5 de abril de 2019

Capítulo 25

Os pés de Matt se arrastavam enquanto ele caminhava lentamente em direção às portas do ancoradouro. Em sua mão, o saco que ele carregava se debatia violentamente, o coelho dentro chutando e se contorcendo. Chloe seria capaz de acalmá-lo com um toque de seu Poder.
Matt não gostava de pegar animais para ela se alimentar. Não podia deixar de sentir pena das pobres criaturas, de olhos arregalados de terror. Mas ele era responsável por Chloe. E ela precisava de muito sangue para manter o controle; Stefan lhes alertara sobre isso. Não ajudou em nada ver o exército de vampiros de Klaus, que a aterrorizava. Eles eram muito mais poderosos do que ela, e ela sabia que eles não mostrariam misericórdia para um vampiro que lutou contra eles. Pior, a emoção da batalha tinha despertado sua vontade de beber sangue humano. Ela não confiava em si mesma perto dos outros, por isso tinha se trancado na casa de barcos desde então.
Mas ela nunca machucaria Matt, ela assegurava-lhe isso todas as noites, segurando-o firmemente, seu corpo frio contra o dele mais quente, a cabeça apoiada no ombro dele na escuridão.
Uma tábua rangeu sob os pés de Matt e ele olhou para a água batendo nos pilares abaixo dele. A doca rangeu de novo, desta vez à distância, como se alguém estivesse atravessando o local.
Matt hesitou. Não deveria ter mais ninguém ali. Ele adiantou-se de novo, cautelosamente, e ouviu o som ecoando de outra tábua rangendo à distância, apenas um segundo depois de seu próprio passo.
— Olá? — ele chamou na escuridão, e então se sentiu um idiota. Se seus inimigos estavam lá fora, a última coisa que queria fazer era chamar a atenção deles.
Ele deu alguns passos para mais perto da entrada da casa de barcos. O rangido não veio de novo, em vez disso, um pequeno respingo subiu do lago raso. Talvez os barulhos tivessem sido um animal.
Ele começou a correr, batendo as portas da casa de barcos. E se algo tivesse chegado a Chloe? Os olhos de Matt voaram para o centro do ancoradouro.
Klaus estava triunfante na frente dele, sua pele iluminada pelo luar prateado que entrava pelos buracos no telhado. A capa de chuva surrada cobria sua figura larga e, caída em seus braços, estava uma garota sangrando, uma estranha.
Deus. Ela era jovem, talvez uma pequena caloura, talvez uma garota do ensino médio da cidade, e seu cabelo longo e escuro estava emaranhado com o sangue escorrendo pelo lado do pescoço. Ela não estava lutando, mas olhou para Matt com um olhar aterrorizado que o lembrou nauseantemente da expressão do coelho quando ele o tirou da armadilha.
Ele largou o saco automaticamente, ouvindo-o bater atrás dele, o coelho arrancando e correndo para a porta. Tinha que ajudar a menina. Klaus virou os olhos para ele por uma fração de segundo e Matt congelou, seus músculos tensos impotentes contra a força que o mantinha no lugar.
— Olá, garoto — disse Klaus, mostrando seu sorriso louco. — Veio se juntar à festa? Sua namorada e eu estávamos esperando por você.
Matt seguiu o olhar de Klaus para Chloe, que estava encolhida num canto o mais longe possível de Klaus e da menina, os joelhos puxados até o peito. Havia uma marca de mordida em seu pescoço, como se Klaus já tivesse bebido dela também, e ela estava extraordinariamente pálida.
Ela precisa se alimentar, pensou Matt, como se ele pudesse lhe entregar o coelho que tinha um momento atrás. Chloe estava claramente assustada, mas havia algo mais aparecendo em seu rosto. O estômago de Matt rolou infeliz quando ele identificou: fome.
— Agora, onde estávamos? — Klaus voltou-se para Chloe. — Ah, sim. Se você simplesmente deixar, tudo será tão fácil. — Sua voz era suave e calma. — Conte-me tudo. Conte-me o segredo que esses humanos estão escondendo. Como as bruxas protegeram Elena de mim? Se você fizer isso, deixarei que se junte a mim. Você não estará sozinha. Não precisará ter medo, sentir culpa, ou qualquer outra coisa. — Seu rosto se contorceu com desprezo quando ele disse a palavra humanos, e ele continuou, baixando o volume da voz.  — Prove a garota. Você pode tê-la. Eu sei que você pode sentir a rica doçura de seu sangue. Isto não é maneira de você viver, escondida, envergonhada, alimentando-se de vermes. Venha a mim, Chloe — disse ele, comandando agora.
