5 de abril de 2019

Capítulo 3

Elena entrelaçou os dedos na mão de Stefan, emocionando-se mesmo com este leve toque. Parecia fazer muito tempo desde que ficaram a sós, muito tempo desde que ela esteve perto o suficiente para tocar nele. Por toda a noite se viu encostando-se nele, roçando o polegar nos nós de seus dedos, passando o braço por sua cintura, correndo o dedo por sua clavícula: qualquer leve toque que pudesse ter. Qualquer coisa para sentir a simples e gratificante realidade de ter Stefan enfim ali com ela.
A noite estava agradavelmente quente, e havia um musgo macio sob seus pés. Uma brisa farfalhava as folhas das árvores do bosque ao redor e através dos galhos era possível ter o vislumbre de um céu estrelado. Tinha todos os elementos de um passeio romântico, não fosse o fato de estarem em busca de vampiros sedentos por sangue.
— Não sinto nada — disse Stefan. Sua mão na dela era um toque tranquilizador, mas os olhos verde-escuros tinham uma expressão distante, e Elena soube que ele estava usando seu Poder para rastrear a floresta. — Nem vampiros, nem alguém com dor ou medo, pelo que posso dizer. Não creio que tenha mais alguém por perto.
— Mas vamos continuar procurando. Só por precaução. — insistiu Elena.
Stefan concordou com a cabeça. Havia limites para o Poder de busca de Stefan: alguém muito mais forte do que ele podia se esconder; alguém muito mais fraco podia não atrair sua atenção. E algumas criaturas, como os lobisomens, ele simplesmente não conseguia sentir.
— Eu sei que não devia estar pensando nisso, com tudo o que está acontecendo, mas só o que eu quero é ficar sozinha com você — confessou Elena em voz baixa. — As coisas estão acontecendo rápido demais. Se Ethan trouxer Klaus de volta... Parece que talvez não tenhamos muito tempo.
Stefan soltou a mão de Elena e tocou de leve seu rosto, os dedos roçando as bochechas e a curva da sobrancelha, um polegar afagando levemente seus lábios. Seus olhos se escureceram de paixão e ele sorriu. Depois a beijou, no início suavemente.
Oh, Elena pensou, depois, sim.
Como se estivesse esperando pela confirmação dela, os beijos de Stefan ficaram mais apaixonados. Sua mão se fechou gentilmente em seu cabelo, e eles recuaram até que Elena encostasse numa árvore. A casca era áspera em seus ombros expostos, mas ela não se importou, só beijou Stefan, feroz e intensamente.
Isto é o certo, pensou Elena. É como voltar para casa. Ela sentiu a concordância e a força do amor de Stefan. Sim, pensou ela, e mais.
Suas mentes se entrelaçaram e Elena relaxou na lenta espiral familiar dos pensamentos e emoções de Stefan. Havia amor ali — um amor sólido e constante — e também uma dor inabalável, como um hematoma, de pesar pelo tempo que perderam. Mais forte que tudo, havia uma alegre sensação de alívio. Não sei como ia viver sem você, pensou Stefan para ela. Não poderia viver para sempre sabendo que você não era minha.
Ao pensamento de para sempre, uma vibração de ansiedade disparou por Elena. Excetuando a morte por violência, pra sempre era uma premissa para Stefan. Ele continuaria, sem envelhecer e lindo, sempre com dezoito anos. E Elena? Ela envelheceria e morreria com o eternamente jovem Stefan ao seu lado? Ela não duvidava de que ele ficaria com ela, independentemente de qualquer coisa.
Havia outras possibilidades. Já tinha sido vampira, e tinha sofrido, separando-se dos amigos humanos e da família, distante do mundo dos vivos. Elena sabia que Stefan não queria esta vida pra ela. Mas era uma alternativa, embora nunca conversassem sobre isso.
Sua mente foi até certa garrafa enfiada no fundo de seu armário em casa e se voltou novamente. Tinha roubado um único frasco da água da vida eterna das Guardiãs quando ela e os amigos viajaram pela Dimensão das Trevas. Sua existência e a alternativa que lhe oferecia sempre rondava sua mente. Mas não estava preparada para tomar essa decisão, para dar um fim à vida mortal. Ainda não.
