5 de abril de 2019

Capítulo 38

— Chloe? — Matt chamou com cautela, enfiando a cabeça em um dos galpões vazios que cercavam os estábulos queimados. O céu estava começando a clarear no leste, significando o fim de uma  longa noite. Ainda havia alguns bombeiros e paramédicos perto dos estábulos bloqueados, virando as cinzas, então ele teve que ficar quieto. Ele respirou fundo, tentando se acalmar. Chloe tinha que estar em algum lugar, ele lembrou a si mesmo. Ele a viu depois da luta, cansada, mas não seriamente ferida. Provavelmente só se retirara, subjugada por todo o sangue e pela adrenalina da luta. Ela apareceria em breve.
O galpão estava silencioso e escuro. Matt ergueu a lanterna e iluminou as paredes vazias do espaço minúsculo: nenhum lugar para alguém se esconder. Quando ele estava prestes a seguir em frente, um leve ruído chamou sua atenção. Não completamente vazio, então.
Focando a lanterna no chão, ele teve um vislumbre de olhos brilhantes e uma longa cauda antes de um rato sair de vista novamente. Nada mais.
— Chloe! — ele sibilou, indo para o velho celeiro, o último anexo que não tinha vasculhado ainda.
Três lobisomens, os mais machucados e sangrentos da Alcateia, depois da batalha, ficaram para trás depois que o resto do pessoal partiu para caçar Klaus e Elena. Mas eles tinham ido embora agora. Eles se ofereceram para ajudar Matt na busca por Chloe, mas ele os dispensou: naquela hora, ele ainda tinha certeza de que a encontraria a qualquer momento.
— Eu vou ficar bem — Matt tinha dito a Spencer. — Vá cuidar dos seus ferimentos. Eu vou encontrá-la. É, provavelmente, estúpido estar tão preocupado.
Spencer sempre achara que Matt era mais gel de cabelo do que cérebro, mas ele o prendia com um olhar surpreendentemente perspicaz.
— Escute, cara — ele tinha disto com seu sotaque de garoto rico e surfista, ainda conseguindo soar um pouco descontraído, apesar da dor em sua voz. — Eu estou te desejando o melhor aqui, mas vampiros...
— Eu sei — Matt tinha dito, encolhendo-se. Ele sabia; ele poderia ter escrito o livro sobre razões para não namorar vampiros, mas isso foi quando ele estava pensando em Elena, não em si mesmo, e antes de conhecer Chloe. Agora era diferente. — Eu vou encontrá-la — dissera ele, absurdamente tocado pela preocupação de Spencer. — Mas, obrigado. Realmente.
Ele se sentira melancólico enquanto observava Spencer e seus amigos se afastarem, como se ele fosse a última pessoa que restasse no mundo quando os lobisomens estivessem fora de vista.
Onde Chloe poderia estar? Eles tinham saído ombro a ombro do estábulo depois que metade do teto caiu. Chloe estava tremendo, as pupilas dilatadas e as mãos manchadas de sangue, mas ela estava com ele.
E então, em algum momento durante a ascensão do pânico, quando eles perceberam que Elena estava sob o teto de fogo quando tudo desmoronou, Chloe acabou de sair.
Pensar em Elena ao alcance de Klaus deu-lhe um pontada de culpa. Era Elena, sua amiga e a garota que tinha sido o sol que ele orbitou por tanto tempo. Ele queria estar procurando por ela com o resto deles. Mas precisava encontrar Chloe, também.
O celeiro estava frágil, uma de suas largas portas duplas pendendo torta por uma única dobradiça. Matt se aproximou com cautela — ele não faria bem a Chloe se fosse pego e preso debaixo de uma porta de celeiro caindo.
A porta meio quebrada balançou e rangeu, mas não caiu quando ele abriu caminho entre a abertura e a lateral do celeiro, iluminando com a lanterna. Poeira subiu no feixe de luz, partículas flutuando densamente no ar.
Dentro, algo mudou de posição, e Matt avançou, varrendo com a lanterna para frente e para trás. Lá no fundo, ele viu algo branco.
Quando chegou mais perto, Matt percebeu que era o rosto de Chloe olhando fixamente para o feixe de luz da lanterna, selvagem e com pânico. Depois de uma busca tão longa, levou um momento para Matt processar o que estava acontecendo: sua primeira reação foi um simples alívio — graças a Deus ele finalmente encontrou Chloe. Então ele percebeu que Chloe tinha manchas de sangue e que, quieto em seus braços, estava Tristan.
Chloe piscou para Matt inexpressivamente por um momento, e então seu rosto se encheu de um espanto consternado. Ela empurrou Tristan para longe dela, horrorizada. O lobisomem deixou escapar um grito fraco de angústia quando bateu no chão com um baque, em seguida, ficou imóvel.
— Ah, não — disse Chloe, caindo de joelhos ao lado dele. — Ah, não. Eu não pretendia.
Matt correu em direção a ela.
