5 de abril de 2019

Capítulo 32

— Obrigado por me encontrar — disse Cristian. Ele sorriu para Meredith de seu assento no banco de peso. — Sei que você não se lembra — acrescentou —, mas costumávamos malhar muito juntos.
— Sério? — disse Meredith, interessada. Ela podia acreditar, facilmente: qualquer pessoa criada pelo pai se esforçaria para se sobressair fisicamente. — Qual de nós era melhor?
O sorriso de Cristian se alargou.
— Isso foi muito disputado, na verdade — disse ele. — Você era um pouco mais rápida do que eu, e melhor com o bastão e as artes marciais, mas eu era mais forte e melhor com facas e arcos.
— Hum — Meredith era boa com facas, ela pensou. Claro que, na realidade dela — a real realidade, ela lembrou a si mesma — ela teve muito mais experiência de combate real que Cristian. — Talvez devêssemos ver se isso ainda é verdade — disse ela desafiadoramente. — Você sabe, eu fiquei bem forte.
Cristian riu.
— Meredith — disse ele. — Eu sou um vampiro agora. Tenho certeza de que fiquei mais forte também.
Assim que as palavras saíram de sua boca, seu rosto murchou.
— Um vampiro — repetiu ele, passando a mão pela boca. — É difícil de acreditar, sabe? — Ele balançou a cabeça. — Eu me tornei a coisa que eu deveria odiar. — Ele levantou os olhos para encontrar os de Meredith, e seu rosto estava sombrio.
Uma pontada de pena inundou Meredith. Ela podia lembrar de como se sentiu, antes que as Guardiãs mudassem tudo, quando descobriu que Klaus a deixara errada, uma garota viva com dentes de vampiro e necessidade de sangue.
Ele tinha ido embora. Mas agora Cristian fora transformado, e estava desolado.
— Existem vampiros bons, você sabe — ela disse a ele. — Meus amigos Stefan e Chloe, eles lutaram com a gente contra Klaus. Stefan salvou muita gente. — Cristian assentiu, reconhecendo suas palavras, mas não falou nada.
— Tudo bem — disse Meredith, imitando o tom-para-treinar do pai o melhor que podia. Não ajudaria Cristian a insistir em sua tristeza. — Chega de bater nos lábios. Mostre-me o que você tem.
Cristian sorriu, acolhendo a mudança de humor, e se esticou no banco de pesos, com as mãos na barra acima.
— Carregue — disse ele. — Quero ver o quão forte sou agora.
Parte daquilo lembrou-a dolorosamente de Samantha, pensou Meredith, de como elas treinavam juntas, incentivando uma a outra a lutar mais, e melhor. Talvez, Meredith pensou enquanto adicionava placas de peso na barra acima de Cristian, ela ia querer tentar treinar mais tarde.
Meredith começou com cerca de duzentos quilos, que ele levantou com facilidade, sua boca torcendo ironicamente.
— Vamos lá — disse ele. — Eu podia levantar isso quando estava vivo.
Não havia mais ninguém na sala de musculação, e por isso, Meredith não precisava ser sutil para carregar os pesos. Cristian lidou com o máximo que pôde dar a ele, seus braços musculosos, mas finos, movendo-se para cima e para baixo como pistões.
— Eu sou tão forte — disse ele alegremente, sorrindo para ela.
Meredith reconheceu seu sorriso. Era o sorriso que ela tinha visto no espelho em seu próprio rosto quando de repente, estava surpreendentemente feliz. Quando pegou sua faixa preta. A noite depois que Alaric a beijou pela primeira vez.
Talvez eles pudessem superar tudo isso, se tornar uma equipe. Meredith se deixou imaginar a caça com Cristian, lutando ao lado dele. Ele era um vampiro — um bom vampiro, ela disse a si mesma ferozmente, como Stefan —, mas era um caçador também. Um Sulez.
