10 de abril de 2019

Capítulo 10 - Um magnífico templo

A VISÃO DO MERCADO DAS SOMBRAS enviou um soco de familiaridade através do peito de Kit. Era uma noite
típica de Los Angeles — a temperatura caiu assim que o sol se pôs e um vento frio soprou pelo terreno baldio
onde o mercado estava, fazendo as dezenas de sinos de fadas que pendiam do cantos dos estandes com dossel
branco balançarem.
Ty estava cheio de excitação reprimida por todo o caminho até lá na parte de trás do Uber, com o qual ele
lidou empurrando a manga da camisa de Kit e dando-lhe várias runas. Kit tinha três deles: Visão Noturna,
Agilidade e uma chamada Talento, que Ty disse que o tornaria mais persuasivo. Agora eles estavam de pé na
entrada do mercado, tendo sido abandonados em Vale Kendall.
Ambos estavam vestidos o mais mundanamente possível, em jeans, jaquetas com zíper fontral e botas. Mas Ty
ainda era visivelmente um Caçador das Sombras.
Ele se mantinha como um, andava como um e parecia um, e havia até mesmo runas visíveis na pele delicada
do pescoço e pulsos.
E hematomas também — em todos os lados de sua mãos, o tipo que nenhum menino mundano teria qualquer
negócio a menos que ele estivesse em um clube de luta ilegal.
Não teria importado se ele pudesse cobri-los, no entanto.
Caçadores de Sombras pareciam sangrar a herança de seus anjos através de seus poros. Kit perguntou—se se
ele mesmo já fazia isso.
— Eu não vejo nenhum portão — disse Ty, esticando a cabeça.
— Os portões são metafísicos, não são exatamente reais — Kit explicou.
Eles caminhavam em direção à seção do Mercado, onde poções e encantos eram vendidos. Um estande
coberto de rosas que caíam em tons de vermelho, rosa e branco vendia encantos de amor, um com um toldo
verde e branco vendia boa sorte e fortuna, e um estande cinza perolado com cortinas de renda penduradas,
proporcionando privacidade, vendia itens mais perigosos. Necromancia e magia negra foram ambas proibidas no
mercado, mas as regras nunca foram rigorosamente aplicadas ali.
Uma puca estava encostada na coluna de um poste nas proximidades, fumando um cigarro. Atrás dele, as ruas
do mercado pareciam pequenas e brilhantes, seduzindo Kit com gritos de “Venha comprar!” Vozes clamavam,
jóias tilintavam e sacudiam, especiarias e incenso perfumavam o ar. Kit sentiu desejo misturado com ansiedade
— ele lançou um rápido olhar para Ty. Eles não tinham entrado no mercado ainda; Ty estaria pensando em
quanto odiava o Mercado de Londres, em como isso o fazia suar e entrar em pânico com tantos barulhos, tanta
luz e tanta pressão.
Ele queria perguntar a Ty se estava bem, mas ele sabia que o outro garoto não queria isso. Ty estava
encarando o mercado, tenso de curiosidade. Kit virou-se para a puca.
— Guardião — disse ele. — Nós pedimos para entrar no Mercado das Sombras.
Ty olhou atentamente. A puca era alta, escura e magra, com fios de bronze e ouro que passavam por seus
longos cabelos. Ele usava uma calça roxa e estava e sem sapatos. O poste de luz em que ele se apoiava estava
entre duas barracas, nitidamente bloqueando o caminho para o Mercado.
— Kit Rook — disse a puca. — Que elogio , ainda ser reconhecido por alguém que nos deixou para habitar
entre os anjos.
— Ele conhece você — Murmurou Ty.
— Todo mundo no Mercado das Sombras me conhece — Disse Kit, esperando que Ty estivesse impressionado.
A puca apagou o cigarro que liberou um cheiro adocicado de ervas carbonizadas. — Senha — disse ele.
— Eu não vou dizer o isso, — Disse Kit. — Você acha que é engraçado tentar fazer as pessoas dizerem isso.
— Dizer o quê? Qual é a senha? — Ty exigiu.
A puca sorriu.
— Espere aqui, Kit Rook, — Disse ele, e derreteu de volta para as sombras do mercado.
— Ele vai trazer Hale — Disse Kit, tentando esconder os sinais de seu nervosismo.
— Eles podem nos ver? — Perguntou Ty. Ele estava olhando para o Mercado das Sombras, onde aglomerados
de Submundos, bruxas e outros membros variados do submundo mágico, movimentando-se entre os clamores. —
Lá dentro?
Era como estar do lado de fora de um quarto iluminado no escuro, pensou Kit. E embora Ty não expressasse
dessa maneira, Kit suspeitava que ele sentia o mesmo.
— Se eles podem, eles nunca demonstram — Disse ele.
Ty se virou para ele de repente.
Seu olhar deslizou pela orelha de Kit, sua maçãs do rosto, não encontrando os olhos dele. — Watson…
— Kit Rook e Ty Blackthorn, — estalou uma voz das sombras.
foi Barnabas Hale, chefe do mercado. — Na verdade, estou supondo que vocês não são Kit Rook e Ty
Blackthorn de verdade, porque eles nunca seriam estúpidos o suficiente para aparecer aqui.
— Isso pareceu um elogio, — disse Ty, que parecia sinceramente surpreso.
— Claro, talvez não sejamos nós — Disse Kit. — Talvez alguém tenha acabado de obter as especificações para
o diagrama de doces que você encomendou descontroladamente.
Hale franziu a testa em aborrecimento.
Ele se parecia como sempre: pequeno, com escamas esfolados e olhos esbugalhados de serpente. Ele usava
um terno listrado que Kit assumiu ter sido fortemente alterado para caber, a maioria dos humanos não eram três
pés de altura e três pés de largura.
A puca retornou com Hale.
Silenciosamente, ele se inclinou contra o poste de luz novamente, seus olhos escuros brilhando.
— Prove que você é Kit Rook, — disse Hale. — Qual é a senha?
— Eu ainda não vou dizer isso. Eu nunca vou dizer isso, — Disse Kit.
— O que é? — Ty exigiu.
— Deixe-nos entrar, — disse Kit. — Nós não queremos nenhum tipo de problema.
Hale soltou uma risada. — Vocês não querem problemas?
Vocês dois? Você tem que estarbrincando comigo. Você sabe que tipo de caos causou em Londres?
Propriedade destruída, vendedores atacados e você — Ele apontou para Ty — Destruíu uma grande quantidade
de estoque de fadas. Eu odeio vocês dois. Vão embora.
