10 de abril de 2019

Capítulo 14 - A viola, a violeta e a vinha


A BUSCA POR DRU DEMOROU um pouco mais do que Kit esperava.
Ela não estava na biblioteca, nem no quarto dela, nem na praia. Eles a encontraram na sala de TV,
vasculhando uma pilha de fitas cassetes antigas com nomes como Grite, Grite Outra Vez! e Aniversário
Sangrento.
O olhar que ela deu quando eles chegaram não era amigável.
Seus olhos estavam inchados, viu Kit, como se tivesse chorado recentemente. Ele se perguntou se era sobre
Emma e Julian estarem em apuros no Reino das Fadas, ou Jaime, ou alguma combinação de ambos. Ela parecia
com o coração partido quando ele fugiu.
— O que? — ela disse. — Helen e Aline estão com Tavvy, se você veio me falar para olhar ele.
— Na verdade — disse Ty, sentando-se em um banco de piano — precisamos de sua ajuda com outra coisa.
— Deixe-me adivinhar. — Dru deixou cair a fita de vídeo que ela estava segurando e Kit se conteve de
comentar sobre o fato de que ele não achava que ninguém com menos de oitenta anos possuísse fitas de vídeo.
— Lavar pratos? Lavanderia? Deitar em frente ao Instituto para que você possa me usar para dar um passo?
Ty franziu as sobrancelhas. — O que— Kit cortou rapidamente. — Não é nada disso. É uma missão.
Dru hesitou. — Que tipo de missão?
— Uma missão secreta — disse Ty.
Ela puxou uma trança. Ambas as tranças eram curtas e estendiam-se quase horizontalmente nos dois lados da
cabeça. — Você não pode simplesmente me ignorar até que você queira que eu faça alguma coisa. — ela disse,
embora parecesse despedaçada.
Ty começou a protestar. Kit interrompeu, levantando a mão para reprimir os dois. — Queríamos pedir-lhe para
participar antes — disse ele. — Ty não queria colocar você em perigo.
— Perigo? — Dru se animou. — Vai haver perigo?
— Tanto perigo — disse Kit.
Dru estreitou os olhos. — Do que estamos falando aqui, exatamente?
— Precisamos entrar em melhores condições com o Mercado das Sombras — disse Ty. — Como não podemos
ir ao Reino das Fadas, queremos ver se há algo que possamos fazer para ajudar Emma e Julian desse lado.
Qualquer informação que pudermos obter.
— Eu gostaria de ajudar Emma e Jules — Dru disse lentamente.
— Achamos que há respostas no mercado — disse Kit. — Mas é chefiado por este feiticeiro realmente horrível,
Barnabas Hale. Ele concordou em uma reunião com Vanessa Ashdown.
— Vanessa Ashdown? — Dru parecia atordoado. — Ela está nisso?
— Não, ela não está — disse Ty. — Nós mentimos para ele sobre quem queria vê-lo para que pudéssemos fazer
a reunião.
Dru bufou. — Você não se parece com Vanessa. Nenhum de vocês.
— É aí que você entra — disse Kit. — Mesmo se não estivéssemos fingindo ser Vanessa Ashdown, ele nunca
ficaria se aparecêssemos no local da reunião, porque ele nos odeia.
Dru sorriu um pouco. — Você não quer dizer que ele te odeia?
— Ela disse para Kit.
— Ele também me odeia — Ty disse com orgulho. — Porque Livvy e eu estávamos com Kit no Mercado das
Sombras em Londres.
Dru sentou-se. — Livvy teria feito isso por você, certo, se ela estivesse aqui?
Ty não disse nada. Ele levantara os olhos para o teto, onde o ventilador girava preguiçosamente e olhava para
ele como se sua vida dependesse disso.
— Eu não pareço nada com Vanessa Ashdown — Dru acrescentou hesitante.
— Ele não sabe como ela é — disse Kit. — Só sabe que ela tem muito dinheiro para ele.
— Ele provavelmente não acha que ela tem treze anos — disse Dru. — Ele tem que imaginar que ela é uma
adulta, especialmente se ela tem muito dinheiro. Que, por acaso, por que você tem muito dinheiro?
— Você parece muito mais velha do que você é — disse Kit, ignorando sua pergunta. — E nós pensamos…
Ty se levantou e foi para o corredor. Os dois olharam para onde ele estava, Kit imaginando se a menção a
Livvy o havia feito sair correndo. Se alguma rachadura estava começando a aparecer na parede de sua crença de
que Livvy estava voltando.
— Eu o aborreci? — Dru disse em voz baixa.
Antes que Kit pudesse responder, Ty retornou. Ele estava carregando o que parecia ser uma pilha de tecido
cinza. — Eu percebi que as pessoas olham para as roupas muito mais do que olham para os rostos das outras
pessoas. Eu pensei que talvez você pudesse usar um dos ternos da mamãe. — Ele estendeu uma saia e jaqueta
cor de ardósia. — Eu acho que vocês tinham tamanhos semelhantes.
Dru se levantou e estendeu a mão para as roupas. — Tudo bem — disse ela, tomando-os em seus braços com
cuidado. Kit se perguntou o quanto ela se lembrava de sua mãe. Ela tinha lembranças obscuras, como ele tinha,
de uma voz gentil, o som de cantar? — Ok, eu vou fazer isso. Onde estamos indo?
— Hollywood — disse Kit. — Amanhã.
Dru franziu a testa. — Helen e Aline não sabem disso. E elas disseram que estariam no Santuário amanhã à
noite. Algo a ver com os Submundanos.
— Bom — disse Kit. — Assim elas não vão ficar imaginando onde estamos.
— Claro, mas como vamos chegar lá?
Ty sorriu e bateu no bolso lateral, onde seu telefone estava. — Drusilla Blackthorn, conheça o Uber.

Pela terceira vez, Emma e Julian pararam na sombra de uma porta para consultar o mapa. O interior da torre
era quase inexpressivo — se não fosse pelo mapa, Emma suspeitava, eles ficariam perdidos por dias.
