10 de abril de 2019

Capítulo 2 - Águas quedas

Cristina estava parada, desanimada, na cozinha extremamente limpa da casa do canal em Princewater Street, e desejava que houvesse alguma coisa para ela arrumar. Já tinha lavado pratos que não estavam sujos. Esfregara o soalho e pusera a mesa várias vezes. Arrumara flores num vaso e logo em seguida as jogara fora, para então recuperá-las da lixeira e arrumá-las mais uma vez. Queria deixar a cozinha agradável, a casa aconchegante, mas será que alguém ia mesmo se importar se a cozinha estivesse limpa e a casa arrumada?
Ela sabia que não. Mas tinha que achar ocupação. Queria ficar com Emma e consolá-la, mas Emma estava com Drusilla, que tinha chorado até dormir, segurando as mãos dela. Ela queria ficar com Mark e consolá-lo também, mas ele tinha saído com Helen, e ela deveria ao menos ficar feliz por ele finalmente estar conseguindo passar algum tempo com a irmã de quem sentira tanta saudade.
A porta da frente rangeu quando aberta, assustando Cristina e fazendo com que derrubasse um prato da mesa, que caiu no chão e se espatifou. Ela estava prestes a catar tudo quando viu Julian entrando e fechando a porta — em Idris, símbolos para trancar as portas eram mais comuns do que chaves, mas ele não pegou sua estela, apenas encarou da entrada a escadaria com a expressão vazia.
Cristina ficou de pé, imóvel. Julian parecia um fantasma de alguma peça de Shakespeare. Dava para ver que não tinha trocado de roupa desde o Salão do Conselho porque a camiseta e o casaco estavam duros com sangue seco. De qualquer forma, ela nunca sabia como conversar com Julian; graças a Emma, sabia mais a respeito dele do que seria adequado. Sabia que ele estava desesperadamente apaixonado por sua amiga; era óbvio pelo jeito como ele olhava para Emma, pelo jeito como conversava com ela, em gestos sutis como quando lhe entregava um prato do outro lado da mesa. Cristina não sabia como os outros não enxergavam isso também. Ela já havia conhecido outros parabatai e eles não se olhavam daquele jeito. Saber tantas informações pessoais a respeito de alguém era esquisito, na melhor das hipóteses. Mas esta não era a melhor das hipóteses.
A expressão de Julian estava vazia; ele seguiu para o corredor, e enquanto caminhava, o sangue seco de sua irmã descascava do casaco e flutuava até o chão.
Se ficasse bem quietinha, pensou Cristina, talvez ele não a visse, talvez seguisse para o andar de cima e assim ambos se poupariam de um momento de constrangimento.
Mas mesmo enquanto pensava nisso, a expressão sombria dele lhe dava pontadas no coração. Antes de se dar conta, ela já estava à porta de entrada.
— Julian — falou baixinho.
Ele não pareceu assustado. Virou o rosto para ela tão lentamente quanto um autômato que vai perdendo a corda.
— Como estão todos?
Como responder a algo assim?
— Estão sendo bem cuidados — falou ela finalmente. — Helen, Diana e Mark estiveram aqui.
— Ty...
— Ainda dormindo. — Nervosa, ela começou a repuxar a saia. Depois do Salão do Conselho, tinha trocado de roupa, apenas para se sentir limpa.
Pela primeira vez, ele a encarou. Olhos vermelhos, mas ela não se lembrava de tê-lo visto chorando. Ou talvez ele tivesse chorado enquanto estivera abraçado a Livvy — ela não queria se lembrar daquilo.
— Emma — falou ele. — Ela está bem? Você saberia. Ela teria... contado para você.
— Ela está com Drusilla. Mas tenho certeza de que ela gostaria de ver você.
— Mas ela está bem?
— Não — falou Cristina. — Como poderia estar?
Ele lançou um olhar para os degraus, como se não fosse capaz de imaginar o esforço necessário para subir.
— Robert ia nos ajudar — falou. — Ele ia ajudar Emma, e a mim. Você sabe sobre a gente, eu sei que sim, que você sabe o que nós dois sentimos um pelo outro.
Cristina hesitou, espantada. Jamais pensou que Julian fosse tocar no assunto com ela.
— Talvez o próximo Inquisidor...
— Eu passei pelo Gard no trajeto de volta — falou Julian. — Eles já estavam se reunindo. A maior parte da Tropa e metade do Conselho. Estavam discutindo quem seria o novo Inquisidor. Duvido que seja alguém que vá nos ajudar. Não depois do que aconteceu hoje. Eu deveria me importar — concluiu ele. — Mas neste momento não me importo.
Uma porta foi aberta no alto da escadaria e a luz invadiu o patamar escuro.
— Julian? — chamou Emma. — Julian, é você?
Ele se aprumou um pouco, inconscientemente, ao ouvir a voz dela.
— Já vou aí.
Sem olhar para Cristina enquanto subia os degraus, ele meneou a cabeça, num gesto breve de agradecimento.
Ela ouviu os passos até desaparecerem e a voz de Julian se misturando à de Emma. Cristina olhou de novo para a cozinha. O prato quebrado estava num canto. Ela bem que poderia varrer os cacos. Seria a coisa mais lógica a se fazer, e Cristina sempre se considerara uma pessoa lógica.
Um instante depois, ela vestia o casaco do uniforme por cima das roupas. Enfiando algumas lâminas serafim no cinto de armas, passou sorrateiramente pela porta e saiu para as ruas de Alicante.


Emma ouviu o som familiar de Julian subindo os degraus. Os passos dele eram como uma melodia conhecida desde sempre, tão familiar que quase deixara de ser música. Emma resistiu a chamar de novo — estava no quarto de Dru, que tinha acabado de pegar no sono, esgotada, ainda vestindo as roupas da reunião do Conselho. Daí ouviu os passos de Julian no corredor, e então o som de uma porta sendo aberta e fechada.
Com cuidado para não acordar Dru, ela se esgueirou para fora do quarto. Não precisou pensar muito para supor onde Julian estaria: ao final do corredor, a algumas portas, ficava o quarto emprestado a Ty.
O cômodo estava à meia-luz. Diana estava sentada numa poltrona, próxima à cabeceira da cama de Ty, e seu rosto estava tenso devido à tristeza e ao cansaço. Kit adormecera, apoiado na parede, as mãos no colo.
