10 de abril de 2019

Capítulo 16 - Mil tronos



OBAN E SEUS GUARDAS LEVARAM Mark e Kieran com os olhos vendados através da torre, então, se houvesse
mais reações à presença de Kieran, Mark seria incapaz de notá-los. No entanto, ele ouvira Manuel e Oban rindo
do que o Rei provavelmente faria a Kieran, e também a Mark, e lutara contra suas algemas e a raiva. Como
ousam falar assim quando Kieran podia ouvi-los? Por que alguém teria prazer em tal tortura?
Eles foram levados, finalmente, para uma sala feita de pedras sem janelas e saíram de lá com as mãos ainda
algemadas. Oban retirou as vendas deles enquanto saía do quarto, rindo.
— Olhem uma última vez um para o outro antes de morrerem.
E Mark olhou para Kieran no quarto escuro. Embora não houvessem janelas, a luz se filtrava de uma grade
muito acima. A sala estava fechada e opressiva como o fundo de um poço de elevador.
— É para ser horrível — disse Kieran, respondendo à pergunta que Mark não havia feito. — É aqui que o Rei
deixa os prisioneiros antes de levá-los à sala do trono. É para aterrorizá-los.
— Kieran — Mark se aproximou do outro garoto. — Tudo ficará bem.
Kieran sorriu dolorosamente.
— Isso é o que eu amo nos mortais — disse ele. — Poder dizer essas coisas, para o conforto, não importando se
elas são verdadeiras ou não.
— O que aquela garota te deu? — Mark disse. O cabelo de Kieran estava azul-preto nas sombras. — A
garotinha nos degraus.
— Uma flor — as mãos de Kieran estavam amarradas na frente dele; ele abriu uma e mostrou a Mark a flor
branca esmagada. — Um narciso branco.
— Perdão — disse Mark. Kieran olhou para ele com perplexidade; sua educação não tinha sido focada nas
flores. — As flores têm seus próprios significados. Um narciso branco significa perdão.
Kieran deixou a flor cair de sua mão.
— Eu ouvi as palavras que aquelas pessoas disseram enquanto eu passava pelo pátio — disse ele. — Eu não
me lembro de ter feito tudo aquilo.
— Você acha que seu pai fez você esquecer? — As mãos de Mark começaram a doer.
— Não. Eu acho que isso não importava para mim. Eu acho que fui gentil porque eu era um príncipe,
arrogante e descuidado, e me convinha ser gentil, mas eu poderia facilmente ter sido cruel. Não me lembro de
salvar uma fazenda ou uma criança. Eu estava bêbado por uma vida fácil naqueles dias. Eu não deveria ser
agradecido ou perdoado.
— Kieran…
— E durante a Caçada, eu pensei apenas em mim mesmo — fios brancos dispararam através do cabelo escuro
de Kieran. Ele deixou a cabeça cair de volta contra a parede de pedra.
— Não — disse Mark. — Você pensou em mim. Você foi gentil comigo.
— Eu queria você — Kieran disse, torcendo a boca. — Eu fui gentil com você porque isso me beneficiaria no
final.
Mark sacudiu a cabeça.
— Quando os mortais dizem que as coisas vão dar certo, não é apenas para conforto — disse ele. — Em parte,
é porque nós, como as fadas, não acreditamos em uma verdade absoluta. Nós trazemos nossa própria verdade
para o mundo. Porque acredito que as coisas vão dar certo, ficarei menos infeliz e com menos medo. E porque
você está com raiva de si mesmo, você acredita que tudo o que você fez, você fez por egoísmo.
— Eu tenho sido egoísta — protestou Kieran. — Eu…
— Somos todos egoístas às vezes — disse Mark. — E eu não estou dizendo que você não tem nada para purgar.
Talvez você fosse um príncipe egoísta, mas não era um cruel. Você tinha poder e escolheu usá-lo para ser gentil.
Você poderia ter escolhido o oposto. Não descarte as escolhas que você fez. Elas não eram sem significado.
— Por que você tenta me confortar e me animar? — Kieran disse em uma voz seca, como se sua garganta
doesse. — Eu estava com raiva de você quando você concordou em voltar para sua família na Caçada — eu lhe
disse que nada daquilo era real.
— Como se eu não soubesse por que você disse isso — disse Mark. — Eu ouvi você na Caçada. Quando eles te
açoitavam, quando você era atormentado, você sussurrava para si mesmo que nada daquilo era real. Como se
dissesse que toda a dor era um sonho.
Aquele era um presente que você queria me dar — o dom de escapar da agonia, de recuar para um lugar em
sua mente onde você estaria seguro.
— Eu pensei que os Caçadores de Sombras eram cruéis. Eu pensei que eles iriam te machucar — disse Kieran.
— Com você, com sua família, percebi que estava errado. Pensei que te amava na Caçada, Mark, mas aquilo era
uma sombra do que sinto por você agora, sabendo da bondade que você é capaz.
O raio-élfico na garganta brilhou enquanto subia e descia com sua respiração rápida.
— Na Caçada, você precisava de mim — disse Kieran. — Você precisava tanto de mim que eu nunca soube se
você iria me querer, se você não precisasse de mim. Você quereria?
Mark tropeçou um pouco, aproximando-se de Kieran. Seus pulsos estavam queimando, mas ele não se
importava. Ele pressionou o rosto perto de Kieran, e as mãos amarradas de Kieran pegaram a cintura de Mark,
tentando puxar Mark para mais perto dele. Seus calcanhares levantaram do chão quando ele se inclinou para
Kieran, os dois tentando chegar o mais perto possível, para consolar um ao outro apesar de suas mãos
amarradas.
Mark enterrou o rosto na curva do pescoço de Kieran, respirando seu cheiro familiar: grama e céu. Talvez esta
fosse a última grama e céu que ele sentiria.
A porta da cela se abriu e uma explosão de luz cortou os olhos de Mark. Ele sentiu Kieran ficar tenso contra
ele. Winter, o general dos Capuzes Vermelhos, estava na entrada, a camisa e o boné da cor do velho sangue
enferrujado, as botas de sola de ferro batendo no chão de pedra. Na mão dele havia uma longa arma com ponta
de aço.
— Afastem-se, vocês dois — disse ele, com a voz cortada. — O Rei irá vê-los agora.
***
Emma voou para a frente da cela e lembrou-se dos espinhos bem a tempo, pulando para trás ao tocá-los.
Julian a seguiu com uma hesitação maior.
— Oh, agradeço ao Anjo que vocês estão aqui — disse Emma. — Quero dizer, não que vocês estejam aqui, na
prisão, porque isso é ruim, mas… — ela ergueu as mãos. — Estou feliz em ver vocês.
Clary riu baixinho.
— Nós sabemos o que você quer dizer. Fico feliz em ver vocês também.
Seu rosto estava sujo e seu cabelo vermelho amarrado em um nó na parte de trás de sua cabeça. À luz da
pedra de luz enfeitiçada, Emma podia ver que ela parecia um pouco magra; a jaqueta jeans manchada de sujeira
pendia solta em volta dos ombros. Jace, atrás dela, estava alto e dourado como sempre, os olhos brilhando na
escuridão, o queixo sombreado pela barba áspera.
— O que vocês estão fazendo aqui? — Ele disse, dispensando gentilezas. — Vocês estavam no Reino das
Fadas? Por quê?
— Estávamos em uma missão — disse Julian.
Clary abaixou o rosto.
— Por favor, não me diga que era uma missão para nos encontrar.
— Era para encontrar o Volume Negro dos Mortos. O Inquisidor nos enviou.
Jace parecia incrédulo.
— Robert os enviou até aqui?
Emma e Julian se entreolharam. Houve um silêncio terrível.
Jace se aproximou das barras espinhosas da jaula que o prendiam e a Clary.
— O que quer que vocês não estejam nos dizendo, não se detenham — ele disse. — Se algo aconteceu, vocês
precisam nos contar.
Talvez não surpreendentemente, foi Julian quem falou.
— Robert Lightwood está morto.
A luz da pedra enfeitiçada apagou.
Na escuridão, com sua runa da Visão Noturna inútil, Emma não pôde ver nada. Ela ouviu Jace fazer um
barulho abafado, e Clary sussurrando. Palavras de conforto, palavras tranquilizadoras — Emma tinha certeza
disso. Ela se viu neles, murmurando para Julian no silêncio da noite.
O sussurro parou e a luz da pedra enfeitiçada voltou a acender. Jace a estava segurando em uma mão, a outra
enrolada firmemente em torno de um dos espinhos. Sangue corria entre seus dedos, descendo pelo braço. Emma
imaginou os espinhos apunhalando sua palma e estremeceu.
— E quanto aos outros? — Ele disse em uma voz tão apertada que mal era humana. — E quanto a Alec?
Emma se aproximou da frente da cela.
— Ele está bem — disse ela, e contou, o mais rápido possível, sobre o que havia acontecido, desde o
assassinato de Robert e Livvy por Annabel até a ascensão de Horace como Inquisidor.
Houve um silêncio quando ela terminou, mas pelo menos Jace soltou o espinho.
— Eu sinto muito pela sua irmã — Clary disse suavemente. — Desculpe por não estarmos lá.
Julian não disse nada.
— Não há nada que você possa ter feito — disse Emma.
— O Rei está perto de obter o Volume Negro — disse Jace. Ele abriu e fechou sua mão sangrenta. — Essa é
realmente uma má notícia.
— Mas vocês não vieram aqui por isso — disse Julian. — Vocês vieram aqui para encontrar Ash. Ele é a arma
que vocês estavam procurando, certo?
Clary assentiu.
— Recebemos uma dica do Labirinto Espiral de que havia uma arma no Reino das Fadas que o Rei Unseelie
tinha acesso, algo que poderia anular os poderes dos Caçadores de Sombras.
— Fomos enviados para cá por causa do nosso sangue angelical.
Rumores da ineficácia da magia dos Caçadores de Sombras nas Cortes estavam rodando; os Irmãos do
Silêncio disseram que seríamos mais resistentes aos efeitos — disse Jace. — Não sofremos com o tempo aqui, e
podemos usar runas — ou, pelo menos, podíamos, antes que eles tirassem nossas estelas. Pelo menos ainda
temos isto. — Ele ergueu a luz da pedra enfeitiçada, brilhante, pulsando em sua mão.
— Então, sabíamos que estávamos procurando por algo — disse Clary. — Mas não que era meu… que era Ash.
— Como vocês descobriram isso? — Disse Emma.
— Descobrimos bem cedo que o Rei havia raptado o filho da Rainha Seelie — disse Jace. — É um segredo que
todos sabem nas Cortes.
E, então, na primeira vez que Clary o viu… bem, nós fomos capturados antes de chegarmos perto.
Clary se moveu inquieta dentro da cela.
— Eu soube quem ele era imediatamente. Ele se parece exatamente com meu irmão.
Emma tinha ouvido Julian e Livvy e Mark e Dru dizerem as palavras “meu irmão” mais vezes do que ela podia
contar. Nunca soara como Clary dizia: imbuído de amargura e arrependimento.
— E agora o Rei tem o Volume Negro, o que significa que quase não temos tempo — Jace disse, passando a
mão levemente pela nuca de Clary.
— Tudo bem — disse Julian. — O que exatamente o Rei planeja fazer com o Volume Negro para fazer de Ash
uma arma?
Jace abaixou a voz, embora Emma duvidasse que alguém pudesse ouvi-los.