— Ouça-me — disse Kit. — Lembra quando aquela fada queimou metade do Mercado a baixo e foi bem
recebida no ano seguinte, porque ela teve uma boa safra de dentes de galinha?
Lembra do lobisomem, da lhama e de como acabou? E ele não foi banido, porque ele tinha uma linha em um
suprimento de yin fen.
— Qual é o seu ponto?, — Disse Hale. Ele suspirou. — Deus, eu gostaria de ter um charuto. Tive que parar.
— O espírito do mercado é simples, — disse Kit. — Tudo está bem desde que você faça um lucro. Certo?
— Claro, — disse Hale. — E é por isso que tolerávamos Johnny Rook. Nós tolerávamos você porque os
Caçadores de Sombras ainda não tinham te encontrado. Mas agora eles o têm e será fácil para descobrirem
quem você realmente é…
— O que é que isso quer dizer? — Disse Ty.
O vento tinha levantado e estava soprando seu cabelo escuro como flâmulas.
— Nada de graça — Disse Hale, com o aborrecimento de um homem que falou muito e quem queria um
charuto e não poderia ter.
— Além disso, o seu dinheiro não é bom aqui, Rook. — Ele acenou com a mão na direção de Ty. — Eu posso ser
capaz de conseguir algo em troca do seu amigo magro nos círculos certos, mas não o suficiente.
— Teoricamente, quanto? — Perguntou Ty com interesse.
Hale parecia sombrio.
— Não um preço tão bom quanto eu poderia conseguir por Emma Carstairs — ainda mais por apenas a cabeça
dela.
Ty empalideceu.
Kit sentiu, recordando Ty que o mercado era, de fato, verdadeiramente perigoso. Que tudo era
verdadeiramente perigoso.
Kit sentiu que a situação estava se afastando dele. — Sem cabeças. Olha meu pai não confiava em ninguém,
Sr. Hale. Você sabe disso. Ele escondeu seu mais precioso itens em toda Los Angeles, enterrados em lugares que
ele achava que ninguém jamais encontrá—los.
— Estou ouvindo, — Disse Hale.
Kit sabia que essa era a parte arriscada.
— Um está bem aqui no Mercado das Sombras. Uma cópia incrustada de rubis dos Manuscritos Vermelhos da
Magia. — A puca assobiou, longo e baixo. — Não só vou dar a você, vou dar a você de graça, — Disse Kit. —
Tudo que vocês tem que fazer é nos deixar livres para ir ao Mercado das Sombras. Comércio livre.
Hale balançou a cabeça em arrependimento.
— Agora eu realmente gostaria de ter um charuto, então eu poderia comemorar, — disse ele. — Eu já achei
isso, seu idiota. Nós desenterramos a barraca de seu pai depois que os Demônios Mantids o mataram. — Ele se
virou, então parou, olhando por cima do ombro.
O luar parecia refletir em sua pele branca e escamada. — Vocês estão fora do seu nível, crianças. Saiam do
Submundo antes que alguém mate vocês. Essa pessoa pode até ser eu.
Uma língua bifurcada passou por entre os dentes e lambeu os lábios. Kit começando a voltar, revoltado,
enquanto Hale se fundia no Mercado e era engolido pela multidão.
Kit não podia olhar para Ty.
Ele sentiu como se o ar tivesse sido arrancado dele, choque e vergonha em guerra por uma chance igual de
virar o seu estômago.
— Eu.. — Ele começou.
— Você deveria ter dado a senha, — disse o puca.
Sem paciência, Kit levantou lentamente o dedo do meio.
— Aqui está a senha.
Ty abafou uma risada e agarrou a manga de Kit. — Vamos — disse ele. — Vamos dar o fora daqui.

— Tenho orgulho de anunciar — Disse Horace Dearborn — que a proposta do Registro de Submundanos está
pronta para se tornar realidade.
O som que passou pelas filas de Nephilim sentados no Salão Conselho foi difícil de decifrar. Para Diana soava
como o rugido de um animal conduzindo outro animal faminto para longe de sua presa.
Horace ficou com as mãos cruzadas atrás das costas, um sorriso inexpressivo em seu rosto. À sua esquerda
estava Zara, em pleno traje de Centurião, o cabelo trançado em uma coroa em volta da cabeça. À sua direita
estava Manuel, sua expressão cuidadosamente em branco, seus olhos dançando com malícia.
Eles pareciam um escárnio horrível de um retrato de família.
— Todos os Institutos terão um curto período de tempo para registrar seus Submundanos — disse Horace. —
Os chefes dos Institutos devem atender a uma cota de registros, com base em nosso conhecimento das
populações locais de Submundanos, nas primeiras semanas que esta Lei entra em vigor.
Diana sentou-se, deixando as palavras passarem por ela em ondas de horror. Ela não podia ajudar, mas olhou
para Jia, que ocupava um assento alto de madeira na beira do estrado. Seu rosto era uma máscara tensa, Diana
não pôde deixar de se perguntar se isso era mais extremo até do que Jia temia que Horace pudesse propor.
— E se os habitantes do Submundo se recusarem? — Alguém gritou da platéia.
— Então eles terão as proteções dos Acordos retiradas, — Disse Zara, e Diana sentiu todo seu corpo ficar
gelado. Nenhuma proteção dos Acordos significava que um Caçador de Sombras poderia matar um Submundano
na rua sem motivo e não haveria consequências. — Entendemos que isso será um grande fardo de trabalho nos
Institutos, mas é importante que todos cooperem, para o bom de todos os Caçadores de Sombras.
— Cada Submundano registrado receberá um número, — disse Horace. — Se um Submundano for parado por
um Caçador de Sombras por qualquer motivo, em qualquer lugar, eles pode ser solicitado deste número.
O barulho na sala soava decididamente mais preocupado agora.
— Pense nisso como uma espécie de cartão de identificação, — Disse Manuel. — Segurança e responsabilidade
são duas das nossas principais preocupações.
— Eu quero isso ouvir da consuelesa!— Gritou Carmen Delgado Mendoza, chefe do Instituto da Cidade do
México, da platéia. Ela era a mãe de Cristina e parecia mais do que um pouco como a filha dela.
Horace parecia irritado; tecnicamente, como o que propõe uma nova lei, ele tinha a palavra e podia falar por
um certo número de minutos ininterruptos. Diana sentiu que ele já falava há vários anos.
Ele gesticulou ingenuamente para Jia, que segurou os braços da cadeira dela. firmemente.