Julian parou perto da cama do irmão, observando-o, as mãos junto às laterais do corpo. Ty dormia a sono solto, nitidamente dopado, e os cabelos escuros contrastavam com os travesseiros brancos. Mesmo assim, mesmo dormindo, ele ficava mais do lado esquerdo da cama, como se estivesse reservando espaço para Livvy.
— ... as bochechas dele estão coradas — estava dizendo Julian. — Como se ele tivesse febre.
— Não tem febre — respondeu Diana firmemente. — Ele precisa disso, Jules. O sono cura.
Emma viu a dúvida estampada no rosto de Julian. E sabia o que ele estava pensando: O sono não me curou quando minha mãe morreu, nem quando meu pai morreu, e não vai curar isso também. Sempre haverá uma ferida.
Diana olhou para Emma.
— E Dru? — perguntou.
Julian levantou a cabeça ao ouvir a pergunta e seus olhos encontraram os de Emma. Ela sentiu a dor no olhar dele como um soco no peito. De repente, estava difícil respirar.
— Dormindo — falou, quase num sussurro. — Demorou um pouco até ela finalmente apagar.
— Eu estava na Cidade do Silêncio — esclareceu ele. — Levamos Livvy até lá. Eu os ajudei a preparar o corpo.
Diana esticou a mão e a pousou no braço dele.
— Jules — falou baixinho. — Você precisa tomar um banho e descansar.
— Eu tenho que ficar aqui — retrucou Julian com voz baixa. — Se Ty acordar e eu não estiver aqui...
— Ele não vai acordar — insistiu Diana. — Os Irmãos do Silêncio são precisos com suas doses.
— Julian, se ele acordar e você estiver parado aqui coberto com o sangue de Livvy, não vai ajudar — falou Emma.
Diana a encarou, evidentemente surpresa ante a dureza das palavras, mas Julian piscou como se estivesse acordando de um sonho.
Emma estendeu a mão para ele.
— Venha comigo — falou.


O céu era uma mistura de preto com azul-escuro, onde ao longe, acima das montanhas, nuvens de tempestade se reuniam. Felizmente, o caminho até o Gard era iluminado por tochas de luz enfeitiçada. Cristina se esgueirava ao lado da trilha, mantendo-se nas sombras. O ar trazia o cheiro da tempestade que se aproximava e a fazia pensar no cheiro cuproso de sangue.
Quando chegou às portas principais do Gard, elas se abriram e um grupo de Irmãos do Silêncio emergiu. As vestes cor de mármore brilhavam com o que parecia ser gotas de chuva.
Cristina grudou as costas no muro. Não estava fazendo nada errado —qualquer Caçador de Sombras podia ir ao Gard quando quisesse —, mas, instintivamente, não queria ser vista. Quando os Irmãos passaram, ela viu que, afinal de contas, não era a chuva que reluzia em seus trajes, mas uma poeira fina de vidro. Provavelmente eles estiveram no Salão do Conselho. Ela se lembrava da janela se estilhaçando lá dentro quando Annabel desaparecera num borrão de ruído e estilhaços de luz: Cristina ficara concentrada nos Blackthorn. E na expressão de desespero de Emma. Em Mark, com o corpo curvado para a frente, como se estivesse absorvendo o golpe de um soco.
Ali dentro, o Gard estava silencioso. Com a cabeça abaixada, Cristina passou rapidamente pelos corredores, seguindo os sons das vozes em direção ao Salão. Mudou de direção e foi para a escadaria, e de lá, até os bancos do segundo andar, que se projetavam sobre o restante do recinto como um camarote de teatro.
Havia uma multidão de Nephilim ao redor da plataforma do trono lá embaixo. Alguém (os Irmãos do Silêncio?) tinha limpado o sangue e os cacos de vidro. A janela voltara ao normal.
Podem apagar todas as evidências, pensou Cristina, e se ajoelhou para examinar por cima do parapeito do camarote. Ainda assim aconteceu.
Dali ela conseguia ver Horace Dearborn, sentado numa banqueta alta. Ele era um sujeito grande e esbelto, mas não era musculoso, embora tivesse braços e pescoço marcados pelos tendões. A filha dele, Zara Dearborn — com os cabelos trançados ao redor da cabeça e o uniforme imaculado — estava de pé atrás dele. Ela não se parecia muito com o pai, exceto, talvez, na raiva tensa de suas expressões e na paixão pela Tropa, uma facção dentro da Clave que acreditava no privilégio dos Caçadores de Sombras em relação aos integrantes do Submundo, mesmo quando isso violava a Lei.
Agrupados ao redor deles, viam-se outros Caçadores de Sombras, jovens e idosos. Cristina reconheceu uns poucos Centuriões: Manuel Casales Villalobos, Jessica Beausejours e Samantha Larkspear entre eles, além de muitos outros Nephilim que tinham levado cartazes da Tropa para a reunião.
Havia outros, porém, que até onde ela sabia, não eram membros da Tropa. Lazlo Balogh, o enrugado diretor do Instituto de Budapeste, que fora um dos principais arquitetos da Paz Fria e de suas respectivas medidas punitivas contra os integrantes do Submundo. Josiane Pontmercy, que ela conhecia do Instituto de Marselha. Delaney Scarsbury, que lecionava na Academia. Alguns outros, ela reconhecia como amigos de sua mãe: Trini Castel, do Conclave de Barcelona, e Luana Carvalho, que dirigia o Instituto de São Paulo; ambos a conheceram quando ela era pequena. Todos eram membros do Conselho.
Cristina fez uma prece silenciosa e agradeceu por sua mãe não estar aqui, por estar muito ocupada lidando com o surgimento de demônios Halphas na Alameda Central para comparecer, tendo assim incumbido Diego de representar os interesses dela.
— Não há tempo a perder — falou Horace. Era evidente nele a intensidade desprovida de humor, tal como sua filha. — Estamos sem um inquisidor neste momento, num momento crítico, em que estamos sob ameaça de dentro e de fora da Clave. — Ele olhou ao redor do salão. — Temos esperança de que, após os acontecimentos de hoje, aqueles que duvidaram de nossa causa passem a acreditar nela.
Cristina sentiu um arrepio. Isso era mais do que apenas uma reunião da Tropa. Era um recrutamento. No interior do Salão do Conselho vazio, onde Livvy tinha morrido. Ela sentiu náuseas.
— O que você acha que descobriu exatamente, Horace? — perguntou uma mulher com sotaque australiano. — Fale claramente para que todos nós compreendamos a mesma coisa.
Ele esboçou um sorriso.
