10 de abril de 2019

Capítulo 28 - E sombras lá

FOI LEGAL NA FLORESTA BROCELIND; a invasão do outono acrescentou uma mordida fria de metal no ar que
Emma podia sentir em sua língua.
O silêncio veio subitamente depois da viagem de Portal, a montagem de tendas em um espaço aberto entre as
árvores antigas e a terra verde. Estavam longe das áreas arruinadas, Diana prometeu-lhes – ao longe, sobre os
topos das árvores, Emma podia ver o brilho das torres demoníacas de Alicante.
Ela ficou em pé, observando onde eles estavam acampando.
Havia cerca de uma dúzia de barracas, montadas em fileiras, cada uma com duas tochas acesas na frente das
portas de flape. Elas eram aconchegantes por dentro, com tapetes grossos no chão e até mesmo cobertores.
Alec deu a Magnus um olhar de lado quando eles apareceram do nada.
— Eu não os roubei — Magnus disse, olhando atentamente para as unhas. — Eu peguei emprestado.
— Então você vai devolvê-los para a loja de camping? — disse Alec, com as mãos nos quadris.
— Na verdade eu os consegui de um armazém que fornece adereços para filmes — disse Magnus. — Levará
anos até que alguém perceba que eles se foram. Não — ele acrescentou apressadamente — que não vou devolvêlas,
é claro. Todos, tentem não colocar fogo em suas barracas! Elas não são nossa propriedade!
— Normalmente, alguém as incendeia? — disse Kieran, que tinha sua própria tenda – Mark e Julian
compartilhavam uma, e Emma compartilhava outra com Cristina. — Isso é uma tradição?
Mark e Cristina sorriram para ele. A estranheza acontecendo com os três estava ficando mais intensa, Emma
pensou, e resolveu perguntar a Cristina sobre isso.
A oportunidade chegou mais cedo do que ela estava pensando.
Ela estava inquieta sozinha dentro da tenda – Cristina estava ajudando Aline e Julian, que se encarregaram de
cozinhar o jantar.
Todo mundo estava murmurando em torno de mapas e planos, exceto Jace, que tinha caído visivelmente,
dormindo com a cabeça no colo de Clary.
Emma não conseguia se concentrar. Seu corpo e mente zumbiam com energia. Tudo o que ela queria era
conversar com Julian. Ela sabia que não podia, mas a necessidade de dizer a ele tudo era doloroso. Ela nunca
havia tomado uma decisão tão importante sem dizer a ele antes.
Ela acabou vestindo rapidamente um suéter e deu uma volta pelo perímetro do acampamento. O ar cheirava
tão diferente ali do que em casa – pinheiros, bosques verdes, fumaça de fogueira. No interior, sem cheiro de sal
ou mar. Ela subiu a pequena elevação rochosa sobre o acampamento e olhou para baixo.
Amanhã eles cavalgariam para desafiar Horace Dearborn e sua Tropa. Muito provavelmente haveria um
confronto. E seu parabatai, aquele que sempre lutou ao lado dela, estaria perdido para ela. De uma forma ou de
outra.
O sol estava se pondo, provocando o brilho distante das torres demoníacas. Emma podia ouvir os pássaros
noturnos cantando nos bosques próximos e tentou não pensar no que mais havia na floresta.
Ela se sentiu tremendo – não, ela estava tremendo. Ela se sentiu desorientada, quase tonta e seu processo
cognitivo estranhamente difuso, como se sua mente estivesse correndo muito rápido para ela se concentrar.
— Emma! — Cristina estava subindo a ladeira em direção a ela, seus olhos escuros cheios de preocupação. —
Eu procurei você na tenda, mas você não estava lá. Você está bem? Ou você está de vigia?
Se recomponha, Emma.
— Eu apenas pensei que alguém deveria tentar ficar de olho nas coisas, você sabe, no caso de uma parte dos
membros da Tropa decidisse dar uma olhada mais de perto na Brocelind.
— Então você está de vigia — disse Cristina.
— Talvez — disse Emma. — O que está acontecendo com você e Kieran e Mark?
— Ay ay! — Cristina sentou-se em uma pedra, batendo sua testa suavemente contra sua mão. — Sério? Agora?
