10 de abril de 2019

Capítulo 20 - As horas sopram



SEBASTIAN QUER FALA CONOSCO? Emma pensou com horror, e então, com uma pontada de realização: Ele
acha que somos as versões Crepusculares de nós mesmos. Bem, isso explica a expressão de Diana.
Os dedos de Julian apertaram o braço de Emma com força. Ele deslizou casualmente para fora da moto. — Ok
— ele disse. — Onde está o chefe?
O lagarto demônio tirou um saco de papel do bolso em seu peito. O saco parecia estar cheio de aranhas se
contorcendo. Ele colocou uma em sua boca enquanto o estômago de Emma revirava.
—Na antiga boate — disse com a boca cheia de aranhas crocantes, e apontou para um edifício rebaixado de
vidro e aço preto.
Um tapete vermelho fosco estava estirado na calçada em frente à entrada. — Vão. Eu vou olhar sua
motocicleta.
Emma desceu da moto, sentindo como se gelo tivesse invadido suas veias. Nem ela nem Julian olharam um
para o outro, de alguma maneira os dois estavam atravessando a rua, caminhando ao lado um do outro como se
nada anormal estivesse acontecendo.
Sebastian sabe quem realmente somos, Emma pensou. Ele sabe, e ele vai nos matar.
Ela continuou andando. Eles alcançaram o pavimento, e ela escutou o ronco de uma motocicleta ligando, ela
se virou para ver Diana acelerando para longe do ponto de verificação. Ela sabia porque Diana tinha precisado
ir, e não a culpava, mas a visão enviou uma pontada fria em seu peito: Eles estavam sozinhos.
A boate era vigiada por demônios Iblis, que lhes deram uma olhada casual e os deixaram passar pelas portas
em um corredor estreito repleto de espelhos. Emma podia ver seu próprio reflexo: ela parecia completamente
pálida, sua boca era uma linha apertada. Isso era ruim. Ela precisava relaxar. Julian, ao lado dela, parecia calmo
e reflexivo, o cabelo despenteado da motocicleta, mas fora isso nada fora do lugar.
Ele pegou a mão dela quando o corredor se abriu em uma sala enorme. Calor parecia fluir dele, através da
mão de Emma, em suas veias; Ela respirou fundo, quando uma onda de ar frio bateu neles.
A boate era branca prateada e preto, uma escura terra de contos de gelo. Um longo bar esculpido em um
bloco de gelo corria ao longo de uma parede. Cascatas de água congelada, azul polar e verde ártico,
derramavam-se do teto, transformando a pista de dança em um labirinto de lençóis cintilantes.
A mão de Julian apertou a de Emma. Ela olhou para baixo; o chão debaixo deles era de gelo sólido, e sob o
gelo ela podia ver as sombras dos corpos presos - ali a forma de uma mão, ali um rosto gritante e congelado. Seu
peito se apertou. Estamos andando sobre os corpos dos mortos, ela pensou.
Julian olhou de lado para ela, balançou a cabeça levemente como se dissesse: Não podemos pensar nisso
agora.
Compartimentando ela pensou enquanto se dirigiam para uma área isolada na parte de trás do clube. Foi
assim que Julian passou pelas coisas. Empurrando pensamentos, protegendo-os, vivendo no momento do ato que
se tornou sua realidade.
De perto, ele era claramente mais velho do que o menino que Emma lembrava de seu mundo. Ele era mais
largo, a mandíbula mais quadrada, os olhos negros. Ele usava um terno de grife preto com um padrão de rosas
nas lapelas, um casaco de pele grossa sobre ele.
Seu cabelo branco como gelo se misturava com o pelo dourado claro; se Emma não soubesse quem ele era e o
odiasse, ela teria pensado que ele era lindo, um príncipe invernal.
De pé ao lado dele, com os dedos descansando levemente nas costas da cadeira de Sebastian, estava Jace. Ele
também usava um terno preto, e quando ele se virou um pouco, Emma viu a alça de um coldre embaixo dele.
Havia manoplas de couro nos pulsos, sob as algemas afiadas do paletó. Ela teria apostado que ele estava
carregando várias facas.
Ele é o guarda-costas de Sebastian? ela imaginou. Divertia Sebastian manter um dos heróis da Clave como
uma espécie de animal de estimação, vinculado ao seu lado?
E então havia Ash. Usando jeans e uma camiseta, esparramado em uma cadeira a certa distância com um
dispositivo eletrônico nas mãos, ele parecia estar jogando videogame. A luz do jogo veio e se foi, iluminando seu
rosto de feições afiadas, as pontas de suas orelhas.
O olhar frio de Sebastian varreu Emma e Julian. Emma sentiu todo o seu corpo tenso. Ela sabia que suas runas
estavam cobertas por tecido e corretivo, mas ela ainda se sentia como se Sebastian pudesse ver através dela.
Como se ele soubesse imediatamente que não eram Crepusculares.
— Se não são os dois pombinhos — ele demorou. Ele olhou para Emma. — Eu realmente não vi seu rosto
antes. Seu amigo aqui estava muito ocupado sugando.
Julian respondeu em um jeito monótono. — Desculpe ter te incomodado, senhor.
— Isso não me incomoda — disse Sebastian. — Apenas uma observação. — Ele se recostou na cadeira. — Eu
mesmo prefiro ruivas.
Um lampejo de alguma coisa passou pelo rosto de Jace. Foi embora depressa demais para Emma adivinhar seu
significado. Ash olhou para cima, porém, e Emma ficou tensa. Se Ash os reconhecesse…
Ele olhou de volta para o seu jogo, sua expressão evidenciando nenhum interesse. Emma estava achando
difícil não tremer. O frio era intenso e o olhar de Sebastian estava ainda mais frio. Ele esticou os dedos sob o
queixo. — Os rumores têm dito — ele disse — que uma certa Livia Blackthorn está levantando uma patética
rebelião no centro.
O estômago de Emma embrulhou.
— Ela não é nada para nós — disse Julian rapidamente. Ele soou como se ele quisesse dizer isso também.
— Claro que não — disse Sebastian. — Mas você já foi seu irmão e sua amiga. Os humanos são
lamentavelmente sentimentais.
Ela pode ser enganada e confiar em vocês.
— Livvy nunca confiaria em um par de Crepusculares — Emma disse, e congelou. Foi a coisa errada a se dizer.
Os olhos dourados de Jace se estreitaram com suspeita. Ele começou a falar, mas Sebastian interrompeu-o
com um aceno desconsiderado. — Agora não, Jace.
A expressão de Jace ficou em branco. Ele se afastou de Sebastian e foi até Ash, inclinando-se sobre as costas
da cadeira para apontar algo em sua tela de jogo. Ash assentiu.
Quase teria parecido um doce momento fraternal se não tivesse sido tão estragado e horrível. Se o lustre não
tivesse sido feito de braços humanos congelados, cada um segurando uma tocha que cuspia luz demoníaca. Se
Emma pudesse esquecer os rostos embaixo do chão.
