes ficavam simplesmente com um buraco na memória.
E certamente isso estava errado. Elena sabia, mesmo que Damon não soubesse. As meninas não estavam em seu juízo perfeito. Ele se alimentava delas e elas jamais compreendiam de fato o que tinha acontecido. Elena tinha certeza de que, se acontecesse com ela, ou com Bonnie, ou com qualquer uma de quem gostasse, ela ficaria ultrajada e enojada. Mas ela conseguia ignorar os fatos quando o resultado final — Damon satisfeito e suas vítimas aparentemente incólumes — parecia tão favorável.
Mas dessa vez ele claramente não se preocupou em ter cuidado com a menina, ou ir com calma. Ela ficou sangrando sozinha na mata e, quando finalmente despertou, foi aos gritos. Elena estremeceu com a lembrança, nauseada de culpa.
Era esta a realidade que esteve ignorando? Talvez Damon estivesse atacando as pessoas o tempo todo e escondendo dela, e a ideia da vítima abobada, inconsciente e feliz fosse uma mentira. Ou talvez tenha havido uma mudança e a culpa era de Elena. Será que Damon fez isso por raiva, porque ela escolhera Stefan?


Elena tentou mais uma vez falar com Damon, mas quando o telefone tocou e caiu na caixa postal, ela apertou o botão para encerrar a chamada. Estava ligando para Damon sem parar, a manhã toda, e já deixara alguns recados, mas ele não atendia nem dava retorno.
— Era Stefan? — perguntou Bonnie, saindo do banheiro e secando os cabelos com uma toalha. Cachos ruivos se enroscavam selvagemente sobre o rosto, em todas as direções. — Ele está vindo pra cá?
— Todo mundo deve chegar aqui a qualquer minuto — respondeu Elena, sem corrigir a suposição de Bonnie. Eles decidiram se encontrar hoje para planejar a defesa contra os vampiros Vitale e pensar em como impedi-los de ressuscitar Klaus.
E logo, todos (exceto Damon) estavam lá: Meredith sentada em sua cama, os olhos cinzas atentos enquanto cuidadosamente afiava uma faca de caça; Matt, ainda pálido, recurvado na cadeira da escrivaninha de Elena; Bonnie e Zander aconchegados na cama de Bonnie, adoravelmente felizes com a empolgação do novo amor, apesar da gravidade da situação. Enquanto Elena olhava para eles, Zander murmurou alguma coisa no ouvido de Bonnie e ela corou.
Stefan se juntou a Elena na cama, pegando sua mão. Mesmo depois de um ano, ela sentiu uma onda de excitação correr da ponta dos dedos diretamente ao coração. Ela o olhou por um momento, procurando algum sinal do aborrecimento que ele teve na noite anterior, um pista se ele conseguira falar com Damon, mas não havia nada.
— Muito bem, pessoal — disse Meredith, passando o polegar pela lâmina afiada da faca. — Sabemos que Ethan está escondido...
— Espere aí — disse Elena. — tem uma coisa que preciso contar a todos vocês. — Os olhos de Stefan se voltaram rapidamente aos dela, rígidos e brilhantes, e ela percebeu que estava enganada ao pensar que ele estava calmo. O segredo sobre Damon pesava sobre ele.
— Hummm. — Ela estava nervosa, o que não lhe era característico.
Lembrou-se de como todos se sentiram em relação às Guardiãs frias e didáticas que conheceram na Dimensões das Trevas, aquelas que lhe despojaram de seus Poderes (dolorosamente — ela não conseguia esquecer o quanto doeu quando elas cortaram suas Asas) e que se recusaram a trazer Damon de volta dos mortos. Mas ela empinou o queixo altivamente, obstinada, e continuou:
— Acabei de descobrir que sou uma Guardiã — disse sem rodeios.
Houve um silêncio.
Por fim, Zander o rompeu.
— Uma guardiã de quê? — perguntou ele, inseguro, olhando para Bonnie em busca de esclarecimento.
Bonnie, de testa franzida, fez um gesto grandioso e abrangente.
— De tudo, na verdade — disse ela vagamente. — Se Elena quis dizer uma Guardiã Guardiã. — Ela procurou a confirmação em Elena, que assentiu. — São essas mulheres terríveis... Pelo menos parecem mulheres... Que têm como função manter as coisas como devem ser no universo. Não entendo realmente como Elena pode ser uma delas. Elas não vivem aqui. Era uma coisa de uma dimensão alternativa. Não são realmente pessoas, eu acho. — Ela se virou para Elena, a expressão franca e confusa. — É isso que quer dizer, Elena?
Elena desviou o olhar e ficou encarando a parede. A pele de seu rosto parecia tensa demais e seus olhos ardiam.
