5 de abril de 2019

Capítulo 30

Ao contrário do irmão, que chegara ao ponto de entrar para o time de futebol da Robert E. Lee High School, em Fell’s Church, Damon não gostava de jogar futebol. Ele nunca gostou de esportes de equipe, mesmo quando era jovem e vivo. A sensação de ser uma parte anônima de um grupo, apenas uma peça de uma grande máquina projetada para levar uma bola de um lado a outro, parecia uma afronta à sua dignidade. Não ajudava que Matt — Mutt, Damon agora tinha que se lembrar de dizer ­— amava o esporte. Ele era a estrela aqui no campo da Dalcrest; Damon tinha que lhe dar algum crédito por isso.
Mesmo agora, uns quinhentos anos depois de ter parado de respirar, ele certamente não se preocupava em perder seu tempo vendo humanos tentarem levar uma bola de um lado a outro do campo. A torcida, por outro lado... ele descobriu que gostava da multidão em um jogo de futebol.
Cheios de energia, todos se concentravam na mesma coisa e o sangue deles martelava sob a pele, corando suas bochechas. Ele gostava dos cheiros do estádio: suor e cerveja e cachorro-quente e entusiasmo. Ele gostava dos uniformes coloridos das líderes de torcida e da possibilidade de uma briga irromper nas arquibancadas enquanto as paixões aumentavam. Ele gostava do brilho das luzes nos campos durante um jogo noturno e da escuridão nos cantos das arquibancadas. Ele gostava...
Damon perdeu a linha de raciocínio quando seus olhos encontraram uma garota de cabelo dourado pálido, de costas para ele, sentada sozinha na arquibancada. Cada linha daquela figura estava gravada em sua memória para sempre: ele a olhava com paixão e devoção e, depois, com ódio. Ao contrário de todos, nunca a confundiu com Elena.
— Katherine — ele respirou, cortando caminho pela multidão em direção a ela.
Nenhum humano o teria ouvido no meio da multidão, mas Katherine virou a cabeça e sorriu, um sorriso tão doce que o primeiro instinto de Damon para atacá-la foi varrido por uma onda de memória. A tímida menina alemã que tinha chegado ao palácio de seu pai, tantos anos atrás, quando Damon era humano e Katherine era quase tão inocente quanto um, sorria para ele daquele jeito.
Então, ao invés de lutar, ele se sentou ao lado de Katherine e apenas olhou para ela, mantendo o rosto neutro.
— Damon! — Katherine disse, o sorriso assumindo um tom de malícia. — Eu senti sua falta!
— Considerando que a última vez que nos vimos você rasgou minha garganta, não posso dizer o mesmo — Damon disse a ela secamente.
Katherine fez uma cara de arrependimento irônico.
— Ah, você nunca esquece o passado — disse ela, fazendo beicinho. — Vamos, eu peço desculpas. Rolou tanta água por baixo da ponte, não é? Nós vivemos, morremos, sofremos, nos curamos. E aqui estamos nós. — Ela colocou a mão no braço dele, observando-o com olhos afiados e brilhantes.
Damon intencionalmente afastou a mão dela.
— O que você está fazendo aqui, Katherine? — perguntou ele.
— Eu não posso visitar o meu par favorito de irmãos? — rebateu Katherine, magoada. — A gente nunca esquece o primeiro amor, você sabe.
Damon encontrou seus olhos, mantendo seu próprio rosto cuidadosamente em branco.
— Eu sei — disse, e Katherine congelou, parecendo incerta pela primeira vez.
— Eu... — começou ela, e então sua hesitação desapareceu e ela sorriu de novo. —Claro, eu também devo algo a Klaus — disse ela despreocupadamente. — Afinal, ele me trouxe de volta à vida, e agradeço a Deus por isso. A morte foi terrível. — Ela arqueou uma sobrancelha para Damon. — Ouvi dizer que você sabe tudo sobre isso.
Damon fez que sim, a morte tinha sido terrível e, para ele, pelo menos, aqueles primeiros momentos quando voltou foram piores. Mas ele deixou isso de lado.
— Como você pretende pagar Klaus? — perguntou, mantendo seu tom leve e quase ocioso. — Diga-me o que está acontecendo naquela cabecinha intrigante, Fraulein.
A risada de Katherine ainda era tão prateada e borbulhante como o riacho da montanha que Damon comparara em um soneto, quando era jovem. Quando era um idiota, pensou ele ferozmente.
— Uma dama tem que ter seus segredos — disse ela. — Mas vou te dizer o que disse a Stefan, meu querido Damon. Eu não estou mais brava com sua Elena. Ela está a salvo de mim.
— Eu realmente não me importo, para ser honesto — disse Damon friamente, mas sentiu um nó apertado de preocupação se soltar dentro de seu peito.
— Claro que não, meu querido — respondeu Katherine confortavelmente, e quando ela colocou a mão no braço de Damon dessa vez, ele deixou que ficasse.
— Agora — ela disse, batendo nele. — Vamos nos divertir um pouco? — Ela inclinou a cabeça em direção ao campo de futebol, em direção às líderes de torcida agitando seus pompons nos bastidores. Damon sentiu uma pulsação suave de Poder sair dela, e enquanto observava, a garota do outro lado da linha deixou cair seus pompons e seu sorriso. Com uma expressão sonhadora e distante no rosto, ela começou a se mover, o corpo traçando o que Damon reconheceu como os passos lentos e imponentes de uma bassadanza, uma dança que ele não via há centenas de anos.
— Lembra? — perguntou Katherine suavemente ao lado dele.
Eles haviam dançado juntos, Damon não podia esquecer, no grande salão da casa de seu pai, na noite em que ele chegara da universidade em desgraça e pela primeira vez a viu. Ele assumiu o controle de outra líder de torcida, e moveu-a para os passos ainda familiares do parceiro masculino na dança. Um passo à frente na ponta do pé, um passo à frente no outro, incline o corpo em direção ao seu parceiro, os pés juntos, a mão para o lado e a dama segue você. Quase podia ouvir a música, vinda de séculos atrás.
A multidão ao redor deles se agitou, inquieta, sua atenção distraída dos jogadores no campo. A formalidade da dança e a distância em branco nos rostos das animadoras de torcida estavam confundindo-os. Uma vaga sensação de algo não muito bom permeou o estádio.
Soltando outra risada baixa e prateada, Katherine manteve o ritmo com a mão enquanto todas as líderes de torcida se emparelhavam, movendo-se no tempo, a elegância de seus passos em desacordo com seus trajes brilhantes e curtos. No campo, os jogadores de futebol jogavam, alheios ao que acontecia.
Katherine sorriu para Damon, seus olhos brilhando com o que quase parecia afeição.
— Poderíamos nos divertir juntos, você sabe. Você não tem que caçar sozinho.
Damon considerou isso. Não confiava nela, teria que ser um idiota para confiar nela depois tudo o que Katherine havia feito. Mas, ainda assim...
— Talvez não seja tão ruim ter você de volta, afinal de contas — disse ele a ela. —Talvez.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!