— Minha opinião é que esta lei não é uma boa idéia— Disse ela.
— Seres do Submundo irão resistir ao que eles verão ser um grande parte dos Nephilim. Isso estabelece uma
atmosfera de desconfiança.
— Isso é porque não confiamos neles — disse Manuel. Houve um vendaval risadas do fundo da sala.
Diana não aguentou mais, ela se levantou. — Eu tenho uma pergunta para o Inquisidor!
Horace olhou para ela com olhos encobertos. — Nós vamos tirar dúvidas e comenta depois, Diana.
Diana não gostou da ênfase que ele colocou em seu nome, como se estivesse encontrado algo desagradável.
Provavelmente Zara contara ao pai um monte de mentiras sobre Diana; Que Diana uma vez humilhara Zara na
frente de seus colegas Centuriões.
Narcisistas como Zara não se esquecem de insultos.
— Deixe-a falar, — Disse Jia. — Todos no Conselho têm voz.
Intensamente consciente dos olhos nela, Diana disse: — Isso pode parecer uma pequena ação, mas não vai
parecer pequena para os Submundanos. Terá repercussões, mesmo que o registro seja temporário, sempre
haverá razões para continuar. É muito mais difícil desmantelar esse tipo de estrutura do que construir.
Poderíamos enfrentar uma situação em que os Submundanos insistam que os Caçadores de Sombras também
devam ser registrados, por igualdade. Você está preparado para ter Os nephilins carregando os papéis por toda
parte?
Isso teve o efeito desejado. O Conselho explodiu em zumbido irritado. — Não! Nunca! — Dearborn retrucou.
— Então isso efetivamente torna os Submundanos uma subclasse — disse Diana. — Nós teremos direitos que
eles não têm.
Pensem sobre isso.
— E por que você está tão incomodado com essa ideia, Diana Wrayburn?, — Disse Manuel em sua voz suave e
encantadora. Seus olhos brilhavam como bolinhas de gude. — Tem algum Submundano, talvez querido para
você, que você se preocupe seja afetado?
— Muitos Caçadores de Sombras têm Submundanos que são queridos para eles — Disse Diana
uniformemente. — Você não pode nos separar de um grupo de seres humanos que têm mais em comum conosco
que os mundanos.
Diana sabia a resposta para isso: Não temos medo de mundanos, temos dos Seres do Submundo e procuramos
controlar o que tememos. Mas era improvável que Horace tivesse esse tipo de autoconsciência. Ele a olhou com
aversão aberta quando ela se sentou.
— Esta é claramente uma questão complexa — disse Jia, levantando-se. — Eu sugiro que nós continuemos essa
votação daqui há uma semana até que o Conselho tenha tido tempo de chegar a um acordo com todas as suas
ramificações.
Horace transferiu seu olhar para ela, mas não disse nada. O
Conselho emitiu agora um zumbido de alívio, e até mesmo Horace Dearborn sabia que não deveria voar
diretamente no rosto da opinião popular durante uma votação. Ele ficou no estrado quandoo reunião foi
acabada, seus partidários reunidos em torno dele em um grupo espesso.
Sentindo-se inexpressivamente cansada, Diana foi a uma das saídas. Ela sentiu como se tivesse sido chamada
para testemunhar uma execução sangrenta apenas para ver a vítima poupada por uma semana. Alívio misturado
com medo do que o futuro traria.
— Diana! — Disse uma voz leve e acentuada atrás dela. Diana se virou para ver uma das mulheres do Instituto
de Barcelona — Trini Castel — se aproximar dela. Ela colocou uma mão de passarinho no braço de Diana.
— Eu fiquei inspirada pelo que você disse, senhorita Wrayburn — Disse ela. — Você está certa de que os
direitos - os direitos de qualquer pessoa - não devem ser descartados com leviandade.
— Obrigado — disse Diana, mais do que um pouco surpresa.
Trini Castel deu a ela Um sorriso rápido e correu para longe, deixando Diana com uma visão clara do estrado.
Zara permaneceu na borda, seu olhar fixo em Diana. Com a luz pálida filtrada através da janela, o ódio nu em
seu rosto - muito mais do que alguém pode se sentir sobre um insulto do passado - estava claro como o dia.
Estremecendo, Diana se virou e se apressou pelo corredor.
*
A convergência suspeita de Catarina nas linhas ley acabou por ser em um pequeno parque deserto perto do
Vale Antelope, famoso por suas formações de arenito maciço. Tanto Helen quanto Aline pareciam ligeiramente
surpresas que Mark e Cristina estivessem planejando sair em patrulha, mas elas não tinham feito nada para
pará-los, como se elas relutantemente reconhecessem que o patrulhamento era uma parte normal da vida dos
Caçadores de Sombras, e quanto mais cedo todos voltassem à vida normal, melhor.
No caminho de Malibu eles pegaram o caminhão de Diana, que havia sido deixado no estacionamento do
Instituto - Cristina se lembrou da longa estrada de viagens que ela teve com Emma.
Janelas do caminhão, música tocando baixo nos alto-falantes, a praia se tornando rodovia e se transformando
em deserto enquanto o sol se punha em uma névoa de fogo. Mark tinha suas longas pernas no painel e às vezes
virava a cabeça para olhá-la enquanto eles rodavam em silêncio; O peso do olhar dele parecia pele contra pele.
Como um toque.
O Parque Vasquez Rocks fechava ao pôr do sol e o estacionamento de terra batida estava vazio quando
Cristina cruzava o caminhão e desligava o motor. Eles recolheram suas armas da cama do caminhão, tirando os
protetores de pulso e cintos de armas da flambagem. Cristina amarrou uma espada longa e a confiou em seu
cinto, enquanto Mark encontrava um chicote preto e estalava algumas vezes. Ele tinha um olhar de prazer em
seu rosto enquanto seu olhar serpenteava através do céu escuro.
Eles correram antes de partirem. Cristina podia ver a runa da Visão Noturna que cintilava negra contra a
garganta de Mark enquanto eles passavam sob as luzes da estação de guarda-florestal e cruzavam um caminho
de sujeira que ferida através de matagal e das rochas que se torciam e se dobravam como envelopes.
Cristina respirou profundamente. De todas as coisas que ela amava na Califórnia, ela amava mais o cheiro do
deserto: ar puro misturado com zimbro, manzanita e sábio. O céu se abriu acima deles como um segredo
contado, espalhado em um milhão de estrelas.
Eles passaram por uma placa de madeira para uma trilha, assim como uma formação maciça de rocha que
subiu à frente deles, quase bloqueando a lua. — A convergência das linhas ley — Mark disse, apontando.
