5 de abril de 2019

Capítulo 29

Meredith enfiou as anotações de economia na bolsa enquanto atravessava o pátio. Pela primeira vez em muito tempo, parecia quase um campus universitário normal: grupos de alunos sentados na grama, casais de mãos dadas passeando pelos caminhos. Um pessoa correndo passou por Meredith enquanto ela andava, e ela desviou. Com a morte do último dos vampiro Vitale, os ataques no campus praticamente pararam, e o medo que mantinha todos dentro dos dormitórios estava diminuindo. Eles não sabiam que agora um inimigo muito mais terrível estava à espreita nas sombras.
O exército de Klaus devia estar caçando, mas estavam mantendo um nível muito mais baixo. O que era bom, claro, mas significava que a turma de Meredith, depois de três sessões canceladas, recomeçara. E eles tinham muito trabalho para fazer antes das provas.
Meredith teria que encontrar uma maneira de se encaixar entre estudar, malhar e patrulhar, e também estava determinada a não perder nenhum momento com Alaric, enquanto ele estivesse na Dalcrest. Um sorriso irreprimível surgiu no rosto de Meredith apenas com o pensamento dele: as sardas de Alaric, a mente afiada de Alaric, os beijos de Alaric. Ela deveria encontrá-lo para jantar na cidade em poucos minutos, percebeu, olhando para o relógio.
Quando olhou para cima novamente, viu Cristian, sentado calmamente num banco um pouco mais à frente no caminho, erguendo os olhos para encontrar os dela.
Meredith alcançou a pequena faca que carregava consigo dentro da bolsa. Não poderia levar seu bastão para a aula, e realmente não esperava problemas no meio do campus em plena luz do dia. Ela poderia ter se chutado: tinha sido uma idiota e baixado a guarda.
Cristian se levantou e veio na direção dela, as mãos erguidas em sinal de paz.
— Meredith — disse ele baixinho. — Eu não vim aqui para lutar.
Meredith segurou a faca com mais força, mantendo-a escondida dentro da bolsa. Havia muitas pessoas ao redor para ele atacar sem pôr em risco espectadores inocentes.
— Não parecia isso na floresta — lembrou ela. — Não finja que você não está trabalhando para Klaus.
Cristian deu de ombros.
— Eu lutei com você — disse ele — mas não estava tentando te machucar.
Meredith lembrou de Cristian na batalha contra os vampiros de Klaus. Eles tinham sido tão equilibrados que estava claro que treinaram com os mesmos pais: cada golpe que ele dava, ela bloqueava automaticamente, cada vez que ela o atacava, ele parecia se antecipar.
— Pense nisso — disse Cristian. — Klaus me transformou há apenas algumas semanas, mas eu me lembro de tudo de antes. Nós costumávamos treinar o tempo todo, mas eu sou um vampiro e um caçador agora. Estou muito mais forte e mais rápido que você. Se eu quisesse matá-la, teria feito.
Era verdade. Meredith hesitou, e Cristian se moveu para o lado do caminho, sentando-se no banco de novo. Depois de um momento, Meredith se juntou a ele. Ela não soltou a faca, mas não pôde evitar sua curiosidade sobre Cristian — seu irmão gêmeo. Ele era mais alto e mais largo do que ela, mas seu cabelo era exatamente do mesmo tom de marrom. Ele tinha a boca da mãe deles, com uma covinha sutil à esquerda, e o nariz era igual ao do pai.
Quando ela finalmente encontrou os olhos de Cristian, seu olhar estava triste.
— Você realmente não se lembra de mim, não é? — perguntou ele.
— Não — disse Meredith. — O que você lembra?
Na realidade que ela conhecia, Klaus tinha roubado Cristian quando ele era bebê, criando-o como se fosse dele. Mas no mundo alterado pelas Guardiãs, seu irmão gêmeo tinha crescido com ela até ser enviado para o colégio interno para o ensino médio. A maioria das pessoas tocadas sobrenaturalmente neste mundo — Tyler, por exemplo — tinham um conjunto duplo de memórias, duas sequências diferentes de eventos que se sobrepunham. Agora que Klaus transformara Cristian em vampiro mais uma vez, ele se lembraria das duas infâncias?
Mas Cristian estava balançando a cabeça.
