5 de abril de 2019

Capítulo 39

Stefan e Elena não conseguiam parar de se tocar. Pequenos toques, mãos entrelaçadas, um leve beijo ou um carinho na bochecha.
— Você está viva — disse Stefan para ela, com os olhos arregalados. — Eu pensei que tinha perdido você.
— Nunca — disse Elena, levantando-se da cama para puxá-lo para mais perto até que ele estava sentado na cama, encostado nela. — Eu não vou a lugar nenhum sem você.
Klaus estava morto. E Elena tinha sobrevivido. O espanto absoluto dele disso a fez zumbir de alegria.
Mas Stefan afagou os cabelos de seu rosto, e o olhar em seu olhos — amoroso, mas de alguma forma ainda envolto em preocupação — fez sua efervescência se achatar.
— O que foi? — perguntou ela, repentinamente apreensiva.
Stefan balançou a cabeça.
— A tarefa não foi cumprida — disse ele. — As Guardiãs ainda podem te levar embora.
Elena estava evitando esse pensamento com tudo o que tinha, mas ante as palavras de Stefan, ela parou e deixou o conhecimento inundá-la: as Guardiãs ainda esperavam que ela matasse Damon. E a punição por não fazer isso seria deixar a Terra. Perder Stefan.
— Eu vou amar você, aconteça o que acontecer — disse Stefan. Suas sobrancelhas estavam juntas, e Elena conhecia os terrores que o atormentavam: o medo de perder Elena depois de tudo, e o medo de perder Damon. — Seja o que for que você decidir, Elena, eu confio em você. — Ele levantou a cabeça e seu olhar era firme e verdadeiro, seus olhos brilhando.
Elena estendeu a mão e correu os dedos pela testa de Stefan, tentando apagar as linhas de seu cenho franzido.
— Eu acho que... — disse ela lentamente: — acho que posso ver uma maneira de salvar a mim e Damon. Espero.
Só então, Andrés bateu suavemente na porta entreaberta para o quarto de Elena e ela o cumprimentou com um sorriso.
— Como você está se sentindo? — perguntou ele seriamente. — Eu posso voltar mais tarde se você estiver descansando.
— Não, não — disse ela, dando tapinhas na cadeira ao lado da cama. — Eu quero que você me conte tudo o que está acontecendo.
— Se você quer falar de negócios de Guardiões, eu posso deixá-los aqui, talvez pedir algo para Elena comer — disse Stefan. — Eu não queria deixá-la sozinha.
Stefan beijou Elena mais uma vez e ela tentou derramar todo o amor e segurança que sentia em sua abraço. Quando ele finalmente recuou, as linhas de seu rosto estavam mais suaves, mais relaxadas. O que quer que Elena estivesse planejando, seu olhar assegurou-lhe, ele estaria com ela. Ao sair, Andrés ocupou a cadeira ao lado da cama.
— Stefan está cuidando de você? — perguntou ele.
— Ah, sim — disse Elena, alongando-se languidamente e tentando desligar seus pensamentos sérios por um momento. Ela quase morreu — tinha o direito de ser mimada e cativada por um dia, com certeza. — Ele tentou me fazer uma coisa chamada leite quente hoje cedo. Supostamente, estou em uma fase delicada na minha recuperação. — Ela começou a rir, mas a risada foi interrompida abruptamente quando percebeu o olhar de Andrés. — Qual é o problema? — disse ela num tom diferente, mais agudo, sentando-se. — O que aconteceu?
Andrés acenou uma mão com desdém.
— Nada aconteceu — disse ele. — Só que talvez devêssemos conversar depois que você tiver mais tempo para se recuperar. O que eu tenho a dizer não é uma má notícia, eu não acho, mas é... — ele hesitou. — Surpreendente — concluiu.
— Agora você tem que me dizer — disse Elena. — Ou eu vou me preocupar em coma. — Vendo o piscar de preocupação no rosto de Andrés, ela rapidamente acrescentou: — Estou brincando.
— Tudo bem, então — disse Andrés. — Você sabe como te encontramos nos túneis, correto?
Elena assentiu.
— Klaus estava morto — disse ela. — Você disse que havia uma lenda de que o sangue de um Guardião nascido de um Guardião Principal mataria os  Antigos. — Ela balançou a cabeça. — Essa é a primeira coisa que eu não entendo. Como eu poderia ter esse tipo de história na família sem saber?
— Estou tendo dificuldades para entender, também — disse Andrés. — Guardiões Celestiais não têm filhos, não que eu já tenha ouvido. Eles não são — ele franziu a testa — pessoas, não exatamente. Isso é o que eu acreditava, pelo menos. Acho que nós dois temos muito a aprender. — Ele enfiou a mão dentro da jaqueta e retirou um pequeno livro encadernado em couro. — Eu trouxe uma coisa que espero que ilumine algumas de suas perguntas — ele disse a ela. — Comecei a ler, e então percebi que era para os seus olhos, não pra mim. A polícia finalmente me deixou voltar para a casa de James, e eu encontrei isso lá. Creio que era sobre isso que ele te chamou, quando disse que tinha encontrado uma maneira de matar Klaus, e que ele o escondeu antes que Klaus o matasse. Deve ter sido enviado para ele depois que seus pais morreram.
— Meus pais? O que é isso? — perguntou Elena, estendendo a mão e pegando o livro. Parecia estranhamente confortável em sua mão, como se naturalmente pertencesse a ela.
Andrés hesitou por um longo momento antes de responder.
— Acho melhor que você descubra por si mesmo — disse por fim. Ele se levantou e tocou Elena no ombro por um instante. — Eu vou deixá-la sozinha.
Elena assentiu e o observou ir embora. Andrés lançou-lhe um pequeno sorriso quando fechou a porta atrás dele. Então, imaginando o que seria, ela voltou a atenção para o livro. Era bastante simples, sem quaisquer padrões ou palavras em alto-relevo do lado de fora, e estava coberto por um couro marrom claro muito macio. Ao abri-lo, ela viu que era um diário, escrito à mão em letras grandes rabiscadas, como se o escritor tivesse pressa em colocar um milhões de pensamentos e sentimentos na página.
Eu não vou deixar que eles tenham Elena, ela leu, as palavras na metade da primeira página, e engasgou. Olhando para a página, nomes apareceram: Thomas, o pai dela, Margaret, sua irmã. Era o diário da mãe dela? O peito dela ficou tenso de repente, e ela teve que piscar forte. Sua mãe bonita e equilibrada, aquela que tinha sido tão inteligente com as mãos e com o coração, que Elena amara e admirava tanto — descobrir isso era quase como ouvi-la falar mais uma vez.
Depois de um momento, ela se recompôs e começou a ler novamente.

