5 de abril de 2019

Capítulo 28

Bonnie caminhava pelo campus descalça, com o pijama de casquinha de sorvete batendo nos tornozelos. Ah, ótimo, pensou ela tristemente. Esqueci de me vestir de novo.
— Você está pronta para o teste? — disse Meredith alegremente ao lado dela. Bonnie parou e olhou para ela, desconfiada.
— Que teste? — perguntou. — Nós não temos aula juntas, não é?
— Ah, Bonnie — disse Meredith, suspirando. — Você nem leu o seu e-mail? Houve algum tipo de confusão, ao que parece, e todos nós temos que passar por um grande exame de espanhol do ensino médio que perdemos, ou não teremos realmente nos formado.
Bonnie olhou para ela, congelada de horror.
— Mas eu fiz francês — disse ela.
— Bem, sim — respondeu Meredith. — É por isso que você deveria estar estudado todo esse tempo. Vamos, vamos nos atrasar. — Ela começou a correr, e Bonnie cambaleou atrás dela, tropeçando nos cadarços de seus Converse.
Espere um segundo, pensou ela. Eu não estava descalça um minuto atrás?
— Espere, Meredith — disse ela, parando para recuperar o fôlego. — Acho que isso é um sonho. — Meredith continuou correndo, porém, reta e segura pelo caminho, seus cabelos longos e escuros voando ao vento enquanto deixava Bonnie para trás.
Definitivamente um sonho, pensou Bonnie. Na verdade, tenho certeza que já tive esse sonho antes.
— Eu odeio esse sonho — ela murmurou.
Ela tentou se lembrar das técnicas de sonhar consciente que estava aprendendo com Alaric. Isso é um sonho, disse a si mesma ferozmente. Nada é real e posso mudar o que quiser. Olhando para baixo, ela fez seus tênis amarrarem-se e trocou o pijama por um jeans azul e um top preto.
— Melhor — disse ela. — Ok, esqueça o exame. Eu acho que quero...
Possibilidades estavam voando em sua mente, mas depois esqueceu todas elas, porque de repente na frente dela estava Zander. O maravilhoso, querido Zander, que ela amava de todo o coração. E Shay.
— Eu odeio tanto meu subconsciente — Bonnie murmurou para si mesma.
Zander estava olhando para Shay com um pequeno sorriso, dando-lhe aquele olhar de adoração que deveria ser reservado apenas para Bonnie. Enquanto Bonnie observava, ele passou a mão suavemente pelo rosto de Shay, inclinando o rosto dela para ele. Mude! Bonnie gritou interiormente para si mesma quando os lábios de Shay e Zander se encontraram num beijo suave e demorado.
Antes que ela pudesse se concentrar, porém, tudo ficou escuro por um segundo, e ela sentiu um puxão poderoso e doloroso quando foi arrancada do sonho. Quando seus olhos se abriram, ela estava em um lugar novo, uma brisa agitando seus cachos. E olhando-a, de pé e assustadoramente perto, o rosto iluminado com o riso, estava Klaus.
— Olá, ruivinha — disse ele. — Não é assim que Damon costumava chamá-la?
— Como você sabe disso? — perguntou Bonnie, desconfiada. — E onde estou, afinal?
O vento aumentou, soprando mechas de cabelo em seu rosto, e ela as empurrou de volta.
— Eu tenho remexido em sua mente, ruivinha — disse Klaus. — Não posso chegar a tudo ainda, mas posso pegar fragmentos. — Ele deu um sorriso amplo e cativante. Ele seria realmente muito bonito, pensou Bonnie loucamente, se não fosse tão obviamente insano. Klaus continuou. — É por isso que escolhi este lugar para o nosso bate-papo.
A cabeça de Bonnie limpou um pouco e ela olhou em volta. Estavam ao ar livre, numa pequena plataforma protegida por uma cúpula arqueada. Em todas as direções, uma extensão azul se espalhava, e lá embaixo, um toque de verde. Ah, caramba. Eles estavam em um lugar muito alto.
Bonnie detestava alturas. Obrigando-se a desviar o olhar da longa queda de todos os lados, ela ficou imóvel, no meio da plataforma, o mais longe possível dos lados, e olhou para Klaus.
— Ah, sim — ela disse. Não era a melhor linha de raciocínio, mas era o melhor que ela conseguia controlar sob as circunstâncias.
Klaus sorriu alegremente.
