10 de abril de 2019

Capítulo 18 - O Inferno emergindo


ENQUANTO JULIAN E EMMA SEGUIAM Cameron pelo Saguão de Bradbury, eles passaram por vários outros
grupos de rebeldes de Livvy. Era assim que Julian os estava chamando em sua mente, de qualquer maneira.
Estas eram pessoas de Livvy; ela era claramente importante aqui. Ele sentiu-se orgulhoso dela ao mesmo tempo
em que sentiu outras milhares de emoções rasgando-o — alegria, desespero, horror, medo, tristeza, amor e
esperança. Elas golpearam-no como o mar na maré alta.
E anseio também. Um anseio por Emma que parecia como facas em seu sangue. Quando ela falava, ele não
conseguia parar de olhar para sua boca, o modo como o lábio superior dela se curvava como um arco
perfeitamente feito. Foi por isso que ele implorou a Magnus para desligar seus sentimentos por ela? Ele não
conseguia se lembrar se tinha sido assim antes ou se agora estava pior. Ele estava se afogando.
— Olhe — sussurrou Emma, tocando o braço dele, e sua pele queimava onde ela tocava e, pare, ele disse a si
mesmo ferozmente.
Pare. — É Maia Roberts e Bat Velasquez.
Grato pela distração, Julian olhou para a garota que era a representante dos lobisomens do Conselho em sua
realidade. O
cabelo dela estava amarrado em duas tranças grossas, e ela estava descendo um conjunto de escadas ao lado
de um menino bonito e cheio de cicatrizes que Julian reconheceu como seu namorado. Como Livvy, suas roupas
pareciam ter sido roubadas de uma loja da marinha do exército. Casacos militares, roupas de camuflagem, botas
e cintos de balas.
Havia muitas balas neste mundo. As portas da frente do prédio tinham sido fechadas, as placas estavam
cobertas de cimento para segurá-las no lugar. Fileiras de pregos ao lado das portas continham armas de todas as
formas e tamanhos; caixas de munição estavam empilhadas no chão. Na parede por perto, alguém escrevera
ANJOS
E MINISTROS DA GRAÇA NOS DEFENDAM com tinta vermelha.
Eles seguiram Cameron até outro conjunto de escadas de madeira e ferro. Provavelmente o interior do prédio
havia sido deslumbrantemente belo algum dia, quando a luz entrava pelas janelas e o teto de vidro acima.
Mesmo agora era impressionante, embora as janelas e o telhado tivessem sido fechados, as paredes de terracota
rachadas. Luzes elétricas queimavam em amarelo-sódio, e a rede de escadas e passarelas ficavam pretas ao
passarem pela penumbra e ao passarem por guardas rebeldes armados de pistolas.
— Muitas armas — disse Emma, um pouco duvidosa, quando chegaram ao último andar.
— As balas não funcionam em demônios, mas elas ainda derrubam um vampiro ruim ou um Crepuscular —
disse Cameron.
Eles estavam passando por uma passarela. Além da balaustrada de ferro do lado esquerdo, havia a escuridão
do átrio; a parede da direita estava coberta de portas. — Costumava haver uma filial do LAPD*
neste prédio, você sabe, quando havia polícia. Os demônios os tiraram em minutos, mas deixaram para trás
muitas armas.
Ele fez uma pausa.
— Aqui estamos.
Ele abriu uma porta de madeira simples e acendeu a luz. Julian seguiu Emma para o quarto: claramente em
algum momento havia sido um escritório, reaproveitado em um quarto. Quartos dos novatos, disse Livvy. Havia
uma escrivaninha e um guarda-roupa aberto onde estavam penduradas uma coleção variada de roupas. As
paredes eram de estuque claro e madeira velha quente, e através de uma porta Julian podia vislumbrar um
pequeno banheiro azulejado.
Parecia que alguém tinha tido tempo para tentar fazer o lugar parecer um pouco bonito — uma folha de metal
cobria a única janela, mas tinha sido pintada de azul escuro pontilhada com pequenas estrelas amarelas, e havia
um cobertor colorido na cama.
— Desculpe a cama não ser maior — disse Cameron. — Nós não temos muitos casais. Também temos
preservativos na gaveta do criado mudo.
Ele disse isso com naturalidade. Emma corou. Julian tentou ficar sem expressão.
— Alguém vai trazer um pouco de comida para vocês — acrescentou Cameron. — Há barras energéticas e
Gatorade no guarda-roupa, se vocês não puderem esperar. Não tentem sair da sala… há guardas por toda parte.
Ele hesitou na porta.
—E, bem, bem-vindos — acrescentou ele, um pouco desajeitado, e saiu.
Emma não perdeu tempo em invadir o guarda-roupa para procurar as barras de energia, e encontrou um
pequeno saco de batatas fritas como um bônus.
— Você quer metade? — ela perguntou, jogando a Julian uma barra e segurando as batatas.
— Não. — Ele sabia que deveria estar faminto. Ele mal conseguia se lembrar da última vez que eles tinham
comido. Mas ele realmente se sentia um pouco doente. Ele estava sozinho com Emma agora, e era esmagador.
— Se Ash está aqui, onde está Annabel? — ela disse. — Eles viajaram juntos pelo Portal.
— Ela pode estar em qualquer lugar em Thule — disse Julian.
— Mesmo se ela descobrisse uma maneira de retornar ao nosso mundo, duvido que ela deixaria Ash.
Emma suspirou.
— Falando nisso, acho que devemos falar sobre como tentaremos voltar para casa. Não pode ser impossível.
Se pudéssemos entrar no Reino das Fadas de alguma forma, pode ter alguém lá, alguém que possa fazer magia…
— Livvy não disse que as entradas para o Reino das Fadas tinham sido bloqueadas?
— Já passamos pelos muros antes — Emma disse calmamente, e ele sabia que ela estava pensando, assim
como ele, nos espinhos ao redor da Torre Unseelie.
— Eu sei.
Julian não conseguia parar de olhar para ela. Ambos estavam imundos, ambos com sangue e fome e exaustos.
Mas contra a escuridão e o caos deste mundo, sua Emma brilhava mais do que nunca.
— Por que você está me olhando assim? — ela disse. Ela jogou o saco vazio de batatas em uma lixeira de
metal. — Coma sua barra de energia, Julian.
Ele abriu a embalagem, limpando a garganta.
— Eu provavelmente deveria dormir no chão.
Ela parou de andar.
— Se você quiser, — disse ela. — Eu acho que neste mundo nós sempre fomos um casal. Não parabatais.
Quero dizer, isso faz sentido. Se a Guerra Maligna não tivesse acontecido como aconteceu, nós nunca teríamos…
— Há quanto tempo ficamos juntos aqui antes de sermos Crepusculares? — disse Julian.