— O que Emma quer dizer é que Livvy sempre foi esperta — disse Julian. — De uma forma rasa.
— Interessante — disse Sebastian. — Eu tenho a tendência de aprovar rasa astúcia, embora não quando
dirigida a mim, é claro.
— Nós a conhecemos muito bem — disse Julian. —Tenho certeza de que podemos descobrir a localização de
sua pequena rebelião sem muita dificuldade.
Sebastian sorriu. — Eu gosto da sua confiança — disse ele. — Você não acreditaria no que eu… — Ele se
interrompeu com uma carranca. — Aquele maldito cachorro está latindo de novo?
Era um cachorro latindo. Alguns segundos depois, um terrier preto e branco entrou na sala no final de uma
longa coleira. No outro extremo da coleira havia uma mulher com longos cabelos negros.
Era Annabel Blackthorn.
Ela usava um vestido vermelho sem mangas, embora ela devesse estar congelando no ar gelado. Sua pele
estava branca como se estivesse morta.
Vendo Emma e Julian, ela ficou ainda mais branca. Seu aperto aumentou na coleira do cachorro.
A adrenalina se espalhou pelas veias de Emma. Annabel ia contar, ela iria entregá-los. Ela não tinha razão
para não fazer. E
então Sebastian iria matá-los. Eu juro, Emma pensou, vou encontrar uma maneira de fazê-lo sangrar antes de
morrer.
Eu vou encontrar uma maneira de fazer os dois sangrarem.
— Eu sinto muito — disse Annabel petulantemente. — Ele queria ver Ash. Não é, Malcolm?
Até a expressão de Julian mudou com isso. Emma assistiu com horror quando Annabel se abaixou para
esfregar as orelhas do cachorro. Ele olhou para ela com olhos cor de lavanda e latiu novamente.
Malcolm Fade, Alto Feiticeiro de Los Angeles, era agora um demônio terrier.
— Tire seu desagradável familiar daqui — Sebastian retrucou.
— Estou fazendo negócios. Se Ash precisar de algo, ele vai chamar você, Annabel. Ele é praticamente um
homem adulto. Ele não precisa mais de uma babá.
— Todo mundo precisa de uma mãe — disse Annabel. — Não é, Ash?
Ash não disse nada. Ele estava imerso em seu jogo. Com um suspiro irritado, Annabel saiu da sala, Malcolm
trotando atrás dela.
— Como eu estava dizendo — O rosto de Sebastian estava contorcido de irritação. — Annabel é uma das
minhas melhores torturadoras - você não acreditaria na habilidade criativa que ela pode exibir com uma única
faca e um Caçador de Sombras - mas, como o resto das pessoas ao meu redor, ela é muito vulnerável a suas
emoções. Eu não sei porque as pessoas não entendem apenas o que é melhor para elas.
— Se eles fizessem, eles não precisariam de líderes — disse Julian. — Como você.
Sebastian deu-lhe um olhar considerado. — Eu suponho que isso seja verdade. Mas é como um peso de
responsabilidade, me esmagando. Você entende.
— Nos deixe procurar Livia para você — disse Julian. — Nós vamos cuidar da ameaça e trazer de volta a
cabeça dela.
Sebastian parecia satisfeito. Ele olhou para Emma. — Você não fala muito, não é?
Eu não consigo, Emma pensou. Eu não consigo ficar aqui e mentir e fingir como Julian. Eu não consigo.
Mas o calor da mão de Julian ainda estava na sua, a força de seu vínculo - mesmo quando não era mais mágico
- levantando seu queixo, apertando sua mandíbula com força. Ela tirou a mão da de Julian e lentamente,
deliberadamente, estalou os nós dos dedos.
— Eu prefiro matar — disse ela. — ‘Fale com as balas’, esse é o meu lema.
Sebastian na verdade riu, e por um momento Emma lembrou de Clary no telhado do Instituto, falando sobre
um irmão de olhos verdes que nunca existiu, mas poderia ter feito isso. Talvez em algum outro mundo, melhor
do que Thule.
— Muito bem — disse Sebastian. — Vocês serão bem recompensados se conseguirem isso. Pode até haver uma
casa da Bel Air para vocês. Especialmente se vocês encontrarem alguma bela ruiva entre os rebeldes e trazê-la
de volta para Jace e eu brincarmos — Ele sorriu. — Vão agora, antes que vocês congelem até a morte.
Ele deu um gesto desdenhoso para eles. Havia uma força por trás disso - Emma sentiu-se girada como se fosse
uma mão em seu ombro. Ela quase cambaleou, recuperou o equilíbrio e descobriu que eles estavam quase às
portas do clube. Ela nem se lembrava de ter passado pelos espelhos.
Então eles estavam na rua, e ela estava ofegante o ar de suor quente e sujo, o calor da noite úmida de repente
bem-vindo. Eles recuperaram a motocicleta do guarda de lagarto e andaram vários quarteirões sem dizer uma
palavra até que Julian se inclinou para frente e disse, com os dentes cerrados — Encosta.
O quarteirão em que pararam estava quase deserto, as luzes da rua quebradas e o asfalto escuro. Assim que
Emma parou, Julian saiu da moto, e cambaleou até a loja de Starbucks destruída. Emma podia ouvi-lo vomitar
nas sombras. Seu estômago se apertou em solidariedade. Ela queria ir até ele, mas tinha medo de sair da moto.
Era o único caminho de volta ao Bradbury. Sem isso eles estavam mortos.
Quando Julian voltou, com o rosto manchado de sombras e hematomas, Emma entregou-lhe uma garrafa de
água.
— Você foi incrível na boate — disse ela.
Ele tomou um gole da garrafa. — Eu senti como se estivesse sendo dilacerado por dentro — disse ele com
naturalidade. — Ficar lá e dizer aquelas coisas sobre Livvy - chamar aquele monstro bastardo de ‘senhor’ - evitar
rasgar Annabel pedaço por pedaço.
— Faça agora, então — disse uma voz das sombras. — Rasgue-me em pedaços, se você puder.
A arma de Emma já estava fora quando ela se virou, abaixando-a para apontar diretamente para a mulher
pálida nas sombras. Seu vestido vermelho era uma mancha de sangue contra a noite.
Os lábios incolores de Annabel se curvaram em um sorriso. — Essa arma não vai me machucar — disse ela. —
E o tiro, os gritos, trarão os Crepusculares correndo. Arrisque se quiser. Eu não o faria.
Julian largou a garrafa. A água espirrou sobre as botas dele.
Emma rezou para ele não se lançar em Annabel; as mãos dele tremiam. — Podemos machucá-la — disse ele. —
Nós podemos fazer você sangrar.
Estava tão perto do que Emma pensara dentro da boate que ficou surpresa por um momento.
