5 de abril de 2019

Capítulo 14

Elena se revirava inquieta na cama, enrolada no lençol, e virou o travesseiro para colocar o rosto no lado mais frio. Do outro lado do quarto, Meredith murmurou alguma coisa dormindo, depois silenciou.
Estava exausta, mas não conseguia dormir. Levaram muito tempo para conduzir o garoto que o vampiro atacara do bosque até seu alojamento e mais tempo ainda para Stefan Influenciá-lo a esquecer o que tinha acontecido. E eles não sabiam se o Poder de Stefan tinha funcionado inteiramente no garoto: graças à dieta de sangue animal de Stefan, seu Poder não era tão forte como o de outros vampiros de sua idade que se alimentavam de humanos.
Mas não era isso que a preocupava, que agora mantinha Elena acordada. Não conseguia dormir por que não se livrava da sensação que teve no bosque, de algo sombrio e maligno a atraindo, seu Poder tentando levá-la a algum lugar. Na realidade, agora esta sensação era mais forte. Algo insistente a puxava em seu íntimo, dizendo-lhe agora e rápido.
Elena se sentou na cama. O Poder dentro dela queria que ela saísse atrás do que havia de errado lá fora, queria que ela fizesse o que era certo. Ela tinha que fazer isso — não havia dúvida.
Ela olhou as camas de Meredith e Bonnie. Meredith estava deitada de costas, um braço fino atravessado sobre os olhos, enquanto Bonnie estava de lado, bem enroscada, uma das mãos enfiada sob o rosto, parecendo incrivelmente jovem.
Elas iam querer que Elena as acordasse, que as levasse.
Descartou a ideia quase de imediato. Pensou em Stefan, alguns andares acima, provavelmente lendo ou sentado na sacada vendo as estrelas, mas também afastou com relutância a ideia de chamá-lo. O que quer que estivesse lá fora, seu Poder lhe dizia que era só para ela. Confiava em seu Poder: Andrés disse que suas habilidades seriam ativadas quando precisasse delas. Seu Poder a manteria sã e salva.
Elena saiu da cama, com o cuidado de se mover com tanta leveza que nem Meredith acordaria, e vestiu jeans e suéter. Levando as botas para calçar no corredor, foi até a porta na ponta dos pés.
Estava muito escuro quando atravessou o pátio, a lua pairando baixa acima do telhado do campus. Elena correu, sem saber se era o frio no ar ou a sensação de formigamento que a incitava e a fazia tremer.
Aquela atração ficou mais forte à medida que deixava o campus e se aventurava pelo bosque. Mesmo sem acender a lanterna que tinha no bolso, Elena andava com a segurança que tinha à luz do dia.
A sensação de algo errado era cada vez mais forte. O coração de Elena palpitava. Talvez devesse ter dito a alguém aonde ia, pensou. Pelo menos podia ter deixado um bilhete. Stefan poderia encontrá-la, se ela não voltasse? E se, sozinha no bosque, desse com Klaus? Seu Poder poderia protegê-la?
De repente, com um choque agudo, a atração em seu peito ficou intensa, sufocante, e com a mesma rapidez a deixou. Algo se movia na escuridão diante dela, e Elena acendeu a lanterna.
Sentado em um tronco no meio do bosque, no escuro, estava Damon. À luz da lanterna, seus olhos brilharam, pretos como um besouro.
Damon. Vê-lo era como levar um chute na barriga, e Elena arquejou. Damon. Ela passou mais de um ano absorvida nele, concentrada em Damon, Stefan, em si mesma, nas relações distorcidas e complicadas entre todos eles. E então, de repente, ele se foi.
E agora, ali estava ele.
Ele estava... bom, ele estava palpável como sempre, pele macia e cabelo liso, músculos magros e poderosos. Como um animal selvagem que ela quisesse acariciar, mesmo sabendo que era perigoso demais tocá-lo. Tomou sua decisão entre os irmãos e estava simplesmente feliz assim: era Stefan que queria. Mas isso não significa que fosse cega à beleza de Damon.
Mas, palpável ou não, a expressão de Damon agora parecia tão rígida como se entalhada em mármore branco. Ele voltou os olhos insondáveis para ela, erguendo a mão para bloquear o facho de luz da lanterna.
— Damon? — Elena ficou insegura, baixando a lanterna.
Em geral, alguma coisa em Damon parecia se abrandar quando a via, mas agora ele enrijeceu e ficou em silêncio. Depois de um momento, ela procurou dentro de si aquele novo Poder que descobrira e tentou ver a aura de Damon.
