10 de abril de 2019

Capítulo 3 - Eterno sono

O funeral foi marcado para o meio-dia, mas Emma ficara se revirando na cama desde três ou quatro da manhã. Seus olhos estavam ressecados e coçavam, e as mãos tremiam quando ela penteou os cabelos e os prendeu cuidadosamente num coque atrás da cabeça.
Depois que Julian saíra, ela correra até a janela, enrolada num lençol, e ficara observando com uma mistura de choque e incredulidade. Ela o vira sair da casa e correr para a chuva fina, sem nem sequer se preocupar em diminuir o passo para fechar o casaco. Depois disso, aparentemente não houvera muito o que pudesse fazer. Julian não estava em perigo nas ruas de Alicante, mas, ainda assim, ela ficara à espera para ouvir os passos dele, já de volta, na escadaria, e a porta do quarto sendo aberta e então fechada. Então Emma se levantara para dar uma olhadinha em Ty, que ainda dormia com Kit ao seu lado. Notara que a bolsa de pano de Livvy ainda estava no quarto e a tirara dali, temendo que Ty ficasse chateado se a visse ao acordar. De volta ao seu quarto, ela se sentara na cama e rapidamente a abrira. Não tinha muita coisa na bolsa: algumas camisetas e saias, um livro, um sabonete e uma escova de dentes cuidadosamente embalados. Uma das camisetas estava suja e Emma se perguntava se deveria lavar as roupas de Livvy, se seria de alguma ajuda, e então se dera conta justamente do motivo pelo qual não seria de ajuda alguma e sequer faria diferença para, em seguida, se aninhar em cima da bolsa, soluçando como se seu coração fosse se partir ao meio.
No fim, se embrenhara num sono agitado, cheio de sonhos de fogo e sangue. Fora acordada pelas batidas de Cristina à porta, com uma xícara de chá e a desagradável notícia de que Horace tinha sido eleito o novo Inquisidor numa votação de emergência naquela manhã mesmo. Já havia contado a notícia ao restante da família, que estava de pé e se arrumando para o funeral. O chá continha umas três mil colheres de açúcar, doce por si só e também em parte pela gentileza de Cristina, porém nem assim servira para tirar o gosto amargo deixado pelas notícias sobre o Inquisidor.
Emma olhava pela janela quando Cristina retornou, desta vez trazendo uma pilha de roupas. Ela vestia branco da cabeça aos pés, a cor de luto e dos velórios dos Caçadores de Sombras. Casaco branco do uniforme, camiseta branca, flores brancas nos cabelos escuros soltos. Cristina franziu a testa.
— Saia daí.
— Por quê? — Emma olhou pela janela; a casa fornecia uma boa vista da parte mais baixa da cidade. Dava para ver os muros e os campos verdes mais além. Ela distinguiu uma fileira de vultos muito distantes, vestidos de branco, cruzando os portões da cidade. No centro dos campos verdes, duas pilhas imensas de madeira erguiam-se como pirâmides. — Já ergueram as piras — falou Emma, e uma onda de tontura a tomou.
Sentiu a mão quente de Cristina segurando a sua e um instante depois ambas estavam sentadas na beira da cama, com Cristina lhe instruindo a respirar.
— Me desculpa — falou Emma. — Me desculpa. Eu não queria desmoronar desse jeito.
Algumas mechas de cabelos de Emma tinham se soltado do coque e as mãos habilidosas de Cristina as colocavam de volta no lugar.
— Quando meu tio morreu — falou —, foi enterrado em Idris, e eu não pude ir ao funeral porque minha mãe considerava Idris um lugar ainda muito perigoso. Quando ela voltou, fui abraçá-la e suas roupas tinham cheiro de fumaça. E eu pensei: foi só isso que sobrou do meu tio agora, a fumaça no casaco da minha mãe.
— Eu preciso ser forte — falou Emma. — Tenho que dar apoio aos Blackthorn. Julian está... — Destruído, arrasado, destroçado. Sumido. Não, não está sumido. Só não está aqui comigo.
— Você pode chorar por Livvy também — falou Cristina. — Ela era uma irmã pra você. A família vai além do sangue.
— Mas...
— Chorar não nos torna mais fracos — falou Cristina com firmeza. — Nos torna humanos. Como você poderia confortar Dru, Ty ou Jules se desconhecesse os motivos para a saudade deles quando pensarem na irmã? Compaixão é um sentimento universal. Ter a noção exata do rombo que uma perda deixa no coração de alguém é uma coisa muito rara.
— Não creio que algum de nós seja capaz de entender o quanto Ty está perdendo — falou Emma. Seus temores por Ty eram intensos, como um sabor amargo constante no fundo da garganta, que se misturava à tristeza que ela mesma sentia por causa de Livvy a ponto de Emma achar que ia engasgar.
Cristina afagou a mão da amiga.
— Melhor você se arrumar — sugeriu. — Estarei na cozinha.
Emma se vestiu num estado semiletárgico. Quando terminou, deu uma olhada no espelho. O uniforme branco estava coberto com símbolos de luto, por toda parte, desenhos sobrepostos que rapidamente perdiam o sentido aos olhos, como uma palavra repetida tantas vezes se tornava inexpressiva aos ouvidos. O traje deixava seus cabelos e pele com aspecto ainda mais pálido, e mesmo seus olhos pareciam frios. Ela se assemelhava a um pedaço de gelo, pensou, ou a lâmina de uma faca. Se ao menos Cortana estivesse com ela. Ela poderia ir até Brocelind para gritar e golpear o ar até a exaustão, tombar sob a agonia da perda que vertia de cada um de seus poros tal qual sangue. Sentindo-se incompleta sem sua espada, Emma seguiu para o primeiro andar.


