10 de abril de 2019

Capítulo 11 - Outro mar distante e menos quieto

A FERIDA ERA GRANDE, MAS não profunda, e pegava a parte superior do braço direito de Kieran. Ele se sentou
com os dentes cerrados sobre a cama em um dos quartos de hóspedes vazios do Instituto, com a manga cortada
pelo canivete de Cristina. Mark se inclinou nervosamente contra uma parede próxima, observando.
Cristina ficou um pouco surpresa com a força do braço de Kieran, mesmo depois que ele a carregou por
Londres; ela pensava que as fadas eram delicadas, de ossos finos. E ele era, mas havia dureza lá também. Os
músculos dele pareciam firmemente envoltos contra seus ossos, mais do que um humano, dando a seu corpo
uma força esguia e firme.
Cuidadosamente, ela terminou de limpar o sangue do corte e correu os dedos levemente sobre a pele ao seu
redor. Kieran estremeceu, meio que fechando os olhos. Ela se sentiu culpada por lhe causar dor.
— Não vejo sinal de infecção ou necessidade de suturar — disse ela. — Essa bandagem deve resolver o
problema.
Kieran olhou para ela de lado; era difícil discernir sua expressão nas sombras: Havia apenas uma lâmpada na
sala e ela estava fortemente atenuada.
— Sinto muito por ter trazido problemas para vocês — disse Kieran em uma voz suave. Uma voz noturna,
tomando cuidando para não acordar quem poderia estar dormindo. — Para vocês dois.
— Você não nos trouxe problemas — disse Mark, sua voz áspera com cansaço. — Você nos trouxe informações
que podem nos ajudar a salvar a vida de pessoas que amamos. Somos gratos por isso.
Kieran franziu a testa, como se não gostasse muito da palavra “grato”. Antes que Cristina pudesse acrescentar
qualquer coisa, um grito rompeu a noite — um grito de terror. Mesmo sabendo o que era, Cristina estremeceu.
— Tavvy — disse ela.
— Ele está tendo um pesadelo — afirmou Mark.
— Pobre criança — disse Kieran. — Os terrores noturnos são realmente sombrios.
— Ele vai ficar bem — disse Mark, embora a preocupação obscurecesse sua expressão. — Ele não estava lá
quando Livvy morreu, graças ao Anjo, mas acho que ele ouviu sussurros sobre.
Talvez não devêssemos tê-lo levado ao funeral. Ver as piras…
— Acredito que essas coisas são um conforto — disse Cristina.
— Acredito que elas permitem que nossas almas digam adeus.
A porta rangeu ao ser aberta — alguém deveria checar as dobradiças mais tarde — e Helen enfiou a cabeça
para dentro, parecendo angustiada.
— Mark, você pode ver Tavvy?
Mark hesitou.
— Helen, eu não deveria— — Por favor. — Helen se inclinou, exausta, contra a batente da porta. — Ele ainda
não está acostumado comigo, não vai parar de chorar.
— Eu vou cuidar de Kieran — disse Cristina, com mais confiança do que ela sentia.
Mark seguiu Helen para fora da sala com clara relutância.
Sentindo-se desajeitada por ter ficado sozinha com Kieran, Cristina tirou uma bandagem do kit e começou a
enrolá-la em volta do braço de Kieran.
— Parece que eu sempre acabo cuidando de suas feridas. — ela disse meio brincando.
Kieran não sorriu.
— Deve ser por isso — ele disse. — que eu sempre sofro, porque anseio o toque das suas mãos.
Cristina olhou para ele com surpresa. Ele estava claramente mais delirante do que ela tinha pensado. Ela
colocou a mão na testa dele: ele estava queimando. Ela se perguntou se aquela era uma temperatura normal
para as fadas.
— Deite-se. — Ela amarrou a bandagem. — Você deveria descansar.
O cabelo dela balançou para frente quando ela se inclinou sobre ele. Ele estendeu a mão e enfiou uma mecha
atrás da orelha dela.
Ela ficou imóvel, com o coração disparado.
— Eu pensei em você na Scholomance — disse ele. — Eu pensei em você todas as vezes em que alguém dizia o
nome do Diego, Rosales. Eu não conseguia parar de pensar em você.
— Você queria? — Sua voz tremeu. — Parar de pensar em mim?
Ele tocou o cabelo dela novamente, os dedos dele brilhando onde roçaram na bochecha dela. A sensação
trouxe arrepios à sua pele.
— Eu sei que você e Mark estão juntos. Eu não sei onde eu me encaixo em tudo isso. — Suas bochechas
estavam coradas de febre.
— Eu sei o quanto eu machuquei vocês dois. Eu sinto isso nos meus ossos. Eu nunca iria querer machucar
nenhum de vocês pela segunda vez. Amanhã eu vou sair daqui, e nenhum de vocês irá me ver novamente.
— Não! — Cristina exclamou, com uma força que a surpreendeu. — Não vá, não sozinho.
— Cristina. — Sua mão direita foi até a curva de sua face; ele tocava seu rosto. Sua pele estava quente; ela
podia ver as manchas de febre em suas bochechas, sua clavícula. — Princesa. Você ficará melhor sem mim.
— Eu não sou uma princesa — disse ela; ela estava inclinada sobre ele, uma de suas mãos apoiada contra o
cobertor, seu rosto estava perto do dele, tão perto que ela podia ver a franja escura de seus cílios. — E eu não
quero que você vá.
Ele sentou-se, as mãos ainda embalando o rosto dela. Ela deu um pequeno suspiro e sentiu sua própria
temperatura atingir um calor equivalente ao das mãos dele enquanto elas se moviam pelo rosto dela, depois
pelos ombros, pela curva da cintura, puxando-a para ele.
Ela se deixou cair em cima dele, seu corpo esticado ao longo do dele, seus quadris e peitos alinhados.
Ele estava tenso como a corda de um arco, apertado e arqueado sob ela. Suas mãos estavam quentes por
causa da febre, passando por seu cabelo macio.
Ela colocou as palmas das mãos contra o peito duro dele, que subia e descia rapidamente. A mente dela
estava girando. Ela queria pressionar os lábios contra a pele fina de sua bochecha, roçar o queixo dele com
beijos. Ela queria, e a intensidade do querer a chocou.
Ela nunca sentira tanta intensidade por ninguém além de Mark.
Mark. Ela se afastou de Kieran, quase caindo na colcha.
— Kieran, eu e você não devemos… você…. você está com febre.
Ele rolou para o lado, olhos brilhantes enquanto a estudava.