— Uma dos fragmentos que encontrei foi a sua lembrança do tour de orientação do campus. Eles se ofereceram para levá-la até a torre do sino, não é? Mas você disse — e de repente um eco misterioso da voz de Bonnie se levantou em torno deles, brincando, mas com um toque de medo real — De jeito nenhum, José, se eu subir tão alto vou ter pesadelos gritando por uma semana! — Quando a memória da voz de Bonnie se extinguiu, Klaus sorriu. — E então eu pensei que esse seria um bom lugar para a nossa conversa.
Bonnie se lembrou do incidente na turnê vividamente. A torre do sino, o ponto mais alto do campus, era um local popular, mas Bonnie não conseguia olhar sem o estômago se contrair. Zander e seus amigos gostavam de festejar nos telhados de prédios, mas os telhados tendiam a ser muito maiores do que a torre do sino, e lá Bonnie podia ficar longe das beiradas. Além disso, naquelas festas, ela tinha Zander, grande, tranquilizador e protetor com ela, o que fazia toda a diferença.
Ainda assim, ela não deixaria Klaus ver que estava atingindo-a. Cruzando os braços desafiadoramente, ela apenas olhou cuidadosamente para Klaus.
— Eu estava brincando na turnê — mentiu. — Eu só não queria subir todos aqueles degraus.
— Interessante — disse Klaus, seu sorriso se alargando, e então levantou as mãos. Ele não tocou em Bonnie, mas ela se viu de repente derrapando para longe dele, como se ele estivesse empurrando-a com força. Suas costas colidiram finalmente com a grade na beira da plataforma, e ela soltou um pequeno e desamparado gemido. — Não minta para mim, ruivinha — disse Klaus baixinho, caminhando em direção a ela. — Eu posso sentir seu medo.
Bonnie cerrou os dentes e não disse nada. Ela não olhou para trás.
— Me conte o segredo de Elena, ruivinha — disse Klaus, sua voz ainda suave e persuasiva. — Você é a bruxa dela, então deve saber. Por que eu não pude matá-la na batalha? Você fez alguma coisa?
— Não faço ideia. Talvez a sua faca estivesse cega — brincou Bonnie.
Ela guinchou involuntariamente quando seus pés de repente saíram do chão. Ela estava — oh, Deus — pendurada no ar como uma marionete suspensa por fios invisíveis. Então aquelas cordas a puxaram para trás, seus tornozelos batendo dolorosamente contra o topo do corrimão quando ela foi varrida impotente para fora para ficar no espaço vazio. Bonnie pegou uma vislumbre aterrorizante do campus muito abaixo dela antes de fechar os olhos com força. Não me deixe cair, ela rezou. Por favor, por favor. Seu coração batia tão forte que ela não conseguia respirar.
— Sabe, dizem que se você morrer num sonho, você realmente morre na sua cama — disse Klaus baixinho, soando como se estivesse ao lado dela. — E posso dizer por experiência própria que o ditado é bem verdade. — Ele soltou uma risada baixa, enjoativamente excitada. — Se eu deixá-la cair, eles encontrarão pedaços de você pelas paredes do quarto por semanas — disse ele. — Mas não tem que chegar a esse ponto. Apenas me diga a verdade e eu deixo você descer suavemente. Eu prometo.
Bonnie cerrou os olhos e  apertou a mandíbula mais forte. Mesmo se ela estivesse disposta a trair Elena — o que não estava, nunca estaria, não importa o que acontecesse, ela disse a si mesma com firmeza — não acreditava que Klaus manteria sua promessa. Lembrou-se atordoada de como Vickie Bennett tinha morrido nas mãos de Klaus. Ela havia sido despedaçada, seu sangue respingando como se uma criança tivesse girado uma lata de tinta vermelha em seu quarto rosa. Talvez Klaus tivesse matado Vickie em seus sonhos.
Klaus riu e o ar em torno de Bonnie mudou novamente.
— O que está acontecendo? — perguntou uma voz confusa, assustada e — oh — tão familiar. Os olhos de Bonnie se abriram.
Próximo a ela no ar pendia Zander. Toda a cor estava descolorida de seu rosto, de modo que seus olhos grandes e aterrorizados pareciam ainda mais incrivelmente azuis do que o habitual. Ele estava agarrando o ar vazio com as duas mãos, lutando para encontrar algo para segurar.
— Bonnie? — ele resmungou. — Por favor, o que está acontecendo?
— Sua namorada, ou ex-namorada, se recusa a me dizer algo que quero saber — respondeu Klaus. O vampiro estava sentado no parapeito da torre do sino, com as próprias pernas balançando do lado de fora. Ele sorriu para Zander. — Eu pensei que se te trouxesse, você poderia dar algum incentivo a ela.
Zander olhou para Bonnie, suplicante.
