5 de abril de 2019

Capítulo 11

Elena calçava suas botas resistentes — perfeitas para uma noite de caminhada pelo bosque — quando o telefone tocou.
— Alô? — Ela olhou o relógio. Em menos de cinco minutos, teria de encontrar Stefan e três membros da Alcateia de Zander para patrulhar o campus. Ela segurou o telefone entre a orelha e o ombro e terminou apressadamente de amarrar os cadarços.
— Elena. — A voz ao telefone era de James, e soava exuberante. — Tenho boas notícias. Andrés chegou.
Elena ficou tensa, os dedos se atrapalhando nos cadarços.
— Ah — disse ela sem entusiasmo. O Guardião humano estava ali, na Dalcrest? Ela engoliu em seco e falou com mais firmeza. — Ele quer se encontrar comigo agora? Eu já estou de saída, mas podia...
— Não, não. — James a interrompeu. — Ele está exausto. Mas se puder vir aqui amanhã ás nove da manhã, ele vai adorar conversar com você. — Ele baixou a voz, como se não quisesse ser ouvido por mais ninguém. — Andrés é extraordinário, Elena — disse ele, feliz. — Estou ansioso para que vocês dois se conheçam.
Puxando o cabelo num rabo de cavalo apertado e prático, Elena agradeceu a James e desligou o telefone com a maior rapidez possível. Extraordinário, pensou ela com apreensão. Isso poderia significar muitas coisas diferentes. As Guardiãs Celestiais que conheceu eram extraordinárias e lhes tiraram seus pais e seu Poder, aleijando-a. Ainda assim, James claramente pensava que Andrés era bom.
Ela tentou afastar os pensamentos do Guardião Terreno enquanto corria pelo campus para se juntar aos outros. Não tinha sentido se preocupar com ele agora; ela o conheceria muito em breve.
Stefan e os lobisomens esperavam por ela nos arredores do bosque. Tristan e Spencer já haviam assumido a forma de lobo e farejavam incansavelmente o ar, com as orelhas aprumadas em busca de qualquer ruído de problema. Jared, de cabelo desgrenhado na forma humana, estava ao lado de Stefan, as mãos enfiadas nos bolsos.
— Aí está você — disse Stefan quando Elena se aproximou, puxando-a para perto num rápido abraço. — Pronta?
Eles entraram no bosque, Tristan e Spencer andando de cada lado deles de cabeça erguida, cauda para cima e olhos atentos. Houve ataques demais dentro e perto do campus e Elena sabia que a Alcateia sentia ter fracassado em sua responsabilidade de manter a segurança dos alunos da Dalcrest. Ela e os amigos sentiam o mesmo: eram os únicos que realmente sabiam que tipo de horrores sobrenaturais havia lá fora, portanto eram os únicos que podiam garantir a segurança dos outros.
Bonnie, Meredith, Zander e mais dois de sua Alcateia patrulhavam as quadras esportivas, tentando manter segura outra parte da universidade. Elena gostaria de ter a força tranquila e obstinada de Matt ao lado dela, mas ele ainda estava escondido com Chloe. Stefan visitava os dois diariamente e disse que Chloe progredia, mas que ainda não estava pronta para ficar perto de ninguém.
Era uma noite clara e estrelada, e tudo parecia tranquilo até agora.
— Desculpe pelo atraso — disse Elena a Stefan, passando o braço no dele. — James telefonou quando eu estava saindo. Disse que Andrés está aqui. Vou conhecê-lo amanhã.
Stefan ia dizer alguma coisa quando os lobos pararam de orelhas em pé e fitaram ao longe. A cabeça de Stefan também virou.
— Verifiquem — disse-lhes Stefan, e Spencer e Tristan partiram, correndo para dentro da floresta. Stefan e Jared ficaram parados, acompanhando atentamente o progresso dos dois, até que ouviram um uivo à distância.
— Alarme falso — traduziu Jared, e Stefan relaxou. — Um cheiro antigo.
Os dois lobos voltaram trotando pelo bosque, as caudas arqueadas e altas acima do dorso. Apesar de serem muito diferentes como humanos, Tristan e Spencer tornavam-se lobos semelhantes, cinzentos, lustrosos e não tão grandes quanto Zander. Só as pontas pretas das orelhas de Spencer distinguiam os dois.
Vendo-os voltar, Jared curvou os ombros e tirou dos olhos as mechas de cabelo comprido.
— Preciso aprender a me transformar sem a lua — disse ele, irritado. — Eu me sinto um cego tentando patrulhar como humano.