Ainda estava amadurecendo, ainda estava mudando. Será que a pessoa que era agora era realmente quem queria ser pelo resto da vida? Elena tinha tantos defeitos, era tão inacabada. Beber a água da vida eterna, ou tornar-se vampira, fecharia portas que ela ainda não estava preparada para cerrar. Queria continuar humana. Sentia dor por dentro com isso: seria ela humana agora? Poderia ser humana, se tinha de se transformar numa Guardiã?
Tudo isso ela considerou num canto recolhido de sua mente enquanto a maior parte dela se concentrava nas sensações doces dos lábios e do corpo de Stefan e no raio constante de amor que passava entre os dois. Mas o suficiente de suas emoções deve ter sido transmitido a Stefan, porque ele reagiu. O que você quiser, Elena, pensou ele pra ela, gentil e tranquilizador. Eu estarei com você. Pra sempre. Não importa o tempo que levar para você.
Ela sabia que isso significava que Stefan compreenderia se ela decidisse ter uma vida natural, envelhecer e morrer. E haveria motivos para isso. Stefan e Damon perderam alguma coisa com a juventude eterna, sem jamais mudar. Sentiam que parte de sua humanidade desaparecera.
Mas como Elena poderia um dia enfrentar a realidade de abandonar Stefan? Não conseguia imaginar morrer novamente, morrer e deixá-lo para trás. Elena apertou as costas mais firmemente contra a casca áspera da árvore e beijou Stefan com mais intensidade, sentindo-se mais viva com o contraste quase doloroso das sensações.
Depois ela se afastou. Escondeu tanta coisa de Stefan desde que veio para a Dalcrest. Não ia trilhar esse caminho de novo, não ia amá-lo enquanto fechava partes de sua vida a ele.
— Tem uma coisa que preciso te dizer. Você precisa saber de tudo. Eu não posso... Não posso esconder nada de você, não agora. — Stefan franziu o cenho de forma indagadora, e ela baixou os olhos para a mão na camisa dele, cujo tecido ela torcia nervosamente. — James me disse uma coisa ontem, antes da luta — desabafou ela. — Não sou quem eu pensei que era, não exatamente. As Guardiãs escolheram meus pais... elas me fizeram... e meus pais deviam me entregar quando eu tivesse doze anos, para me tornar Guardiã. Eles se recusaram, e por isso morreram. Não foi um acidente. As Guardiãs os mataram. E agora, depois de saber disso, eu devo me tornar uma delas?
Stefan ficou perplexo por um instante, depois o rosto se encheu de compaixão.
— Oh, Elena — Ele a puxou novamente para perto, agora tentando reconfortá-la.
Elena se permitiu relaxar recostada ao peito dele. Graças a Deus Stefan compreendia que a ideia de ela se tornar uma das Guardiãs, aquelas frias reguladoras da Ordem, não era motivo de comemoração, mesmo que isso lhe desse Poder.
— Eu vou ajudar você — disse Stefan. — Se você quiser tentar negociar sua saída dessa história, ou combater, ou passar por isso. O que você decidir.
— Eu sei — disse Elena, a voz abafada pelo ombro de Stefan.
De repente, ela sentiu o corpo de Stefan tenso contra o dela, e percebeu que ele olhava em volta.
— Stefan?
Ele olhava ao longe, por cima de sua cabeça, a boca cerrada e os olhos alertas.
— Desculpe, Elena — disse ele enquanto Elena se afastava e o olhava nos olhos. — Vamos ter de conversar sobre isso depois. Acabo de sentir uma coisa. Alguém está sentindo dor. E agora que o vento mudou, acho que sinto o cheiro de sangue.
Elena reprimiu suas emoções, obrigando-se a uma racionalidade calma. Tudo isso, todos os seus próprios problemas e indagações, podiam esperar. Eles tinham um trabalho a fazer.
— Onde? — perguntou.
Stefan segurou a mão de Elena e a levou mais para dentro da mata. As árvores bloqueavam mais estrelas ali, e ela tropeçou em raízes e pedras no escuro. Stefan a segurou, guiando-a pelo caminho.
Um instante depois, eles deram em outra clareira. Os olhos de Elena precisaram de um segundo para se adaptar, para enxergar a forma escura na direção da qual Stefan já avançava cautelosamente. Encolhido no chão, havia o corpo de um ser humano.