Ela estremeceu e sofreu toda vez que se movia. Julian fizera o melhor que podia para a remendar do lado de
fora da torre, usando tiras rasgadas de sua camisa como bandagens. Eles estavam tão acostumados a funcionar
com runas curativas e as habilidades dos Irmãos do Silêncio, Emma pensou, que eles nunca esperavam trabalhar
machucados, não por mais do que um breve período de tempo. Passar pela dor onde os espinhos tinham
penetrado seu corpo era exaustivo, e ela se viu feliz pela chance de descansar por um momento enquanto Julian
olhava para o mapa.
O interior da torre lembrava o interior de uma concha. Os corredores giravam ao redor em círculos, sempre se
estreitando enquanto subiam, mantendo-se nas sombras. Eles haviam discutido se deveriam usar a poção de
Nene, mas Julian dissera que deviam guardá-la até que fosse absolutamente necessário — no momento, os
corredores estavam lotados o bastante com fadas, Seelie e Unseelie, e ninguém dava uma olhada em duas
figuras apressadas usando capas rasgadas.
— Os corredores se dividem aqui — disse Julian. — Um leva para baixo, um para cima. A sala do trono não
está marcada no mapa…
— Mas sabemos que está perto do topo da torre — disse Emma. — A Rainha provavelmente já está lá. Não
podemos deixar o Rei colocar as mãos no Volume Negro.
— Então eu acho que nós vamos desse jeito — disse Julian, indicando o corredor ascendente. — Continue
subindo e espere por algum tipo de sinalização útil no caminho.
— Certo. Porque as fadas são ótimas em sinalizações úteis.
Julian quase sorriu. — Tudo certo. Mantenha o seu capuz para baixo.
Eles se dirigiram para o corredor íngreme e inclinado, os capuzes puxados para baixo. Enquanto subiam, a
multidão de fadas começou a afinar, como se estivessem alcançando um ar rarefeito. As paredes eram revestidas
de portas, cada uma delas mais elaboradamente decorada do que a anterior, com lascas de pedras raras e ouro
incrustado. Emma podia ouvir vozes, risadas e conversas por trás delas; ela adivinhou que esta era a área onde
os cortesãos viviam.
Uma porta estava semi-obscurecida por uma tapeçaria estampada em estrelas. Do lado de fora estavam dois
guardas vestidos com armaduras incomuns de ouro e preto, com os rostos escondidos por capacetes. Emma
sentiu um calafrio enquanto passavam, passando por uma área onde o corredor se estreitava de novo, como se
estivessem realmente se aproximando do coração de uma concha. As tochas queimavam mais abaixo em seus
suportes, e Emma olhou à frente, desejando uma runa de Visão Noturna.
Julian apertou o braço dela, puxando-a para um nicho raso. — Capuzes Vermelhos — ele assobiou.
Emma olhou ao redor da parede. De fato, duas linhas de capuzes vermelhos estavam guardando um arco alto.
Capuzes vermelhos estavam entre os mais cruéis dos guerreiros das fadas.
Eles usavam uniformes escarlates tingidos no sangue daqueles que haviam matado. Incomumente para as
fadas, esses guardas estavam barbudos, com rostos desgastados pelo tempo. Eles carregavam cajados cujas
pontas de lança de metal estavam incrustadas com sangue seco.
— Deve ser isso — Julian sussurrou. — A sala do trono.
Ele puxou a corrente com o frasco sobre a cabeça, tirou a tampa e engoliu o líquido dentro. Emma correu para
fazer o mesmo e abafou um suspiro. Queimou, como se tivesse engolido fogo líquido. Ela viu Julian fazer uma
cara de dor antes de deixar cair seu frasco vazio no bolso.
Eles se encararam. Além da queimação em sua garganta e estômago, Emma sentia o mesmo. Ela ainda podia
ver suas próprias mãos e pés, claros como o dia, e Julian não tinha começado a ficar difuso. Não foi bem o que
ela imaginou.
— Nene disse que seríamos apenas invisíveis para as fadas Unseelie — disse Julian calmamente após um longo
momento. Seus olhos de repente se estreitaram. — Emma…?
— O quê? — Ela sussurrou. — O que é isso?
Lentamente, ele levantou a mão e bateu no peito, onde estava sua runa parabatai, sob suas roupas. Emma
piscou. Ela podia ver um brilho vermelho escuro emanando do lugar, como se o coração dele estivesse brilhando.
O brilho estava se movendo, mudando, como uma minúscula tempestade de areia.
— Julian… — Ela olhou para baixo. Havia um brilho em torno de sua própria runa também. Era estranho o
suficiente para fazê-la estremecer, mas ela afastou o sentimento e saiu para o corredor. Um momento depois,
Julian estava ao lado dela.
A linha de capuzes vermelhos ainda estava lá, em frente ao arco escuro. Emma começou a se mover na
direção deles, consciente de Julian ao seu lado. Ela podia vê-lo claramente, e ouvir seus passos, mas enquanto se
moviam em direção à sala do trono e escorregavam entre as filas de capuzes vermelhos, ninguém se virou na
direção deles. Nem um único capuz vermelho apareceu para ouvi-los ou vê-los.
Emma podia ver a luz escura como se estivesse amarrada no peito de Julian. Mas por que uma poção de
invisibilidade faria sua runa parabatai brilhar? Não fazia sentido, mas ela não tinha tempo para pensar sobre isto
— eles estavam passando o último par de capuzes vermelhos. Ela se sentia como um camundongo andando
alegremente na frente de um gato inconsciente.
Um momento depois, eles estavam no limiar e dentro da sala do trono do Rei.
Não era o que Emma esperava. Em vez de ouro brilhante e decoração rica, a sala estava vazia, o chão de
pedra cinza escuro. As paredes eram sem janelas, exceto pela parede norte: um enorme retângulo de vidro dava
para uma visão noturna. A sala estava repleta de montes de pedras caídas, algumas tão grandes quanto
elefantes, muitas se quebrando em pequenos pedaços. Parecia as ruínas do playground de um gigante.
Não havia assentos na sala, exceto o trono, que era em si um pedregulho no qual havia sido esculpido um
assento. Pedra se erguia ao redor das costas e dos lados, como se estivesse ali para proteger o Rei, que estava
sentado imóvel no trono.