— Como isso funciona, aliás? — perguntou Elena com curiosidade. — Por que alguns de vocês podem se transformar sem a Lua, mas não todos?
— Prática — disse Jared de mau humor, deixando o cabelo voltar a cair no rosto. — É difícil aprender, leva muito tempo e eu ainda não consegui. Também podemos aprender a refrear a transformação na lua cheia, mas isso é ainda mais difícil e dizem que dói. Ninguém faz se não for realmente necessário.
Spencer farejou a brisa novamente e soltou um latido curto. Jared riu, sem se incomodar em traduzir. Stefan se virou para seguir o olhar deles, e Elena se perguntou o que Stefan e os lobos — até Jared — sentiam na noite e ela não. Era a única humana ali, pelo que percebeu, portanto a mais cega de todos.
— Quer que eu vá com você? — perguntou Stefan quando eles recomeçaram a andar. — Encontrar Andrés?
Elena fez que não com a cabeça.
— Obrigada, mas acho que devo fazer isso sozinha. — Se teria de se tornar algo novo, precisava ter forças suficientes para enfrentar isso sozinha.
Eles patrulharam o bosque a noite toda sem encontrar nenhum vampiro e nenhum corpo. Quando o amanhecer rompia no horizonte, Elena viu, na luz fraca, os dois lobos andando ao lado dela de cabeça baixa. Ela estava com tanto sono que se segurava no braço de Stefan e só conseguia se concentrar em mexer um pé na frente do outro. De repente, as cabeças de Spencer e Tristan se ergueram e eles começaram a correr, os músculos magros se movendo sob o pelo cinzento.
— Eles sentiram cheiro de vampiro? — perguntou Elena a Jared, alarmada, mas ele fez que não com a cabeça.
— São só os outros — disse ele, e depois também correu, mais rápido do que Elena conseguia acompanhar.
Quando ela e Stefan se aproximavam de uma pequena colina, Elena conseguiu ver a margem do bosque e o campus se estendendo à sua frente de novo. Estava tão cansada que não percebeu que já tinham dado a volta. Na metade da descida da colina, Spencer e Tristan estavam cumprimentando Zander — o grande lobo branco — e outro lobo cinzento, abanando as caudas, enquanto Jared corria na sua direção. Bonnie, Meredith e outra forma humana da Alcateia de Zander observavam. Bonnie disse alguma coisa e os dispensou. Os lobisomens, humanos e lobos, viraram-se ao mesmo tempo e voltaram correndo para o bosque, com Zander na dianteira.
— O que foi? — perguntou Elena, enquanto ela e Stefan se aproximavam de Bonnie e Meredith.
— Ah, como a patrulha acabou, eles precisam se transformar em humanos e fazer coisas de Alcateia — disse Bonnie despreocupadamente. — Eu disse para Zander que vamos ficar bem. Encontraram alguma coisa?
Elena negou com a cabeça.
— Tudo estava tranquilo.
— Para nós também — disse Meredith, balançando o bastão alegremente enquanto se viravam e iniciavam o trajeto de volta ao alojamento. — Talvez os vampiros novos já tenham passado pela parte da transformação em que ficam loucos por sangue e agora estejam pegando leve por um tempo.
— Espero que sim — disse Stefan. — Talvez possamos encontrá-los antes que mais alguém morra.
Bonnie estremeceu.
— Sei que é idiotice — disse ela —, mas eu quase desejo que Klaus faça o que pretende fazer. Fico tensa o tempo todo. Parece que ele está me observando das sombras.
Elena entendia o que Bonnie queria dizer. Klaus viria atrás deles todos. Ela sabia disso: ainda podia perceber a sensação fantasmagórica de seus lábios frios nos dela, como uma promessa. Nós já derrotamos Klaus, ela tentou dizer a si mesma. Mas uma nova convicção a importunava. Era como se alguma coisa dentro dela soubesse, inquestionavelmente, que a vida que teve até agora estava chegando ao fim.
— Desculpe — disse ela impulsivamente a Bonnie. — Klaus quer castigar a mim, então estamos todos em perigo. Isso é culpa minha e eu nem sequer tenho algum Poder para proteger vocês todos.
Bonnie a encarou.
— Se não fosse por você, Klaus teria destruído todos nós a muito tempo — disse ela de maneira seca.
Stefan concordou com a cabeça.
— Ninguém acha que é sua culpa — disse ele.
Elena piscou, hesitante.
—Acho que você tem razão.
Bonnie revirou os olhos.
— E não somos uns molengas completos, caso não tenha percebido — disse ela.
— Se quer se preparar para lutar com Klaus, talvez deva começar a desenvolver seus Poderes de Guardiã — disse Meredith.