— Por favor, diga a ele, Bonnie — implorou. — Eu preciso que isso pare. Deixe-me no chão.
Bonnie engoliu em seco, entrando em pânico.
— Zander — disse ela. — Zander, oh, não. Não o machuque.
— O que quer que aconteça a Zander agora, é culpa sua, ruivinha — Klaus lembrou a ela.
E então algo clicou. Espere, disse uma voz dentro da cabeça de Bonnie. A voz, fria e cínica, soava como Meredith. Zander não tem medo de altura. Ele a ama.
— Pare com isso — disse ela para Klaus. — Esse não é Zander. É apenas algo que você inventou. Se você está procurando coisas dentro da minha cabeça, está fazendo um péssimo trabalho. Zander não é nada disso.
Klaus deu um grunhido agudo de irritação, e o Zander que tinha criado ficou inerte no ar ao lado dela, a cabeça caindo para o lado. Ele parecia perturbadoramente morto assim, e apesar de Bonnie saber que não era real, ela teve que desviar o olhar.
Ela sabia o tempo todo que isso era um sonho, é claro. Mas tinha esquecido o mais importante sobre controlar sonhos: eles não eram reais.
— Isso é um sonho — murmurou para si mesma. — Nada é real e posso mudar o que eu quiser. — Ela olhou para o falso Zander e o fez sumir.
— Inteligente, não é? — Klaus comentou, e então, tão facilmente como abrir a mão, ele a deixou cair.
Bonnie respirou fundo, assustada, e então se lembrou de fazer um chão sob seus pés. Ela tropeçou quando aterrissou, seu tornozelo virando, mas não se feriu.
— Ainda não acabou, ruivinha — disse Klaus, descendo do corrimão e caminhando em direção a ela pelo ar como se fosse sólido, sua capa de chuva suja batendo na brisa. Ele ainda estava rindo, e havia algo no som que assustou Bonnie. Sem sequer pensar, ela flexionou a mente e o jogou o mais longe que pôde.
O corpo de Klaus voou para trás, tão desajeitado como uma boneca de pano, e Bonnie teve apenas um segundo para ver sua expressão de espanto se transformar em raiva antes que ele fosse apenas um pontinho preto caindo no horizonte. Enquanto Bonnie observava, o pontinho parou de cair, virou-se e se ergueu, voltando na direção dela. Movia-se assustadoramente rápido, e logo ela pôde distinguir o contorno de uma grande ave predatória, um falcão, talvez, mergulhando em direção a ela.
Hora de acordar, ela pensou.
— É apenas um sonho — disse ela. Nada aconteceu. Klaus estava chegando mais perto, muito mais perto. — É apenas um sonho — repetiu ela —, e posso acordar a hora que quiser. E quero acordar agora.
E então ela realmente acordou, aquecida sob o edredom em sua própria cama aconchegante.
Depois de um suspiro de puro alívio, Bonnie começou a chorar — grandes, feios e sufocantes soluços. Ela foi até sua mesa, pegando o celular. As imagens de Zander, com o rosto decidido, beijando Shay, pendendo impotente no ar, ficaram com ela. Não era o verdadeiro Zander; Bonnie sabia disso intelectualmente. Mas precisava ouvir a voz dele de qualquer maneira. Assim que estava prestes a apertar o botão de ligar, ela hesitou.
Não era justo ligá-lo, era? Foi ela quem tinha dito que eles deveriam dar um tempo, para que Zander pudesse pensar no que seria certo para ele, não apenas como pessoa, mas como o Alfa de uma Alcateia. Não seria justo ligá-lo para se sentir melhor, só porque Klaus usara sua imagem no sonho de Bonnie.
Ela desligou o telefone e empurrou-o de volta para a mesa, soluçando mais forte.
— Bonnie? — A cama afundou quando Meredith atravessou o espaço de sua própria cama e sentou-se na beira da de Bonnie. — Você está bem?
De manhã, Bonnie contaria tudo a Meredith e aos outros. Era importante que eles soubessem que Klaus tinha entrado em seus sonhos mais uma vez, e que as técnicas que Alaric tinha pesquisado permitiram que Bonnie lutasse com ele desta vez. Mas não podia falar sobre isso agora, não no escuro.
— Pesadelo — disse ela em vez disso. — Fique aqui por um minuto, sim?
— Tudo bem — Bonnie sentiu o braço fino e forte da amiga envolvendo seus ombros. — Vai ficar tudo bem, Bonnie — disse Meredith, dando tapinhas nas costas dela.
— Acho que não — respondeu Bonnie, e enterrou a cabeça no ombro de Meredith e chorou.

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