10 de abril de 2019

Capítulo 4 - Nada do que é nosso

As piras ainda ardiam conforme a procissão dava meia-volta, retornando em direção à cidade. Era comum a fumaça subir a noite toda, e as famílias se reunirem na Praça do Anjo para prantear com outras pessoas.
Não que Emma achasse provável que os Blackthorn fossem fazer esse tipo de coisa. Eles ficariam em casa, na companhia uns dos outros: tinham passado tempo demais da vida isolados para agora buscarem conforto com outros Caçadores de Sombras que mal conheciam. Ela optara por se separar do restante do grupo, irritada demais para tentar conversar de novo com Julian na frente da família dele.
— Emma — chamou uma voz a seu lado.
Ela se virou e viu Jem Carstairs.
Jem. Ficou chocada demais para falar. Antigamente, Jem fora Irmão do Silêncio, e, embora fosse um Carstairs, era um parente muito distante por ter mais de cem anos. No entanto, ele parecia ter só uns 25, usava jeans e sapatos surrados. Vestia um suéter branco, e Emma imaginou que fosse sua concessão ao uso de roupa branca para os funerais dos Caçadores de Sombras.
Jem não era mais Caçador de Sombras, embora tivesse sido durante muitos anos.
— Jem — murmurou ela, sem querer alertar outras pessoas na procissão. — Obrigada por vir.
— Eu queria que você soubesse o quanto lamento — disse. Parecia pálido e exausto. — Sei que você amava Livia como a uma irmã.
— Eu a vi morrer — falou Emma. — Você já presenciou a morte de alguém que amava?
— Já — respondeu Jem. Esse era o problema com pessoas praticamente imortais, pensou Emma. Era raro que você tivesse alguma experiência que elas já não tivessem vivenciado.
— Podemos conversar? — falou Emma abruptamente. — Só nós dois?
— Sim. Eu também queria conversar a sós com você. — E apontou uma colina baixa a certa distância, parcialmente oculta por algumas árvores.
Depois de murmurar para Cristina que ia conversar com Jem... “O Jem? Aquele cara muito velho? Que se casou com uma feiticeira? Sério?” dissera a amiga. Emma foi até onde ele estava sentado na grama, entre algumas rochas antigas.
Eles ficaram sentados em silêncio por um tempinho, admirando os Campos Eternos.
— Quando você era um Irmão do Silêncio — falou Emma subitamente —, você queimava as pessoas?
Jem se virou para encará-la. Os olhos dele eram muito escuros.
— Eu ajudava a acender as piras — respondeu. — Certa vez um sábio me disse que não podemos compreender a vida e, portanto, não podemos ter esperança de compreender a morte. Perdi muitas pessoas que eu amava para a morte, e não fica mais fácil, assim como não facilita ver as piras arderem.
— Somos pó e sombras — recitou Emma. — Acho que todos somos cinzas também.
— O objetivo do ritual é nos tornar iguais — falou Jem. — Todos somos queimados. Nossas cinzas vão construir a Cidade dos Ossos.
— Menos as dos criminosos — disse Emma.
Jem franziu as sobrancelhas.
— Livia dificilmente era uma criminosa — falou ele. — Nem você, a menos que esteja pensando em cometer um crime.
Eu já cometi. Estou criminosamente apaixonada pelo meu parabatai. A vontade de dizer aquelas palavras, de confessar para alguém — e, em particular, de confessar para Jem — era como uma pressão na cabeça de Emma. Ela retrucou sem perda de tempo:
— Alguma vez o seu parabatai se afastou de você? Quando, tipo, você que-ria conversar?
— As pessoas fazem coisas estranhas quando estão de luto — falou Jem suavemente. — Mais cedo, fiquei observando de longe. Vi Julian escalar o topo da pira por causa do irmão. Sei o quanto ele sempre amou essas crianças. Nada que ele disser ou fizer agora, nesses primeiros e piores dias, vai ser do feitio dele. Além disso — emendou, esboçando um sorriso —, ser parabatai é complicado. Uma vez eu dei um soco na cara do meu parabatai.
— Você fez o quê?
— O que eu disse. — Jem parecia se divertir com o espanto de Emma. — Dei um soco no meu parabatai. Eu o amava mais do que a qualquer um que já amei neste mundo, exceto Tessa, e dei um soco na cara dele porque meu coração estava em frangalhos. Não tenho moral para julgar ninguém.
— Tessa! — exclamou Emma. — Onde ela está?
Jem cerrou o punho na grama.
— Você já ouviu falar da doença dos feiticeiros?
Emma se recordou de ter ouvido falar da doença de Magnus, da rapidez com que sua magia enfraquecia. Que não era só com ele, que estava acontecendo com outros feiticeiros também.
— Tessa está doente? — perguntou ela.
— Não — falou Jem. — Ela ficou doente, mas se recuperou.
— Então os feiticeiros podem melhorar?
— Tessa foi a única que se recuperou da doença. Ela acredita estar protegida por seu sangue de Caçadora de Sombras, mas muitos outros feiticeiros estão doentes agora... e os feiticeiros mais velhos, que usavam magia mais poderosa e em maior quantidade, estão adoecendo primeiro.