Em suas mãos estava a cópia de Julian do Volume Negro.
Quando entraram, o Rei levantou os olhos, franzindo a testa, e por um momento de pânico, Emma pensou que
ele pudesse vê-los.
Seu rosto era tão horrível quanto ela se lembrava: dividido exatamente no meio como se fosse uma lâmina, era
metade do rosto de um homem belíssimo e meio esquelético. Ele usava um rico gibão de veludo vermelho, uma
capa estava presa aos ombros com fileiras de aiguillettes douradas, e uma coroa dourada amarrava sua testa.
Um frasco claro pendia de uma corrente ao redor de sua garganta, cheio de uma poção escarlate.
Reflexivamente, Emma e Julian se abaixaram atrás da pilha de pedras quebradas mais próxima, quando
quatro guardas entraram, cercando uma mulher de branco com longos cabelos escuros. Atrás dela marchou um
menino com uma argola dourada em volta da cabeça. Dois guardas o acompanharam. Eles usavam a incomum
armadura preta e dourada que Emma havia notado antes, no corredor.
Ela não teve muito tempo para pensar sobre isso, porque, quando a mulher de branco entrou no recinto, ela
virou a cabeça, e Emma a reconheceu.
Era Annabel Blackthorn.
A memória surgiu na parte de trás da garganta de Emma, uma onda amarga. Annabel no estrado do salão do
Conselho. Annabel, com seus olhos selvagens, conduzindo os fragmentos da Espada Mortal no peito de Livvy.
Annabel coberta de sangue, o estrado nadando com ele, Julian segurando Livvy em seus braços.
Ao lado de Emma, Julian respirou asfixiado. Ele ficou rígido.
Emma agarrou seu ombro. Parecia granito: inflexível, desumano.
Sua mão estava no cinto, no punho de uma palavra curta. Seus olhos estavam fixos em Annabel. Seu corpo
inteiro estava tenso com energia mal controlada.
Ele vai matá-la. Emma sabia disso da mesma maneira que ela sabia cada um dos seus próximos movimentos
em uma luta, o ritmo de sua respiração na batalha. Ela o puxou, o fazendo encará-la, embora fosse como tentar
mover uma pedra.
— Não. — Ela falou em um sussurro áspero. — Você não pode.
Agora não.
Julian estava respirando com dificuldade, como se estivesse correndo. — Deixe-me ir, Emma.
— Ela pode nos ver — Emma sussurrou. — Ela não é uma fada.
Ela nos verá chegando, Julian.
Ele olhou para ela com olhos selvagens.
— Ela vai soar o alarme e nós vamos ser interrompidos. Se você tentar matar a Annabel agora, nós dois
seremos pegos. E nós nunca vamos recuperar o Volume Negro.
— Ela precisa morrer pelo que fez. — Dois pontos vermelhos duros queimaram em suas bochechas. — Deixeme
matá-la e o Rei pode manter o maldito livro Emma pegou seu manto. — Nós dois vamos morrer aqui se você
tentar!
Julian ficou em silêncio, seus dedos se fechando ao seu lado. A mancha vermelha acima de sua runa parabatai
brilhou como fogo, e linhas negras a perseguiram, como se fosse um vidro prestes a quebrar.
— Você realmente escolheria vingança ao invés de Tavvy, Dru e Ty? — Emma balançou-o com força e soltou. —
Você quer que eles saibam que você o fez?
Julian recuou contra uma pedra. Ele balançou a cabeça devagar, como se não acreditasse, mas o brilho
vermelho em torno dele havia diminuído. Talvez a menção dos Blackthorn tivesse sido um golpe baixo, Emma
pensou, mas não se importou; valeu a pena impedir que Julian se jogasse de cabeça no suicídio. Suas pernas
ainda estavam tremendo quando ela se virou para olhar a sala do trono através de uma abertura nas rochas.
Annabel e o menino se aproximaram do trono. Annabel não se parecia em nada como era antes — ela usava um
vestido de linho branqueado, recolhido sob o peito, caindo para escovar os tornozelos.
Seu cabelo caiu pelas costas em um rio liso. Ela parecia quieta, comum e inofensiva. Ela segurou a mão do
menino na coroa com cuidado, como se estivesse pronta para protegê-lo do perigo, se necessário.
Eles ainda estavam cercados por guardas Unseelie em ouro e preto. O Rei sorriu para eles com metade do
rosto, um sorriso horrível. — Annabel — disse o rei. — Ash. Eu tive neste dia algumas notícias interessantes.
Ash. Emma olhou para o menino. Então esse era o filho da Rainha Seelie. Ele tinha cabelo loiro claro e olhos
verdes profundos como folhas da floresta; ele usava uma túnica de veludo de gola alta e a faixa dourada em volta
da testa era uma versão menor da faixa do Rei. Ele provavelmente não tinha mais do que a idade de Dru, magro
de uma forma que não parecia saudável, e havia uma contusão em sua bochecha. Ele se portou com a mesma
postura reta que Kieran portava. Príncipes provavelmente não deveriam cair.
Ele parecia familiar de uma maneira que ela não conseguia lembrar. Era apenas que ele se parecia com a
mãe?
— Hoje recebi a visita da Rainha da Corte Seelie — disse o rei.
Ash levantou a cabeça bruscamente. — O que minha mãe queria?
— Como você sabe, ela há muito tempo negociou seu retorno, e só hoje me trouxe o que eu pedi. — O Rei
sentou-se para frente e falou com prazer. — O Volume Negro dos Mortos.
— Isso é impossível — disse Annabel, suas bochechas pálidas corando. — Eu estou com o Volume Negro. A
Rainha é uma mentirosa.
O rei bateu dois dedos enluvados contra sua bochecha óssea.
— Ela é — ele meditou. — É uma questão filosófica interessante, não é? O que é um livro? É a encadernação, a
tinta, as páginas ou a soma das palavras contidas?
Annabel franziu a testa. — Eu não entendo.