— Ele está vivo? — perguntou.
Chloe tentou tanto, e ele estava lá a cada passo do caminho, ajudando-a o máximo que podia. A vida era injusta o suficiente. Mas agora a cabeça de Chloe estava debruçada sobre Tristan e ela estava dando tapinhas urgentemente ao longo do corpo dele, tentando acordá-lo.
Matt se abaixou do outro lado de Tristan e tentou verificar as lesões do lobisomem. Deus, o pobre coitado estava sangrando por toda parte. Ele deve ter cheirado como um banquete para Chloe.
— Eu sinto muito, Tristan — sussurrou Chloe. — Por favor, acorde.
— Tristan, você pode me ouvir? — perguntou Matt, verificando seu pulso. O coração do lobisomem batia lenta e firmemente, e ele estava respirando bem. O bando era duro. Mas os olhos do lobisomem estavam desfocados, e ele não respondeu quando Matt chamou seu nome de novo, sacudindo-o gentilmente.
— Acho que posso tê-lo acalmado — disse Chloe, abatida. — Como os coelhos.
— Nós temos que ajudá-lo — disse Matt bruscamente, sem olhar para ela.
Ela não respondeu. Matt olhou para cima e viu o horror e a culpa em seu rosto, as lágrimas correndo sobre suas bochechas arredondadas, fazendo rastros através do sangue em torno de sua boca. Ela brincou com ele uma vez que ela era uma prostituta feia, e agora ela esfregava o nariz escorrendo com as costas da manga. Na semiescuridão, os olhos dela pareciam buracos pretos de tristeza.
— Vamos — disse ele, mais gentilmente. — Este não é o fim do mundo. Vamos começar de novo. Você não deveria ter estado em uma batalha agora. Era muito difícil pra você estar em volta de toda aquela ação. Tudo aquele sangue. — Apesar de tudo, sua voz tropeçou um pouco na palavra sangue. Matt engoliu em seco com desgosto e continuou, trabalhando para deixar sua voz confiante. — Todo mundo desliza quando estão superando um vício. Nós vamos voltar para o ancoradouro, longe de todos. Vai ficar tudo bem. — Ele parecia desesperado, até para si mesmo.
Chloe balançou a cabeça.
— Matt... — começou ela.
— Foi um erro — disse Matt com firmeza. — Tristan vai ficar bem. E você também vai.
Chloe balançou a cabeça novamente, desta vez mais forte, os cachos que Matt sempre achou tão adoráveis voando ao redor da cabeça dela.
— Eu não vou — disse ela tristemente. — Eu não vou ficar bem. Eu te amo, Matt, eu amo. — A voz dela se partiu em um soluço, e então ela respirou fundo e começou de novo. — Eu te amo, mas não posso viver assim. Stefan estava certo; eu não estou realmente vivendo agora. Não sou forte o suficiente. Não está melhorando para mim.
— Você é forte o suficiente — Matt argumentou. — Eu vou te ajudar. — O amanhecer estava nascendo do lado de fora, e ele podia ver as cinzas e o sangue riscado na pele manchada de lágrimas de Chloe agora, os círculos profundos sob os olhos dela.
— Estou tão feliz por ter ficado com você por um tempo — disse ela. — Você cuidou tão bem de mim. — Ela se inclinou para frente, por cima do corpo inconsciente de Tristan, e o beijou. Seu lábios eram macios e tinham gosto de cobre e sal. Sua mão encontrou a dele, e ela pressionou algo pequeno e duro em sua palma. Afastando-se finalmente do beijo, ela disse, com a voz fina: — Eu espero que algum dia você encontre alguém que te mereça, Matt — e se levantou.
— Não faça isso... — disse Matt, entrando em pânico, e estendeu a mão para ela. — Eu preciso de você, Chloe.
Chloe olhou para ele, o rosto calmo e seguro agora. Ela até mesmo sorriu um pouco.
— Esta é a coisa certa a se fazer — ela disse a ele.
Em poucos passos, ela cruzou o celeiro e estava saindo pela abertura entre as portas. O nascer do sol já estava a caminho agora, e o corpo dela estava escuro contra o luz rosa e dourado.
Então, houve uma explosão de fogo, e Chloe se amontoou em um monte de cinzas.
Matt olhou para o pequeno objeto duro que ela pressionou na palma da mão dele. Era um pequeno alfinete em forma de V, feito de pedra azul. Ele tinha um, também: o distintivo Vitale que Ethan tinha dado a todos, quando ele, Chloe e as outras promessas eram todos humanos, todos inocentes. O encanto de lápis-lazúli que protegia Chloe da luz do dia.
Ele fechou o punho firmemente em torno dele, ignorando a dor quando as bordas afiadas pressionaram a palma da mão e soluçou seco e ofegante.
Ele teria que levantar em um minuto. Tristan precisava de sua ajuda. Mas, por um momento, Matt inclinou a cabeça e deixou as lágrimas caírem.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!