— Como Magnus — murmurou Emma. — O quanto Tessa sabe sobre isso? O que foi que ela descobriu?
— Tessa crê que esteja ligado aos feitiços que Malcolm usou para ressuscitar Annabel — explicou Jem. — Ele usava as Linhas Ley para fortalecer a magia necromante. Se elas estiverem envenenadas, talvez estejam transmitindo o veneno a qualquer feiticeiro que faça uso delas.
— Os feiticeiros não podem simplesmente parar de usar?
— Existem poucas fontes de poder disponíveis — respondeu Jem. — As Linhas Ley são as mais fáceis. Muitos feiticeiros pararam de usá-las, mas isso significa que estão exaurindo seu poder muito rapidamente, o que também é prejudicial. — Ele lhe deu um sorriso desprovido de confiança. — Tessa vai resolver isso — acrescentou. — Ela encontrou Kit; vai encontrar essa resposta também.
Jem baixou a cabeça. Ele mantinha os cabelos curtos e Emma via as marcas das cicatrizes dos Irmãos, onde os símbolos do silêncio tinham sido desenhados, ao longo da bochecha.
— Na verdade, eu queria conversar sobre Kit — falou ele. — Em parte, foi por isso que vim.
— Sério? Por causa de Kit? Até onde sei, ele está bem. Só triste, igual a todos nós.
— Kit é mais do que um mero Herondale — falou ele. — Os Herondale são importantes para mim, mas os Carstairs e os Blackthorn também são. No entanto, Tessa e eu sabíamos que Kit estava em perigo desde que descobrimos a descendência dele. Nós nos apressamos para encontrá-lo, mas Johnny Rook o escondera muito bem.
— De quem ele descendia? Johnny Rook era um vigarista e Kit diz que sua mãe era dançarina em Las Vegas.
— Johnny era um vigarista, mas ele também tinha algum sangue de Caçador de Sombras na família... isso há muito tempo, provavelmente de centenas de anos. Mas não é o que importa. O que é importa mesmo foi o que Kit herdou da mãe. — Jem hesitou. — A família da mãe de Kit tem sido caçada pelas fadas há gerações. O Rei Unseelie sempre esteve determinado a destruí-los, e Kit é o último de sua linhagem.
Emma tombou de lado sobre a grama.
— Ai, não, chega de fadas — resmungou ela.
Jem sorriu, mas seus olhos ficaram turvos.
— A mãe de Kit foi assassinada por um cavaleiro fada — falou. — Fal. Creio que você o conheceu.
— Creio que eu o matei — disse Emma. Ela fez um esforço para se sentar novamente ao lado de Jem. — E agora fico feliz com isso. Ele matou a mãe de Kit? Isso é terrível.
— Por mais que eu quisesse, não posso contar muita coisa — falou Jem. — Ainda não. Mas posso dizer que tem sangue fada na família de Kit. A mãe dele foi perseguida, e o pai também, através das gerações. Kit está vivo porque a mãe fez um esforço tremendo para esconder o nascimento dele. Ela omitiu o vínculo entre eles e, quando morreu, o Rei pensou que a linhagem tivesse acabado de vez com ela.
— E isso mudou? — perguntou Emma.
— Tememos que sim — explicou Jem. — Tessa e eu deixamos Kit com vocês no Instituto porque a doença dos feiticeiros já tinha começado. Não sabíamos então se era alguma coisa capaz de se espalhar entre os humanos. Também precisávamos ficar no Labirinto Espiral, e não iam nos deixar levar Kit. Sempre tivemos a intenção de voltar para ele... não tínhamos ideia de que os Cavaleiros seriam enviados para encontrar vocês. Não sabemos se eles o reconheceram ou não. Ele se parece um bocado com a mãe.
— Acho que não — falou Emma. Kit se parecia apenas com Jace, em sua opinião. — Então vocês vão levar Kit agora? Não queremos perdê-lo, mas se for preciso...
— A doença dos feiticeiros só fez piorar. Tessa e eu estamos trabalhando dia e noite no Labirinto Espiral para encontrar uma cura. E tem mais uma coisa. — Ele hesitou. — Tessa está grávida.
— Ah. Parabéns! — Era a primeira boa notícia que Emma ouvia no que parecia uma eternidade.
Jem sorriu, e foi como se uma luz tivesse se acendido dentro dele. Ele passara tanto tempo sozinho, Emma sabia, imaginando que nunca teria uma família. Ter uma mulher agora e um bebê a caminho, o tipo de milagre muito corriqueiro que caracterizava uma vida muito corriqueira, devia ser extraordinário para ele.
— É maravilhoso — falou ele, e segurou a mão de Emma. — Confio em você, Emma. Só queria pedir que você tome conta de Kit, e se descobrir alguma coisa suspeita... ou algum sinal de uma busca... por favor, me avise. Estarei aqui no mesmo instante.
— Devo mandar uma mensagem de fogo? — perguntou Emma, e a felicidade por causa do bebê esmaeceu.
