5 de abril de 2019

Capítulo 2

Um sangue quente, doce de desejo, enchia a boca de Damon e inflamava seus sentidos. Ele afagava o cabelo dourado e macio da menina com uma das mãos enquanto pressionava a boca com mais força contra o pescoço suave dela. Por baixo da pele, podia sentir seu sangue pulsando com a batida firme do coração. Ele sugou a essência para dentro de si em grandes goles, saciando sua sede.
Por que tinha parado de fazer aquilo? Sabia por que, é claro: Elena. Sempre, no último ano, Elena.
É claro que de vez em quando ainda usava o Poder para convencer as vítimas a ceder de boa vontade. Mas fazia isso com a desagradável consciência de que Elena reprovaria, subjugado pela imagem de seus olhos azuis, sérios e sagazes, o avaliando e descobrindo sua privação. Ele não era tão bom, não em comparação ao irmão caçula comedor de esquilos.
E quando pareceu que Stefan e Elena tinham terminado definitivamente o relacionamento, que ele poderia ser o homem que acabaria com sua princesa dourada, parou de beber sangue fresco. Em vez disso, bebia sangue frio, velho e insípido de doadores de hospital. Chegou a experimentar o sangue animal nojento de que vivia o irmão. O estômago de Damon se revirou com a lembrança, e ele tomou um longo e refrescante gole do glorioso sangue da garota.
Era isto que significava ser vampiro: era preciso tirar a vida, a vida humana, para manter sua vida sobrenatural. Qualquer outra coisa — o sangue morto em bolsas plásticas ou o sangue de animais — fazia de você apenas uma sombra de si mesmo, seus Poderes se esvaindo.
Damon não se esqueceria disso outra vez. Tinha se perdido, mas agora se encontrara.
A menina se mexeu em seus braços, soltando um ruído leve e questionador, e ele lhe enviou uma onda tranquilizadora de Poder, deixando-a mais uma vez dócil e relaxada. Qual era o nome dela? Tonya? Tabby? Tally? Ele não a machucaria, de qualquer modo. Não permanentemente. Já fazia um bom tempo que não feria aqueles de quem se alimentava — não muito, não quando estava em seu juízo perfeito. Não, a menina deixaria o bosque e voltaria para a sede de sua irmandade com nada pior do que um leve feitiço de vertigem e a vaga lembrança de passar a noite conversando com um homem fascinante cujo rosto não conseguia recordar muito bem.
Ela ficaria bem.
E se ele a escolheu por causa do cabelo dourado, os olhos azuis e a pele clara que lembravam Elena? Bem, não era da conta de ninguém, só de Damon.
Por fim ele a soltou, equilibrando-a gentilmente quando ela cambaleou. Ela era deliciosa — mas nada parecido com o sangue de Elena, de maneira nenhuma tão suculento e inebriante —, mas beber mais esta noite seria insensato.
Ela era uma menina bonita, certamente. Ele arrumou seu cabelo com cuidado nos ombros, escondendo as marcas no pescoço, e ela piscou para ele com os olhos arregalados e estupefatos.
Aqueles olhos estavam errados, droga. Deviam ser mais escuros, como lápis-lazúli, cercados de cílios grossos. E o cabelo, agora que ele olhava com mais atenção, era claramente tingido.
A garota sorriu para ele, hesitante e insegura.
— É melhor você voltar para seu quarto — disse Damon. Ele lhe enviou uma corrente de Poder controlador e continuou: — Você não se lembrará de que me conheceu. Não saberá o que aconteceu.
— É melhor eu voltar. — Ela repetiu o que ele tinha dito, mas sua voz era errada, o timbre errado, o tom errado, nada ali estava certo. Seu rosto se iluminou. — Meu namorado está me esperando — acrescentou.
Damon sentiu algo dentro dele estralar. Numa fração de segundo, puxou a garota rudemente de volta a ele. Sem o menor cuidado ou delicadeza, rasgou sua garganta, engolindo furiosamente o sangue quente e saboroso. Ele a estava castigando, percebeu, e sentia prazer naquilo.
Agora que não estava mais sob seu feitiço, ela gritava e se debatia, batendo os punhos nas costas de Damon, que a prendeu com um dos braços enquanto habilidosamente cravava e retirava as presas do pescoço dela para alargar a mordida, bebendo mais sangue, mais rápido. Os golpes da jovem ficaram mais fracos e ela desmaiou em seus braços.