— James, meu professor de história, conheceu meus pais quando ainda estavam na faculdade. Ele era bem íntimo deles — disse ela aos amigos, obrigando-se a se controlar. — Ele me contou que eles concordaram em ter uma filha que seria Guardiã na Terra. Ele disse que eu deveria ser treinada pelas Guardiãs quando tivesse doze anos, mas meus pais não quiseram me entregar. — Sua voz estava um pouco trêmula e ela olhou fixamente para a gravura de Matisse que tinha pendurado acima da cama. Pressionando o ombro contra o de Stefan, encontrou conforto na solidez de seu corpo ao lado dela e não olhou para ninguém.
E então Meredith foi para seu lado e sua mão estreita pegou a de Elena. Num instante, Bonnie também tinha se espremido na cama e fitava Elena com os olhos castanhos grandes e solidários.
— Estamos do seu lado, sabe disso, Elena, — disse Meredith calmamente, e Bonnie concordou com a cabeça.
— Irmandade velociraptor, certo? — disse ela, e Elena abriu um leve sorriso com a piada interna das amigas. — Se as Guardiãs quiserem levar uma de nós, terão de levar todas. Mesmo que sejam bastante assustadoras. Nós vamos nos defender delas.
Elena soltou uma curta, e um tanto histérica, gargalhada.
— Obrigada — disse ela. — É sério. Mas não acho que exista um jeito de escapar disso. Nem sei o que significa exatamente ser uma Guardiã na Terra.
— Então é a primeira coisa que temos de descobrir — disse Meredith sensatamente. — Alaric vem me visitar neste fim de semana. Ele pode saber de alguma coisa, ou pelo menos descobrir qual é a história dos Guardiões Terrenos. — O mais ou menos noivo de Meredith, Alaric, estava fazendo doutorado em estudos paranormais, e os vários contatos que tinha às vezes eram bem úteis.
— Nós vamos pensar em alguma coisa, Elena — prometeu Bonnie.
Elena reprimiu as lágrimas. Bonnie e Meredith tinham se aproximado ainda mais, isolando-a de todos por um momento, embora Stefan ainda estivesse firme a seu lado. Ela sempre podia contar que as três se uniriam quando uma delas estivesse ameaçada. Cuidavam umas das outras desde que a pior coisa com que tinham de se preocupar no ensino fundamental eram colegas implicantes e professores malvados.
Stefan a puxou para mais perto. De seus lugares, Matt e Zander a olhavam com expressões quase idênticas de empatia e preocupação. Meredith tinha razão: Elena não estava só. Ela soltou um suspiro e seus ombros relaxaram, liberando parte da infelicidade que estivera segurando desde que James lhe contara o segredo de seu nascimento.
— Que bom que Alaric vem pra cá. É uma boa ideia pedir que ele descubra o que puder. Talvez James possa nos contar mais também — disse Elena. Ela colocou uma mecha do cabelo atrás da orelha, pensando. — Na verdade, é bom que ele possa nos dizer alguma coisa. Ele sabe disso desde que nasci. Teve vinte anos para descobrir qualquer coisa útil. — Então ela bateu palmas uma vez e tentou afastar todos os seus temores. — Mas por enquanto precisamos nos concentrar em Ethan e nos vampiros. — Elena sentiu sua antiga personalidade voltando à superfície, forte, vigorosa e pronta para fazer planos.
Stefan apertou o joelho de Elena quando levantou da cama.
— Esta noite é nossa última chance de deter Ethan — disse ele, parando no meio do quarto e olhando seriamente para todos. Seu rosto estava obscuro e intenso, os olhos verdes, agora escuros. — Amanhã é o equinócio, quando a separação entre os reinos dos vivos e dos mortos é mais fraca. É quando eles tentarão ressuscitar Klaus. Meredith, qual é a situação de nossas armas?
Meredith também se levantou e abriu o armário, pegando variados sacos de armas: seu bastão especial de caçadora com cravos de diversos materiais — prata, freixo e mínimas agulhas hipodérmicas — feitos para atingir todas as diferentes criaturas que um caçador possa vir a combater; um sortimento de facas de vários tamanhos, de uma longa adaga de prata a uma faca de bota, fina e prática, todas afiadas como navalha; bastões; estrelas ninja; facões; maças e muitas outras coisas que Elena sequer podia adivinhar os nomes.
— Uau — disse Zander, que virou de bruços na cama de Bonnie para olhar. Ele fitou Meredith com novo respeito e certo temor. — Você é um exército de uma mulher só.
Meredith corou ligeiramente.
— Pode ser exagero — disse ela, — mas gosto de estar preparada. — Ela pegou um baú de madeira no armário. — E tem isto. Alaric me ajudou a juntar tudo antes de as aulas começarem. — Ela abriu a caixa com um olhar de desculpas para Stefan, que se encolheu e deu um passo para trás, afastando-se do baú. Elena esticou o pescoço para ver. Parecia haver uma espécie de planta ali, enchendo a caixa até a borda.
Ah. A caixa estava apinhada de verbena. Devia haver o suficiente ali para incapacitar uma colônia inteira de vampiros, se conseguissem pensar num jeito de esfregá-la neles, ou obrigá-los a comer. No mínimo, todos poderiam se proteger de alguma Influência.