—Talvez Livvy nos diga. Quer dizer, eu sei que ela não é realmente Livvy. Não nossa Livvy. Ela é o que a Livvy
poderia ter sido.
— Ela está viva — disse Julian. Ele olhou para sua barra de energia. O pensamento de comê-la o deixava
nauseado. — E ela passou pelo inferno. Eu não estava aqui para protegê-la.
Os olhos castanhos de Emma eram escuros e diretos.
— Você se importa?
Ele encontrou seu olhar, e pela primeira vez no que pareceu uma eternidade, ele podia sentir o que ela estava
sentindo, como ele tinha sido capaz por tanto tempo. Ele sentiu sua cautela, a dor profunda dela nos ossos, e ele
sabia que ele tinha sido o único a machucá-la. Ele a rejeitou várias vezes, afastou-a, disse que não sentia nada.
— Emma.
Sua voz era áspera.
— O feitiço… acabou.
— O quê?
— Quando Livvy e Cameron disseram que não havia magia aqui, eles quiseram dizer exatamente isso. O feitiço
que Magnus colocou em mim, não está funcionando aqui. Eu posso sentir as coisas novamente.
Emma apenas ficou olhando.
— Você quer dizer que sente coisas por mim?
— Sim.
Quando ela não se mexeu, Julian deu um passo à frente e colocou os braços ao redor dela. Ela ficou tão rígida
quanto uma escultura de madeira, os braços ao lado do corpo. Foi como abraçar uma estátua.
— Eu sinto tudo — ele disse desesperadamente. — Eu sinto como eu sentia antes.
Ela se afastou dele.
— Bem, talvez eu não.
— Emma…
Ele não se moveu em direção a ela. Ela merecia seu espaço.
Ela merecia o que quisesse. Ela deveria ter represado tantas palavras enquanto ele esteve sob o feitiço,
palavras que teriam sido completamente inúteis dizer ao seu eu sem emoção. Ele só podia imaginar o controle
que deveria ter tomado.
— O que você quer dizer?
— Você me machucou — disse Emma. — Você me machucou muito.
Ela deu um suspiro trêmulo.
— Eu sei que você fez isso por causa de um feitiço, mas você colocou esse feitiço em você mesmo sem pensar
em como isso afetaria a mim ou a sua família ou o seu papel como um Caçador de Sombras. E eu odeio te contar
tudo isso agora, porque nós estamos nesse lugar terrível e você acabou de descobrir que sua irmã está viva,
mais ou menos, e ela parece uma espécie de Mad Max, o que é legal, na verdade, mas esse é o único lugar em
que eu posso lhe dizer isso, porque quando chegarmos em casa… se algum dia chegarmos em casa… você não se
importará.
Ela fez uma pausa, respirando como se estivesse correndo.
— OK. Certo. Estou indo tomar um banho. Se você pensar em me seguir até o banheiro para conversar, eu vou
atirar em você.
— Você não tem uma arma — apontou Julian.
Não foi uma coisa útil para se dizer — Emma entrou no banheiro e bateu a porta atrás dela. Um momento
depois, ouvia-se o som de água corrente.
Julian se afundou na cama. Depois de ter sua alma envolvida em algodão por tanto tempo, a nova crueza da
emoção era como um fio de navalha cortando seu coração toda vez que se expandia com a respiração.
Mas não era apenas dor. Havia a corrente luminosa de alegria por estar vendo Livvy, ouvindo sua voz. Orgulho
em ver Emma brilhando como fogo no Ártico, como as luzes do norte.
Uma voz pareceu soar em sua cabeça, clara como um sino; era a voz da Rainha Seelie.
Alguma vez você já se perguntou como atraímos mortais para viver entre fadas e nos servir, Filho dos
Espinhos? Escolhemos aqueles que perderam algo e prometemos aquilo que os humanos desejam acima de tudo,
uma cessação à sua dor e sofrimento. Mal sabem eles que uma vez que eles entram em nossas terras, eles estão
na gaiola e nunca mais sentirão felicidade.
Você está nessa gaiola, garoto.
A Rainha era enganadora, mas às vezes, ela estava certa. O
luto poderia ser como um lobo rasgando suas entranhas, e você faria qualquer coisa para fazê-lo parar. Ele
lembrou-se de seu desespero enquanto se olhava no espelho em Alicante e sabia que havia perdido Livvy e logo
também perderia Emma. Ele tinha ido até Magnus como um homem naufragado lutando contra uma rocha
solitária, sabendo que ele poderia morrer no dia seguinte de calor ou sede, mas desesperado para escapar da
tempestade.
E, então, a tempestade se foi. Ele estivera no olho do furacão, a tempestade ao seu redor, mas ele saíra
intocado. Pareceu uma cessação ao sofrimento. Só agora ele reconhecera o que ele não podia ver antes: que ele
estava passando pela vida com um buraco negro no centro dele, um espaço como o vazio entre os Portais.
Mesmo nos momentos em que uma emoção era tão forte que parecia perfurar o véu, ele a sentira como se ela
fosse incolor, como se estivesse por trás de um vidro… Ty no topo da pira de Livvy, Emma quando os espinhos da
torre rasgaram-na. Ele podia vê-la agora, tudo preto e branco, as únicas manchas de cor onde o sangue tinha
sido desenhado.
Houve uma batida na porta. A garganta de Julian estava apertada demais para ele falar, mas ele não parecia
se importar: Cameron Ashdown entrou de qualquer maneira, carregando uma pilha de roupas. Ele as jogou no
armário, voltou para o corredor e voltou com uma caixa de comida enlatada, pasta de dente, sabão e outros itens
básicos. Deixando cair sobre a mesa, ele rolou os ombros para trás com um suspiro exagerado.
— Jeans e camisas de gola alta, luvas e botas. Se você for para fora, cubra o máximo que puder para esconder
suas runas. Há corretivo também, se você quiser ficar chique. Precisa de mais alguma coisa?
Julian deu-lhe um longo olhar.
— Sim — ele disse finalmente. — Na verdade, sim.
Cameron tinha acabado de sair resmungando quando Julian ouviu a água no banheiro desligar. Um momento
depois, Emma apareceu envolta em uma toalha, as bochechas rosadas e brilhantes.
Ela sempre se pareceu assim? Cores tão intensas, o ouro do cabelo dela, Marcas negras contra a pele pálida, o
castanho suave dos seus olhos…
— Sinto muito — disse ele enquanto ela pegava as roupas na cama. Ela congelou. — Estou apenas começando
a entender como sinto muito.