— Os Crepusculares virão — disse Annabel. — Tudo o que tenho que fazer é gritar — Suas Marcas haviam
desaparecido, assim como todos os outros Caçadores de Sombras; sua pele estava pálida como leite, sem um
único desenho. Emma ficou surpresa com o quão calma ela parecia. O quão sã. Mas então, vários anos passaram
por aqui, para ela. — Eu sabia quem vocês eram no momento em que os vi. Vocês estão exatamente como
estavam na Coorte Unseelie. As marcas da batalha em seus rostos não foram curadas.
— Então por que você não contou a Sebastian? — Emma cuspiu. — Se você queria se livrar de nós…
— Eu não quero me livrar de vocês. Eu quero fazer um acordo com vocês.
Julian puxou a manga direita com força suficiente para rasgar o tecido. Ali, em seu pulso, estava o trapo que
ele usara por toda a Terra das Fadas, ainda com a crosta de sangue seco. — Este é o sangue da minha irmã —
ele disse. — Sangue que você derramou.
Por que eu iria querer fazer um acordo com você?
Annabel parecia indiferente à visão do sangue de Livvy. — Porque você quer chegar em casa — disse ela. —
Porque você não consegue parar de pensar no que pode estar acontecendo com o resto da sua família. Eu ainda
sou possuidora de magias negras poderosas, você sabe. O volume negro funciona ainda melhor aqui.
Eu posso abrir um portal para te levar para casa. Eu sou a única neste mundo que pode.
— Por que você faria isso por nós? — Disse Emma.
Annabel deu um pequeno sorriso estranho. Em seu vestido vermelho, ela parecia flutuar suspensa como uma
gota de sangue na água. — O Inquisidor mandou vocês para o Reino das Fadas para morrerem — ela disse. — A
Clave os despreza e os querem mortos.
Tudo porque vocês queriam proteger o que amavam. Como eu não entenderia como é isso?
Emma achava que isso era uma lógica bastante distorcida.
Julian, entretanto, estava encarando Annabel como se ela fosse um pesadelo do qual ele não pudesse desviar o
olhar.
— Você se enfeitiçou — Annabel continuou, seu olhar fixo em Julian. — Para não sentir nada. Eu senti o feitiço
quando te vi no Reino das Fadas. Eu vi, e senti alegria — Ela girou, sua saia vermelha girando em torno dela. —
Você fez como Malcolm. Ele se afastou das emoções para me recuperar.
— Não — disse Emma, incapaz de suportar o olhar no rosto de Julian. — Ele tentou te recuperar porque ele
amava você. Porque ele sentiu emoções.
— Talvez no começo — Annabel parou de girar. — Mas já não era o caso quando ele me reviveu, era? Ele me
manteve presa e torturada todos esses anos, então ele poderia me trazer de volta para ele, não para mim. Isso
não é amor, sacrificar a felicidade do seu amado por suas próprias necessidades. No momento em que ele
conseguiu me recuperar, estava tão divorciado do mundo que se importava mais com seu objetivo do que com os
tipos de amor que importam. Uma coisa que era verdadeira, pura e bela se tornou corrupta e má — Ela sorriu, e
seus dentes brilhavam como pérolas subaquáticas. — Uma vez que você não sente mais empatia, você se torna
um monstro. Você pode não estar sob o feitiço aqui, Julian Blackthorn, mas e quando você voltar? O que você
fará então, quando não puder suportar sentir o que sente?
— Cale a boca — Emma disse entre os dentes. — Você não entende nada — Ela se virou para Julian. — Vamos
sair daqui.
Mas Julian ainda estava encarando Annabel. — Você quer algo — disse ele em um tom de voz mortal. — O
que?
— Ah — Annabel ainda estava sorrindo. — Quando eu abrir o Portal, leve Ash com você. Ele está em perigo.
Ash? — Julian repetiu, incrédulo.
— Ash parece estar bem aqui — disse Emma, abaixando sua arma. — Quero dizer, talvez ele esteja ficando
entediado com sua seleção de videogames desde que, você sabe, Sebastian matou todas as pessoas que fazem
videogames. Ou ele pode estar ficando sem baterias. Mas eu não tenho certeza se isso é um perigo.
O rosto de Annabel ficou sombrio. — Ele é bom demais para esse lugar — disse ela. — E mais do que isso -
quando nos encontramos pela primeira vez aqui, eu o trouxe para Sebastian. Eu acreditava que Sebastian
cuidaria de Ash porque ele é seu pai. E por um tempo, ele fez. Mas circulam rumores de que a drenagem de
energia para manter tantos Crepusculares está lentamente dilacerando Sebastian. As forças vitais dos
Crepusculares estão envenenadas. Sem utilidade. Mas Ash não está. Acredito que eventualmente ele vai matá-lo
e usar sua considerável força vital para se rejuvenescer.
— Ninguém está seguro, não é? — Perguntou Julian. Ele soou distintamente não impressionado.
— Este é um bom mundo para mim — disse Annabel. — Eu odeio os Nephilim e sou poderosa o suficiente para
estar a salvo de demônios.
— E Sebastian permite que você torture Nephilim — disse Emma.
— De fato. Eu visito as feridas que uma vez me foram visitadas pelo Conselho — Não havia emoção em sua
voz, nem mesmo um leve indício de regozijo, apenas uma estupidez mortal que era ainda pior. — Mas não é um
bom lugar para Ash. Não podemos nos esconder. Sebastian iria caçá-lo em qualquer lugar. Ele ficará melhor em
seu mundo.
— Então, por que você não o leva até lá? — disse Emma.
— Eu faria se eu pudesse. Me deixa doente me separar dele — disse Annabel. — Eu dei toda a minha vida
nestes anos para o seu cuidado.
Lealdade perfeita, Emma pensou. Foi essa lealdade que fez Annabel tão abatida, tão doentia? Sempre
colocando Ash diante de si, seguindo-o de um lugar para outro, pronta para morrer por ele a qualquer momento,
e nunca sabendo realmente por quê?
— Mas no seu mundo — continuou Annabel — Eu seria caçada e separada de Ash. Ele não teria ninguém para
protegê-lo. Desta forma, ele terá você.
— Você parece ter muita confiança em nós — disse Julian. — Á
que você sabe que a odiamos.
— Mas vocês não odeiam Ash — disse Annabel. — Ele é inocente e você sempre protegeu os inocentes. É o
que você faz — Ela sorriu, um sorriso familiar, como se sentisse em seu coração que ela os pegou em uma rede.
— Além disso. Você está desesperado para chegar em casa e o desespero sempre tem um preço. Então, que tal
Nephilim? Nós temos um acordo?
*
Ash pegou o pedaço de papel que havia caído do casaco de Julian Blackthorn no chão da boate. Ele teve o
cuidado de não deixar Sebastian vê-lo fazer isso. Ele tinha estado em Thule tempo suficiente para saber que
nunca era uma boa ideia pegar a atenção de Sebastian desprevenido.