— Andrea Sedgewick — falou. — Você foi a favor da Paz Fria, se me lembro bem.
A mulher pareceu tensa.
— Não tenho grande consideração pelos integrantes do Submundo. Mas o que aconteceu aqui hoje...
— Nós fomos atacados — falou Dearborn. — Traídos, atacados, por dentro e por fora. Tenho certeza de que todos vocês viram o que eu vi: o símbolo da Corte Unseelie?
Cristina se lembrava. Quando Annabel desaparecera, como se tivesse sido carregada por mãos invisíveis através da janela estilhaçada do Salão, uma única imagem lampejara no ar: uma coroa quebrada.
A multidão murmurou em concordância. O medo pairava como um miasma. Era evidente que Dearborn apreciava aquilo, quase lambendo os lábios enquanto examinava o salão.
— O Rei Unseelie atacou o coração do nosso lar. Ele desdenha da Paz Fria. Sabe que somos fracos. Ri da nossa incapacidade de aprovar Leis mais rigorosas, de fazer alguma coisa realmente capaz de controlar o povo fada...
— Ninguém consegue controlar o povo fada — retrucou Scarsbury.
— Foi justamente essa postura que enfraqueceu a Clave durante todos esses anos — interrompeu Zara. Seu pai sorriu com indulgência.
— Minha filha está certa — falou ele. — O povo fada tem fraquezas, como todos do Submundo. Eles não foram criados por Deus nem pelo nosso Anjo. Eles têm falhas, que nós nunca exploramos, mas mesmo assim, eles exploram nossa misericórdia e zombam de nós.
— O que você está sugerindo? — perguntou Trini. — Um muro para cercar o Reino das Fadas?
Ouviram-se algumas risadas irônicas. O reino existia em todo lugar e em lugar nenhum: era outro plano de existência. Ninguém seria capaz de erguer muros em sua volta.
Horace semicerrou os olhos.
— Vocês riem — falou ele — mas portões de ferro em todas as entradas e saídas do Reino das Fadas seriam de grande ajuda para evitar suas incursões em nosso mundo.
— É esse o objetivo? — Manuel fez a pergunta preguiçosamente, como se não se importasse com a resposta. — Isolar o Reino das Fadas?
— Como você bem sabe, garoto, não é um objetivo único — falou Dearborn. De repente, ele sorriu, como se tivesse acabado de lhe ocorrer uma ideia. — Você sabe sobre a praga, Manuel. Talvez devesse compartilhar seu conhecimento, já que a Consulesa não o fez. Talvez esses bons camaradas aqui devessem tomar conhecimento do que acontece quando as portas entre o Reino das Fadas e o mundo são escancaradas.
Segurando o colar, Cristina fervilhava de raiva enquanto Manuel descrevia os trechos de terra morta por causa da praga, na Floresta Brocelind, o modo como resistiram à magia dos Caçadores de Sombras, o fato de que parecia haver a mesma praga nas Terras Unseelie do Reino das Fadas. Como ele sabia disso? Cristina agonizava em silêncio. Era isso que Kieran pretendia dizer ao Conselho, mas não tivera chance. Como Manuel sabia?
Ela simplesmente estava grata por Diego ter feito o que ela lhe pedira, levando Kieran para a Scholomance. Era evidente que não teria sido seguro uma fada de puro sangue permanecer ali.
— O Rei Unseelie está desenvolvendo um veneno e começando a espalhá-lo em nosso mundo... um veneno que tornará os Caçadores de Sombras impotentes contra ele. Temos que tomar providências agora e mostrar nossa força — falou Zara, interrompendo Manuel antes que ele terminasse.
— Do mesmo jeito que vocês fizeram com Malcolm? — perguntou Lazlo.
Ouviram-se risadinhas, e Zara corou. Ela costumava afirmar com orgulho que matara Malcolm Fade, um poderoso feiticeiro, embora mais tarde tivessem descoberto sua mentira. Cristina e os outros tinham esperança de que esse fato servisse para acabar com a credibilidade de Zara, mas agora, depois de tudo o que acontecera com Annabel, a mentira de Zara se tornara pouco mais do que uma piada. Dearborn se pôs de pé.
— Esse não é o problema agora, Balogh. Os Blackthorn têm sangue fada na família. Eles trouxeram uma criatura... uma coisa semimorta necromântica que matou o nosso Inquisidor e encheu o Salão de sangue e terror... diretamente para Alicante.
— A irmã deles também foi morta — interveio Luana. — Nós presenciamos a tristeza deles. Eles não planejaram o que aconteceu.
Cristina conseguia enxergar os cálculos na mente de Dearborn — ele teria gostado de pôr a culpa na família Blackthorn e de vê-los todos jogados nas prisões da Cidade do Silêncio, mas a visão de Julian abraçando o cadáver da irmã foi forte e visceral demais até mesmo para a própria Tropa ignorar.
— Eles também são vítimas — emendou ele — do príncipe do Povo das Fadas no qual confiaram, e possivelmente dos próprios irmãos fada. Talvez eles possam ser persuadidos a enxergar um ponto de vista razoável. Afinal de contas, são Caçadores de Sombras, e é disso que se trata a Tropa... de proteger os Caçadores de Sombras. De proteger os nossos. — Ele pôs uma das mãos no ombro de Zara. — Quando a Espada Mortal for restaurada, tenho certeza de que Zara ficará feliz em acabar com quaisquer dúvidas que vocês ainda tiverem sobre os feitos dela.
Zara corou e assentiu.
Cristina teve a impressão de flagrar um sentimento de culpa ali, mas o restante da multidão se distraíra à menção da Espada.
— A Espada Mortal vai ser restaurada? — perguntou Trini. Ela acreditava firmemente no Anjo e em seu poder, assim como a família de Cristina. Mas agora parecia ansiosa, e as mãos magras não paravam de se remexer no colo. — Nosso vínculo insubstituível com o Anjo Raziel... você acredita que ela será devolvida para nós?
— Ela será restaurada — falou Dearborn suavemente. — Amanhã Jia vai encontrar os Irmãos do Silêncio. Se foi forjada uma vez, pode ser forjada novamente.
— Mas ela foi forjada no Céu — protestou Trini. — Não na Cidadela Adamant.