Cristina não perguntou como ele sabia; fadas tinham um senso para tais coisas. Eles se aproximaram das
rochas, que se erguiam acima deles em lajes inclinadas, como o restos de uma nave espacial que caiu na areia.
As botas de Cristina trituraram a areia, o som alto em seus ouvidos graças a sua runa de áudio.
Um som zumbido de agudo de insetos atrás dela. Ela virou.
Mark foi franzindo o cenho para o sensor na mão. — Está fazendo um zumbido, mas não um que eu já tenha
ouvido antes — Ele disse.
Cristina se virou devagar. O deserto se estendia ao redor dela, um tapete de ouro preto, marrom e escuro. O
céu era de veludo escuro. — Eu não vejo nada.
— Devemos esperar aqui, — disse Mark. — Veja se acontece de novo.
Cristina não estava com vontade de ficar por baixo da uma lua romântica com Mark.
— Acho que devemos continuar andando.
— Cristina — Disse Mark. — Você parece irritada comigo.
Cristina revirou os olhos. — Nada passa por você, Mark Blackthorn.
Mark baixou o sensor. — Ontem à noite, não era que eu não quisesse - e eu queria…
Cristina corou furiosamente. — Não é isso, Mark — Disse ela. — Você pode querer ou não. É assunto seu. Foi
porque você mentiu.
— Humanos mentem, — ele disse, seus olhos bicolores de repente brilhando. — Os mortais mentem para uns
aos outros todos os dias, especialmente em questões de amor. É que a minha mentira não foi boa bastante? Eu
deveria ser mais experiente?
— Não! — Ela girou para ele. — Eu gosto que você não minta, Mark. É por isso que eu estava tão… Mark, você
não consegue entender? Eu não esperava que você mentisse para mim.
— Você me viu mentir para Kieran — Disse ele.
— Sim, mas isso foi para salvar vidas, — Disse ela. — A menos que você esteja me dizendo que você não quer
fazer sexo comigo tem algo a ver com salvar vidas, que acho difícil de acreditar…
— Eu queria! — Mark explodiu. — Uma coisa que você deve entender é que eu quero estar com você dessa
maneira, e de todas as formas, e isso não é mentira.
Cristina afundou em uma pedra baixa. Seu coração estava batendo. E ela só disse a palavra “sexo” o que a
embaraçou horrivelmente. — Então eu não entendo porque você fez isso — disse ela em voz baixa. — Você
estava tentando poupar alguém? Kieran?
— Eu estava tentando poupá—la — Ele disse , sua voz escura e dura, como lampejo de inverno.
— Me poupar de que?
— Você sabe quem você é — Ele gritou, assustando-a. Ela olhou para ele, sem compreender - não era como se
ela fosse uma estranha, para ele ou para alguém. O que ele quis dizer? — Kieran te chamou de Princesa dos
Nephilim, e com razão, — Disse ele. A lua estava completamente apagada e a luz branca prateada iluminou seu
cabelo como um halo. Ela também iluminou seus olhos — largos, dourados, azuis e cheio de dor. — Você é um
dos melhores exemplos de pessoas que eu já conheci - brilhante, justa, virtuosa. Você é todas as coisas boas que
eu posso pensar, e todas as coisas que eu gostaria de ser e saber mas nunca consigo. Eu não quero que você faça
algo que depois se arrependa. Eu não quero que mais tarde você perceba o quão baixo o seu padrão chegou para
me alcançar.
— Mark! — Ela saltou da rocha e foi até ele. Ela ouviu um baque como algo atingindo o chão, e jogou os
braços ao redor de Mark, abraçando-o com força.
Por um momento ele se manteve rígido e congelado. Então ele amoleceu contra ela, seus braços envolvendo
seu corpo, seus lábios roçando sua bochecha, os cachos macios de seu cabelo haviam escapado de sua trança.
— Cristina — ele sussurrou.
Ela recuou o suficiente para tocar seu rosto, seus dedos traçando as linhas das suas maçãs do rosto. Sua pele
tinha aquela suavidade impossível de fada que vinha de nunca ter precisado do toque de uma navalha. — Mark
Blackthorn — Disse ela, e seus ossos estremeceram profundamente ao olhar nos seus olhos. — Eu queria que
você pudesse ver você mesmo como eu vejo. Você é tantas coisas que eu nunca pensei querer, mas eu quero. Eu
quero todas as coisas com você.
Seus braços se apertaram ao redor dela; ele a puxou para ele como se estivesse reunindo uma braçada de
flores. Seus lábios patinaram ao longo de sua bochecha, de sua mandíbula e finalmente suas bocas se
encontraram, queimando quente no ar frio, Cristina deu um pequeno ofego com o desejo que a atravessou,
afiado como uma ponta de flecha.
Ele tinha gosto de mel e vinho de fada. Eles cambalearam para trás, buscando apoio contra uma pilha de
rochas. As mãos de Mark estavam em sua jaqueta de equipamentos, ele estava a desabotoando e deslizando as
mãos para dentro, sob a camisa, como se estivesse desesperado pelo toque de a pele dela. Ele murmurou
palavras como “linda” e “perfeita” e ela sorriu e passou a língua lentamente pelo seu lábio inferior, fazendo-o
ofegar como se ela o tivesse esfaqueado. Ele gemeu impotente e puxou-a mais apertado.
O sensor zumbiu, alto e longo.
Eles se separaram, ofegando. Cristina fechou a jaqueta com as mãos trêmulas enquanto Mark se curvou
desajeitadamente para pegar o Sensor. Ele zumbiu novamente e ambos giraram, se encarando.
— No mames, ela sussurrou. A sirene fez outro barulho insistente e alguma coisa a atingiu com força do lado.
Foi oMark. Ele a derrubou no chão; ambos rolaram para o lado sobre a terra oca e esburacada enquanto algo
enorme e sombrio subiu acima deles. Asas negras se espalhavam como sombras irregulares. Cristina se levantou
do cotovelo, tirou uma adaga do cinto e a jogou.
Houve um grito esganiçado, a luz das pedras enfeitiçadas iluminou o céu; Mark estava de joelhos uma pedra
rúnica na mão.
Acima deles um enorme demônio de cara branca e penas como um manto sombrio de trapos agitavam suas
asas; o cabo do punhal de Cristina se projetava do peito da criatura. Seu contorno já começava a se confundir
quando ele gritou novamente, arranhando o punho com uma garra talonada, antes de se dobrar como papel e
desaparecer.