Ela entrou no banheiro e saiu um instante depois vestida com calças pretas e uma blusa verde. As Marcas
permanentes entrelaçando seus braços pareciam duras e surpreendentes, um lembrete de que ninguém mais as
tinha ali.
— Quem quer que tenha olhado nossos tamanhos superestimou meus atributos — ela disse, afivelando o cinto.
— O sutiã que eles me deram é enorme. Eu poderia usá-lo como um chapéu.
Cameron voltou a entrar sem bater de novo.
— Consegui o que você pediu — disse ele, e jogou uma pilha de lápis e um bloco de desenho de papel canson
no colo de Julian. — Tenho que admitir, essa é a primeira vez. A maioria dos novatos pede chocolate.
— Você tem chocolate? — disse Emma.
—Não — disse Cameron, e saiu do quarto. Emma o observou ir com uma expressão confusa. — Eu realmente
gosto deste novo Cameron — disse ela. — Quem imaginava que ele poderia ser tão durão? Ele era um cara tão
legal, mas…
— Ele sempre teve uma espécie de lado secreto — disse Julian.
Ele se perguntou se havia alguma coisa sobre repentinamente ter suas emoções de volta que significava que
ele não queria cobrir as coisas. Talvez ele se arrependesse depois.
— Um tempo atrás, ele se aproximou de Diana, porque ele tinha certeza de que Anselm Nightshade estava
assassinando crianças lobisomens. Ele não podia provar, mas ele tinha algumas boas razões para pensar isso.
Sua família sempre dizia para ele desistir, que Nightshade tinha amigos poderosos. Então ele trouxe o caso para
nós… para o Instituto.
— É por isso que você prendeu Nightshade — disse Emma, percebendo. — Você queria que a Clave fosse
capaz de revistar a casa dele.
— Diana me disse que encontraram um porão cheio de ossos — disse Julian. — Ossos de crianças lobisomens,
assim como Cameron disse. Eles testaram as coisas no restaurante e havia magia da morte em todo o lugar.
Cameron estava certo, e ele enfrentou a sua família à sua maneira. E ele fez isso por Seres do Submundo que ele
nem conhecia.
— Você nunca disse nada — disse Emma. — Nem sobre Cameron, ou sobre por que você… por que você
realmente prendeu Anselm. Há pessoas que ainda te culpam.
Ele deu-lhe um sorriso triste.
— Às vezes você tem que deixar as pessoas culparem você.
Quando a única outra opção é permitir que coisas ruins aconteçam, não importa o que as pessoas pensam.
Ela não respondeu. Quando ele olhou para ela, ela parecia ter esquecido tudo sobre Cameron e Nightshade.
Seus olhos estavam arregalados e luminosos quando ela estendeu a mão para tocar alguns dos lápis coloridos
que rolaram na cama.
— Você pediu materiais de arte? — Ela sussurrou.
Julian olhou para as mãos.
— Todo esse tempo, desde o feitiço, eu tenho andado por aí perdendo todo o centro de mim mesmo, mas a
coisa é… eu nem percebi. Não conscientemente. Mas eu senti isso. Eu estava vivendo em preto e branco e agora
a cor está de volta.
Ele exalou.
— Estou dizendo tudo errado.
— Não — Emma disse, — acho que entendi. Você quer dizer que a parte de você que sente também é a parte
de você que cria as coisas.
— Eles sempre dizem que fadas roubam crianças humanas porque elas não podem fazer arte ou música
próprias. Nem bruxos ou vampiros podem. É preciso mortalidade para fazer arte. O
conhecimento da morte, das coisas limitadas. Há fogo dentro de nós, Emma, e à medida que ele arde, nos
queima, e a queima provoca dor… mas sem a luz deste fogo, não consigo desenhar.
— Então, desenhe agora — disse ela, com a voz rouca. Ela apertou vários lápis na mão aberta e começou a se
virar.
— Sinto muito — ele disse novamente. — Eu não deveria te sobrecarregar— — Você não está me
sobrecarregando, — ela disse, ainda de costas. — Você está me lembrando do porquê eu te amo.
As palavras pregaram em seu coração, afiadas com uma alegria dolorosa.
— Você não está perdoado, no entanto, — acrescentou ela, e foi até o guarda-roupa.
Ele a deixou sozinha para vasculhar os pares de meias e sapatos, procurando por algo que pudesse se
encaixar. Ele queria falar com ela — conversar com ela para sempre, sobre tudo —, mas isso tinha que ser ao
critério dela. Não dele.
Em vez disso, ele colocou o lápis no papel e deixou a imaginação ir, deixou as imagens se erguerem dentro
dele e capturarem o prata de Alicante e o verde do Seelie, o preto do Unseelie e o vermelho do sangue. Ele
desenhou o Rei em seu trono, pálido e poderoso e infeliz. Ele desenhou Annabel segurando a mão de Ash. Ele
desenhou Emma com Cortana, cercada por espinhos. Ele desenhou Drusilla, toda de preto, um assassino com
corvos circulando atrás dela.
Ele estava consciente de que Emma se deitara ao lado dele e estava observando-o com uma quieta
curiosidade, com a cabeça apoiada no braço. Ela estava meio adormecida, lábios entreabertos, quando a porta
se abriu novamente. Julian jogou o caderno para baixo.
— Olha, Cameron…
Mas não foi Cameron. Foi Livvy.
Ela havia tirado o cinto de munição de Sam Browne, mas, de certa forma, parecia igual. À luz mais clara do
quarto, Julian podia ver as sombras borradas sob seus olhos.
— Cameron disse que você pediu um bloco de desenho e lápis — disse ela em um quase sussurro.
Julian não se mexeu. Ele meio que sentiu como se qualquer movimento a assustasse, como se ele estivesse
tentando atrair uma criatura nervosa da floresta para mais perto.
— Você quer ver?
Julian estendeu o bloco de desenho; ela pegou e folheou, devagar e depois mais rápido. Emma agora estava
sentada, segurando um dos travesseiros.
Livvy empurrou o bloco de rascunho de volta para Julian. Ela estava olhando para baixo; ele não podia ver seu
rosto, apenas as franjas dos cílios escuros. Ele sentiu uma pontada de desapontamento. Ela não acredita em
mim; as imagens não significavam nada para ela. Eu não sou nada para ela.
— Ninguém desenha como meu irmão — disse ela, respirando fundo e soltando o ar lentamente. Ela levantou
a cabeça e olhou diretamente para Julian com uma espécie de perplexidade que estava meio ferida, meio
esperançosa. — Mas você o faz.
— Você se lembra de quando tentei te ensinar a desenhar, quando você tinha nove anos? — Disse Julian. — E
você quebrou todos os meus lápis?
