5 de abril de 2019

Capítulo 26

Stefan e Elena estavam sozinhos no quarto de Elena, aproveitando o pequeno momento que tinham juntos. Bonnie, Meredith e Alaric estavam na biblioteca estudando o controle dos sonhos, e Stefan tinha oferecido seu quarto para Matt e Chloe passar a noite, agora que o refúgio de sua casa de barcos havia sido destruído.
Stefan segurou o rosto de Elena gentilmente.
— O que há de errado? — perguntou ele, preocupado com o que quer que ele via nos olhos dela.
Elena achou que estava escondendo seu medo muito bem, mas Stefan sempre era capaz de ver através de suas máscaras. Ela estava feliz por eles finalmente estarem sozinhos. Não queria que os outros soubessem, não ainda. Eles não estavam determinados a proteger Damon, não como ela e Stefan estavam.
— Uma Guardiã Principal veio até mim hoje e me fez fazer o juramento do Guardião — ela contou a ele. — Ela me deu minha primeira tarefa.
Por um momento, o rosto de Stefan se iluminou.
— Mas essa é uma notícia maravilhosa — disse ele. — Agora você poderá acessar mais Poder para lutar contra Klaus, não?
Elena balançou a cabeça.
— Minha tarefa não é matar Klaus — disse ela simplesmente. — Eles querem que eu mate Damon.
Stefan, de olhos arregalados com o choque, recuou, a mão caindo do rosto de Elena.
— Eu não vou fazer isso — disse ela. — Você sabe disso. Mas nós temos que descobrir como contornar esta situação. Se eu simplesmente me recusar a fazê-lo, eles vão — sua boca ficou seca — me banir para a Corte Celestial. Eu não voltarei à Terra nunca mais.
— Não. — Os braços de Stefan estavam ao redor dela novamente, abraçando-a. —Nunca.
Elena pressionou o rosto contra o pescoço dele.
— Eu não posso fazer isso — sussurrou. — A Guardiã me disse que Damon está matando de novo, e eu ainda não consigo machucá-lo.
Ela sentiu Stefan enrijecer com a notícia, mas quando olhou para cima, os olhos dele estavam firmes.
— Elena, eu amo meu irmão. Mas, se Damon está matando pessoas inocentes, temos que detê-lo. Não importa  o preço.
— Eu não posso matar Damon — Elena repetiu. — As Guardiãs já levaram duas pessoas que eu amo, e não deixarei que elas me tirem mais nada. Temos que encontrar outro jeito.
— E se Damon mudar? — perguntou Stefan. — Se ele não for uma ameaça aos humanos, será que as Guardiãs mudarão de ideia?
Elena balançou a cabeça.
— Eu não sei — disse ela. — Mas Damon não vai nos ouvir, ele está completamente fechado. Talvez se dissermos a ele que as Guardiãs querem vê-lo morto?
Os lábios de Stefan se curvaram num quase sorriso triste, só por um momento.
— Talvez — disse ele. — Ou talvez ele dobre seus ataques só para desafiá-las. Damon riria do diabo se quisesse.
Elena assentiu. Era verdade, e ela sabia que Stefan estava compartilhando tanto o carinho quanto o desespero que Damon inspirava nela.
— Talvez Andrés tenha uma ideia — sugeriu Stefan. — Ele sabe muito mais sobre os negócios das Guardiãs do que nós. Mas tem certeza de que podemos confiar nele?
— Claro que podemos — disse Elena automaticamente. Andrés era bom, ela sabia disso sem dúvida. E ele lutou ao lado deles contra Klaus.
Agarrando o ombro de Elena com força, Stefan olhou em seus olhos novamente, seu rosto sombrio.
— Sei que podemos confiar em Andrés para fazer o que é certo — disse ele. — Mas podemos confiar nele para salvar um vampiro, um vampiro violento? Eu nem sei se essa é a coisa certa.
Elena engoliu em seco.
— Acho que posso confiar em Andrés para me apoiar — disse ela com cuidado —, mesmo contra as Guardiãs. Ele acredita em mim. — Ela esperava desesperadamente que isso fosse verdade.
Stefan deu um sorriso triste.
— Então amanhã conversaremos com Andrés — ele puxou-a em um abraço e passou a mão pelo cabelo dela. — Esta noite, porém, vamos tirar algum tempo para ficar juntos, você e eu — disse ele, sua voz áspera. Houve um longo silêncio enquanto Elena deixava Stefan abraçá-la.
— Eu quero que Damon viva — disse Stefan finalmente. — Quero que ele mude. Mas se se tratar de uma escolha entre você e ele, eu tenho que escolher você. Não há mundo para mim sem você, Elena. Eu não vou deixar você se sacrificar dessa vez.