Emma sentou-se ao lado da amiga.
— Nós não temos que falar sobre isso, se você não quiser. — Ela apontou o dedo indicador para Cristina. — Se
nós duas morrermos na batalha amanhã, nunca vamos falar sobre isso, e você nunca vai ter o benefício da minha
enorme sabedoria.
— Olhe para essa garota louca — disse Cristina, apontando para uma audiência invisível. — Tudo bem, tudo
bem. O que faz você pensar que algo novo está acontecendo, afinal?
— Eu vejo a maneira como todos vocês se olham. Eu nunca vi nada parecido — disse Emma.
Cristina ficou sóbria imediatamente, sua mão indo para o medalhão de anjos em sua garganta como
costumava fazer quando estava nervosa.
— Eu não sei o que fazer — disse ela. — Eu amo os dois. Eu amo Mark e eu amo Kieran. Eu amo os dois de
maneiras diferentes, mas com não menos intensidade.
Emma falou com cuidado.
— Eles estão pedindo para você escolher entre eles?
Cristina olhou para o pôr do sol, listras de ouro e vermelho acima das árvores.
— Não. Não, eles não estão me pedindo para escolher.
— Eu entendo — disse Emma, que não tinha certeza se havia entendido. — Então…
— Decidimos que era impossível — disse Cristina. — Kieran, Mark e eu... estamos todos com medo. Se
estivéssemos juntos, do jeito que queremos estar, traríamos sofrimento para aqueles que amamos.
— Sofrimento? Por quê? — As mãos de Emma estavam tremendo de novo; ela as empurrou entre os joelhos
para que Cristina não visse.
— Kieran teme pelo Reino das Fadas — disse Cristina. — Depois de tantos Reis terríveis, depois de tanta
crueldade, ele deseja voltar e ocupar um lugar na Corte e cuidar do bem-estar de seu povo.
Ele não pode se afastar disso, e nem Mark, nem eu queremos que ele o faça. Mas para nós... Não podemos
conhecer o futuro. Mesmo se a Tropa se for, isso não significa o fim da Paz Fria. Mark tem medo por Helen, por
todos os Blackthorns, que se ele estivesse envolvido com um príncipe do Reino das Fadas e todos soubessem
disso, sua família seria punida. Temo o mesmo pela minha família. Então isso nunca funcionaria. Você entende?
Emma girou um pedaço de grama entre os dedos.
— Eu nunca julgaria você — disse ela. — Primeiro porque é você, e segundo porque dificilmente tenho o
direito de julgar alguém.
Mas eu acho que você está deixando o seu medo ficar no caminho do que você realmente quer, porque o que
você realmente quer é o que você tem medo.
Cristina piscou.
— O que você quer dizer?
— Do lado de fora, aqui está o que eu vejo — disse Emma. — Quando Mark e Kieran estão sozinhos juntos,
eles são puxados para o seu passado difícil. Isso os consome. Quando Mark e você estão juntos, ele se preocupa
que ele não é bom o suficiente para você, não importa o que você diga. E quando Kieran e você estão juntos, às
vezes você não consegue superar o abismo entre o entendimento dos Caçadores de Sombras e o entendimento
das fadas. Mark ajuda você a superar esse abismo. — O sol estava quase se pondo, o céu azul escuro, a
expressão de Cristina estava perdida na sombra. — Isso parece errado?
— Não — disse Cristina após uma longa pausa. — Mas isso não...
— Você tem medo do que todo mundo tem medo — disse Emma. — Tendo seus corações partidos, sendo feitos
miseráveis pelo amor. Mas o que você está dizendo é o que a Tropa quer. Eles querem fazer as pessoas ficarem
com medo, fazer com que fiquem distantes porque criaram um ambiente de medo e suspeita onde você poderia
ser punido por estar com alguém que ama. Se eles conseguissem o que querem, puniriam Alec por estar com
Magnus, mas isso não significa que Magnus e Alec deveriam se separar. Estou fazendo sentido?
— Um pouco de sentido demais — disse Cristina, puxando um fio solto na manga da blusa.
— Eu sei uma coisa com certeza — disse Emma. — Cristina, de todas as pessoas que conheço, você é a mais
generosa e passa a maior parte do tempo pensando no que faz as outras pessoas felizes.