Eles se ajoelharam ao lado dele, e Stefan estendeu a mão, cuidadosamente virando a pessoa. O corpo caiu pesadamente de costas. Uma menina, percebeu Elena. Uma menina mais ou menos de sua idade, com o rosto lívido e vazio. O cabelo dourado brilhava à luz das estrelas. Tinha sangue no pescoço.
— Ela está morta? — perguntou Elena aos sussurros. A menina estava tão imóvel.
Stefan tocou o rosto da garota, depois passou os dedos cuidadosamente pelo pescoço, abaixo do filete de sangue, sem tocar o fluído vermelho e grosso.
— Morta, não — disse ele, e Elena soltou um suspiro de alívio. — Mas perdeu muito sangue.
— É melhor a levarmos de volta ao campus — disse Elena. — E vamos dizer aos outros que os vampiros estão caçando no bosque. Podemos voltar e encontrar quem fez isso.
Stefan olhava fixamente os ferimentos da garota, a boca estranhamente torcida numa expressão indecifrável.
— Elena, eu... eu não acho que isto tenha sido obra dos vampiros de Ethan — disse ele, hesitante.
— O que quer dizer? — Elena estava confusa. Uma raiz machucava seus joelhos, e ela mudou de posição para ficar mais confortável, colocando a mão no chão frio. — Quem mais pode ter feito isso?
Stefan franziu o cenho e mais uma vez tocou gentilmente o pescoço da garota, ainda com o cuidado de não entrar em contato com o sangue.
— Olha essas marcas. O vampiro que fez isso estava furioso e foi descuidado, mas é experiente. A mordida é limpa e no lugar perfeito para obter a máxima quantidade de sangue sem matar a vítima. — Ele alisou com cuidado o cabelo da menina, como se quisesse reconfortá-la. Ele parecia sentir dor, os dentes estavam cerrados, os olhos estreitos. — Elena, foi Damon.
Tudo em Elena enrijeceu, e ela balançou a cabeça, o cabelo açoitando o ar.
— Não. Ele não abandonaria alguém no bosque para morrer.
Stefan tinha um ar distante e por instinto ela estendeu a mão para tocar seu braço, tentando reconfortá-lo. Ele fechou os olhos por um segundo e se curvou na direção dela.
— Depois de quinhentos anos, posso reconhecer a mordida de Damon — disse ele com tristeza. — Às vezes parece que ele mudou, mas Damon não muda. — O peso das palavras de Stefan parecia atingi-lo com a mesma força com que golpeava Elena, e ele curvou os ombros.
Por um instante, Elena não conseguia respirar, e engoliu em seco, sentindo-se zonza e nauseada. Damon? Imagens faiscaram por sua mente: os olhos escuros e insondáveis de Damon, quentes de fúria, aguçados de amargura. E às vezes mais brandos e mais calorosos quando ele olhava para ela ou para Stefan. Um núcleo duro de negação se formou em seu peito.
— Não — Ela olhou para Stefan, repetindo com mais firmeza. — Não. Damon está caçando por nossa causa... por minha causa. — Stefan assentiu quase imperceptivelmente. — Não vamos desistir dele. Ele mudou, ele fez muito por nós, por todos nós. Ele se importa, Stefan, e não podemos rejeitá-lo por isso. Ele não a matou. Não é tarde demais.
Stefan a ouviu atentamente e depois de um momento passou a mão pelo rosto, cansado, a expressão ficando resoluta.
— Temos de manter isso em segredo — disse ele. — Meredith e os outros não podem saber o que Damon fez.
Elena se lembrou da expressão de Meredith enquanto brandia seu bastão, e engoliu em seco. A caçadora em Meredith não hesitaria em matar Damon se acreditasse que ele era um perigo real para humanos inocentes.
— Tem razão — disse ela numa voz firme. — Não podemos contar a ninguém.
Estendendo o braço por cima do corpo da menina inconsciente, Stefan pegou a mão de Elena mais uma vez. Ela o segurou com força, os olhos encontrando os dele numa súplica silenciosa. Trabalhariam juntos; salvariam Damon. Tudo ia ficar bem.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!