O Rei desenhou a cópia do Volume Negro de onde havia descansado ao seu lado. Ele segurou-a para que
Annabel e Ash pudessem ver. — Esta é uma cópia do Volume Negro dos Mortos — disse ele. — O livro que
também é chamado de os Artifícios das Trevas, pois contém em si algumas das magias mais formidáveis já
registradas. — Ele acariciou a primeira página. — A Rainha diz que é uma duplicata exata. Foi feito com a ajuda
de um mago de grande poder chamado OfficeMax, de quem eu não sei nada.
— Jesus Cristo — Julian murmurou.
— A Rainha a deixou comigo por um único dia — disse o Rei — para que eu decidisse se desejo trocar Ash pela
cópia. Eu jurei devolver a ela no nascer do sol amanhã de manhã.
— A Rainha está te enganando. — Annabel aproximou Ash do seu lado. — Ela iria enganá-lo a trocar Ash por
isso… Por essa cópia defeituosa.
— Talvez. — Os olhos do rei estavam encapuzados. — Eu ainda tenho que tomar minha decisão. Mas você,
Annabel, também tem suas decisões a tomar. Eu observei que você se tornou muito próxima de Ash. Eu suspeito
que você sentiria falta dele se vocês se separassem. Isso não é verdade?
Uma expressão estrondosa se deparou com o rosto de Annabel, mas por um momento Emma ficou mais
interessada em Ash. Havia um olhar em seus olhos que o fazia parecer mais familiar para ela do que nunca. Uma
espécie de frieza, surpreendente em alguém tão jovem.
— Mas você precisa de Ash — disse Annabel. — Você disse isso uma dúzia de vezes. Você precisa dele como
sua arma. — Ela falou com desprezo. — Você já trabalhou com magia desde que o levou da corte de sua mãe. Se
você o devolver…
O Rei recostou-se no banco de pedra. — Eu não vou devolvê-lo.
A Rainha vai ver a razão. Levará algum tempo para o Volume Negro trabalhar sua vontade sobre Ash. Mas
quando isso acontecer, não precisaremos mais do Portal. Ele será capaz de espalhar ferrugem e destruição com
suas próprias mãos. A Rainha odeia os Caçadores de Sombras tanto quanto eu. Dentro de um mês, a preciosa
terra de Idris ficará assim…
Ele apontou para a janela na parede. De repente, a vista através do vidro mudou — na verdade, não havia
vidro. Era como se um buraco tivesse sido rasgado no mundo, e através dele Emma podia ver uma visão de um
deserto soprando e um céu cinzento chamuscado com relâmpago. A areia estava manchada de sangue e as
árvores quebradas pareciam espantalhos contra o horizonte ácido.
— Isso não é o nosso mundo — murmurou Julian. — É outra dimensão, como Edom, mas Edom foi destruída.
Emma não conseguia parar de olhar. Figuras humanas, meio cobertas pela areia; o branco do osso. — Julian,
eu consigo ver corpos.
O Rei acenou com a mão novamente e o Portal ficou escuro. — Como Thule está agora, Idris será.
Thule? A palavra era familiar. Emma franziu a testa.
— Você acha que conseguirá convencer a Rainha a colocar seu filho em risco apenas pelo poder — disse
Annabel. — Nem todo mundo é como você.
— Mas a Rainha é — disse o rei Unseelie. — Eu sei, porque Ash não seria o primeiro. — Ele sorriu um sorriso
esquelético. — Annabel Blackthorn, você brincou comigo porque eu permiti. Você não tem poder de verdade
aqui.
— Eu sei o seu nome — Annabel ofegou. — Malcolm contou para mim. Eu posso te forçar…
— Você vai morrer no momento em que o nome deixar seus lábios, e Ash morrerá depois — disse o Rei. — Mas
porque eu não desejo derramamento de sangue, eu lhe darei uma noite para decidir.
Dê-me o verdadeiro Volume Negro, e você pode ficar aqui com Ash e ser guardiã dele. Se não, eu unirei forças
com a Rainha e expulsarei você de minhas terras, e você nunca mais verá Ash.
Ash se afastou das mãos restritivas de Annabel. — E se eu disser não? E se eu recusar?
O Rei voltou seu olhar vermelho para o menino. — Você é um candidato perfeito para os Artifícios das Trevas
— disse ele. — Mas no final, você realmente acha que eu iria parar de prejudicar o pirralho de Sebastian
Morgenstern?
O nome foi como um golpe. Sebastian Morgenstern. Mas como…
— Não! — Annabel gritou. — Não toque nele!
— Guardas — disse o Rei, e os guardas chamaram a atenção.
— Leve a mulher e o menino embora. Eu já acabei com eles.
Julian ficou de pé. — Nós temos que segui-los.
— Nós não podemos — Emma sussurrou. — A poção está acabando. Veja. A luz vermelha está quase acabando.
Julian olhou para baixo. O brilho escarlate acima de seu coração escureceu para um tom de brasa.
Os guardas haviam se fechado em torno de Annabel e Ash e estavam marchando da câmara. Emma segurou a
mão de Julian e juntos eles saíram de trás das pedras.
Os guardas estavam escoltando Annabel e Ash pela porta em arco. Por um momento, Emma e Julian fizeram
uma pausa no centro da sala do trono, diretamente na linha da visão do Rei.
Ele estava olhando diretamente para a frente dele. No lado intocado de seu rosto, Emma pensou que poderia
ver um pouco de Kieran — um Kieran dividido no meio, meio torturado e desumano.
Ela sentiu a mão de Julian apertar a dela. Cada um de seus nervos estavam gritando que o Rei podia vê-los,
que a qualquer momento ele chamaria seus guardas, que eles morreriam aqui antes que Emma tivesse a chance
de levantar uma lâmina.
Ela disse a si mesma que pelo menos tentaria mergulhar a adaga no coração do Rei antes de morrer.
Julian puxou seus dedos. Incrivelmente, ele tinha o mapa na outra mão; ele empurrou o queixo em direção ao
arco abaixo do qual Ash e Annabel haviam desaparecido.
Não havia mais tempo. Eles correram pelo arco.