Elena não respondeu, recusando-se a fazer qualquer promessa que não pudesse cumprir. Ela esperava que o amor que fluía entre eles fosse suficiente, por enquanto.

Na manhã seguinte, Elena e Stefan sentaram-se com James e Andrés na cozinha pequena e ensolarada de James. Todos os quatro tinham xícaras de café e biscoitos na frente deles, e Stefan mexia seu café, sem beber, só para manter as mãos ocupadas. Ele não comia ou bebia muito, mas deixava as pessoas mais à vontade, se achassem que ele gostava. Era uma cena alegre da manhã, exceto pelo olhar de completa confusão no rosto de James.
— Eu não entendo — disse ele, olhando de Elena para Stefan, perplexo. — Por que você está tentando salvar um vampiro?
Elena abriu a boca, depois fechou-a e pensou por um momento.
— Ele é irmão de Stefan — disse ela sem rodeios depois de um momento. — E nós o amamos.
James lançou a Stefan um olhar escandalizado, e Stefan tentou se lembrar se James tinha alguma ideia de que Stefan também era um vampiro. Achava que não, na verdade.
Elena continuou.
— Damon lutou ao nosso lado e salvou muitas pessoas — disse ela. — Precisamos dar a ele uma chance de melhorar. Não podemos simplesmente esquecer todo o bem que ele já fez.
Andrés assentiu.
— Você está relutante em matá-lo quando pode haver algum outro jeito de contornar seus erros.
James balançou a cabeça.
— Não tenho certeza se chamaria de “erros” se alimentar de pessoas — disse ele. — Sinto muito, Elena. Eu não acho que posso te ajudar. — Stefan ficou tenso, sentindo a colher de café dobrar em sua mão.
— Vamos consertá-lo — disse Elena. Ela levantou o queixo, determinada. — Ele não será um perigo para ninguém.
Andrés suspirou e pousou as mãos na mesa, todos os traços de humor desapareceram de seu rosto.
— Você fez um juramento — disse ele baixinho. — Os Guardiões acreditam em regras e, como você concordou com suas regras, deve cumprir sua tarefa ou sofrer as consequências. Mesmo que você aceite sua remoção para a Corte Celestial, a tarefa simplesmente passará para outro Guardião Terrestre. — Ele fez uma careta e o coração de Stefan se afundou. Andrés estava dizendo a eles que poderia ser o próximo designado a matar Damon. Se de alguma forma Elena saísse do trabalho, eles estariam lutando contra Andrés.
Os olhos de Elena estavam brilhantes de lágrimas.
— Deve haver alguma maneira de consertar isso — disse ela. — Como faço para convocar a Guardiã Principal de volta? Talvez eu possa argumentar com ela. Klaus é muito mais perigoso do que Damon. Mesmo se você não concordar comigo sobre salvar Damon, você tem que admitir que Klaus é o único em quem precisamos focar.
— Você não pode chamá-la — disse Andrés, infeliz. — Elas só aparecem para atribuir uma tarefa ou quando a tarefa está concluída. — Ele balançou a cabeça lentamente. — Elena, não há área cinza aqui. Você já está sentindo vontade de cumprir sua missão, não está? Isso só vai piorar.
Elena colocou a cabeça entre as mãos e apoiou os cotovelos na mesa. Stefan tocou seu ombro, e ela se apoiou nele enquanto ele canalizava apoio silencioso para ela. Depois de um momento, ela levantou a cabeça, a boca firme com determinação.
— Tudo bem — disse ela. — Então vou tentar outra coisa. Não vou desistir.
— Vou ajudá-la no que puder — disse Andrés. — Mas se sua tarefa passar para mim, não terei escolha.
Elena assentiu e levantou-se bruscamente. Stefan começou a segui-la, mas ela colocou a mão em seu ombro e gentilmente o pressionou de volta para baixo.
— Tenho que fazer isso sozinha — disse ela, se desculpando. Ela o beijou levemente, os lábios quentes, e Stefan tentou enviar todo o amor e confiança que podia para ela.
Eu tenho algo para cuidar também, pensou. Ele não sabia quando voltaria. Essa poderia, percebeu Stefan com um surto de pânico sem fôlego, ser a última vez que eles se viam. Seus braços se apertaram ao redor dela, segurando-a pelo tempo que pôde. Por favor, Elena, tenha cuidado.


Encontrar Damon foi fácil. Quando Elena se abriu para a dor incômoda que estivera dentro dela o dia todo, mal tocando em seu Poder, o caminho para Damon apareceu à sua frente e tudo o que ela tinha que fazer era seguir o vívido preto e vermelho.