Eu acho que você deveria fazer o que te faz feliz. Você merece isso.
— Obrigada — Cristina deu-lhe um sorriso trêmulo. — E você e Julian? Como estão as coisas entre vocês?
O estômago de Emma balançou, surpreendendo-a. Era como se ouvir as palavras "você e Julian" tivessem
colocado algo dentro dela.
Ela empurrou o sentimento, tentando controlá-lo.
— É muito difícil — ela sussurrou. — Julian e eu não podemos nem falar um com o outro. E o melhor que
podemos esperar depois de tudo isso é algum tipo de exílio.
— Eu sei. — Cristina pegou a mão de Emma na dela; Emma ainda tentou manter as mãos quietas. O toque
tranquilizador de Cristina ajudou. Pela milionésima vez, Emma desejou ter conhecido Cristina antes – que
Cristina fosse sua parabatai. — Depois do exílio, se acontecer, venha e fique comigo, onde quer que eu esteja.
México, em qualquer lugar. Eu cuidarei de você.
Emma fez um som a meio caminho entre uma risada e uma fungada.
— É o que eu quero dizer. Você está sempre fazendo coisas para outras pessoas, Tina.
— Ok, bem, então eu vou pedir para você fazer algo por mim.
— O que? Eu farei qualquer coisa. A menos que isso faça sua mãe ficar brava. Sua mãe me assusta.
— Você quer matar Zara na batalha, se houver uma batalha, não é? — disse Cristina.
— O pensamento passou pela minha cabeça. Ok. Sim. Se alguém a matar, eu ficarei muito brava. — Emma fez
uma careta.
Cristina suspirou.
— Nós nem sabemos se haverá uma batalha, Emma. Se Zara será poupada, aprisionada ou escapará, ou se
alguém a matar, eu não quero que você se dedique a ela. Concentre-se no que você quer que sua vida seja depois
de amanhã.
Depois de amanhã eu vou ser exilada, Emma pensou. E u vou te ver de novo, Cristina? Eu sempre sentirei sua
falta?
Cristina estreitou os olhos em preocupação.
— Emma? Me promete?
Mas antes que Emma pudesse prometer, antes que pudesse dizer qualquer coisa, as vozes de Aline e Helen
cortaram o ar da noite, chamando-as para jantar.
***
— Alguém já experimentou ketchup em um s'more[1]? — Perguntou Isabelle.
— É por isso que você é uma má cozinheira — disse Alec.
Simon, envolto em um suéter e encostado a um tronco, se esgueirou como se esperasse se tornar invisível. —
Você realmente gosta de comida repugnante. Não é, tipo, um acidente.
— Eu gosto de ketchup e s'mores — disse Simon lealmente, e moveu a boca para Clary, eu não gosto deles.
— Eu sei — disse Clary. — Eu posso sentir através do vínculo parabatai o quanto você não gosta deles.
— Julian é um excelente cozinheiro — disse Emma, espetando um marshmallow.
Magnus havia produzido sacos deles junto com os biscoitos de chocolate e de graham. Ele deu a Emma um
olhar sombrio que parecia dizer: Fique longe de Julian e também de sua cozinha.
— Eu também sou um excelente cozinheiro — disse Mark, colocando uma bolota em seu s'more. Todos
olhavam.
— Ele não pode evitar — disse Cristina lealmente. — Ele viveu com a Caçada Selvagem por tanto tempo.
— Eu não faço isso — disse Kieran, comendo um s'more da maneira correta. — Mark não tem desculpa.
— Eu nunca imaginei Caçadores de Sombras comendo comida — disse Kit, olhando ao redor do fogo. Era
como uma cena de sonhos de acampamento que ele teve quando era criança – o fogo, as árvores, todos
enrolados em suéteres e sentados em volta de toras, fumaça em seus olhos e cabelos. — Por outro lado, este é o
primeiro s 'more que eu já comi que não saiu de uma caixa.
— Isso não é s’more — disse Ty. — Isso é um cookie. Ou algum cereal.
Kit sorriu e Ty sorriu de volta para ele. Ele se inclinou contra Julian, que estava sentado ao lado dele; Julian
colocou um braço distraído em torno de seu irmão mais novo, a mão dele bagunçando o cabelo de Ty.