— Eu me lembro de crescer com você, Meredith — disse ele. — Você é minha irmã gêmea. Nós — ele riu um riso incrédulo e triste, apenas um sopro de ar, realmente, e balançou a cabeça. — Lembra-se de como papai nos fez aprender o código Morse? Apenas por precaução, ele disse. E nós costumávamos trocar mensagens na parede entre nossos quartos quando deveríamos estar dormindo? — Ele olhou para ela, esperançoso, mas Meredith sacudiu a cabeça.
— Papai me fez aprender o código Morse — disse ela —, mas eu não tinha ninguém para trocar mensagens.
— Klaus me disse que na sua realidade, ele me levou para longe de casa e me transformou em vampiro quando éramos realmente pequenos. Mas ainda é estranho que você não se lembre de mim. Somos... éramos tão próximos — disse Cristian a ela. — Costumávamos ir à praia todo verão, quando eu chegava da escola. Até o verão passado, quando me alistei. Nós costumávamos encontrar pequenas criaturas e mantê-las nas piscinas naturais, como nossos pequenos aquários. — Seus olhos cinzentos, cheios de pesados cílios negros, estavam arregalados e tristes. Eles eram parecidos com os próprios olhos de Meredith, talvez um pouco mais leves, mas agora eles a lembraram fortemente a mãe dela. Com um sobressalto, ela percebeu que o exército deve ter dito a seus pais que Cristian estava desaparecido agora.
— Sinto muito — disse a ele, se sentindo arrependida. — Não me lembro de ter ido à praia quando criança. Acho que meus pais - nossos pais - perderam o gosto pelas férias em família depois que você se foi.
Cristian suspirou e colocou a cabeça entre as mãos.
— Eu queria que você tivesse tido a chance de me conhecer quando eu era humano — disse ele. — Num minuto eu estou deitado no quartel cercado por um bando de outros caras, imaginando o que me possuiu para me alistar logo no colegial, e no outro esse vampiro me leva e me conta todas essas coisas malucas sobre como eu “sempre fui dele, como ele está acertando as coisas”. — Ele deu outro riso abafado e triste. — Todo o meu treinamento, e o primeiro vampiro que encontro me pega imediatamente. Papai vai ficar tão bravo.
— Não é culpa sua — Meredith disse a ele, e estremeceu quando percebeu que, sim, o pai deles ficaria muito bravo. Mas triste, é claro, e enojado, mas ele definitivamente acharia que Cristian deveria ter lutado melhor.
Cristian levantou uma sobrancelha cínica para ela e os dois riram. Era estranho, Meredith percebeu: por um momento, compartilhando a sensação de exatamente o que significava ser filho de Nando Sulez, ela realmente sentia que Cristian era seu irmão.
— Eu queria ter te conhecido quando você ainda era humano — disse a ele. — Eu apenas pensei que teria mais tempo.
Ela teria sido uma pessoa diferente se tivesse crescido com um irmão? Ela se perguntou. Os ataques de Klaus à sua família haviam mudado seus pais: os que estavam nesta realidade, que não tinham perdido um filho, eram menos cautelosos, mais abertos com suas afeições. Se ela tivesse crescido com esses pais e com Cristian ao seu lado, alguém para competir, alguém para ajudar a suportar o peso das expectativas de seus pais, alguém que conhecesse todos os segredos de sua família, como ela seria? Ela se sentiu menos sozinha no breve tempo em que conheceu Samantha: outra caçadora como ela, da sua idade. Um irmão teria mudado tudo, pensou Meredith melancolicamente.
— Não estou interessado no fim do jogo de Klaus — disse Cristian. — Eu sou um vampiro agora, e é difícil para mim lidar com isso. É difícil lutar com o jeito que me sinto quando estou perto de Klaus. Mas ainda sou seu irmão. Eu ainda sou um Sulez. Não quero perder isso. Talvez pudéssemos passar algum tempo juntos? Você poderia me conhecer agora. — Ele olhou para ela com tristeza.
Meredith engoliu em seco.
— Tudo bem — disse ela, e soltou os dedos do cabo da faca. — Vamos tentar.


Querido Diário,
Tenho que me preparar. Se as Guardiãs não mudarem minha tarefa, meus Poderes estarão concentrados em encontrar e destruir Damon, não Klaus. Eu preciso ser capaz de derrotar Klaus sozinha, descobrindo meu Poder por mim mesma.