Quando a menina desfaleceu, ele a largou, deixando-a cair no chão da floresta com um baque pesado.
Por um momento ele olhou as árvores escuras a sua volta, ouvindo o cricrilar constante dos grilos. A menina jazia imóvel a seus pés. Embora não precisasse respirar há mais de quinhentos anos, agora estava ofegante, quase zonzo.
Ele tocou os próprios lábios e olhou para a mão vermelha, o sangue pingando. Fazia muito tempo que não perdia o controle desse jeito. Centenas de anos, provavelmente. Ele olhou o corpo machucado a seus pés. A menina agora parecia tão pequena, a expressão serena e vazia, cílios escuros sobre o rosto pálido.
Damon não sabia se ela estava morta ou viva. Percebeu que não queria descobrir.
Ele se afastou alguns passos, sentindo uma estranha incerteza, depois se virou e correu veloz e silencioso pela escuridão do bosque, ouvindo apenas as batidas do próprio coração.
Damon sempre fez o que quis. Sentir-se mal com o que era natural para um vampiro, isso era para alguém como Stefan. Mas à medida que corria, uma sensação pouco característica na boca do estômago o importunava, algo que parecia mais do que uma leve culpa.


— Mas você disse que Ethan estava morto — disse Bonnie.
Ela sentiu Meredith se encolher ao lado dela e mordeu a língua. É claro que Meredith ficaria sensível com a possível sobrevivência de Ethan; ela o matara, ou pensou ter matado. A expressão de Meredith era dura e comedida, nada revelava.
— Eu devia ter cortado a cabeça para ter certeza — disse Meredith, passando a lanterna de um lado a outro para iluminar as paredes de pedra do túnel.
Bonnie assentiu, percebendo algo que devia ter imaginado: Meredith estava furiosa.
O telefonema de Meredith alertando Bonnie para o desaparecimento de Ethan chegou quando Bonnie e Zander estavam até tarde num jantar no centro acadêmico. Era um encontro meigo e tranquilo: hambúrgueres, Coca-Cola e Zander, que suavemente prendia debaixo da mesa seus pés entre os dele, muito maiores, enquanto roubava furtivamente sua batata frita.
E agora aqui estavam ela e Zander, procurando por vampiros nos túneis subterrâneos secretos sob o campus, com Meredith e Matt. Elena e Stefan faziam a mesma coisa no bosque em torno do campus. Não era o mais romântico dos encontros de vamos-reatar, pensou Bonnie resignada. Mas dizem que é bom os casais terem os mesmos hobbies.
Matt, andando do outro lado de Meredith, parecia inflexivelmente decidido, com o queixo cerrado e os olhos fixos no longo túnel escuro. Bonnie teve pena dele. Toda a tensão dos outros parecia cem vezes pior em Matt.
— Você está conosco, Matt? — perguntou Meredith, aparentemente lendo os pensamentos de Bonnie.
Matt suspirou e massageou a nuca, como se os músculos estivessem tensos e rígidos.
— Sim, estou com vocês. — Ele parou e respirou fundo. — É que... — Ele se interrompeu e recomeçou: — É que talvez possamos ajudar alguns deles, não é? Stefan podia ensiná-los a ser um vampiro que não machuca as pessoas. Até Damon mudou, não mudou? E Chloe... — Seu rosto estava corado de emoção. — Nenhum deles merecia isso. Eles não sabiam no que estavam se metendo.
— Não — respondeu Meredith, tocando com delicadeza o cotovelo de Matt. — Eles não sabiam.
Bonnie sabia que Matt era amigo da aluna do segundo ano de rosto meigo, Chloe, mas começava a entender que ele sentia muito mais do que transparecia. Devia ser terrível saber que Meredith teve de enfiar o bastão no peito de alguém por quem ele se apaixonara, e, muito pior, saber que foi a coisa certa a ser feita.
Zander tinha uma expressão branda, e Bonnie percebeu que ele estava pensando a mesma coisa. Ele pegou sua mão, os dedos longos e fortes envolvendo os dela, e Bonnie se aconchegou nele.