— Eu estou com febre — ele disse. — Eu não estou louco, no entanto. Eu tive vontade de te abraçar por muito
tempo.
— Você nem me conhece há tanto tempo — ela sussurrou, embora soubesse que ela estava mentindo de uma
forma muito humana, escondendo o que ela realmente queria dizer por trás de irrelevâncias. A verdade é que
ela queria Kieran também, e ela suspeitava que ela o queria há algum tempo. — Deite-se. Você precisa de
descanso. Nós teremos muito tempo para… conversar se você não for embora. — Ela se sentou. — Prometa-me
que não vai embora.
Os olhos de Kieran se desviaram dos dela, seus cílios como os raios de uma estrela negra.
— Eu não deveria ficar. Eu só vou trazer tristeza para você e para Mark.
— Prometa-me — Cristina exigiu.
— Eu prometo que vou ficar — disse ele finalmente. — Mas eu não posso prometer que você não vai se
arrepender de ter me feito prometer isso.

Nene mostrou para Emma o quarto que ela e Julian tinham ficado na última vez que estavam na Corte Seelie,
as paredes de quartzo prateado pulsavam com pouca luz, e a cerca rosa que Emma se lembrava tinha ido
embora. Em vez disso, uma cachoeira cascateando ferozmente abaixo da parede de rocha, como se alimentada
por uma inundação, despejava-se em uma piscina sem sombra a vários metros abaixo do chão.
— É muito gentil da parte de Fergus nos deixar ficar em seu quarto — disse Emma quando Nene a conduziu
para dentro.
— Fergus não tem escolha — disse Nene serenamente. — É o que a Rainha deseja.
Emma piscou. Isso parecia estranho e nem um pouco auspicioso. Por que a Rainha se preocupava com o local
que eles ficavam? Seu olhar se desviou para o resto do cômodo — havia uma mesa na qual ela poderia colocar
sua bolsa, um sofá feito de vinhas intimamente entrelaçadas juntas… Ela franziu a testa.
— Onde está a cama?
— Atrás da cachoeira, no pavilhão de Fergus.
— No o quê?
— No pavilhão. — Nene apontou para um conjunto de degraus de pedra enrolados atrás da cachoeira…
Aparentemente Fergus gostava de misturar o design da área. — O que há de errado com um pavilhão?
— Nada — disse Emma. — Eu estava pensando em comprar um.
Nene deu-lhe um olhar desconfiado antes de deixá-la sozinha.
Emma ouviu a chave girar na fechadura quando ela fechou a porta e nem se incomodou em tentar abri-la.
Mesmo que ela escapasse do cômodo, não teria como encontrar o caminho em meio a tantos corredores. E não
era como se ela fosse a algum lugar sem Julian, que queria estar aqui de qualquer jeito.
A última coisa que ela queria era dormir, mas ela aprendeu a pegar no sono em qualquer momento nas
missões. Ela vestiu a camisola e subiu os degraus de pedra atrás da cachoeira, que a levaram a uma plataforma
de pedra escondida atrás da água.
Apesar de seu humor miserável, Emma ficou impressionada com a beleza daquilo. A cama era enorme, com
uma pilha de almofadas brancas e uma colcha pesada, a cachoeira encobrindo o pé da cama em uma cortina de
prata cintilante; a pressa e rugido da água cercaram o espaço, lembrando Emma da quebra de ondas contra a
areia da praia.
Ela afundou na cama.
— Belo quarto — disse ela, para ninguém em particular. — Desculpe. Pavilhão.
Hora de dormir, ela decidiu. Ela se deitou e fechou os olhos, mas a primeira imagem que surgiu contra suas
pálpebras foi a imagem de Julian segurando o corpo de Livvy no Salão do Conselho.
Seu rosto contra o cabelo de Livvy, molhado de sangue. As pálpebras de Emma se abriram, e ela se remexeu,
inquieta. Isso não ajudou. Na próxima vez que ela tentou dormir, ela viu os olhos abertos e esbugalhados de
Dane quando o kelpie afundou seus dentes em seu corpo.
Era demais. Muito sangue, muito horror. Ela queria muito Julian; ela sentia falta dele como se tivesse passado
uma semana desde que o vira, e, de certa forma, tinha. Até mesmo sua runa parabatai parecia estranha — ela
estava acostumada com o pulso de sua energia, mas mesmo antes de chegarem ao Reino das Fadas, alcançar
aquela energia tinha sido como bater em uma parede.
Ela se virou novamente, desejando Cristina, com quem ela poderia conversa. Cristina, quem iria entender.
Mas ela poderia dizer a Cristina sobre o feitiço que tirou as emoções de Julian? E sobre o seu acordo com a
Rainha? O acordo tinha sido brilhante, ela pensou, fazer uma cópia para o Povo das Fadas. Eles eram
complicados e literais o suficiente para, pelo menos, considerar a cópia como suficiente para seus propósitos.
Era ruim que Julian não pudesse simplesmente dar a cópia a Horace, mas mesmo Dearborn sabia o papel de uma
impressora. Além disso, ele não queria os feitiços do livro; ele simplesmente queria de volta a propriedade que
ele acreditava que Annabel roubou, o Volume Negro que viveu tantos anos nas prateleiras do Instituto de
Cornwall.
Ela ouviu a porta do quarto abrir, vozes e os passos de Julian nas escadas e, então, ele estava ao lado dela na
cama; ela não tinha percebido como a luz se derramava através da água e se transformava em uma efígie de
prata. Até o cabelo escuro dele estava prateado, como se ela o visse do jeito que ele poderia parecer em trinta
anos.
Ela se sentou. Ele não se mexeu ou pareceu querer dizer alguma coisa. Ele ficou olhando para ela e, quando
ele levantou a mão para empurrar o cabelo para trás, ela viu novamente o tecido manchado amarrado em seu
pulso.
— Então, como foi? — Ela perguntou finalmente. — Você descobriu como quebrar todas as ligações parabatai
no mundo?
— Sim, mas não é possível. — ele se inclinou contra a cabeceira da cama. — Você deve estar satisfeita.
— Sim — la chutou um travesseiro até o pé da cama. — Quero dizer, isso é um alívio, mas eu ainda estou
curiosa para saber por que, de repente, você decidiu confiar na Rainha Seelie quando ela literalmente nunca foi
confiável.
— Ela nunca nos traiu — disse Julian. — Nós fizemos um acordo com ela, mas nós nunca trouxemos a ela o
Volume Negro — até agora.
— Ela fez coisas terríveis com Jace e Clary— — Talvez eles simplesmente não souberam como lidar com ela
adequadamente — seus olhos verdes brilharam. — A Rainha só se importa com a Rainha. Ela não está
interessada em causar dor apenas por causar.