— E o Céu permitiu que ela fosse destruída — falou Dearborn, e Cristina sufocou um arquejo. Como ele podia afirmar uma coisa tão descarada? E mesmo assim era evidente que os outros confiavam nele. — Nada é capaz de destruir a Espada Mortal, a não ser a vontade de Raziel. Ele nos contemplou e viu que éramos indignos. Ele viu que nos afastamos de sua mensagem, de nosso louvor aos anjos e, em vez disso, estávamos servindo aos integrantes do Submundo. Ele quebrou a espada para nos advertir. — Os olhos dele brilharam com uma luz fanática. — Se nos provarmos dignos novamente, Raziel permitirá que a espada seja forjada mais uma vez. Não duvido disso.
Como ele ousa falar em nome de Raziel? Como ousa falar como se fosse Deus?
Cristina estremecia de raiva, mas os outros pareciam olhar para Dearborn como se ele lhes tivesse oferecido uma luz na escuridão. Como se fosse sua única esperança.
— E como nos provaremos dignos? — quis saber Balogh, numa voz mais sombria.
— Temos que nos lembrar de que os Caçadores de Sombras são os eleitos — falou Horace. — Temos que nos lembrar de que temos um mandato. Somos os primeiros a enfrentar a face do mal, portanto, estamos em primeiro lugar. Que o Submundo tome conta de si mesmo. Se trabalharmos juntos, com uma liderança forte...
— Mas nós não temos uma liderança forte — falou Jessica Beausejours, uma Centuriã amiga de Zara. — Nós temos Jia Penhallow, e ela está contaminada pela associação da filha a fadas e mestiços.
Alguém arfou e ouviu-se uma risadinha. Todos os olhos se viraram para Horace, mas ele simplesmente balançou a cabeça.
— Não direi uma única palavra contra a nossa Consulesa — falou solenemente.
Mais murmúrios. Dava para ver que a falsa lealdade de Horace conquistara algum apoio. Cristina se esforçava para não ranger os dentes.
— A lealdade dela à família é compreensível, mesmo que isso talvez a tenha cegado — falou Horace. — O que importa agora é que a Clave aprove as Leis. Temos que determinar regulamentos rigorosos em relação ao Submundo, e mais rigorosos ainda em relação ao Povo das Fadas... pois não há justiça neles.
— Isso não vai deter o Rei Unseelie — observou Jessica, embora Cristina tivesse a sensação de que, mais do que duvidar de Horace, ela queria ver até onde ele era capaz de ir.
— A questão é evitar que as fadas e outros integrantes do Submundo se unam à causa do Rei — explicou Horace. — É por isso que eles devem ser vigia-dos e, se necessário, encarcerados antes que tenham uma chance de nos trair.
— Encarcerados? — ecoou Trini. — Mas como...?
— Ah, existem várias maneiras — falou Horace. — A Ilha Wrangel, por exemplo, poderia abrigar uma multidão de integrantes do Submundo. O importante é começar com controle. Cumprimento dos Acordos. Registro de cada membro do Submundo, com nome e local. Sem dúvida, nós começaríamos com as fadas.
Ouviu-se um burburinho de aprovação.
— Claro que vamos precisar de um Inquisidor forte, que aprove e faça cumprir a legislação — falou Horace.
— Então que seja você! — gritou Trini. — Hoje nós perdemos uma Espada Mortal e um Inquisidor; pelo menos, podemos substituir um deles. Nós temos quórum: há Caçadores de Sombras suficientes aqui para eleger Horace Inquisidor. Podemos realizar uma votação amanhã cedo. Quem está comigo?
Gritos de "Dearborn! Dearborn!" encheram o recinto. Cristina se segurou na grade do camarote, com os ouvidos zunindo.
Isso não podia estar acontecendo. Não podia. Trini não era assim. Os amigos de sua mãe não eram assim. Essa não podia ser a verdadeira cara do Conselho.
Ela ficou de pé com dificuldade, incapaz de suportar mais um segundo daquilo, e aí saiu correndo da galeria.


O quarto de Emma era pequeno e pintado num tom de amarelo estranhamente forte. Uma cama pintada de branco, com dossel, dominava o espaço. Emma empurrou Julian na direção da cama, sentando-o gentilmente, e correu para fechar a porta.
— Por que você está trancando? — Julian ergueu a cabeça.
Foi a primeira coisa que disse desde que tinham deixado o quarto de Ty.
— Você precisa de um pouco de privacidade, Julian. — Ela se virou para ele; Deus, a sua aparência a estava deixando de coração partido. O sangue sarapintava a pele, escurecera as roupas, deixando-as rígidas, e secara em manchas nas botas. O sangue de Livvy.
Emma desejou ter estado mais próxima de Livvy nos últimos momentos, ter dado mais atenção a ela em vez de se preocupar com a Tropa, com Manuel, Zara e Jéssica, com Robert Lightwood e o exílio, e com seu coração confuso e partido. Desejou ter abraçado Livvy mais uma vez, se admirando de como ela havia crescido, de como aquele bebê gordinho de suas primeiras lembranças tinha mudado.
— Não — falou Julian rispidamente.
Emma se aproximou dele; não conseguia evitar. Ele teve que erguer o rosto e olhar bem nos olhos dela.
— Não o quê?
— Não se culpe — falou ele. — Dá pra perceber que você está pensando que devia ter feito alguma coisa diferente. Não posso deixar você pensar nisso ou vou ficar arrasado.
Ele estava sentado na beirada da cama, como se não suportasse a ideia de se deitar. Muito gentilmente, Emma tocou o rosto dele, passando a palma da mão pelo queixo. Ele estremeceu e segurou o pulso dela, com força.
— Emma — falou e, pela primeira vez na vida, ela não conseguia interpretar a voz dele, baixa e sombria, rouca por causa da raiva, desejosa de alguma coisa, mas Emma não sabia especificar o quê.
— O que eu posso fazer? — murmurou ela. — O que eu posso fazer, eu sou sua parabatai, Julian. Preciso te ajudar.
Ele ainda apertava o pulso dela; suas pupilas eram como discos, e o azul-esverdeado da íris se transformara num halo.
— Eu planejo por etapas, um passo de cada vez — falou ele. — Quando parece que as coisas vão me sufocar, eu me pergunto qual dos problemas tem que ser resolvido primeiro. Aí depois que ele é resolvido, eu passo para o seguinte. Mas aqui eu não consigo nem começar.
— Julian — falou Emma. — Eu sou sua parceira na guerra. Agora preste atenção. Esta é a primeira etapa. Levanta.