Diana estava na cozinha quando Ty desceu. Estava sozinho, e ela apertou o copo que segurava com tanta força que os dedos chegaram a doer.
Não sabia ao certo o que esperava. Tinha passado boa parte da noite com Ty, enquanto ele dormia um sono morto, silencioso e imóvel. Tentara se lembrar de como rezar a Raziel, mas já fazia muito tempo. Na Tailândia, depois que sua irmã morrera, ela fizera ofertas de flores e incenso, mas nada disso ajudara ou chegara perto de curar o rombo naquele lugarzinho em seu coração antes ocupado por Aria. E Livvy era a gêmea de Ty. Nenhum dos dois sequer conhecera um mundo sem a presença do outro. As últimas palavras dela tinham sido Ty, eu... Ninguém jamais saberia o que mais ela pretendia dizer. Como ele daria conta de lidar com aquilo? Como qualquer pessoa daria conta de lidar com aquilo?
A Consulesa providenciara roupas de luto para todos, o que fora uma gentileza. Diana usava um vestido branco e um casaco do uniforme, e Ty estava em trajes mais formais. Um casaco branco, de corte elegante, calça branca e botas, o cabelo muito ajeitado e escuro em contraste a tudo o mais. Pela primeira vez, Diana se deu conta de que, quando crescesse, Ty ia ficar lindo. Ela passara tanto tempo enxergando-o como uma criança adorável que jamais passara por sua cabeça que um dia o conceito de beleza mais adulta poderia se aplicar a ele. O menino franziu a testa. Estava muito, muito pálido, quase da cor do papel, mas os cabelos estavam bem penteados e, aparentemente, ele estava calmo e quase comum.
— Vinte e três minutos — falou ele.
— O quê?
— Vamos precisar de 23 minutos para chegar aos Campos, e a cerimônia começa em 25 minutos. Onde está todo mundo?
Diana quase pegou o celular para enviar uma mensagem a Julian antes de se lembrar que celulares não funcionavam em Idris. Preste atenção, falou para si.
— Tenho certeza de que estão a caminho...
— Eu queria falar com Julian. — Não parecia uma ordem; era mais como se Ty estivesse tentando se lembrar de uma lista de tarefas pendentes. — Ele foi até a Cidade do Silêncio com a Livvy. Eu precisava saber o que ele viu e o que fizeram com ela por lá.
Eu não teria querido saber essas coisas sobre Aria, pensou Diana, e imediatamente se corrigiu. Ela não era Ty. Ele se confortava com fatos. Odiava o desconhecido. O corpo de Livvy fora levado e trancafiado atrás de portas de pedra. Claro que ele ia querer saber: será que tinham prestado homenagens ao corpo? Será que tinham guardado as coisas dela? Tinham limpado o sangue de seu rosto? Ele somente seria capaz de compreender se tivesse respostas.
Ouviram-se passos na escadaria e subitamente a cozinha estava cheia de Blackthorns. Ty saiu do caminho quando Dru desceu, os olhos vermelhos, vestida com um casaco de tamanho bem menor. Helen trazia Tavvy, ambos vestidos de branco; Mark e Aline, com os cabelos presos e pequenos brincos de ouro no formato de símbolos de luto. Diana percebeu com um susto que havia procurado Kieran ao lado de Mark, que esperava que ele estivesse ali agora e tinha se esquecido de que ele se fora. Cristina vinha logo atrás, seguida de Emma, ambas muito amuadas. Diana tinha servido torrada, manteiga e chá, e Helen pôs Tavvy no chão para pegar a comida dele. Ninguém mais parecia interessado em comer.
Ty deu uma olhadela ansiosa para o relógio. Um instante depois, Kit descera, parecendo pouco à vontade no casaco branco do uniforme. Ty não disse uma única palavra, nem sequer olhou para o outro, mas a tensão em seus ombros diminuiu levemente.
Para surpresa de Diana, o último a descer a escada foi Julian. A vontade dela foi correr para ele e verificar se tudo estava bem, mas fazia muito tempo desde que ele permitira um gesto assim. Se é que um dia permitira. Ele sempre fora um menino independente, pouco inclinado a demonstrar emoções negativas diante da família. Ela notou que Emma o observava, mas que ele não retribuiu o olhar. Estava preferindo examinar o cômodo à sua volta, ponderando sobre o astral de todos ali, e o que quer que estivesse pensando era invisível por trás dos escudos dos olhos azuis-esverdeados.
— É melhor a gente ir — falou. — Eles vão esperar por nós, mas não por muito tempo, e devemos estar lá para a cerimônia de Robert.
Havia alguma coisa diferente na voz dele; Diana não sabia bem o que era. Provavelmente, a monotonia da tristeza.
Todos se viraram para ele. Ele era o centro, pensou Diana, o sustentáculo ao qual a família sempre recorria.
Emma e Cristina se afastaram um pouco, pois não eram Blackthorn, e Helen pareceu aliviada quando Julian falou, como se temesse precisar ser responsável por organizar o grupo.
Tavvy foi até Julian e pegou a mão dele. Eles cruzaram a porta numa procissão silenciosa, um rio de branco fluindo pelos degraus de pedra da casa. Diana não conseguia deixar de pensar em sua irmã, que fora cremada na Tailândia, e nas cinzas dela, que voltaram para Idris e foram enterradas na Cidade do Silêncio. Mas Diana não comparecera ao funeral. Na época, ela acreditava que jamais retornaria a Idris.
Ao passarem pela rua na direção da Silversteel Bridge, alguém abriu uma janela acima. Uma bandeira branca e comprida com o símbolo de luto se desenrolou; Ty ergueu o rosto, e Diana percebeu que a ponte e a rua, em todo o trajeto até os portões da cidade, estavam decoradas com bandeiras brancas.
Eles seguiram caminhando por entre elas e até Tavvy estava olhando ao redor, admirado. Talvez a maioria delas fosse para Robert, o Inquisidor, mas também estavam ali por causa de Livvy.
Pelo menos, os Blackthorn sempre teriam isso, pensou ela, uma lembrança das honrarias concedidas à irmã.
Ela estava esperançosa de que a eleição de Horace como Inquisidor não fosse estragar o dia mais ainda. Durante toda a vida, estivera ciente do frágil cessar-fogo não apenas entre os Caçadores de Sombras e os integrantes do Submundo, mas entre os Nephilim, que achavam que o Submundo deveria ser incluído pela Clave — e também aqueles que pensavam o contrário. Muitos tinham comemorado quando os integrantes do Submundo finalmente se juntaram ao Conselho, depois da Guerra Maligna. Mas ela tomara conhecimento dos cochichos daqueles que pensavam o contrário, como Lazlo Balogh e Horace Dearborn. A Paz Fria dera a eles a liberdade para expressar o ódio em seus corações, confiantes de que todos os Nephilim de bem concordavam com eles. Diana sempre acreditara que eles estivessem equivocados, mas a eleição de Horace a encheu de medo de que pudesse haver mais Nephilim irremediavelmente imersos em ódio do que ela imaginara.
Quando eles saíram da ponte, alguma coisa roçou seu ombro. Ela esticou a mão para afastar e percebeu que era uma flor branca — de um tipo que só crescia em Idris. Então olhou para o alto; as nuvens desfilavam pelo céu, empurradas por um vento forte, mas viu o vulto de um homem a cavalo desaparecer atrás de uma delas.
Gwyn. O pensamento nele acendeu uma centelha de calor em seu coração. Ela fechou a mão com cuidado ao redor das pétalas.


