5 de abril de 2019

Capítulo 1


Querido Diário,

Ontem à noite tive um sonho assustador.
Tudo era como algumas horas antes. Eu estava de volta à câmara subterrânea da Vitale Society e Ethan me mantinha cativa, a faca fria e firme em meu pescoço. Stefan e Damon nos olhavam, as expressões cautelosas, os corpos tensos, esperando o momento em que um deles conseguiria avançar e me salvar. Mas eu sabia que seria tarde demais. Sabia que, apesar da velocidade sobrenatural dos dois, Ethan cortaria minha garganta e eu morreria.
Havia tanta dor nos olhos de Stefan. Partia meu coração saber quanto sofrimento minha morte lhe traria. Odiava a ideia de morrer sem Stefan saber que eu o havia escolhido, apenas ele que toda minha indecisão tinha ficado para trás.
Ethan puxou-me ainda mais para perto, o braço firme e inflexível como uma cinta de aço em meu peito. Eu sentia o gume frio da faca machucando minha pele.
Então, de repente, Ethan caiu e Meredith estava ali, o cabelo esparramado às costas, o rosto feroz e decidido como o de uma deusa vingativa, o bastão ainda erguido do golpe mortal que deferira no coração de Ethan.
Era para ter sido um momento de alegria e alívio. Na vida real, foi: o momento em que eu soube que viveria, quando estava prestes a me ver nos braços de Stefan.
Mas no sonho o rosto de Meredith era encoberto por um clarão da mais pura luz branca. Eu me sentia cada vez mais fria, meu corpo congelava, minhas emoções eram sufocadas por uma calma gélida. Minha humanidade escapava de mim e algo rígido, inexorável e... outra coisa... tomava seu lugar.
No calor da batalha, permiti-me esquecer do que James havia me dito: que meus pais me prometeram às Guardiãs, que meu destino era me tornar uma delas. E agora elas vieram reivindicar seus direitos.
Acordei apavorada.

Elena Gilbert parou de escrever e ergueu a caneta da página do diário, relutando em continuar. Registrar em palavras o que ela mais temia faria com que parecesse ainda mais real.
Olhou o quarto do alojamento, seu novo lar. Bonnie e Meredith tinham aparecido e ido embora enquanto Elena dormia. As cobertas de Bonnie estavam jogadas para trás e seu laptop não estava mais na mesa. O lado de Meredith do quarto, em geral aflitivamente organizado, mostrava indícios de como ela devia estar exausta: as roupas ensanguentadas que usara na luta contra Ethan e seus seguidores vampiros foram largadas no chão. Suas armas estavam espalhadas pela cama, a maioria empurrada de lado, como se a jovem caçadora de vampiros tivesse se enroscado entre elas para dormir.
Elena suspirou. Talvez Meredith compreendesse como Elena se sentia. Ela sabia o que era ter um destino escolhido para você, descobrir que suas próprias esperanças e sonhos no fim, nada significavam.
Mas Meredith tinha aceitado seu destino. Agora nada era mais importante e não havia nada que ela mais amasse do que ser uma caçadora de monstros e manter os inocentes em segurança.
Elena não acreditava poder encontrar a mesma alegria em seu próprio destino.

Não quero ser uma Guardiã, escreveu ela, infeliz. Os Guardiões mataram meus pais. Não creio que um dia vá superar isto. Se não fosse por eles, meus generosos pais ainda estariam vivos e eu não estaria constantemente preocupada com a vida das pessoas que amo. Os Guardiães acreditam em uma só coisa: na ordem. Não na justiça. Não no amor.
Eu jamais quis ser assim. Jamais quis ser um deles.
Mas tenho opção? James fez parecer que me tornar uma Guardiã era algo que um dia aconteceria algo que eu não poderia evitar. Os Poderes se manifestariam repentinamente e eu mudaria, então pronta para qualquer coisa horrível que viesse pela frente.

Elena esfregou o rosto com as costas da mão. Mesmo depois das horas de sono, os olhos ainda estavam irritados e cansados.