Desta vez, isso levou a um edifício de aparência decadente, com uma placa na frente que dizia EDDIE’S BILHAR. Estava aberto, mas havia apenas alguns carros no estacionamento. Parecia mais um lugar noturno. Francamente, não era o tipo de lugar de Elena, e ela se sentiu um pouco nervosa andando até as portas. Eu estive na Dimensão das Trevas, lembrou a si mesma. Sou uma Guardiã. Não há nada aqui que possa me assustar. Ela empurrou as portas e entrou corajosamente.
O barman olhou para ela por um momento e depois voltou para sua tarefa, polindo os copos. Dois homens estavam sentados numa pequena mesa redonda no canto, fumando e conversando em voz baixa. Eles nem sequer olharam para ela. Tudo, exceto uma das mesas de sinuca, estava vazio.
Lá, no meio do salão, Damon se inclinava sobre a mesa de sinuca, alinhando seu taco para fazer uma jogada. Ele parecia fechado em sua jaqueta de couro, Elena pensou, mais áspero e de alguma forma menos elegante do que costumava ser. Um homem mais baixo pairava atrás dele. Quando fez a jogada, Damon levantou os olhos negros e frios para Elena, sem nenhum vestígio de humor.
— O jogo acabou — disse ele brevemente para seu companheiro, apesar das bolas coloridas ainda estarem espalhadas pela mesa. Damon pegou o maço de notas no canto da mesa e enfiou no bolso. O cara de cabelo cor de areia parecia prestes a falar, mas depois mordeu o lábio e olhou para o chão, permanecendo em silêncio.
— Você não desiste, não é? — disse Damon, atravessando o salão em direção a Elena em alguns passos rápidos. Ele parecia estar medindo-a com seu olhar escuro. — Eu te disse, não vou ser mais uma ajuda para você, princesa.
Elena sentiu o rosto esquentar. Damon sempre a chamava de princesa, mas desta vez o apelido carecia do carinho que ela estava acostumada. Agora soava desdenhoso, como se ele não se incomodasse em usar seu nome verdadeiro. Ela enrijeceu, usando o lampejo de raiva para ajudá-la a começar a falar.
— Você está com problemas, Damon — disse ela bruscamente. — As Guardiãs Principais querem você morto. Elas me designaram para matá-lo. — Por um momento, ela pensou que Damon parecia assustado, então ela continuou. — Eu não quero fazer isso, Damon — disse, deixando uma nota articulada na voz. — Eu não posso. Mas talvez não seja tarde demais. Se você mudar o que está fazendo...
Damon deu de ombros.
— Faça o que tem que fazer, princesa — disse ele suavemente. — As Guardiãs não conseguiriam me manter morto antes, mas não estou muito preocupado agora. — Ele começou a se afastar, e Elena se esquivou para bloquear seu caminho.
— Você tem que levar isso a sério, Damon. Elas vão te matar.
Damon suspirou.
— Francamente — disse ele —, acho que elas estão exagerando. Então, eu matei alguém. Era uma garota, em um mundo com milhões de garotas. — Ele olhou por cima do ombro, para a mesa de sinuca. — Jimmy? Arrume-as.
Sentindo como se tivesse levado um soco no estômago, Elena ficou sem fôlego, depois o seguiu de volta para a mesa. Jimmy arrumou as bolas e Damon se curvou, ajeitando cuidadosamente seu taco.
— O que você quer dizer com “você matou alguém”? — disse ela finalmente numa voz minúscula.
Algo que ela não conseguia identificar cintilou no rosto de Damon, mas depois desapareceu.
— Acho que me empolguei — respondeu ele suavemente. — Acontece com os melhores, suponho. — Ele colocou uma bola no bolso e rodeou a mesa para fazer outra jogada.
A mente de Elena revirava o que ela vira: a garota que ela e Stefan tinham encontrado inconsciente na floresta, a garota que Damon estava se alimentando perto dos campos de atletismo. Elas ficaram bem no final, não ficaram? Ela e Stefan se certificaram de que chegassem em casa seguras. Pavor se enrolou dentro dela quando finalmente percebeu o que ele estava dizendo. Damon tinha matado outra pessoa, alguém que eles não tinham encontrado. Ela tinha esperanças por ele, mas ele estava assassinando de novo, e Elena nem sabia.
Ela fez um esforço para ver a aura de Damon, e ficou visível quase imediatamente. Elena estremeceu de desgosto com a visão. Estava tão escura, toda a cor quase tragada pela escuridão agora, cortada com linhas repulsivas sinuosas de vermelho seco. Ainda havia alguma coisa lá? Ela viu um pouco de azul-esverdeado perto do corpo de Damon, mas tão depressa quanto apareceu, foi coberto novamente pela escuridão.