*
Havia pouco sentido em lutar; havia pelo menos três guardas fadas de cada lado de Mark, e o aperto em seus
braços era implacável. Ele foi arrastado através do festim, ainda tonto da poção em seu sangue. Formas
pareciam surgir de cada lado dele: dançarinos girando, borrados como se fossem vistos através do prisma de
uma lágrima. O Rei dos Gatos, olhando para ele com brilhantes olhos de gato malhado. Uma fileira de cavalos,
afastando-se das faíscas de um incêndio.
Ele não podia ver Kieran. Kieran estava em algum lugar atrás dele; Mark podia ouvir os guardas gritando para
ele, quase abafados pelos sons da música e do riso. Kieran. Cristina. Seu coração era um frio nó de medo por
ambos quando ele foi empurrado por uma poça imunda e subiu um conjunto de degraus de madeira.
Uma aba de dossel de veludo lhe deu um tapa no rosto; Mark balbuciou enquanto o guarda que o segurava
riu. Havia mãos em sua cintura, soltando o cinto de armas.
Ele chutou reflexivamente e foi empurrado para o chão. — Ajoelhe-se, mestiço — disparou um dos guardas.
Eles o soltaram, e Mark se agachou onde estava, de joelhos, o peito latejando de raiva.
Dois guardas ficaram atrás dele, segurando as lanças ao lado do pescoço de Mark. A poucos metros de
distância, Kieran estava na mesma posição, embora estivesse sangrando de um lábio cortado.
Sua expressão foi definida em um rosnado amargo.
Eles estavam dentro do pavilhão de Oban. As paredes eram de veludo pesado, o chão de tapetes caros que
haviam sido pisoteados e enlameados por incontáveis pés. Mesas de madeira continham dezenas de garrafas de
vinho vazias e meio vazias; algumas caíram e derramaram, enchendo a sala com o cheiro de álcool.
— Bem, bem — disse uma voz arrastada. Mark olhou para cima; na frente deles havia um sofá de veludo
vermelho e, esparramado sobre ele, havia um jovem de aparência indolente. O cabelo listrado de preto e roxo
caía ao redor de suas orelhas pontudas, e o kohl preto estava borrado em volta dos olhos prateados cintilantes.
Ele usava um gibão de seda prateada e uma mangueira, e a renda branca saía de seus punhos. — Irmãozinho
Kieran. Que bom te ver.
— Seus olhos prateados se voltaram para Mark. — Com um cara. — Ele sacudiu a mão de desprezo na direção
de Mark e virou seu sorriso para Manuel. — Bom trabalho.
— Eu disse que os vi — disse Manuel. — Eles estavam no festim.
— Eu admito que nunca me ocorreu que eles seriam estúpidos o suficiente para colocar os pés nas Terras
Unseelie — disse Oban. — Você ganha esse ponto, Villalobos.
— Eles fazem um excelente presente — disse Manuel. Ele ficou entre os guardas com as lanças, os braços
cruzados sobre o peito.
Ele estava sorrindo. — Seu pai ficará satisfeito.
— Meu pai? — Oban bateu os dedos no braço do sofá. — Você acha que eu deveria entregar Kieran ao meu
pai? Ele só vai matá-lo.
Maçante.
Mark lançou um olhar para Kieran através de seus cílios. Kieran estava de joelhos. Ele não parecia assustado
com Oban, mas ele nunca demonstraria se estivesse.
— Um presente é mais do que apenas um presente — disse Manuel. — É um método de persuasão. Seu pai —
por engano — acha que você é fraco, Príncipe. Se você trouxer o príncipe Kieran e o Caçador de Sombras
mestiço, ele perceberá que deveria levá-lo mais a sério. — Ele baixou a voz. — Podemos convencê-lo a matar os
prisioneiros e seguir em frente com o nosso plano.
Prisioneiros? Que prisioneiros? Mark ficou tenso. Ele poderia estar falando de Julian e Emma? Mas isso não
seria possível. Eles estavam com a procissão de Seelie.
Pelo menos Cristina estava a salvo. Ela havia desaparecido, escapando dos guardas. O Anjo sabia onde ela
estava agora. Mark deu uma olhada de lado para Kieran: ele não estava em pânico também? Ele não estava
apavorado por Cristina como Mark estava?
Ele deveria estar, considerando o jeito que eles estavam se beijando.
Oban estendeu a mão para a mesa lateral e vasculhou as garrafas empilhadas em cima, procurando uma com
álcool ainda dentro dela. — Meu pai não me respeita — disse ele. — Ele acha que meus irmãos são mais dignos
do trono. Embora eles não sejam.
— Tenho certeza que eles pensam o mesmo sobre você — Mark murmurou.
Oban encontrou uma garrafa e levantou-a para a luz, apertando os olhos para ver a metade do líquido âmbar
ainda dentro. — Um prisioneiro procurado pode mudar de ideia, mas pode não ser suficiente.
— Você quer subir em favor de seu pai, não é? — Disse Manuel.
Oban tomou um gole de sua garrafa. — Claro. Bastante.
Mark teve a sensação de que Manuel estava revirando os olhos internamente. — Então você precisa
demonstrar que ele deveria leválo
a sério. A primeira vez que você foi até ele, ele nem sequer ouviu você.
— Velho tolo — resmungou Oban, jogando a garrafa vazia de lado. Ela se despedaçou.
— Se você levar esses prisioneiros, ele vai ouvir você. Eu irei com você — direi a ele que juntos os rastreamos.
Deixarei claro que, como representante da Tropa, gostaria de trabalhar apenas com você como nosso contato na
Corte Unseelie. Isso fará você parecer importante.
— Parecer? — Disse Oban.
Kieran fez um barulho desalinhado.
— Isso fará com que ele entenda como você é importante — Manuel corrigiu suavemente. — Seu pai vai
perceber o valor que você traz para ele. Os reféns são a chave para uma conversa entre Nefilim e o povo
Unseelie que não tem precedentes em nossa história.
Quando todos os Caçadores de Sombras verem você encontrar e alcançar uma paz mutuamente benéfica,
todos perceberão que você e Horace Dearborn são os maiores líderes, capazes de alcançar a aliança que seus
antepassados não puderam.
— O quê? — Disse Mark, incapaz de ficar em silêncio. — Do que você está falando?
— Isso não traria uma guerra real? — Oban havia encontrado outra garrafa. — A guerra parece ser uma má
ideia.
