5 de abril de 2019

Capítulo 13

— Acho que agora enxergo melhor no escuro — disse Elena a Stefan ao puxar um galho de árvore e o segurar para ele passar.
A noite parecia viva de sons e movimento, do farfalhar de folhas à correria de algum morador minúsculo do mato. Era tão diferente da última vez que ela e Stefan patrulharam o bosque juntos. Elena não sabia se esta nova consciência estava diretamente ligada ao Poder que sentia se disseminando constantemente dentro de si, ou se o fato de saber que tinha um Poder a deixava mais atenta a todo o resto.
Stefan sorriu, mas não respondeu. Sabia que estava concentrado em enviar seu próprio Poder, procurando por vampiros na mata.
Quando ela se concentrava, via que a aura de Stefan tinha um tom lindo de azul claro, com filetes cinzentos suaves que ela pensava serem a culpa que jamais o abandonaria plenamente. Mas o azul era muito mais forte do que o cinza. Ela desejava que o próprio Stefan pudesse enxergar sua aura.
Ela estendeu o braço e a tocou, a mão pairando pouco acima da pele. O azul envolveu sua mão, mas Elena não sentiu nada. Mexeu os dedos, observando a aura de Stefan fluir em torno deles.
— O que está fazendo? — Stefan virou a mão para entrelaçar os dedos nos dela. Ele ainda olhava a escuridão à volta.
— Sua aura... — disse Elena, então parou.
Alguma coisa se aproximava.
Stefan fez um ruído suave de indagação e, quando Elena puxou o ar para falar novamente, algo escuro e pegajoso a percorreu, esfriando-a inteiramente, como se ela tivesse mergulhado num rio gelado.
Maligno. Elena tinha certeza disso.
— Por aqui — disse ela com urgência e, puxando Stefan pela mão, disparou pelo bosque. Os galhos batiam nela, um deles deixando um arranhão longo e doloroso no rosto. Elena o ignorou. Sentia que alguma coisa a puxava, a urgência invocando toda a sua atenção.
Maligno. Ela precisava detê-lo.
Seus pés escorregaram nas folhas mortas e Stefan a pegou pelo braço antes que caísse, erguendo-a. Ela ficou parada por um momento, ofegante, recuperando o fôlego.
À frente, via riscos vermelho-ferrugem com um amarelo-bile nauseante. Nada parecido com as cores tranquilizantes da aura de Stefan ou Andrés, de maneira nenhuma. Enquanto Elena observava, o vermelho-ferrugem — cor de sangue velho e seco — contraiu-se e se expandiu em volta do amarelo-bile numa pulsação constante. Duas auras, percebeu Elena, uma dominando a outra. A urgência que Elena sentia cresceu.
— Eu posso ver — disse ela desesperada. — Alguma coisa ruim está acontecendo. Vamos.
Eles correram. Elena viu quando o Poder de Stefan percebeu o que ela sentia, porque de repente ele acelerou o passo, puxando-a em vez de segui-la.
Um vampiro pressionava a vítima contra uma árvore, as duas figuras se confundiam em uma forma escura e volumosa. As auras pulsantes os envolviam, uma visão quase nauseante.
Elena não teve nem um segundo para se dar conta de que encontrara o que estivera caçando quando Stefan arrancou o vampiro do humano e quebrou seu pescoço com uma torção eficiente. Depois quebrou um galho da árvore e cravou em seu peito, como uma estaca.
A vítima do vampiro caiu de quatro com um baque abafado. Sua aura amarelada perdeu o tom nauseante quase de imediato, mas escureceu até um cinza tênue enquanto o garoto caía sobre um monte de folhas embaixo da árvore.
Elena se ajoelhou ao lado dele e pegou a lanterna para examiná-lo enquanto Stefan arrastava o corpo do vampiro — um dos aspirantes Vitale — para o arbustos. A vítima tinha cabelo preto muito curto e estava lívida, mas a pulsação era estável e sua respiração fraca, mas regular. O sangue escorria da mordida no pescoço, e Elena tirou o casaco, usando-o para apertar o ferimento.