— Animado para a sua primeira batalha? — Jace disse para Kit.
Jace estava sentado de pernas cruzadas com os braços em volta de Clary, que estava criando um enorme
s'more de várias barras de chocolate.
— Ele não vai! — Clary disse. — Ele é muito jovem, Jace. — Ela olhou para Kit. — Não dê ouvidos a ele.
— Ele parece velho o suficiente — disse Jace. — Eu estava lutando em batalhas quando eu tinha dez anos.
— Fique longe dos meus filhos — disse Magnus. — Estou te observando, Herondale.
Kit sentiu um breve solavanco antes de perceber que Magnus não estava falando com ele. Então outra quando
ele percebeu que ele reagiu inconscientemente ao nome Herondale.
— Isso é ótimo — disse Helen, bocejando. — Eu não tenho acampado há tanto tempo. Você não pode ir
acampar na Ilha Wrangel. Seus dedos se transformarão em pingentes de gelo e partirão imediatamente.
Emma franziu a testa.
— Onde está Cristina?
Kit olhou ao redor: Emma estava certa. Cristina havia escapado do grupo.
— Ela não deveria estar andando ao redor da borda da floresta — disse Magnus, franzindo a testa. — Há
armadilhas lá. Muito bem escondidas, se eu dissesse por mim mesmo. — Ele começou a se levantar. — Eu vou
buscá-la.
Mark e Kieran já estavam de pé.
— Nós vamos encontrá-la — disse Mark apressadamente. — Na Caçada, aprendemos muito sobre armadilhas.
— E poucos sabem mais sobre os caminhos da floresta do que sobre as fadas — disse Kieran.
Magnus deu de ombros, mas havia uma faísca em seus olhos que Kit não entendeu muito bem.
— Tudo certo. Vão em frente.
Enquanto eles desapareciam nas sombras, Emma sorriu e colocou outro marshmallow no palito.
— Vamos fazer um brinde. — Aline levantou um copo de água.
— Nunca se separar de nossas famílias novamente. — Ela olhou para o fogo. — Uma vez que o amanhã chegar,
nós nunca vamos deixar a Clave fazer isso com qualquer um de nós novamente.
— Não se separar da família ou dos amigos — disse Helen, levantando o copo.
— Ou parabatai — disse Simon, piscando para Clary.
Alec e Jace aplaudiram, mas Julian e Emma ficaram em silêncio. Emma parecia desoladoramente triste,
olhando para baixo em seu copo de água. Ela não pareceu ver Julian, que olhou para ela por um longo momento
antes de desviar o olhar.
— Para nunca se separar — disse Kit, olhando através da fogueira para Ty.
O rosto magro de Ty estava limpo à luz das chamas vermelho-douradas.
— Para nunca se separar — disse ele, com uma ênfase grave que fez Kit tremer por razões que ele não
entendia.
***
Maryse não podia mais voltar para a casa do Inquisidor, pois Horace e Zara haviam se mudado para lá. Em vez
disso, ela levou Dru e os outros para a casa Graymark, a que Clary disse que tinha ficado quando chegou a Idris
pela primeira vez.
Dru foi para a cama assim que ela educadamente pôde. Deitou-se com as cobertas até o queixo, olhando os
últimos raios de sol desaparecerem das janelas circulares. Este lado da casa dava para um jardim cheio de rosas
da cor de renda antiga. Uma treliça subiu até as janelas e circulou-as: no auge do verão, provavelmente
pareciam colares de rosas. Casas de pedra antiga desciam morro abaixo em direção às muralhas de Alicante –
muralhas que amanhã seriam alinhadas com Caçadores de Sombras de frente para os Campos Imperecíveis.
Dru se enfiou mais embaixo das cobertas. Ela podia ouvir Maryse no quarto ao lado, cantando para Max e
Rafe e Tavvy, uma canção cadenciada em francês. Era estranho ser velho demais para cantar para consolá-lo,
mas jovem demais para participar dos preparativos de batalha. Ela começou a dizer seus nomes para si mesma,
como uma espécie de amuleto de boa sorte: Jules e Emma.
Mark e Helen. Ty e Li...
Não. Não Livvy.