Com paciência exasperada, Manuel disse: — Não haverá guerra. Eu já te disse. — Ele olhou para Kieran e
depois para Mark.
— A guerra não é o objetivo aqui. E acho que o Rei quer que Kieran morra mais do que você pensa.
— Porque as pessoas o amam — disse Oban, em tom sentimental. — Eles queriam que ele fosse Rei. Porque
ele era gentil.
— A bondade não é uma qualidade real — disse Manuel. — O
povo vai descobrir isso assim que seu pai pendurar Kieran em uma forca bem acima dos jardins da torre.
Mark se empurrou para trás e quase se empalou em uma lança.
— Você-
— A bondade pode não ser uma qualidade real, mas a misericórdia é — interrompeu Kieran. — Você não tem
que fazer isso, Oban. Manuel não vale o seu esforço, e seus planos são tantas mentiras.
Oban suspirou. — Você é tediosamente previsível, filho mais novo. — Ele deixou cair a garrafa que estava
segurando, e o líquido escarlate correu pelo chão como sangue. — Eu quero o trono, e eu terei o trono, e Manuel
me ajudará a conseguir. Isso é tudo com o que eu me importo. Isso é tudo que importa. — Um sorriso tocou os
cantos de sua boca. — Ao contrário de você, eu não vim amar e perseguir sombras, mas apenas o que é real.
Lembre-se, Mark pensou. Lembre-se de que nada disso é real.
Oban passou a mão na direção dos dois enquanto Manuel sorria quase audivelmente. — Junte-os e encontre
cavalos para eles. Nós cavalgamos pela Corte Unseelie esta noite.

Barnabas já estava na Cafeteria 101 em Hollywood quando Drusilla chegou. Ele estava sentado em uma
cabine de bronzeado e pegando um prato de huevos rancheros de aparência deliciosa. Ele usava um chapéu de
cowboy preto e uma gravata que parecia estar sufocando-o, mas ele parecia satisfeito consigo mesmo.
Dru parou para olhar seu reflexo nas janelas que corriam ao lado do restaurante. O outro lado era uma parede
de pedra kitsch; no canto havia uma jukebox e dezenas de fotos emolduradas do que Dru supôs serem a família e
os amigos do dono.
Estava escuro lá fora e a janela mostrava-lhe uma imagem clara de si mesma. Cabelos escuros puxados para
cima e suave, terno cinza, saltos clássicos (roubados do armário de Emma). Ela usava batom vermelho e
nenhuma outra maquiagem; Kit assegurou que menos era mais. — Você não quer parecer um palhaço — ele
disse, jogando o pó corado em Racy Rose por cima do ombro como se fosse uma granada.
Em algum lugar lá fora, nas sombras, Kit e Ty estavam observando, prontos para pularem em sua defesa, se
algo desse errado. Saber disso a fez se sentir menos preocupada. Erguendo a pasta na mão, atravessou a
lanchonete passando por poltronas de couro marfim e cor de caramelo, e sentou-se na cabine em frente a
Barnabas.
Os olhos de sua cobra se moveram para observá-la. De perto, ele não parecia bem. Suas escamas eram opacas
e seus olhos estavam vermelhos. — Vanessa Ashdown?
— Sou eu — Dru disse, colocando a pasta no chão. — Na carne.
Sua língua bifurcada escorregou de sua boca. — E como. Não se preocupe, eu gosto de mulheres com curvas.
A maioria de vocês, Caçadores de Sombras, são tão ossudas.
Eca, Dru pensou. Ela bateu na pasta. — Negócios, Sr. Hale.
— Certo. — Sua língua desapareceu, para seu alívio. — Então, linda. Você tem provas de que Hypatia Vex tem
passado segredos aos Caçadores de Sombras?
— Bem aqui. — Dru sorriu e empurrou a pasta em direção a ele.
Ele desabotoou-a e abriu-a, depois franziu a testa. — Isso é dinheiro.
— Sim. — Ela deu-lhe um sorriso brilhante e tentou não olhar ao redor para ver se alguém estava vindo para
apoiá-la. — É o dinheiro que reservamos para Hypatia em troca de segredos.
Ele revirou os olhos. — Normalmente, fico feliz em ver uma grande caixa de dinheiro, não me entenda mal.
Mas eu estava meio que esperando fotos dela entregando provas para alguns Blackthorns.
— Por que Blackthorns? — Drusilla disse.
— Porque — disse Barnabas. — Eles são pequenos ratos idiotas. — Ele se sentou de volta. — Você tem que me
dar algo melhor do que isso, Vanessa.
— Bem, olhe mais de perto para o dinheiro. — Dru jogou por tempo. — Porque, ah, não é dinheiro comum.
Parecendo entediado, Barnabas pegou uma pilha de vinte. Dru ficou tensa. Kit tinha dito a ela para manter
Barnabas falando, mas não era como se ela pudesse distraí-lo, contando a trama de Aniversário Sangrento ou
sobre a nova coisa fofa que Church tinha feito.
— Não há nada de especial sobre esse dinheiro — Barnabas começou, e parou quando a porta da lanchonete
se abriu e uma mulher alta, de cabelos escuros e bronze entrou na sala. Ela usava um terninho brilhante e saltos
altíssimos. Ela foi seguida por dois outros Submundanos — um lobisomem musculoso e um vampiro pálido de
cabelos escuros.
— Droga — disse Barnabas. — Hypatia, o que-?
— Ouvi dizer que você estava vendendo segredos para os Caçadores de Sombras, Hale — disse Hypatia. —
Olhe para isso — pegou a bolsa na mão. Ela piscou para Dru. As pupilas dos olhos dela tinham a forma de
estrelas douradas.
— Como você pôde? — Exigiu o vampiro. — Eu pensei que era tudo mentira, Barnabas! — Ela fungou e olhou
para Dru. — Você estava realmente comprando segredos dele? De qualquer modo, quem é você?
— Drusilla — disse Dru. — Drusilla Blackthorn.
— Uma Blackthorn? — Disse Barnabas, indignado.