Elena fez 12 ontem. Eu estava tirando as velas de aniversário do armário quando a marca da eternidade na palma da minha mão começou a coçar e queimar. Tinha quase desbotado em invisibilidade depois de tantos anos, mas quando olhei para minha mão, ficou subitamente tão claro quanto no dia em que comecei meus deveres.
Eu sabia que minhas irmãs estavam me chamando, lembrando-me do que acham que devo a elas.
Mas não vou deixar que elas tenham Elena. Não agora, e talvez nunca.
Não vou repetir os erros que cometi tão desastrosamente no passado.
Thomas entende. Apesar do que ele concordou quando éramos jovens, quando Elena era apenas a ideia de uma criança para ele, em vez de seu próprio jeito engraçado, determinado e perspicaz, ele sabe que não podemos simplesmente deixá-la ir. E Margaret, minha querida Margaret, os Guardiões vão querer ela também, eventualmente, por causa de quem eu costumava ser.
Os Poderes que minhas queridas garotas terão são quase inimagináveis.
E assim, os Guardiões Celestes, uma vez minhas irmãs e irmãos, desejam colocar as mãos nelas o mais cedo possível, querem educá-las para serem armas ao invés de crianças, guerreiras de olhos claros sem nenhum traço de humanidade nelas.
Uma vez, eu teria deixado. Eu me afastei de Katherine quando ela era apenas uma criança, fingi que tinha morrido, para que que ela pudesse cumprir o destino que eu acreditava ser inevitável e certo para ela.