— Às vezes não é possível enviar uma mensagem de fogo. Há meios mais fáceis. — Ele botou alguma coisa na mão dela. Um anel simples, prateado, com uma pedra clara. — É de vidro — falou ele. — Quebre o anel e Tessa saberá; ela tem um igual.
Emma deslizou o anel pelo dedo. Pensou em Kit, fielmente ao lado de Ty durante o funeral. Pensou nos cachos claros, nos olhos azuis e no rosto delicado; será que ela deveria ter imaginado que ele tinha sangue fada? Não. Ele não se parecia com Mark. Ele parecia um Herondale. Como se ele não fosse nada mais do que isso.
— Pode confiar em mim — falou. — Vou tomar conta de Kit. Tem alguma coisa que eu possa fazer sobre as Linhas Ley?
— Seria útil ter um Caçador de Sombras em Los Angeles verificando o foco da magia de Malcolm — falou Jem. — Quando voltar para casa, entre em contato com Catarina Loss. Pode ser que ela queira sua ajuda.
— Pode deixar — falou Emma. — É bom ter um objetivo, acho. Livvy está morta... Jace e Clary estão numa missão e inalcançáveis... e Horace Dearborn é o Inquisidor. É como se não houvesse mais esperança para nada.
— Sempre há esperança — disse Jem. — Quando eu era muito jovem, ainda era permitido coletar despojos, os bens dos integrantes do Submundo podiam ser confiscados por qualquer Caçador de Sombras. Conheci um homem que guardava as cabeças das fadas mortas no Instituto que dirigia.
Emma fez um som de vômito.
— Nunca houve esse excesso de veneno percorrendo o coração maligno da Clave. Mas há muitos que sabem que os integrantes do Submundo são nossos irmãos. Que somos todos crianças sob o Anjo. — Ele suspirou. — E embora eu não possa ficar, basta quebrar o anel e virei, não importa a distância. — Ele passou um braço em volta dela e a envolveu com força por um momento. — Cuide-se, mèi mei.
— O que significa isso? — perguntou Emma, mas ele já tinha ido embora, desaparecendo entre as árvores tão rápido quanto surgira.


Kit se levantou e ficou observando a fumaça se erguer ao longe, pela janela do quarto que ele dividia com Ty. Pelo menos, ele supunha estar dividindo um quarto com Ty. Sua bolsa estava ali, jogada num canto, e ninguém sequer se dera ao trabalho de dizer se ele deveria se alocar em outro cômodo. Ele se vestira no banheiro de manhã, saíra e se deparara com Ty vestindo uma camiseta. As Marcas dele pareciam incomumente escuras, provavelmente porque a pele era muito clara. Ele parecia tão delicado; Kit teve que desviar o olhar do formato das omoplatas, da fragilidade da coluna. Como ele podia ter aquela aparência e ainda assim ser forte o suficiente para enfrentar demônios?
Agora Ty estava no andar de baixo com o restante da família. Quando alguém morria, as pessoas costumavam cozinhar, e os Caçadores de Sombras não eram uma exceção. Alguém provavelmente preparava uma fritada. Uma fritada demoníaca.
Kit inclinou a cabeça contra o vidro frio da janela. Houve uma época em que ele poderia ter fugido, pensou. Poderia ter fugido e abandonado os Caçadores de Sombras, ter se perdido no mundo subterrâneo dos Mercados das Sombras. Ter sido como seu pai, que não era parte de mundo algum, apenas existindo entre ambos.
Pelo reflexo da janela, Kit viu a porta do quarto se abrir e Ty entrar. O menino ainda usava as roupas do velório, embora tivesse tirado o casaco e agora usasse apenas uma camiseta de manga comprida. E Kit sabia que era tarde demais para fugir, que agora ele se importava com essas pessoas, sobretudo, com Ty.
— Fico contente que esteja aqui. — Ty se sentou na cama e começou a desamarrar os sapatos. — Eu queria conversar com você.
A porta ainda estava entreaberta e Kit ouvia vozes vindo da cozinha, no andar de baixo. As vozes de Helen, Dru, Emma, e a de Julian também. Diana voltara para a própria casa. Aparentemente ela morava numa loja de armas ou coisa assim, e tinha ido buscar uma ferramenta que talvez ajudasse a tirar as farpas das mãos ensanguentadas de Julian.
As mãos de Ty pareciam bem, mas ele estivera usando luvas. Kit vira quando Julian se afastara para lavá-las na pia e parecia que estilhaços tinham explodido sobre as palmas. Emma ficara perto dele o tempo todo, a expressão preocupada, mas Julian rejeitara um iratze, alegando que só serviria para cicatrizar a pele superficialmente. A voz dele não tinha entonação, e Kit mal a reconhecera.
— Sei o que vai parecer — falou Kit, se virando e colando as costas na vidraça fria. Ty estava abaixado, e Kit captou um brilho dourado no pescoço do menino. — Mas você não está agindo do jeito que eu esperava.
Ty tirou as botas com pressa.
— Só porque eu escalei a pira?
— Não, na verdade, isso era uma coisa que eu esperava que você fizesse. Eu apenas...
— Eu subi para pegar isto — falou Ty, e pôs a mão no pescoço.