— E ele estava definitivamente vendendo segredos — disse Dru. — Por exemplo, ele acabou de me dizer que
tirou uma cópia dos Manuscritos Vermelhos da Magia do estande de Johnny Rook assim que ele morreu. E ele
tem guardado para si mesmo.
— Isso é verdade? — Rugiu o lobisomem. — E você se chama de chefe do Mercado das Sombras?
— Sua pequena- — Barnabas se lançou do outro lado da mesa em Dru. Ela saiu da cabine rapidamente e
colidiu com o torso de alguém com força. Ela olhou para cima. Era Ty, uma espada na mão, apontada
diretamente para o peito de Barnabas.
Ele colocou um braço protetoramente ao redor de Dru, seu olhar nunca vacilando do feiticeiro. — Deixe minha
irmã em paz — disse ele.
— Isso mesmo — disse Kit. Ele acenou do estande ao lado. — Eu esqueci minhas armas. Mas eu tenho esse
garfo. — Ele mexeu. — Você é tão bifurcado — disse ele a Barnabas.
— Ah, cale a boca — Barnabas disse. Mas ele parecia derrotado; o lobisomem já o agarrou, puxando seus
braços atrás das costas. Hypatia estava tirando a pasta e o dinheiro da mesa.
Ela piscou os olhos para Ty e Dru. — Hora de vocês Caçadores de Sombras irem — disse ela. — Isso marca o
fim do seu pequeno negócio de Submundano. E diga ao seu novo Inquisidor que não queremos nada com ele ou
com suas regras intolerantes. Nós vamos para onde queremos, quando queremos.
Ty abaixou a espada devagar. Kit largou o garfo e os três saíram do restaurante. Uma vez na calçada, Dru
respirou profundamente, aliviada — era uma noite quente, e a lua estava alta e brilhante sobre a Avenida
Franklin. Ela se sentiu arrepiada de excitação — ela fez isso!
Ela enganou um famoso bruxo. Deu um golpe. Ela era uma mulher vigarista agora!
— Acho que Hypatia realmente quis dizer o que ela disse para nós — disse Kit, olhando para trás através das
janelas do café.
Hypatia e os outros Seres do Submundo estavam escoltando um Barnabas lutando para a porta dos fundos. —
Todo esse negócio sobre dizer ao Inquisidor — isso não fazia parte do engodo. Essa foi uma mensagem real.
— Como se pudéssemos conversar com o inquisidor — disse Ty. Ele tocou a mão distraidamente no medalhão
em sua garganta. — Isso foi bom. Você fez um ótimo trabalho, Dru.
— Sim. Você manteve a calma — disse Kit. Ele olhou para cima e para baixo na rua. — Eu sugiro que tomemos
milk-shakes ou algo para comemorar, mas isso é uma espécie de bairro assustador.
— Caçadores de Sombras não se preocupam com vizinhanças assustadoras — disse Dru.
— Você não aprendeu nada com a morte dos pais do Batman?
— Disse Kit, fingindo estar chocado.
Ty sorriu. E pela primeira vez desde que Livvy morreu, Dru riu.
*
Com a ajuda de Aline e Tavvy, Helen tinha montado uma grande mesa dentro do Santuário. Duas cadeiras
estavam na parte de trás dele, e a mesa estava coberta com os acessórios da burocracia: canetas e formulários
em branco que haviam sido enviados pela Clave, pastas de arquivo e carimbos de borracha. Tudo era
melancolicamente mundano, na opinião de Helen. Uma longa fila de lobisomens, bruxos, vampiros e fadas se
estendia pela sala e saía pelas portas da frente. Eles montaram sua “Estação de Registro” no topo da runa de
Poder Angelical, no chão, bloqueando as portas que levavam ao Instituto.
O primeiro Submundano a subir ao seu improvisado escritório era um lobisomem. Ele tinha um enorme bigode
que lembrava Helen de filmes policiais dos anos setenta. Ele estava carrancudo. — Meu nome é Greg.
— Seu nome é Elton John — disse Aline, anotando.
— Não — disse o lobisomem. — É o Greg. Greg Anderson.
— É Elton John — disse Aline, pegando um selo. — Você tem trinta e seis anos e você é um limpador de
chaminés que mora em Bel Air. — Ela carimbou o papel com tinta vermelha — registrado — e devolveu o papel.
O lobisomem pegou o papel, piscando perplexo. — O que você está fazendo?
— Isso significa que a Clave não poderá encontrá-lo — explicou Tavvy, que estava sentado embaixo da mesa,
brincando com um carrinho de brinquedo. — Mas você está registrado.
— Tecnicamente — disse Helen, desejando que ele aceitasse o truque. Se ele não tivesse, eles teriam
problemas com os outros.
Greg olhou para o papel novamente. — Apenas minha opinião — ele disse, — mas o cara atrás de mim parece
o Humphrey Bogart.
— Humphrey é! — Disse Aline, acenando com o carimbo. — Você quer ser Humphrey Bogart? — Ela perguntou
ao próximo Submundano, um mago alto e magro com um rosto triste e orelhas de poodle.
— Quem não quer? — Disse o bruxo.
A maioria dos Submundanos era cautelosa enquanto seguiam pelo resto da linha, mas cooperando. Houve até
alguns sorrisos e agradecimentos. Eles pareciam entender que Aline e Helen estavam tentando minar o sistema,
se não por quê.
Aline apontou para uma fada loira alta na linha, usando um vestido de gaze. — Essa é Taylor Swift.
Helen sorriu quando ela entregou um lobisomem uma forma carimbada. — Em quantos problemas vamos
entrar por isso?
— Isso importa? — Disse Aline. — Nós vamos fazer isso de qualquer maneira.
— É verdade — disse Helen, e pegou outra forma.

Leve-me até ele. Leve-me.
Houve calmaria e silêncio — e depois luz, e mil dores agudas e pontiagudas. Cristina gritou e se livrou do que
parecia ser um emaranhado de urzes, caindo de lado e batendo com força na terra coberta de grama.
Ela sentou-se, olhando tristemente para as mãos e braços, pontilhados com dezenas de minúsculas pontinhas
de sangue. Ela havia pousado em uma roseira, o que era mais do que um pouco irônico.