— Sua vez — disse Cristian, enfiando a barra de volta no apoio. Estava tão cheio de placas de peso agora que a própria barra estava entortando.
Meredith riu.
— Você sabe que não posso levantar muito. Você ganha, ok?
— Ah, vamos lá — insistiu Cristian. — Eu vou te dar uma folga já que você é humana. E, você sabe, uma garota. — Meredith olhou para cima para dizer a ele que ser uma garota tinha pouco a ver com o quanto ela seria capaz de levantar, e captou um brilho provocante em seus olhos. Naquele momento, ela podia acreditar que ele era seu irmão. Cristian começou a tirar os pesos e colocá-los de volta em seus prateleiras.
— Tudo bem — disse Meredith, e meticulosamente, limpou o banco, embora não estivesse realmente suado: aparentemente suar era uma daquelas coisas que vampiros não faziam.
Cristian começou com cento e cinquenta quilos, pesado, mas administrável, e observou Meredith iniciar uma série de repetições.
— Então — ela disse, mantendo a voz casual e concentrando-se em levantar e abaixar a barra. — Como é?
— Como assim? — perguntou Cristian distraidamente.
Ela podia apenas vislumbrá-lo com o canto do olho, examinando os pesos, escolhendo o que colocar em seguida.
— Ser um vampiro.
— Ah — Cristian atravessou a sala, fora da vista de Meredith, mas sua voz era clara e pensativa, um pouco sonhadora. — É uma corrida, na verdade — disse ele. — Eu posso ouvir tudo e cheirar tudo. Todos os meus sentidos estão aguçados, tipo, um milhão por cento. Eles dizem que eu vou conseguir mais Poder, vou ser capaz de me transformar em animais e pássaros, fazer as pessoas fazerem o que eu quiser.
Ele parecia animado com a perspectiva, seu tom perdeu a amargura que tinha quando falou sobre se tornar algo que ele odiava, e Meredith desejou poder ver seu rosto.
— Mais? — disse ele alegremente quando estava bem acima dela, placas de peso extras na mão. Seu sorriso era sem graça, sem revelar nada.
— Tudo bem — disse ela, e em vez de ajudá-la a colocar a barra de volta em seu apoio, ele simplesmente a firmou com uma mão e deslizou mais peso em cada lado. Meredith grunhiu quando ele soltou: estava mais pesado do que ela normalmente levantava agora, mas ainda era administrável. Quase demais, mas ela não queria deixar Cristian saber disso. De um jeito engraçado, eles ainda estavam competindo apesar de sua força de vampiro, e ela ia levantar o máximo que pudesse.
Cristian ainda estava muito perto, observando-a quando ela levantou, e os braços de Meredith sacudiram e se tencionaram depois de algumas repetições.
— Os detalhes são mais nítidos, sabe? — disse Cristian de repente. — Eu posso até ouvir o sangue correndo em suas veias daqui.
Meredith ficou com frio e sem fôlego. Havia algo quase faminto na maneira que ele falou sobre seu sangue.
— Pegue a barra — ela ordenou. — Isso é demais. — Ela precisava se levantar.
Cristian estendeu a mão para a barra, mas ao invés de guiá-la de volta para o apoio, ele cuidadosamente adicionou ainda mais peso em cada um dos lados.
— Pare com isso — resmungou Meredith. Estava pesado demais agora, e Cristian devia saber disso. Ela estava com problemas ali, um problema real, mas precisava manter a calma, precisava que Cristian não percebesse que estava com medo.
— Você esqueceu algo sobre vampiros — disse Cristian, e sorriu para ela, o mesmo sorriso provocador e fraternal. — Papai ficaria tão decepcionado. — Ele soltou a barra, que caiu em direção ao peito de Meredith, ela era incapaz de suportar seu peso.