Os Campos Eternos.
Era assim que eram intitulados, embora a maior parte das pessoas simplesmente preferisse chamá-los de os Campos. Eles se estendiam pelas planícies além de Alicante, desde as muralhas da cidade, construídas após a Guerra Maligna, até as árvores da Floresta Brocelind.
A brisa era suave e única em Idris; em certos aspectos, Emma preferia a brisa marítima de Los Angeles, com seu toque salgado. Aqui o vento parecia gentil demais para o dia do funeral de Livvy. Ele erguia seus cabelos e esvoaçava o vestido branco ao redor dos joelhos; fazia as bandeiras brancas de cada lado das piras flutuarem como fitas pelo céu.
O solo inclinava-se da cidade em direção aos bosques, e quando se aproximaram das piras funerárias, Cristina segurou a mão de Emma. Sua reação foi apertá-la, agradecida, conforme iam se aproximando o suficiente para avistara multidão e ouvir os cochichos que se erguiam ao redor. Havia solidariedade para os Blackthorn, sem dúvida, mas também havia olhares severos na direção dela e de Julian. Julian tinha trazido Annabel para Idris, e Emma destruíra a Espada Mortal.
— Uma lâmina tão poderosa quanto Cortana não poderia estar nas mãos de uma criança — falou uma mulher loura quando Emma passou.
— A coisa toda cheira a magia negra — falou outra pessoa.
Emma decidiu não prestar atenção. Ficou olhando bem para a frente: dali via Jia de pé entre as piras, toda de branco. Lembranças da Guerra Maligna a invadiram. Tantas pessoas vestidas de branco; tantas piras ardentes.
Ao lado de Jia, estava uma mulher com cabelos ruivos compridos que Emma reconheceu: Jocelyn, mãe de Clary. Ao lado dela, estava Maryse Lightwood, os cabelos negros generosamente rajados por fios brancos soltos nas costas. Ela parecia conversar atentamente com Jia, embora estivessem longe demais para Emma ouvir o que diziam.
As duas piras estavam concluídas, no entanto os corpos ainda não tinham sido trazidos da Cidade do Silêncio. Uns poucos Caçadores de Sombras estavam reunidos; ninguém era obrigado a comparecer aos funerais, mas Robert fora um tanto popular e as mortes dele e de Livvy tinham sido horríveis e chocantes.
A família de Robert estava junto à pira do lado direito — as vestes cerimoniais do Inquisidor esticadas no topo. Elas queimariam com ele. Em volta da madeira, em suas roupas adequadas ao ritual do luto, estavam Alec e Magnus, Simon e Isabelle, e até os pequenos Max e Rafe. Isabelle ergueu o rosto para Emma quando esta se aproximou e a cumprimentou com um aceno; os olhos estavam inchados de tanto chorar. Ao lado dela, Simon parecia tenso como uma corda de arco. Ele observava ao redor e seu olhar examinava as pessoas da multidão.
Emma não conseguia evitar se perguntar se ele procurava pelas mesmas pessoas que ela — as pessoas que deveriam estar aqui quando Robert Lightwood estivesse a postos para seu descanso eterno. Onde estavam Jace e Clary?