Elena parou de ler. Sua mãe já teve outro filho? O nome devia ser uma coincidência: a Katherine que ela conhecia, A Katherine de Damon e Stefan, era centenas de anos mais velha do que ela. E estava tão longe de ser uma Guardiã quanto possível.
Havia muitas Guardiãs que se pareciam com Elena, no entanto. Ela reviu em sua mente os rostos que tinha visto na Corte Celestial: loiras eficientes, de olhos azuis, nítidas e frescas. Poderia uma delas ter sido sua irmã mais velha? Ainda assim, ela não conseguia se livrar de seu desconforto: Katherine, sua imagem espelhada. Ela continuou a ler.

Mas Katherine era uma criança doente, e os Guardiões viraram as costas pra ela, rejeitando o grande Poder que ela poderia ter sido. Ela não conseguiria acessar seu Poder por anos, e eles não achavam que ela sobreviveria por tempo o suficiente para ver aquele dia. Uma criança humana que, provavelmente, não viveria para crescer não valia a pena, nem seu tempo, eles pensavam.
Meu coração doeu por ela. Eu tinha abandonado minha filha por nada. De uma distância cuidadosa, observei-a crescer: bonita e animada apesar de suas doenças, corajosa mesmo à sombra da dor que sofria, adorada pelo pai, amado pela família. Ela não precisava da mãe que nunca conhecera. Talvez isso tenha sido melhor, pensei. Ela poderia viver uma vida humana feliz, mesmo que fosse curta.
Então, um desastre aconteceu. Um criado, pensando que iria salvá-la, ofereceu Katherine a um vampiro para ser transformada. Minha doce filha, uma criatura de alegria e de luz, foi arrastada sem cerimônia para a escuridão. E o criatura que executou a ação foi uma das piores de sua espécie: Klaus, um Antigo. Se Katherine tivesse acessado seu Poder, se as Guardiãs a tivessem feito uma delas, o sangue de Katherine o teria matado. Mas, sem essa proteção, limitou-se meramente a ligá-los, amarrando-o a ela com um fascínio que nenhum deles entendia.
Minha querida garota estava perdida, todo o seu charme e inteligência subvertidos no que, em pouco tempo, parecia ser apenas uma boneca cruel e quebrada, o brinquedo de Klaus. Eu não sei se a verdadeira Katherine ainda está lá debaixo daquela vida sombria que ela deve viver agora.

Elena ofegou, um som áspero para seus próprios ouvidos no silêncio do quarto. Não havia como negar a verdade agora. A doença de Katherine, o cruel dom de Klaus, todos os detalhes que Stefan lhe contara estavam aqui. Katherine, que a odiara e tentara matá-la, que amara Stefan e Damon séculos antes da própria Elena, que destruíra Stefan e Damon, era sua meia-irmã.
Parte dela queria fechar o diário, empurrá-lo para o fundo do armário e nunca, nunca mais pensar sobre isso novamente. Mas ela não conseguia se impedir de ler.