— Há feitiços no Volume Negro que dariam a Ash certos poderes. O Rei fez algo assim antes…
— Vocês já ouviram falar da Primeira Herdeira? — Clary disse.
— Sim — disse Emma. — Kieran a mencionou — ou pelo menos mencionou a história.
— Foi algo que seu irmão Adaon disse a ele — Julian estava franzindo a testa.
— Kieran disse que seu pai queria o livro desde que a Primeira Herdeira foi roubada. Talvez para ressuscitar a
criança dos mortos?
Mas o que isso tem a ver com Ash?
— É uma história antiga — disse Jace. —Mas, como você sabe, todas as histórias são verdadeiras.
— Ou, pelo menos, são verdadeiras em parte — Clary sorriu para ele. Emma sentiu uma centelha de saudade
— mesmo na escuridão e no frio desta prisão, o amor deles não foi danificado.
Clary se virou para Julian e Emma. — Aprendemos que, há muito tempo, o Rei Unseelie e a Rainha Seelie
decidiram unir as Cortes.
Parte de seus planos envolvia ter um filho juntos, uma criança que seria herdeira de ambas Cortes. Mas isso
não era suficiente para eles — eles queriam criar uma criança fada tão poderosa que ela pudesse destruir os
Nefilins.
— Antes da criança nascer, eles usavam ritos e feitiços para dar à criança “dons” — disse Jace. — Pense na
Bela Adormecida, mas os pais são as fadas más.
— A criança seria perfeitamente linda, uma líder perfeita, inspiradora da lealdade perfeita — disse Clary. —
Mas quando a criança nasceu, ela era uma menina. Nunca havia ocorrido ao Rei que a criança não fosse homem
— sendo quem ele é, ele achava que o líder perfeito tinha que ser um homem. O Rei ficou furioso e pensou que a
Rainha o havia traído. A Rainha, por sua vez, ficou furiosa por ele querer abandonar todo o seu plano só porque
a criança era menina. Então, a criança foi sequestrada e, possivelmente, assassinada.
— Não é de se admirar que o Rei odeie todas as filhas — Emma refletiu.
— O que você quis dizer com “possivelmente”? — Disse Julian.
Jace disse: — Nós não fomos capazes de descobrir o que aconteceu com aquela criança. Ninguém sabe — a
alegação do Rei era de que ela foi sequestrada e assassinada, mas parece que ela escapou do Reino e viveu. —
Ele encolheu os ombros. — O que está claro é que Ash tem nele o sangue das fadas reais, o sangue dos Nefilins e
o sangue dos demônios. O Rei acredita que ele é o candidato perfeito para terminar o que ele começou com a
Primeira Herdeira.
— O fim de todos os Caçadores de Sombras — disse Julian lentamente.
— A praga que o Rei trouxe vem tomando conta lentamente — disse Clary. — Mas se o Rei tem permissão para
realizar os feitiços que ele quer em Ash, Ash se tornará uma arma ainda mais poderosa do que a praga. Nós não
sabemos tudo o que ele poderá fazer, mas ele tem a mesma mistura de sangue seráfico e infernal que Sebastian
tinha.
— Ele seria demoníaco, mas acessível às runas ou à magia angelical — disse Jace. — Ele poderia suportar
runas, mas nada demoníaco poderia machucá-lo. O toque de suas mãos poderia fazer a praga se espalhar como
fogo.
— A praga já está em Idris — disse Emma. — Partes da Floresta Brocelind foram destruídas.
— Precisamos voltar — disse Clary. Ela parecia ainda mais pálida do que antes e mais jovem. Emma lembrouse
de Clary no telhado do Instituto de LA. Sabendo que algo terrível estava chegando. Como uma parede de
escuridão e sangue. Uma sombra que se espalharia pelo mundo e apagaria tudo.
— Não podemos esperar mais — disse Jace. — Temos que sair daqui.
— Eu estou supondo que o desejo de sair daqui não funcionou até agora, já que você ainda está preso — disse
Julian.
Jace estreitou os olhos.
Julian — disse Emma. Ela queria acrescentar um desculpe, ele não tem nenhum sentimento de empatia,
mas ela não o fez, porque, naquele momento, ouviu um grito, seguido por um baque alto. Jace fechou a mão
sobre sua luz enfeitiçada e, na escuridão quase total, Emma se afastou das paredes da cela. Ela não queria
esbarrar acidentalmente nos espinhos.
Houve um rangido quando a porta da prisão se abriu.
— Provavelmente guardas — disse Clary em voz baixa.
Emma olhou para a escuridão sombria. Havia duas figuras vindo na direção deles; ela podia ver o brilho
dourado da trança em uniformes de guarda.
— Está carregando uma espada — sussurrou Emma.
— Eles provavelmente estão vindo atrás de nós — disse Clary. — Nós estamos aqui há mais tempo.
— Não — disse Julian. Emma sabia o que ele estava pensando. Jace e Clary eram reféns valiosos à sua
maneira. Emma e Julian eram ladrões de Caçadores de Sombras que haviam matado um Cavaleiro.
Eles não seriam deixados nas masmorras para definhar. Eles seriam decapitados rapidamente para o
entretenimento da Corte.
— Contra-ataque — Jace disse com urgência. — Se eles abrirem sua cela, lute de volta— Cortana, Emma
pensou em desespero. Cortana!
Mas nada aconteceu. Não havia um peso repentino e reconfortante na mão dela. Apenas uma pressão contra o
ombro dela; Julian tinha se movido para ficar ao lado dela. Sem armas, eles enfrentaram a frente de sua cela.
Houve o som de um suspiro, depois pés correndo — Emma ergueu os punhos.
O menor dos guardas chegou à cela e agarrou uma das videiras, depois gritou de dor. Uma voz murmurou algo
em uma língua de fada, e as tochas ao longo das paredes explodiram em chamas fracas.
Emma se viu olhando através do emaranhado de trepadeiras e espinhos para Cristina, vestindo a farda de um
guarda das fadas, uma espada comprida amarrada nas costas.
— Emma? — Cristina respirou, com os olhos arregalados. — O que você está fazendo aqui?
***
Tome conta de Tiberius.
Kit estava fazendo exatamente isso. Ou pelo menos ele estava olhando para Ty, que parecia perto o suficiente.
Eles estavam na praia abaixo do Instituto; Ty tirara as meias e os sapatos e andava na beira da água. Ele olhou
para Kit, que estava sentado em uma elevação de areia, e chamou-o para mais perto.
— A água não está tão fria! — Ele chamou. — Eu prometo.
Eu acredito em você, Kit queria dizer. Ele sempre acreditou em Ty. Ty não era um mentiroso, a menos que
tivesse que ser, embora fosse bom em esconder coisas. Ele se perguntou o que aconteceria se Helen perguntasse
a eles diretamente se eles estavam tentando trazer Livvy dos mortos.
Talvez ele seria o único que dissesse a verdade. Afinal, ele era o único que realmente não queria fazer isso.
Kit levantou-se lentamente e desceu a praia para se juntar a Ty. As ondas estavam se quebrando a pelo menos
seis metros; no momento em que chegaram ao litoral eram espuma branca e água prateada.
Uma onda se espalhou sobre os pés descalços de Ty e os tênis de Kit ensopados.
Ty estava certo. Não estava tão fria assim.
— Então, amanhã nós vamos ao Mercado das Sombras — disse Ty. O luar tocava as sombras delicadas em seu
rosto. Ele parecia calmo, Kit pensou, e percebeu que fazia muito tempo que não se sentia como se Ty fosse um
arame apertado, batendo ao seu lado.
— Você odiava o Mercado das Sombras em Londres — disse Kit. — Aquilo realmente te incomodou. Os ruídos
e a multidão…
O olhar de Ty foi até Kit.
— Vou usar meus fones de ouvido. Eu ficarei bem.
—… e eu não sei se devemos ir novamente tão cedo — acrescentou Kit. — E se Helen e Aline suspeitarem?
O olhar cinzento de Ty escureceu.
— Julian me disse uma vez — ele disse. — que quando as pessoas continuam criando desculpas para não fazer
algo, é porque elas não querem fazer isso. Você não quer fazer isso? O feitiço, tudo?
A voz de Ty soou firme. Contudo, havia uma vibração nela, pulsante e aguda com tensão. Sob o algodão de sua
camisa, seus ombros finos também se apertaram. O colarinho da camisa estava solto, a delicada linha da
clavícula aparecendo.
Kit sentiu uma onda de ternura por Ty, misturado com quase pânico.
Em outras circunstâncias, ele pensou, ele teria mentido. Mas ele não podia mentir para Ty.
Ele mergulhou mais na água, até que seu jeans estava molhado abaixo dos joelhos. Ele se virou, a espuma das
ondas se espalhando ao redor dele.
— Você não ouviu o que Shade disse? A Livvy que voltará pode não ser nada parecida com a nossa Livvy. Sua
Livvy.
Ty seguiu-o pela água. A névoa estava descendo para tocar a água, envolvendo-os em branco e cinza.
— Se fizermos o feitiço corretamente, ela será. Isso é tudo.
Temos que fazer certo.
Kit podia provar sal em sua boca.
— Eu não sei…
Ty estendeu a mão, varrendo o braço em direção ao horizonte, onde as estrelas começavam a desaparecer na
névoa. O horizonte era uma linha negra manchada de prata. — Livvy está lá fora — disse ele.
— Além de onde eu possa alcançá-la, mas eu posso ouvi-la. Ela diz meu nome. Ela quer que eu a traga de
volta. Ela precisa de mim para trazê-la de volta — o canto da boca de Ty tremeu. — Eu não quero fazer isso sem
você. Mas eu vou se precisar.
Kit deu mais um passo no oceano e parou. Quanto mais fundo ele ia, mais frio ficava. E não era assim com
tudo? ele pensou. Há muitas maneiras de ser ameaçado pela magia.
Eu poderia ir embora, ele disse para si mesmo. Eu poderia deixar Ty fazer isso sozinho. Mas eu não posso
dizer a mim mesmo que não seria o fim da nossa amizade, porque seria. Eu sendo deixado de fora dos planos de
Ty, assim como Helen, assim como Dru. Assim como todo mundo.
Parecia que o ar estava sendo sugado de seus pulmões. Ele girou de volta para Ty. — Ok. Eu vou fazer isso.
Podemos ir ao Mercado das Sombras amanhã.
Ty sorriu. Ou talvez fosse mais correto dizer que um sorriso atravessou seu rosto, como o sol nascendo. Kit
ficou sem fôlego, a água recuando ao redor dele, quando Ty se aproximou e colocou os braços ao redor do
pescoço de Kit.
Ele se lembrava de ter segurado Ty no telhado do Instituto em Londres, mas isso apenas aconteceu porque Ty
estava em pânico.
Foi como segurar um animal selvagem. Este era Ty abraçando-o porque ele queria. O algodão macio da camisa
de Ty, a sensação do cabelo de Ty roçando sua bochecha enquanto ele escondia sua expressão de Ty, enterrando
o rosto no ombro do outro garoto. Ele podia ouvir Ty respirando. Ele passou os braços em volta de Ty, cruzando
as mãos frias sobre as costas dele. Quando Ty se inclinou para ele com um suspiro, ele sentiu como se tivesse
ganhado uma corrida que ele não sabia que estava correndo.
— Não se preocupe — Ty disse baixinho. — Nós vamos tê-la novamente. Eu prometo.
É disso que eu tenho medo. Mas Kit não disse nada em voz alta. Ele segurou Ty, com uma felicidade miserável,
e fechou os olhos contra a luz da lua.