— Um demônio Harpyia — Disse Mark, saltando para seus pés.
Ele se abaixou para ajudar Cristina depois dele. — Provavelmente se escondendo nas rochas. É por isso que o
sensor não pegou bem.
— Nós devemos ir. — Cristina olhou ao redor. — A julgar pelo Sensor, existem mais.
Eles começaram a correr em direção à trilha de terra, Cristina olhando por cima do ombro para ver se alguma
coisa os estava seguindo.
— Eu só quero deixar claro que eu não planejei a interrupção do demônio Harpyia — Disse Mark, — Eu estava
realmente ansioso para continuar com a nossa conferência sexual.
Cristina suspirou. — É bom saber. — Ela cortou lateralmente para baixo através das artemisia. Ao longe, ela
podia ver o brilho metálico do caminhão estacionado.
Os passos de Mark diminuíram. — Cristina. Veja.
Ela olhou ao redor. — Eu não vejo nada.
— Olhe para baixo — disse ele, e ela o fez.
Ela se lembrou de pensar que suas botas haviam esmagado estranhamente a areia. Agora ela percebeu que
era porque não era areia, uma paisagem lunar desolada esticou-se ao redor deles num raio de vinte pés. As
plantas suculentas e artemísias murchas eram brancas como ossos velhos. A areia parecia como se tivesse sido
atingido por incêndios florestais e os esqueletos de coelhos e cobras foram espalhados entre as rochas.
— É a praga — Disse Mark. — A mesma ferrugem que vimos na Reino das Fadas.
— Mas por que estaria aqui? — Perguntou Cristina, desnorteada. — O que as linhas ley tem a ver com a
praga? Isso não é magia de fada?
Mark sacudiu a cabeça. — Eu não…
Um coro de gritos estridentes rasgou o ar. Cristina girou, chutando uma nuvem de poeira e viu sombras
saindo do deserto ao redor deles. Agora Cristina podia vê—los mais de perto: eles pareciam pássaros apenas
porque eram alados. O que parecia ser penas eram, na verdade, panos negros que envolviam seus corpos
brancos e magros. Suas bocas estavam tão cheias de dentes tortos e pontiagudos que davam a impressão de
estarem sorrindo grotescamente. Seus olhos estavam estourando como lâmpadas amarelas com pupilas pretas.
— Mas o Sensor — Ela sussurrou. — Não saiu. Não…
— Corra — Disse Mark, e eles correram, enquanto os demônios Harpyias subiam gritando e rindo para o céu.
Uma pedra bateu no chão perto de Cristina, e outro mal passou pela cabeça de Mark.
Cristina ansiava por se virar e mergulhar sua balisong no demônio mais próximo, mas era muito difícil mirar
enquanto ambos corriam. Ela podia ouvir Mark xingando enquanto ele se esquivava de pedras do tamanho de
bolas de beisebol. Uma bateu dolorosamente na mão de Cristina, quando chegaram ao caminhão e ela abriu a
porta; Marck subiu no outro lado, e por um momento eles se sentaram ofegando enquanto as pedras batiam na
cabine do caminhão como granizo.
— Diana não vai ficar feliz com o carro dela — Disse Mark.
— Temos problemas maiores. — Cristina enfiou as chaves na ignição; o caminhão deu partida com um
solavanco, rolou para trás e parou. O som do rochas que batiam no telhado de metal tinham cessado também, e
o silêncio de repente parecia estranho. — O que está acontecendo? — Ela exigiu, pisando no acelerador.
— Saia! — Mark gritou. — Temos que sair!
Ele agarrou o braço de Cristina, puxando-a sobre o console central. Ambos saíram da porta do lado do
passageiro quando o caminhão se ergueu ar, Cristina aterrissando desajeitadamente meio em cima de Mark.
Ela se virou para ver que os demônios Harpyia haviam se apoderado do caminhão, garras perfurando os lados
de metal da cama e cavando quadros na janela. O veículo navegou no ar, os demônios Harpyia gritando e rindo
enquanto eles o transportavam para o céu — e o soltavam.
Ele girou de ponta a ponta e atingiu o chão com um enorme impacto de metal e vidro, rolando para os lados
para se deitar na areia. Um dos Harpyia tinha montado como se fosse uma prancha de surfe e ainda agachado,
grunindo e dando risadinhas enquanto eles o levantavam para o céu — e o derrubavam..
Cristina ficou de pé e seguiu em direção ao caminhão. Quando ela se aproximou, podia sentir o cheiro de
gasolina derramando. O
Harpyia, muito estúpido para perceber o perigo, virou o rosto branco e sorridente para ela. — As rochas são o
nosso lugar — sibilou ele. — Envenenado. Melhor lugar.
— Cállate! — ela estalou, desembainhou sua espada longa e cortando a cabeça.
Icor explodiu para cima em um borrifo mesmo quando o corpo do Harpyia se dobrou e piscou para fora da
existência. Os outros demônios uivaram e mergulharam, Cristina viu um deles bombardear Mark e gritou seu
nome, Ele pulou em uma pedra e o cortou com seu chicote. Ichor abriu uma costura brilhante no peito do
Harpyia e bateu na areia, chiando, mas outra Harpyia já estava cruzando o céu. O
chicote de Mark se enrolou em torno de sua garganta e ele se sacudiu com força, fazendo a cabeça bater
como um arbusto entre as pedras.
Algo atingiu as costas de Cristina, ela gritou quando seus pés deixaram o chão. Uma Harpyia tinha afundado
suas garras na parte de trás de sua jaqueta de equipamento e estava a levantando ela no ar. Ela pensou em
histórias sobre como as águias voavam alto no céu com suas presas e, em seguida, os liberta, deixando seus
corpos se quebrarem no chão abaixo. O chão estava recuando abaixo dela em uma velocidade aterrorizante.
Com um grito de medo e raiva, ela cortou para cima e para baixo com sua espada, cortando as garras do
Harpyia na articulação.
O demônio gritou e Cristina caiu no ar, sua espada caindo de sua mão, estendendo a mão como se pudesse
pegar algo para retardar sua queda.
Algo a pegou no céu.
Ela engasgou quando uma mão pegou seu cotovelo e ela foi puxada para o lado para pousar desajeitadamente
em cima de algo quente e vivo. Um cavalo voador. Ela engasgou e tentou se segurar com as unhas, cavando a
crina da criatura enquanto mergulhava e mergulhava.
— Cristina! Fique parada!