O canto parou. Dru ouviu passos no corredor e sua porta se abriu; Maryse enfiou a cabeça para dentro.
— Está tudo bem, Drusilla? Precisa de alguma coisa?
Dru teria gostado de um copo de água, mas ela não sabia exatamente como falar com a impressionante avó
morena de Max e Rafe. Ela ouviu Maryse brincando com Tavvy mais cedo, e ela apreciou o quão gentil era essa
mulher que era basicamente uma estranha para eles. Ela só queria saber como dizer isso.
— Não, tudo bem — disse Dru. — Eu não preciso de nada.
Maryse encostou-se no batente da porta.
— Eu sei que é difícil — disse ela. — Quando eu era jovem, meus pais costumavam levar meu irmão, Max, com
eles para caçar demônios e me deixar em casa. Eles disseram que eu ficaria com medo se eu fosse com eles. Eu
sempre tentei dizer a eles que eu estava mais assustada e preocupada que eles nunca mais voltariam.
Dru tentou imaginar Maryse jovem, e não conseguiu. Ela parecia velha para Dru até para ser mãe, embora
soubesse que não era. Ela era realmente uma jovem avó, mas Dru se acostumara com pessoas que pareciam
Julian e Helen como mães e pais para ela.
— Eles sempre voltaram — disse Maryse. — E sua família também. Eu sei que parece que o que Julian está
fazendo é arriscado, mas ele é esperto. Horace não tentará nada perigoso na frente de tantas pessoas.
— Eu deveria ir dormir — Dru disse em voz baixa, e Maryse suspirou, deu-lhe um aceno compreensivo e
fechou a porta.
Se ela estivesse em casa, uma pequena voz disse na parte de trás da mente de Dru, ela não teria que pedir
nada – Helen, que sabia que amava chá, mas que a cafeína a mantinha acordada, teria entrado com uma caneca
de café. A mistura especial descafeinada que haviam comprado na Inglaterra, com leite e mel na caneca do jeito
que Dru gostava.
Ela sentia falta de Helen, Dru percebeu. Era um sentimento estranho – em algum lugar ao longo do caminho,
seu ressentimento em relação a Helen havia desaparecido. Agora ela só queria ter dito um melhor adeus à sua
irmã mais velha antes de sair do Instituto.
Talvez fosse melhor que ela não tivesse dito o tipo certo de despedida para sua família.
Talvez isso significasse que ela definitivamente iria vê-los novamente.
Talvez isso significasse que eles seriam mais indulgentes quando descobrissem o que ela estava planejando
fazer.
A luz piscou no corredor; Maryse deveria ter ido dormir. Dru se livrou do cobertor; ela estava completamente
vestida por baixo, até suas botas e jaqueta de engrenagem. Ela saiu da cama e foi até a janela circular; Estava
presa, mas ela estava esperando por isso.
Pegando uma pequena adaga com uma lâmina de adamas do bolso, ela começou a abri-la.
***
Kit ficou acordado na escuridão, contando as estrelas que ele podia ver através da aba aberta da tenda.
Emma e Julian haviam dito que as estrelas no Reino das Fadas eram diferentes, mas aqui em Idris elas eram
as mesmas. As mesmas constelações que ele observara durante toda a sua vida, espreitando através do nevoeiro
acima de Los Angeles, brilhavam acima da Floresta Brocelind. O ar estava limpo ali, limpo como cristal cortado,
e as estrelas pareciam quase alarmantemente próximas, como se ele pudesse estender a mão e pegar uma.
Ty não voltou com ele da fogueira. Kit não sabia onde ele estava. Ele tinha ido falar com Jules ou Helen? Ele
estava vagando na floresta? Não, Simon e Isabelle teriam parado ele. Mas talvez Ty tivesse encontrado um
animal de que gostasse no acampamento. A mente de Kit começou a correr.
Onde ele está? Por que ele não me levou com ele? E se ele não puder domar esses esquilos do jeito que ele
consegue em casa? E se ele for atacado por esquilos?
Com um gemido, Kit chutou as cobertas e pegou uma jaqueta.
Ty enfiou a cabeça na tenda, momentaneamente apagando as estrelas.
— Oh bom, você já está se preparando.
Kit baixou a voz.