***
— Estamos aqui para ajudá-los — disse o companheiro de Cristina. Emma o reconheceu tardiamente: o
príncipe Adaon, um dos filhos do Rei Unseelie. Ela o viu na última vez que esteve no Reino das Fadas. Ele era um
cavaleiro fada alto com as cores do Unseelie, bonito e de pele escura, com dois punhais em sua cintura. Ele
estendeu a mão para agarrar as videiras de sua cela, que se separaram sob seu toque. Emma contorceu-se
através delas e lançou os braços ao redor de Cristina.
— Cristina — disse ela. — Minha durona maravilhosa.
Cristina sorriu e deu um tapinha nas costas de Emma enquanto Adaon libertou Julian e depois Jace e Clary.
Jace foi o último a escorregar pelas videiras. Ele levantou uma sobrancelha para Julian.
— O que você estava dizendo sobre desejar ser resgatado? — ele disse.
— Não podemos ficar aqui por muito tempo — disse Adaon. — Haverá outros guardas e cavaleiros — Ele olhou
para cima e para baixo na fileira de celas, franzindo a testa. — Onde eles estão?
— Onde estão quem? — disse Emma, soltando Cristina com relutância.
— Mark e Kieran — disse Cristina. — Onde estão Mark e Kieran?
— Eu vim aqui para resgatar meu irmão, não esvaziar as prisões de criminosos do palácio — disse Adaon, que
Emma estava começando a pensar que poderia não ser a pessoa mais alegre do mundo.
— Estamos muito agradecidos por seus esforços — disse Clary. Ela notou que Emma estava tremendo de frio.
Ela tirou a jaqueta jeans e entregou a Emma com um tapinha suave no ombro.
Emma vestiu a jaqueta, com frio e cansada e ferida demais para protestar.
— Mas por que Mark e Kieran estariam aqui? Por que você está aqui, Cristina?
Adaon tinha começado a subir e descer a fila de celas, espiando em cada uma delas. Cristina olhou em volta
nervosamente.
— Mark, Kieran e eu ouvimos que Dearborn mandou vocês em uma missão suicida — ela disse para Emma e
Julian. — Viemos ajudá-los.
— Mas Mark não está com você? — disse Julian, que desviou sua atenção ao ouvir o nome do irmão. — Vocês
se separaram aqui?
Dentro da torre?
— Não. Eles foram sequestrados na estrada, pelo pior dos meus irmãos — disse Adaon, que retornara de sua
busca pelas celas. — Cristina veio me pedir ajuda. Eu sabia que Oban teria trazido Mark e Kieran aqui, mas eu
pensei que eles estariam na prisão — sua boca se fixou em linhas sombrias. — Oban está sempre ansioso. Ele
deve tê-los levado diretamente para o meu pai.
— Você quer dizer para a sala do trono? — disse Emma, um pouco tonta com a rapidez com que as coisas
estavam acontecendo.
— Sim — disse Adaon. — Para o Rei. Eles seriam prêmios valiosos e Oban estaria ansioso para expô-los.
— Eles vão matar Kieran — disse Cristina, um fino fio de pânico em sua voz. — Ele já escapou da execução
uma vez. Eles matarão Mark também.
— Então é melhor chegarmos lá e impedi-los — disse Jace. Debaixo da terra e da barba, ele estava começando
a parecer mais com o Jace que Emma sempre conhecera, o que ela uma vez quis ser — o melhor guerreiro entre
todos os Caçadores de Sombras. — Agora.
Adaon lançou-lhe um olhar desdenhoso.
— É muito perigoso para você, Nefilim.
— Você veio até aqui para salvar o seu irmão — disse Julian, com os olhos em chamas. — Estamos atrás do
meu. Se você quiser nos impedir, terá que usar a força.
— Todos nós devemos ir juntos — disse Clary. — Quanto mais de nós houver, mais facilmente poderemos
derrotar o Rei.
— Mas você é impotente aqui, Nefilim — disse Adaon.
— Não — Jace disse, e a luz da pedra enfeitiçada brilhou em sua mão, luz atravessando seus dedos. Todos eles
ficaram banhados em sua luz branca.
Cristina o olhou com a boca aberta; Adaon mascarou o choque do jeito que as fadas costumavam fazer,
movendo um ou dois músculos faciais levemente.
— Muito bem — ele disse friamente. — Mas não vou me arriscar a ser pego pelos guardas vagando pela torre
abertamente, como tolos.
Todos vocês andem antes de mim. Vocês vão se comportar como meus prisioneiros agora.
— Você quer que nós ajamos como prisioneiros sendo levados para o Rei? — Perguntou Julian, que não parecia
satisfeito com o pensamento.
— Eu quero que vocês pareçam com medo — disse Adaon, puxando sua espada e fazendo sinal para eles irem
à frente dele. — Porque vocês deveriam estar.
***
Diana esperava ser trancada em uma cela nas prisões do Gard, mas foi levada para um quarto
surpreendentemente luxuoso. Um tapete turco cobria o chão e fogo ardia em uma lareira de pedra esculpida.
Poltronas de veludo profundo foram puxadas para perto do fogo; ela sentou-se em uma, rígida de tensão, e olhou
pela janela para os telhados de Idris.
Sua mente estava cheia de Gwyn e Emma e Julian. E se ela tivesse enviado Gwyn para o perigo? Por que ela
achava que ele iria viajar para o Reino das Fadas para encontrar dois Caçadores de Sombras só porque ela
pediu?
Quanto a Emma e Julian, duas palavras circulavam em sua cabeça como tubarões, repetidas vezes.
Missão suicida.
Horace Dearborn entrou, carregando uma bandeja de prata com um jogo de chá. Agora eu já vi de tudo,
pensou Diana, sentando-se e colocando a bandeja em uma mesinha entre eles.
— Diana Wrayburn — disse ele. — Estou querendo ter uma conversa particular com você há um longo tempo.
— Você poderia ter me convidado para ir ao Gard a qualquer momento. Não precisava me prender na floresta.
Ele suspirou profundamente.
— Sinto muito que tenha acontecido dessa forma, mas você estava consorciando com fadas e quebrando a Paz
Fria. Entenda, eu gosto de uma mulher com espírito — seu olhar deslizou sobre ela de um jeito que fez com que
ela estremecesse.
Ela cruzou os braços sobre o peito.
— Onde está Jia?
Horace pegou o bule e começou a derramar o líquido dele. Cada movimento foi medido e calmo.
— Por vontade do Conselho, a Consulesa está sob prisão domiciliar até que sua conexão com as fadas seja
investigada.
Não foi realmente uma surpresa, mas ainda assim pareceu um golpe.
— Não me diga. O julgamento dela será realizado assim que a Espada Mortal for reforjada — disse Diana com
amargura.
Ele balançou a cabeça com entusiasmo.
— Exatamente, exatamente — ele colocou o bule na mesa. — Uma situação infeliz. E você pode vivenciar uma
situação parecida, a menos que esteja disposta a fazer uma barganha comigo.
— Que tipo de barganha?
Ele lhe entregou uma xícara de chá; mecanicamente, Diana a pegou.
— A próxima reunião do Conselho será difícil, pois a Clave entenderá que as decisões futuras deverão ser
tomadas sem a Consulesa. Uma transição de poder é sempre difícil, você não diria?
Diana olhou para ele friamente.
— Deixe-me ser claro — disse Horace e, embora sua expressão fosse fácil e amigável, não havia simpatia em
seus olhos. — Fique do meu lado na próxima reunião do Conselho. Você tem influência sobre as pessoas. Sobre o
Instituto de L.A., sobre o Instituto de Nova Iorque — muitos Institutos vão ouvir você. Se você me apoiar como o
próximo Cônsul, um substituto para Penhallow, eles também o farão.
— As pessoas me ouvem porque eu não comprometo meus valores — disse Diana. — Eles sabem que quando
eu digo alguma coisa, eu acredito nisso. Eu nunca poderia acreditar que você daria um bom Cônsul.
— É mesmo? — A falsa simpatia desapareceu de seu rosto. — Você acha que eu me importo com seus valores,
Diana Wrayburn? Você vai ficar do meu lado, porque se você não fizer isso, revelarei seu segredo para a Clave.
A garganta de Diana se apertou.
— Que segredo?
Horace levantou-se, sua expressão estrondosa.
— Mesmo com toda a sua conversa sobre valores, eu sei que você tem um segredo. Eu sei que você se recusou
a se tornar Líder do Instituto de Los Angeles todos esses anos — deixando um louco no comando —, sei que você
carrega uma sombra com você, Diana Wrayburn, e eu sei o que é. Eu sei que você se submeteu a um tratamento
médico mundano em Bangkok.
Aturdida e furiosa, Diana ficou em silêncio. Como ele sabia? Sua mente viajou: a Clave considerava um
Caçador de Sombras que deixava médicos mundanos examinarem o seu sangue, e aprender seus segredos, um
traidor. Não importava que Catarina tenha encoberto todos os resultados incomuns. Horace iria culpá-la de
qualquer maneira.
— E deixe-me dizer-lhe isto — disse Horace. — Vou usar essa informação o máximo que posso, a menos que
você faça o que eu digo. Você será arrancada daqueles Blackthorns que você tanto ama.
Presa, talvez, ao lado de outros traidores.
— A menos que o quê?
— A menos que você concorde em ficar do meu lado na próxima reunião e declarar que Jia é incompetente e
que eu deveria ser o próximo Cônsul. Você entendeu?
Diana sentiu como se estivesse se vendo através do lado errado de um telescópio, uma pequena figura com
Horace pairando, enorme, sobre ela.
— Entendi.
— E você concordará em dar seu apoio à Tropa?
— Sim — Ela ficou de pé. Ela estava muito consciente de suas roupas rasgadas e sujas — a Tropa não fora
gentil com ela ou com Jia, embora tivessem se rendido.
Horace abriu a boca, talvez para chamar os guardas para levá-la embora. Movendo-se mais rapidamente do
que ela poderia imaginar ser possível, Diana agarrou a espada do Inquisidor do cinto em sua cintura e golpeou.
Horace gritou. Ele cambaleou para trás, ainda gritando e caiu de joelhos; havia sangue em todas as suas
vestes. Seu braço estava pendurado em um ângulo estranho.
Guardas invadiram a sala, mas Diana já havia corrido para a janela e a abrido. Ela se jogou no telhado,
derrapando quase até a borda antes que caísse, pegando os ladrilhos de ardósia para se equilibrar.
Os guardas estavam na janela. Ela ficou de pé e correu pelo telhado, procurando por uma saliência da qual
pudesse se balançar.
Uma sombra passou pela lua, obscurecendo as torres de demônios.
Ela ouviu o som de cascos e ela soube.
Enquanto os guardas se arrastavam pela janela, ela se atirou do telhado.
Diana! — Gwyn guiou Orion, virou-se e estendeu a mão para pegá-la. Ela caiu desajeitadamente, jogando os
braços ao redor do pescoço dele. Mãos fortes envolveram sua cintura; ela olhou para trás uma vez e viu os
rostos pálidos dos guardas observando do teto do Gard enquanto navegavam pela noite.
***
Dru desligou a TV no meio de As abelhas mortais, o que era incomum porque era um dos seus filmes de terror
favoritos. Ela até comprou um par de brincos de abelha de ouro na Praia de Veneza uma vez para poder usá-los
enquanto assistia às cenas de morte por ferrão.
Ela estava muito inquieta para ficar parada, no entanto. A excitação que ela sentiu do lado de fora do 101 Café
ainda lhe arrepiou a nuca.