Kit reconheceu a corrente dourada e o disco fino de metal pendendo dela: o medalhão de Livvy, o mesmo que ele ajudara a colocar em Londres. Tinha um pequeno aro com os espinhos da família na frente, e ela lhe contara que Julian acrescentara um desenho no verso: dois sabres cruzados, as armas de Livvy. Kit se recordava claramente da menina segurando os cabelos enquanto ele apertava o fecho, e do cheiro do perfume dela. Sentiu o estômago revirar e disse:
— O colar de Livvy. Quero dizer, acho que isso faz sentido. Eu só pensei que você fosse...
— Chorar? — Ty não parecia zangado, mas a intensidade em seus olhos cinzentos aumentara. Ele ainda segurava o pingente. — É esperado que todo mundo esteja triste. Isso porque aceitam que Livvy está morta. Mas eu não. Eu não aceito isso.
— O quê?
— Eu vou trazê-la de volta — falou Ty.
Kit se sentou pesadamente no parapeito da janela.
— Como você vai fazer isso?
Ty largou o colar e tirou o telefone do bolso.
— Isto aqui estava no celular de Julian. Ele tirou estas fotos quando estava na biblioteca com Annabel. São das páginas do Volume Negro dos Mortos.
— Quando foi que você pegou isso? — Kit sabia que mensagens de texto não funcionavam em Idris. — Julian sabe que você está com elas?
— Eu mexi no celular dele, para ter acesso aos arquivos no meu aparelho. Acho que ele não percebeu. Então quando vi as imagens em Londres, eu... — O menino encarou Kit com a testa franzida de preocupação. — Você não vai contar para ele, vai?
— Claro que não.
— Você quer se sentar aqui perto de mim para vê-las?
Kit queria negar; mas não podia. Na verdade, ele queria que isso não estivesse acontecendo, mas estava. Quando se sentou na cama, o colchão afundou e ele esbarrou no cotovelo de Ty acidentalmente. A pele do outro era quente contra a dele, mesmo através da camiseta, como se estivesse com febre. Nunca lhe passara pela cabeça que Ty estivesse mentindo ou equivocado, e ele não parecia estar nem uma coisa nem outra.
Depois de quinze anos com Johnny Rook, Kit estava bem familiarizado com a aparência de livros de feitiços do mal e este, com certeza, parecia um deles. Feitiços escritos numa letra pequenina enchiam as páginas, juntamente a desenhos assustadores de cadáveres rastejando para fora da sepultura, rostos gritando e esqueletos queimados. Mas Ty não olhava para as imagens como se fossem assustadoras; ele as observava como se fossem o Santo Graal.
— Esse é o livro de feitiços mais poderoso que já existiu. Por isso não faz diferença se cremaram o corpo de Livvy. Com feitiços assim, ela pode ser trazida de volta inteirinha, independentemente do que foi feito ao seu corpo ou de quanto tempo se passou... — Ty se calou, a respiração entrecortada. — Mas eu não quero esperar. Quero começar assim que voltarmos para Los Angeles.
— Mas Malcolm não matou um monte de gente para trazer Annabel de volta? — perguntou Kit.
— Correlação, não causalidade, meu caro Watson — falou Ty. — O modo mais simples de fazer necromancia e com energia mortal. Vida por morte, basicamente. Mas existem outras fontes de energia. Eu nunca mataria alguém. — Ele tentou fazer uma careta de desdém, mas só conseguiu uma expressão fofa.
— Não acho que Livvy iria querer que você fizesse necromancia — observou Kit.
Ty guardou o celular.
— Não acho que Livvy quisesse estar morta.
Kit sentiu as palavras como um soco no peito, mas antes de conseguir responder, ouviu-se uma confusão no andar de baixo.
Ele e Ty correram para o topo da escada, Ty só de meias, e ambos olharam lá para baixo, na direção da cozinha. O amigo espanhol de Zara Dearborn, Manuel, estava lá, usando o uniforme de oficial do Gard, com um sorriso de desdém. Kit se inclinou mais para a frente para ver com quem conversava. Avistou Julian reclinado contra a mesa; o rosto inexpressivo. Os outros estavam alinhados ao redor da cozinha: Emma parecia furiosa, e Cristina tinha posto a mão no braço da amiga como se quisesse contê-la.
— Sério? — falou Helen, com raiva. — Você não podia esperar até o dia seguinte ao funeral de nossa irmã para arrastar Emma e Jules até o Gard?
Manuel deu de ombros, com evidente indiferença.
— Tem que ser agora — falou. — A Consulesa insiste.
— O que está acontecendo? — perguntou Aline. — Você está falando da minha mãe, Manuel. Ela não ia simplesmente exigir vê-los sem uma boa razão.
— É sobre a Espada Mortal — falou Manuel. — É uma razão suficientemente boa para todos vocês?
Ty puxou o braço de Kit, afastando-o da escada. Eles foram até o corredor no andar de cima, e as vozes na cozinha ficaram mais baixas, mas o tom ainda era imperativo.
— Você acha que eles vão? — perguntou Kit. — Emma e Jules?