— O que você quer dizer, estou me preparando? Preparando para que?
Ty se agachou e olhou para a tenda.
— Ir ao lago.
— Ty — disse Kit. — Eu preciso que você explique. Não presuma que eu saiba do que você está falando.
Ty exalou com força suficiente para fazer sua franja escura de cabelo flutuar acima de sua testa.
— Eu trouxe o feitiço comigo e todos os ingredientes — disse ele. — O melhor lugar para ressuscitar os mortos
é perto água. Eu pensei que faríamos ao lado do oceano, mas o Lago Lyn é ainda melhor. Já é um lugar mágico.
Kit piscou vertiginosamente; ele sentiu como se tivesse acordado de um pesadelo apenas para descobrir que
ainda estava sonhando.
— Mas não temos o que precisamos para fazer o feitiço funcionar. Shade nunca nos deu o catalisador.
— Eu pensei que ele não poderia fazer isso — disse Ty. — É
por isso que eu peguei uma fonte alternativa de energia da última vez que estivemos no Mercado das
Sombras.
Ele enfiou a mão no bolso e pegou uma bola de vidro transparente do tamanho de um damasco. A chama
vermelho-alaranjada brilhava dentro dela como se fosse um planeta pequeno e ardente, embora fosse
claramente frio ao toque.
Kit recuou.
— De onde veio isso?
— Eu te disse... Do Mercado das Sombras.
Kit sentiu uma onda de pânico.
— Quem vendeu para você? Como sabemos que isso funcionará?
— Tem que funcionar. — Ty colocou o cristal de volta no bolso.
— Kit. Isso é algo que tenho que fazer. Se houver uma batalha amanhã, você sabe que não faremos parte dela.
Eles acham que somos jovens demais para lutar. Esta é a maneira que eu posso ajudar que não seja lutando. Se
eu trouxer Livvy de volta, nossa família estará inteira para a batalha. Isso significará que todos serão felizes
novamente.
Mas a felicidade não é tão simples, Kit queria chorar; você não pode separá-lo e montá-lo novamente sem ver
as costuras.
A voz de Kit estava irregular.
— É perigoso, Ty. É muito perigoso. Não acho que seja uma boa ideia mexer com esse tipo de mágica, com
uma fonte de energia desconhecida.
A expressão de Ty fechou. Foi como ver uma porta fechada.
— Eu já procurei armadilhas. Eu sei como podemos chegar lá.
Eu pensei que você viria comigo, mas mesmo se você não for, eu vou sozinho.
A mente de Kit correu. Eu poderia acordar o acampamento e colocar Ty em apuros, ele pensou. Julian iria
detê-lo. Eu sei que ele faria.
Mas toda a mente de Kit se revoltou com a ideia; Se havia uma coisa que seu pai o proporcionou a entender,
era que todo mundo odiava um dedo duro.
Além disso, ele não suportava o olhar no rosto de Ty.
— Tudo bem — disse Kit, sentindo pavor em seu estômago como uma pedra. — Eu irei com você.
***
Formas dançaram no coração do fogo. Emma sentou-se em um tronco nas proximidades, as mãos enfiadas nas
mangas do suéter enorme para mantê-las aquecidas. O grupo se afastou do fogo quando a refeição terminou,
retirando-se para suas tendas individuais para dormir. Emma ficou onde estava, vendo o fogo morrer; ela supôs
que poderia ter voltado para sua própria tenda, mas Cristina não estava lá, e Emma não se sentia muito bem
deitada sozinha no escuro.
Ela olhou para cima quando uma sombra se aproximou. Era Julian. Ela o reconheceu pela maneira como ele
andava, mesmo antes de a luz do fogo iluminar seu rosto – a mão no bolso, os ombros relaxados e o queixo
virado para cima. Enganosamente casual. A umidade no ar frio tinha enrolado seu cabelo contra suas bochechas
e têmporas.
Julian escondeu tantas coisas de tantas pessoas. Agora, pela primeira vez, ela estava escondendo algo dele.
Era assim que ele sempre se sentia? Este peso em seu peito, a dor no coração dele?
Ela meio que esperava que ele passasse por ela sem falar, mas ele fez uma pausa, seus dedos brincando com a
pulseira de vidro do mar em seu pulso.