Foi muito divertido se unir a Kit e Ty, rindo com eles, em seus planos.
Ela tirou as pernas do sofá e saiu descalça para o corredor. Ela pintou as unhas de um pé de verde ácido, mas
ela não sentiu vontade de ficar por perto para fazer o outro. Ela sentiu vontade de encontrar Livvy e se enroscar
com ela na cama, rindo de revistas mundanas desatualizadas.
A dor de lembrar Livvy mudava de momento a momento; às vezes, um incômodo, dolorido, às vezes parecia
que uma agulha quente lhe perfurava a pele. Se Julian ou Emma estivessem aqui, ela poderia ter conversado
com eles sobre isso, ou mesmo com Mark.
Ao passar pela grande escadaria que levava à entrada, ela podia ouvir o som das vozes do Santuário. Helen,
amigável e calma, e Aline, afiada e autoritária. Ela se perguntou se teria ido a qualquer uma delas, mesmo que
não estivessem tão ocupados. Dru não podia imaginar isso.
Ela pensou naquela noite, porém, rindo na parte de trás do carro com Kit e Ty, e o vento do deserto em seus
cabelos. Levava o cheiro de espirradeira branca até no centro de Hollywood. A noite encheu o desejo de fazer
algo dentro dela que ela nem percebeu que estava lá.
Ela chegou aos quartos dos gêmeos. Ty e Livvy sempre tiveram quartos diretamente um do outro; a porta do
quarto de Livvy estava fechada e estava desde que voltaram de Idris.
Dru colocou a mão sobre ela, como se ela pudesse sentir o batimento cardíaco de sua irmã através da
madeira. Livvy pintou a porta vermelha uma vez, e a tinta descascando foi áspera contra os dedos de Dru.
Em um filme de terror, Dru pensou, Livvy apareceria meio apodrecida, agarrando Dru com as mãos mortas. A
ideia não a assustou em nada. Talvez fosse por isso que ela gostava de filmes de terror, pensou Dru; os mortos
nunca ficaram mortos, e os que ficaram para trás estavam ocupados demais vagando pelos bosques para ter
tempo de sofrer ou sentir perda.
Ela saiu da porta de Livvy e foi até a de Ty. Ela bateu, mas havia música tocando no quarto e ela não
conseguiu ouvir uma resposta.
Ela empurrou a porta e congelou.
O rádio estava ligado, Chopin explodindo, mas Ty não estava lá. O
espaço estava gelado. Todas as janelas estavam abertas. Dru quase tropeçou atravessando a sala para fechar a
maior das janelas. Ela olhou para baixo e viu que os livros de Ty estavam espalhados pelo chão, não mais em
fileiras ordenadas por assunto e cor. Sua cadeira de escrivaninha estava em pedaços, suas roupas estavam
espalhadas por toda parte e havia manchas de sangue seco em seus lençóis e fronhas.
Ty. Oh, Ty.
Dru fechou a porta o mais depressa que pôde, sem bater, e correu pelo corredor como se um monstro de um
de seus filmes antigos a estivesse perseguindo.
***
Eles pararam do lado de fora da prisão, onde o cadáver do guarda jazia sobre o baú de madeira que Emma
havia notado antes.
Adaon fez uma careta e usou a ponta da bota para empurrar o corpo do guarda para o lado. Atingiu as lajotas
manchadas de sangue com um baque. Para a perplexidade de Emma, Adaon se ajoelhou e abriu o baú, as
dobradiças gemendo e rangendo.
Seu espanto desapareceu rapidamente. O baú estava cheio de armas - espadas longas, punhais, arcos. Emma
reconheceu a espada que os Cavaleiros tinham tirado dela, e Julian também. Ela esticou o pescoço para olhar,
mas ela não viu o medalhão em nenhum lugar entre os itens confiscados.
Adaon pegou várias espadas. Jace estendeu a mão para uma.
— Venha para o papai — ele cantou.
— Não acredito que você está com uma barba — observou Emma, momentaneamente desviada.
Jace tocou sua bochecha eriçada.
— Bem, já passou uma semana, pelo menos. Espero que me faça parecer viril, como um deus polido.
— Eu odiei — disse Emma.
— Eu gostei — disse Clary lealmente.
— Eu não acredito em você — disse Emma. Ela estendeu a mão para Adaon. — Me dê minha espada. Jace pode
usá-la para fazer a barba.
Adaon olhou para todos eles.
— Vocês não devem portar lâminas. Você não pode estar armado se estiver destinado a ser prisioneiro. Vou
levar as espadas.
— Ele as levantou por cima do ombro como se fossem um monte de gravetos. — Agora venham.
Eles marcharam à frente de Adaon, através dos corredores subterrâneos agora úmidos e familiares. Julian
ficou em silêncio, perdido em pensamentos. O que ele sentiu? Emma se perguntou. Ele amava sua família, ainda,
mas ele havia dito que era diferente agora.
Isso significava que ele não estava com medo por Mark?
Emma se aproximou de Cristina.
— Como você acabou encontrando Adaon? — Ela sussurrou. — Você acabou de bater em seus saltos de rubi e
pediu para ser levada para o filho mais gostoso do Rei Unseelie?
Cristina revirou os olhos.
— Eu vi Adaon em Londres, com Kieran — ela sussurrou. — Ele parecia se importar com Kieran. Eu tomei uma
chance.
— E como você chegou a ele?
— Eu vou te dizer mais tarde. E ele não é o mais gostoso príncipe dos Unseelie. Kieran é o mais gostoso —
disse Cristina, e corou como uma beterraba vermelha.
Emma olhou os músculos de Adaon, que estavam se agrupando espetacularmente sob sua túnica enquanto ele
equilibrava as espadas.
— Eu pensei que Kieran estava na Scholomance?
Cristina suspirou.
— Você perdeu muito. Eu vou te contar tudo, se nós…
— Sobrevivermos? — disse Emma. — Sim. Eu tenho muito a dizer também.
Fiquem quietas! — exclamou Adaon. — Chega de tagarelice, prisioneiros!
Eles emergiram dos túneis subterrâneos para os níveis mais baixos da torre. As fadas Seelie e Unseelie
passavam correndo, indo e voltando. Um Capuz Vermelho passando deu a Adaon uma piscadela ampla.
— Bom trabalho, príncipe — ele rosnou. — Reúna os Nephilim!
—Obrigado — disse Adaon. — Eles são muito barulhentos.
Ele olhou para Cristina e Emma.
— Ainda acha que ele é gostoso? — Cristina murmurou.
— Possivelmente mais — sussurrou Emma. Ela sentiu um desejo insano de rir, apesar da terrível situação. Ela
estava tão feliz de ver Cristina novamente. — Nós vamos passar por isso, e nós vamos voltar para casa, e vamos
contar tudo uma a outra.
— Já chega. Vocês duas se afastem — retrucou Adaon, e Emma timidamente foi caminhar ao lado de Clary.
Eles haviam chegado à parte menos residencial e mais movimentada da torre, com suas fileiras de portas
ricamente decoradas.
Clary parecia exausta, suas roupas manchadas de sangue e sujeira.
— Como você foi pega? — Emma murmurou, mantendo um olho em Adaon.
— Os Cavaleiros de Mannan — disse Clary em voz baixa. — Eles foram destinados a tarefa de guardar Ash.
Tentamos combatê-los, mas eles são mais poderosos aqui do que em nosso mundo. — Ela olhou de lado para
Emma. — Eu ouvi que você matou um deles. Isso é impressionante.
— Eu acho que foi Cortana, não eu.
— Não subestime o poder da lâmina certa — disse Clary. — Eu sinto falta de Heosphoros às vezes. Sinto falta
da sensação dela na minha mão.
Heosphoros, como Cortana, foram forjadas pelo lendário fabricante de armas Wayland, o Ferreiro. Todos os
alunos sabiam que Clary tinha levado a espada para Edom e matado Sebastian Morgenstern, e que ela havia sido
destruída na conflagração resultante.
Clary estava pensando em Sebastian? Sem ser capaz de se conter, Emma sussurrou: — Eu não acho que Ash
tenha que ser como o pai dele. Ele ainda é um garotinho. Ele poderia crescer melhor — mais gentil.
O sorriso de Clary estava triste.
— Então ele chegou até você também.
— O que?
— ‘Um líder perfeito, inspirando a lealdade perfeita — disse Clary. — O rei já fez coisas com Ash, usando seu
sangue, eu acho, para fazê-lo gostar do Primeiro Herdeiro. Quando você falou com ele, queria segui-lo e protegêlo,
não é?
Emma empalideceu.
— Sim, mas…
Príncipe Adaon! — Gritou uma voz áspera. Emma olhou para cima para ver que eles estavam na frente das
filas de Capuzes Vermelhos que guardavam a sala do trono. O líder deles — o que tinha o boné e o uniforme mais
vermelho — olhava para Adaon com alguma surpresa.
— O que é isso?
— Prisioneiros do Rei — Adaon disse.
— Estes foram capturados à uma semana. — O soldado apontou para Jace e Clary.
— Sim, mas eu descobri esses outros na prisão, tentando libertá-los.
— Adaon indicou Cristina, Julian e Emma. — Eles são espiões Nephilim. Eles afirmam que têm informações
para o rei, que trocariam por suas vidas miseráveis e parecidas com vermes.
— Parecidas com vermes? — Julian murmurou. — Jura?
— Espere aqui por um momento — disse o líder. Ele se abaixou através do arco. Um momento depois, ele
retornou, com um leve sorriso no rosto. — Príncipe Adaon, passe. Seu pai o verá e pediu para que eu lhe desse a
expectativa de uma reunião familiar.
Uma reunião familiar. O rei poderia apenas significar a si mesmo, é claro. Mas ele também poderia significar
Kieran e Mark.
Julian também reagiu, se em silêncio. Sua mão apertou como se ele pudesse segurar uma lâmina imaginária, e
seus olhos se fixaram no arco escuro.
— Obrigado, General Winter — disse Adaon, e começou a guiá-los para a frente.
Desta vez eles não estavam andando na sala do trono invisível para todos os olhos. Desta vez eles seriam
vistos. A garganta de Emma estava seca, seu coração batendo forte.
Ao contrário da sala do trono da Rainha Seelie em constante mudança, o santuário interior do rei estava
inalterado. O enorme portal ainda cobria uma parede. Mostrava uma paisagem desértica, onde as árvores saíam
do chão como mãos esqueléticas arranhando o ar. A luz do deserto amarelo-brilhante emprestou um tom não
natural a sala, como se estivessem à luz de chamas invisíveis.
O rei estava em seu trono, seu único olho ardendo em vermelho. Na frente dele estavam Mark e Kieran,
cercados por Capuzes Vermelhos.
As mãos de Mark foram algemadas juntas; Kieran se ajoelhou, seus pulsos amarrados ligados a uma corrente
de metal afundada no chão de pedra. Quando eles se viraram para ver quem tinha entrado, choque e alívio
inundaram o rosto de Mark, seguidos de horror. Havia um corte sangrento na testa de Kieran.
Seus lábios formaram uma única palavra. Cristina.
Cristina deu um suspiro irregular. Emma chegou para pegar o pulso de sua amiga, mas ela estava congelada
no lugar.
Foi Julian quem correu para frente, seu olhar fixo em Mark. Adaon pegou-o com o braço livre e puxou-o de
volta. Emma lembrou-se do que Julian havia dito sobre a necessidade atávica de proteger Ty.