Ela só quer o que ela quer e, se você se lembrar disso, pode lidar com ela.
— Mas por que nós tivemos que…
— Olha, era óbvio que não podíamos confiar em Dearborn desde o começo, porque essa não é apenas uma
missão secreta como a de Clary e Jace. Ele nos levou para Brocelind sozinhos e nos mandou através da porta
para o Reino das Fadas sem que ninguém mais estivesse lá. Horace Dearborn não está do nosso lado — disse
Julian. — Ele acha que somos seus inimigos. Amantes do submundo.
Claro, ele acha que podemos recuperar o Volume Negro para ele, mas ele planejou que nós morrêssemos
fazendo isso. O que você acha que aconteceria, Emma, se fôssemos para casa sem o Volume Negro? Na verdade,
como você acha que nós iríamos voltar — você realmente acha que podemos confiar em um cara parado na
Encruzilhada de Bram sob as ordens de Horace?
Ela ficou tão absorta na raiva que sentia por Julian que não parou para pensar sobre como eles sairiam do
Reino das Fadas e voltariam para casa.
— Dane disse que não era só ele — ela disse. — Você acha que ele quis dizer que haverá alguém esperando na
Encruzilhada de Bram para nos matar?
— Pode ter alguém esperando para nos matar a cada esquina — Julian disse. — Dane era um idiota — ele veio
atrás de nós muito rápido, antes mesmo de termos o livro verdadeiro. Mas nem todos eles podem ser tolos.
Nossas vidas estão em perigo a cada segundo e, se nós tivermos um acordo com a Rainha, estaremos sob a
proteção dela.
— Precisamos de um aliado — disse Emma. — E ela é estranha, oportunista e terrível, mas é melhor do que
nada. É isso o que você está dizendo?
— Todo plano envolve riscos — Disse Julian. — Não ir atrás da Rainha era um risco. Criar estratégias consiste
em escolher entre os riscos — não há um caminho seguro, Emma, não para nós. Não desde o minuto em que
Horace nos chamou em seu escritório.
— E se voltarmos com o verdadeiro Volume Negro, ele vai nos matar e pegá-lo — disse Emma. — Esse é o seu
plano de qualquer maneira.
— Não — disse Julian. — Esse era o plano dele quando ele achava que estava controlando como voltamos. Se
decidirmos como e onde retornaremos, podemos entrar em qualquer Reunião do Conselho e apresentar o
Volume Negro, corajosamente resgatado de nosso inimigos fadas. Horace pensou que ele poderia se livrar de
nós facilmente porque estávamos em desgraça. Vai ser muito mais difícil se voltarmos em triunfo.
— Tudo bem — disse ela. — Eu entendo o que você está fazendo. Não sei se concordo sobre trabalhar com a
Rainha, mas pelo menos eu entendo. Mas você sabe o que teria sido melhor? Se você tivesse me incluído na
parte em que escolhia qual o risco iríamos correr.
— Eu não vejo por quê — disse ele. — Você teria se preocupado e para quê?
Emma sentiu as lágrimas queimarem por trás dos olhos.
— Esse não é você. Você nunca diria isso.
Os olhos de Julian brilharam.
— Você sabe que eu sempre fiz o que precisava ser feito para nos manter seguros. Eu pensei que você
entendesse isso.
— Isto é diferente. Lembra-se, Julian, lembra-se do que Dane disse, que você era o tipo de cara que teria uma
garota como parabatai? — Ela se ajoelhou na cama, levantando o queixo para olhá-lo diretamente nos olhos. —
Isso é o que eu sempre amei em você antes mesmo de me apaixonar. Você nunca pensou, nem por um segundo,
que ter uma garota como parceira de guerra iria te diminuir, você nunca agiu como se eu fosse nada menos que
sua igual por completo. Você nunca fez com que eu me sentisse fraca para você ser forte.
Ele desviou o olhar. Emma pressionou: — Você sabia que sempre seríamos mais fortes juntos. Você sempre me
tratou como se minha opinião fosse importante. Você sempre respeitou minha capacidade de fazer decisões por
conta própria, mas você não está agindo assim agora. Isso não é sobre uma pequena mentira, Julian, é sobre
trair tudo o que juramos em nossa cerimônia parabatai. Uma coisa é você não querer me tratar como sua
namorada, outra coisa é você não querer me tratar como sua parabatai.
Julian se arrastou até a cama ao lado dela.
— Isso não é o que eu planejei — disse ele. — Eu estava preocupado que você se recusasse a ir à Corte Seelie,
então eu agi rápido — o brilho da cachoeira mudou, e o cabelo de Julian estava escuro novamente, seus cílios
fazendo sombras contra suas bochechas. — Eu não fazia ideia de você ficaria tão chateada com tudo isso.
— É claro que você não fazia ideia. — ter Julian tão perto fez seus nervos se sentirem como se estivessem
pulando dentro de sua pele. Ambos estavam ajoelhados, de frente para o outro; ele estava tão perto que ela
poderia ter estendido a mão e colocado os braços ao redor dele sem nem precisar se inclinar para frente. — Você
não fazia ideia porque você não tem sentimentos. Porque você desligou todas as suas emoções, não apenas sobre
mim mas sobre tudo — Sobre Livvy, até sobre Livvy — e isso vai se voltar contra você no final.
— Eu não… — disse ele.
— Você não o quê?
Ele deslizou a mão pela cama de modo que as pontas dos dedos dele tocassem as dela, apenas um pouco. O
coração de Emma começou a bater mais rápido.
— Não é que eu não tenha sentimentos — ele parecia perdido e um pouco confuso. — Eu simplesmente não
entendo completamente o que eu sinto. Exceto que… eu preciso que você não fique com raiva, Emma.
Ela congelou. Seus dedos se curvaram para acariciar o interior de seu pulso, Emma sentiu como se todas as
terminações nervosas em seu corpo estivessem concentradas ali, onde seus dedos a tocavam. Ele estava tocando
o pulso dela. O coração dela.
— Sinto muito, Emma — ele disse. — Eu sinto muito.
Seu coração saltou. Com um gemido baixo, ela estendeu a mão para ele; de joelhos, Eles envolveram seus
braços em volta um do outro. Ele baixou a cabeça para beijá-la e toda sua respiração deixou seu corpo.