Os raios de sol quentes começavam a se espalhar pelo campus. Elena reduziu o passo e endireitou o corpo por instinto, virando o rosto para o sol. Meredith tinha razão, percebeu Elena. Se quisesse ajudar na segurança dos amigos e do campus, precisava ser mais forte. Precisava ser uma Guardiã.


Depois de dormir poucas horas, Elena se arrastava pelo pátio, agarrada ao copo de café. Ia para a casa de James, nos arredores do campus, e tentava se lembrar do pouco que sabia de Andrés. Ele tinha vinte anos, segundo lhe disse James, e fora retirado de sua família pelos Guardiões aos doze.
O que isso fazia com uma pessoa?, perguntou-se Elena. As Guardiãs que conheceu, aquelas da Corte Celestial, levavam seus deveres muito a sério. Certamente Andrés seria bem versado em todos os Poderes e responsabilidades da função, tudo que não sabia, e teria sido corretamente tratado, pelo menos fisicamente. Mas como afetaria uma criança humana ser criada por seres tão frios e sem emoção quanto os Guardiões? Sua pele se arrepiava com a ideia.
Quando chegou à porta de James, Elena estava antecipando uma recepção imperturbável dos olhos frios de um Guardião Terreno que ensinaria exatamente o que ele pensava que Elena devia saber.
Bem, ele teria de aprender que não podia intimidá-la. Nem a Corte Celestial, cheia de Guardiãs no auge de seu Poder, conseguiu obrigar Elena a obedecer, e ali havia apenas um Andrés. Com determinação, Elena tocou a campainha de James.
Quando abriu a porta, a expressão de James estava séria, mas não apreensiva. Parecia surpreso e solene, como se estivesse testemunhando algo muito importante e que não entendia totalmente.
— Minha cara, estou feliz por ter vindo — disse ele, conduzindo-a com gestos breves e pegando seu copo de café vazio. — Andrés está no quintal. — Ele a acompanhou por sua casa pequena e extremamente arrumada e lhe mostrou a porta dos fundos.
A porta se fechou e, com um sobressalto de surpresa, Elena percebeu que James a mandou para fora sozinha.
O quintal estava iluminado de dourado pelo sol que se infiltrava através das folhas de uma grande faia. Na grama abaixo da árvore, havia um jovem de cabelos pretos sentado, que levantou o rosto para Elena. Ao olhar nos olhos deles, o nervosismo se esvaiu e ela sentiu uma grande paz se acomodar em seu íntimo. Sem nem mesmo pretender, ela se viu sorrindo.
Andrés se levantou sem nenhuma pressa e se aproximou dela.
— Olá, Elena — disse, e a abraçou.
No início, Elena ficou surpresa e tensa com o abraço, mas um calor tranquilizador pareceu fluir por seu corpo, e ela riu. Andrés a soltou e riu também, um puro sinal de alegria.
— Desculpe — Seu inglês era fluente, mas ele tinha um leve sotaque sul-americano. — Mas nunca conheci outra Guardiã humana e eu só... sinto como se conhecesse você.
Elena concordou, lágrimas quentes brotando nos olhos. Sentia uma ligação entre os dois, zumbindo com energia e alegria, e percebeu com feliz surpresa que não eram apenas as emoções enviadas a ela por Andrés. Também partiam dela própria, sua felicidade refluindo para ele.
— Parece que estou vendo minha família pela primeira vez em séculos — disse-lhe ela. Eles não conseguiam parar de sorrir um para o outro. Andrés pegou sua mão, guiou-a gentilmente até a árvore e eles ali se sentaram.
—Eu tive um Guia, é claro — disse ele. — Meu querido Javier, que me criou. Mas ele faleceu no ano passado — de repente Andrés parecia inefavelmente triste, os olhos castanhos marejados — e desde então eu tenho estado sozinho. — Ele se iluminou de novo. — Mas agora você está aqui e posso ajudá-la, como Javier me ajudou.
— Javier era um Guardião? — perguntou Elena, surpresa. Andrés claramente amava Javier, e amor não era algo que ela associasse com os Guardiões.
Andrés deu de ombros, fingindo indiferença.
— Deus me livre — disse ele. — Os Guardiões querem bem ao mundo, mas são frios, não? E imagine um deles encarregado de uma criança em crescimento. Não, Javier era um Guia. Um homem bom, sábio, mas inteiramente humano. Na realidade, era padre e professor.
— Oh. — Elena pensou por um tempo, pegando cuidadosamente uma folha de grama e despedaçando-a, olhando as próprias mãos. — Pensei que os próprios Guardiões criassem as crianças humanas que pegam. Eu não... meus pais não me deixaram ir. Acho que teria tido um Guia se fosse com eles quando era pequena.