— Você está bem? — ele perguntou, sua voz baixa.
Emma assentiu.
Faíscas do fogo refletiam nos olhos azuis de Julian.
— Eu sei que não devemos conversar um com o outro — disse ele. — Mas precisamos discutir algo com
alguém. Não é sobre você ou eu.
Eu não posso fazer isso, Emma pensou. Você não entende.
Você ainda pensa que poderíamos tirar minhas Marcas se as coisas dessem errado.
Mas, novamente – sua runa não tinha queimado desde que eles haviam saído de Los Angeles. A teia negra em
seu antebraço não tinha crescido. Era como se seu sofrimento estivesse segurando a maldição de volta. Talvez
fosse.
— É sobre quem?
— É sobre uma das coisas que aprendemos em Thule — disse ele. — É sobre a Diana.
***
Diana acordou de sonhos de voar ao som de algo arranhando a porta de sua barraca. Ela rolou para fora de
seus cobertores e pegou uma faca, levantando-se agachada.
Ela ouviu o som de duas vozes, uma subindo sobre a outra: — Polvo!
Ela tinha uma vaga lembrança de que essa era a palavra-código que todos haviam escolhido antes. Ela colocou
a faca longe e foi abrir o zíper da barraca. Emma e Julian estavam do outro lado, piscando no escuro, pálidos e
de olhos arregalados como suricatos assustados.
Diana ergueu as sobrancelhas para eles.
— Bem, se vocês quiserem entrar, entrem. Não fiquem ai, deixando todo o ar frio entrar.
As tendas eram altas o suficiente para ficarem de pé, sem móveis, exceto tapetes e roupas de cama. Diana
afundou de volta no ninho de suas cobertas, enquanto Julian se inclinou contra sua mochila e Emma sentou de
pernas cruzadas no chão.
— Desculpe acordar você — disse Julian, sempre o diplomata.
— Não sabíamos quando mais poderíamos falar com você.
Ela não conseguiu evitar bocejar. Diana sempre dormira surpreendentemente bem na noite anterior a uma
batalha. Ela conhecia Caçadores de Sombras que não conseguiam dormir, que ficavam acordados com os
corações martelados, mas ela não era um deles.
— Falar comigo sobre o quê?
— Eu quero me desculpar — disse Julian, enquanto Emma se preocupava com o joelho desgastado de seus
jeans. Emma não parecia ser ela mesma – não desde um bom tempo, Diana pensou.
Não desde que eles voltaram daquele outro mundo, embora uma experiência como essa pudesse mudar
qualquer um. — Por pressioná-la para ser a diretora do Instituto.
Diana estreitou os olhos.
— Por que está dizendo isto?
— A sua versão da Thule nos contou sobre o seu tempo em Bangkok — Emma disse, mordendo o lábio. — Mas
você não tem que falar sobre nada para nós que você não queira.
A primeira reação de Diana foi um reflexo. Não, eu não quero falar sobre isso. Agora não.
Não na véspera da batalha, não com tanto em sua mente, não enquanto ela estava preocupada com Gwyn e
tentando não pensar sobre onde ele estava ou o que ele poderia fazer amanhã.
E ainda. Ela estava em seu caminho para dizer a Emma e Julian exatamente o que eles estavam perguntando
agora, quando ela descobriu que não poderia alcançá-los. Ela recordou de sua decepção. Ela estava determinada
então.
Ela não lhes devia a história, mas ela devia a si mesma para contar.
Os dois ficaram sentados em silêncio, olhando para ela. A noite antes de uma batalha e eles tinham vindo a ela
por isso – não por segurança, mas para deixá-la saber que era sua escolha se envolver ou não.
Ela limpou a garganta.
— Então vocês sabem que eu sou transgênero. Vocês sabem o que isso significa?
Julian disse: — Sabemos que quando você nasceu, você recebeu um gênero que não reflete quem você
realmente é.
Algo em Diana se soltou; ela riu.
— Alguém esteve na Internet — disse ela. — Sim, isso é certo, mais ou menos.
— E quando você estava em Bangkok, você usou medicina mundana — disse Emma. — Para se tornar quem
você realmente é.