Algo quase como um sorriso tocou a borda da boca de Livvy.
Por um momento, ela era a familiar Livvy, apesar das cicatrizes e do couro preto. Um segundo depois, era
como se uma máscara tivesse passado pelo rosto dela, e ela fosse uma Lívia diferente, uma líder rebelde, uma
guerreira com cicatrizes.
— Você não precisa mais tentar me convencer — disse ela. Ela se virou, seus movimentos precisos e militares.
— Terminem de se limpar. Encontro vocês dois no escritório principal em uma hora.
***
— Nós já namoramos neste mundo? — Emma disse. — Você sabe, você e eu.
Cameron quase caiu nos vários degraus de metal. Eles estavam no labirinto de escadas e passarelas que
cruzavam o interior do Edifício Bradbury.
— Claro que não!
Emma sentiu uma leve picada. Ela sabia que não era grande coisa, mas, às vezes, você queria se concentrar
em algo trivial para tirar sua mente do apocalipse. Cameron, no mundo dela tinha sido quase embaraçosamente
devotado, sempre voltando depois que eles terminavam, enviando cartas de amor, flores e tristes fotos de lhama.
— Você estava sempre com Julian — acrescentou Cameron. — Vocês não estão juntos em seu mundo?
— Estou bem aqui — Julian disse no tom enganosamente suave que significava que ele estava irritado.
— Quero dizer, sim — disse Emma. — Estamos sempre indo e voltando. Às vezes, indo até demais, às vezes,
voltando até demais.
Você e eu namoramos brevemente, isso é tudo.
— Não temos tempo para esse tipo de drama pessoal aqui — disse Cameron. — É difícil se concentrar em sua
vida amorosa quando aranhas gigantes estão perseguindo você.
Cameron era bem engraçado aqui, Emma pensou. Se ele tivesse sido tão divertido em seu mundo, o
relacionamento deles poderia ter durado mais tempo.
— Quando você diz “gigante” o quão gigante é exatamente? — Ela disse. — Maior do que lixeiras?
— Não os bebês — disse Cameron, e deu-lhes um sorriso horrível. — Aqui estamos… continuem, e não conte
para a Livvy que namoramos em seu mundo, porque é estranho.
Eles encontraram Livvy em outro escritório reaproveitado — este claramente um dia tinha sido um sótão,
grande e arejado e provavelmente cheio de luz antes que as janelas fossem cobertas.
Tiras de tijolos se alternavam com madeira polida nas paredes e dúzias de rótulos de frutas vintage
anunciando maçãs, peras e laranjas da Califórnia estavam penduradas entre as janelas cobertas de tábuas. Um
grupo de quatro poltronas modernas e elegantes formava um quadrado em torno de uma mesa de centro de
vidro.
Livvy estava descansando em um dos sofás, bebendo um copo com um líquido marrom escuro.
— Isso não é álcool, é? — Julian parecia chocado. — Você não deveria estar bebendo.
— Você estará bebendo amanhã — disse Livvy, e apontou para uma garrafa de Jack Daniel’s na mesa de vidro.
— Apenas dizendo.
— Ela acenou com a mão. — Sentem-se.
Eles se acomodaram no sofá em frente a ela. Havia uma lareira na sala também, mas a grade tinha sido
fechada com metal há algum tempo. Alguém com senso de humor havia pintado chamas no metal.
Era muito ruim. Emma teria gostado do fogo. Teria sentido isso como algo natural.
Livvy virou o copo nas mãos cheias de cicatrizes.
— Então eu acredito em você — disse ela. — Você é quem diz ser. O que significa que eu sei o que você quer
me perguntar.
—Sim — disse Julian. Ele limpou a garganta. — Mark, — disse ele. — Ty? Helen e Dru…
— Mas você também provavelmente quer sair daqui — Livvy interrompeu. — Desde que você acabou aqui por
acidente e seu mundo parece um lugar muito melhor.
— Temos que sair — disse Emma. — Há pessoas em nosso mundo que podem ser feridas ou até mesmo mortas
se não voltarmos…
— Mas queremos levá-la conosco — disse Julian. Emma sabia que ele ia dizer isso; eles não discutiram, mas
nunca foi uma pergunta. É claro que Julian gostaria que Livvy voltasse com eles.
Livvy deu um longo e lento aceno de cabeça.
— Certo — disse ela. — Você tem um motivo para pensar que há alguma maneira de voltar? Viagens
interdimensionais não são exatamente fáceis.
— Nós apenas começamos a discutir isso — disse Emma. — Mas vamos pensar em algo. — Ela falou com mais
confiança do que se sentia.
Livvy levantou a mão.
— Se há alguma chance de vocês saírem, tem certeza de que quer saber o que aconteceu… com todos aqui?
Porque eu desejo, todos os dias, não saber.
Sem tirar os olhos de Livvy, Julian disse: — O que eu desejo é que eu pudesse estar aqui para você.
O olhar de Livvy estava distante.
— Você esteve, eu acho. Vocês dois. — Ela puxou os joelhos para baixo dela. — Vocês salvaram nossas vidas
quando se sacrificaram para nos tirar de Manhattan no dia em que caiu.
Emma estremeceu.
— Nova Iorque? Por que estávamos em Nova Iorque?
— A Batalha do Burren foi quando tudo deu errado — disse Livvy. — Clary estava lá, Alec e Isabelle
Lightwood, Magnus Bane… e Helen e Aline, é claro. Eles estavam ganhando. Jace estava sob o domínio de
Sebastian, mas Clary estava empunhando a Gloriosa, a espada do Anjo do Paraíso. Ela estava prestes a libertá-lo
quando Lilith apareceu. Ela lançou a espada no Inferno e matou Clary. Helen e os outros tiveram a sorte de
escapar com vida.
“Essa foi a grande vitória de Sebastian. Depois disso, ele juntou forças com o Povo das Fadas. Eles invadiram
Alicante enquanto nos escondíamos no Salão dos Acordos. Os Caçadores de Sombras lutaram — nosso pai lutou
—, mas Sebastian era poderoso demais.
Como Alicante estava cedendo, um grupo de feiticeiros abriu um Portal para as crianças. Apenas pessoas
menores de quinze anos.
Nós tivemos que deixar Helen e Mark para trás. Dru estava gritando quando eles a arrancaram dos braços de
Helen e nos levaram através do Portal para Manhattan.
“Catarina Loss e Magnus Bane montaram um abrigo temporário lá. A guerra se alastrou em Idris. Nós
recebemos uma mensagem de Helen. Mark tinha sido levado pelo Povo das Fadas. Ela não sabia o que eles
fizeram com ele. Eu ainda não sei. Espero que ele esteja no Reino das Fadas e seja verde e brilhante e ele tenha
se esquecido de todos nós”.