— Eles têm que ir. A Consulesa pediu — disse Ty. — Mas foi ela, não foi o Inquisidor, então vai ficar tudo bem. — E se inclinou na direção de Kit, que tinha apoiado as costas na parede; o menino cheirava a fogueira. — Eu posso fazer isso sem você. Trazer Livvy de volta, quero dizer — falou. — Mas não quero. Sherlock não faz as coisas sem o Watson.
— Você contou isso para mais alguém?
— Não. — Ty cobrira as mãos com a manga da camisa e agora estava remexendo no tecido com os dedos. — Sei que precisa ser segredo. As pessoas não iam gostar, mas, quando Livvy voltar, todos vão ficar felizes e ninguém vai se importar.
— Melhor pedir perdão a permissão — falou Kit, sentindo-se tonto.
— Isso. — Ty não olhava nos olhos de Kit; ele nunca fazia isso, na verdade, mas seus olhos se iluminaram, esperançosos; sob a iluminação fraca do corredor, o tom acinzentado neles era tão claro que parecia até lágrimas.
Kit pensou em Ty dormindo, em como o menino dormira durante o dia inteiro da morte de Livvy, e no modo como ele o observara dormindo, apavorado com o que aconteceria quando acordasse. Todos tinham ficado apavorados. Ty não iria suportar, pensaram. Kit se lembrava de Julian de vigília, acima de Ty, enquanto o pequeno dormia, afagando os cabelos do irmão, e ele andara rezando — Kit sequer sabia que os Caçadores de Sombras rezavam, mas Julian com certeza tinha feito isso.
Ty desmoronaria num mundo sem a irmã, pensaram todos; ele viraria pó assim como o corpo de Livvy. E agora ele estava pedindo isso a Kit, dizendo que não queria fazer a coisa toda sem ele. E se Kit negasse e Ty não aguentasse a pressão de tentar fazer tudo sozinho? E se Kit arrancasse a última esperança do menino e Ty acabasse por desmoronar em consequência?
— Você precisa de mim? — perguntou Kit lentamente.
— Sim. — Ty assentiu.
— Então — falou Kit, mesmo sabendo que estava cometendo um grande erro —, eu vou ajudar.


Fazia frio na Scholomance, mesmo durante o verão. A construção fora entalhada no interior de uma montanha, com janelas compridas em toda a face do penhasco. Elas forneciam claridade, assim como os candelabros de luz enfeitiçada, em praticamente todos os cômodos, mas não forneciam aquecimento. A friagem do lago abaixo, profundo e escuro sob a luz da lua, parecia ter se infiltrado nas paredes e no soalho de pedra e daí irradiado, e por esse motivo, mesmo no início do mês de setembro, Diego Rocio Rosales vestia um suéter grosso e um casaco sobre o jeans.
Castiçais de luz enfeitiçada empoeirados lançavam sua sombra longa e estreita à frente enquanto ele cruzava apressadamente o corredor até a biblioteca. Em sua opinião, a Scholomance precisava urgentemente de uma reforma. Na única vez que seu irmão, Jaime, visitara a escola, tinha dito que ela parecia ter sido decorada pelo Drácula. Infelizmente, era verdade. Para tudo que é lado havia candelabros de ferro (que faziam Kieran espirrar) e castiçais de bronze em formato de dragão, sustentando antigas pedras de luz enfeitiçada, além de lareiras de pedra cavernosas com anjos imensos entalhados, postados junto a cada lateral de um jeito ameaçador.
As refeições comunitárias eram feitas à uma mesa comprida que poderia acomodar a população da Bélgica, embora no momento menos de vinte pessoas morassem na escola. A maior parte dos professores e dos estudantes estava em casa ou em Idris.
O que tornava mais fácil ocultar um príncipe fada no prédio.
Diego tinha ficado apreensivo com a ideia de esconder Kieran na Scholomance — ele não era bom em mentir, mesmo nas melhores circunstâncias, e o esforço de manter um “relacionamento” com Zara já o esgotara. Mas Cristina tinha pedido para ele fazer isso, e Diego faria qualquer coisa por ela.
Ele chegara ao fim do corredor, onde ficava a porta da biblioteca. Há muito tempo, a palavra “Biblioteca” costumava adornar a porta com letras douradas; agora restavam apenas os contornos das letras, e as dobradiças rangeram feito camundongos assustados quando Diego empurrou a porta.
Na primeira vez em que viu a biblioteca, ele achou que fosse uma pegadinha. Um cômodo imenso, que ficava no andar mais alto da Scholomance, com telhado feito de um vidro grosso invadido pela luminosidade.
Durante o tempo em que a escola ficara deserta, árvores imensas tinham crescido no solo sob o piso: Kieran havia comentado que elas pareciam ter a força dos carvalhos do Reino das Fadas. Ninguém tivera tempo ou dinheiro para removê-las dali. Então assim permaneceram, cercadas pela poeira das pedras quebradas, suas raízes rachando o chão e serpenteando entre cadeiras e mesas. Os galhos se espalharam bem acima e formaram uma cobertura sobre as prateleiras, forrando os assentos e soalhos com folhas caídas. Às vezes Diego se perguntava se Kieran gostava daqui exatamente porque o local o fazia se lembrar de uma floresta. Sem dúvida, ele passava a maior parte do tempo sentado perto da janela, um tanto soturno, lendo tudo na seção sobre fadas. E empilhava os livros que considerava precisos em suas informações. A pilha era pequena.