Era Kieran gritando. Kieran estava atrás dela, um braço chicoteando ao redor da sua cintura para puxá—la
contra ele. O que parecia ser uma carga elétrica passou através dela Kieran estava com os olhos arregalados, o
cabelo negro—azulado profundo, e ela percebeu de repente que o cavalo era Lança do Vento, mesmo quando o
garanhão se atirou através da multidão de Harpyias em direção a Mark.
— Kieran, olhe para trás — Ela gritou, enquanto os demônios Harpyia virou sua atenção para Lança do Vento,
seus olhos amarelos estalando girando como lanternas.
Kieran jogou o braço para fora e Cristina sentiu a carga elétrica através dela novamente. O fogo branco
brilhou e os demônios Harpyia recuaram conforme Lança do Vento pousou levemente na frente de Mark.
— Mark! Para mim! — Kieran gritou. Mark olhou para ele e sorriu - um sorriso de Caçador, um sorriso de
batalha, todos os dentes - antes de decapitar um último Harpyia com um puxão de seu chicote. Salpicado de
sangue e icor, Mark saltou para o cavalo atrás de Kieran, colocando seus braços ao redor da cintura de Kieran.
Lança do Vento saltou no ar e o Harpyia seguiu, suas bocas sorrindo abertas para mostrar fileiras de dentes
semelhantes a tubarões.
Kieran gritou algo em uma língua fada que Cristina não conhecia, e Lança do Vento se inclinou em um ângulo
impossível. O
cavalo se atirou para cima como uma flecha, o caminhão abaixo deles tinha finalmente explodido, engolindo o
demônio Harpyia em uma enorme coroa de chamas.
Diana vai ficar muito brava pelo seu caminhão, pensou Cristina, e caiu contra a juba de Lança do Vento
enquanto o cavalo fada circulava abaixo das nuvens, virava—se em direção ao oceano.
*
Kit nunca tinha estado no telhado do Instituto de Los Angeles antes, ele tinha que admitir que tinha uma visão
melhor do que o Instituto de Londres, a menos que você fosse um otário para arranha —céus. Daqui você podia
ver o deserto se estendendo para trás a casa, por todo o caminho para as montanhas. Seus topos foram tocados
pela luz refletindo na cidade do outro lado da faixa, seus vales na sombra profunda. O céu estava brilhante com
estrelas.
Na frente da casa estava o oceano, sua imensidão aterrorizante e gloriosa. Hoje à noite o vento era como
dedos leves acariciando sua superfície, deixando rastros de ondas de prata atrás.
— Você parece triste — disse Ty. — Você está?
Eles estavam sentados na beira do telhado, as pernas balançando—se no espaço vazio. Esta foi provavelmente
a maneira que ele deveria ter vivido seus anos da escola, Kit pensou, subindo em lugares altos, fazendo besteiras
perigosas coisas que preocupariam seus pais. Só ele não tinha pais para se preocupar, e os coisas perigosas que
ele estava fazendo eram realmente perigosas.
Ele não estava preocupado por si mesmo, mas estava preocupado com Ty.
Ty, quem estava olhando para ele com preocupação, seu olhar cinzento patinando sobre o rosto de Kit como se
fosse um livro que ele estava tendo dificuldade em ler.
Sim, estou triste, pensou Kit. Estou preso e frustrado. Eu queria impressionar você no Mercado das Sombras e
eu me envolvi tanto que me esqueci de todo o resto. Sobre como nós realmente não deveríamos estar fazendo
isso. Sobre como eu não posso te dizer que não devemos estar fazendo isso.
Ty estendeu a mão e afastou o cabelo de Kit do rosto, uma espécie de gesto ausente que enviou uma imagem
de algo através de Kit, uma sensação como se tivesse tocado uma cerca elétrica viva.
Ele olhou e Ty disse: — Você deveria cortar o cabelo. Julian corta o cabelo de Tavvy.
— Julian não está aqui — Disse Kit. — E eu não sei se quero que ele corte meu cabelo.
— Ele não é ruim nisso. — Ty baixou a mão. — Você disse que seu pai tinha coisas escondidas por todo o lado
em Los Angeles.
Existe alguma coisa que possa nos ajudar?
Seu pai. Como se Julian fosse o pai de Ty. Então, novamente, ele era de certa forma.
— Nada necromântico — disse Kit.
Ty pareceu desapontado. Ainda tonto com o choque da cerca elétrica, Kit não aguentava. Ele tinha que
consertar isso, aquele olhar no rosto de Ty. — Olha, nós tentamos a abordagem direta. Agora temos que tentar o
golpe.
— Eu realmente não entendo — Disse Ty. — Eu leio um livro sobre eles, mas eu não posso entender como as
pessoas se deixam enganar assim.
Os olhos de Kit caíram no medalhão de ouro ao redor do pescoço de Ty. Ainda havia sangue nele. Pareciam
manchas de ferrugem. — Não é sobre fazer as pessoas acreditem no que você quer que eles acreditem. É sobre
deixá-los acreditar no que eles querem acreditar. Sobre dar a eles o que eles acham que precisam.
Ty levantou os olhos; embora eles não conhecessem os de Kit, Kit poderia ler a expressão neles, a consciência
do amanhecer. Ele consegue? Kit pensou, com alívio e apreensão misturados.
Ty ficou de pé. — Eu tenho que enviar uma mensagem de fogo para Hypatia Vex — ele disse.
Isso não era nada do que Kit esperava que ele dissesse. — Por quê? Ela já disse não sobre nos ajudar.
— Ela disse. Mas Shade diz que ela sempre quis administrar o Mercado das Sombras — Ty sorriu de lado, e
naquele momento, apesar de sua diferença coloração, ele parecia Julian. — É o que ela acha que precisa.
*
O céu era uma estrada e as estrelas faziam caminhos; a lua era uma torre de vigia, um farol que te levou para
casa.
Estar nas costas de Lança do Vento era totalmente estranho e totalmente familiar para Mark. Estar com seus
braços ao redor de Kieran. Ele voou por tantos céus segurando Kieran, e a sensação do corpo de Kieran contra o
dele, a força de seu chicote, o cheiro fraco de sal e oceano de sua pele e cabelo, era tudo mapeado no sangue de
Mark.
Ao mesmo tempo, ele podia ouvir Cristina, ouvi—la rir, vê—la como ela se inclinou para apontar pontos de
referência piscando por baixo deles. Ela perguntou a Kieran se pudiam sobrevoar o letreiro de Hollywood e ele
tivesse obrigado; Kieran, que fez questão de ser desobediente.