Andrés assentiu, solene.
— James me falou da sua situação. Lamento pelo que aconteceu com seus pais e queria poder lhe dar alguma explicação. Mas como não teve um Guia atribuído a você, espero poder ajudar com o que sei.
— Sim. Obrigada. Quer dizer, eu agradeço de verdade. Você... — Ela hesitou, puxando outra folha de grama. Havia algo que ela se perguntava. Não era algo que pudesse pensar em perguntar a um estranho, mas aquela ligação curiosa e feliz entre os dois a fez relaxar o suficiente para voltar para Andrés e falar: — Acha que teria sido melhor se meus pais tivessem deixado que me levassem? Você ficou feliz quando os Guardiões o tiraram de sua família?
Andrés encostou a cabeça na árvore e suspirou.
— Não — admitiu. — Nunca deixei de sentir falta de meus pais. Eu queria que eles tivessem tentado ficar comigo. Mas eles viram, quando eu era criança, que eu pertencia aos Guardiões, e não a eles. Agora estão perdidos para mim. — Ele se virou para ela. — Mas aprendi a amar Javier e fiquei feliz por ter alguém comigo quando passei pela transformação.
— Transformação? — Elena sentou-se ereta, ouvindo a própria voz aguda e em pânico. — Como assim, transformação?
Andrés sorriu tranquilizador e, sem ter a intenção, Elena instintivamente relaxou um pouco com o calor humano de seus olhos.
— Vai ficar tudo bem — disse ele em voz baixa, e parte da Elena acreditou. Andrés também esticou as costas, passando os braços pelos joelhos. — Não há motivo para ter medo. Quando aparecer sua primeira tarefa como Guardiã, um Guardião Principal virá e lhe explicará o que deve fazer. Seus Poderes começarão a se desenvolver quando você tiver uma tarefa. Até que termine sua tarefa, não conseguirá pensar em mais nada. Sentirá uma necessidade dominadora de completá-la. O Guardião Principal volta quando a tarefa é concluída e a liberta de sua compulsão. — Ele deu de ombros, parecendo constrangido. — Eu só tive algumas tarefas, mas, quando terminaram, fiquei ansioso pela seguinte. E os Poderes desenvolvidos para uma tarefa ficam comigo o tempo todo.
— É dessa transformação que você está falando? — perguntou Elena, em dúvida. — Desenvolver Poderes? — Ela queria o Poder para derrotar Klaus, mas não lhe agradava a ideia de se transformar, de alguma coisa obrigá-la a mudar.
Andrés sorriu.
— Trabalhando como Guardiã, você fica mais forte — disse ele. — Fica mais sensata e mais poderosa. Mas ainda será você mesma.
Elena engoliu em seco. Este era o ponto crucial de seu plano. Com Klaus à solta, os Poderes seriam tremendamente úteis, mas ela precisava de acesso a eles agora, não podia esperar até que um Guardião Principal decidisse aparecer.
— Tem algum jeito de despertar esses Poderes antes de receber uma tarefa? — perguntou ela. Andrés abriu a boca para perguntar por que, uma expressão confusa se formando no rosto, e ela se antecipou a dar uma explicação. — Tem um monstro aqui. Um vampiro muito antigo e muito cruel que quer matar a mim e meus amigos. E provavelmente muitas outras pessoas. Quanto mais tivermos para combatê-lo, melhor.
Andrés assentiu, expressivo e sério.
— Meus Poderes não são muito bélicos, mas podem ser úteis, e eu ajudarei como puder. Não existem dois Guardiões com os mesmos Poderes. Mas deve haver uma maneira de descobrir como ativar os seus.
Elena foi tomada por entusiasmo. Se pudesse acessar sozinha os Poderes que os Guardiões lhe deram, não seria instrumento deles; seria uma arma. Sua própria arma.
— Talvez você possa me contar sobre a primeira vez em que teve acesso aos seus? — estimulou ela.
— Tudo bem. — Andrés se sentou mais ereto e deixou que os joelhos baixassem, colocando-se de pernas cruzadas na grama. — A primeira coisa que você precisa entender é que a Costa Rica é muito diferente daqui. — Ele gesticulou com o braço, indicando o quintal pequeno e a casa, as filas de casas dos dois lados e atrás deles, o céu ensolarado de outono, porém gelado. — A Costa Rica tem muita terra virgem, protegidas pelas leis de nosso país para os animais e as plantas. O povo da Costa Rica tem uma expressão que usa muito: pura vita... significa vida pura, e quando dizemos isso... pelo menos quando eu digo... estamos falando de nossa conexão com o mundo natural.