Ele tinha o gosto que ela imaginou que a fruta das fadas teria, mais doce do que qualquer açúcar na terra. Ela
estava tonta com a lembrança da primeira vez que ela o beijou, do gosto da água do mar, da fome e do
desespero. Dessa vez, o beijo foi lânguido e quente como um desejo lento: ele explorou sua boca completamente
com a sua, acariciando as pontas dos dedos sobre as maçãs do rosto, inclinando sua mandíbula e a cabeça para
trás.
Ele a puxou para mais perto. Seu corpo ainda funciona da mesma forma, ela pensou. Com sentimentos ou não.
Havia uma satisfação terrível nisso, em ele sentir algo por ela, mesmo que fosse algo físico.
Mas ele havia dito que sentia muito. Certamente isso significava alguma coisa. Talvez o feitiço estivesse
acabando. Talvez não fosse permanente. Talvez— Ele beijou o canto de sua boca, o pulsar em seu pescoço. Seus
lábios eram macios contra sua garganta, suas mãos pegaram a bainha de sua camisola, trabalhando em suas
coxas.
Deixe acontecer, seu corpo disse. Consiga o que puder dele, porque pode ser que você nunca mais consiga
outra coisa.
Suas mãos estavam sob o vestido dela. Ele sabia onde ela gostava de ser tocada. Sabia o que a faria tremer e
beijá-lo mais forte.
Ninguém a conhecia como Julian.
Seus olhos se abriram, sua visão turva de desejo. Ela começou a — Julian estava olhando para ela, seus
próprios olhos abertos, e a expressão neles era fria e pensativo. Foi como se um balde de água gelada fosse
jogada em seu rosto; ela quase ofegou.
Eu preciso que você não fique com raiva, ele disse.
Suas mãos ainda estavam curvadas ao redor das costas de suas coxas, segurando-a contra ele. Contra sua
boca, ela sussurrou: — Você não está realmente arrependido, está?
Seus olhos se fecharam: ela conhecia aquele olhar. Ele estava pensando na coisa certa a dizer. Não a coisa
verdadeira, mas a melhor coisa, a coisa mais inteligente e eficaz. A coisa que ia conseguir o que ele queria e
precisava.
Ela sempre se orgulhou dele por sua esperteza, ela adorava e entendia a necessidade disso. Era o estilingue
de David, era a forma que Julian encontrou de se defender e de defender a sua família contra um mundo
massivo; era a única maneira que ele conhecia para proteger o que ele amava.
Mas sem amor, que era a força motriz por trás de tudo que ele fazia, do que ele seria capaz? Um Julian sem
sentimentos era um Julian que poderia manipular qualquer um.
Inclusive ela.
Ele afundou em seus calcanhares, suas mãos caindo para os lados, sua expressão ainda indecifrável. Antes
que ele pudesse falar, o som de alguém entrando no quarto ecoou do andar de baixo.
Eles saíram da cama em alarme. Alguns segundos depois eles estavam de pé, indo, mesmo que, em alguma
desordem, aos degraus que levavam à sala principal.
Nene estava lá, com uma chave na mão, olhando para eles. Ela usava o uniforme de escudeiro da Corte Seelie.
Quando ela os viu, sua pálidas sobrancelhas se levantaram.
— Como é que os humanos dizem? Esse é um mau momento?
— Está tudo bem — disse Julian. Sua expressão havia voltado ao normal, como se nada tivesse acontecido.
Emma não sabia como seu próprio rosto parecia, mas ela sabia como se sentia: como se um buraco tivesse sido
perfurado em seu peito.
— Fico feliz em ouvir isso — disse Nene, espreitando para o centro da sala e virando-se para enfrentá-los. —
Porque precisamos conversar. Rápido, venham para o andar de baixo. A rainha os traiu e há pouco tempo para
agir.

Tavvy estava finalmente dormindo, segurando um livro, seu rosto ainda manchado com as lágrimas recentes.
Mark estava ajoelhado ao seu lado, desgrenhando seu cabelo macio. Helen sentiu o coração doer com amor por
Tavvy, com preocupação, com saudade de Julian, que teria sido capaz de acalmar os medos de Tavvy em minutos,
não nas horas que Helen estava levando.
Quando Mark puxou um cobertor sobre seu irmão mais novo, Helen se levantou para abrir as janelas e deixar
um pouco de ar fresco entrar no quarto. Ela não tinha ouvido falar de Julian ou de Emma desde que eles tinham
sido deixados em Alicante, embora Jia jurasse para Aline que eles estavam bem.
E, no entanto, Helen raramente se sentiu tão longe de sua família. Mesmo na Ilha Wrangel, onde ela se sentia
isolada do mundo, ela havia confiado que Julian estava cuidando deles — que eles estavam tão felizes quanto
poderiam estar — e imagens deles, felizes, se sustentavam em sua mente.
A realidade deles aqui foi um choque. Sem Julian, eles estavam olhando para ela, e ela não tinha ideia do
porquê Tavvy chorava quando ela o tocava, ou por que Dru olhava fixamente para ela. Ty mal parecia saber que
ela estava lá. E Mark…
— Eu nunca deveria ter deixado que eles nos separassem — disse Helen. — Em Idris. Quando eles quiseram
manter Jules e Emma para trás, eu não deveria ter deixado.
— A Clave forçou isso — disse Mark, levantando-se. — Você não teve escolha.
— Sempre temos escolhas — disse Helen.
— Você não pode se culpar. É muito difícil lutar contra Julian quando ele está sendo teimoso. Ele tem uma
vontade muito forte. E
ele queria ficar.
— Você acha mesmo?
— Eu acho que ele não queria voltar com a gente. Ele estava agindo de forma estranha antes de sairmos de
Idris, você não acha?
— É difícil dizer — Helen fechou a janela. — Julian sempre foi capaz de fazer sacrifícios que eram difíceis e
esconder a dor que eles causavam a ele.
— Sim — disse Mark. — Mas mesmo quando ele estava escondendo coisas, ele estava fazendo por amor. Antes
de sairmos, ele estava sendo frio.
Ele falou simplesmente, sem qualquer dúvida. Ele olhou para Tavvy de novo e se levantou.
— Eu tenho que voltar para Kieran. Ele está ferido e já está tudo resolvido com Tavvy.
Helen assentiu.
— Eu vou com você.
Os corredores do Instituto estavam escuros e silenciosos. Em algum lugar abaixo no Hall, Aline estava
dormindo. Helen deixou-se pensar, por um momento, no quanto ela queria rastejar de volta para a cama com sua
esposa, enrolar-se no calor de Aline e esquecer-se de todo o resto.
— Talvez pudéssemos tentar uma runa Familias — disse Helen.
— Algo que nos levaria a Julian.