Durante uma hora hoje, Andrés e eu tentamos desbloquear mais do meu Poder.
Foi um fracasso total.
Andrés tinha decidido que aprender a mover as coisas com a minha mente poderia ser útil, então ele distribuiu pedaços de papel em toda a casa de James e me encorajou a imaginar proteger meus amigos do mal, arremessando-os ao redor. Foi revoltante imaginar Stefan, Bonnie ou Meredith à mercê de Klaus, e eu queria salvá-los. Eu sabia que, se conseguisse apostar na hora certa, poderia mudar as coisas em uma luta. Mas não consegui sequer mexer uma página.
Eu vou estar tão pronta quanto posso estar, apesar de tudo. Se não posso usar meus Poderes de Guardiã para derrotar Klaus, lutarei com ele cara a cara. Se não posso ser morta pelo sobrenatural, tenho uma enorme vantagem. Meredith e Stefan me ensinaram a lutar, como usar armas.
Klaus é muito pior do que Damon poderia ser: quando paro para pensar, me lembro de tantas vezes que Damon salvou inocentes em vez de matá-los  Bonnie, os humanos da Dimensão das Trevas, metade da nossa escola. Eu. Eu lhe devo minha vida. Vez após vez, mesmo quando ele vacilou, ele se afastou da escuridão fácil e foi para o lado direito, o lado que salvou os indefesos. Eu sei que ele se desviou de novo  Elena fez uma pausa. Não podia suportar a ideia de que Damon estava matando novamente. Mas respirou fundo e enfrentou a verdade —, mas talvez seja nossa culpa, minha e de Stefan, por não mostrar a ele que nos importamos. Quando Stefan e eu voltamos, tudo que eu conseguia pensar era em me agarrar tão apertado nele que ele nunca mais escaparia. Damon precisa de nós, embora nunca vá admitir, mas vamos lutar com a escuridão que o envolve. Vamos salvá-lo. Se eu puder lembrar as Guardiãs de tudo que Damon fez por nós no passado, elas vão ver que ele não é mau. Elas podem ser racionais, mesmo que sejam frias e distantes.
Eu odiava a ideia de ser uma Guardiã, de me tornar menos humana. Mas agora sei que é um dom, um dever sagrado de proteger o mundo. Como Guardiã, posso evitar algumas mortes, alguns sofrimentos. Quando eu acessar plenamente meus Poderes, poderei usá-los para derrotar o alvo certo. Eu ainda posso ser a única a matar Klaus.


— Liguei para Alaric e disse que o encontraria em uma hora — disse Meredith. — Eu tinha que falar com vocês primeiro. — Ela mexeu uma colher de açúcar em seu chá com movimentos tão cuidadosos e precisos que Elena tinha certeza de que Meredith estava mantendo um controle firme sobre si mesma para evitar entrar em histeria.
Pela mesma razão, Elena sabia, Meredith tinha chamado apenas os três para encontrá-la no café: Elena, Bonnie e Matt, os amigos mais antigos de Meredith, o grupo que tinha resistido a tanta coisa juntos. Meredith amava Alaric e confiava nele de todo coração, assim como Elena com Stefan, mas às vezes você queria seus melhores amigos com você.
— Cristian diz que quer ser minha família — contou Meredith. — Ele não está interessado em lutar ao lado de Klaus. Mas como posso acreditar nele? Perguntei a Zander o que ele podia sentir sobre Cristian, mas ele não tinha certeza. Ele disse que às vezes, se a pessoa tem muita coisa acontecendo emocionalmente, seu Poder não funciona. — Ela olhou para Bonnie com simpatia. — Zander sente sua falta — disse, e Bonnie olhou para o colo.
— Eu sei — respondeu ela suavemente. — Mas não posso ser a pessoa que ele precisa. — Elena apertou-lhe a mão por baixo da mesa.
Matt esfregou a nuca.
— Talvez Cristian esteja dizendo a verdade — ofereceu ele. — Chloe deixou Ethan e parou de beber sangue. Há bons vampiros, nós sabemos disso. Olhe para Stefan.
— Onde está Chloe, aliás? — perguntou Bonnie. — Você passa todo o seu tempo com ela.