Ele ergueu o olhar quando Diego entrou. Seu cabelo estava preto-azulado, da cor do lago da paisagem da janela. Tinha posto dois livros na pilha dos adequados e lia um terceiro: Hábitos de acasalamento dos Unseelie.
— Não conheço ninguém no Reino das Fadas que tenha se casado com um bode — disse, irritado. — Nem na corte Seelie ou na Unseelie.
— Não leve para o lado pessoal — falou Diego, puxando uma cadeira e se sentando de frente para Kieran.
Via o reflexo de ambos na janela. Os pulsos ossudos de Kieran se sobressaíam debaixo das mangas do uniforme emprestado. As roupas de Diego tinham ficado grandes demais para ele, então Rayan Maduabuchi se oferecera para lhe emprestar algumas, e sequer pareceu incomodado com o fato de Diego estar escondendo uma fada em seu quarto; nada perturbava a tranquilidade de Rayan. Divya (a outra melhor amiga de Diego na escola), por outro lado, pulava de nervoso sempre que alguém mencionava estar indo à biblioteca, apesar da incrível habilidade de Kieran em se esconder.
Divya e Rayan eram as únicas pessoas a quem Diego contara sobre Kieran, sobretudo porque eram as únicas pessoas em quem ele confiava atualmente na Scholomance. Somente um professor permanecera no local: o professor Gladstone, que nesse momento estava em Idris para o funeral do Inquisidor. Embora tivesse havido uma época em que Diego teria confiado num professor sem pensar duas vezes, isso agora era passado.
— Você teve alguma notícia de Idris? — perguntou Kieran, baixando o olhar para o livro.
— Você quer dizer de Mark? — falou Diego — E não, eu não tive notícias dele. Ele não é lá muito fâ da minha pessoa.
Kieran ergueu o olhar.
— E tem alguém que seja?
De algum modo, ele conseguiu fazer a pergunta sem soar ofensivo, como se quisesse simplesmente saber. Diego, que às vezes se perguntava a mesma coisa, não respondeu.
— Imaginei que talvez você tivesse notícias de Cristina. — Kieran fechou o livro, marcando a página com o dedo. — Se ela está bem, e Mark... Eu pensei que o funeral fosse hoje.
—E foi — retrucou Diego. Ele também achou que teria notícias de Cristina. Sabia que ela gostava muito de Livia Blackthorn. — Mas funerais para nós são uma época muito corrida. Há muitas cerimônias e um monte de pessoas nos visitando e oferecendo condolências. Talvez ela não tenha tido tempo.
Kieran parecia insatisfeito.
— Parece irritante. No Reino das Fadas, sabemos deixar as pessoas enlutadas em paz.
— É irritante, mas também não é — falou Diego, e pensou na morte de seu avô. E em como a casa fora tomada pelas velas, que ardiam com uma bela luz. E que as visitas tinham trazido comida, e que todos comeram e beberam juntos, e compartilharam lembranças de seu abuelo. Para tudo que é lado havia calêndulas, o cheiro de canela de atole e o som de risadas. Ele achava que curtir o luto sozinho era frio e solitário. Mas as fadas eram diferentes.
Kieran semicerrou os olhos, como se tivesse visto alguma coisa reveladora na expressão de Diego.
— Tem um plano para mim? — perguntou ele. — Para onde vão me mandar quando eu não mais tiver que me esconder aqui?
— Eu tinha imaginado que talvez você quisesse voltar para Los Angeles — falou Diego, surpreso.
Kieran balançou a cabeça. Mechas de cabelo se tornaram brancas; a cor dos cabelos dele parecia mudar de acordo com seu humor.
— Não. Não vou voltar para onde Mark está.
Diego ficou em silêncio. Ele não tinha um plano de fato. Cristina havia pedido que escondesse Kieran, mas nunca explicara por quanto tempo. E ele só fizera o favor porque sabia ter uma dívida para com ela; tinha pensado em Zara — lembrado da mágoa no rosto de Cristina na primeira vez que ela vira a filha de Horace.
A culpa tinha sido dele. Não contara sobre Zara porque ficara torcendo desesperadamente para que algo acontecesse e o livrasse do noivado antes que o encontro entre elas fosse necessário. Foram os Dearborn que insistiram no contrato nupcial. Eles ameaçaram tornar público os segredos da família Rocio Rosales caso Diego não tomasse uma atitude para provar que dizia a verdade ao afirmar que não sabia onde o irmão se encontrava e que não sabia o paradeiro do artefato que Jaime tinha surrupiado. Nunca houve dúvida sobre o amor dele por Zara ou se ao menos era recíproco. Ela parecia considerar uma vitória estar noiva do filho de uma família importante, mas não havia paixão nela, exceto a paixão pelas causas horríveis que seu pai defendia.
Kieran arregalou os olhos.
— O que é aquilo?