Mark pareceu intrigado.
— Você sabe que não vai funcionar além da fronteira com o Reino das Fadas. E Julian também precisaria usar
um.—
Claro — Helen se sentiu como anos atrás, quando Eleanor Blackthorn tinha morrido, como se ela estivesse
congelada por dentro e fosse difícil pensar. — Eu sei disso.
Mark deu-lhe um olhar preocupado quando eles entraram no quarto de hóspedes onde eles colocaram Kieran.
O quarto estava escuro e Cristina estava sentada em uma cadeira ao lado da cama, segurando a mão de Kieran;
Kieran estava enterrado embaixo do cobertor, embora seu peito subisse e caísse com a respiração regular e
rápida normal das fadas.
Helen sabia pouco sobre Kieran, somente o que Mark havia dito a ela nas poucas conversas rápidas que eles
tiveram desde que ele retornou do Reino das Fadas, até ela chegar em Idris; ela e Mark ficaram conversando na
casa do canal depois de recuperar Tavvy, e ela ouviu toda a história. Ela sabia como os sentimentos de Mark por
Kieran eram complicados, embora, no momento, enquanto Mark olhava para o outro rapaz com preocupação, ela
poderia ter adivinhado que eles estavam mais simples.
Mas nada nunca foi simples, foi? Helen pegou um olhar rápido de Mark entre os cílios quando ele se sentou ao
lado de Cristina: preocupação — por Kieran, por Emma e Julian, por todos eles. Havia muito com o que se
preocupar.
— Eu sei que você vai querer ir atrás de Julian — disse Helen.
— Rumo ao Reino das Fadas. Por favor, não faça nada estúpido, Mark.
Os olhos de Mark queimaram na escuridão. Azul e dourado, mar e sol.
— Eu vou fazer o que for preciso para salvar Julian e Emma. Eu vou voltar à Caçada se for preciso.
— Mark! — Helen ficou chocada. — Você não voltaria!
— Eu faria o que fosse preciso — ele disse de novo e, em sua voz, não ouviu o irmão mais novo que ela criou,
mas o menino que tinha voltado da Caçada Selvagem como um adulto.
— Eu sei que você viveu com a Caçada por anos e conhece coisas que eu não conheço — disse Helen. — Mas
eu estive em contato com a nossa tia Nene e sei de coisas você não sabe. Eu sei como você e Julian e os outros
não são vistos no Reino das Fadas como crianças, mas como inimigos temíveis. Você lutou contra os Cavaleiros
de Mannan. Você envergonhou o Rei Unseelie em sua própria Corte, e Emma matou Fal, que é quase como um
deus para o Povo das Fada. Embora você encontre alguns amigos no Reino das Fadas, você encontrará muitos,
muitos inimigos.
— Isso sempre foi verdade — Disse Mark.
— Você não entende — disse Helen em um sussurro áspero. — Fora de Idris, cada entrada para a Terra das
Fadas é guardada, e tem sido assim desde o desastre no Salão do Conselho. O povo do Reino das Fadas sabe que
os Nefilins os consideram culpados. Mesmo se você pegar a Estrada da Lua, o phouka que a guarda iria
denunciar seu entrada imediatamente, e você seria recebido com espadas do outro lado.
— O que você propõe, então? — Mark exigiu. — Deixar nosso irmão e Emma no Reino das Fadas para morrer e
apodrecer? Eu fui abandonado no Reino das Fadas e eu sei como eles se sentem. Eu nunca vou deixar isso
acontecer com Emma e Julian!
— Não. Eu proponho que eu vá atrás deles. Eu não sou uma inimiga na Terra das Fadas. Eu vou direto para
Nene, ela vai me ajudar.
Mark ficou de pé.
— Você não pode ir. As crianças precisam de você aqui. Alguém precisa cuidar delas.
— Aline pode cuidar deles. Ela está fazendo um trabalho melhor do que eu mesmo. As crianças nem gostam de
mim, Mark.
— Elas podem não gostar de você, mas eles te amam — disse Mark furiosamente, — E eu amo você, e não vou
perder outro irmão para o Reino das Fadas!
Helen endireitou-se — embora ela não estivesse nem perto do seu irmão, o que a enervava agora — e olhou
para Mark.
— Nem eu vou.
— Eu posso ter uma solução — disse Cristina. — Há uma herança na Família Rosales. Nós chamamos isso de
Eternidad, por significar um tempo que não tem começo ou fim, como o tempo no Reino das Fadas. Isso nos
permitirá entrar lá sem sermos detectados.
— Você vai me deixar levá-lo?, — disse Mark.
— Eu ainda não o tenho — e apenas um Rosales pode usá-lo apropriadamente, então eu irei.
— Então eu vou com você — disse Kieran, que se apoiou em seus cotovelos, seu cabelo estava desgrenhado e
havia sombras sob seus olhos.
— Você está acordado? — disse Mark.
— Eu estou acordado há um tempo — admitiu Kieran. — Mas eu fingi estar adormecido porque era uma
situação constrangedora.
— Hmm — disse Helen. — Eu acho que isso é o que Aline quer dizer com honestidade radical.
— Cristina não pode viajar para o Reino das Fadas sozinha — disse Kieran teimosamente. — É perigoso
demais.
— Eu concordo — Disse Mark. Ele se virou para Helen. — Eu vou com Cristina e Kieran, trabalhamos melhor
como uma equipe, nós três.
Helen hesitou. Como ela poderia deixá-los ir em direção ao perigo? Mas, ainda assim, era isso o que os
Caçadores de Sombras faziam, não era? Correr em direção ao perigo? Ela desejou desesperadamente poder
conversar com sua mãe. Talvez a melhor pergunta era, como ela poderia impedi-los, quando Mark e Kieran eram
melhores em andarem no Reino das Fadas do que qualquer outra pessoa? Enviar Cristina sozinha seria como
mandá-la para a destruição; mandar todos significava que ela poderia perder Mark e Julian. Mas não deixá-los
partir significava abandonar Julian no Reino das Fadas.
— Por favor, Helen — disse Mark. — Meu irmão foi para o Reino das Fadas para me salvar. Eu devo ser capaz
de fazer o mesmo por ele. Eu fui um prisioneiro antes. Não me faça um prisioneiro novamente.
Helen sentiu seus músculos arriarem. Ele estava certo. Ela sentou-se na cama antes ela pudesse começar a
chorar.
— Quando vocês iriam?
— Assim que Jaime chegar aqui com nossa herança — disse Cristina. — Faz quase uma hora desde que eu o
chamei até aqui com uma mensagem de fogo, mas não sei quanto tempo levará para ele chegar.