Parecia que ele também sentia por seus outros irmãos: ainda estava lutando quando Adaon se virou e disse
algo para Jace. A runa de Força no antebraço de Jace brilhou quando ele lançou um braço em volta do peito de
Julian, imobilizando-o.
— Controle-o!- Winter, o general dos Capuzes Vermelhos, apontou a ponta do piquete para Julian. Mais
Capuzes Vermelhos tinham entrado para ficar entre os prisioneiros de Adaon e o rei, uma fina linha carmesim.
O corpo de Julian era uma linha tensa de tensão e ódio quando ele olhou para o rei, que estava sorrindo seu
estranho sorriso meio esquelético.
— Muito bem, Adaon — disse o rei. — Ouvi dizer que você frustrou uma tentativa de fuga de nossos
prisioneiros.
Os ombros de Mark caíram. Kieran olhou para o pai com aversão.
— Olhe sua suficiência, meu filho — o rei disse a Kieran. — Seus amigos são todos meus prisioneiros. Não há
esperança para você. — Ele se virou. — Deixe-me vê-los, Adaon.
Com a ponta da espada, Adaon levou Emma e os outros para o trono.
Emma sentiu o peito apertar, lembrando-se da última vez em que estivera diante do Rei dos Unseelie, como
ele havia olhado em seu coração de alguma forma e visto o que ela mais queria, e dado a ela como uma dose de
veneno.
— Você — disse o rei, seus olhos em Emma. — Você lutou meu campeão.
— E ela ganhou — disse Cristina orgulhosa, com as costas retas.
O rei a ignorou.
— E você matou um Cavaleiro, meu Fal. Interessante. — Ele se virou para Julian. —Você interrompeu minha
corte e levou meu filho como refém. Seu sangue está em suas mãos. — Por último ele olhou para Jace e Clary. —
Por causa de vocês, nós sofremos a Paz Fria.
Adaon limpou a garganta.
— Então por que eles ainda estão vivos, pai? Por que você não os matou?
— Não está ajudando — Jace murmurou. Ele soltou Julian, que estava parado como um corredor esperando
pela largada inicial.
— Para avançar contra a Clave — disse o rei, acariciando o braço de seu trono. A pedra foi esculpida com um
padrão de rostos gritando. — Para nós, eles são inimigos. Para a Clave, eles são heróis. É sempre o caminho da
guerra.
— Mas não procuramos o fim da Paz Fria? — disse Adaon. — Se nós devolvêssemos esses prisioneiros à Clave,
poderíamos reabrir as negociações. Encontre um terreno comum. Eles vão ver que não somos todos assassinos
sanguinários, como eles acreditam.
O rei ficou em silêncio por um momento. Ele estava sem expressão, mas havia uma expressão de apreensão no
rosto de Kieran que Emma não gostou.
Por fim, o rei sorriu.
— Adaon, você é verdadeiramente o melhor dos meus filhos.
Em seu coração você anseia por paz que teremos — quando os Nefilins perceberem que temos uma arma que
pode destruir todos eles…
— Ash — Emma sussurrou.
Ela nem pretendia falar em voz alta, mas o rei ouviu. Seu rosto medonho virou-se para ela. Nas profundezas
de suas órbitas oculares cavernosas, luzes pontiagudas brilhavam.
— Venha aqui — disse ele.
Julian fez um barulho de protesto — ou talvez fosse outra coisa; Emma não sabia dizer. Ele estava mordendo o
lábio com força, o sangue escorrendo pelo queixo. Ele não pareceu notar, entretanto, e ele não fez nada para
pará-la quando ela se virou para ir em direção ao Rei. Ela se perguntou se ele sequer tinha notado o sangue.
Ela se aproximou do trono, passando pela linha de Capuzes Vermelhos. Ela se sentiu completamente nua sem
uma arma na mão.
Ela não se sentia tão vulnerável desde que Iarlath a tinha chicoteado contra a árvore de viga rápida.
O rei estendeu a mão.
— Pare — disse ele, e Emma parou. Havia adrenalina o suficiente através dela que ela se sentiu um pouco
bêbada. Ela não queria nada mais do que se atirar no rei, rasgá-lo, socá-lo e chutá-lo.
Mas ela sabia que, se tentasse, estaria morta em um instante. Os Capuzes Vermelhos estavam por toda parte.
— Um de vocês escolherá voltar para a Clave como meu mensageiro — disse o rei. — Poderia ser você.
Emma levantou o queixo.
— Eu não quero levar suas mensagens.
O rei riu.
— Eu não queria que você matasse um dos meus Cavaleiros, mas você matou. Talvez isso seja o seu castigo.
— Castigue-me, mantendo-me aqui — disse Emma. — Deixe os outros irem.
— Uma tentativa nobre, mas estúpida, de um estratagema — disse o rei. — Criança, toda a sabedoria dos
Nephilim poderia caber em uma bolota na mão de uma fada. Vocês são um povo jovem e tolo e, na sua tolice,
você vai morrer. — Ele se inclinou para frente, o ponto de referência brilhando em seu olho direito
desabrochando em um círculo de chamas. — Como você sabe sobre Ash?
— Não! Não! Deixe-o em paz! — Emma girou; o grito de uma mulher atravessou a sala como a varredura de
uma lâmina afiada. Ela se sentiu tensa ainda mais; Ethna e Eochaid entraram na sala, levando Ash entre eles.
Ele estava sem sua coroa de ouro e parecia mal-humorado e zangado.
Correndo atrás dele estava Annabel chorando.
— Pare! Você não fez o suficiente? Pare, eu te digo! Ash é minha responsabilidade…
Ela viu Emma e congelou. Seus olhos se voltaram para Adaon, iluminando Julian, que olhou para ela com ódio
ardente. Jace estava segurando seu ombro novamente.
Ela parecia se encolher em suas roupas — um vestido de linho cinza e jaqueta de lã. Sua mão esquerda era
uma garra que agarrava o verdadeiro volume negro.
— Não — ela gemeu. — Não, não, eu não quis fazer aquilo. Eu não quis…
Emma ouviu um grunhido profundo. Um momento depois, ela percebeu que era Mark, suas correntes
chacoalhando. Annabel ofegou, reconhecendo-o. Ela cambaleou para trás quando um dos soldados disparou em
direção a Mark, levantando o pique.
Mark recuou, mas ele não estava recuando, viu Emma, apenas soltando as correntes que prendiam seus
pulsos. Ele girou, arremessando as correntes ao redor do pescoço do soldado; o pique caiu no chão quando ele
agarrou o comprimento da corrente e sacudiu com força.
O guarda foi atirado para trás, arremessando-se contra seus colegas.
Eles todos tropeçaram. Mark ficou parado e respirando com dificuldade, seus olhos ferozes e duros como
vidro. Winter olhou para ele e Kieran com um olhar pensativo.
— Devo matá-lo por você, meu Rei? — perguntou Winter.
O rei balançou a cabeça, claramente irritado.
— Espanque-o até os ossos mais tarde. Capuzes Vermelhos, sejam mais cautelosos com os prisioneiros. — Ele
zombou. — Eles mordem.
Annabel ainda estava gemendo baixinho. Ela lançou um olhar aterrorizado para Emma, Julian e Mark - o que
era ridículo, Emma pensou, já que todos obviamente eram prisioneiros — e um olhar de desejo de Ash.
Lealdade perfeita, Emma pensou. Não é de admirar que Annabel tenha se ligado tão rapidamente e
firmemente a Ash.
O rei estalou os dedos para Emma.
— Volte para Adaon, garota.
Emma se arrepiou, mas não disse nada. Ela voltou para o outro lado da sala, para Adaon e os outros,
recusando-se a dar ao rei a satisfação de se apressar.
Emma alcançou o resto do grupo assim que Annabel deu outro grito choramingando. Emma ficou ao lado de
Julian, tomando o braço dele.
Seus músculos saltaram sob o toque dela. Ela envolveu a mão em torno de seu antebraço e Jace se afastou
deles, dando-lhes espaço.
Emma podia sentir a forma do pano sangrento amarrado no antebraço de Julian sob seus dedos. Lembre-se do
que Livvy iria querer, ela pensou. Não se mate.
O rei virou-se para Eochaid.
— Dê a Ash sua espada, Cavaleiro.
Eochaid recuou, claramente atordoado. Ele se virou na direção de Ethna, mas ela balançou a cabeça, o cabelo
cor de bronze caindo sobre os ombros. Sua mensagem era clara: faça isso.
Eles assistiram quando Eochaid entregou sua reluzente espada de ouro e bronze. Era grande demais para
Ash, que o pegou com o controle de alguém que estava acostumado a manusear armas, mas não tão grandes e
pesadas. Ele olhou para o rei com olhos chocados.
— Corte a garganta de Kieran, Ash Morgenstern — disse o rei.
Ele nem está fingindo, Emma pensou. Ele não se importa se sabemos exatamente quem é Ash ou não.
— Não! — gritou Mark. Ele pulou em direção a Ash e Kieran, mas os soldados o interromperam. Eles eram
incrivelmente rápidos e estavam irritados agora — ele havia machucado um deles.
Clary ofegou. Emma podia ouvir Cristina sussurrando freneticamente ao lado dela, embora não as palavras
individuais. Kieran ficou onde estava, olhando fixamente à distância como se o rei não tivesse falado.
— Por quê? — disse Ash. Sua voz tremeu. Emma se perguntou se era real ou fingida por simpatia.
— Você deve derramar sangue real — disse o rei — e Kieran é o mais dispensável.
Você é um bastardo! — Mark gritou, lutando contra suas algemas e o aperto dos soldados.
— Isso é demais — Annabel chorou. — Ele é apenas uma criança.
— É por isso que isso deve ser feito agora — disse o rei. — Os Artifícios das Trevas matariam uma criança
mais velha. — Ele se inclinou para frente para olhar Ash no rosto, uma paródia de um adulto preocupado.
— Kieran vai morrer independentemente — disse ele — se a sua mão empunha a lâmina ou não. E se você não
fizer isso, ele morrerá lentamente, com uma dor uivante.
O olhar de Kieran percorreu lentamente a sala — mas não para Ash.
Ele olhou para Cristina, que estava olhando impotente para ele, e depois para Mark, lutando contra o aperto
dos soldados.
Ele sorriu.
Ash deu um passo à frente. A espada estava solta na mão e ele estava mordendo o lábio. Por fim, Kieran olhou
para ele.
— Faça o que você deve, criança — disse ele, sua voz gentil e quieta.
— Eu sei o que é não ter sido dada nenhuma boa escolha pelo Rei da Corte Unseelie.
— Filho ingrato! — latiu o rei, zombando de Kieran. — Ash, agora!
Emma olhou descontroladamente para Julian e os outros. Adaon não poderia ajudá-los; havia muitos soldados
e os Cavaleiros eram impossíveis de lutar.
Mais soldados foram derramados no quarto. Emma levou um momento para perceber que eles estavam
correndo. Fugindo do terror da tempestade que se seguiu — uma figura magra resplandecente em escarlate e
ouro, com cabelos ruivos fluindo ao redor dela como sangue derramado.
A Rainha Seelie.
Uma expressão de surpresa cruzou o rosto do Rei Unseelie, seguido rapidamente por raiva. Ash largou a
espada que estava segurando com um ruído, afastando-se de Kieran quando a Rainha se aproximou.
Emma nunca tinha visto a Rainha Seelie assim. Seus olhos eram brilhantes, ardentes de emoção. Ela era como
um maremoto, correndo em direção ao filho.