Não que Sebastian fosse sempre cruel. Ele era generoso em trancos e barrancos, quando se lembrava que Ash
existia. Ele lhe entregaria armas ou jogos que encontrou em ataques a casas rebeldes. Ele assegurou que Ash se
vestisse bem, já que ele considerava Ash como um reflexo de si mesmo. Jace era o único que era realmente
gentil, no entanto, parecendo encontrar em Ash algum lugar para colocar os sentimentos frustrados e
engarrafados que ainda carregava por Clary Fairchild e Alexander e Isabelle Lightwood.
E então havia Annabel. Mas Ash não queria pensar em Annabel.
Ash desdobrou o papel. Um choque passou por seu corpo. Ele se virou rapidamente para que Jace e Sebastian,
em profunda conversa, não notassem sua expressão.
Era ela, a estranha garota humana que ele tinha visto uma vez na sala de armas Unseelie. Cabelos escuros,
olhos da cor do céu que ele lembrava apenas parcialmente. Um bando de corvos circulou no céu atrás dela. Não
uma fotografia, mas um desenho, feito com uma mão melancólica, um sentimento de amor e saudade emanando
da página. Um nome foi rabiscado em um canto: Drusilla Blackthorn.
Drusilla. Ela parecia solitária, Ash pensou, mas também determinada, como se uma esperança vivesse por trás
daqueles olhos azuis de verão, uma esperança que não podia ser saciada pela perda, uma esperança forte
demais para sentir desespero.
O coração de Ash estava batendo, embora ele não pudesse dizer o porquê. Apressadamente, ele dobrou o
desenho e enfiou no bolso.
*
Diana estava esperando por eles do lado de fora do Bradbury, encostada na porta da garagem fechada com
uma espingarda no ombro. Ela abaixou a arma com um olhar de alívio visível quando a motocicleta de Emma e
Julian parou na frente dela.
— Eu sabia que você ia conseguir — disse ela quando Julian saiu da moto.
— Aw — disse Emma, desmontando. — Você estava preocupada com a gente!
Diana bateu na porta da garagem com a ponta da espingarda.
Ela disse algo para Emma que estava perdida na moenda das engrenagens quando a porta se abriu.
Julian observou Emma responder a Diana com um sorriso e se perguntou como ela fez isso. De alguma forma,
Emma sempre poderia encontrar leveza ou uma brincadeira mesmo sob o maior estresse. Talvez fosse da mesma
maneira que ele pudesse ficar na frente de Sebastian e fingir ser a versão Crepuscular de si mesmo, mesmo sem
sentir suas mãos tremerem. Isso começou apenas quando acabou.
— Sinto muito por tido que ir — disse Diana quando a porta foi fechada e trancada e a motocicleta colocada de
volta sob a lona de Raphael. — Se eu tivesse ficado por perto e vocês fossem pegos…
— Não há nada que você possa ter feito por nós — disse Julian.
— E eles teriam te matado, uma vez que descobrissem quem realmente éramos.
— Pelo menos dessa forma alguém estava trazendo as notícias sobre Tessa de volta para Livvy. Nós
entendemos — Emma acrescentou. — Você já disse a ela?
— Eu estava esperando por vocês — ela sorriu de lado. — E eu não queria ter que dizer a Livvy que tinha
perdido o irmão dela.
O irmão dela. As palavras eram como palavras de um sonho, meio verdadeiras, no entanto Julian talvez
quisesse que fossem totalmente reais.
— Então, o que Sebastian queria de vocês? — Diana perguntou enquanto ela os deixava entrar no prédio.
Devem ter chegado muito tarde na noite anterior, Julian percebeu - a essa hora, os corredores ainda estavam
cheios de pessoas, correndo de um lado para o outro. Passaram pela porta aberta de uma despensa, cheia de
produtos enlatados e em jarras. A cozinha provavelmente estava perto; o ar cheirava a sopa de tomate.
— Ele nos ofereceu uma casa em Bel Air — disse Emma.
Diana estalou a língua. — Chique. Bel Air é onde Sebastian vive, e os mais favorecidos Crepusculares. O fosso
os protege.
— Aquele feito de ossos gigantes? — disse Julian.
— Sim, esse fosso — disse Diana. Eles chegaram à porta do escritório de Livvy; Diana bateu com o quadril e os
conduziu para dentro.
De alguma forma Julian pensara que Livvy estaria sozinha, esperando por eles, mas ela não estava. Ela estava
de pé atrás de uma das longas mesas de arquitetura com Bat e Maia, olhando para um mapa de Los Angeles.
Cameron andava de um lado para o outro na sala.
Livvy olhou para cima quando a porta se abriu e o alívio apareceu em seu rosto. Por um momento, Julian
assistiu a uma pequena Livvy na praia, presa em uma pedra pela maré, o mesmo olhar de alívio desesperado em
seu rosto quando ele foi buscá-la e levá-la de volta à areia.
Mas esta Livvy não era a mesma menina. Ela não era uma garotinha. Ela cobriu o olhar de alívio rapidamente.
— Que bom que você voltou — ela disse. — Alguma sorte?
Julian os informou sobre a reunião com Tessa - deixando de fora, por enquanto, a parte em que ela pediu que
eles matassem Sebastian - enquanto Emma foi até a cafeteira no canto e pegou café quente para os dois. Era
amargo e preto e doeu quando ele engoliu.
— Eu acho que lhe devo cinco mil dólares — disse Cameron para Livvy quando Julian terminou. — Eu não
achava que Tessa ainda estava viva, muito menos que ela poderia nos levar para a Cidade do Silêncio.
— Esta é uma ótima notícia — disse Maia. Ela estava encostada na borda da mesa do mapa. Uma mão estava
casualmente enrolada em torno do cotovelo oposto, e Julian podia vislumbrar uma tatuagem de um lírio no
antebraço de Maia.
— Devemos começar uma sessão de estratégia. Atribuir grupos.
Alguns podem circular a entrada da Cidade do Silêncio, alguns podem estar em vigia.
— Há também algumas notícias ruins — disse Julian. — No caminho de volta da praia, fomos parados em um
posto de controle.
Sebastian queria nos ver.
Livvy ficou toda tensa. — O que? Por quê?
— Ele achava que éramos as versões Crepusculares de nós mesmos. Emma e Julian deste mundo — disse
Emma.
— Ele sabe que você tem algo acontecendo aqui no centro — disse Julian. — Ele até sabe o seu nome, Livvy.
Houve um momento de silêncio sombrio.
— Eu disse a ela para ir pôr um apelido como ‘O Vingador Mascarado’, mas ela não iria me ouvir — disse Bat
com um sorriso forçado.
— Ah — disse Emma. —Rindo na cara do perigo. Eu gostei.
Livvy retorceu a ponta do nariz. — Isso significa que não temos tempo a perder. Você pode entrar em contato
com a Tessa?
— Agora que sabemos onde ela está, qualquer um pode pegar minha bicicleta emprestada e levar uma
mensagem para ela — disse Diana. — Não tem problema.
— Devemos fazer isso durante o dia. Muitos demônios à noite — acrescentou Livvy.