Raramente Kit considerou os Caçadores de Sombras tão estranhos quanto agora. Eles estavam por toda parte, vestidos de branco, uma cor que ele associava a casamentos e à Páscoa. As bandeiras, os símbolos, as torres demoníacas reluzentes ao longe — tudo isto combinado fazia com que ele se sentisse em outro planeta.
Isso sem mencionar o fato de que os Caçadores de Sombras não choravam. Kit já havia comparecido a funerais antes, e também visto alguns na tevê. As pessoas seguravam lenços e soluçavam neles. Mas não aqui; aqui ficavam em silêncio, muito controladas, e o som dos pássaros era mais alto do que o das conversas e do choro. Não que Kit estivesse chorando, ou que tivesse chorado quando seu pai morreu. Ele sabia que isso não era saudável, mas o pai sempre o fizera achar que desabar no choro do luto significava desabar para sempre. Kit devia muito à família Blackthorn, principalmente a Ty, para se deixar abalar por causa de Livvy. Ela não ia querer uma coisa dessas. Ela ia querer que ele desse apoio a Ty.
Um por um, outros Nephilim foram se aproximando dos Blackthorn para oferecer condolências. Julian se colocara à frente da família, como um escudo, e vinha descartando friamente todas as tentativas cordiais para falar com seus irmãos e irmãs, agrupados atrás dele.
Julian parecia mais frio e distante do que o normal, mas isso não era surpresa. O luto atingia cada um de maneira diferente. Mas isso significava que ele havia soltado a mão de Tavvy, de modo que o menino teve que se postar ao lado de Dru, empurrando-se contra a lateral do corpo dela. E também que havia deixado Ty sozinho, mas Kit foi até ele, sentindo-se resplandecentemente ridículo com o casaco e a calça de couro brancos. Sabia que era uma roupa de luto formal, mas ela o fazia sentir-se fazendo cosplay num videoclipe dos anos oitenta.
— Funerais sempre são tão tristes — falou uma mulher que se apresentara como Irina Cartwright, fitando Julian com um olhar de profunda compaixão. Como ele não respondeu, ela se voltou para Kit. — Você não acha?
— Sei lá — respondeu ele. — Meu pai foi devorado por demônios.
Irina Cartwright pareceu desconcertada e se afastou depressa depois de mais algumas frases banais.
Julian ergueu uma sobrancelha para Kit antes de cumprimentar a pessoa seguinte.
— Você ainda tem... o telefone? — perguntou Kit a Ty, e no mesmo instante se sentiu um idiota. Quem perguntaria a alguém no funeral de sua irmã gêmea se ele ainda tinha seu telefone? Especialmente quando não havia sinal de celular em parte alguma de Idris? — Quero dizer, não que você consiga telefonar. Para alguém.
— Tem um telefone em Idris que funciona. Fica no escritório da Consulesa — falou Ty. Ele não parecia estar fazendo cosplay de nenhuma estrela musical dos anos oitenta; estava gélido, impressionante e...
A palavra “lindo” piscou na mente de Kit como um letreiro em néon acendendo e apagando. Ele a ignorou.
Elegante. Ty estava elegante. Provavelmente era só porque pessoas de cabelos escuros ficavam naturalmente melhores de branco.
— Eu não preciso de sinal no telefone — falou Ty. — Preciso das fotos.
— Fotos da Livvy? — perguntou Kit, confuso.
Ty o encarou. Kit se lembrou dos dias em Londres, nos quais eles tinham trabalhado juntos, resolvendo... bem, resolvendo mistérios. Como Watson e Holmes. Ele jamais se imaginara capaz de compreender Ty. Mas sentia isso agora.
— Não — respondeu Ty. E olhou ao redor.
Kit se perguntava se a quantidade de gente se amontoando estaria incomodando Ty. Ele odiava multidões.
Magnus e Alec estavam parados, com os filhos, perto da Consulesa; junto deles, uma menina bonita de cabelos negros e com sobrancelhas iguaizinhas às de Alec e um menino — bem, provavelmente ele tinha uns vinte e poucos anos — com cabelo castanho bagunçado. O garoto lançou a Kit um olhar que parecia dizer você parece familiar. Algumas pessoas já tinham feito o mesmo, e Kit imaginava que fosse pela semelhança com Jace, se Jace, de modo súbito e inesperado, tivesse ficado mais baixo, menos musculoso e menos charmoso, em geral.
— Mais tarde, precisamos conversar — falou Ty em voz baixa, e Kit não soube se deveria ficar preocupado ou grato. Até onde ele sabia, Ty não tinha conversado direito com ninguém desde a morte de Livvy.
— Você não... quer conversar com seu irmão? Com Julian?
— Não. Eu preciso conversar com você. — Ty hesitou, como se estivesse prestes a dizer mais alguma coisa.
Ouviu-se um som triste e baixo, semelhante a uma trompa, e as pessoas se viraram para olhar para a cidade.
Kit acompanhou os olhares e viu uma procissão deixando os portões. Dezenas de Irmãos do Silêncio em seus uniformes cor de pergaminho caminhavam em duas fileiras ao lado de dois féretros, que eram carregados nos ombros por guardas do Conselho. Estavam distantes demais para Kit ver em qual deles estava Livvy: ele só conseguia distinguir que havia um corpo deitado em cada plataforma, enrolado em branco. E então eles se aproximaram, e ele viu que um dos corpos era bem menor que o outro, e se virou para Ty, sem conseguir se segurar.
— Eu lamento muito — falou. — Eu lamento tanto.
Ty olhava na direção da cidade. Uma das mãos abria e fechava, os longos dedos se dobrando, mas tirando isso, ele não demonstrava mais nenhum sinal de emoção.
— Na verdade, não tem nenhuma razão para você lamentar muito — falou. — Então, por favor, não lamente.
Kit ficou imóvel sem dizer palavra. Havia uma tensão fria nele, um medo que ele não conseguia repelir — medo de que ele não tivesse perdido apenas Livvy, mas Ty também.


— Eles ainda não voltaram — falou Isabelle. Ela estava serena, imaculada no uniforme, com uma faixa de seda branca na cabeça. Segurava a mão de Simon, e os nós dos dedos dela estavam tão brancos quanto a flor em sua lapela.
Emma sempre pensara na tristeza como uma garra. A garra de um monstro imenso e invisível, que se esticava dos céus e agarrava você, arrancando todo o seu fôlego, deixando apenas uma dor impossível de se desvencilhar ou de evitar. E aí só restava suportar o aperto da garra enquanto durasse. Ela enxergava a dor daquele aperto nos olhos de Isabelle, por trás de seu semblante tranquilo, e parte dela queria abraçar a outra.
Ela também queria que Clary estivesse ali — Clary e Isabelle eram como irmãs, e Clary poderia consolar Izzy daquele jeito que só uma melhor amiga consegue fazer.
— Eu pensei que você soubesse — falou Simon, e franziu as sobrancelhas ao olhar para Emma. E pensou em Clary dizendo que não podia contar a Simon sobre suas visões da morte, que ele ficaria arrasado. — Eu pensei que eles tivessem dito a você aonde iam.
Ninguém parecia estar prestando muita atenção a eles: Jia ainda conversava atentamente com Jocelyn e Maryse, e outros Caçadores presentes tinham ido até Julian e os outros para oferecer condolências.
— Eles disseram. Foram até o Reino das Fadas. Eu sei.
Instintivamente, Simon e Isabelle se aproximaram dela. Emma torcia para que não parecesse que estavam formando uma panelinha, compartilhando segredos, pois era exatamente isso o que estava acontecendo.
— É só que eu pensei que eles já deviam ter voltado a essa altura — falou Emma.
— Eles devem estar de volta amanhã — arrulhou Isabelle, e se abaixou para pegar Max no colo. Ela o tomou nos braços e afagou seus cabelos como queixo. — Eu sei... é terrível. Se ao menos tivesse um jeito de enviar uma mensagem...
— Não podíamos pedir que a Clave adiasse o funeral — falou Simon. Os corpos dos Caçadores de Sombras não são embalsamados; eles são cremados o quanto antes para que não comecem a se decompor.
— Jace vai ficar arrasado — falou Izzy, ao mesmo tempo que lançava um olhar para trás até o local onde seu irmão, de mãos dadas com Rafe, fitava Magnus enquanto conversavam. — Especialmente por não ter estado aqui com Alec.
— A tristeza dura um bom tempo — falou Emma, com um bolo na garganta. — No início, assim que acontece, muita gente fica do seu lado. Se Jace estiver com Alec mais tarde, depois que acabar todo o estardalhaço do funeral e todas as frases feitas de gente totalmente desconhecida, vai ser bem melhor.
O olhar de Izzy suavizou.
— Valeu. E tente não se preocupar com Clary e Jace. Nós sabíamos que não íamos conseguir entrar em contato com eles enquanto estivessem fora. Simon... é o parabatai de Clary. Ele sentiria se alguma coisa tivesse acontecido com ela. E Alec também, em relação a Jace.
Emma não podia questionar a força dos laços parabatai. Ela baixou o olhar e se perguntou se...
— Eles chegaram. — Era Magnus, esticando os braços para pegar Max do colo de Isabelle. E deu uma olhadela estranha a Emma, a qual ela não conseguiu interpretar. — Os Irmãos.
Emma olhou para trás. Era verdade: eles tinham deslizado praticamente sem fazer barulho em meio à multidão, dividindo-a como o Mar Vermelho.
Os Caçadores de Sombras recuaram quando os féretros trazendo Livvy e Robert passaram por eles, parando entre as piras. Livvy jazia pálida e exangue, o corpo envolvido por um vestido de seda branca, com uma venda de seda branca sobre os olhos. O colar de ouro reluzia no pescoço. Os cabelos castanhos e compridos estavam salpicados de flores brancas.
Livvy dançava na cama, usando um vestido de chiffon verde-claro que tinha comprado na Tesouros Escondidos. Emma, Emma, olha o meu vestido novo! Emma lutava contra a lembrança, contra a fria verdade: esse era o último vestido que ela veria Livvy usando. Era a última vez que veria os cabelos castanhos familiares, a curva da bochecha, o queixo teimoso. Livvy, minha Livvy, minha corujinha sábia, minha doce irmãzinha.
Ela queria gritar, mas os Caçadores de Sombras não gritavam na morte. Em vez disso, eles recitavam sábias palavras, que passavam de geração em geração.
— Ave atque vale. — O murmúrio percorreu a multidão. — Ave atque vale, Robert Lightwood. Ave atque vale, Livia Blackthorn.
Isabelle e Alec se viraram e ficaram de frente para o féretro de seu pai. Julian e os outros Blackthorn ainda estavam encurralados ali por quem os cumprimentava. Por um momento, Emma ficou a sós com Simon.
— Eu conversei com Clary antes de ela ir — falou Emma, e as palavras foram como uma pressão quente no fundo de sua garganta. — Ela temia que alguma coisa ruim fosse acontecer.
Simon pareceu perplexo.
— Que tipo de coisa ruim?
Emma balançou a cabeça.
— Só... que se ela não voltasse quando deveria...
Simon a encarou com expressão confusa, mas antes que pudesse dizer alguma coisa, Jia deu um passo à frente e começou a falar.