Mas, quando faziam uma curva escura no túnel, Zander de repente soltou o mão de Bonnie e se colocou à frente dela, protegendo-a, enquanto Meredith erguia o bastão. Bonnie, um segundo atrasada em relação aos outros, só viu as duas figuras enlaçadas na parede quando já estavam se separando. Não, não enlaçadas como amantes, percebeu, mas um vampiro grudado em sua vítima. Matt enrijeceu o corpo, encarando-os, e soltou um leve e involuntário ruído de surpresa. Houve um súbito rangido e um brilho de dentes brancos no escuro enquanto a vampira, um menina sequer mais alta do que a própria Bonnie, afastava violentamente sua vítima. Ele caiu no chão aos pés dela.
Bonnie contornou Zander, mantendo o olhar atento na vampira, que agora se encolhia na parede. Ela se retraiu involuntariamente diante do olhar bestial e feroz da vampira, que voltava os olhos escuros fixamente para ela, mas continuou até se ajoelhar ao lado da vítima e verificar sua pulsação. Estava regular, mas ele sangrava muito, e Bonnie tirou o casaco, pressionando-o no pescoço dele para estancar o sangramento. Suas mãos tremiam e ela se concentrou em firmá-las, em fazer o que era necessário. Por baixo das pálpebras do jovem, podia ver seus olhos se movendo rapidamente de um lado a outro, como se vivesse um pesadelo, mas ele permanecia inconsciente.
A menina — a vampira, Bonnie lembrou a si mesma — agora vigiava Meredith, o corpo tenso para a luta ou a fuga. Ela se encolheu quando Meredith se aproximou um passo, bloqueando sua passagem. Meredith ergueu o bastão ainda mais, apontando para o peito da garota.
— Espere — disse a menina com a voz rouca, estendendo as mãos. Olhou além de Meredith e pareceu ver Matt pela primeira vez. — Matt — disse ela. — Me ajude. Por favor.
Ela o encarava, visivelmente se concentrando, e Bonnie percebeu com um sobressalto que a vampira tentava usar o Poder para fazer com que Matt obedecesse. Mas não estava funcionando — ela ainda não devia ter força suficiente —, e depois de um instante seus olhos rolaram para trás e ela caiu contra a parede.
— Beth, queremos lhe dar uma chance — disse Matt à vampira. — Sabe o que aconteceu com Ethan?
A menina balançou a cabeça de forma enfática, o cabelo comprido esvoaçando. Seu olhar vacilava entre Meredith e o túnel a suas costas, e ela furtivamente deu um passo para o lado. Meredith a seguiu, aproximando-se ainda mais, mirando o bastão no peito da vampira.
— Não podemos simplesmente matá-la — disse Matt a Meredith, com um leve desespero na voz. — Não se houver alternativa. — Meredith bufou de incredulidade e se aproximou ainda mais da vampira, Beth, como Matt a chamou, que arreganhou os dentes num rosnado silencioso.
— Espere um segundo — Zander passou por cima do corpo inconsciente da vítima de Beth, roçando em Bonnie.
Antes que Bonnie realmente entendesse o que estava acontecendo, Zander afastou Beth de Meredith e a pressionou contra a parede do túnel.
— Ei! — disse Meredith com raiva, e franziu o cenho, confusa.
Zander olhava intensamente nos olhos de Beth, a expressão séria e calma. Ela o encarava, os olhos inquietos agora imóveis, a respiração pesada.
— Sabe onde Ethan está? — perguntou Zander num tom calmo e baixo, e parecia a Bonnie que alguma coisa, um golpe invisível de Poder, fluía entre eles.
Num segundo, o rosto cauteloso de Beth perdeu toda expressão.
— Está no esconderijo no final dos túneis — disse ela. Sua voz parecia semiadormecida, desligada do raciocínio.
— Tem outros vampiros com ele? — Zander mantinha os olhos fixos nos dela.
— Sim — disse Beth. — Todos vão ficar lá até o equinócio, quando os desejos de Ethan serão realizados.
Dois dias, pensou Bonnie. Os outros disseram que Ethan planejava ressuscitar Klaus, o vampiro Original. Ela estremeceu ao pensar nisso. Klaus era apavorante, uma das coisas mais assustadoras que ela viu na vida. Mas como poderiam fazer isso? Ethan não conseguiu o sangue de Stefan e Damon, não podia fazer o feitiço da ressurreição sem ele. Ou podia?