— Lá deve ser lindo — disse Elena.
Andrés riu.
— Claro que é. E você está se perguntando por que estou falando de ecologia quando devia falar do Poder. Observe.
Fechando os olhos, ele pareceu invocar suas forças, depois estendeu as mãos, de palmas para baixo, junto ao chão.
Um farfalhar suave começou, tão baixo que no início Elena mal notou, mas logo ficou mais alto. Ela olhou o rosto de Andrés, desligado e concentrado, ainda ouvindo algo que ela não conseguia escutar.
Enquanto ela o observava, a grama onde suas mãos pousavam ficava maior, as folhas se projetando entre seus dedos e subindo ainda mais, emoldurando suas mãos. A boca de Andrés se abriu ligeiramente e ele respirou de forma mais intensa. Do alto, veio um estalo, e Elena levantou a cabeça e viu novas folhas se desenrolando dos galhos da faia, seu verde primaveril estranho em meio às folhas de outono amareladas que já estavam ali. Houve um baque suave atrás dela, e Elena se virou, percebendo que uma pedrinha tinha se aproximado deles. Olhando em volta, viu um círculo de pequenas pedras e seixos, todas deslizando suavemente na direção dos dois.
O cabelo de Andrés se eriçou um pouco, cada fio crepitando de energia. Ele parecia poderoso e benevolente.
— Então — disse ele, abrindo os olhos. Parte da intensidade de sua postura desvaneceu. Cessaram os ruídos do crescimento acelerado das plantas e do movimento de pedrinhas. Ainda havia uma energia expectante na área em volta deles. — Posso explorar o poder do mundo natural e canalizá-lo para a defesa contra o sobrenatural. Se for necessário, posso fazer com que rochedos voem pelo ar, raízes de árvores arrastem meus inimigos para dentro da terra. Minha força se alimenta da natureza e a natureza aumenta minhas forças. É mais eficaz na Costa Rica, porque há muitos lugares desabitados e, portanto, muito mais energia silvestre do que aqui.
— Parece que seus talentos são muito fortes mesmo aqui — Elena pegou uma pedrinha branca e lisa no chão e a virou com curiosidade entre os dedos.
Andrés sorriu e baixou a cabeça com modéstia.
— De qualquer modo, minha primeira tarefa me apareceu quando eu tinha dezessete anos. Javier vinha me ensinando havia uns cinco anos, e eu estava morrendo de vontade de demonstrar minha capacidade. Uma criatura estava matando jovens casadas na cidade onde morávamos, e uma Guardiã Principal... que era muito apavorante a sua própria maneira, muito poderosa e concentrada... veio a mim e disse que meu trabalho era localizar e destruir a criatura.
— Como você a descobriu?
Andrés deu de ombros.
— Foi fácil encontrar a fera. Depois que recebi minha tarefa, algo em mim me impeliu até ela. Por acaso era um demônio na forma de um cachorro preto. Um demônio puro, não uma criatura híbrida, como um vampiro ou um lobisomem. Era atraído pela culpa, especialmente a culpa do adultério. Javier ensinou-me os princípios para ter acesso a meu Poder, mas a primeira vez em que realmente o fiz, parecia que eu estava sugando o mundo todo para dentro de mim. Consegui invocar um vento e detonar o cachorro preto. — Ele sorriu timidamente mais uma vez para Elena.
— Talvez se eu tentar explorar a natureza do mesmo jeito, posso ativar meus Poderes onde quer que eles estejam — disse Elena.
Andrés se ajoelhou bem na frente de Elena.
— Feche os olhos — disse ele, e Elena obedeceu. — Agora — continuou Andrés, e Elena o sentiu tocar gentilmente seu rosto —, respire fundo várias vezes e concentre-se em sua conexão com a terra. Seus talentos não serão iguais os meus, mas estarão enraizados nesta terra, no lugar onde você começou, assim como os meus.
Elena respirou profunda e lentamente, concentrando-se na terra abaixo dela, no calor do sol nos ombros e no pinicar da grama em suas pernas. Era confortável, mas não sentia nenhuma ligação mística com o mundo a seu redor. Cerrou os dentes e se esforçou ainda mais.
— Pare — disse Andrés num tom suave. — Você está tensa demais. — Então tirou a mão do rosto dela, que sentiu quando ele sentou-se a seu lado, as pernas se encostando, e pegou sua mão. — Vamos tentar assim. Vou canalizar parte de minha ligação com a terra para você. Ao mesmo tempo, quero que você visualize que está afundando cada vez mais em si mesma. Todas as portas que em geral estão fechadas você abrirá e deixará que seu Poder flua por elas.