Não! — O grito de Annabel era quase desumano. Empurrando o Volume Negro em sua jaqueta, ela disparou
na direção de Ash, com os braços estendidos.
A Rainha Seelie se virou em um movimento suave e estendeu a mão; Annabel voou pelo ar e bateu na parede
de pedra da câmara.
Ela deslizou para o chão, ofegante.
Ela havia dado tempo aos Cavaleiros para se reunirem em torno de Ash. A Rainha andou a passos largos na
direção deles, o rosto radiante de poder e raiva.
— Você não pode tocá-lo — disse Ethna, sua voz cintilando com um zumbido metálico. — Ele pertence ao rei.
— Ele é meu filho — disse a Rainha com desprezo. Seu olhar cintilou entre os dois Cavaleiros. — Vocês são da
magia mais antiga, a magia dos elementos. Vocês merecem mais do que lamber as botas do Rei Unseelie como
cachorros.
Ela desviou o olhar de Ash e foi até o Rei, a luz cintilando em seus cabelos como pequenas chamas.
— Você — disse ela. — Enganador. Suas palavras de uma aliança foram tantas folhas secas sopradas no ar
vazio.
O Rei colocou a cópia do Volume Negro no braço de seu trono e levantou-se. Emma sentiu um raio de
admiração descer por sua espinha. O Rei e a Rainha do Reino das Fadas, enfrentando-se diante dela. Foi como
uma cena da lenda.
Seus dedos coçavam quase insuportavelmente por uma espada.
— Eu faço o que faço porque preciso — disse o rei. — Ninguém mais tem força para fazer isso! Os Nephilins
são nosso maior inimigo. Eles sempre foram. No entanto, você faria tratados com eles, buscaria a paz com eles,
viveria ao lado deles. — Ele zombou. — Deu o seu corpo para eles.
A boca de Emma caiu aberta. Tão rude, ela falou para Cristina.
A Rainha endireitou as costas. Ela ainda era magra e pálida, mas o poder de sua rainha parecia irradiar
através dela como luz através de uma lâmpada.
— Você teve sua chance com a nossa filha, e porque você não acreditava que uma mulher pudesse ser forte,
você a jogou fora. Não lhe darei outro dos meus filhos pelo seu massacre descuidado!
A Primeira Herdeira, Emma pensou . Então é verdade.
Houve um murmúrio de choque na sala — não dos prisioneiros humanos, mas dos Cavaleiros e dos Capuzes
Vermelhos. Um rubor sombrio de raiva passou pelo rosto do rei. Ele estendeu o braço, embainhado até o
cotovelo em uma luva de ouro, em direção ao Portal na parede norte.
— Olhe para este Portal, gloriosa Rainha — disse ele entre dentes, e a imagem no Portal começou a mudar.
Onde antes era uma paisagem desértica, agora era possível ver figuras arremessadas entre os redemoinhos de
areia cor de veneno. O céu acima da paisagem havia se transformado em ferrugem e ouro.
Emma ouviu Clary fazer um barulho estranho de asfixia.
— Eu abri um buraco para outro mundo — disse o rei. — Um mundo cuja própria substância é venenosa para
os Nephilins. Nossas terras já estão protegidas por sua terra e o veneno começa a se espalhar em Idris.
— Não são as linhas ley — sussurrou Cristina. — É a praga.
Eles viraram para olhar o Portal. A cena mudou de novo. Agora mostrava o mesmo deserto no rescaldo de uma
batalha. O sangue manchava a areia vermelha. Corpos estavam espalhados por toda parte, torcidos e
enegrecidos pelo sol. Pequenos gritos e gemidos podiam ser ouvidos, obscurecidos como a lembrança de algo
horrível.
Jace se virou para o rei.
— O que é isso? O que é este mundo? O que é que você fez?
A mão de Clary circulou o pulso de Emma, apertando com força. Sua voz era um sussurro nu.
Aquela sou eu.
Emma olhou através do Portal. O vento soprava areia em rajadas ásperas, descobrindo um corpo em
equipamento preto dos Caçadores de Sombras, o peito aberto e branco mostrando ossos.
Um cacho de cabelo ruivo atravessou a areia, misturando-se com sangue.
— Esse foi o meu sonho — Clary sussurrou. Sua voz estava embargada de lágrimas. Emma ficou congelada,
olhando para o corpo morto de Clary. — Isso é o que eu vi.
A areia explodiu novamente, e o corpo de Clary desapareceu da vista, assim como Jace se virou de volta.
— Que mundo é esse? — ele exigiu.
— Ore para que você nunca tenha que descobrir — disse o Rei.
— A terra de Thule é a morte e choverá a morte em seu mundo. Nas mãos de Ash, será a maior arma já
conhecida.
— E qual será o custo para Ash? — perguntou a Rainha. — Qual será o custo para ele? Você já colocou feitiços
nele. Você já fez ele sangrar. Você usa o sangue dele em volta da sua garganta!
Negue, se puder!
Emma olhou para o frasco ao redor da garganta do rei: ela pensara que era uma poção escarlate. Não era. Ela
se lembrou da cicatriz na garganta de Ash e se sentiu mal.
O rei riu.
— Eu não tenho nenhum desejo de negar isto. Seu sangue é único - sangue Nephilim e sangue demoníaco,
misturado com o sangue dos feéricos. Eu extraio poder disso, embora apenas uma fração do poder que Ash
poderia ter se você me permitir manter o Volume Negro.
O rosto da rainha se torceu.
— Você está vinculado por seu juramento para devolvê-lo para mim, rei.
O rei ficou tenso; Emma não entendia tanto sobre fadas quanto Cristina, mas sabia que, se o rei jurasse que
ele devolveria o livro para a rainha de madrugada, ele não teria escolha a não ser fazê-lo.
— Isso nos trará um poder indescritível. Apenas deixe-me mostrar-lhe…
Não! — Uma mecha de linho cinza e cabelo escuro atravessou a sala e segurou Ash, girando-o para longe
de seus pés.
Ash gritou quando Annabel se apoderou dele. Ela voou com ele através do quarto, o pulso de Ash apertou
firmemente em sua mão.
Os Cavaleiros correram atrás dela, os soldados circulando a porta.
Girando como um coelho preso, ela mostrou os dentes, o pulso de Ash ainda preso no dela.
— Eu vou falar o seu nome! — ela gritou para o Rei, e ele congelou. — Na frente de todas essas pessoas!
Mesmo se você me matar, todos eles terão ouvido a palavra! Agora diga a eles para se afastarem! Eles devem se
afastar!
O Rei fez um som de asfixia. Enquanto a Rainha olhava incrédula, ele cerrou os punhos com tanta força que
suas manoplas se dobraram e se quebraram. Seu metal apunhalou em sua pele e o sangue floresceu ao redor
das bordas irregulares.
— Ela sabe o seu nome? — A Rainha exigiu, sua voz subindo.
Aquela Nephilim sabe seu nome?
— Afastem-se, cavaleiros — disse o Rei em uma voz que soava como se estivesse sendo estrangulado. —
Afastem-se, todos vocês!
Os Cavaleiros e os soldados congelaram. Percebendo o que estava acontecendo, a Rainha gritou e correu em
direção a Annabel, levantando as mãos. Mas ela chegou tarde demais. Jogando os braços ao redor de Ash,
Annabel se lançou para trás através do Portal.
Houve um som de tecido grosso rasgando. O Portal se estendia e se fechava sobre Annabel e Ash. A rainha
derrapou até parar, torcendo o corpo para evitar atravessar o Portal.
Julian respirou fundo. A imagem no Portal havia mudado — agora eles podiam ver Annabel e Ash em pé na
terra devastada, areia rodando sobre eles. A Rainha gritou, estendendo as mãos como se pudesse tocar em Ash e
envolvê-lo em seus braços.
Por um momento Emma quase sentiu pena dela.
A areia voltou a rodar e Ash e Annabel desapareceram de vista. O
Rei caiu em seu trono, com o rosto nas mãos.
A Rainha se afastou do Portal, caminhando em direção ao trono. O
luto e a raiva estavam gravados em suas feições.
— Você trouxe o segundo dos meus filhos até a morte dele, Senhor das Sombras — disse ela. — Nunca haverá
outro.
— Chega de sua tolice! — O Rei estalou. — Eu sou o único que sacrificou algo por nossa filha! — Ele indicou a
ruína de seu rosto, o vislumbre de osso branco onde a carne deveria estar. — Seus filhos sempre foram nada
além de ornamentos para sua vaidade!
A Rainha gritou algo em uma língua que Emma não entendeu e atirou-se ao Rei, tirando uma adaga de joias
do corpete.
— Guardas! — gritou o rei. — Matem ela!
Mas os soldados tinham congelado, encarando em choque a Rainha quando ela derrubou a adaga. O Rei
levantou um braço para se defender. Ele rugiu de dor quando a faca afundou em seu ombro, e o sangue espirrou
no chão abaixo do trono.
Parecia estimular os soldados em ação. Eles correram para a frente para agarrar a Rainha, que os atacou em
fúria. Até os Cavaleiros estavam encarando.
Agora — disse Adaon.
Ele se moveu rapidamente, arremessando as espadas que ele segurava nas mãos ansiosas dos Caçadores de
Sombras que o rodeavam. Emma pegou uma no ar e correu em direção a Mark e Kieran, Julian e Cristina em
ambos os lados dela.
Seus nervos pegaram fogo quando os soldados, percebendo o que estava acontecendo, correram para o
avanço dos Nephilins. Ela odiava cada momento de ficar parada; Quando um soldado se lançou para ela, ela
saltou para o pedregulho mais próximo, afastou-se dele e usou a força de seu rebote para cortar a cabeça de
outro enquanto aterrissava. Sangue pulverizado, vermelho-escuro.
O rosto do Rei estava impregnado de sangue ao ver o que seu filho estava fazendo. — Adaon! — ele berrou, o
som como um rugido, mas Adaon já estava correndo em direção a Mark e Kieran, derrubando os soldados de
lado com golpes selvagens de sua espada larga.
É isso mesmo, Emma pensou com um prazer selvagem, cada um dos seus filhos te odeia, Rei.
Ela girou para engatar outro soldado, sua lâmina colidindo contra sua haste de pique de ferro. Jace e Clary
estavam lutando com mais soldados. Julian e Cristina estavam atrás de Adaon, empurrando em direção a Kieran
e Mark, que estavam cercados por guardas.
— Cavaleiros! — gritou o rei, cuspindo nos lábios. — Parem ele!
Parem Adaon!
Eochaid saltou sobre as cabeças de um grupo de soldados para pousar em frente a Adaon. A espada larga do
príncipe se movia com uma velocidade incrível, aparando a lâmina de Eochaid. Adaon gritou para Cristina e
Julian para chegar a Mark e Kieran, e voltou-se para Eochaid assim que Ethna se aproximou deles, com a espada
desembainhada.
Emma se abaixou, cortando as pernas do soldado; ela disse uma silenciosa oração de agradecimento pela
pulseira de Isabelle, energizando seus golpes enquanto seu próprio corpo enfraquecia. O
guarda caiu em uma confusão de sangue quando Jace correu para o lado de Adaon. Sua espada bateu contra
Ethna com um tinido.
E Emma lembrou porque ela sempre quis ser Jace Herondale quando ela era criança. Sua espada voou ao
redor dele como a luz do sol dançando na água, e por vários momentos ele empurrou Ethna para trás, enquanto
Adaon pressionava Eochaid, afastando-o do trono e de Kieran e Mark.