— Pergunte a ela como estão as defesas deles — disse Meredith, acompanhando o esquema.
— Eles estão bem protegidos? — perguntou Zander.
A cabeça de Beth se sacudiu, assentindo rigidamente, como se um titereiro invisível tivesse puxado as cordinhas.
— Ninguém pode encontrá-lo — disse ela na mesma voz monótona e sonolenta. — Ele está escondido e todos daríamos a vida para protegê-lo.
Meredith assentiu, claramente pesando as palavras de sua próxima pergunta, mas Matt se intrometeu.
— Podemos salvá-la? — perguntou ele, e a dor em sua voz fez Bonnie se encolher. — Talvez, se ela não estivesse tão faminta...
Zander concentrou-se ainda mais em Beth, e Bonnie sentiu novamente uma onda de Poder emanando dele.
— Quer machucar as pessoas, Beth? — perguntou ele em voz baixa.
Beth riu, um ruído sombrio e profundo, embora sua expressão continuasse branda. Esse riso foi a primeira emoção que demonstrou desde que, de algum modo, Zander a enfeitiçou para dizer a verdade.
— Não quero machucar... Quero matar — disse ela em um tom de quem estava realmente se divertindo. — Nunca me senti tão viva.
Zander recuou um passo com uma elegância animal e veloz. No mesmo instante, Meredith avançou, cravando o bastão no coração de Beth.
Depois do ruído dilacerante da madeira atravessando a carne, Beth caiu num silêncio que foi rompido pelo arquejar de Matt, um ruído dolorido e sobressaltado. Aos joelhos de Bonnie, a vítima de Beth se mexeu, a cabeça virando de um lado para o outro. Bonnie automaticamente o afagou de forma tranquilizadora com a mão que não pressionava o ferimento no pescoço.
— Está tudo bem — disse ela em voz baixa.
Meredith se voltou para Matt de forma desafiadora.
— Tive de fazer isso — disse ela.
Matt baixou a cabeça, arriando os ombros.
— Eu sei — respondeu. — Acredite em mim, eu sei. É só que... — Ele se remexia de um pé a outro. — Antes de isso acontecer, ela era uma garota legal.
— Eu lamento — disse Meredith em voz baixa, e Matt assentiu, ainda olhando para o chão. Depois se virou para Zander. — O que foi aquilo? Como conseguiu fazê-la falar?
Zander corou um pouco.
— Hmmm. Bom — ele ergueu e baixou um ombro, meio sem graça. — É uma coisa que alguns de nós, lobisomens Originais, podemos fazer, se praticarmos. Podemos obrigar as pessoas a dizer a verdade. Não funciona com todo mundo, mas achei que valia a pena tentar.
Bonnie o encarava com uma expressão confusa.
— Você não me contou isso.
Zander se ajoelhou e ficou de frente para ela, tendo entre os dois a vítima inconsciente de Beth. Seus olhos estavam bem abertos e pareciam sinceros.
— Desculpe. Sinceramente, não pensei nisso. É uma das coisinhas estranhas que podemos fazer.
O sangramento do garoto inconsciente parecia ter se reduzido, e Bonnie se sentou nos calcanhares. Zander ergueu as sobrancelhas, esperançoso, e ela sorriu. Precisava descobrir o que eram essas —coisinhas—, pensou ela.
— Parece uma coisa que pode ser muito útil — disse ela, e viu a expressão de Zander relaxar num sorriso alegre e radiante.
Meredith limpou a garganta. Ainda olhava para Matt, a expressão repleta de compaixão, mas o tom de voz seco.
— Precisamos reunir a todos assim que possível. Se Ethan ainda vai tentar ressuscitar Klaus, temos de pensar num plano agora.
Klaus. A pedra abaixo dos joelhos de Bonnie de repente ficou congelante. Klaus representava trevas, violência e medo. Eles o derrotaram em Fell’s Church apenas porque houve uma intervenção extraordinária: os fantasmas de Fell’s Church se ergueram contra ele. Não era algo que conseguiriam recriar. O que poderiam fazer dessa vez? Bonnie fechou os olhos por um segundo, zonza. Conseguia imaginar nitidamente a escuridão se erguendo abaixo deles, densa e sufocante, ansiosa para consumi-los. Algo maligno estava por vir.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!