Ele semicerrou os olhos por um instante; em seguida, fez um esforço para se levantar. Eles estavam de pé, bem próximos; ela sentia a solidez e o calor emanando dele. E então Emma deslizou o casaco pelos ombros dele e puxou a frente da camiseta. Agora a textura era semelhante a oleado, grudenta por causa do sangue. Ela puxou o tecido e rasgou, deixando pender dos braços dele. Julian arregalou os olhos, mas não moveu um dedo para impedi-la. Ela rasgou a camisa e jogou os trapos no chão. Em seguida, se abaixou e tirou as botas ensanguentadas. Quando se levantou, Julian a encarava com as sobrancelhas erguidas.
— Você vai mesmo tirar a minha calça? — perguntou.
— Tem sangue nela — respondeu Emma, e quase engasgou com as palavras. Ela tocou o peito dele e sentiu quando ele inspirou. Imaginou poder sentir as bordas irregulares do coração debaixo dos músculos. Também havia sangue na pele: manchas secas no pescoço e nos ombros. Os locais em que ele apertara Livvy junto ao corpo. — Você precisa tomar um banho — falou. —Vou esperar aqui.
Ele tocou o queixo dela com as pontas dos dedos, de leve, e falou:
— Emma, nós dois precisamos de um banho.
Julian se virou e foi para o banheiro, deixando a porta escancarada. Depois de um instante, ela o seguiu. Ele havia deixado o restante das roupas numa pilha no soalho. E agora estava sob o chuveiro, de cueca, e deixava a água escorrer pelos cabelos e pelo rosto.
Engolindo em seco, Emma ficou só de calcinha e baby-doll, e entrou no chuveiro logo em seguida.
A água estava escaldante e o pequeno espaço de pedras era tomado pelo vapor. Julian permanecia imóvel debaixo do jato, deixando que sua pele ficasse rajada de vermelho-claro. Emma tateou em volta dele e abaixou a temperatura da água.
Julian ficou observando os gestos dela, sem dizer uma única palavra, enquanto ela pegava o sabonete e o esfregava nas mãos. Quando ela encostou as mãos ensaboadas no corpo de Julian, ele inspirou com força, como se tivesse doído, mas não se deslocou nem um centímetro. Ela esfregou a pele dele, quase cravando as unhas enquanto raspava o sangue. A água escorria pelo ralo num tom vermelho rosado.
O sabonete tinha um cheiro forte de limão. O corpo de Julian estava rijo sob o toque dela, cheio de cicatrizes e músculos e em nada se assemelhava ao corpo de um menino. Não mais. Quando é que ele havia mudado assim? Ela não conseguia se lembrar do dia, da hora, do instante.
Julian abaixou a cabeça e Emma ensaboou os cabelos dele, passando os dedos pelos cachos. Quando acabou, inclinou a cabeça dele para trás e deixou que a água caísse sobre os dois até sair límpida.
Ela estava ensopada e o baby-doll grudava no corpo. Esticou o braço ao redor de Julian para fechar o chuveiro e sentiu que ele virou a cabeça para o pescoço dela, os lábios colando em sua bochecha.
Emma congelou. O chuveiro estava fechado, mas o vapor pairava ao redor. O peito de Julian subia e descia rapidamente, como se ele estivesse a ponto de desmaiar depois de uma corrida. Soluços secos, percebeu ela. Mas ele não estava chorando — ela não conseguia se lembrar da última vez que o vira chorar. Ele precisava liberar as lágrimas, pensou, mas, depois de tantos anos engolindo o choro, não sabia mais como fazer.
Ela o abraçou.
— Está tudo bem — falou. A água ainda escorria deles, e a pele de Julian estava quente contra a dela. Emma engoliu o sal das próprias lágrimas. — Julian...
Ele recuou quando Emma levantou a cabeça, e os lábios dos dois roçaram — por um instante, desesperado, mais como um tropeçar na beirada de um abismo do que qualquer outra coisa. Suas bocas colidiram, dentes, línguas e calor, e o corpo de Emma estremeceu ao contato.
— Emma. — Ele parecia espantado, e suas mãos retorciam o tecido ensopado do baby-doll. — Será que eu posso...?
Ela fez que sim com a cabeça, sentindo os músculos enrijecerem quando ele a tomou nos braços. Ela fechou os olhos, se agarrando a ele, aos ombros, aos cabelos, com as mãos escorregadias por causa da água enquanto ele a levava para o quarto e a deitava na cama. Um segundo depois, ele estava acima dela, apoiado nos cotovelos, e sua boca a devorava febrilmente. Cada movimento era violento, frenético, e Emma sabia: havia lágrimas que ele não conseguia chorar, palavras de tristeza que ele não conseguia expressar. Esse era o único alívio que ele se permitia, na aniquilação do desejo compartilhado.
Gestos frenéticos tiraram as roupas molhadas. Agora Emma e Julian estavam pele contra pele. Ela o abraçava contra o corpo, de encontro ao coração. A mão dele foi descendo e dedos trêmulos dançaram sobre seu quadril. Posso... Ela sabia o que ele queria dizer: Posso te satisfazer primeiro, te dar prazer primeiro? Mas não era isso que ela queria, não agora.
— Vem mais pra perto — murmurou ela. — Mais perto...
As mãos de Emma agarraram os ombros dele. Julian beijou seu pescoço e a clavícula. Ela sentiu que ele estremeceu, intensamente, e murmurou:
— O que foi...?
Ele já tinha se afastado dela. Sentado, tateou por suas roupas e as ergueu com mãos trêmulas.
— Não podemos — falou com a voz abafada. — Emma, não podemos.
— Tudo bem... mas, Julian... — Ela fez um esforço para se sentar, puxando o cobertor para se cobrir. — Você não precisa ir...
Ele se inclinou na beirada da cama para pegar a camiseta ensanguentada e rasgada, e a encarou com uma certa brutalidade.
— Preciso sim — falou. — Preciso mesmo.
— Julian, não...
Mas ele já estava de pé, buscando o restante das roupas e recolhendo-as enquanto ela o encarava. Ele saiu sem calçar as botas, quase batendo a porta. Emma ficou mirando a escuridão, assustada e desorientada, como se tivesse despencado de uma grande altura.


Ty acordou subitamente, como alguém irrompendo a superfície da água, ansiando por ar. O barulho tirou Kit bruscamente de seu cochilo — um sono perturbado, sonhando com o pai, que caminhava pelo Mercado das Sombras com uma ferida imensa na barriga vertendo sangue.
— É assim que as coisas são, Kit — dissera ele. — É assim a vida com os Nephilim.