Ela ficou de pé, se afastando. Ela ainda estava no Reino das Fadas, mas parecia estar de dia aqui. A luz
dourada do sol queimava uma cabana de palha de pedra amarela pálida. Um rio azul-turquesa passava pela
pequena casa, coberta de flores de tremoço azul e roxo.
Cristina não tinha certeza do que ela esperava, mas não tinha sido essa felicidade pastoral. Ela limpou
suavemente o sangue em suas mãos e braços, desistiu e olhou para cima e para baixo na pequena trilha sinuosa
que cortava a grama alta. Levava da porta da frente do chalé, atravessava o prado e desaparecia na neblina da
distância.
Cristina marchou até a porta da cabana e bateu com firmeza. — Adaon! — Ela chamou. — Adaon Kingson!
A porta se abriu como se Adaon estivesse esperando do outro lado. A última vez que Cristina o viu, ele tinha
sido vestido com a regalia da Corte Unseelie, com a insígnia da coroa quebrada no peito.
Agora ele usava uma túnica e calça de linho simples. Sua pele morena parecia quente à luz do sol. Foi a
primeira vez que ela pôde ver sua semelhança com Kieran.
Talvez fosse porque ele parecia furioso.
— Como é possível que você esteja aqui? — Ele exigiu, olhando em volta como se não pudesse acreditar que
ela tivesse vindo sozinha.
— Eu procurei ajuda — disse ela. — Eu estava no Reino das Fadas.
Ele estreitou os olhos. Ele parecia estar olhando desconfiado para um pássaro azul. — Entre imediatamente.
Não é seguro falar do lado de fora.
No momento em que ela estava dentro da cabana, Adaon fechou a porta e se preparou para prender uma série
de fechaduras complexas e intrincadas. — O Reino das Fadas é um lugar perigoso agora. Existem todos os tipos
de maneiras pelas quais você poderia ter sido rastreada ou seguida.
Eles estavam dentro de uma pequena entrada com painéis de madeira. Uma porta em arco levava ao resto da
cabana. Adaon estava bloqueando, braços cruzados na frente do peito.
Ele estava carrancudo. Depois de um momento de hesitação, Cristina estendeu o artefato para ele. — Eu não
poderia ter sido rastreada. Eu usei isso.
Se ela esperava que Adaon ficaria aliviado, ele ficou. — Onde você conseguiu isso?
— É uma herança de família — disse Cristina. — Foi dado livremente como um presente por uma família de
hadas que um ancestral meu ajudou.
Adaon franziu o cenho. — É um sinal de Rhiannon. Trate-o com cuidado. — Ele saiu da entrada e entrou em
uma pequena sala de estar, onde uma mesa de madeira bem esfregada estava em um raio de sol entrando pelas
janelas largas e cheias de chumbo. Uma pequena cozinha era visível: um vaso na mesa continha uma profusão
de flores coloridas e tigelas empilhadas de cerâmica pintada.
Cristina sentiu um pouco como se estivesse dentro da cabana dos anões em Branca de Neve: tudo estava
diminuto, e Adaon parecia se erguer, a cabeça quase raspando o teto. Ele gesticulou para ela se sentar. Ela
tomou uma cadeira, percebendo assim que se sentou, o quanto seu corpo estava exausto e o quanto ela estava
toda dolorida. A preocupação por Emma e Julian, agora agravada pelo pânico sobre Mark e Kieran, bateu
através dela como batidas do coração.
— Por que você está aqui? — Adaon exigiu. Ele não estava sentado. Seus grandes braços ainda estavam
cruzados sobre o peito.
— Eu preciso da sua ajuda — disse Cristina.
Adaon bateu a mão na mesa, fazendo-a pular. — Não. Eu não posso dar ajuda ou ajudar os Nefilins. Eu posso
não concordar com o meu pai em muitas coisas, mas eu não iria diretamente contra a sua vontade, conspirando
para ajudar uma Caçadora de Sombras.
Ele ficou parado por um momento em silêncio. A luz do sol iluminava as bordas das cortinas de renda branca
na janela. Através do vidro, Cristina viu um campo de papoulas estendendo-se na distância em direção a falésias
cintilantes e um leve brilho de água azul. A casa cheirava a sálvia e chá, um aroma suave e caseiro que fazia a
dor dentro dela piorar.
— Você sabe por que eu vim até você? — Ela perguntou.
— Não — disse Adaon severamente.
— Em Londres, eu segui Kieran do Instituto porque não confiava nele — disse ela. — Eu pensei que ele estava
a caminho de nos trair.
Acontece que ele estava a caminho para falar com você.
A carranca de Adaon não se moveu.
— Eu percebi enquanto vocês dois conversavam, que ele estava certo em confiar em você, que você era o
único dos irmãos que cuidava dele — disse Cristina. — Ele disse que você deu a ele Lança do Vento. Você é o
único membro de sua família de quem ele fala com algum carinho.
Adaon levantou a mão como se para afastar suas palavras. — Chega! Eu não quero mais ouvir.
— Você precisa ouvir isso.
— Eu não preciso dos Nefilins para me contar sobre Kieran!
— Você precisa! — disse Cristina. — Os guardas estão levando Kieran ao seu pai agora, enquanto falamos. Ele
certamente será morto se não fizermos nada.
Adaon não se mexeu. Se Cristina não o tivesse visto engolir, ela teria pensado que ele era uma estátua. Uma
estátua zangada e imponente. — Ajudá-lo seria uma verdadeira traição ao meu pai.
— Se você não ajudar, então será uma verdadeira traição ao seu irmão — disse Cristina. — Às vezes você não
pode ser fiel a todos.
Adaon apoiou as mãos grandes nas costas de uma cadeira. — Por que você veio aqui? — Ele disse. — Por que
você me trouxe essa notícia? É possível que meu pai o poupe. Ele é bem apreciado pelo povo.
— Você sabe que seu pai vai matá-lo por esse motivo — disse Cristina. Sua voz tremeu. — Antes da Caçada,
ninguém na vida de Kieran jamais amou ou se importou com ele, exceto você. Você realmente vai abandoná-lo
agora?

Um comentário:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!