— Jaime Rosales? — disseram Mark e Kieran ao mesmo tempo.
Helen olhou entre eles. Ambos pareciam surpresos e um pouco atentos, como se estivessem com ciúmes. Ela
descartou o pensamento, estava perdendo a cabeça, provavelmente por causa da tensão.
— Oh, Mark — disse ela. Em tempos de tensão, a cadência de sua voz, como a dele, entrou em uma
formalidade de fada ancestral.
— Eu não posso suportar deixá-lo ir, mas suponho que devo.
Os olhos de Mark se suavizaram.
— Helen. Sinto muito. Eu prometo voltar para você com segurança, e trazer Julian e Emma de volta em
segurança também.
Antes de Helen salientar que esta não era uma promessa que ele realmente poderia fazer, Kieran pigarreou. O
som era muito comum e tão humano que quase fez Helen sorrir apesar de tudo.
— Eu gostaria de ter tido um irmão que me amasse tanto quanto vocês amam uns aos outros — disse ele,
parecendo muito com um príncipe do Reino das Fadas; a semelhança foi rapidamente dissipada, porém, quando
ele limpou a garganta novamente e disse: — Entretanto, Helen, devo lhe pedir para se retirar da minha perna.
Você está sentada em cima e está se tornando bastante doloroso.

— Alguns monstros são humanos — disse Gwyn. Eles estavam nos quartos de Diana na Rua Flintlock. Ela ficou
deitada na cama, com a cabeça no colo de Gwyn enquanto ele acariciava o cabelo dela. — Horace Dearborn é um
deles.
Diana passou a mão pela lã da túnica de Gwyn. Ela gostava de vê-lo assim — sem seu capacete ou cota de
malha, apenas um homem com uma túnica gasta e botas arranhadas. Um homem com orelhas pontudas e olhos
de duas cores, mas Diana parou de ver isso como estranho. Eram apenas partes de Gwyn.
— Acredito que há boas pessoas no Conselho — disse Diana.
— Elas foram assustados por Horace, bem como por suas terríveis previsões. Ele se aproveitou de um grande
poder em um curto espaço de tempo.
— Ele fez de Idris um lugar sem segurança — disse Gwyn. — Eu quero que você deixe Alicante, Diana.
Ela se sentou, surpresa.
— Deixar Alicante?
— Eu vi grande parte da História — disse Gwyn. — Leis terríveis geralmente são aprovadas antes de serem
revogadas depois de muito sofrimento. Mentes pequenas e medo sempre encontram um jeito de ganhar. Você me
disse que Horace e sua filha não gostam de você.
— Não — disse Diana. — Embora eu não saiba por que— — Eles temem sua influência — disse Gwyn. — Eles
sabem que os outros ouvem você. Você é muito persuasiva, Diana, e surpreendentemente sábia.
Ela fez uma careta para ele.
— Bajulador.
— Eu não estou bajulando você — ele se levantou. — Estou com medo por você. Horace Dearborn pode não
ser um ditador ainda, mas ele deseja ser um. Seu primeiro movimento será eliminar todos aqueles que
discordam dele. Ele irá extinguir as luzes mais brilhantes primeiro, aquelas que iluminam o caminho para os
outros Diana estremeceu. Ela podia ouvir os cascos de seu cavalo andando em cima do telhado.
— Você é amargo, Gwyn.
— É possível que eu nem sempre veja o melhor nas pessoas — ele disse. — da mesma forma como caço as
almas dos guerreiros mortos no campo de batalha.
Ela ergueu as sobrancelhas.
— Você está fazendo uma piada?
— Não — ele pareceu intrigado. — Eu quis dizer o que eu disse.
Diana, deixe-me levá-la daqui. Estaríamos seguros no Reino das Fadas. À noite as estrelas são de mil cores e
durante o dia os campos estão cheios de rosas.
— Eu não posso, Gwyn. Eu não posso abandonar essa luta.
Ele sentou-se na cama, segurando a cabeça, cansado.
— Diana…
Era estranho depois de tanto tempo sentir o desejo de estar perto de alguém tanto fisicamente, como
emocionalmente.
— Você não me disse que, na primeira vez em que você me viu, você se importou comigo porque eu era
corajosa? Você gostaria, agora, que eu fosse uma covarde?
Ele olhou para ela, uma emoção crua em seu rosto marcado.
— É diferente agora.
— Por que seria diferente?
Ele curvou as mãos grandes ao redor da cintura dela.
— Porque eu sei que amo você.
Seu coração sofreu uma forte vibração dentro de seu peito. Ela não esperava ouvir tais palavras de qualquer
pessoa, tinha considerado isso o preço que ela pagaria por ser transgênero e Nephilim. Ela certamente não
esperava ouvir isso de alguém como Gwyn: que sabia tudo o que havia para saber sobre ela, que não podia
mentir, que era um príncipe da magia selvagem.
— Gwyn — disse ela, e segurou o rosto dele em suas mãos, inclinando-se para beijá-lo. Ele se inclinou para
trás, gentilmente a puxando com ele até que se deitaram na cama, o coração batendo rápido contra a aspereza
de sua túnica. Ele se curvou sobre ela, seu corpo lançando uma sombra sobre o dela, e nessa sombra ela fechou
os olhos e moveu-se com os movimentos de seus beijos e toques suaves enquanto se tornavam mais doces e
afiados, até chegarem juntos a um lugar onde o medo se foi; onde havia apenas uma aliança entre almas que
havia deixado a solidão para trás.

Helen tinha ido dizer a Aline o que estava acontecendo; Mark não conseguiu adivinhar o quão tarde era, mas
ele não conseguia mais ver a luz da lua através da janela. Ele estava sentado no colchão ao lado de Kieran, e
Cristina se enrolou na cadeira ao lado da cama.
Ele evitou encontrar os olhos dela. Ele sabia que não tinha feito nada errado ao beijá-la, ou ela ao beijá-lo. Ele
se lembrou da última vez que falou com Kieran sozinho, no Santuário de Londres. Como Kieran tocou o raio
élfico que pendia em volta do pescoço de Mark.
Aquele colar havia se tornado um símbolo deles. O que Kieran tinha dito em seguida ainda reverberava em
seus ouvidos: Nós acabamos por aqui.
Ele não sabia se poderia explicar o que ele sentia por Kieran, ou mesmo por Cristina. Ele sabia apenas que
não sentia como se houvesse acabado: não com Kieran, nem com Cristina..
— Você está se sentindo melhor, Kieran? — ele disse suavemente.