Clary saltou sobre uma pedra, aterrissando ao lado de Emma; ela estava ofegando e sua espada estava
encharcada de sangue.
— Nós temos que segurar os soldados — disse ela. — Venha comigo!
Emma correu atrás dela, golpeando os guardas enquanto corria.
Um grupo de soldados incluindo o General Winter havia cercado Cristina e Julian, impedindo-os de se
aproximarem de Kieran e Mark.
Emma saltou para a parede áspera da sala do trono. Ela subiu com uma das mãos, olhando para o caos abaixo.
A Rainha e o Rei estavam lutando de um lado para outro diante do trono. Adaon e Jace estavam se segurando
contra os Cavaleiros, embora Adaon tivesse um longo corte em um ombro que estava sangrando livremente. E
Clary estava girando, rapidamente, golpeando os guardas vermelhos e, em seguida, se afastando com uma
rapidez surpreendente.
Emma se jogou para longe da parede, o ar passando por ela enquanto girava e torcia, aterrissando as botas
primeiro e enviando Winter para o chão. Os outros soldados se apressaram e ela balançou a lâmina em um arco,
cortando as pontas de suas piquetes.
Ela se afastou de Winter e avançou sobre os outros guardas, sua espada arqueando no ar.
— Eu matei Fal, o Cavaleiro — ela disse em sua voz mais ameaçadora. — Eu vou matar vocês também.
Eles empalideceram acentuadamente. Vários recuaram, pois atrás deles Julian e Cristina correram para Mark
e Kieran. Julian levou Mark a seus pés, derrubando sua espada para cortar a corrente que ligava os pulsos de
Mark. Eles se soltaram, cada um ainda segurando uma pulseira de ferro.
Mark segurou seu irmão com os braços algemados e o abraçou rapidamente, ferozmente. Os olhos de Emma
se arrepiaram, mas não houve tempo para olhá-los; ela girou e chutou e cortou, o mundo um caos de prata e gelo
e sangue.
Emma ouviu Cristina chamar seu nome.
Gelo virou fogo. Ela correu em direção ao som, saltou sobre pedras tombadas e encontrou Cristina em pé com
uma lâmina quebrada na mão. Kieran ainda estava ajoelhado, pedaços da espada quebrada espalhados pela
corrente que prendia seus pulsos à terra.
Emma, por favor… — Cristina começou, mas Emma já estava abaixando a espada. Não era Cortana, mas
serviu; a corrente quebrou e Kieran saltou para seus pés. Cristina agarrou-o pelo braço.
— Temos de ir — disse ela, com os olhos frenéticos. — Eu posso usar o artefato para voltar.
— Chame todo mundo para você — disse Emma. Ela apertou sua espada na mão de Cristina. — Eu preciso
pegar a cópia do Volume Negro.
Cristina tentou empurrar a espada de volta para Emma.
— O que? Onde?
Mas Emma já estava correndo, chutando o chão irregular para se lançar nos degraus do trono. Ela ouviu o Rei
berrar; ela ouviu Julian gritar seu nome. Ela chegou ao topo dos degraus. O trono se erguia diante dela, escuro e
granito, as páginas encadernadas na impressora do Volume Negro repousando sobre um grande braço de pedra.
Emma pegou o livro e se virou bem a tempo de ouvir Adaon gritar, um grito de dor rouca. Eochaid o tinha
preso contra o lado de uma pedra enorme. A frente da túnica de Adaon estava encharcada de sangue e a espada
de Eochaid lhe beijou a garganta.
— Devo matá-lo, Rei? — Eochaid disse em uma voz alegre.
A maioria dos transeuntes na sala havia congelado. Cristina colocou a mão sobre a boca; foi ela quem trouxe
Adaon aqui, afinal.
Até os soldados estavam encarando.
— Seu filho traidor? Devo acabar com a vida dele?
A Rainha começou a rir. Soldados a pegaram pelos braços, mas ela ainda estava sorrindo seu sorriso estranho
e felino.
— Oh, meu senhor — disse ela. — Existe um dos seus filhos que não odeia o seu nome?
O Rei mostrou os dentes.
— Corte-lhe a garganta — disse ele a Eochaid.
Os músculos de Adaon ficaram tensos. O cérebro de Emma trabalhou freneticamente — ela viu Kieran
começar a avançar, mas não havia como chegar a Adaon a tempo — Eochaid ergueu a lâmina como um carrasco,
o outro braço apoiado no peito de Adaon.
Houve um horrível choro de asfixia. Adaon, Emma pensou descontroladamente, tropeçando escada abaixo,
mas não, Eochaid estava se afastando de seu prisioneiro, sua espada ainda levantada, seu rosto contorcido de
surpresa.
O Rei estava caindo de joelhos, o sangue escorrendo livremente pela frente do seu rico gibão. A mão de Kieran
ainda estava levantada no ar. Algo se projetava da garganta do rei — uma lasca do que parecia quase vidro…
A ponta de flecha de elfo, Emma percebeu com um sobressalto.
Kieran tinha atirado seu colar no Rei com uma força incrível.
Eochaid e Ethna correram em direção ao Rei, com as espadas reluzentes na mão, os rostos de desalento.
Adaon também andou em direção ao pai. Kieran não se mexeu. Ele estava apoiado no ombro de Cristina, o rosto
inexpressivo.
Ajoelhado, o Rei agarrou sua garganta. Para o choque de Emma, ele parecia estar enfraquecendo — sua mão
agarrou o raio elfo embutido e depois caiu para o lado, pendendo inutilmente.
Adaon olhou para ele.
— Pai — disse ele em voz baixa. — Me perdoe.
O rosto de Ethna se contorceu em uma máscara. Jace e Clary, ambos ensanguentados e imundos, estavam
olhando maravilhados.
Distantemente, Emma sabia que ela estava vendo algo notável. A morte de um Rei que governou por mil anos.
Ethna se virou para encarar Kieran.
— Matador de Reis! — ela chorou.
— Ele estava tentando salvar Adaon! — Mark gritou de volta. — Você é cego, Cavaleiro?
— Porque ele quer ser Rei — rosnou Eochaid. — Porque ele quer o trono!
A Rainha começou a rir. Ela se soltou dos soldados que a seguravam como se o toque deles não passasse de
teias de aranha, embora vários caíssem gritando no chão, as palmas das mãos queimadas e enegrecidas, os
dedos estalando.
— Eles já vasculham seu trono como cães se preocupando com um osso — disse ela ao Rei, enquanto o sangue
escorria dos cantos de sua boca e seus olhos se voltavam para os brancos.
Ela agarrou Adaon pelo braço. Ele gritou em choque e dor; o cabelo da Rainha chicoteava ao redor deles
enquanto ela sorria para o rei.
— Você levou meu filho — disse ela. — Agora eu levo o seu.
Ela desapareceu e Adaon desapareceu com ela. O Rei soltou um grito e caiu no chão, esbarrando na terra com
as mãos amontadas. Sua coroa caiu de sua cabeça e atingiu o chão de pedra quando ele sufocou palavras
truncadas.
Talvez ele estivesse tentando dizer o nome da Rainha, talvez o de Adaon. Talvez até o de Kieran. Emma nunca
saberia. O corpo do Rei endureceu e caiu, e Eochaid e Ethna gritaram.
Ele tinha morrido. Mas o sangue dele continuou a correr ao redor dele, serpenteando pelo chão em riachos.
Os soldados estavam se afastando do corpo do Rei, seus rostos eram máscaras de horror.
Winter abaixou sua arma que ele estava mirando em Emma.
— O rei está morto! O rei Arawn está morto! — gritou ele, e Emma percebeu que devia ser verdade: era
seguro falar o verdadeiro nome do rei, agora que ele não estava mais vivo.
Os soldados fugiram - exceto Winter, que se manteve firme — saindo da sala do trono em um rio de carmesim.
Cristina estava gritando pelos outros Caçadores de Sombras; ela segurou Mark por uma mão, e ele agarrou um
Kieran de aparência atordoada. Jace e Clary estavam lutando sobre uma pilha de pedras para chegar até eles.
Julian estava a poucos metros de distância; Emma começou a correr quando o corpo do rei explodiu em
chamas.
Ela lançou um olhar para trás por cima do ombro. O rei estava queimando e o chão também estava em toda
parte que seu sangue havia derramado - pequenos fogos e outros maiores, ardendo ferozmente e quentes,
consumindo o chão de pedra como se estivesse queimando. O corpo do rei já havia desaparecido atrás de uma
folha de chamas.
Uma figura surgiu da fumaça, impedindo Emma.
Era Ethna. Ela brilhou toda como uma arma, sua armadura de bronze não foi alterada, seus olhos metálicos
brilhando com sede de sangue.
— Meu juramento ao rei morreu com ele — disse ela, mostrando os dentes. — Sua vida está perdida agora,
assassina!
Ela atacou Emma, que estava sem sua espada. Ela jogou a cópia do Volume Negro e a espada de Ethna
mergulhou nela. Ethna atirou-a para o lado com desgosto; os restos rasgados do livro pousaram no chão em
chamas, suas páginas explodindo em chamas.
Emma podia ouvir Clary chamando ela e os outros, gritando para ela vir rapidamente. Ela percebeu com um
coração que eles não deviam ser capazes de vê-la; eles não saberiam que ela precisava de ajuda, eles não
saberiam A lâmina de Ethna voou pelo ar, o bronze cortou a fumaça. Emma se virou e caiu no chão, rolando para
evitar os golpes que se seguiram.
Cada vez que a lâmina de Ethna mal a sentia, cortava um buraco profundo no chão de pedra.
Estava ficando mais difícil para Emma respirar. Ela ficou de joelhos, apenas para que Ethna colocasse um pé
em seu ombro. Ela empurrou, e Emma se esparramou para trás, batendo no chão com força.
— Morra de costas, vadia — disse Ethna, erguendo a espada para o alto.
Emma jogou as mãos para cima como se pudessem afastar a lâmina.
Ethna riu e desceu…
E tombou de lado. Emma ficou de pé, engasgada com a fumaça e a descrença.
Julian.
Ele havia se jogado sobre Ethna e estava ajoelhado de costas, apunhalando-a repetidamente com algo
apertado em seu punho.
Emma percebeu com um choque que era a estatueta de ferro que Simon havia dado a ele. Ethna estava
gritando, tentando se afastar do ferro. Emma girou ao redor: a sala estava em chamas, os pedregulhos brilhando
como carvão em brasa. A dor quente esfaqueou seu lado; um carvão caíra na manga do casaco dela. Ela
arrancou furiosamente e pisou nele, apagando o fogo. Desculpe, Clary.
Ela pensou que ainda podia ver as figuras sombrias dos outros através da fumaça. A superfície do Portal
parecia ondular como vidro derretido.
— Julian! — ela gritou, e estendeu a mão. — Deixe-a! Temos que ir para os outros!
Ele olhou para cima, com os olhos selvagens de raiva, e Ethna se afastou dele com um grito de raiva e dor.
Julian aterrissou de pé, já correndo em direção a Emma. Juntos, eles fugiram em direção ao som da voz de
Cristina, levantando-se e desesperados, gritando seus nomes. Emma achou que também podia ouvir Mark e os
outros.
Uma folha de chamas resplandeceu do chão, repelindo-as. Eles se viraram, procurando uma maneira de
contorná-lo, e Emma engasgou: Ethna e Eochaid estavam caminhando na direção deles, Ethna ensanguentada e
gritante, Eochaid brilhando e com um olhar mortal.