Elena não sabia bem como “visualizar que estava afundando dentro de si mesma”, mas respirou fundo de novo e tentou, obrigando-se conscientemente a relaxar. Imaginou-se andando por um corredor de portas fechadas, que se abriam à medida que ela passava. Sentia que sua mão estava agradavelmente quente e formigando um pouco onde encostava-se à de Andrés.
Mas quando ela possuía o Poder das Asas, antes que as Guardiãs as tirassem, ela sentiu muito mais do que isso, não foi? Havia a sensação de um potencial assombroso dentro dela, daquelas coisas poderosas e dobradas que faziam parte dela e que ela podia liberar quando fosse a hora certa.
Ela não sentia nada de especial agora. As portas se abriam apenas em sua imaginação, nada mais. Ela abriu os olhos.
— Acho que não está dando certo — disse a Andrés.
— É, também acho que não — concordou ele com tristeza, abrindo os olhos. — Sinto muito.
— Não é sua culpa. Sei que está tentando me ajudar.
— Sim. — Andrés apertou ainda mais sua mão e olhou para ela de forma pensativa.  — Não acho que o relaxamento e a visualização sejam exatamente as suas forças — disse ele. — Vamos tentar outra coisa. Vamos trabalhar com seus instintos de proteção.
Isso parecia mais provável.
— Feche os olhos de novo — continuou Andrés, e Elena obedeceu. — Quero que você pense no mal. Pense no mal que viu em suas aventuras, o mal que você... que nós dois... devemos combater.
Elena abriu a mente para suas lembranças. Recordou-se do rosto bonito e meio enlouquecido de Katherine, distorcido, enquanto gritava de fúria e golpeava o peito ensanguentado de Damon. Os cães de Fell’s Church, de olhos vagos e rosnando, voltando-se contra seus donos. Os dentes de Tyler Smallwood se alongando em presas e o brilho em seus olhos quando ele tentou atacar Bonnie. Klaus invocando os raios nas mãos e os lançando em seus amigos, o rosto iluminado por um brilho cruel.
As imagens giravam por sua mente numa velocidade cada vez maior. Os kitsune, Misao e Shinichi, cruéis e indiferentes, rindo ao transformarem as crianças de Fell’s Church em assassinos selvagens. O espectro que fez com que Stefan e Damon rasgassem a garganta um do outro, enlouquecidos por uma fúria cheia de rivalidade, a boca cheia de sangue. Ethan, o tolo Ethan, erguendo o cálice de sangue no alto da cabeça, invocando a ressureição de Klaus.
Klaus, dourado e apavorante, surgindo do fogo.
E então diferentes rostos, outros cenários, inundaram sua mente. Bonnie rindo de pijama estampado de casquinha de sorvete. Meredith, o corpo magro e gracioso em um mergulho perfeito. Matt segurando-a nos braços no baile da escola. Stefan, de olhos suaves, pegando Elena nos braços.
A parceira de laboratório de Elena. As meninas de seu alojamento. Rostos estranhos do refeitório, outros ela vira de relance apenas nas aulas. Todas as pessoas que Elena precisava proteger, seus amigos e estranhos inocentes.
A amiga caçadora de vampiros de Meredith, Samantha, cruel e divertida, até que os vampiros Vitale a mataram. O meigo colega de quarto de Matt, Christopher, assassinado no pátio do campus. A menina que Damon deixou no bosque, tonta e assustada, o sangue escorrendo das mordidas no pescoço.
Dentro de si, Elena sentiu algo se desenrolar, não se abrindo como uma porta ou como as Asas Poderosas, mas brotando suavemente, como uma flor.
Abriu os olhos lentamente e viu Andrés bem ao seu lado. Um brilho verde o cercava, e o peito de Elena ficou apertado. A luz era tão bonita e, sem entender exatamente como, ela sabia que a luz era boa no sentido mais simples e absoluto.
— Que lindo — disse ela, maravilhada. Andrés abriu os olhos e sorriu para ela.
— Alguma coisa? — disse ele, transparecendo certa empolgação.
Elena assentiu.
— Estou vendo luz em volta de você.
Andrés quase pulou de felicidade.
— Maravilhoso. Já ouvi falar disso. Você deve estar vendo minha aura.
— Aura? — perguntou Elena de forma cética. — É isto que na verdade nos ajuda a combater o mal? — Parecia um poder New Age meio estranho.
Andrés sorriu.