— Sim, Cristina é uma enfermeira muito boa.
Cristina revirou os olhos.
— Eu apenas coloquei um curativo. Não exagere.
Kieran olhou tristemente para o braço enfaixado.
— Eu me sinto um pouco estranho com a minha manga faltando.
Mark não pôde deixar de sorrir — É muito elegante. É uma grande tendência com mundanos, ter apenas uma
manga.
Os olhos de Kieran se arregalaram.
— É?
Tanto Mark quanto Cristina riram. Kieran franziu a testa.
— Você não deveria zombar de mim.
— Todo mundo acaba sendo zombado — disse Cristina brincando. — É isso o que amigos fazem.
O rosto de Kieran se iluminou tanto que Mark sentiu um impulso doloroso de abraçá-lo. Os príncipes das fadas
não tinham amigos, ele adivinhou, apesar de ele e Kieran nunca tenham realmente falado sobre isso. Houve um
tempo em que os dois tinham sido amigos, mas o amor e a dor transmutaram isso de uma maneira que Mark
agora sabia não ser inevitável. Havia pessoas que se apaixonavam, mas ficavam amigas, como Magnus e Alec, ou
Clary e Jace, ou Helen e Aline.
O sorriso de Kieran desapareceu. Ele se moveu, inquieto, sob as cobertas.
— Há algo que preciso dizer a vocês dois. Algo que preciso explicar.
Cristina parecia preocupada.
— Não se você não quiser— — É sobre a Scholomance — disse Kieran, e ambos ficaram em silêncio. Eles
escutaram enquanto Kieran lhes contava sobre o Hollow Place. Mark tendia a perder-se em histórias de outras
pessoas. Ele sempre foi assim, desde que ele era um criança, e ele lembrou o quanto ele amava quando Kieran
contava histórias quando eles estavam na Caçada — como ele tinha ido dormir com os dedos de Kieran em seus
cabelos e sua voz em seus ouvidos, contando-lhe contos de Bloduwedd, a princesa feita de flores, e do caldeirão
negro que ressuscitava os mortos, e da batalha entre Gwyn Ap Nudd e Herne, o Caçador, que havia abalado e
derrubando árvores.
Cristina nunca se perdia nas histórias da mesma maneira, pensou Mark; ela estava inteiramente presente, sua
expressão escurecendo e seus olhos se arregalando com horror quando Kieran contou-lhes sobre a Tropa, a luta
na piscina, a escolha de Diego que o tinha salvado, e como ele escapou da biblioteca.
— Eles são horríveis — disse Cristina, quase antes de Kieran ter terminado de falar. — Horríveis. Ele foram
longe demais dessa vez!
— Temos que checar com Diego e os outros — disse Mark, embora Diego Rocio Rosales fosse uma de suas
pessoas menos favoritas. — Ver se eles estão bem.
— Vou escrever para Diego — disse Cristina. — Kieran, eu sinto muito. Eu pensei que você estaria seguro na
Scholomance.
— Você não poderia saber — disse Kieran. — Enquanto eu estava na Scholomance, eu repreendi Diego por não
planejar o futuro, mas esse não é um futuro que qualquer um poderia imaginar.
— Kieran está certo. Não é sua culpa — disse Mark. — A Tropa está fora de controle. Eu acho que foi um deles
que seguiu Emma e Julian no Reino das Fadas.
Kieran empurrou seus cobertores com um gesto áspero e súbito.
— Eu devo a Emma e Julian. Eu entendo isso agora. Eu me arrependi do que fiz a eles antes mesmo que a
água da piscina me tocasse. Mas eu nunca fui capaz de provar isso. Eu nunca fui capaz de ganhar o perdão deles
ou compensar o que eu fiz.
— Emma perdoou você — disse Cristina.
Kieran não parecia convencido. Quando ele falou, foi hesitante.
— Eu quero mostrar a vocês uma coisa.
Quando nem Mark nem Cristina se mexeram, ele se virou, ajoelhando-se na cama, e puxou sua camisa,
expondo suas costas.
Mark ouviu Cristina arfar quando a pele de Kieran foi revelada.
Estava coberta de marcas de chicote. Elas pareciam recém curadas, como se tivessem algumas semanas, sem
qualquer sangue, mas ainda escarlates. Mark engoliu em seco. Ele conhecia todas as marca e cicatrizes na pele
de Kieran. Essas eram novas.
— A Tropa chicoteou você? — Ele sussurrou.
— Não — disse Kieran. Ele deixou sua camisa cair, embora ele não tivesse se movido de onde estava, ainda em
frente à parede atrás da cama. — Essas marcas apareceram nas minhas costas quando a água da piscina me
tocou. Elas são de Emma. Eu as carrego agora como um lembrete da agonia que não teria sido causada se não
fosse por mim. Quando a água da piscina me tocou, eu senti o medo dela e a dor. Como ela poderia me perdoar
por isso?
Cristina se levantou. Seus olhos castanhos brilhavam de angústia; ela encostou sua mão levemente nas costas
de Kieran.
— Kieran — disse ela. — Todos nós temos uma capacidade infinita para cometer erros e todos nós temos uma
capacidade infinita para perdoar. Emma carrega estas cicatrizes alegremente porque, para ela, elas são marcas
de valor. Deixe que elas sejam o mesmo para você. Você é um príncipe das fadas. Eu tenho visto você ser tão
corajoso quanto qualquer um que eu conheça. Às vezes a coisa mais corajosa que nós podemos fazer é
confrontar nossas próprias falhas.
— Você é um príncipe do Reino das Fadas — Kieran sorriu um pouco, embora fosse um sorriso torto. —
Alguém disse isso para mim esta noite.
— Perceber que você cometeu erros e corrigi-los é tudo o que qualquer um pode esperar fazer — disse Mark.
— Às vezes podemos ter as melhores intenções — você estava tentando salvar a minha vida quando você foi até
Gwyn e Iarlath — e os resultados serem terríveis. Todos nós tivemos as melhores intenções quando fomos para a
reunião do Conselho, e agora Livvy está morta e Alicante está nas mãos da Tropa.
Estremecendo, Kieran se virou para encarar os dois.
— Eu juro para vocês — disse ele. — Eu vou lutar até meu último suspiro para ajudar vocês a salvar aqueles
que amam.
Cristina sorriu, claramente tocada.
— Vamos nos concentrar em Emma e Julian agora — disse ela.
— Nós estamos gratos em tê-lo conosco no Reino das Fadas amanhã.
Mark estendeu a mão por trás do pescoço e desamarrou o colar de elfo.