Os Cavaleiros estavam no centro de seu poder. Emma e Julian estavam famintos, exaustos e enfraquecidos. O
coração de Emma afundou.
— Cristina! — ela gritou. — Vai! Vai! Saia daqui!
Julian segurou seu pulso.
— Só há um jeito.
Seus olhos se voltaram para o Portal — ela ficou tensa, depois assentiu — e os dois saíram correndo, no
momento em que os Cavaleiros começaram a erguer as espadas.
Emma ouviu-os gritarem em confusão e desapontada sede de sangue. Ela não se importou; o Portal se erguia
diante dela como a janela escura de um edifício alto, toda sombra e brilho.
Ela alcançou e saltou, a mão de Julian na dela, e juntos eles navegaram pelo Portal.
***
Diego não tinha certeza de quanto tempo ele estava na cela de pedra estéril. Não havia janelas nem senso de
tempo. Ele sabia que Rayan e Divya estavam na mesma prisão, mas as espessas paredes de pedra das celas os
impediam de gritar ou chamar uns aos outros.
Era quase um alívio quando havia passos no corredor e — em vez do guarda costumeiro que vinha duas vezes
por dia com um prato de comida sem graça —, Zara apareceu, resplandecente em equipamentos de Centurião.
Ele teria pensado que ela estaria sorrindo, mas ela estava estranhamente inexpressiva. Cortana foi amarrada a
seu lado, e ela acariciou seu punho distraidamente enquanto olhava para ele através das barras, como se
estivesse acariciando a cabeça de um cachorro.
— Meu querido noivo — disse ela. — Como você está achando as acomodações? Não é muito frio e hostil?
Ele não disse nada. A runa de Quietude que a Tropa havia colocado nele tinha sido removida quase
imediatamente após a reunião, mas isso não significava que ele tinha algo para conversar com Zara.
— E pensar que — ela continuou. — Se você tivesse jogado suas cartas de forma um pouco diferente, você
poderia estar morando na torre do Gard comigo.
— E isso não teria sido frio e hostil? — cuspiu Diego. — Morando com alguém que eu odeio?
Ela se encolheu um pouco. Diego ficou surpreso. Certamente ela sabia que eles se odiavam?
— Você não tem razão para me odiar — disse ela. — Eu sou a única que foi traída. Você era uma perspectiva
de casamento conveniente.
Agora você é um traidor. Seria uma vergonha se eu me casasse com você.
Diego deixou a cabeça cair contra a parede.
— Bom — ele disse cansado. — Você tirou tudo de mim. Pelo menos não preciso mais fingir que amo você.
Seus lábios se apertaram.
— Eu sei que você nunca pretendeu passar pelo casamento.
Você estava apenas tentando ganhar tempo para o seu irmão vigilante. Ainda assim, farei um acordo. Você diz
que Jaime ainda tem o artefato das fadas. Nós o queremos. Deveria estar nas mãos do governo. — Seus lábios se
torceram em um sorriso feio. — Se você nos disser onde encontrá-lo, eu perdoarei você.
— Eu não tenho a menor ideia — disse Diego. — E carregar essa espada não fará de você Emma Carstairs.
Ela olhou para ele.
— Você não deveria ter dito isso. Sabe a coisa sobre como eu já tirei tudo de você. Você ainda tem muito a
perder. — ela virou a cabeça. — Milo? Traga o segundo prisioneiro para a frente.
Houve um borrão de movimento no sombrio corredor e a porta da cela se abriu. Diego se esticou para frente
quando uma figura escura foi atirada na cela ao lado dele.
Milo fechou a porta e trancou-a quando o recém-chegado gemeu e sentou-se. O coração de Diego se revirou
no peito. Mesmo machucado e sangrando, com o lábio cortado e uma cicatriz queimada em sua bochecha, ele
reconheceria seu irmão mais novo em qualquer lugar.
Jaime — ele respirou.
— Ele parece não saber mais sobre o artefato do que você — disse Zara. — Mas, sem a Espada Mortal, não
podemos fazê-lo dizer a verdade. Então temos que recorrer a métodos mais antiquados de lidar com mentirosos
e traidores. — Ela traçou o cabo de Cortana com os dedos amorosos. — Eu tenho certeza que você sabe o que
quero dizer.
— Jaime — disse Diego novamente. O teto era baixo demais para ele se levantar; ele se arrastou pelo chão até
o irmão, puxando Jaime contra ele.
Jaime, semiconsciente, recostou-se no ombro dele, com os olhos quase fechados. Suas roupas estavam
rasgadas e molhadas de sangue. Diego sentiu um medo frio em seu coração: Que feridas estavam por baixo?
Hola, hermano — Jaime sussurrou.
— Durante suas discussões com o Inquisidor sobre a localização do artefato, seu irmão ficou superexcitado.
Ele precisava ser subjugado.
— Agora Zara sorria. — Os guardas acidentalmente, digamos, o feriram. Seria uma pena se seus ferimentos
fossem infectados ou se ele morresse porque não tinha atendimento médico adequado.
— Dê-me uma estela — sibilou Diego. Ele nunca odiou mais ninguém do que odiou Zara naquele momento. —
Ele precisa de um iratze.
— Dê-me o artefato — disse Zara. — E ele pode ter um.
Diego não disse nada. Não fazia ideia de onde estava a Eternidad, a herança que Jaime sofrera tanto para
proteger. Ele segurou seu irmão mais apertado, seus lábios pressionados juntos. Ele não imploraria a Zara por
misericórdia.
— Não? Como você quiser. Talvez quando seu irmão estiver gritando com febre, você se sinta diferente.
Chame por mim, Diego querido, se você mudar de ideia.
***
Manuel entrou na sala do trono, sorrindo, Oban nos calcanhares.
Manuel não pôde impedir o sorriso; como ele às vezes dizia às pessoas, era apenas a expressão natural de seu
rosto. Era verdade que ele também gostava de caos, e agora, havia caos em abundância para agradá-lo.
A sala do trono parecia carbonizada, as paredes de pedra e o chão manchados de cinza negra. O lugar
cheirava a sangue e enxofre.
Corpos de soldados estavam espalhados no chão, um coberto por uma tapeçaria de aparência cara. Na parede
oposta, o portal encolhido mostrava uma praia à noite, sob uma lua vermelha.
Oban estalou a língua, que Manuel aprendera ser o equivalente das fadas a soltar um assobio baixo.
— O que aconteceu aqui? Parece o resultado de uma das minhas festas mais famosas.
Manuel cutucou o monte coberto de tapeçaria com o dedo do pé.
— E os campos do lado de fora estão cheios de Seelie em fuga, agora que a Rainha se foi — prosseguiu Oban.
— Manuel, eu exijo uma explicação. Onde está o meu pai?
Winter, o sombrio líder dos Capuzes Vermelhos, aproximou-se deles.
Ele estava coberto de sangue e cinzas.
— Príncipe — disse ele. — Seu pai está aqui.
Ele indicou o monte que Manuel estava cutucando com o dedo do pé.
Manuel se inclinou e puxou a tapeçaria de volta. A coisa embaixo não parecia humana, ou feérica, ou como se
tivesse vivido alguma vez.
Era o contorno enegrecido e desmoronado de um homem em cinzas, o rosto um rito. Algo brilhou em sua
garganta.
Manuel se ajoelhou para pegá-lo. Um frasco de vidro gravado de líquido escarlate. Interessante. Ele colocou
no bolso do paletó.
— O que é isso? — perguntou Oban. Por um momento, Manuel sentiu uma pontada de preocupação por Oban
ter escolhido se interessar por algo importante. Felizmente, não era esse o caso — Oban tinha visto um reluzente
colar de elfo entre os restos mortais de seu pai. Ele se inclinou para pegar a coisa brilhante, deixando-a balançar
entre os dedos. — Kieran? — ele disse incrédulo. — Kieran matou nosso pai?
— Isso importa? — disse Manuel em voz baixa. — O velho está morto. São boas notícias.
De fato. O Rei anterior tinha sido um aliado desconfortável, se alguém pudesse chamá-lo de aliado. Embora a
Tropa o tivesse ajudado a espalhar a praga em Idris e isso o tivesse agradado, ele nunca confiara neles nem se
interessara por seus planos maiores.
Nem os avisara de sua intenção de tomar o Volume Negro, um acontecimento que irritara muito Horace.
Oban seria diferente. Ele confiaria naqueles que o colocaram no poder.
Ele era um tolo.
— Isso poderia dar a Kieran o direito de reivindicar o trono, se isso fosse conhecido — disse Oban, seu rosto
bonito e sombrio escurecendo. — Quem viu o Rei morto? E os companheiros Nephilim de Kieran?
— Meus soldados viram, mas eles não vão falar — disse Winter quando Oban se mudou para o trono. A coroa
do rei descansou em seu assento, brilhando fracamente. — O Príncipe Kieran fugiu com a maioria dos Nephilim
para o mundo humano.
O rosto de Oban se apertou.
— Onde ele pode se gabar de matar nosso pai?
— Eu não acho que ele vai fazer isso — disse o general. Um olhar de alívio cruzou o rosto de Oban. Ele tendia
a responder como massa a qualquer autoridade, pensou Manuel. — Ele parece amar muito aqueles Nephilim
com quem ele fez amizade, e eles a ele. Eu não acho que ele quer o trono, ou os colocaria em perigo.
— Vamos ficar de olho — disse Oban. — Onde está Adaon?
— Adaon foi feito prisioneiro pela Rainha Seelie.
— Adaon foi feito prisioneiro? — perguntou Oban, e quando Winter assentiu, ele riu e caiu no assento do
trono. — E o filho da Rainha, o pirralho?
— Foi com a bruxa morta-viva, através do Portal — disse o general. — Não parece provável que eles vão
sobreviver por muito tempo.
— Bem, o reino não pode continuar sem um governante. Parece que meu destino me encontrou. — Oban
entregou a coroa a Winter. — Coroe-me.
Com a morte do Rei, o Portal estava desaparecendo. Agora era do tamanho de uma vigia em um barco.
Através do pequeno círculo, Manuel podia ver uma cidade morta, torres arruinadas e estradas quebradas. Algo
estava no chão perto do Portal, entre os sinais de uma briga. Manuel parou para pegá-lo; era uma jaqueta de
jeans sangrenta.
Ele franziu a testa, virando-a nas mãos. Era uma jaqueta pequena, uma garota, cortada e ensanguentada, com
uma manga parcialmente queimada. Ele enfiou os dedos no bolso do paletó e retirou um anel estampado com
borboletas.
Fairchild.
Manuel retornou a Oban no momento em que Winter colocou a coroa na cabeça do príncipe, parecendo
extremamente desconfortável.
Manuel sacudiu a jaqueta na direção de Winter.
— Você disse que a maioria dos Nephilins retornou ao mundo humano. O que aconteceu com a garota que
usava isso? A menina e o menino, os prisioneiros dos Nephilim?
— Eles passaram pelo Portal. — Winter gesticulou em direção a ele.
— Eles são tão bons quanto mortos. Aquela terra é venenosa, especialmente para aqueles como eles. — Ele se
afastou de Oban. — Você é o Rei agora, senhor.
Oban tocou a coroa em sua cabeça e riu.
— Traga vinho, Winter! Estou ressecado! Esvazie as adegas! As mais belas donzelas e jovens da corte, tragam
para mim! Hoje é um grande dia!
Manuel sorriu para a jaqueta ensanguentada.
— Sim. Hoje é de fato um dia para a celebração.

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