—Ele não esqueceu — disse Julian em voz baixa. — Mark não se esqueceu.
Livvy apenas piscou, rápido, como se seus olhos ardessem.
— Helen e Aline continuaram lutando. Às vezes recebíamos uma mensagem de fogo delas. Ouvimos que
estranhas manchas cinzentas começaram a aparecer na Floresta de Brocelind. Eles os chamavam de “praga”.
Eles se revelaram portais para demônios.
— Portais para demônios? — Exigiu Emma, sentando-se em linha reta, mas Livvy foi pega em sua história,
virando seu copo repetidamente em suas mãos tão rápido que Emma ficou surpresa por não ter começado a
faiscar.
— Demônios invadiram Idris. O Povo das Fadas e os Crepusculares expulsaram os Caçadores de Sombras de
Alicante, e os demônios acabaram com eles. Estávamos em Nova York quando descobrimos que Idris havia caído.
Todos queriam saber os nomes dos mortos, mas não havia informação. Não conseguimos descobrir o que
aconteceu com Helen e Aline, se elas sobreviveram ou se tornaram Crepusculares… nós não sabíamos.
“Sabíamos que não estaríamos seguros por muito tempo.
Sebastian não se importava em guardar segredos do mundo humano.
Ele queria queimar tudo. Demônios começaram a aparecer em todos os lugares, correndo soltos, matando
humanos nas ruas. A praga se espalhou, aparecendo em todo o mundo. Ele envenenava tudo o que tocava e os
feiticeiros começaram a adoecer.
“Depois de dois meses, o abrigo foi destruído. As ruas estavam cheias de monstros e os feiticeiros estavam
ficando cada vez mais doentes e doentes. Quanto mais poderosos eles eram, e mais magia eles usavam, mais
rápido eles ficavam doentes e era mais provável que eles se transformassem em demônios. Catarina fugiu para
não machucar ninguém. Você ouviu o que aconteceu com Alec e Magnus.
O abrigo desmoronou e as crianças se espalharam pelas ruas”.
Ela olhou para Julian.
— Era inverno. Não tínhamos para onde ir. Mas você nos manteve juntos. Você disse, a todo custo, para
ficamos juntos. Nós sobrevivemos porque estávamos juntos. Nós nunca abandonamos uns ao outros.
Julian pigarreou.
— Isso parece certo.
Os olhos de Livvy estavam fixados nele.
— Antes de partir, Catarina Loss organizou um monte de trens para levar as crianças dos Caçadores de
Sombras e habitantes do Submundo pelo país. Os demônios estavam se espalhando de leste a oeste, e o boato
era de que a Califórnia estava mais limpa. Saímos da estação de White Plains… andamos a noite toda e você
levou Tavvy.
Ele estava com tanta fome. Estávamos todos com fome. Você continuou tentando nos dar sua comida,
especialmente para Ty.
Chegamos à estação e o último trem foi embora. Foi quando os vimos. Os Crepusculares. Eles vieram até nós
em seus trajes vermelhos, como uma chuva de sangue. Eles iam nos matar antes de entrarmos naquele trem.
“Você nem sequer nos deu um beijo de adeus — disse Livvy, com a voz distante. — Você apenas nos empurrou
para os trens.
Você gritou para nós continuarmos, disse para eu cuidar dos mais jovens. E vocês foram até os Crepusculares
com suas espadas empunhadas. Nós conseguimos vê-los lutando contra eles enquanto o trem saía… só vocês
dois e cinquenta Crepusculares, na neve”.
Pelo menos perecemos protegendo-os, Emma pensou. Foi um conforto frio.
— E então éramos quatro — disse Livvy, e pegou a garrafa de uísque. — Eu e Ty, Dru e Tavvy. Eu fiz o que você
disse. Eu cuidei deles. Os trens avançavam pelo inverno. Nós nos encontramos com Cameron em algum lugar
perto de Chicago… todos nós começamos a ir de trem a trem até lá, trocando comida por fósforos, esse tipo de
coisa. Cameron disse que deveríamos ir para Los Angeles, que a irmã dele estava lá e ela disse que as coisas
estavam bem.
“É claro que, quando chegamos à Union Station, aconteceu que Paige Ashdown tinha se juntado à Legião da
Estrela. Eles se autodenominavam assim. Traidores, nós os chamamos. Ela estava lá, com um grande sorriso
assassino e sangrento e com uma dúzia de Crepusculares em torno dela. Cameron me deu um empurrão e Ty e
eu corremos. Nós estávamos arrastando Dru e Tavvy conosco. Eles estavam chorando e gritando. Eles pensavam
que estavam voltando para casa.
“Eu acho que, até então, nós não tínhamos percebido como as coisas estavam ruins.
Demônios caçavam humanos não—
juramentados pelas ruas e não havia nada que pudéssemos fazer.
Nossas Marcas estavam desaparecendo. Nós estávamos ficando mais fracos a cada dia. Runas e lâminas de
Serafim não funcionavam. Não tínhamos nada para lutar contra os demônios, então nos escondemos. Como
covardes”.
— Pelo Anjo, Livvy, você não podia ter feito qualquer outra coisa. Você tinha dez anos — Emma disse.
— Ninguém diz “Pelo Anjo” mais.
Livvy se serviu de mais uma dose de Jack Daniel’s e recolocou a garrafa na mesa.
— Pelo menos não estava frio. Eu me lembrei do que você disse, Jules, para cuidar dos mais novos. Ty não é…
ele não era…
muito mais novo do que eu, mas ele estava quebrado. Seu coração inteiro estava quebrado quando perdemos
você. Ele amava muito você, Jules.
Julian não falou. Ele estava pálido como a neve na história de Livvy. Emma deslizou a mão pelo sofá, tocando
seus dedos nos dele.
Eles estavam gelados. Este mundo era a pura essência destilada de seus pesadelos, pensou Emma. Um lugar
onde seus irmãos tinham sido arrancados dele, onde ele não podia protegê-los enquanto o mundo caía ao redor
deles em escuridão e em chamas.
— Nós dormimos em becos, em casas abandonadas de humanos assassinados — disse Livvy. — Nós buscamos
comida nos supermercados. Nós nunca ficamos no mesmo lugar por mais de duas noites. Tavvy gritava para
dormir em meus braços todas as noites, mas nós fomos cuidadosos. Eu pensei que nós éramos cuidadosos.
Dormimos dentro de círculos de sal e ferro. Eu tentei, mas…
Ela tomou um gole de uísque.
Emma teria engasgado; Livvy parecia ter se acostumado com isso.