E o coração de Mark se agitou com a risada dela; agitou quando tocou Kieran, ele estava entre eles
novamente, como estivera em Londres, e apesar da agitação arrepiou seus nervos com o pensamento, ele não
podia fingir que não estava feliz por ter Kieran de volta.
Kieran trouxe Lança do Vento para baixo no lote atrás do Instituto. Tudo estava parado, quebrado apenas pelo
som de chilreios de cigarras. Foi difícil acreditar que dez minutos antes eles estavam em uma luta contra a
morte com demônios Harpyia.
— Você está bem? — Cristina disse com uma carranca, quando ela deslizou nas costas do cavalo. — Você não
parece bem.
Com um pulo, Mark percebeu que ela estava conversando com Kieran. E que ela estava certa. Kieran chegou
ao Vasquez Rocks quase crepitando com energia, era uma espécie de magia, magia numinosa que Mark
associava à família real mas nunca tinha visto Kieran empregar antes.
Mas a energia parecia tê-lo deixado; Ele encostou a mão contra o lado de Lança do Vento, respirando com
dificuldade. Havia sangue nas mãos, no colarinho e na pele; seu rosto estava sem cor.
Mark deu um passo à frente e hesitou. Ele se lembrou de Kieran dizendo a ele que eles foram feitos. — Eu não
sabia que você estava ferido nas rochas, Kier — Disse ele.
— Não. Isso aconteceu na Scholomance.
— Por que você foi embora? — Perguntou Cristina.
— Há algo que eu preciso te dizer. — Kieran estremeceu e deu um tapa em Lança do Vento no flanco. O cavalo
relinchou e correu para as sombras, derretendo na escuridão. — Primeiro temos que te levar para cima. —
Cristina olhou para Mark como se ela esperasse que ele desse um passo à frente para ajudar Kieran. Quando ele
não fez, ela se mudou para o lado de Kieran, curvando o braço em volta do ombro dela. — Precisamos ver o
quanto você está ferido.
— É importante…— Kieran começou.
— Então é isso. — Cristina avançou com Kieran inclinando-se sobre ela. Mark não aguentava mais; ele se virou
para o outro lado de Kieran e juntos eles entraram na casa, Kieran mancando entre eles.
— Obrigado, Mark — Disse Kieran em voz baixa. Quando Mark arriscou um olhar de lado, ele não viu raiva
nos olhos de Kieran, mas Kieran não estava com raiva da última vez que eles estiveram juntos?
Kieran tinha esquecido que Mark tinha prejudicado ele? Não era da natureza dos príncipes esquecer os erros
ou perdoar eles.
Cristina estava dizendo alguma coisa sobre água e comida; A mente de Mark estava em um giro, e por um
momento, quando eles entraram na cozinha, ele piscou em torno de confusão. Ele pensou que eles estavam indo
para um dos seus quartos. Cristina ajudou Mark a colocar Kieran em uma cadeira antes de ir até a pia para
pegar toalhas úmidas e sabão.
— Preciso falar com você sobre o que aprendi, — dizia Kieran; ele estava empoleirado na cadeira, todos os
membros longos e escuros, roupas estranhas e olhos ardentes. Seu cabelo brilhava profundamente azul. Ele
parecia uma fada fora de lugar no mundo humano, e isso apunhalou Mark com uma dolorosa simpatia misturada
com medo de que ele pudesse parecer assim.
— Deixe-me ver seu rosto. — Cristina roçou Kieran com dedos gentis; ele Inclinou—se em seu toque, e Mark
não podia culpá-lo.
— O que está acontecendo? — A luz brilhou na cozinha; era Helen, carregando uma pedra rúnica em uma
mão. — Alguém está ferido?
Mark e Cristina trocaram olhares assustados; Kieran olhou entre Mark e Helen, seus lábios se separando em
realização.
— Você estava esperando por nós? — Mark exigiu. — Já passou da meia-noite.
— Eu fui… Não. — Helen olhou para as calças de moletom culpadas. — Eu queria um sanduíche. — Ela olhou
para Kieran. — Você trocou o caminhão de Diana por uma fada? Um príncipe?
Kieran ainda estava olhando para ela com a mesma realização e Mark sabia o que ele devia estar vendo:
alguém que era tão claramente a irmã de Mark, tão claramente a Helen que Mark tinha falado com tanta dor por
tantos anos na Na Caçada.
Ele levantou—se e atravessou a sala para Helen. Ele levantou a mão livre e beijou as costas dela.
— A amada irmã do meu amado Mark. É uma alegria vê-la bem e reunida com sua família.
— Eu gosto dele — Disse Helen para Mark.
Kieran abaixou a mão. — Posso compartilhar minha tristeza com a morte de sua irmã, Livia, — ele disse. — É
uma pena ver uma estrela tão brilhante e bonita intempestivamente extinta.
— Sim. — Os olhos de Helen brilharam. — Obrigada.
Eu não entendo, Mark sentiu como se estivesse em um sonho.
Ele tinha imaginado Kieran encontrando sua família, mas não tinha sido assim, e Kieran nunca tinha foi tão
gracioso, mesmo na imaginação de Mark.
— Talvez todos devêssemos nos sentar — disse Helen. — Eu acho melhor ouvir sobre o que aconteceu hoje à
noite em sua “patrulha normal”? — Ela levantou uma sobrancelha para Mark.
— Primeiro devo dizer-lhe o que aconteceu na Scholomance — Disse Kieran firmemente. — É imperativo.
— O que aconteceu? — Perguntou Cristina. — Eu pensei que seria seguro para você lá…
— Foi por um curto período de tempo, — disse Kieran. — Então a Tropa retornou de Idris e me descobriu. Mas
essa história deve esperar. Eu vim para trazer notícias para você. — Ele olhou em volta para os rostos
esperançosos. — O Inquisidor da Clave enviou Emma e Julian em uma missão secreta para o Reino das Fadas.
Eles não esperam que eles retornem ou sobrevivam.
Mark sentiu-se entorpecido por completo. — O que você quer dizer?
— É uma missão perigosa — e alguém foi enviado atrás deles para se certificar que eles não o completem… —
Ofegando, Kieran caiu de volta em sua cadeira, parecendo terrivelmente pálido.
Mark e Cristina chegaram a firmá—lo ao mesmo tempo. Eles olharam um para o outro sobre a cabeça curvada
de Kieran com alguma surpresa.
— Kieran, você está sangrando! — Cristina exclamou, afastando a mão de seu ombro. Estava manchado de
vermelho.