Ela grunhiu quando caiu, conseguindo diminuir o suficiente para evitar que quebrasse suas costelas, mas sem fôlego ou energia para se concentrar em nada, exceto proteger o peito do peso morto da barra. Ela não conseguia respirar, não conseguia falar, e virou a cabeça para olhar para ele, com o coração batendo forte, e deu um gemido abafado e ofegante. Ninguém a ouviria. Ela poderia morrer ali, nas mãos do irmão.
Cristian continuou.
— Um vampiro, como você deve saber do nosso treinamento, Meredith, está completamente focado em seu pai quando são transformados.
Talvez ela pudesse mudá-lo, esse peso pressionando-a, expulsando todo o ar de seus pulmões. Ela não conseguia respirar. Pontos pretos nadavam na frente de seus olhos.
— Tudo o que importa para mim é Klaus, o que Klaus quer — disse Cristian. — Se você fosse uma boa caçadora, teria lembrado que o vínculo prevalece sobre todo o resto. Eu não sei como você pôde imaginar que minha família humana — sua voz se encravava nas palavras, como se houvesse algo nojento — importa mais para mim do que isso.
Meredith empurrou a barra impotente, agora tonta com a dor. Ela tentou sinalizar para Cristian com os olhos, desesperadamente: muito bem, que seja, seja de Klaus, se for preciso, mas não me mate assim. Deixe-me levantar para que possamos lutar como fomos treinados.
Cristian estava ajoelhado ao lado dela agora, seu rosto tão perto do dela.
— Klaus quer que você morra — sussurrou ele —, você e todos os seus amigos. E farei o que puder para fazê-lo feliz. — Seus olhos cinzentos, como os olhos de sua mãe, seguraram os dela enquanto ele agarrava a barra que ela estava segurando e a empurrava para baixo em seu peito.
Tudo ficou escuro por um momento. Flores vermelhas floresceram e explodiram na escuridão, e Meredith percebeu atordoada que era seu cérebro enviando sinais aleatórios quando começou a desligar por falta de oxigênio.
Ela estava começando a flutuar, como se estivesse suspensa em um mar negro. Seria bom descansar. Ela estava tão cansada.
Então uma voz estalou através da escuridão na mente de Meredith, a voz de seu pai. Meredith! disse. Era impaciente, firme, mas não rude, o tom exato que a tirava da cama para correr antes da escola, encorajava-a a praticar taekwondo quando tudo o que ela queria fazer era sair com as amigas. Você é uma Sulez, disse a voz. Você deve lutar!
Com um esforço quase sobre-humano, Meredith abriu os olhos. Tudo estava embaçado e ela se sentia tão lenta, como se estivesse tentando se mover debaixo d'água.
A mão de Cristian tinha relaxado na barra. Ele deve ter pensado que toda a luta nela tinha sumido. Meredith aproveitou toda a força que tinha reunido e empurrou a barra para cima e para longe dela, derrubando seu irmão vampiro com a barra em cima dele. Ela teve um vislumbre do rosto assustado e furioso de Cristian antes de correr o mais rápido que podia, com as pernas fracas, o coração batendo forte, ofegante, saindo direto da sala de musculação, saindo da academia e seguindo para os caminhos do campus.
Ela teve que desacelerar quando se aproximou de seu dormitório, com as pernas doloridas e os pulmões queimando agora que aquela onda original de adrenalina havia se dissipado. Meredith tentou se empurrar para frente, mas estava tropeçando agora. A qualquer momento, Cristian poderia agarrá-la. Ele poderia ter pego ela agora, é claro.
Do lado de fora do dormitório, ela reuniu sua coragem e se virou. Ninguém estava lá. Ele pretendia matá-la sozinho e em segredo, e sem dúvida tentaria novamente. Meredith abriu a porta e cambaleou para dentro, sentando-se no primeiro degrau da escada.
Ainda estava ofegante, e se engasgou com um soluço. Meredith queria conhecer seu irmão, mas ele já tinha ido embora, ele era a família de Klaus agora.
Quando esfregou os músculos tensos, Meredith percebeu devidamente o que teria que fazer. Ela ia ter que matar Cristian.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!