Ainda não contei a ninguém, escreveu ela. Meredith e Damon sabiam que eu tinha ficado aborrecida depois de ter visto James, mas desconheciam o que ele tinha me dito. Tanta coisa aconteceu na noite passada que eu não tive chance de contar a eles.
Preciso falar com Stefan sobre isso. Sei que, quando eu o fizer, tudo vai começar a... melhorar.
Mas estou com medo de contar para ele.
Depois que Stefan e eu terminamos, Damon me fez ver a decisão que precisava tomar. Um caminho levava à luz do dia, com a possibilidade de ser uma garota normal, com uma vida quase normal e quase humana com Stefan. O segundo ia para a noite, abraçando o Poder, as aventuras e toda a euforia que as trevas podem proporcionar, com Damon.
Escolhi a luz, escolhi Stefan. Mas se estou destinada a me tornar uma Guardiã, será inevitável a trilha das trevas e do Poder? Será que me tornarei alguém que pode fazer o impensável tomar a vida de pessoas tão amorosas e puras como meus pais? Que tipo de garota normal eu poderia ser como Guardiã?

Elena foi arrancada de seus pensamentos pelo barulho da chave na porta. Fechou o diário de capa de veludo e o enfiou rapidamente debaixo do colchão.
Oi disse ela quanto Meredith entrou no quarto.
Oi para você disse Meredith, sorrindo.
A amiga morena não deve ter tido mais do que algumas horas de sono foi caçar vampiros com Stefan e Damon depois que Elena foi dormir e saiu antes que Elena tivesse acordado —, mas parecia renovada e alegre; os olhos cinzentos brilhavam e as bochechas cor de oliva estavam levemente coradas.
Disfarçando de forma decidida a própria ansiedade, Elena sorriu.
Passou o dia salvando o mundo, super-heroína? perguntou Elena, implicando um pouco com ela.
Meredith ergueu uma sobrancelha delicada.
Na realidade, acabei de chegar da sala de leitura da biblioteca. Você não tem nem um trabalho para fazer?
Elena sentiu os próprios olhos se arregalarem. Com tudo o que vinha acontecendo, de fato não andava pensando muito nas aulas. Estava gostando das matérias da faculdade e tinha sido uma aluna exemplar no ensino médio, mas ultimamente diferentes partes de sua vida assumiram o controle. Tinha alguma coisa para fazer?
Mas o que isso importa? O pensamento era tenso e desanimador. Se tenho que ser uma Guardiã, a faculdade não vai fazer nenhuma diferença.
— Ei — disse Meredith, claramente interpretando mal a súbita expressão de desânimo de Elena. Estendeu a mão e tocou com os dedos frios e fortes o ombro da amiga. — Não se preocupe. Você vai superar tudo isso.
Elena engoliu em seco e concordou.
— Claro que sim — concordou ela, forçando um sorriso.
— Eu salvei o mundo um pouquinho ontem à noite com Damon e Stefan — Meredith disse, quase tímida. — Matamos quatro vampiros no bosque nos limites do campus. — Ela ergueu cuidadosamente o bastão de matadora de vampiros da cama e envolveu seu centro com a mão. — É muito bom — disse ela. — Fazer aquilo para que fui treinada. Para o que nasci.
Elena estremeceu um pouco: para o que eu nasci? Mas havia algo que precisava dizer a Meredith e não tinha dito na noite anterior.
— Você me salvou, também — Elena disse simplesmente. — Obrigada.
A expressão de Meredith se animou.
— Disponha — disse ela levemente. — Precisamos de você por aqui... Você sabe disso. — Ela abriu o estreito estojo preto do bastão e o guardou. — Vou me encontrar com Stefan e Matt na biblioteca e ver se conseguimos tirar os corpos da sala secreta da Vitale. Bonnie disse que seu feitiço de ocultação não duraria muito tempo, e agora que está escuro precisamos nos desfazer deles.
Elena sentiu uma onda de ansiedade no peito.
— E se os outros vampiros tiverem voltado? Matt nos disse que achava que tinha mais de uma entrada.
Meredith deu de ombros.
— É por isso que estou levando o bastão — disse ela. — Não sobraram muitos vampiros de Ethan, e a maioria é nova. Stefan e eu podemos cuidar deles.
— Damon não vai com vocês? — Elena saiu da cama.
— Pensei que você e Stefan tivessem voltado — disse Meredith. Ela olhou para Elena com uma expressão interrogativa.
— Voltamos — Elena sentiu o rosto esquentar. — Pelo menos eu penso que sim. Estou tentando não... Não fazer nada que atrapalhe tudo. Damon e eu somos amigos. Espero. Só pensei que você tivesse dito que Damon estava com você mais cedo, caçando vampiros.
Os ombros de Meredith relaxaram.
— Sim, ele estava conosco — disse ela com tristeza. — Ele gostou da luta, mas ficou cada vez mais calado com o passar da noite. Parecia meio... — hesitou. — Não sei, cansado, talvez. — Meredith deu de ombros, e a voz ficou mais suave. — Você conhece o Damon. Ele só consegue ser útil em seus próprios termos.
Pegando o casaco, Elena falou:
— Vou com você.
Ela queria ver Stefan, queria vê-lo sem Damon. Se iria tentar trilhar aquele caminho iluminado pela luz do dia com Stefan — sendo ou não Guardiã —, precisava levar seus segredos à luz e enfrentá-lo sem nada a esconder.