Ainda sonolento, Kit se impulsionou com uma das mãos para se levantar.
Ty era uma sombra imóvel na cama. Diana não estava mais ali — provavelmente fora tirar um cochilo no próprio quarto. Eles estavam a sós.
E lhe ocorreu que ele estava totalmente despreparado para tudo isso. Para a morte de Livvy, sim, embora tivesse presenciado a morte do próprio pai e soubesse que havia aspectos daquela perda que ainda não havia encarado. Nunca tendo lidado com aquela morte, como ele poderia lidar com esta? E se ele nunca soubera como ajudar a alguém, como oferecer tipos normais de consolo, como poderia ajudar Ty?
Ele queria gritar e chamar Julian, mas alguma coisa lhe dizia para não fazer isso — que os gritos poderiam assustar Ty.
Conforme os olhos de Kit se adaptavam à penumbra, ele conseguia vero menino mais claramente: Ty parecia... “desconectado" talvez fosse a melhor palavra para descrever, como se não tivesse pousado totalmente em terra firme. Os cabelos pretos e macios estavam desgrenhados, como linho escuro, e havia olheiras naquele rostinho.
— Jules? — chamou ele em voz baixa.
Kit fez um esforço para ficar totalmente ereto, o coração batendo descompassadamente.
— Sou eu. Kit — falou.
Já havia se preparado para a decepção de Ty, mas o menino simplesmente o encarou com os olhos grandes e cinzentos.
— Minha bolsa — falou. — Onde está? Ela está ali?
Kit se flagrou atordoado demais para falar. Será que Ty se lembrava do que tinha acontecido? O que seria pior: lembrar ou não?
— Minha bolsa de pano — insistiu Ty. Sem dúvida, havia tensão na voz agora. — Ali... eu preciso dela.
A bolsa estava debaixo da segunda cama. Enquanto Kit a pegava, deu uma olhada na paisagem: os pináculos de cristal das torres demoníacas se erguendo para o céu, a água reluzente como gelo nos canais, os muros da cidade e os campos mais além. Ele nunca tinha estado num lugar tão bonito e com aparência tão irreal.
Levou a bolsa de pano para Ty, que agora estava sentado, balançando as pernas, na lateral da cama.
O menino a pegou e começou a fuçar seu interior.
— Você quer que eu chame Julian? — perguntou Kit.
— Não agora — falou Ty.
Kit não tinha ideia do que fazer. Nunca, em toda a sua vida, sentira-se tão perdido, para falar a verdade. Nem quando tinha dez anos e se deparara com um golem examinando o sorvete na geladeira às quatro da manhã. Nem quando, lá pelos seus doze anos, uma sereia passara semanas acampando em seu sofá, e passava o dia devorando biscoitos em formato de peixinhos. Nem quando ele fora atacado por demônios Mantis. Na ocasião, tinha havido um instinto, um sentido de Caçador de Sombras que começara a funcionar e instigara seu corpo à ação.
Agora nada o estimulava. Ele estava dominado pelo desejo de se ajoelhar e pegar as mãos de Ty, de abraçá-lo do mesmo jeito que tinha feito no telhado, em Londres, quando Livvy fora ferida. Ao mesmo tempo, estava igualmente dominado pela voz em sua cabeça, que lhe dizia que seria uma ideia terrível, que ele não fazia ideia do que Ty precisava naquele momento.
Ty ainda remexia na bolsa. Provavelmente não se lembrava, pensou Kit com pânico crescente. Provavelmente tivera um apagão dos acontecimentos no Salão do Conselho. Kit não presenciara a morte de Robert e Livvy, mas ouvira o suficiente de Diana para saber o que o menino provavelmente testemunhara. Ele sabia que às vezes as pessoas se esqueciam das coisas terríveis porque a mente se recusava a processar ou guardar o que tinham visto.
— Vou chamar Helen — disse ele finalmente. — Ela pode contar... o que aconteceu...
— Eu sei o que aconteceu — falou Ty. Ele tinha localizado o celular no fundo da bolsa. A tensão deixou seu corpo e era evidente que sentia alívio.
Kit estava confuso. Não havia sinal em parte alguma de Idris; o telefone seria inútil.
— Vou voltar a dormir agora — concluiu Ty. — Ainda tem remédios no meu organismo. Sinto que tem. — Ele não parecia satisfeito.
— Você quer que eu fique aqui? — perguntou Kit.
Ty jogara a bolsa de pano no chão e voltara a se deitar nos travesseiros. Ele apertava o celular na mão direita com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos, mas não havia outros sinais de aflição.
Ele ergueu o rosto para Kit. Os olhos cinzentos estavam prateados soba luz da lua, tão planos quanto duas moedas. Kit não conseguia imaginar o que ele estava pensando.
— Sim, eu preferia que você ficasse — falou. — E pode ir dormir, se quiser. Vou ficar bem.
Aí fechou os olhos. Após um longo momento, Kit se sentou na cama oposta à de Ty, aquela que deveria ser de Livvy. Pensou na última vez que a vira sozinha, quando a ajudou com o colar, antes da grande reunião do Conselho, pensou no sorriso dela, na cor e vida de seu rosto. Parecia impossível que ela tivesse morrido. Talvez Ty não fosse o único agindo de modo estranho, afinal de contas — talvez o restante deles, ao aceitar o fato de que ela estava morta, é que não estivessem entendendo nada.


Era como se o quarto de Emma estivesse a cem quilômetros de distância do dele, pensou Julian. Mais, mil quilômetros. Ele seguia pelos corredores da casa do canal como se estivesse em um sonho. Seu ombro ardia e doía. Emma era a única pessoa que ele já tinha desejado, e a força daquele desejo algumas vezes o espantava. Nunca mais do que nesta noite. Ele tinha se perdido nela, neles, por alguma totalidade de tempo; sentira apenas o corpo e a parte de seu coração capaz de amar, e que ainda estava intacta. Emma representava todo o lado bom dele, pensou, tudo que ardia e brilhava.
Mas então viera a dor, e a sensação de que alguma coisa estava errada, e ele se dera conta. Agora enquanto corria de volta ao seu quarto, o medo martelava sua consciência, gritando para entrar e ser reconhecido, como mãos de esqueleto arranhando uma vidraça. Era o medo do próprio desespero. Que sabia que agora estava entorpecido pelo choque, que somente tinha tocado a ponta do iceberg da tristeza e da perda terrível. A escuridão e o horror iam chegar: ele já tinha vivido isso antes, com a morte do pai. E agora — com Livvy — seria pior.