— Eu acho que isso nos dá ainda menos de tempo — disse Diana.
Cameron colocou a mão no ombro de Livvy. Isso deu a Julian uma sensação estranha - ele tinha sido tão
ciumento com Cameron em seu próprio mundo, da maneira que ele e Emma se comportavam juntos quando
estavam namorando. Eles tinham tudo o que ele e Emma nunca teriam - a habilidade de se tocar casualmente,
beijar em público. Agora, este Cameron era o namorado de Livvy, provocando a proteção de Julian, em vez de
seu ciúme. Ele teve que admitir a contragosto, porém, parecia que Cameron tinha sido um bom namorado. Ele
era gentil, apesar de sua família terrível, e obviamente pensou que o sol nasceu e se pôs em Livvy.
Assim como ele deveria.
— Venham ver o mapa — disse Maia, e todos se reuniram em volta. Ela passou um dedo com anel de bronze
pelo papel, indicando a localização deles. — Aqui estamos nós. Aqui está a entrada para a Cidade do Silêncio. É
apenas a alguns quarteirões de distância, então podemos caminhar, mas provavelmente devemos encontrar com
Crepusculares.
— Vamos ao amanhecer para a menor atividade demoníaca — disse Livvy. — Quanto a Tessa Gray…
— Tudo o que temos a fazer é deixá-la saber quando e ela vai nos encontrar na entrada da Cidade do Silêncio
— disse Julian. — É
onde está no nosso mundo? Angels Flight?
Bat pareceu surpreso. — Sim. É a mesma.
A Angels Flight era uma ferrovia de bitola estreita que subia a Bunker Hill no centro de Los Angeles, com a
trilha parecendo alcançar o céu. Julian a visitou apenas uma vez na entrada da Cidade do Silêncio.
— Ok — Maia bateu as mãos juntas. — Todo mundo vai estar no refeitório para o jantar, então vamos montar
algumas equipes.
— Você pode discutir com Raphael — disse Bat.
Maia revirou os olhos. — Certo. Ele sempre diz que não vai cooperar e então nos cobre com um monte de
vampiros no último minuto.
— Eu vou lidar com os lobos — disse Bat.
Diana levantou as mãos. — E eu vou reunir todo mundo. De quantos nós precisamos? Trinta, talvez? Uma
multidão muito grande atrairá a atenção de que não precisamos — Gente — disse Livvy, olhando através da mesa
do mapa para Julian. — Eu gostaria de falar com meu irmão sozinha, se vocês não se importam.
— Ah, claro — disse Maia. — Sem problemas. Vejo vocês em daqui a pouco. — Ela saiu com Bat.
Cameron beijou Livvy na bochecha.
— Te vejo mais tarde.
— Eu vou estar com as armas — disse Diana, indo para a porta.
Emma encontrou os olhos de Julian.
— As armas parecem ótimas — disse ela. — Eu vou com a Diana.
Assim que a porta se fechou atrás deles, Livvy foi até um dos sofás compridos e sentou-se. Ela olhou para
Julian com seu olhar direto, muito parecido com a de sua Livvy, exceto pela cicatriz em seus olhos.
— Jules — ela disse. — O que você não está me dizendo? Tem algo que você não está me contando.
Julian recostou-se contra a longa mesa. Ele falou com cuidado.
— O que te faz pensar isso?
— Porque você nos disse como invadir a Cidade do Silêncio e pegar os Instrumentos Mortais, mas você não
disse que descobriu como destruí-los. Eu sei que você não sugeriria que os mantivéssemos assim que os
tivermos, seremos os principais alvos de Sebastian.
— Estamos planejando levá-los de volta ao nosso mundo — disse Julian. — Sebastian não vai encontrá-los lá.
— Ok — disse Livvy lentamente. — Então Tessa Gray pode abrir um Portal para você voltar para casa?
— Não — Julian flexionou as mãos; sua pele estava apertada.
— Não exatamente.
Livvy estalou os dedos. — E aqui está a parte que você estava deixando de fora. O que?
— Você conhece uma mulher chamada Annabel? — Julian perguntou. — Ela é do nosso mundo, mas você pode
tê-la visto com Sebastian aqui. Cabelo comprido e escuro…
— Aquela necromante que apareceu com o filho de Sebastian? O
nome dela é Annabel? — Livvy assobiou. — Eles não a chamam assim aqui. A Legião da Estrela a chama de a
Rainha do Ar e da Escuridão .
— Isso é de um antigo poema — disse Julian, parecendo pensativo.
— Então, isso significa que Ash Morgenstern é do seu mundo também — disse Livvy.
— Sim. Na verdade, ele é do Reino das Fadas em nosso mundo. Todos nós viemos pelo mesmo Portal, mas
aparecemos aqui cinco anos depois, eu suponho. Dois anos após a Batalha do Burren.
Eu suspeito que eles foram direto para Sebastian. Ela sabia que ele era filho de Sebastian e que Sebastian
está vivo aqui e no comando…
— Acho que estou com dor de cabeça. — Livvy esfregou as têmporas. — Reino das Fadas, hein? Eu acho que
isso explica por que Ash está tão perto da idade de seu ‘pai’.
Julian assentiu. — O tempo nas Terras Imortais é super estranho. Eu não finjo entender isso. Ele passou a mão
pelo cabelo. A coisa é - Annabel me ofereceu um acordo.
— Que tipo de acordo? — Disse Livvy com cautela.
— Ela é uma maga poderosa — disse Julian. Ele falou com imensa deliberação. Não havia necessidade de dizer
a Livvy que Annabel era um Blackthorn. Isso traria mais perguntas, as quais ele não queria responder. — Porque
ela pegou o Volume Negro do nosso mundo, ela pode abrir um Portal para voltar a ele. Ela se ofereceu para abrir
um para nós.
— Por que ela se ofereceria para fazer isso por você se ela é uma das servas de Sebastian?
— Ela não se importa com Sebastian. Ela só se importa com Ash e tem medo dele. Ela está se oferecendo para
nos mandar de volta se o levarmos conosco.
— Ela provavelmente não está errada em se preocupar.
Sebastian arruina todos perto dele. Livvy puxou as pernas para baixo.
— Você confia nessa Annabel?
— Eu a odeio — disse Julian, antes que ele pudesse se conter.
Ele viu os olhos de Livvy se arregalarem e se forçou a continuar com mais calma. — Mas eu confio que os
sentimentos dela por Ash são reais. Ele tem uma certa influência sobre as pessoas.
— Isso é interessante — O olhar de Livvy estava um pouco fora de foco. — Dru o viu alguns anos atrás. Em
uma execução, como a que você viu na praia. Ela continuou falando sobre ele depois, sobre como ele não parecia
que realmente queria estar lá — Ela colocou um pedaço de cabelo atrás da orelha. — Você, se você atravessar o
Portal, ainda quer que eu vá com você?