Ainda assim, aquele vislumbre de cor deu-lhe um pouco de esperança. Damon não estava perdido ainda. Ele não podia estar.
Impulsivamente, ela seguiu Damon para o outro lado da mesa e colocou a mão em seu braço. Os músculos dele se contraíram uma vez, como se estivesse prestes a se afastar, depois ficou imóvel.
— Por favor, Damon — disse ela. — Eu sei que esse não é você. Você não é um assassino, não mais. Eu te amo. Por favor.
Damon colocou o taco cuidadosamente sobre a mesa e olhou para ela, seu corpo tenso.
— Você me ama? — perguntou ele com uma voz baixa e perigosa. — Você nem me conhece, princesa. Eu não sou seu cachorrinho, sou um vampiro. Sabe o que isso significa? — Elena involuntariamente recuou, alarmada com a raiva nos olhos de Damon, e os lábios dele se inclinaram num pequeno sorriso. — Jimmy — ele chamou por cima do ombro, e o cara com quem estava jogando sinuca veio até ele, ainda segurando o taco.
— Sim? — disse ele hesitante, e Elena ouviu em seu tom: ele estava com medo de Damon. Olhando ao redor, ela pôde ver o barman afastando apressadamente os olhos deles, como se também estivesse com medo. Os dois homens da mesa no canto haviam escapado enquanto ela conversava com Damon.
— Me dê seu taco — disse Damon, e Jimmy entregou a ele. Damon partiu-o em dois tão facilmente quanto a própria Elena teria rasgado um pedaço de papel e olhou especulativamente para as peças em suas mãos. De uma metade estendia-se uma longa lasca irregular de madeira, e Damon devolveu a metade a Jimmy.
— Agora pegue isso e se apunhale — disse ele calmamente. — Continue até que eu diga para parar.
— Damon, não! Não faça isso — ela se dirigiu a Jimmy. — Lute.
Jimmy, olhando o pedaço de madeira, hesitou, e Elena sentiu o repentino estalo de Poder quando o rosto de Jimmy ficou distante e sonhador, e ele levantou o taco de sinuca e espetou-o com força no próprio estômago. Quando a madeira o perfurou, ele soltou uma respiração áspera, mas seu rosto permaneceu impassível, sua mente desconectada do que seu corpo estava fazendo. Jimmy puxou o taco de volta, e Elena podia ver uma longa mancha sangrenta onde um dos estilhaços tinha entrado nele.
— Pare com isso! — Elena gritou.
— Mais fundo — ordenou Damon —, e mais rápido. — Jimmy obedeceu, o taco girando de um lado para o outro. O sangue escorria por sua camisa agora. Damon observou com um pequeno sorriso, seus olhos brilhantes. — Ser um vampiro — disse ele para Elena —, significa que eu gosto de estar no controle. Eu gosto de sangue também. E não tenho que me preocupar com a dor humana, mais do que com a dor do inseto que você pisa enquanto anda na rua.
— Por favor, pare com isso — disse Elena, horrorizada. — Não o machuque mais.
O sorriso de Damon se alargou, e ele desviou o olhar de Jimmy, voltando toda sua atenção para Elena. Os braços de Jimmy continuavam a empurrar para a frente e para trás, porém, se apunhalando com o taco de sinuca mesmo sem o foco de Damon sobre ele.
— Só vou parar se você sair agora, princesa — disse Damon.
Elena enxugou as lágrimas. Ela era mais forte do que ele pensava. Ia provar isso.
— Tudo bem — disse ela. — Eu vou. Mas Damon — e aqui ela se atreveu a tocar o braço dele novamente, um toque rápido e suave —, o que você disse quando cheguei é verdade. Eu nunca desisto. — Algo pareceu mudar em Damon quando Elena o tocou, o mais leve amolecimento das linhas sombrias de seu rosto, e Elena quase sentiu como se tivesse chegado até ele. Mas um segundo depois ele estava tão frio e distante como sempre.
Elena se virou rapidamente e foi embora, de cabeça erguida. Atrás dela, ouviu Damon falar com força e os grunhidos de dor de Jimmy cessarem.
Ela imaginou a mudança momentânea na expressão de Damon? Por favor, por favor, deixe que tenha sido real, Elena pediu em silêncio. Certamente havia algo naquele estranho furioso atrás dela, algo do Damon que ela amava. Ela não podia perdê-lo. Mas, quando sentiu uma dor aguda no peito, ela se perguntou se já o tinha perdido.

Um comentário:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!