— Acho que ele está bem — disse a Stefan quando ele voltou e parou ao lado dela.
— Bom trabalho, Elena. — Ele respirou fundo. — Mas ainda tem sangue saindo de algum lugar dele.
Elena passou a lanterna pelo garoto. Estava de calça de pijama e camiseta, os pés descalços. As solas dos pés sangravam.
— O vampiro deve tê-lo Influenciado a sair do alojamento — percebeu ela. — Foi assim que terminou na mata.
— Eles estão ficando mais habilidosos — disse Stefan. — Vamos organizar mais patrulhas em torno do campus. Talvez possamos impedir alguns antes que peguem suas vítimas.
— Por enquanto, é melhor levar este cara para casa — disse Elena.
O garoto de cabelos pretos gemeu quando Stefan e Elena o colocaram cuidadosamente de pé. O caráter cinza de sua aura começou a se encher de raios e riscos agitados de cor, e Elena soube que ele começava a despertar.
— Está tudo bem — disse ela num tom tranquilizador, e sentiu um sussurro do Poder de Stefan, que começava a murmurar para ele, acalmando-o para o percurso de volta ao alojamento.
Mas ela não conseguia se concentrar em ajudá-lo. Sua pele coçava e ela sentia um puxão em seu íntimo. Ainda havia alguma coisa ali fora. Maligna e perto deles. Elena deixou que Stefan pegasse todo o peso da vítima do vampiro e se afastou, alcançando os arredores com seu Poder, tentando sentir em que direção estava o mal.
Nada. Nada de específico, de qualquer modo — só aquela certeza pesada e pavorosa de que havia alguma coisa errada, não muito longe deles. Ela aprumou os sentidos, olhando e sentindo, procurando pelo vestígio de alguma aura.
Nada.
— Elena? — perguntou Stefan. Ele sustentava a vítima do vampiro com facilidade e lhe lançou um olhar interrogativo.
Elena balançou a cabeça.
— Tem alguma coisa — disse ela lentamente. — Mas não sei onde. — Ela olhou a escuridão por um momento, mas não havia nenhuma pista que lhe dissesse de onde vinha a sensação apreensiva. — Vamos encerrar por esta noite — concluiu finalmente.
— Tem certeza? — perguntou Stefan.
Ela assentiu e ele ergueu o garoto mais alto no ombro, virando-se para o campus. Ao segui-lo, Elena deu uma última olhada nervosa ao redor. O que quer que fosse, protegia-se dela e de Stefan melhor do que os jovens vampiros.
Então era algo antigo. E maligno. Klaus estaria por perto? Se ele quisesse, poderia matar os dois agora, percebeu Elena com uma onda vertiginosa de pânico. Ele era mais forte do que Elena e Stefan. A mata em volta parecia mais escura, mais agourenta, como se Klaus pudesse estar à espreita, atrás de qualquer árvore. Ela acelerou o passo, mantendo-se bem próxima de Stefan, ansiosa para ver as luzes do campus.


Bonnie segurava firmemente a mão de Zander enquanto seguiam Meredith pela margem do campo de futebol americano. Não viram nenhum vampiro esta noite, mas as estrelas brilhavam incrivelmente.
— Gosto de patrulhar com você — disse ela. — É quase como um passeio romântico, só que, sabe como é, com a possibilidade de ser atacada por vampiros.
Zander sorriu e balançou as mãos entrelaçadas.
— Não se preocupe, pequena dama — disse ele numa imitação terrível de um sotaque arrastado. — Sou o lobisomem mais durão desta cidade e vou cuidar de você.
— Não é estranho que eu ache essa voz sexy? — perguntou Bonnie a Meredith.
Meredith, andando na frente deles, olhou para trás, erguendo uma sobrancelha expressiva para Bonnie.
— Sim — disse ela simplesmente. — Muito estranho.
Um uivo prolongado ecoou da direção das colinas, bem nos arredores do campus, e Zander ergueu o rosto, escutando.