— Caçadores de Sombras morrem jovens — falou alguém na multidão. Julian não reconheceu o homem, na casa dos 40 anos, com sobrancelhas grossas escuras. Tinha um emblema da Scholomance em seu uniforme, mas pouca coisa mais o diferenciava das dezenas de outras pessoas que se aproximaram para dizer que lamentavam a morte de sua irmã. — Mas 15 anos... — O homem balançou a cabeça. Gladstone, se recordou Julian. O sobrenome dele era Gladstone. — Robert teve uma vida plena. Ele era meu primo distante, sabe. Mas o que aconteceu com sua irmã nunca deveria ter acontecido. Ela era só uma criança.
Mark emitiu um som estrangulado atrás de Julian, que falou alguma coisa educada para dispensar Gladstone. Tudo parecia distante, abafado, como se ele ou o mundo estivessem envolvidos em algodão.
— Eu não gostei dele — falou Dru depois que Gladstone se foi. A pele abaixo dos olhos dela estava brilhante e retesada com os rastros das lágrimas que não podiam ser limpos.
Era como se houvesse dois Julians. Um era o Julian de Antes, o Julian que teria feito alguma coisa para consolar Dru, que teria afagado os cabelos dela. O Julian de Agora não fazia nada disso. Permanecia imóvel conforme a multidão começava ase dispersar feito uma onda para abrir caminho para a procissão do funeral, e viu Helen erguer Tavvy nos braços.
— Ele tem sete anos — falou para ela. — Está grande demais para ficar sendo carregado no colo por aí.
Ela lhe deu um olhar meio de surpresa, meio de reprovação, mas não disse uma palavra.
Os Irmãos do Silêncio caminhavam entre eles com os féretros, e a família Blackthorn congelou quando o ar foi preenchido pelo cântico dos Nephilim.
 Ave atque vale, Livia Blackthorn. Saudações e adeus.
Dru apertou os olhos com as palmas das mãos. Aline passou um braço em volta dela. Julian procurou por Ty. Não conseguia evitar.
Mark tinha ido até Ty e agora conversava com ele; Kit estava ao lado do menino, as mãos enfiadas nos bolsos, os ombros murchos, arrasado. Ty fitava o féretro da irmã, um borrão vermelho ardendo em suas bochechas. Na descida para a cidade, ele tinha enchido Julian com perguntas: Quem tinha tocado nela na Cidade do Silêncio? Tinham limpado o sangue dela? Tinham penteado o cabelo? Tiraram o colar? Será que ele poderia ficar com as roupas dela? Quem escolheu o vestido com o qual ela seria enterrada? Eles tinham fechado os olhos dela antes de cobri-los com a fita de seda? Até Julian ficar exausto e quase explodir de impaciência.
As escadas foram posicionadas perto das piras, duas pilhas imensas de gravetos e lenha. Um Irmão do Silêncio pegou Livvy e começou a subir. Quando chegou ao topo, depositou o corpo; na segunda pira, outro Irmão fazia a mesma coisa com o cadáver de Robert Lightwood.
Diana também se postara ao lado de Ty. Ela trazia uma flor branca presa na gola, pálida em contraste à pele escura. Falou alguma coisa baixinho para o menino e Ty ergueu o rosto para ela.
Julian doía por dentro, uma dor física, como se tivesse levado um soco no estômago e só agora estivesse recuperando o fôlego. Ele sentia o pano ensanguentado amarrado em volta do pulso, como um circulo de fogo.
Emma. Procurou por ela na multidão e a viu de pé, ao lado de Simon. Cristina estava com eles.
As escadas foram retiradas e os Irmãos do Silêncio avançaram com as tochas acesas. O fogo era intenso o suficiente para iluminar até mesmo a paisagem diurna. Os cabelos de Emma faiscaram e captaram o brilho dele quando os Irmãos do Silêncio assumiram suas posições em torno das piras.
— Essas chamas, esse fogo — falou Mark, que aparecera ao lado do irmão. — Na Caçada Selvagem, nós fazemos um enterro no céu.
Julian o encarou. Mark estava corado, os cachos claros dos cabelos um tanto bagunçados. Os símbolos de luto tinham sido desenhados com cuidado e precisão, porém, isto significava que não tinham sido feitos por ele. Eram delicados e belos — obra de Cristina.
— Nós deixávamos os corpos no topo de geleiras ou de árvores altas para os pássaros bicarem — falou Mark.
— Que tal você não sugerir isso a ninguém neste funeral? — disse Julian.
Mark se encolheu.
— Desculpe, nem sempre eu sei dizer a coisa certa.
— Na dúvida, não diga nada — falou Julian. — Literalmente, é melhor se você não falar.
Mark ofereceu ao irmão o mesmo olhar que Helen dera antes — meio magoado, meio surpreso —, mas antes que pudesse dizer mais, Jia Penhallow, em trajes cerimoniais brancos e reluzentes como a neve, começou a falar:
— Caçadores das Sombras. — A voz forte cruzava os Campos Eternos. — Uma grande tragédia se abateu sobre nós. Um de nossos mais fiéis servos da Clave, Robert Lightwood, foi morto no Salão do Conselho, onde nossa Lei sempre prevaleceu.
— Boa ideia não mencionar que ele era um traidor — murmurou alguém na multidão. Era Zara.
Sibilos e risadinhas irromperam, como um bule explodindo. Seus amigos, Manuel Villalobos, Samantha Larkspear e Jessica Beausejours, estavam ao redor dela, num círculo fechado.
— Não acredito que eles estão aqui. — Era Emma. De algum modo, tinha se aproximado de Julian.
Ele não se lembrava de ter visto isso acontecendo, mas a realidade parecia piscar como o obturador de uma câmera se abrindo e fechando. Ela pareceu ligeiramente surpresa quando Julian não respondeu, mas caminhou até o meio da multidão, tirando Gladstone do caminho com um empurrão do braço rijo.
— E uma de nossas mais jovens e promissoras Caçadoras de Sombras foi assassinada, seu sangue foi derramado na frente de todos nós — falou Jia ao mesmo tempo que Emma se aproximava de Zara e seus amiguinhos.
Zara deu um pequeno pulo de susto, em seguida, tentou disfarçar a perda da compostura com uma careta. De um jeito ou de outro, Emma não ia se importar com a compostura da outra, pensou Julian. Ela gesticulava para Zara e, em seguida, para os Blackthorn e para Ty, quando a voz de Jia soou sobre a campina:
— Nós não vamos permitir que essas mortes permaneçam impunes. Não vamos esquecer seus responsáveis. Somos guerreiros, nós vamos lutar e retaliar.
Zara e os amigos pareciam obstinados — todos, menos Manuel, que esboçava um sorriso torto que, em outras circunstâncias, daria arrepios em Julian. Emma se virou e se afastou deles, com expressão sombria.
Ainda assim, Zara tinha parado de falar, o que já era alguma coisa.
— Eles se foram — falou Jia. — Os Nephilim perderam duas grandes almas. Que Raziel os abençoe. Que Jonathan Caçador de Sombras lhes faça as honras. Que David, o Silencioso se recorde deles. Vamos encomendar seus corpos à necrópole, onde eles servirão eternamente.
A Consulesa baixara a voz. Todos olhavam para ela, incluindo as crianças, Tavvy, Rafe e Max, por isso, todos notaram sua expressão mudar e ficar sombria. Ela falou as palavras seguintes como se estas lhe deixassem um gosto amargo.
— E agora nosso novo Inquisidor quer dizer umas poucas palavras.
Horace Dearborn deu um passo para frente; Julian não havia notado a presença dele até aquele momento. Ele usava uma veste de luto branca e uma expressão solene muitíssimo apropriada, embora por trás dela parecesse se esconder um sorriso de desdém, como uma sombra por trás de uma vidraça.
Já Zara sorria abertamente, e agora mais de seus amigos da Scholomance tinham se juntando a ela. Ela acenou para o pai, ainda sorrindo, e o sorriso de desdém de Manuel se escancarou até ocupar boa parte do rosto.
Julian viu náusea nas expressões de Isabelle e Simon, horror no rosto de Emma, e raiva nas expressões de Magnus e Alec. Ele até fez um esforço para sentir o que eles sentiam, mas não era capaz. Ele não sentia nada.