— Criança, eu sempre fui quem eu realmente sou — disse Diana. — Em Bangkok, Catarina Loss me ajudou a
encontrar médicos que mudariam meu corpo para representar quem eu sou, e pessoas que eram como eu, para
me ajudar a entender que eu não estava sozinha. — Ela se acomodou contra a jaqueta enrolada que ela estava
usando como travesseiro. — Deixe-me te contar a história.
E em voz baixa, ela contou. Ela não mudou muito a história que contou a Gwyn, porque essa história aliviara
seu coração. Ela observou suas expressões enquanto falava: Julian calmo e silencioso, Emma reagindo a cada
palavra com olhos arregalados ou mordida nos lábios. Eles sempre tinham sido assim: Emma expressando o que
Julian não podia ou não queria. Tão parecidos e tão diferentes.
Mas foi Julian quem falou primeiro quando ela terminou.
— Sinto muito pela sua irmã — disse ele. — Eu sinto muito.
Ela olhou para ele com uma pequena surpresa, mas, é claro...
Isso seria o que tocaria o coração de Jules, não seria?
— De certa forma, a parte mais difícil de tudo era não poder falar sobre Aria — disse ela.
— Gwyn sabe, certo? — Emma disse. — E ele foi bom sobre isso? Ele é gentil com você, certo? — Ela soou tão
feroz quanto Diana já a ouvira.
— Ele é, eu prometo — disse Diana. — Para alguém que colhe os mortos, ele é surpreendentemente empático.
— Não vamos contar a ninguém, a menos que você queira — disse Emma. — É da sua conta.
— Eu me preocupava que eles descobrissem o meu tratamento médico se eu tentasse me tornar diretora do
Instituto — disse Diana.
— Que eu seria tirada de vocês, crianças. Punida com exílio. — Suas mãos se apertaram em seu colo. — Mas o
Inquisidor descobriu de qualquer maneira.
Emma sentou-se em linha reta.
— Ele descobriu? Quando?
— Antes de eu fugir de Idris. Ele ameaçou me expor a todos como traidora.
— Ele é um bastardo — disse Julian. Seu rosto estava apertado.
— Vocês estão com raiva de mim? — Diana disse. — Por não dizer a vocês antes?
— Não — disse Julian, sua voz calma e firme. — Você não tinha obrigação de fazer isso. Nunca.
Emma chegou mais perto de Diana, o cabelo dela um halo pálido no luar que fluía através da ponta da
barraca.
— Diana, nestes últimos cinco anos, você tem sido a coisa mais próxima que eu tive de uma irmã mais velha. E
desde que te conheci, você me mostrou o tipo de mulher que eu quero ser quando crescer.
— Ela estendeu a mão e pegou a mão de Diana. — Me sinto muito grata e tão privilegiada que você quis nos
contar sua história.
— Concordo — disse Julian. Ele inclinou a cabeça, como um cavaleiro reconhecendo uma dama em uma
pintura antiga. — Eu sinto muito por ter te pressionado. Eu não entendi. Nós...eu pensei em você como uma
adulta, alguém que não poderia ter problemas ou estar em perigo. Eu estava tão focado nas crianças que não
percebi que você também era vulnerável.
Diana tocou o cabelo dele levemente, do jeito que ela costumava fazer quando ele era mais jovem.
— Isso está crescendo, não é? Descobrir que os adultos são pessoas com seus próprios problemas e segredos.
Ela sorriu ironicamente quando Helen enfiou a cabeça pela aba ainda descompactada.
— Oh bom, vocês estão de pé — disse ela. — Eu queria saber quem ficará para trás amanhã...
— Eu tenho uma lista — disse Julian, deslizando a mão no bolso de sua jaqueta.
Emma se levantou, murmurando que precisava encontrar Cristina. Ela saiu pela porta da tenda, parando
apenas para olhar uma vez para Julian enquanto ia, mas ele estava em profunda conversa com Helen e não
pareceu notar.
Algo estava acontecendo com aquela garota, Diana pensou.
Depois que chegassem amanhã, ela teria que descobrir o que era.
[1] Petisco tradicional para fogueiras noturnas populares nos Estados Unidos.
Consiste em um marshmallow assado no fogo e uma camada de chocolate entre duas fatias de graham
cracker– bolachas do tipo maizena.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!