— Os rapazes não encontraram nada — disse ele. — Vão comer uma pizza depois que Camden se transformar em humano.
— Quer se encontrar com eles? — perguntou Bonnie.
Zander a puxou para mais perto, colocando o braço nos seus ombros.
— Se você não quiser, não vou. Pensei que de repente a gente podia ficar no meu quarto, ver um filme ou coisa assim.
— Dispensando comida, Zander? — disse uma voz seca atrás deles. — Deve ser amor verdadeiro. — Meredith virou repentinamente o corpo, e Bonnie sabia que ela estava se xingando por não ter pressentido a menina que se aproximara deles.
— Oi, Shay — disse Bonnie, resignada. — Meredith, está é uma velha amiga de Zander, Shay. — Lobisomem, murmurou ela a Meredith, quando sabia que Shay não estava olhando.
— Espero que não se importem de eu acompanhar vocês — disse Shay, andando junto deles, ao lado de Zander. — Spencer me disse que estavam fazendo patrulha por aqui.
— Quanto mais, melhor — disse Bonnie, esforçando-se para não cerrar os dentes.
— Adoraria uma briguinha — disse Shay agitando os ombros. — Parece que não tenho feito nada além de ficar sentada desde que cheguei aqui. Zander sabe como ficamos indóceis quando ficamos confinados.
— É, eu notei — disse Bonnie. Zander apressou o passo para acompanhar Shay, e seu braço deixou o ombro de Bonnie. Ela pegou sua mão novamente, mas se viu tentando correr para acompanhá-los.
Meredith hesitou, olhando entre eles, e estava prestes a abrir a boca para dizer alguma coisa para Shay quando ela de repente parou.
— Ouviram isso? — disse ela, e Zander, Meredith e Bonnie pararam e escutaram também.
Bonnie não ouvia nada, mas Zander sorriu e cutucou Shay com o cotovelo.
—Veado-de-cauda-branca no cume — disse ele.
Eles compartilharam um sorriso só deles.
— Do que vocês estão falando? — perguntou Bonnie.
Shay virou-se para Bonnie.
— O Alto Conselho dos Lobos nos divide em protoalcateias quando somos crianças, e crescemos brincando juntos. Quando Zander, eu e os outros tínhamos uns quinze anos, nossa alcateia passou uma semana andando pelas montanhas perto de onde fomos criados. — Ela sorriu para Zander, e Bonnie ficou tensa com a nítida intimidade entre eles. — De qualquer modo — continuou Shay —, nessa excursão, depois de termos corrido com a alcateia a noite toda, Zander e eu fomos beber de um lago em um bosque de pinheiros. Encontramos veados, e podíamos facilmente ter matado um deles... na hora éramos lobos e é natural para nós caçar nessa forma... mas eles nos olharam, com o sol subindo por trás. E — ela deu de ombros — eles eram lindos. Parecia que aquele momento só existia para nós. — Ela sorriu, e pela primeira vez não parecia estar tentando dilacerar Bonnie. Shay só estava se recordando. Ela virou o rosto para a brisa. — Sentiu esse cheiro? — perguntou ela a Zander.
Bonnie não sentia cheiro nenhum, mas Zander farejou e abriu outro sorriso nostálgico para Shay.
— Pinheiros — disse ele. Shay também sorriu, enrugando o nariz.
Depois de um momento, Meredith limpou a garganta e eles recomeçaram a andar, procurando problemas na área, e Zander apertou a mão de Bonnie.
— E aí — disse ele. — Um filme?
— Claro — disse Bonnie, distraída.
Não conseguia deixar de ver as semelhanças nos movimentos de Zander e Shay e como, mesmo quando falava com ela, Zander tinha uma orelha voltada para sons remotos que Bonnie jamais conseguiria ouvir. Havia uma distância entre Bonnie e Zander, pensou ela, que eles talvez jamais conseguissem transpor.
Talvez Bonnie nunca viesse a pertencer ao mundo de Zander. Não como Shay.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!