Oh. Isso era muito ruim. Havia uma nuvem escura em volta de Damon. Não era o simples mal, mas havia maldade ali, e dor, e algo mais — uma espécie de distância sombria, como se ele estivesse se entorpecendo contra alguma dor. Preto, cinza e um curioso azul opaco rodopiavam em volta dele, filetes disparando inesperadamente e se retraindo para tão perto de seu corpo que ela mal conseguia enxergar. Damon não movia um músculo ao olhá-la fixamente, mas sua aura estava agitada.
E enroscando-se por tudo havia uma fina rede cor de sangue seco como a que permeava a aura do vampiro que Stefan matara mais cedo, naquela mesma noite.
— Você esteve se alimentando de alguém? — perguntou ela abruptamente.  O que explicaria a força da atração, a sensação de algo errado que teve no caminho até ali?
Damon deu um sorrisinho e ergueu o rosto, examinando-a. Quando a pausa durou tempo suficiente para Elena ter certeza que ele não ia responder, ele deu de ombros com indiferença e falou:
— Isso não importa de verdade, importa?
— Damon, você não pode... — começou Elena, mas ele a interrompeu.
— É isso que eu sou, Elena — disse ele na mesma voz monótona e indiferente. — Se você pensa de outra forma, mente para si mesma, porque eu nunca menti para você em relação a isso.
Elena sentou no tronco ao lado dele, colocando a lanterna entre os dois, e pegou a mão de Damon. Ele enrijeceu o corpo, mas não se afastou de imediato.
— Sabe que gosto de você, não sabe? — perguntou ela. — Independentemente de qualquer coisa. Sempre vou gostar.
Damon a fitava, os olhos escuros frios, depois deliberadamente começou a soltar os dedos dela, as mãos frias e firmes ao se afastar.
— Você tomou sua decisão, Elena. Sei que Stefan está esperando por você.
Elena se afastou um pouco, porque parecia ser o que Damon queria, e colocou as mãos sobre o colo.
— Stefan gosta de você. Eu amo Stefan, mas também preciso de você. Nós dois precisamos.
Damon torceu a boca.
— Bom, não se pode ter tudo que quer, não é, princesa? — Havia certa ironia nas palavras. — Como já disse a Stefan, estou farto.
Ela o fitou e se esforçou, tentando ver sua aura novamente. Usar tanto seu novo Poder era como retesar músculos que ela nem sabia que tinha. Quando conseguiu mais uma vez, ela se retraiu: a aura de Damon tinha ficado mais escura enquanto eles falavam e agora era cinza tempestade tingido de vermelho e preto, formando uma nuvem sombria e densa em volta dele. O azul fora tragado pelas cores mais escuras.
— Posso ver sua aura, Damon — disse ela. — Agora eu tenho Poder. — Damon franziu a testa. — Está escura, mas ainda há bondade em você. — Certamente deveria haver. Ela não sabia se podia ler isso em sua aura (ainda não sabia o suficiente sobre elas; precisava aprender, mas ela conhecia Damon. Ele era complicado, egoísta e inconsequente, mas sempre havia bondade nele. — Por favor, volte para nós.
Damon ainda desviava o rosto dela, os olhos fixos em alguma coisa no escuro que Elena não conseguia ver. Colocando-se de joelhos ao lado do tronco, Elena pôs as mãos no rosto dele e o virou para si. A terra estava gélida e havia uma pedra machucando sua perna, mas não importava.
— Por favor, Damon. É você que está fazendo isso. Não precisa ser assim. — Ele a olhou furioso, em silêncio. — Damon — disse ela, os olhos ardendo. — Por favor.
Damon se levantou abruptamente, empurrando-a, e Elena perdeu o equilíbrio, caindo de costas no chão duro. Esforçando-se para levantar, ela se limpou e pegou a lanterna.
— Tudo bem. Eu vou embora, se é o que você quer. Mas me escute. — Ela fez um esforço para acalmar novamente a voz. — Não faça nada de que vá se arrepender, por mais zangado que esteja comigo. Quando você estiver pronto, estaremos esperando por você. Nós te amamos. Stefan e eu amamos você. E pode não ser da maneira que você queira que eu goste de você, mas já é alguma coisa.
Os olhos de Damon cintilaram novamente na luz da lanterna. Por um momento, pensou que ele ia falar, mas ele apenas a olhou com a expressão severa e desafiadora.
Não havia mais nada que ela pudesse dizer.
— Adeus, Damon — Elena recuou alguns passos antes de se virar para sair da floresta.
Havia uma massa imensa e sólida de choro se formando em seu peito e ela precisava chegar no dormitório antes que a dominasse. Se começasse a chorar naquele momento, talvez não parasse nunca mais.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Para comentar, por favor utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!