Horace Dearborn examinou a multidão por um longo momento. Kit já tinha recebido informações suficiente dos outros para saber que o pai de Zara era ainda mais sectário do que ela, e que fora nomeado novo Inquisidor pela maioria do Conselho, que parecia temer mais a Corte Unseelie e a ameaça do Submundo do que o fato de ter cedido poder a um homem nitidamente maligno. Não que Kit achasse isso surpreendente. Apenas deprimente.
Ty, ao lado dele, não parecia olhar para Horace. Todo o seu afinco estava em Livvy, ou no pouco que eles podiam ver dela — um pedaço de branco no topo de uma pilha alta de madeira. Enquanto olhava para a irmã, ele passava o indicador direito nas costas da mão esquerda e voltava a repetir o gesto; tirando isso, estava impassível.
— Hoje — falou Horace finalmente —, como diz a Consulesa, pode realmente ser um dia de luto.
— Que gentileza dele reconhecer isso — murmurou Diana.
— No entanto! — A voz de Horace se elevou e ele apontou um dedo para a multidão, como se estivesse acusando a todos de um terrível crime. — Essas mortes não vieram do nada. Não há dúvida de quem foram os responsáveis por esses assassinatos, embora Caçadores de Sombras tolos possam ter permitido que eles ocorressem, a mão do Rei Unseelie e de todas as fadas, e, por extensão, de todos os integrantes do Submundo, está por trás desse ato!
Por que isso?, pensou Kit. Horace o fazia lembrar dos políticos que berravam na tevê, homens de rosto vermelho que sempre pareciam zangados e sempre queriam que você soubesse que havia alguma coisa digna de ser temida. A ideia de que o Rei Unseelie era responsável pelas mortes de Livvy e de Robert, que todos os integrantes do Submundo eram culpados, não fazia sentido para Kit, mas, se ele esperava por um protesto da multidão, ficou decepcionado. Os espectadores estavam estranhamente calados, mas ao mesmo tempo Kit detinha a impressão de que não pareciam estar contra Horace. Ao contrário, era como se eles sentissem que não era educado aplaudir.
O rosto de Magnus era uma tela em branco, como se sua expressão tivesse sido apagada com uma borracha.
— A morte serve como um lembrete — falou Horace, e Kit olhou para Julian. Os cabelos castanhos do rapaz balançavam sob o vento mais forte. Kit duvidava que esse fosse um lembrete do qual Julian precisava. — Um lembrete de que temos somente uma vida e que devemos vivê-la como guerreiros. Um lembrete de que temos apenas uma chance de fazer as escolhas corretas. Um lembrete de que em breve chegará o momento em que todos os Caçadores de Sombras terão que escolher um lado. Eles vão querer apoiar os traidores e os defensores do Submundo? Vão apoiar aqueles que destruiriam nosso estilo de vida e nossa própria cultura? Será que eles... meu jovem, o que é que você está fazendo? Desça já daí!
— Ah, pelo Anjo — murmurou Diana.
Ty subia pela lateral da pira de sua irmã. Não parecia fácil — a madeira fora empilhada para a máxima eficiência ao queimar, não para ser escalada, mas, de qualquer forma, ele estava conseguindo encontrar apoio para as mãos e os pés. E já estava tão alto em relação ao solo que Kit sentiu uma onda de medo ao pensar no que aconteceria caso um daqueles pedaços de madeira se soltasse e o menino caísse.
Kit começou a correr atrás de Ty sem pensar duas vezes, mas sentiu alguém segurar sua gola e puxá-lo para trás. Diana.
— Não — disse ela. — Você não. — E seu rosto foi tomado por rugas sombrias.
Você não. Kit entendeu o que ela queria dizer num instante: Julian Blackthorn já estava correndo, empurrando o Inquisidor — que grasnou indignado — e pulando na pira. Aí começou a escalar atrás do irmão.