Chloe se esticou lentamente, ficando de pé. Seus olhos estavam fixos em Klaus e na garota, que agora chorava baixinho nos braços de Klaus. Pela mudança na mandíbula de Chloe, Matt pôde ver que seus dentes caninos se alongaram. Klaus acenou e Chloe deu um passo cambaleante para a frente.
Esforçando-se para gritar, para parar Chloe de alguma forma, Matt percebeu que sua língua estava tão congelada quanto o resto do corpo, ainda seguro pelo Poder de Klaus. O melhor que poderia fazer era soltar um pequeno gemido abafado.
Chloe ouviu, no entanto. Ela lambeu os lábios, então lentamente tirou os olhos da garganta da menina e se concentrou em Matt. Ela olhou para ele por um longo momento, depois recuou, pressionando-se contra a parede. Os ossos de seu rosto pareciam afiados e o sangue seco na própria garganta rachou e se desfez quando ela balançou a cabeça.
— Não — disse numa voz minúscula.
Klaus sorriu novamente e segurou a menina em direção a ela.
— Vamos lá — insistiu ele. Sua vítima choramingou e fechou os olhos, o rosto enrugado de tristeza. Chloe ficou parada contra a parede, aparentemente fascinada pelo longo filete de sangue que escorria da garganta da menina para se acumular no chão a seus pés. Klaus pegou Chloe pela mão. — Diga-me o que quero saber, e você pode tê-la. Ela tem um gosto tão bom. — Ele puxou Chloe para ele. Ela ofegou bruscamente, suas narinas dilatadas quando se aproximou do cheiro de sangue, e deixou-se atrair cada vez. Klaus soltou a mão de Chloe e acariciou sua bochecha. — Aqui — disse ele, como se estivesse falando com uma criança pequena. — Aqui vamos nós. — Colocando a mão atrás da cabeça de Chloe, ele a empurrou com firmeza para baixo, levando-a para a garganta da garota que ele segurava.
Matt tentou lutar, mas não conseguia se mover, não podia chorar para Chloe novamente. Sua língua passou rapidamente pelos lábios.
Então Chloe se afastou de Klaus, esquivando-se debaixo de sua mão.
— Não! — ela repetiu, desta vez mais alto.
Klaus rosnou, um som enlouquecido, e com uma rápida torção, quebrou o pescoço da menina ensanguentada, deixando-a cair no chão.
— Diga a seus amigos que todos terão notícias minhas em breve — disse Klaus, a voz fria. Ele parecia menos insano do que o normal, e por algum motivo, isso fez o coração de Matt se apertar com medo. — Eu vou descobrir a verdade. Vou caçá-los, um por um, até conseguir o que quero.
Ao sair pela porta, Klaus olhou para cima, estendendo a mão em direção ao céu, e com um estrondo de trovão, um raio caiu do céu claro e sem nuvens, incendiando o ancoradouro.


Folheando uma página de seu livro de psicologia, Bonnie afastou firmemente o pensamento de Zander. Ela sentia falta dele — é claro que sim — mas ele ficaria bem.
Sem olhar para cima, ela checou os outros ocupantes de seu quarto no alojamento. O som delicado de uma caneta veio da cama de Elena, onde ela escrevia em seu diário. E no chão, Meredith e Alaric murmuravam baixinho um ao outro, suas mãos entrelaçadas, pelo menos uma vez não afiando armas ou examinando livros de magia, mas apenas curtindo um ao outro.
Exceto pela constante dor vazia no coração de Bonnie, estava tudo bem.
Alguém bateu violentamente na porta, e todos olharam para cima, tensos, prontos para entrar em modo de luta. Meredith ficou de pé e pegou uma faca em sua mesa, escondendo-a enquanto abria a porta.
Matt e Chloe, manchados de sangue e cobertos de cinzas, atravessaram a porta.
Meredith foi a primeira a reagir, pegando Chloe e virando-a sob a luz para examinar a mordida em seu pescoço. Parecia crua e terrível, e Chloe quase desmoronou nos braços de Meredith antes que Alaric conduzisse a jovem vampira para a cadeira de Bonnie.