— Claro que sim — disse Julian. — É parte da razão pela qual eu não matei Annabel. Eu quero tirar você
daqui.
Livvy mordeu o lábio. —E quanto a ‘eu’ que existe em seu mundo? Isso não vai ficar confuso?
Julian não disse nada; ele esperava isso, e mesmo assim ainda não tinha resposta. Ele assistiu seu rosto
mudar, estabelecendo-se em linhas de certeza, frieza e resignação, e sentiu um pedaço de seu coração murchar.
— Eu estou morta, não estou? — a voz de Livvy estava firme. — Eu estou morta no seu mundo. Eu posso dizer
pelo jeito que você olha para mim.
— Sim — Julian estava tremendo como se estivesse com frio, embora o ar estivesse quente e parado. — Foi
minha culpa, Livs.
Você…
— Não. — ela se levantou e atravessou a sala até ele, colocando as mãos contra o peito dele como se quisesse
empurrá-lo.
— Você não fez nada para me machucar, Jules. Eu te conheço muito bem para você me convencer disso. Você
esquece, que neste mundo, você se sacrificou por mim — seus olhos de Blackthorn estavam arregalados,
brilhantes e sem lágrimas. — Sinto muito que nos perdemos em seu mundo. Eu gostaria de pensar em algum
lugar que estamos intactos. Todos nós juntos. — ela deu um passo para trás. — Deixe-me mostrar-lhe algo.
Sua garganta estava muito seca para ele falar. Ele viu quando ela se virou, de costas para ele, e tirou o
moletom. Sob ele, ela usava um top branco. Não fez nada para esconder a enorme tatuagem que se estendia por
suas costas como asas: uma runa de luto, espalhando-se da base do pescoço até o meio da espinha, as bordas
tocando os ombros.
Sua voz falhou. — Para Ty.
Ela se abaixou e pegou o moletom, puxando-o de volta para esconder a runa. Quando ela se virou para olhar
para ele, seus olhos estavam brilhando. — Para todos vocês — disse ela.
— Volte para casa comigo — Julian sussurrou. — Livvy…
Ela suspirou. — Eu posso dizer que você quer minha permissão para fazer este acordo com a necromante,
Jules. Eu posso dizer que você acha que isso tornaria uma escolha mais fácil e melhor. Mas eu não posso fazer
isso — ela balançou a cabeça. — Em Thule, escolhas terríveis são tudo o que temos. Esta é sua para fazer.
*
No armário de suprimentos de armas, Emma entrou alegremente; ela nunca esteve tão interessada em armas
- elas não funcionavam com demônios, então os Caçadores de Sombras não as usavam - mas havia muitos outros
itens de destruição localizada. Ela enfiou um punhado de facas no cinto e dirigiu-se a uma mesa de adagas.
Diana encostou-se na parede e a observou com uma diversão cansada. — No seu mundo — ela disse. — Vocês
eram parabatai?
Emma fez uma pausa, uma lâmina na mão. — Nós éramos.
— Eu não mencionaria muito isso se fosse você — disse Diana.
— As pessoas daqui não gostam muito de pensar em parabatai.
— Por que não?
Diana suspirou. — Quando Sebastian ganhou o controle do mundo, e ficou mais escuro e mais desesperado,
parabatais mudaram. Aconteceu durante a noite, ao contrário da mudança dos feiticeiros. Um dia o mundo
acordou para descobrir que aqueles que eram parabatai se tornaram monstros.
Emma quase deixou cair a faca. — Eles se tornaram maus?
— Monstros — repetiu Diana. — Suas runas começaram a queimar como fogo, como se tivessem fogo em suas
veias em vez de sangue. As pessoas diziam que as lâminas daqueles que os combatiam se estilhaçavam em suas
mãos. Linhas pretas se espalharam por seus corpos e se tornaram monstruosas - fisicamente monstruosas. Eu
nunca vi isso acontecer, se lembre - ouvi tudo isso em terceira mão. Histórias sobre criaturas brilhantes e
implacáveis, destruindo cidades. Sebastian teve que libertar milhares de demônios para derrubá-los. Muitos
mundanos e Caçadores de Sombras morreram.
— Mas por que isso aconteceria? — Emma sussurrou, sua garganta de repente seca.
— Provavelmente a mesma razão pela qual os feiticeiros se transformaram em demônios. O mundo se
tornando retorcido e demoníaco. Ninguém sabe, realmente.
— Você está preocupada que isso aconteça com a gente? — perguntou Emma. Ela estava cegamente pegando
mais armas, sem realmente olhar para o que ela estava segurando mais. — Que poderíamos mudar aqui?
— Nenhuma chance disso — disse Diana. — Uma vez que a magia angelical parou de funcionar
completamente, os poucos parabatai que sobreviveram estavam bem. Seus laços quebraram e eles não
mudaram.
Emma assentiu. — Eu posso sentir que meu vínculo com Julian está quebrado aqui.
— Sim. Não há mais Caçadores de Sombras, então não há mais parabatai. Ainda assim, como eu disse, eu não
mencionaria isso para as pessoas. Suas runas acabarão desaparecendo em breve. Você sabe. Se você ficar aqui.
— Se ficarmos aqui — Emma ecoou, um pouco fraca. Sua cabeça estava girando. — Certo. Eu acho que
deveria voltar agora.
Julian pode estar se perguntando onde estou.
*
— Eu vejo que você esteve decorando — disse Julian quando entrou no quarto. Ele parecia cansado, mas
alerta, seu cabelo castanho chocolate ainda despenteado do passeio de moto.
Emma olhou ao redor - ela libertou um número surpreendente de armas do armário de suprimentos no andar
de baixo. Havia uma pilha de adagas e facas de arremesso em um canto, uma de espadas em outra e outra de
armas do Departamento de Polícia de Los Angeles: armas e Berettas, principalmente.
— Obrigada — disse ela. — O tema é: Coisas que podem matar você.
Julian riu e entrou no banheiro; ela ouviu a água da pia correndo enquanto escovava os dentes. Ela pegou
emprestada uma das camisas masculinas de botão que entregaram a Julian e vestiu como uma camisola de
dormir por cima da calcinha: não era, pensou ela, a mais sexy de todas as opções de pijama, mas era confortável.
Emma enrolou dobrou as pernas e resistiu à vontade de perguntar a Julian se ele estava bem. Depois que ela
voltou de sua expedição com Diana, ela esperou por Julian com crescente ansiedade. Este era um mundo que
poderia prejudicá-los de várias maneiras. Eles poderiam ser abatidos por demônios ou caçados por
Crepusculares. E se eles tivessem chegado mais cedo, aparentemente, poderiam ter se transformado em
monstros e destruído uma cidade.
Há uma corrupção no coração do laço de parabatai. Um veneno.
Uma escuridão que espelha sua bondade. Há uma razão pela qual parabatai não podem se apaixonar, e é
monstruoso além de tudo o que você pode imaginar.