— Julian! — berrou Emma, mas duvidava que pudesse ser ouvida.
Agora todos gritavam: os guardas do Conselho, os enlutados, a Consulesa e o Inquisidor. Zara e seus amigos assobiavam e davam gargalhadas, apontando para Ty. Ele estava quase chegando ao topo da pira e não parecia ouvir ninguém ou nada ao redor. Escalava com uma intensidade determinada. Julian, mais abaixo, subia com mais cuidado sem conseguir igualar a velocidade do irmão. Apenas os Blackthorn estavam em completo silêncio.
Emma tentou avançar, mas Cristina segurou seu pulso e balançou a cabeça.
— Não... não é seguro e é melhor não distrair Julian...
Ty havia alcançado a plataforma em cima da pira. E então se sentou ali, empoleirado ao lado do corpo da irmã.
Helen emitiu um soluço vindo da garganta.
— Ty.
No topo da pira, não havia proteção contra o vento. O cabelo de Ty chicoteava seu rosto quando ele se abaixou sobre Livvy. Parecia estar tocando as mãos cruzadas dela. Emma sentiu uma tristeza solidária, semelhante a um soco no estômago, seguida por uma onda de ansiedade.
Julian alcançou a plataforma ao lado de Ty e de Livvy, e se ajoelhou perto do irmão. Eram como duas peças de xadrez pálidas, e apenas a cor dos cabelos (o de Ty era um tiquinho mais escuro) os diferenciava. Emma sentiu o coração na garganta. Uma das coisas mais difíceis que já tinha feito na vida fora não correr até a pira e subir lá. Tudo, exceto Julian e Ty, parecia distante e fora de foco, mesmo enquanto ela ouvia Zara e seus amigos rindo e dizendo que os Irmãos do Silêncio deveriam acender logo a pira, que deveriam queimar Ty e Julian junto a Livvy, já que eles queriam ficar com ela tanto assim.
Ela sentiu Cristina enrijecer ao seu lado. Mark estava cruzando a grama, em direção às duas piras. Agora Zara e seus amigos cochichavam sobre Mark, falando das orelhas pontudas dele, de seu sangue fada. Mark caminhava com a cabeça abaixada, determinado, e Emma não conseguiu mais se controlar — se afastou de Cristina e correu pela grama. Se Mark ia atrás de Julian e Ty, então ela ia também.
Ela avistou Jia, ao lado de Maryse e Jocelyn, todas imóveis, um quadro vivo horrorizado. Caçadores de Sombras não faziam esse tipo de coisa. Não faziam da tristeza um espetáculo. Eles não gritavam, nem ficavam furiosos, desmaiavam, surtavam ou escalavam até o topo de piras.
Julian estava inclinado agora, o rosto de Ty entre suas mãos. Apesar de sua localização, eles formavam um retrato estranhamente delicado. Emma podia imaginar o quanto aquilo tudo era difícil: Julian odiava demonstrar emoções na frente de qualquer um em quem não confiasse, mas não parecia pensar nisso; murmurava para Ty, e suas testas quase se tocavam.
— As escadas — disse Emma para Mark, e ele assentiu sem fazer mais perguntas.
Eles se esforçaram para passar em meio a um grupo de espectadores e pegaram uma das escadas pesadas que os Irmãos do Silêncio tinham trazido para o Campo, apoiando-a contra a lateral da pira de Livvy.
— Julian — chamou Emma, e o viu olhar para baixo enquanto ela e Mark firmavam a escada.
Em algum lugar, Horace gritava para eles irem embora e para os guardas do Conselho tirarem os meninos dali. Mas ninguém se mexeu.
Julian tocou Ty uma vez na bochecha e o menino hesitou, esticando os braços para se abraçar brevemente. Aí abaixou os braços e seguiu o irmão rumo à descida das escadas.
Julian foi o primeiro. Quando chegou ao chão, ele ficou imóvel, apenas ergueu o rosto, pronto para aparar seu irmão mais novo caso este caísse. Ty alcançou o chão e se afastou da pira sem parar para recuperar o fôlego, cruzando a grama até Kit e Diana. Alguém gritava para eles retirarem a escada: Mark a ergueu e carregou até os Irmãos do Silêncio, enquanto Emma segurava os pulsos de Julian e o conduzia gentilmente para longe da plataforma das piras. Ele parecia confuso, como se tivesse sido atingido com força suficiente para ficar tonto.
Ela parou a certa distância das outras pessoas e segurou as duas mãos dele. Ninguém acharia isso estranho; era um tipo normal de afeição entre parabatai. Ainda assim, Emma estremeceu com a combinação do toque, do pavor pela situação e da expressão vazia no rosto dele.
— Julian — falou, e ele se encolheu.
— Minhas mãos — disse ele num tom de surpresa. — Eu não senti.
Ela baixou o olhar e arfou. As palmas dele eram um acolchoado de farpas ensanguentadas dos gravetos. Algumas eram pequenas linhas escuras contra a pele, mas outras eram maiores, palitos de dente arrancados da madeira que entraram em ângulo e vertiam sangue.
— Você precisa de um iratze — falou ela, e soltou um dos pulsos para pegar uma estela em seu cinto. — Deixe que eu...
— Não. — Ele desvencilhou o outro pulso do contato dela. Sua expressão era mais fria do que gelo. — Não acho que seja uma ideia muito boa.
Então Julian se afastou enquanto Emma lutava para respirar. Ty e Mark retornaram para onde os Blackthorn se encontravam: Ty estava perto de Kit, como sempre vinha fazendo, como um imã se encaixando no lugar. Emma viu Mark esticar o braço e pegar a mão de Cristina e pensou: eu devia estar segurando as mãos de Julian, devia estar do lado dele, lembrando-o de que ainda há coisas no mundo pelas quais vale a pena viver.
Mas as mãos de Julian estavam ensanguentadas e feridas, e ele não queria que Emma as tocasse. Assim como sua alma estava rasgada e ensanguentada, e talvez ele não quisesse ninguém por perto também, mas ela era diferente, era a parabatai dele, não era?
Está na hora. A voz silenciosa de um dos Irmãos reverberou pelos Campos: todos a ouviram — exceto Magnus e Max, que olharam em volta, confusos.
Emma mal teve tempo de se preparar antes de os Irmãos do Silêncio tocarem as tochas na madeira aos pés de cada pira. O fogo ardeu e subiu, em ondas de tons dourados e vermelhos e, por um momento, foi quase belo. Então o estrondo das chamas a atingiu, como o som de uma onda se quebrando, e o calor percorreu a grama. O corpo de Livvy desapareceu por trás de uma cortina de fumaça.