Aquilo era uma luz intensa, semelhante a um fogo-fátuo, acima do ombro de Diego. Uma mensagem de fogo.
Ele a pegou no ar e o papel se desenrolou em sua mão. No mesmo instante, reconheceu a letra.
— Cristina — falou. — É uma mensagem de Cristina.
Kieran se sentou tão depressa que o livro caiu de seu colo no chão.
— Cristina? O que ela diz? Ela está bem?
Estranho, pensou Diego; ele imaginava que Kieran fosse perguntar se Mark estava bem. Mas o pensamento voou de sua mente quase que imediatamente, encoberto pelas palavras que lia.
Sentindo como se tivesse levado um chute no estômago, Diego entregou a mensagem a Kieran, e observou o outro ficar pálido conforme tomava conhecimento que Horace Dearborn se tornara o novo Inquisidor.
— Isso é um golpe duro para a família Blackthorn — falou Kieran, a mão trêmula. — Eles ficarão arrasados, assim como Cristina. E ele é um homem perigoso. Um sujeito mortal. — Ele ergueu o olhar para Diego, os olhos negros como a noite e turvos como uma tempestade. — O que nós podemos fazer?
— É evidente que eu não sei nada sobre as pessoas — falou, pensando em Zara, Jaime, em todas as mentiras que tinha contado, e em como nenhuma delas surtira o efeito desejado, só servindo para piorar as coisas ainda mais. — Ninguém deveria me pedir soluções para o que quer que seja.
Enquanto Kieran o observava, atônito, Diego baixou o rosto entre as mãos.


— Eu sei que essas palavras não devem fazer o menor sentido agora — falou Jia —, mas eu sinto muito por Livia.
— Você tem razão — falou Julian —, não fazem mesmo.
Era como se a tristeza tivesse mergulhado Julian numa banheira de gelo, pensou Emma. Tudo nele estava frio: seus olhos, a expressão, o tom da voz. Ela tentou se lembrar do menino que se agarrara a ela com tanta paixão na véspera, mas isso parecia ter acontecido um milhão de anos atrás.
Era fim de tarde, e as torres demoníacas se erguiam sobre o horizonte de Alicante como uma fileira de diamantes brutos. Emma olhou ao redor, se lembrando da última vez que estivera neste cômodo — tinha apenas 12 anos, e ficara tão impressionada ao ver como tudo era luxuoso, com tapetes densos e uma escrivaninha de mogno reluzente. Agora ela, Julian e Diana estavam sentados em poltronas diante da mesa de Jia. Diana parecia furiosa. Julian simplesmente tinha o olhar vazio.
— Esses meninos estão cansados e em pleno luto — falou Diana. — Respeito sua decisão, Jia, mas tem que ser agora?
— Tem — falou — porque Horace Dearborn quer interrogar Helen e Mark e qualquer outro integrante do Submundo, ou parcialmente do Submundo, em Alicante. Magnus e Alec já estão arrumando suas coisas para sair daqui hoje à noite via Portal. Evelyn Highsmith retornou ao Instituto de Londres, para que eles possam voltar para casa, em Nova York. — Jia pressionou a testa com os dedos. — Eu imaginava que você fosse querer que Helen e Mark também fossem embora.
— Ele quer o quê? — Emma se endireitou na cadeira, indignada. — Você não pode deixá-lo fazer isso.
— Não tenho escolha. Ele foi eleito pela maioria. — Jia franziu a testa. — O Inquisidor tem como função interrogar as pessoas... a decisão fica a critério dele.
— Horace Dearborn não tem juízo — falou Diana.
— É por esse motivo que eu estou avisando a vocês com antecedência — falou Jia. — Sugiro que Helen e Mark... e Aline, pois ela não vai sem Helen... viajem via Portal até Los Angeles hoje à noite.
Fez-se um momento de silêncio.
— Você está se oferecendo para mandar Helen a Los Angeles? — falou Julian finalmente. — E não para a Ilha Wrangel?
— Estou sugerindo que Helen e Aline assumam temporariamente a direção do Instituto de Los Angeles — falou Jia, e Emma sentiu seu queixo cair de verdade. — Como Consulesa, isso está em meu poder, e acredito que possa fazer agora enquanto Dearborn está distraído.
— Então você está dizendo que todos nós deveríamos viajar via Portal de volta? — insistiu Emma. — E que Helen e Aline podem ir com a gente? Isso é ótimo, isso é...
— Ela não está se referindo a todos nós — falou Julian. Suas duas mãos tinham ataduras. Ele havia tirado a maior parte das farpas sozinho, com a ponta de uma faca afiada, e havia sangue nas bandagens. Jules não parecera sentir dor alguma ao fazê-lo; já Emma sentira toda a dor ao observar a pele se rasgar sob a lâmina, mas ele não hesitara. — Ela está dizendo que Diana, você e eu vamos ficar aqui em Idris.
— Você sempre foi inteligente, Julian — falou Jia, embora sua voz não transparecesse tanta admiração assim por tal qualidade. — Se Helen e Mark não estiverem aqui, ele vai nos interrogar — disse Julian. — Não é verdade?
— Não — respondeu Diana rispidamente. — Eles são crianças.