— Uma noite estávamos dormindo na rua. Nas ruínas do Bosque. Ainda havia lojas com comida e roupas lá. Eu
tinha nos cercados de sal, mas um demônio Shinagami veio de cima… era um borrão rápido com asas e garras
como facas. Ele levou Tavvy para longe de mim… nós dois estávamos gritando.
Ela respirou fundo.
— Havia uma fonte ornamental estúpida. Ty pulou para o lado e atacou o Shinagami com uma faca de
arremesso. Eu acho que ele bateu, mas sem runas, há apenas… bem, você não pode machucá-los. Ele ainda
estava segurando Tavvy. Ele acabou virando e, com uma garra, cortou a garganta de Ty-Ty.
Ela não pareceu notar ou se importar que ela o estava chamando pelo nome de bebê dele. Ela estava
segurando o copo com força, os olhos vazios e assombrados.
— Meu Ty, ele caiu na fonte e tudo era água e sangue. O
Shinagami foi embora. Tavvy se foi. Eu tirei Ty da fonte, mas ele estava morto em meus braços.
Morto em meus braços. Emma apertou mais a mão de Julian, vendo-o no palco do Conselho, segurando Livvy
enquanto a vida e o sangue saíam dela.
— Eu o beijei. Eu disse a ele que o amava. Então, peguei um jarro de gasolina e queimei seu corpo para que os
demônios não o encontrassem.
A boca de Livvy se contorceu.
— E, então, éramos apenas Dru e eu.
— Livia…
Julian se inclinou para frente, mas sua irmã levantou a mão como se para afastar o que ele ia dizer em
seguida.
— Deixe-me terminar — disse ela. — Eu cheguei até aqui.
Ela tomou outro gole e fechou os olhos.
— Depois disso, Dru parou de falar. Eu disse a ela que iríamos ao Instituto e conseguiríamos ajuda. Ela não
disse nada. Eu sabia que não havia ajuda lá. Mas eu pensei que talvez pudéssemos nos juntar à Legião da
Estrela… eu não me importava mais. Estávamos andando pela estrada quando um carro parou. Era Cameron.
Ele conseguia ver que estávamos sangrando e morrendo de fome. E que havia apenas dois de nós. Ele não fez
perguntas. Ele nos contou sobre esse lugar, o Edifício Bradbury. Ele foi aproveitado na resistência. Era
minúsculo, então, mas havia dois ex-Caçadores de Sombras que uma vez caçaram um demônio ali. Eles disseram
que era um prédio antigo e forte, cheio de sal e ferro, fácil de ser trancado.
Além disso, por causa do espaço de locação do LAPD, havia um estoque de armas lá.
“Nós nos juntamos aos outros e os ajudamos a entrar. Até Dru ajudou, embora ela ainda não estivesse falando.
Nós começamos a reforçar o edifício e espalhar a palavra de que aqueles que resistissem a Sebastian eram bemvindos
aqui. As pessoas vieram de Nova Iorque, do Canadá e do México, de todas as partes. Nós lentamente
construímos uma população, fizemos um refúgio para refugiados”.
— Então Dru ainda está…?
Emma começou ansiosamente, mas Livvy continuou.
— Dois anos atrás ela saiu com um grupo de reconhecimento.
Nunca mais voltou. Isso acontece o tempo todo.
— Você procurou por ela? — Julian disse.
Livvy virou um olhar fixo para ele.
— Nós não vamos atrás das pessoas aqui — disse ela. — Nós não fazemos missões de resgate. Elas matam
ainda mais pessoas.
Se eu desaparecesse, não esperaria que alguém viesse atrás de mim. Eu espero que eles não sejam tão
estúpidos.
Ela colocou o copo na mesa.
— De qualquer forma, agora vocês sabem. Essa é a história.
Eles encararam um ao outro, os três, por um longo momento.
Então Julian se levantou. Ele deu a volta na mesa e levantou Livvy e a abraçou com tanta força que Emma a
viu ofegar de surpresa.
Não o afaste, ela pensou , por favor, não o afaste.
Livvy não o afastou. Ela fechou os olhos e agarrou Julian. Eles ficaram abraçados por um longo momento como
duas pessoas se afogando agarradas ao mesmo bote salva-vidas. Livvy pressionou o rosto contra o ombro de
Julian e soltou um soluço seco.
Emma tropeçou em seus próprios pés e se aproximou deles, não a ponto de se inserir no abraço, mas
gentilmente acariciando o cabelo de Livvy. Livvy levantou a cabeça do ombro de Julian e ofereceu-lhe um
pequeno sorriso.
— Volte com a gente para o nosso mundo — disse Julian. —Ty está vivo lá. Todos estão vivos lá. Nós vamos
levá-la conosco. Você pertence lá, não aqui.
Emma esperou por Livvy perguntar sobre seu próprio destino em seu mundo, mas ela não o fez. Em vez disso,
afastou-se um pouco de Julian e sacudiu a cabeça… não com raiva, mas com imensa tristeza.
— Há coisas que tenho que fazer aqui, — disse ela. — Não é como se estivéssemos apenas parados aqui
esperando morrer.
Estamos lutando, Jules.
— Jesus, Livs, — disse ele em uma voz meio quebrada. — É
tão perigoso …
—Eu sei — disse ela, e acariciou o rosto dele levemente, do jeito que ela tinha feito, por vezes, quando era
uma menina muito pequena, como se a forma familiar de suas características fosse reconfortante. Então ela se
afastou, quebrando o abraço. Ela alisou o cabelo para trás e disse: — Eu não falei sobre os Irmãos do Silêncio.
— Os Irmãos do Silêncio? — Emma ficou intrigada.
— Quando Idris caiu, os Irmãos do Silêncio foram mortos, mas antes de morrer eles selaram a Cidade do
Silêncio, com o Cálice Mortal e a Espada Mortal dentro dela. Ninguém pode entrar. Nem mesmo Sebastian. E ele
os quer, desesperadamente.
— Por que ele quer os Instrumentos Mortais? — Perguntou Julian.
— Ele tem uma versão do Cálice que controla o Crepusculares — disse Livvy. — Mas ele quer nos dominar. Ele
acha que, se conseguir juntar os Instrumentos Mortais, poderá controlar o que resta dos Nephilim…
transformar-nos de rebeldes a escravos.
— Sebastian disse algo na praia — Emma recordou. — sobre os Instrumentos Mortais.
— Temos pessoas lá dentro, como Cameron. — Disse Livvy. — O boato é de que Sebastian está chegando perto
de descobrir um caminho para a cidade. — Ela hesitou. — Isso seria o fim de todos nós. Tudo o que podemos
fazer é esperar que ele não o faça, ou que o progresso seja lento. Nós não podemos pará-lo.