Kit mal conseguia ouvir o cântico suave dos Nephilim acima do estalido faminto das chamas:
 Vale, vale, vale. Adeus, adeus. Adeus.
A fumaça era densa. Seus olhos doíam e ardiam, e ele não conseguia parar de pensar no fato de que seu pai não tivera um funeral, de que pouco restara dele para ser enterrado, pois sua carne se transformara em cinzas devido ao veneno dos demônios Mantis, e seus restos foram levados pelos Irmãos do Silêncio.
Kit não suportava olhar para os Blackthorn, por isso, resolveu observar os Lightwood. Agora já ouvira todos os nomes: sabia que a irmã de Alec era Isabelle, a menina com cabelos pretos abraçada a ele e à sua mãe, Maryse. Rafe e Max estavam de mãos dadas; Simon e Magnus estavam próximos dos outros, como pequenas luas de consolo orbitando um planeta de tristeza. Ele se lembrou de alguém dizendo que funerais eram para os vivos, não para os mortos, para que eles pudessem dizer adeus. E se perguntou sobre a fogueira: era para que os Nephilim pudessem se despedir no fogo que os fazia recordar dos anjos?
Ele viu um homem se aproximando dos Lightwood e piscou os olhos lacrimosos. Era um jovem bonito, com cabelos castanhos cacheados e um queixo quadrado. Não usava branco como os outros, mas uniforme preto simples. Ao passar por Maryse, ele parou e pôs uma das mãos sobre o ombro dela. Ela não se virou nem pareceu notar. Ninguém notou.
Magnus olhou para trás brevemente, franziu as sobrancelhas, mas voltou a olhar na outra direção; Kit percebeu com um frio no peito que era o único realmente capaz de enxergar o jovem — e que a fumaça parecia flutuar através do desconhecido, pois ele era feito de ar.
Um fantasma, pensou. Como Jessamine.
Olhou ao redor, enlouquecido. Sem dúvida, e haveria outros fantasmas aqui, nos Campos Eternos, com seus pés mortos que não deixavam rastros na grama, certo?
Mas conforme a fumaça se elevava acima e ao redor, ele via apenas os Blackthorn, abraçados, Emma e Cristina, lado a lado, e Julian com Tavvy. Um pouco relutante, olhou mais uma vez: o jovem com os cabelos escuros tinha se ajoelhado ao lado da pira de Robert Lightwood. Estava mais perto das chamas do que qualquer ser humano poderia ter chegado, e elas pareciam girar dentro dos contornos de seu corpo, os olhos acesos com lágrimas ardentes.
Parabatai, pensou Kit de repente. Na curva dos ombros do jovem, nas mãos esticadas, na saudade estampada em seu rosto, ele viu Emma e Julian, viu Alec quando este falava sobre Jace; sabia que estava olhando para o fantasma do parabatai de Robert Lightwood. Não entendia como, mas sabia. Um tipo de laço cruel, pensou, que transformava duas pessoas em uma, e que deixava tal destruição quando uma das metades se ia.
Kit desviou o olhar do fantasma, notando que a fumaça e o fogo tinham formado uma parede agora, e as piras já não eram mais visíveis. Livvy desaparecera por trás da escuridão fervente. A última coisa que ele viu antes de as lágrimas o cegarem por completo foi Ty a seu lado, erguendo o rosto e fechando os olhos, uma silhueta escura delineada pelo brilho do fogo, como se ele tivesse um halo dourado.

2 comentários:

  1. Kit viu Michael Wayland 😮

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  2. Bando de idiotas sem coração.
    Tadinho do ty.
    Eu queria que o Kit e o Ty fossem parabatais, mas parece que serão um casal mesmo.

    A clave nem percebe que o próximo Valentin esta se erguendo no meio deles. Mas sempre foram assim, eles mesmo constrói seus inimigos.

    O Julian esta bem esquisito, parece sem emoções.

    Michael Wayland
    Ainda não superei a forma que o Robert o tratou, mas vida que segue.

    A única tristeza pela morte do Robert é pelo fato de que se perde um importante aliado para o lado dos submundanos, mas tirando isso, não consigo ficar triste por ele.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!