Ela balançou a cabeça. Ela não escutaria as palavras mentirosas da Rainha. Tudo em Thule era retorcido e
monstruoso — é claro que o laço parabatai não teria sido poupado.
Mais real e perigosa era a sombra do coração partido em cada esquina. Ela sabia o quanto Julian queria que
essa Livvy voltasse ao mundo deles com eles, mas ela tinha visto a expressão de Livvy quando ele perguntou, e
ela se questionou.
Quando ele voltou para o quarto, seus cabelos e camiseta estavam úmidos, e ele parecia um pouco mais
acordado. Ela achou que ele tinha jogado água no rosto.
— Eles tinham bestas? — Ele perguntou, examinando a pilha de espadas. Ele pegou uma e examinou, a lâmina
refratando a luz enquanto ele virava de um lado para o outro.
Borboletas agitaram no estômago de Emma.
Apenas algumas, mas havia algo em ver Julian ser um Caçador de Sombras, ser o guerreiro que ela viu
crescer. Os músculos se moveram suavemente em seu braço e ombro enquanto ele manipulava a lâmina e a
colocava de volta novamente, um olhar pensativo em seu rosto.
Emma esperava que suas bochechas não estivessem rosadas.
— Eu peguei para você. Está no guarda-roupa.
Ele foi checar. — Se conseguirmos chegar à Cidade do Silêncio sem que nenhum Crepuscular ou demônios
notem, talvez não precisemos usar nenhum deles.
— Diana sempre disse que as melhores armas eram mantidas em grande forma para uso, mas nunca
precisavam ser usadas — disse Emma. — Claro que eu nunca soube realmente do que ela estava falando.
— Obviamente. — ele sorriu, mas não alcançou seus olhos. — Emma, eu preciso te dizer uma coisa.
Ela se ergueu contra a cabeceira da cama. Seu coração pulou uma batida, mas ela tentou manter sua
expressão calma e acolhedora. Julian não era bom em se abrir, mesmo quando ele tinha emoções; ainda assim,
ela sentia falta da partilha dos segredos e fardos um do outro mais do que qualquer outra coisa quando ele
estava sob o feitiço.
Ele sentou-se na beira da cama e olhou para o teto. — Eu não contei a Livvy sobre Tessa nos pedindo para
matar Sebastian — ele disse.
— Claro — disse Emma. — Se não pudermos entrar na Cidade do Silêncio e pegar os Instrumentos Mortais,
isso nunca importará.
Por que assustá-la cedo?
— Mas eu disse a ela que se pegássemos a Espada e o Cálice, nós os traríamos de volta. Para protegê-los.
Emma esperou. Ela não tinha certeza de onde Julian estava indo com isso.
— Quando estávamos na Corte Seelie — disse Julian. — Apenas desta última vez - quando conversei com a
Rainha - ela me disse como seria possível romper todos os laços parabatai de uma só vez.
Emma agarrou as cobertas. — Sim. E você me disse que era impossível.
Seus olhos eram janelas para um oceano que não existia mais neste mundo.
— Nós fizemos o que ela pediu — disse ele. — Nós trouxemos para ela o Volume Negro. Então ela me disse,
porque achava que seria engraçado. Você vê, só há uma maneira de fazer isso. Você tem que destruir a primeira
runa parabatai gravada, que é mantida na Cidade do Silêncio. E você tem que fazer isso com a Espada Mortal.
— E no nosso mundo, a Espada está quebrada — disse Emma.
Fazia sentido, de uma maneira distorcida: ela podia imaginar o prazer da rainha em entregar essa notícia.
— Eu não lhe contei porque achei que não importava — ele disse. — Isso nunca seria possível. A espada foi
quebrada.
— E você não me contou por causa do feitiço — ela disse, gentilmente. — Você não sentiu que precisava.
— Sim — ele disse. Ele respirou estremecendo. — Mas agora estamos falando sobre trazer essa espada de
volta ao nosso mundo e eu sei que é uma chance em um milhão, mas poderia ser possível -
quero dizer, poderíamos estar olhando para essa escolha. Poderia ser.
Havia um milhão de coisas que Emma queria dizer. Você prometeu que não faria e seria uma coisa terrível
para fazer tremendo na ponta da sua língua. Ela se lembrou da certeza moral que sentiu quando Julian lhe
contou pela primeira vez que a Rainha balançava essa tentação na frente deles.
Mas foi difícil depois da morte de Livvy ter uma garantia moral sobre qualquer coisa.
— Eu pedi a Magnus para colocar esse feitiço em mim porque eu estava apavorado — disse Julian. — Eu me
imaginei nos transformando em monstros. Destruindo tudo o que amamos. Eu ainda tinha o sangue de Livvy sob
minhas unhas. — Sua voz tremeu.
— Mas há algo mais que eu tenho tanto medo, e é por isso que a voz da Rainha continua ecoando em minha
mente.
Emma olhou para ele, esperando.
— Perder você — disse ele. — Você é a única pessoa que eu amei assim, e sei que você é a única pessoa que eu
amarei. E eu não sou eu mesmo sem você, Emma. Uma vez que você dissolve o corante na água, você não pode
retirá-lo. É assim. Eu não posso tirar você de mim. Significa cortar meu coração e não gosto de mim mesmo sem
meu coração. Eu sei disso agora.
— Julian — Emma sussurrou.
— Eu não vou fazer isso — disse ele. — Eu não vou usar a espada. Eu não posso causar dor nas outras pessoas
como a dor que eu senti. Mas se chegarmos em casa e tivermos a Espada, acho que precisamos trocá-la com o
Inquisidor pelo exílio. Acho que não temos outra escolha.
— Verdadeiro exílio? — Perguntou Emma. — Eles vão nos separar das crianças, Julian, eles vão separar você
— Eu sei — disse ele. — Houve uma época em que pensei que não poderia haver nada pior. Mas percebo agora
que estava errado. Eu segurei Livvy enquanto ela morria, e isso foi pior. O que aconteceu com Livvy aqui -
perdendo todos nós - é inimaginavelmente pior. Eu me perguntei se preferiria passar pelo que Mark passou -
sendo separado da família, mas pensando neles também e feliz - ou o que Livvy passou por aqui, sabendo que
seus irmãos e irmãs estavam mortos. Não tem questão.
Eu preferiria que eles estivessem seguros e vivos, mesmo que eu não pudesse estar com eles.
— Eu não sei, Julian…
Sua expressão era nitidamente vulnerável.
— A menos que você não se sinta assim sobre mim — disse ele. — Se você tivesse parado de me amar
enquanto eu estava sob o feitiço, eu não culparia você.
— Eu acho que isso resolveria nosso problema — ela disse sem pensar.
Julian se encolheu.
Emma rastejou apressadamente pela cama na direção dele. Ela se ajoelhou no centro da colcha e estendeu a
mão para tocar o ombro dele. Ele virou a cabeça para olhar para ela, estremecendo um pouco, como se estivesse
olhando para o sol.