— Sim — falou Jia. — E um deles quebrou a Espada Mortal. O Inquisidor, como todo mundo, está desesperado para saber como isso aconteceu. Cortana é uma espada lendária, mas ainda assim é só uma espada. Não deveria ter sido capaz de destruir Maellartach.
— Ele pode perguntar a mim, mas eu não sei como quebrou — disse Emma. — Eu a brandi na direção de Annabel porque ela estava tentando me matar. Foi legítima defesa...
— As pessoas estão apavoradas. E o medo não é um sentimento lógico — retrucou Jia. — Graças ao Anjo, o Cálice e o Espelho estão intactos. — Ela suspirou. — Esse é o pior momento para a Espada Mortal ter se quebrado, um momento de instabilidade grave às vésperas de uma possível guerra contra as fadas. E depois que o Rei Unseelie raptou Annabel do Salão do Conselho... vocês não entendem que a Clave sabe que foram vocês que a trouxeram para cá?
— Fui eu que trouxe, sozinho. — O contorno da boca de Julian estava branco. — Emma não tem nada a ver com isso.
Emma sentiu uma breve centelha de alívio se acender em meio ao pânico. Ele ainda fica do meu lado.
Jia baixou os olhos para as mãos.
— Se eu mandasse todos para casa agora, haveria um motim. Se Dearborn puder interrogá-los, então a atenção pública vai sair de cima de vocês. A Tropa questiona sua lealdade, sobretudo, por causa de Helen e de Mark.
Julian deu uma risada amarga.
— Eles suspeitam da gente por causa dos meus irmãos? E não porque eu trouxe aquela criatura... porque eu trouxe Annabel para dentro da cidade? E prometi que tudo ficaria bem? Mas é o sangue de Mark e Helen que importa?
— O sangue sempre importa para o tipo errado de pessoa — respondeu Jia, com uma amargura rara na voz. Passou uma das mãos no rosto. — Não estou pedindo que vocês fiquem do lado dele. Meu Deus, não é isso que estou pedindo. Apenas façam-no entender que vocês são vítimas de Annabel. Quem não faz parte da Tropa está muito solidário a vocês neste momento por causa de Livia, e ele não vai querer ir de encontro à opinião pública.
— Então o que estamos fazendo é um teatrinho sem sentido? — perguntou Emma. — Deixamos o Inquisidor nos interrogar, para manter as aparências, e depois podemos voltar para casa?
Jia sorriu de modo sombrio.
— Agora você entende como a política funciona.
— Você não teme indicar Aline e Helen para a direção do Instituto de Los Angeles? Dada a desconfiança que a Tropa nutre em relação a Helen? — perguntou Diana.
— Vai ser só Aline.
Julian encarou Jia sem desviar os olhos.
— A filha da Consulesa. Helen não vai dirigir nada.
— É verdade — falou Jia. — E não, eu também não gosto nada disso. Mas pode ser a chance de tirá-las permanentemente da Ilha Wrangel. É por isso que estou pedindo a ajuda de vocês... dos três.
— Eu também vou ser interrogada? — Havia uma tensão aguda na voz de Diana.
— Não — respondeu Jia. — Mas eu gostaria da sua ajuda. Assim como você me ajudou com aqueles arquivos.
— Arquivos? — repetiu Emma. — Como é que uns arquivos podem ser importantes agora?
Mas era como se Diana tivesse entendido um pouco da linguagem secreta na qual Jia falava.
— É evidente que vou ficar — retrucou. — Desde que fique claro que estou ajudando você e que meus interesses não estão de modo algum alinhados com os do Inquisidor.
— Entendo — falou Jia. E as palavras nem os meus estão pairaram implícitas.
— Mas as crianças — insistiu Emma. — Elas não podem voltar para Los Angeles sem a gente. — E se virou para encarar Julian, esperando que ele dissesse que não aceitaria ser separado de seus irmãos mais novos. Que as crianças precisavam dele, e que deveriam ficar em Idris.
— Helen pode tomar conta deles — falou ele, sem fitá-la. — É o que ela quer. Tudo vai ficar bem. Ela é irmã deles.
— Então está decidido — concluiu Jia, levantando-se de trás da mesa. — Você pode arrumar as coisas das crianças... vamos abrir o Portal hoje à noite.
Julian também se levantou, afastando com uma das mãos enfaixadas a mecha de cabelo que tinha caído sobre os olhos. Qual é o seu problema?, pensou Emma. Tinha alguma coisa rolando com Julian, algo que ia muito além da tristeza. Ela só não sabia o que era, mas sentia, naquele lugarzinho profundo onde o vinculo parabatai apertava seu coração. E mais tarde, naquela mesma noite, quando os outros fossem embora, ela ia descobrir o que era.

4 comentários:

  1. OBRIGADO KARINA, TE AMO!!! AAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHH

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  2. Ai que triste :( tô muito chateado aqui e tbm to empolgado. quero só vê as tretas desse livro.

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  3. Que medo e coitado do julian.

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  4. Tu tá metido com feitiçaria, Julian?

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Boa leitura, E SEM SPOILER!