Eu vaguei por muitos anos, lamentando minha filha, virando as costas para os Guardiões que haviam sido minha família. Mas, depois de séculos de solidão, encontrei meu doce, honesto e incrivelmente inteligente Thomas, e caí profundamente, irremediavelmente, desesperadamente apaixonada. Ficamos tão felizes por um tempo.
E então, os Guardiões nos encontraram. Eles vieram até nós e nos disseram que os Antigos estavam ganhando Poder. Eles eram muito fortes, muito cruéis. Eles destruiriam a humanidade se pudessem, escravizariam o mundo em trevas e no mal.
Os Guardiões me imploraram para ter outro filho. Somente um Guardião Terrestre com o sangue de um Guardião Principal poderia matar um Antigo de modo que o Antigo nunca poderia ser ressuscitado. Minha situação peculiar — uma Guardiã Principal que abandonara seu posto para viver uma vida humana, que se apaixonara — fez de mim sua única chance.
Thomas sabia tudo sobre meu passado. Ele confiou em mim para fazer a escolha certa, e eu escolhi dizer sim, sob certas condições. Eu teria uma criança que poderia destruir os Antigos, mas ela não seria tirada de mim. Ela não seria criada como uma arma, mas como uma garota humana. E, quando tivesse idade o suficiente, ela teria uma escolha livre: entrar em seu Poder ou não.
E eles concordaram. O sangue de Elena, o sangue de Margaret, era tão precioso que eles concordariam com qualquer coisa.
Mas agora eles querem quebrar esse acordo. Eles querem levar minha querida Elena agora, embora ela tenha apenas doze anos de idade.
Vou salvar Elena e Margaret, pois não consegui salvar Katherine. Eu vou.
Elena já é ferozmente protetora de seus amigos e da irmã mais nova. Eu acho que ela escolherá se tornar uma Guardiã quando lhe for dada a escolha, decidirá proteger o mundo da melhor maneira que puder. Mas deve ser decisão dela, não deles. Margaret ainda é muito jovem para eu dizer se ela terá os ingredientes de um Guardião. Talvez ela escolha outro caminho. Mas não importa o que eu acho que elas vão querer no final, eles devem ter tempo para crescer antes de terem que tomar essa decisão.
Eu estou com medo. As Guardiãs são implacáveis, e eles não ficarão satisfeitos quando eu me recusar a entregar Elena para eles.
Se alguma coisa acontecer comigo, e com Thomas, antes das meninas crescerem, tomei providências para proteger minhas filhas das Guardiãs. Judith, minha melhor amiga, vou fingir ser minha irmã e criar Elena e Margaret para a vida adulta. Já lancei alguns encantos: enquanto as meninas estiverem sob sua custódia, as Guardiãs não conseguirão localizá-las.
Eu morreria feliz, para proteger sua inocência. As Guardiãs nunca as encontrarão, até que sejam mulheres adultas e possam escolher por si mesmas.
Eu não posso ver o futuro. Não sei o que vai acontecer com qualquer uma das minhas filhas mais do que qualquer pai ou mãe, mas fiz o meu melhor para proteger Elena e Margaret, já que eu não era inteligente o suficiente para proteger Katherine. Eu rezo para que isso seja suficiente. E rezo para que algum dia, de alguma forma, Katherine também encontre seu caminho de volta para a luz. Que todas as minhas três garotas estarão protegidas do mal.

Lágrimas escorriam pelas bochechas de Elena. Ela sentiu como se um fardo que ela carregava por semanas tivesse sido subitamente tirado de seus ombros. Seus pais não tinham planejado entregá-la às Guardiãs, não tiveram uma filha apenas para descartá-la. Sua mãe a amava tanto quanto Elena sempre pensara.
Ela tinha que pensar com cuidado. Estreitamento os olhos, ela empurrou os travesseiros contra a parede e se sentou. Margaret estava segura com tia Judith no momento, e isso era bom. Ela não podia considerar todas as ramificações de Katherine sendo sua irmã, não agora.
Mas o fato de que ela, Elena, era especial para os Guardiões, preciosa para eles, que seu sangue tinha Poderes únicos que os Guardiões estavam desesperados para ter ao seu lado? A confirmação no diário de sua mãe podia ser a última peça que ela precisava para colocar seu plano de salvar Damon em ação.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Para comentar, por favor utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!