Ele não conseguia controlar a própria tristeza. Não conseguia controlar seus sentimentos por Emma. Toda a sua vida tinha sido construída em torno de seu autocontrole, da máscara que ele exibia para o mundo, e agora ela estava rachando.
— Jules?
Ele havia chegado ao quarto, mas não estava sozinho. Mark o aguardava, encostado na porta. Parecia exausto, os cabelos e as roupas bagunçados. Não que Julian pudesse falar alguma coisa disso, com as próprias roupas rasgadas e ensanguentadas e os pés descalços.
Julian parou no mesmo instante.
— Está tudo bem?
Durante algum tempo, essa ia ser a pergunta padrão, pensou Julian. E nunca estaria bem de verdade, mas eles tranquilizariam uns aos outros mesmo assim, com as pequenas coisas, a medida das vitórias minúsculas: sim, Dru dormiu um pouco; sim, Ty está comendo um pouco; sim, todos ainda respiram.
Julian ouviu mecanicamente enquanto Mark explicava que ele e Helen tinham trazido Tavvy, e que o irmão caçula agora já sabia sobre Livia, e que não era bom, mas que estava tudo bem e Tavvy dormia.
— Eu não queria incomodar você no meio da noite — falou Mark —, mas Helen insistiu. Ela falou que se não fosse assim, a primeira coisa que você ia fazer quando acordasse seria surtar por causa de Tavvy.
— Claro — falou Julian, impressionado por Mark ter falado de modo tão coerente. — Obrigado por avisar.
Mark o fitou por um bom tempo.
— Você era muito pequeno quando sua mãe, Eleanor, morreu — falou ele. — Ela me disse uma vez que há um relógio no coração dos pais. Na maior parte do tempo, ele fica em silêncio, mas você pode ouvi-lo tiquetaqueando quando seu filho não está com você e você não sabe onde ele está, ou quando ele acorda à noite e quer sua presença. Ele vai tiquetaquear até você estar com ele de novo.
— Tavvy não é meu filho — falou Julian. — Não sou pai de ninguém.
Mark tocou na bochecha do irmão. Era um toque mais fada do que humano, embora a mão de Mark fosse quente, calejada e real. Na verdade, não parecia um toque, pensou Julian. Parecia uma benção.
— Você sabe que é — falou Mark. — Eu tenho que te pedir perdão, Julian. Contei a Helen sobre o seu sacrifício.
— Meu... sacrifício? — A mente de Julian esvaziou.
— Os anos em que você dirigiu o Instituto em segredo — falou Mark. — O modo como cuidou das crianças. O jeito como elas confiam em você e como você as amou. Eu sei que era segredo, mas achei que ela deveria saber.
— Sem problema — falou Julian. Não tinha importância. Nada tinha. — Ela ficou aborrecida?
Mark pareceu surpreso.
— Ela disse que sentiu tanto orgulho de você que isso lhe partiu o coração.
Era como um minúsculo ponto de luz atravessando a escuridão.
— Ela... disse?
Mark parecia prestes a responder quando um segundo dardo quente de dor atravessou o ombro de Julian. Ele conhecia o local exato da pontada. Seu coração acelerou; ele falou a Mark algo sobre vê-lo mais tarde ou, pelo menos, pensou ter falado, antes de entrar no quarto e trancar a porta.
Em segundos, estava no banheiro girando o brilho da luz enfeitiçada enquanto olhava no espelho. Ele puxou a gola da camiseta para o lado para examinar melhor — e ficou encarando.
Lá estava o símbolo de parabatai. Contrastando com a pele — mas não era preto mais. Dentro das linhas grossas ele via o que pareciam ser pontinhos vermelhos e brilhantes, como se a marca tivesse começado a queimar de dentro para fora.
Julian agarrou a beirada da pia quando uma onda de tontura o invadiu. Vinha se obrigando a não pensar no significado da morte de Robert, em seus planos de exílio interrompidos. Na maldição que atingiria os parabatai que se apaixonassem. Uma maldição de poder e destruição. Ele só vinha pensando no quanto precisava desesperadamente de Emma e nem um pouco nas razões pelas quais não poderia tê-la, que permaneciam as mesmas. Eles tinham se esquecido, buscando-se mutuamente no abismo da tristeza, como sempre fizeram durante toda a vida.
Mas isso não podia acontecer, dizia Julian para si, mordendo o lábio com força e provando do próprio sangue. Não poderia haver mais destruição.
Lá fora, tinha começado a chover. E dava para ouvir o tamborilar baixinho no telhado da casa. Julian se abaixou e rasgou uma tira de tecido da camiseta que havia usado na reunião do Conselho. Estava rígida e escura por causa do sangue seco de sua irmã. Ele a amarrou ao redor do pulso direito. Ficaria ali até sua vingança se completar. Até que houvesse justiça para Livvy. Até que toda essa bagunça ensanguentada estivesse limpa. Até que todos que ele amava estivessem em segurança.
Ele voltou para o quarto e começou a revirar suas coisas atrás de sapatos e roupas limpas. Sabia exatamente aonde precisava ir.


Julian corria pelas ruas vazias de Idris. A chuva quente de verão fazia seu cabelo grudar na testa e encharcava a camiseta e o casaco. Seu coração martelava: ele já sentia falta de Emma, lamentava ter ido embora. E ainda assim, não conseguia parar de correr, como se pudesse superar a dor da morte de Livvy.
Era quase uma surpresa o fato de ele ser capaz de chorar pela irmã e amar Emma ao mesmo tempo, sentir as duas coisas, sem que uma diminuísse a outra: Livvy também tinha amado Emma.
Ele supunha que Livvy teria ficado empolgadíssima se soubesse que ele e Emma estavam juntos; se o casamento entre eles fosse possível, Livvy teria ficado maluca de felicidade com a ideia de ajudara planejar uma cerimônia. O pensamento foi como uma facada em sua barriga, a lâmina girando em suas entranhas.
A chuva respingava nos canais e transformava o mundo em névoa e água. A casa do Inquisidor se projetava pelo nevoeiro como uma sombra, e Julian subiu correndo os degraus da frente com tal fervor que quase colidiu contra a porta da frente.