— O que aconteceu? — exclamou Bonnie.
— Klaus — Matt ofegou. — Klaus estava no ancoradouro. Tem — oh, Deus — ele deixou um corpo lá dentro. E pôs fogo no lugar. Mas ela estava morta. Tenho certeza de que ela já estava morta antes de queimar.
Os dedos de Elena voaram sobre o telefone enquanto ela mandava uma mensagem rápida, e um momento depois, Stefan estava lá, observando a situação de relance. Ele se ajoelhou na frente de Chloe, examinando sua ferida com os dedos cuidadosos.
— Sangue animal não é suficiente para curá-la agora — disse ele para Matt, que estava observando com uma expressão tensa e cansada, os lábios apertados e pálidos. — E um gosto de humanos pode levá-la ao limite. — Ele mordeu o próprio pulso e segurou-o nos lábios de Chloe. — Isso não é o ideal, mas é melhor do que algumas opções ruins.
Matt assentiu com firmeza, e Stefan segurou a mão de Chloe enquanto a vampira engolia avidamente em seu braço. — Está tudo bem — disse ele a ela. — Você está indo bem.
Depois que Chloe bebeu o suficiente para começar a curar da mordida de Klaus, ela e Matt explicaram o que tinha acontecido.
— Klaus me ofereceu a garota se eu lhe dissesse o que eu sabia sobre Elena e por que ele não podia matá-la com sua adaga — disse ela. Seus olhos se desviaram para o chão. — Foi.... — Ela fez uma pausa. — Eu queria dizer sim.
— Mas ela não disse — Matt contou a eles. — Chloe foi muito bem. Ela rompeu a compulsão de Klaus.
— Mas ele disse que virá atrás de nós, um por um, até conseguir o que queria? Bonnie perguntou baixinho. —Isso é ruim. Isso é realmente muito ruim. — Seu coração estava batendo forte, tamborilando contra o peito.
Elena suspirou, colocando o cabelo atrás da orelha.
— Nós sabíamos que ele viria atrás de nós — ressaltou.
— Sim — disse Bonnie com a voz trêmula — mas, Elena, ele pode entrar em meus sonhos. Ele fez antes, quando nos disse que estava chegando. — Ela se abraçou com força e respirou fundo, tentando manter a voz firme. — Eu não sei se posso impedi-lo de ver coisas em meus sonhos.
Houve uma pausa desagradável na conversa.
— Eu não tinha pensado nisso — Meredith admitiu.
— Sinto muito, pessoal — disse Elena, sua voz embargada. — Ele está vindo atrás de vocês por minha causa. Eu gostaria de poder defendê-los. Preciso ficar mais forte.
— Você vai — disse Meredith com firmeza.
— E não é realmente sua culpa — disse Bonnie, abafando seu próprio pânico. — Se a alternativa for você morrer, eu prefiro que ele esteja vindo atrás de nós.
Elena sorriu fracamente.
— Eu sei, Bonnie. Mas mesmo se eu conseguir mais Poder, não sei como podemos protegê-la em seus sonhos.
— Existem maneiras pelas quais ela pode proteger seus sonhos sozinha? — perguntou Stefan, voltando-se para Alaric, seu especialista em pesquisa. — Consciente de estar sonhando e esse tipo de coisa?
Alaric assentiu, pensativo.
— É uma boa ideia — disse ele. — Vou procurar imediatamente. — Ele sorriu tranquilizador para Bonnie. — Nós vamos encontrar alguma coisa. Nós sempre encontramos.
— E todos nós vamos ficar juntos — disse Stefan, olhando ao redor, seus olhos verde-folha confiantes. — Klaus não pode nos quebrar.
Houve um murmúrio de concordância, e Bonnie automaticamente estendeu a mão, segurando as mãos de Meredith e Matt nas dela. Logo, estavam todos de mãos dadas, e Bonnie sentiu um tamborilar de Poder, talvez de Elena, talvez de Stefan, talvez de si mesma, correndo em volta do círculo. Talvez fosse de todos eles.
Mas essa sensação de Poder não era a única coisa que ela sentia. Todo mundo estava nervoso; todos estavam com medo. Klaus poderia vir atrás de qualquer um deles, e era impossível saber o que ele poderia fazer.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!