— Não é nada, — Disse Kieran asperamente. Não era mentira, precisamente — Mark tinha certeza de que ele
acreditava, mas seu rosto pálido e olhos febris contavam outra história.
— Kier, você não está bem — Disse Mark. — Você precisa descansar. Você não pode fazer qualquer coisa boa a
ninguém nessa condição.
— Concordo. — Cristina levantou-se, a mão ainda vermelha com o sangue de Kieran. — Nós devemos ver suas
feridas de uma vez.

— Você mudou, filho dos espinhos — Disse a rainha.
Ela ficou em silêncio por alguns minutos enquanto o quarto estava vazio de guardas e observadores. Mesmo
então, Julian não acreditava inteiramente que eles estivessem sozinhos. Quem sabia o que sprites ou cluricauns
poderiam se esconder entre as sombras?
Julian estava andando de um lado para o outro, impelido por uma inquietação que ele não conseguia explicar.
Então, novamente, ele poderia explicar pouco do que sentiu nos dias de hoje. Havia impulsos ele seguiu, outros
ele evitou, se irritou, não gostou e até esperou, mas ele não poderia ter explicado a emoção que o levou a matar
Dane, ou o que ele sentiu depois. Era como se as palavras que ele precisava para descrever o que ele sentia que
desaparecera de seu vocabulário mental.
Ele lembrou que alguém lhe disse uma vez que as últimas palavras de Sebastian Morgenstern tinha sido eu
nunca me senti tão leve. Ele próprio sentiu a luz, tendo colocado um peso de medo constante e saudade, ao qual
se acostumara tanto a carregar que já não o notava. Mas ainda assim, no fundo, o pensamento de Sebastian o
arrepiou. Foi errado sentir leveza?
Agora que ele estava consciente de sua impaciência e de seu conhecimento, embora fosse distante, que ele
estava brincando com fogo. Mas o conhecimento não veio acompanhado por medo ou por excitação. Foi distante.
Clínico.
— Estamos sozinhos — disse a rainha. — Nós poderíamos nos divertir.
Agora ele olhou para ela. Seu trono havia mudado, e ela também. Ela parecia estar pendurada ao longo das
almofadas de uma chaise vermelha, seu cabelo acobreado caindo em volta dela.
Ela era radiantemente linda, os contornos esqueléticos dela rosto preenchido com juventude e saúde, seus
olhos castanhos brilhando.
Os olhos da rainha são azuis. Os da Emma são marrons.
Mas isso não mudou o que ele estava vendo; os olhos da rainha eram da cor de pedras de olho de tigre e
brilhou quando ela olhou para ele. Seu vestido era branco cetim, e quando ela lentamente levantou uma perna,
deslizando o dedo ao longo da sua panturrilha oposta, abriu—se na fenda, revelando as pernas até os quadris.
— Isso é um glamour — Disse Julian. — Eu sei o que está por baixo.
Ela descansou o queixo na mão. — A maioria das pessoas não ousaria falar isso para a Rainha Seelie.
— A maioria das pessoas não tem algo que a Rainha Seelie quer — disse Julian. Ele não sentiu nada, olhando
para ela: ela era linda, mas ele não poderia ter desejado-a menos se tivesse sido uma bela rocha ou um belo pôr
do sol.
Ela estreitou os olhos e eles piscaram de volta para o azul. — Você está realmente diferente — ela disse —
mais como uma fada.
— Estou melhor — disse ele.
— Sério? — A Rainha sentou-se lentamente, seu vestido de seda se arrumando ao redor dela. — Há um ditado
entre o meu povo, sobre os mortais que trazemos aqui: no Reino das Fadas, como os mortais não sentem
tristeza, não podem sentir alegria.
— E por que isso? — Perguntou Julian.
Ela riu. — Você já se perguntou como atraímos mortais para viver aqui? Entre fadas e nos servir, filho dos
espinhos? Nós escolhemos aqueles que perderam algo e prometemos o que os seres humanos desejam acima de
tudo, um cessar à sua dor e sofrimento. Mal sabem eles que uma vez que eles entram nossas Terras, elas estão
na jaula e nunca mais sentirão felicidade. — Inclinou-se para a frente. — Você está naquela jaula, garoto.
Um arrepio subiu pela espinha de Julian. Foi atávico, primitivo, como o impulso que o levou a subir a pira de
Livvy. — Você está tentando me distrair, minha senhora. Que tal me dar o que você prometeu?
— O que, você se importa com o vínculo parabatai agora?
Parece que você não está mais com Emma. Eu vi no jeito que ela olhou para você. Como se ela sentisse sua
falta embora você estivesse de pé ao lado dela.
— Os laços — disse Julian entre os dentes. — Como eles podem ser quebrados? — Sua cabeça latejava. Talvez
ele estivesse desidratado.
— Muito bem. — A rainha se inclinou para trás, deixando o cabelo longo derramar sobre o lado da chaise e até
o chão. — Embora possa não agradar a você.
— Conte-me.
— A runa parabatai tem uma fraqueza que nenhuma outra runa tem, porque foi criado por Jonathan Caçador
de Sombras, ao invés do Anjo Raziel — disse o Rainha. enquanto falava, ela desenhou no ar espirais preguiçosas
com a ponta do dedo — Mantida na Cidade do Silêncio esta a runa parabatai original inscrita por Jonathan,
Caçador de Sombras e Davi, o Silencioso. Se for destruída, todas as runas parabatai no mundo serão quebradas.
Julian mal podia respirar. Seu coração estava martelando contra o peito. Todos os laços do mundo. Quebrados.
Ele ainda não conseguia explicar o que era o sentimento, mas a intensidade disso o fez sentir como se estivesse
explodindo em sua própria pele.
— Por que eu não ficaria satisfeito em ouvir isso? — Ele perguntou. — Porque isso seria difícil?
— Não é difícil. Impossível. Ah, nem sempre foi impossível — disse o Rainha, sentando-se e sorrindo para ele.
— Quando falei com você sobre isso primeiro, foi de boa fé. Mas as coisas mudaram.
— O que você quer dizer? — Julian exigiu. — Como as coisas mudaram?
— Quero dizer, há apenas uma maneira de destruir a runa — disse a rainha. — Deve ser destruída com ajuda
da Espada Mortal.

2 comentários:

  1. Karina, do cap 8 a frente a formatação deles tá toda errada, horrível de ler

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    Respostas
    1. Tem que terminar de revisar e atualizar tudo por aqui :/ falta-me tempoooooo

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Boa leitura, E SEM SPOILER!