— Julian — disse ela. — Eu estava com raiva de você. Senti sua falta. Mas eu não parei de te amar. — ela
passou as costas da mão levemente contra sua bochecha. — Enquanto você existir e eu existir, eu vou amar você.
— Emma — Ele se moveu para se ajoelhar na cama em frente a ela. Ela era uma cabeça menor que ele nessa
posição. Ele tocou o cabelo dela, puxando-o para frente por cima do ombro. Seus olhos eram sombrios. — Eu não
sei o que vai acontecer quando voltarmos — disse ele. — Eu não sei se pedir o exílio ao Dearborn funcionará.
Eu não sei se vamos nos separar. Mas se formos, vou pensar no que você acabou de dizer e vai me levar até o
que acontecer. No escuro, nas sombras, nos momentos em que estou sozinho, vou me lembrar.
Os olhos dela ardiam.
— Eu posso dizer de novo.
— Não precisa. — Ele tocou sua bochecha levemente. — Eu sempre me lembrarei de como você era quando
você disse isso.
— Então eu gostaria de ter usado algo um pouco mais sexy — disse ela com uma risada trêmula.
Seus olhos escureceram - aquele escurecimento de desejo que só ela conseguia ver.
— Acredite em mim, não há nada mais sexy do que você em uma das minhas camisas — disse ele. Ele tocou a
gola da camisa levemente. Arrepios explodiram na pele dela. Sua voz era baixa e áspera. — Eu sempre quis você.
Mesmo quando eu não sabia disso.
— Mesmo durante a nossa cerimônia parabatai?
Ela meio que esperava que ele risse, mas ao invés disso, o dedo dele traçou o material de sua camisa, ao longo
de sua clavícula até o entalhe na base de sua garganta. — Especialmente nela.
—Julian…
— Rogai-me para não deixá-lo — ele sussurrou. — Ou voltar após segui-lo — ele abriu o botão de cima de sua
camisa, mostrando um pequeno pedaço de pele. Ele olhou para ela e ela assentiu com a boca seca: Sim, eu
quero isso, sim.
— Pois, para onde fores, irei. — os dedos dele deslizaram para baixo. Outro botão se abriu. O inchaço dos
seios dela era visível; suas pupilas se expandiram, escurecidas.
Havia algo de herético nisso, algo que carregava o frisson do que era proibido. As palavras da cerimônia
parabatai não foram feitas para transmitir desejo. No entanto, cada palavra estremeceu nos nervos de Emma,
como se as asas dos anjos lhe roçassem a pele.
Ela pegou a camisa dele e a tirou pela cabeça. Alisou as mãos pelo peito até a cintura, os músculos do
abdômen . Traçou cada cicatriz.
— E onde estiver, eu estarei.
Os dedos dele encontraram outro botão e outro. A camisa dela se abriu com um sussurro do pano.
Lentamente, ele empurrou-a dos ombros, deixando-a escorregar pelos braços dela. Seus olhos estavam famintos,
mas suas mãos eram gentis; ele acariciou seus ombros nus e se inclinou para beijar os lugares que a camisa
revelara, traçando um caminho entre seus seios enquanto ela se arqueava para trás em seus braços. Ele
murmurou contra sua pele.
— Os teus serão os meus. Teu Deus, meu Deus.
Ela caiu para trás, puxando Julian para cima dela. Seu peso a pressionou na suavidade da cama. Ele enrolou
as mãos debaixo do corpo dela e beijou-a por muito tempo e devagar. Ela passou os dedos pelo cabelo dele como
sempre adorara fazer, os cachos sedosos fazendo cócegas nas palmas das mãos.
Eles tiram as roupas sem pressa. Cada novo pedaço de pele revelado foi motivo de outro toque reverente,
outro beijo lento.
— Onde morreres, eu morrerei — Julian sussurrou contra a boca dela.
Ela soltou o jeans dele e ele o chutou para longe. Ela podia senti-lo duro contra ela, mas não havia pressa:
seus dedos traçaram as curvas dela, as depressões e cavidades de seu corpo, como se ele estivesse descrevendo
um retrato dela em dourado e marfim com cada pincel de suas mãos.
Ela envolveu as pernas ao redor dele para mantê-lo perto dela.
Seus lábios roçaram sua bochecha, seu cabelo, enquanto ele se movia dentro dela; seu olhar nunca rompeu
com o dela, atraindo os dois para cima. Eles se levantaram como fogo e faíscas, cada momento mais brilhante; e
quando finalmente eles quebraram e caíram juntos, eles eram estrelas em colapso em ouro e glória.
Depois, Emma se encolheu contra Julian, sem fôlego. Ele estava corado, coberto de suor, quando ele juntou o
cabelo dela em uma mão, enrolando-o entre os dedos.
— Nada se não a morte partirá a mim e a ti, Emma — ele disse, e pressionou seus lábios nos fios.
Emma fechou os olhos enquanto sussurrava: — Julian. Julian.
Nada se não a morte partirá a mim e a ti.
*
Julian sentou-se na beira da cama, olhando para a escuridão.
Seu coração estava completo com Emma, mas sua mente estava em tumulto. Ele estava feliz por ter dito a ela
a verdade sobre as palavras da Rainha, sobre sua determinação em buscar o exílio.
Ele queria dizer mais.
Enquanto você existir e eu existir, eu amarei você. As palavras encheram seu coração e o quebraram. O perigo
de amar Emma tornara-se uma cicatriz de batalha: uma fonte de orgulho, uma lembrança de dor. Ele não foi
capaz de dizer o resto: Mas e se o feitiço voltar quando formos para casa? E se eu parar de entender o que
significa amar você?
Ela tinha sido tão corajosa, sua Emma, e tão bonita, e ele a queria tanto que suas mãos estavam tremendo
quando ele desabotoou a blusa dela, quando ele alcançou a gaveta do criado mudo. Ela estava dormindo agora,
os cobertores em volta dela, o ombro dela parecia uma pálida lua crescente. E ele estava sentado na beira da
cama, segurando a adaga de jóias que Emma trouxera mais cedo do armário de armas no andar de baixo.
Ele virou-a na mão. Era pequena, com uma lâmina afiada e pedras vermelhas no pomo. Ele podia ouvir a voz
da Rainha em sua cabeça. No Reino das Fadas, como os mortais não sentem tristeza, nem sentem alegria.
Ele pensou no jeito que ele e Emma sempre escreveram na pele um do outro com os dedos, soletrando
palavras que ninguém mais podia ouvir.
Pensou no grande vazio que carregara dentro de si depois do feitiço, sem saber que o carregava, como um
mundano possuído por um demônio que se agarrava às suas costas e se alimentava de sua alma, nunca sabendo
de onde vinha a miséria.
Uma vez que você não sente mais empatia, você se torna um monstro. Você pode não estar sob o feitiço aqui,
Julian Blackthorn, mas e quando você voltar? O que você fará então, quando não puder suportar sentir o que
sente?
Ele esticou o braço e trouxe a lâmina para baixo

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