Emma e Julian se entreolharam.
— E se pudéssemos encontrar um feiticeiro? — Emma sugeriu.
— Alguém que poderia ajudá-la a entrar na Cidade do Silêncio primeiro?
Livvy hesitou.
— Eu gosto do seu entusiasmo, — disse ela. — mas todos os feiticeiros estão mortos ou são demônios.
— Ouça-me — disse Emma. Ela estava pensando em Cristina, na Corte Unseelie: Não são as linhas ley. É a
praga. ― Você estava falando sobre como os demônios entraram em Idris através de manchas da praga. Nós
temos essas manchas em nosso mundo também, embora os demônios ainda não tenham chegando. E nossos
feiticeiros também estão ficando doentes… o mais antigo e mais poderoso primeiro. Eles não estão se
transformando em demônios…
ainda não, de qualquer forma… mas a doença é a mesma.
— E? — Julian disse.
Ele estava olhando para ela com respeito ponderado. Emma sempre tinha sido elogiada por suas habilidades
de luta, mas apenas Julian estava lá para tranquilizá-la de que ela também era inteligente e capaz. Ela percebeu,
de repente, o quanto ela sentia falta disso.
— No nosso mundo, há uma feiticeira que é imune à doença — disse Emma. — Tessa Gray. Se ela for imune
aqui também, ela pode nos ajudar.
Livvy estava encarando.
— Há rumores sobre a Última Feiticeira, mas eu nunca vi Tessa aqui em Los Angeles. Eu nem sei se ela ainda
está viva.
— Eu tenho uma maneira de contatá-la.
Emma levantou a mão.
— Este anel. Talvez funcione aqui. Vale a pena arriscar.
Livvy olhou do anel para Emma. Ela falou devagar.
— Eu me lembro desse anel. Você costumava usá-lo. O Irmão Zachariah deu a você enquanto estávamos em
Manhattan, mas se perdeu quando você… quando Emma se perdeu.
Uma faísca de esperança explodiu no coração de Emma.
— Ele me deu no meu mundo também — disse ela. — Poderia funcionar aqui se Tessa ainda tiver o outro.
Livvy não disse nada. Emma tinha a sensação de que há muito tempo ela desistira de acreditar que as coisas
valessem a pena.
— Deixe-me tentar — disse Emma, e balançou a mão esquerda contra um dos pilares de concreto. O vidro do
anel quebrou, e o metal do anel escureceu, de repente manchado com marcas que se pareciam com ferrugem ou
sangue. As pontas que seguraram o vidro desapareceram — o anel era agora apenas uma faixa de metal.
Livvy exalou.
— Magia de verdade — ela disse. — Eu não vejo isso há muito tempo.
— Parece um bom sinal — disse Julian. — Se Tessa ainda estiver aqui, ela pode ter poderes que ainda
funcionam.
Parecia uma corda fina, como uma teia de aranha, para aguentar a esperança, Emma pensou. Mas o que mais
eles tinham?
Livvy foi até uma das mesas e voltou com o celular de Emma.
— Aqui está — ela disse, um pouco relutante.
— Fique com você se você quiser — disse Emma; ela sabia que Julian estava olhando para ela, as sobrancelhas
erguidas em surpresa. — Mesmo…
— A bateria está acabando de qualquer maneira — disse Livvy, mas havia algo mais em sua voz, algo que dizia
que doía olhar para as fotos de uma vida que havia sido tirada dela. — Ty cresceu e está tão bonito —
acrescentou. — As garotas devem estar todas atrás dele. Ou os garotos — acrescentou ela com um sorriso de
lado que desapareceu rapidamente. — De qualquer forma. Pegue-o.
Emma colocou o telefone no bolso. Enquanto Livvy se virava, Emma pensou ter visto a borda de uma marca
negra logo abaixo da gola da camiseta de Livvy. Ela piscou… mas não havia nenhuma Marca aqui?
Parecia um pedaço de uma runa de luto.
Livvy caiu de volta no sofá.
— Bem, não faz sentido esperar aqui — disse ela. — Isso apenas nos deixará tensos. Vocês devem dormir um
pouco. Se nada acontecer até amanhã à tarde, podemos nos reagrupar.
Emma e Julian caminharam até a saída. Na porta, Julian hesitou.
— Eu estava pensando — disse ele. — Este lugar é melhor à luz do dia?
Livvy estudava as mãos dela, com seus padrões de cicatrizes.
Ela ergueu os olhos e, por um momento, eles brilharam, o familiar azul dos Blackthorn.
— Espere para ver — ela disse.
***
Os pijamas não pareciam existir em Thule. Depois do banho, Julian se sentou na cama com uma calça de
moletom e uma camiseta, olhando para a janela de metal pintada com suas falsas estrelas de prata. Ele estava
pensando em Mark. Quando Mark tinha sido um cativo da Caçada Selvagem, ele tinha contado todas as noites os
nomes de seus irmãos e irmãs a partir dos pontos de luz acima.
Em Thule você não podia ver as estrelas. O que Livvy fazia?
Como ela se lembrava de todos eles? Ou teria sido menos doloroso tentar esquecê-los? Mark achava que seus
irmãos estavam vivos e felizes sem ele. Livvy sabia que eles estavam mortos ou escravizados. Qual era pior?
— Ela não perguntou — disse ele a Emma quando ela saiu do banheiro em sua blusa e em um par de cuecas
boxer. — Livvy, ela não perguntou sobre o nosso mundo. Nada mesmo.
Emma afundou na cama ao lado dele. Ela puxou o cabelo para trás em uma trança; ele podia sentir o calor
dela e cheirar o sabão em sua pele. Suas entranhas se apertaram.
— Você pode culpá-la? Nosso mundo não é perfeito. Mas não é isso. Não é um mundo com aniversários que ela
perdeu, e crescimentos que ela não conseguiu ver, e o conforto que ela nunca conseguiu ter.
— Ela está viva aqui, no entanto — disse Julian.
— Julian.
Emma tocou seu rosto levemente. Ele queria se inclinar ao toque, mas se conteve com um esforço de enrijecer
o corpo.
— Ela está sobrevivendo aqui.
—E há uma diferença?
Ela deu-lhe um longo olhar antes de largar a mão e recostar-se nos travesseiros.
— Você sabe que existe.
Ela deitou-se de lado, mechas de cabelos claros escapando de sua trança, ouro contra as almofadas brancas.
Seus olhos eram da cor de madeira polida, o corpo curvado como um violino. Julian queria pegar seu bloco de
desenho, desenhá-la, do jeito que sempre fazia quando seus sentimentos por ela se tornavam intensos demais.