— Eu quero você passe a usar isso, Kieran. Você nunca deveria ficar indefeso novamente.
Kieran não alcançou o raio elfo.
— Eu dei a você porque eu queria que você o tivesse.
— E agora eu quero que você o tenha — disse Mark. — Há muitas pessoas que querem prejudicá-lo, aqui e no
Reino das Fadas.
Eu quero ter certeza de que você sempre terá uma arma perto de suas mãos.
Kieran lentamente estendeu a mão e pegou o colar da mão de Mark.
— Eu vou usá-lo então, se isso lhe agrada.
Cristina deu a Mark um olhar ilegível enquanto Kieran enrolava o colar a sua cabeça. Havia algo de aprovação
em sua expressão, como se ela estivesse contente com a generosidade de Mark.
Kieran passou as mãos pelos cabelos. Ele escorregou por entre os dedos uma mecha azul.
— A exaustão me reclama — disse ele. — Sinto muito.
Na Caçada, Mark teria abraçado Kieran e o segurado. Eles teriam sido almofadas para os corpos uns dos
outros contra o chão.
— Você gostaria que a gente fizesse uma cama de cobertores no chão? — Mark ofereceu.
Kieran olhou para cima, seus olhos como brilhantes espelhos polidos: um preto, um prata.
— Acho que eu poderia dormir na cama se você ficasse comigo.
Cristina ficou vermelha.
— Tudo bem — disse ela. — Eu darei boa noite então— — Não — disse Kieran rapidamente. — Eu quero dizer
vocês dois. Eu quero que vocês dois fiquem comigo.
Mark e Cristina trocaram um olhar. Foi a primeira vez, pensou Mark. que ele realmente olhou para Cristina
desde que eles voltaram do Vasquez Rochas: ele se sentiu muito estranho, muito envergonhado de sua própria
confusão. Agora ele percebeu que ela parecia tão corada e intrigada quanto ele.
Os ombros de Kieran se curvaram ligeiramente.
— Se vocês não quiserem, eu compreendo.
Foi Cristina quem tirou os sapatos e subiu na cama ao lado Kieran; ela ainda estava vestindo jeans e camiseta,
uma tira rasgada por um demônio Harpyia. Mark subiu na cama do outro lado de Kieran, descansando a cabeça
dele em sua mão. Eles ficaram lá por longos momentos em silêncio. O calor de Kieran e seu corpo eram
familiares — tão familiares que era difícil não se enrolar contra ele.
Puxar os cobertores sobre eles, para esquecer tudo na escuridão.
Mas Cristina estava lá, e sua presença parecia mudar a composição dos átomos no ar e do equilíbrio químico
entre Kieran e Mark. Não era mais possível cair no esquecimento. Mark estava nitidamente consciente da
proximidade de Kieran de uma forma que ele não tinha estado desde a primeira vez que o encontrou, como se o
relógio tivesse sido rebobinado em seu relacionamento.
E ele também estava ciente de Cristina, não menos acentuadamente. Desajeitado, tímido, ele ancorou no
lugar. Ele olhou para ela; podia ver o brilho de seu cabelo escuro contra o travesseiro, o ombro marrom nu. Um
calor confuso passou pela cabeça de Mark, em seus pensamentos.
— Sonharei com as Terras da Fronteira — disse Kieran. — Adaon tem uma casa de campo lá, em terras que
não são nem Seelie, nem Unseelie. Um pequeno lugar de pedra, com rosas escalando as paredes. Na Caçada,
quando eu estava com fome e frio, eu diria para mim mesmo que nada daquilo era real e tentaria tornar a casa
de campo real em minha mente. Eu fingiria que estava lá, olhando pela janela, e não onde eu realmente estava.
Tornou-se mais real para mim do que a realidade era.
Cristina tocou sua bochecha levemente.
— Ya duérmete — ela murmurou. — Vá dormir, seu idiota.
Mark não pôde deixar de sorrir.
— Alguém já te chamou de idiota antes, Príncipe Kieran? — ele sussurrou enquanto Cristina fechava os olhos
para dormir.
Mas Kieran estava olhando para Cristina, seu cabelo escuro emaranhado, seus olhos amaciados com cansaço e
outra coisa mais.
— Acho que ela é a garota mais linda que eu já vi — disse ele em um voz ruminativa.
— Eu sempre pensei o mesmo — disse Mark.
— Vocês estão diferentes um com outro — disse Kieran. — Está claro. Vocês estiveram juntos enquanto eu
estava fora.
Mark não mentiria sobre isso.
— Isso é verdade.
Kieran estendeu a mão e tocou o cabelo de Mark. Um leve toque, mandando um banho de faíscas pelo corpo
de Mark. A boca de Kieran era uma curva sonolenta e suave.
— Eu esperava que vocês estivessem — disse ele. — O
pensamento me deu conforto quando eu estava na Scholomance.
Kieran se enrolou nos cobertores e fechou os olhos, mas Mark permaneceu acordado por um longo tempo,
olhando para o escuro.

6 comentários:

  1. gente e esse casal de três que eu não entendo nada kkkkkkkkkkkkkkkkk socorro mas eu shippo edai

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  2. Triângulo amoroso!!!! Como amooooo!! ❤️

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  3. ESSE MOMENTO É MEU!!!!
    MEU TRISAL, CARALHO
    Sai da frente, Oto feliz😍😍😍😍
    Eu amo esses três mano, shipo de+ como podem ser tão lindos
    Kieran é o nenem da minha vida, socorro, nunca vai um personagem que nem ele, não consigo não amar essa criatura, aaaaaaah
    Cristina vou nem falar né? Queen.
    E o Mark... Sla mano, o jeito que ele não faz a minima ideia do que ta fazendo, é diferente.

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  4. Tbm não entendo nada entre os 3 , as vezes parece que o Mark superou e está apaixonada pela Cris e derepente tem o kieran que tbm da a entender que gosta da Cris, então vira um triângulo amoroso que se gostam mutuamente .
    E confuso kkkk

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  5. Trisal💗💕❣️❣️❣️❣️❣️❣️❣️❣️❣️❣️❣️❣️❣️❣️❣️❣️❣️❣️❣️❣️❣️❣️

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  6. MANO DO SEU EU TÔ SHIPANDO ESSE TRÊS JUNTOS NÃO TÔ ACREDITANDO KKKKK antigamente eu só queria Kieran e Mark junto, mas agora não sei porque... mas quero ver filhos entre esses três Mano já quero uma nova saga com os filhos deles kkkkk

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Boa leitura, E SEM SPOILER!