Bateu desesperadamente e Magnus abriu, parecendo aflito e incomumente pálido. Vestia uma camiseta preta e jeans, com um roupão de seda azul por cima. As mãos não ostentavam os anéis de sempre. Quando viu Julian, tombou um pouco contra o batente da porta. Não conseguiu se mexer ou falar, só ficou olhando, como se não estivesse olhando para Julian, mas para alguma outra coisa ou outra pessoa.
— Magnus — falou Julian, um pouco alarmado. Ele se lembrava que o feiticeiro não andava muito bem, mas quase se esquecera disso. Magnus sempre parecera o mesmo: eterno, imutável, invulnerável. — Eu...
— Estou aqui porque quero estar — falou Magnus, com voz baixa e distante. — Preciso da sua ajuda. E não tem mais ninguém a quem eu possa recorrer.
— Não foi isso que eu... — Julian afastou o cabelo encharcado dos olhos, e se calou ao se dar conta do que era. — Você está se lembrando de alguém.
Magnus pareceu se sacudir um pouco, como um cão emergindo do mar.
— Outra noite, um garoto diferente com olhos azuis. Tempo úmido em Londres, mas quando é que foi diferente disso?
Julian não pressionou.
— Você tem razão. Preciso da sua ajuda. E não tem mais ninguém a quem eu possa recorrer.
Magnus suspirou.
— Venha então. Todos estão dormindo, e isso é um feito, levando em consideração tudo o que aconteceu.
Claro, pensou Julian, acompanhando Magnus para uma sala de estar central. Aquela também era uma casa de luto.
O interior da casa era grande, com pé-direito alto e mobília que parecia pesada e cara. Robert acrescentara pouca coisa em termos de personalidade e decoração. Não havia fotos de família e eram poucos os quadros na parede com suas paisagens genéricas.
— Há muito tempo não via Alec chorar — comentou Magnus, afundando no sofá e fitando alguma coisa entre eles. Julian ficou parado, pingando no tapete. — Ou Isabelle. Entendo como é ter um pai cretino. Mesmo assim ele ainda é o seu cretino. E ele os amava, e tentou consertar seus erros. O que é mais do que eu posso dizer do meu pai. — Ele deu uma olhadela para Julian. — Espero que você não se importe se eu não usar um feitiço para secar você. Estou tentando conservar energia. Tem um cobertor naquela poltrona.
Julian ignorou o cobertor e a poltrona.
— Eu não deveria estar aqui — falou.
O olhar de Magnus baixou para o tecido ensanguentado em volta do pulso de Julian. Sua expressão suavizou.
— Está tudo bem — falou. — Pela primeira vez em um longo tempo eu estou me sentindo desesperado. Nessas horas, eu fico agressivo. Meu Alec perdeu o pai, e a Clave, um Inquisidor decente. Mas você, você perdeu a esperança de salvação. Não pense que não entendo isso.
— Minha marca começou a arder — falou Julian. — Hoje à noite. Como se tivesse sido desenhada na minha pele com fogo.
Magnus se inclinou para a frente e esfregou o rosto num gesto cansado. Rugas de dor e cansaço marcavam os cantos de sua boca. Os olhos estavam fundos.
— Eu bem que queria ter mais informações sobre isso — falou ele. — Que tipo de destruição isso trará a você, a Emma. Aos outros. — Fez uma pausa. — Eu deveria ser mais gentil. Você perdeu uma das crianças.
— Eu pensei que isso apagaria todo o restante — falou Julian, com voz rouca. — Pensei que não haveria outra coisa no meu coração além da agonia, mas tem espaço suficiente aqui para eu ficar apavorado por causa de Ty, para ficar em pânico com Dru, e ainda tem espaço para mais ódio do que eu jamais pensei que alguém poderia sentir. — A dor em sua marca parabatai aumentou, e ele sentiu as pernas fraquejarem. Então cambaleou e caiu de joelhos diante de Magnus. O feiticeiro não parecia surpreso por vê-lo ajoelhado. Apenas baixou o olhar para Julian com uma paciência silenciosa, rarefeita, como um padre ouvindo uma confissão.
— O que dói mais — perguntou Magnus —, o amor ou o ódio?
— Eu não sei — falou Julian. E afundou os dedos úmidos no tapete, de cada lado do corpo. Estava sem fôlego. — Eu ainda amo a Emma mais do que jamais pensei que fosse possível. Eu a amo mais a cada dia, e mais cada vez que tento parar. Eu a amo como se eu estivesse sendo rasgado ao meio. E quero cortar as gargantas de todos da Tropa.
— Eis um discurso romântico pouco convencional — observou Magnus, se inclinando para frente. — E quanto a Annabel?
— Eu também a odeio — falou Julian sem emoção na voz. — Tem espaço suficiente para eu odiar todos eles.
Os olhos felinos de Magnus brilharam.
— Não pense que não entendo o que você sente — falou ele. — E tem uma coisa que eu poderia fazer. Seria um paliativo. Um paliativo bem desagradável. E eu não o faria menos desagradável.
— Por favor. — De joelhos no chão, em frente ao feiticeiro, Julian ergueu o olhar; ele nunca havia implorado por coisa alguma em sua vida, mas não se importava de fazê-lo agora. — Eu sei que você está doente, sei que não deveria nem pedir, mas não tem mais nada que eu possa fazer nem outro lugar para onde ir.
Magnus suspirou.
— Haveria consequências. Alguma vez você já ouviu a expressão “o sono da razão produz monstros”?
— Sim — respondeu Julian. — Mas vou ser um monstro de qualquer jeito.
Magnus se levantou. Por um momento, pareceu se agigantar acima de Julian, um vulto tão alto e sombrio quanto o Anjo da Morte dos pesadelos infantis.
— Por favor — insistiu Julian. — Eu não tenho nada a perder.
— Tem, sim — retrucou Magnus e ergueu a mão esquerda, fitando-a com curiosidade. Faíscas de cobalto tinham começado a arder nas pontas dos dedos dele. — Você tem, sim.
O cômodo se iluminou com um fogo azul, e Julian fechou os olhos.

5 comentários:

  1. Es um magnus diferente do magnus q nós conhecemos.... meu coração está completamente desolado com tanta tristeza 💔

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  2. Aqlas referências que destroem.
    Will😍

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  3. Eu culpo os idiotas que acham boa idéia misturar nazismo e idade média pra fazer um novo regime
    Meus bebês estão sofrendo e é tudo culpa deles!

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  4. Tropa
    Pq nenhum idiota percebe que isso é um segundo Círculo de Valentim?

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Boa leitura, E SEM SPOILER!