— Ajuda a sentir se alguém é bom ou mal desde o início — disse ele. — E, com a prática, soube que você pode usar para procurar e localizar seus inimigos.
— Acho que entendo que utilidade isso pode ter — concordou ela. — Não é tão útil quanto soprar coisas malignas para longe com as mãos, como você pode fazer, mas já é um começo.
Andrés a fitou por um momento, depois começou a rir.
— Talvez você passe à parte da ventania logo.
Incapaz de se conter, Elena também riu e se encostou nele, dando gargalhadas. Estava tão aliviada, tão simples e intensamente feliz. Tinha descoberto o Poder sem ter de esperar que um Guardião Principal lhe desse uma tarefa. E agora que tinha acesso a um deles, talvez pudesse sentir mais Poderes enroscados dentro dela, mais flores esperando para se abrir.
Isso era só o começo.


Junto dos portões centrais do campus, Meredith andava, os tênis deixando rastros na terra à beira da estrada. No passado, sempre conseguia se acalmar sozinha, mas desde que deixou o treinamento de caçadora para realmente usar suas habilidades no combate aos vampiros, ficava cada vez mais inquieta. Queria estar sempre em movimento, estar sempre fazendo alguma coisa — especialmente agora, que sabia que havia monstros assombrando o campus. Sabia que, com a morte de Samantha — uma parte dela ainda sufocava com a lembrança —, passou a ser uma das únicas protetoras que restavam. Sua pele formigava e estava tensa com a sensação de algo maligno, algo errado, fora da vista.
Estava louca para ver Alaric.
Como se o pensamento o tivesse invocado, lá estava o Honda pequeno e cinza virando na estrada em direção ao campus. Meredith acenou para ele enquanto estacionava e seguiu na direção do carro, ciente de que sorria feito uma idiota, mas sem se importar.
— Oi — disse ela, aproximando-se enquanto Alaric se alongava e saia do carro, o beijando intensamente.
Sabia que precisavam bolar uma estratégia e um plano — com sorte, Alaric teria descoberto alguma coisa em suas pesquisas que pudesse ajudá-los a combater Klaus — mas por ora valorizava apenas a sensação de Alaric sólido e real em seus braços, os lábios macios nos dela, o cheiro dele, composto de couro, sabonete, algo meio herbáceo e apenas o essencial Alaric.
— Senti saudade. — Ele pousou a testa na dela por um instante assim que finalmente romperam o beijo. — Conversar por telefone não é a mesma coisa.
— Eu também — disse Meredith, e ela tinha sentido muita, mas muita saudade. — Adoro suas sardas — disse ela de um jeito inconsequente, roçando a boca nos pontinhos dourados de seu rosto.
Eles caminharam até o campus de mãos dadas. Meredith apontou locais de interesse: a biblioteca, o refeitório, o centro acadêmico, seu alojamento. As poucas pessoas por quem passavam andavam às pressas e em grupos, cabisbaixas, sem fazer contato visual.
Quando chegaram à academia, Meredith hesitou antes de parar na frente dela.
— É aqui que eu treino. É difícil... Eu costumava vir aqui com Samantha. Ela era tão competitiva e inteligente. Me pressionava, no bom sentido. — Ela se encostou em Alaric por um momento e o sentiu dar um beijo no alto de sua cabeça.
Eles continuaram a andar, mas Meredith não conseguia parar de pensar em Samantha. Antes de Samantha, Meredith nunca tinha conhecido ninguém de uma família de caçadores de vampiros hereditários. Seus pais tinham deixado a comunidade de caçadores para trás. Como os pais de Samantha foram mortos quando ela era nova, na realidade também não conhecia nenhum outro caçador.
Aprenderam muito uma com a outra. Meredith amava Elena e Bonnie — eram suas melhores amigas, suas irmãs —, mas nenhuma das duas a compreendia tão bem quanto Samantha.
Então Ethan e os vampiros Vitale a mataram. Foi Meredith que encontrou o corpo de Samantha. Ela foi dilacerada com tal violência que seu quarto ficou ensopado de sangue.
Meredith sentiu o rosto se retorcer, e a voz saiu densa e furiosa.
— Às vezes sinto que isso nunca vai acabar — disse ela a Alaric. — Sempre existem mais monstros. E agora Klaus voltou, embora o tenhamos matado. Ele devia estar morto.
— Eu sei. Queria poder fazer as coisas melhor. Klaus destruiu sua família e você o derrotou. Tem razão, isso devia ter terminado naquela época. — Eles pararam perto de um banco, sob um grupo de árvores, e ele se sentou, puxando Meredith para seu lado. Pegando sua mão, ele a olhou nos olhos, cheios de amor e preocupação. — Me conte a verdade, Meredith. Klaus destruiu sua família. Como você está?