— Stefan a levou para caçar na floresta — respondeu Matt. — Ela está com medo de ir sozinha desde que Klaus a atacou, mas Stefan disse que se ela vai sobreviver, não pode se esconder para sempre. E eu tenho um jogo mais tarde, então Stefan pode lhe fazer companhia, ajudá-la a afastar a sede de sangue.
— Pelo menos parece que Cristian quer tentar — Elena disse a Meredith. — Estou com medo de ter perdido Damon. Ele foi tão violento. Era como se ele quisesse que eu desistisse dele. — Ela não tinha contado a Meredith e aos outros que Damon confessara tão casualmente ter matado alguém, mas contara sobre a cena brutal e assustadora no bar.
Meredith olhou para a superfície de seu chá por um momento, depois levantou os olhos para encontrar os de Elena.
— Talvez você devesse — disse ela baixinho. Elena balançou a cabeça em negação imediata, mas Meredith continuou. — Você sabe do que ele é capaz, Elena — disse ela. — Se ele realmente quer ser ruim de novo, ele é forte o suficiente e inteligente o suficiente para ser muito mau. As Guardiãs podem estar certas. Talvez ele seja uma ameaça ainda maior que Klaus.
Elena cerrou os punhos.
— Eu não posso, Meredith — disse ela com voz embargada. — Eu não posso. E não posso deixar ninguém mais, também. É Damon. — Seus olhos encontraram os de Meredith. — Cristian é sua família, é por isso que você não pode matá-lo sem lhe dar uma chance. Bem, Damon se tornou minha família também.
Bonnie olhou para eles, de olhos arregalados.
— O que podemos fazer? — perguntou ela.
— Escute — disse Matt de repente. — Meredith era uma caçadora quando conheceu Stefan e Damon, mesmo que o resto de nós não soubesse disso. Ela odiava vampiros, certo? — Todos concordaram. — Então — ele se virou para Meredith —, como você conseguir superar isso?
Meredith piscou.
— Bem — disse ela lentamente —, eu sabia que Stefan não era um assassino. Ele amava tanto Elena, e tentava proteger as pessoas. Damon... — ela hesitou. — Por muito tempo, eu pensei que provavelmente teria de matar Damon. Era meu dever. Mas ele mudou. Ele lutou no lado certo. — Ela olhou de volta para a mesa, com o rosto sombrio. — O dever é importante, Elena — disse. — Um caçador ou um Guardião, nós somos responsáveis por salvar pessoas inocentes do mal. Você não pode ignorar isso. — Os olhos de Elena se encheram de lágrimas.
— Exatamente — disse Matt. — Então, e se Damon mudar de novo? Se pudéssemos fazer com que ele agisse diferente, bem, se vocês pudessem, de qualquer maneira, ele nunca me ouviria, então poderíamos mostrar às Guardiãs que ele não é uma ameaça.
— Há uma razão para as Guardiãs não estarem preocupadas com Stefan — Bonnie acrescentou.
— Talvez — disse Elena. Ela sentiu os ombros caídos e endureceu automaticamente a espinha. Não ia desistir, não importava o quão desesperada a ideia de conseguir que Damon mudasse seu comportamento parecia. — Talvez eu possa colocá-lo de volta nos trilhos. Não funcionou na primeira vez, mas isso não significa que eu não possa tentar outra abordagem — disse ela, desejando um pouco mais de positividade na voz. Ela só teria que seguir em frente, pensar em uma maneira de fazer Damon ficar do lado do bem de novo.
— Ou podemos tentar prendê-lo até que ele mude — Matt sugeriu meio de brincadeira. — Talvez Bonnie e Alaric possam encontrar algum tipo de feitiço calmante. Vamos descobrir alguma coisa.
— É isso — disse Meredith. Elena olhou para ela e Meredith deu-lhe um pequeno e triste sorriso. — Talvez Damon mude a tempo de se salvar. E talvez Cristian esteja dizendo a verdade. Se tivermos sorte, nenhum deles terá que morrer. — Ela estendeu a mão sobre a mesa e apertou a mão de Elena. — Nós vamos tentar — disse, e Elena assentiu, apertando de volta.
— Pelo menos nós temos um ao outro — disse Elena, olhando ao redor para encontrar os olhares simpáticos de Bonnie e Matt. — Não importa o que aconteça, nunca será a pior coisa, não enquanto vocês estiverem ao meu lado.

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