Seu coração explodindo tinta e cores porque ele não podia tansformá-los em palavras.
— Você quer que eu durma no chão? — Ele perguntou. Sua voz estava rouca. Nada que ele pudesse fazer
sobre isso.
Ela balançou a cabeça, ainda olhando para ele com aqueles olhos enormes.
— Eu estava pensando — disse ela. — se a magia dos Caçadores de Sombras se foi aqui… Se as lâminas de
serafim não funcionam, ou magia angelical…
— Então nosso laço parabatai provavelmente se foi também — ele terminou. — Eu pensei nisso também.
— Mas não podemos ter certeza, — disse ela. — Quero dizer, acho que poderíamos tentar fazer algo, fazer
algo acontecer, da mesma forma como queimamos aquela igreja…
— Provavelmente não é uma boa ideia criar um incêndio criminoso.
Julian podia sentir seu coração batendo. Emma estava se inclinando para perto dele. Ele podia ver a curva
suave de sua clavícula, o lugar onde sua pele bronzeada ficava mais pálida. Ele arrastou o olhar para longe.
— Poderíamos tentar a outra coisa — disse ela. — Você sabe.
Se beijar.
— Emma…
— Eu sinto quando nos beijamos.
Suas pupilas eram enormes.
— Eu sei que você sente também. O laço.
Era como ter hélio bombeado em seu sangue. Ele se sentiu leve como o ar.
— Você tem certeza? Você absolutamente quer isso?
— Sim.
Ela recostou-se mais nos travesseiros. Ela estava olhando para ele agora, seu queixo teimoso inclinado para
cima, os cotovelos na cama. Suas pernas estendidas, longas e gloriosas. Ele deslizou para mais perto dela. Ele
podia ver o pulso dela pulsando em sua garganta. Seus lábios se separaram, sua voz baixa: — Eu quero isso.
Ele se moveu sobre ela, não a tocando ainda, seu corpo um sussurro do dela. Ele viu os olhos dela
escurecerem. Ela se contorceu sob ele, suas pernas deslizando contra as dele.
— Emma, — ele disse asperamente. — O que aconteceu com aquele sutiã? Você sabe, o enorme?
Ela sorriu.
— Eu estou sem.
O ar na sala pareceu subitamente superaquecido. Julian tentou respirar normalmente, apesar de saber que, se
deslizasse as mãos sob o top de Emma, encontraria apenas uma pele macia e curvas nuas.
Mas ela não pediu para ele fazer isso. Ela pediu um beijo. Ele se apoiou sobre ela, uma mão em cada lado da
cabeça dela.
Lentamente, ele se abaixou: requintadamente devagar, até que suas bocas estavam a uma polegada de
distância. Ele podia sentir seu hálito quente contra seu rosto. Ainda assim, seus corpos mal se tocavam. Ela se
moveu, inquieta, sob ele, seus dedos cavando a colcha.
— Beije-me — ela murmurou, e ele se inclinou para roçar os lábios nos dela — apenas uma pincelada, o mais
leve dos toques. Ela perseguiu seus lábios com os seus; ele virou o rosto para o lado, traçando o mesmo toque
quente e leve ao longo de sua mandíbula, sua bochecha. Quando ele alcançou sua boca novamente, ela estava
ofegante, seus olhos semicerrados. Ele puxou o lábio inferior dela em sua boca, passando a língua ao longo dela,
traçando a curva, os cantos sensíveis.
Ela engasgou novamente, pressionando as costas mais fundo nas almofadas, seu corpo arqueando. Ele sentiu
os seios dela roçarem seu peito, enviando um tiro de calor diretamente para sua virilha. Ele enfiou os dedos no
colchão, desejando manter o controle.
Para dar a ela apenas e exatamente o que ela pediu.
Um beijo.
Ele chupou e lambeu o lábio inferior dela, traçando a forma do arco da parte superior. Lambeu ao longo da
costura dos dois até que seus lábios se separaram e ele selou sua boca na dela, todo o calor e umidade e o gosto
dela, hortelã e chá. Ela colocou as mãos em torno de seus bíceps, arqueando-se contra ele enquanto se beijavam
sem parar. Seu corpo era suave e quente; ela estava gemendo em sua boca, arrastando seus calcanhares até as
costas de suas panturrilhas, suas mãos deslizando para sua camisa, os dedos enrolando embaixo…
Ela se afastou. Ela estava respirando como se estivesse correndo uma maratona, seus lábios úmidos e rosados
de beijos, suas bochechas ardendo.
— Puta m… — Ela começou, então tossiu e corou. — Você tem praticado?
—Não — disse Julian. Ele estava orgulhoso de si mesmo por gerenciar uma sílaba inteira. Ele decidiu
experimentar uma sentença.
— Eu não tenho praticado.
— Ok — Emma respirou. — Ok. Ninguém está pegando fogo, não há nenhum sinal do laço parabatai. Esse é o
máximo de teste que farei agora.
Julian rolou cuidadosamente para o lado dela.
— Mas eu ainda posso dormir na cama, certo?
Seus lábios se curvaram em um sorriso.
— Eu acho que você merece isso, sim.
— Eu posso me arrastar até a beira da cama — ele ofereceu.
— Não force a barra, Julian — disse ela, e rolou contra ele, seu corpo enrolado no dele. Ele colocou os braços
timidamente ao redor dela, e ela se aproximou, fechando os olhos.
—Emma? — Ele disse.
Sem resposta.
Ele não podia acreditar. Ela estava dormindo. Respirando suavemente e regularmente, seu pequeno nariz frio
pressionou sua clavícula. Ela estava dormindo, e ele sentiu como se todo o seu corpo estivesse queimando. As
ondas trêmulas de prazer e desejo que rolaram sobre ele apenas por beijá-la ainda o aturdiam.
Aquilo foi bom. Quase euforicamente bom. E não apenas por causa do que floresceu dentro de suas próprias
células, sua própria pele. Tinha sido Emma, os barulhos que ela fez, o jeito que ela o tocou. Não era o vínculo
parabatai, mas era o vínculo deles. Foi o prazer que ele deu a ela, espelhado de volta nele mil vezes. Era tudo
que ele não conseguia sentir desde o feitiço.
A voz da Rainha veio, indesejada, como um sino e cheia de malícia: Você está na gaiola, garoto.
Ele estremeceu e puxou Emma para si.
* LAPD: Los Angeles Police Department - Departamento de Polícia de Los Angeles.

Um comentário:

  1. Nao sei se fico triste ou feliz.
    Mas esse capítulo foi louco. Aaaaah que pesadelo.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!