Meredith prendeu a respiração, porque era exatamente este assunto que evitava desde que Klaus saiu do fogo.
Klaus atacou o avô de Meredith e o levou à loucura. Sequestrou seu irmão gêmeo, Cristian, e o transformou em vampiro. E fez da própria Meredith uma semivampira viva, algo que toda família caçadora tinha o direito de odiar.
E então as Guardiãs mudaram tudo, tornando a realidade o que teria acontecido se Klaus nunca tivesse ido a Fell’s Church. Cristian agora era humano — Meredith não se lembrava de tê-lo conhecido, mas ele foi criado com ela nesta realidade — e estava num acampamento militar na Geórgia. Seu avô estava feliz e saudável, morando em um condomínio de aposentados na Flórida. E Meredith não precisava de sangue, não tinha dentes afiados. Mas ela e os amigos ainda se lembravam de como eram as coisas antigamente. Ninguém mais em sua família se lembrava, mas ela sim.
— Estou apavorada — confessou Meredith. Ela virou a mão, brincando com os dedos de Alaric. — Não há nada que Klaus não faria, e saber que ele está aí fora em algum lugar, esperando, planejando alguma coisa, é... Não sei o que fazer com isso.
Ela cerrou o maxilar e levantou a cabeça, olhando nos olhos de Alaric.
— Ele tem que morrer — disse ela baixinho. — Ele não pode recomeçar, não agora.
Alaric assentiu.
— Tudo bem — disse ele, passando de solidário a pragmático. — Acho que tenho algumas boas notícias. — Ele abriu o zíper da bolsa de carteiro que levava no ombro e pegou seu caderno, folheando algumas páginas até encontrar a informação que queria. — Sabemos que madeira de freixo é a única arma mortal para Klaus, certo? — perguntou ele.
— É o que dizem — respondeu Meredith. — Da última vez, fizemos para Stefan uma arma de freixo branco, mas acabou não sendo tão útil. — Ela se lembrou de Klaus arrancando a lança de freixo da mão de Stefan, quebrando-a e usando-a para apunhalar o próprio Stefan. Os gritos de Stefan enquanto milhares de lascas letais o cortavam foram... inesquecíveis. Ele quase morreu.
Damon tinha ferido Klaus com a lança de freixo depois disso, mas no fim Klaus conseguiu puxar a madeira ensanguentada das próprias costas e se postou triunfante, ainda poderoso, ainda capaz de colocar Stefan e Damon a seus pés.
E desta vez nem mesmo temos Damon, pensou Meredith, com tristeza. Ela desistira de perguntar a Elena e Stefan onde Damon estava. Ele era sempre imprevisível.
— Bom — disse Alaric com um leve sorriso —, uma lenda popular Apalache que encontrei em minhas pesquisas diz que uma árvore de freixo plantada em certas condições na lua cheia é mais poderosa contra vampiros do que qualquer outra madeira. Um freixo com magia em suas origens deve ter forte efeito contra Klaus.
— Claro, mas como vamos encontrar uma árvore assim? — perguntou Meredith, depois arqueou uma sobrancelha. — Ah. Você já sabe onde tem uma delas, não é?
O sorriso de Alaric se alargou. Depois de um segundo, Meredith passou os braços por seu pescoço e o beijou.
— Você é meu herói.
Alaric corou, o rosa subindo do pescoço à testa, mas parecia satisfeito.
— A heroína é você. Mas, com sorte, teremos uma arma de verdade contra Klaus.
— Uma longa viagem — disse Meredith. — Mas não antes que a gente tenha certeza de que o campus está o mais seguro possível. Klaus está quieto e não temos nenhuma pista de seu paradeiro, então por enquanto temos de nos concentrar nos vampiros recém-criados. — Ela sorriu com melancolia para Alaric, mexendo os tênis abaixo do banco. — É importante que primeiro enfrentemos a ameaça imediata. Mas isso é bom.
Alaric apertou a mão dela entre as suas.
— Vou ajudar no que você precisar — disse ele com franqueza. — Vou ficar aqui pelo tempo que eu for útil. Enquanto você me quiser.
Apesar da gravidade de seus problemas, apesar do horror sangrento que foi seu passado e o pavor quase definitivo de seu futuro, Meredith teve de rir.
— Enquanto eu te quiser? — disse ela, sedutora, olhando-o de baixo através dos cílios, deleitando-se no sorriso de Alaric. — Ah, é agora que você nunca vai se afastar de mim.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!