— Que bom — disse Stefan rapidamente, recuperando-se da reação instintiva à verbena. — Isto vem a calhar. Agora, Matt, o que pode nos dizer sobre os túneis subterrâneos?
Elena sentiu uma pequena pulsação de orgulho correr por ela quando Stefan se virou para Matt, rapidamente fazendo com que ele desenhasse num papel o que se lembrava e o que sabia do esconderijo dos Vitale e da rede de túneis. Stefan assentia e fazia perguntas, instigando gentilmente a memória de Matt, estimulando-o a contar até os menores detalhes. Os olhos de Matt se arregalavam e sua voz ganhava força à medida que as perguntas de Stefan continuavam, como se Matt começasse a ter uma noção ampliada da realidade.
Stefan mudara. Quando chegou a Fell’s Church, era tão calado e distante, relutante em prestar atenção em qualquer humano que o cercasse. Ele se sentia, Elena sabia, um doente, como se não pudesse estar entre os mortais sem espalhar a morte e o desespero.
Agora ele tinha o caráter de um líder natural. Como se sentisse os olhos de Elena o fitando, Stefan olhou para ela, os lábios formando um leve e particular sorriso. Ela sabia que esta mudança em Stefan se devia a ela e a tudo que tinha acontecido no ano anterior. Certamente, o que quer que Damon tenha feito — mesmo que estivesse novamente se afundando na violência por causa de Elena —, aqui em Stefan havia algo de que ela pudesse se orgulhar sem complicações.
— Não podemos fazer alguma coisa com toda essa verbena? — perguntou Bonnie de repente. — Tipo, queimá-la, ou dar um jeito de fazer um gás e encher os túneis com a fumaça? Se bloquearmos as outras saídas, todos os vampiros entrarão no esconderijo. Podíamos cercá-los e incendiar a casa, ou pelo menos pegar todos eles de uma vez.
— É uma boa ideia, Bonnie — disse Stefan.
Zander concordou com entusiasmo, e o rosto de Bonnie se iluminou de prazer.
Era engraçado, pensou Elena, que todos estivessem acostumados a pensar em Bonnie como uma espécie de integrante mais nova do grupo, aquela que precisava ser protegida, quando na realidade não era verdade; ela não era assim havia um bom tempo.
— Que outros recursos temos? — Stefan perguntou pensativamente, andando de um lado a outro do quarto.
— Posso pedir aos rapazes para ajudar — sugeriu Zander. — Já estamos há algum tempo atrás dos vampiros Vitale. Não vamos estar tão fortes quanto estaríamos se estivéssemos na fase lunar certa, e nem todos podem fazer a transformação sem a lua cheia. Mas trabalhamos muito bem juntos... — Sua voz falhou. — Se você nos quiser... — acrescentou ele. — Sei que não fica à vontade com lobisomens, e, para ser franco, não somos grandes fãs de vampiros. Sem querer ofender. — Ele olhou para Stefan e depois para Meredith, que ainda estava com a faca encostada na perna.
Meredith, é claro, era a que mais provavelmente faria objeções a trazer uma alcateia de lobisomens para seu grupo. Bonnie lhes garantira que o bando de Zander era diferente dos lobisomens com que já tinha tido contato — que eles eram bons, mais parecidos com cães de guarda do que animais selvagens. Mas Meredith foi criada para caçar monstros.
Agora ela assentia lentamente para Zander e dizia apenas:
— Toda ajuda que conseguirmos será bem-vinda.
Bonnie e Meredith se olharam através do quarto, e os lábios de Bonnie se ergueram num leve e satisfeito sorriso.
— E por falar em “toda ajuda que conseguirmos” — disse Meredith —, cadê o Damon? — Ela olhou de Elena para Stefan quando eles não responderam de imediato. — É numa hora dessas que realmente podemos usá-lo. Vocês deviam ligar pra ele e colocá-lo no plano.
Sua expressão era simpática e decidida, e Elena percebeu que Meredith achou que eles hesitaram porque Elena quase namorou Damon quando ela e Stefan estiveram separados. Se Meredith soubesse a verdade, pensou ela. Mas ela jamais pode saber. Stefan e eu precisamos manter Damon em segurança.
— Quem sabe você pode ligar pra ele, Elena? — perguntou Bonnie, hesitante.
Os olhares de Elena e Stefan se encontraram. A expressão de Stefan era mais uma vez vaga e controlada, e Elena não conseguiu ver o menor vestígio de rachadura em sua armadura enquanto ele respondia, tranquila e despreocupadamente:
— Não, eu ligo para Damon. Preciso falar com ele, de qualquer forma.
Elena mordeu o lábio e concordou com a cabeça. Queria ela mesma ver Damon — estava desesperada para vê-lo, para saber o que havia de errado com ele, querendo consertar — mas ele não atendia a seus telefonemas. Talvez o que Damon precisasse dela agora fosse espaço. Ela esperava pelo menos que Stefan conseguisse falar com ele.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!