Quando Elena e Meredith chegaram à biblioteca, Stefan e Matt já estavam lá, esperando no lugar quase vazio com os dizeres SALA DE PESQUISA em estêncil na porta. Os olhos de Stefan e Elena se encontraram com um breve e sério sorriso, e ela de repente se sentiu tímida. Tinha o feito passar por muitas coisas nas últimas semanas e recentemente estiveram tão separados que era quase como se estivessem recomeçando.
Ao lado dele, Matt parecia péssimo. Abatido e pálido, a expressão sombria, ele segurava uma grande lanterna numa das mãos. Seus olhos estavam tristes e assombrados. Embora destruir os vampiros Vitale tenha sido uma vitória para os outros, aqueles eram amigos de Matt. Ele admirava Ethan enquanto achava que ele era humano. Elena se colocou discretamente ao lado dele e apertou seu braço, tentando tranquilizá-lo em silêncio. O braço dele se retesou, mas ele se aproximou um pouco mais.
— Então, vamos descer — disse Meredith animadamente.
Ela e Stefan enrolaram o pequeno tapete no meio da sala, revelando o alçapão, que ainda estava coberto com as ervas para o feitiço de bloqueio e proteção que Bonnie lançara apressadamente na noite anterior. Mas eles conseguiram abrir a porta com facilidade. Ao que parecia, o feitiço tinha se esgotado.
Enquanto os quatro desciam a escada, Elena olhou em volta com curiosidade. Na noite anterior, estavam em tal estado de pânico para salvar Stefan que ela não tinha realmente observado o ambiente. O primeiro lance de escada era bem comum, de madeira e um tanto frágil, e levava a um andar com filas e mais filas de estantes.
— Estantes de biblioteca — Meredith murmurou. — Camuflagem.
O segundo lance era parecido, mas quando Elena pisou no primeiro degrau, ele nem chegou a tremer de leve sob seus pés, como no lance anterior. O corrimão era mais liso e, quando chegaram ao patamar, um longo corredor se estendia no escuro para os dois lados. Ali era mais frio e, ao hesitarem no patamar por um momento, Elena estremeceu. Por impulso, segurou a mão de Stefan ao descerem o terceiro lance. Ele não olhou para ela, os olhos concentrados na escada à frente, mas depois de alguns instantes seus dedos se entrelaçaram nos dela de forma tranquilizadora. A tensão deixou o corpo de Elena ao toque dele. Vai ficar tudo bem, pensou ela.
O terceiro trecho era sólido e feito de uma madeira pesada, escura e polida que cintilava sob a luz fraca. O corrimão era sinuoso e entalhado. Elena podia ver a cabeça de uma serpente, o corpo alongado de uma raposa correndo veloz e outras formas mais difíceis de distinguir ao passarem.
Quando chegaram ao topo do último lance de escada, estavam de frente para as portas duplas de entalhe complexo que levavam à sala de reunião dos Vitale. O desenho seguia o mesmo tema que ela vislumbrara no corrimão: animais correndo, cobras retorcidas, símbolos místicos curvilíneos. No meio de cada porta havia uma letra V grande e estilizada.
As portas estavam fechadas com correntes, como eles as tinham deixado. Stefan estendeu a mão livre e puxou com facilidade a corrente, deixando-a cair ao lado com um estrondo. Meredith escancarou as portas.
O cheiro denso e acobreado de sangue os recebeu. A sala fedia a morte.
Matt segurava a lanterna com firmeza enquanto Meredith procurava o interruptor de luz. Por fim, a cena diante deles foi iluminada: de um lado, o altar, a tigela de sangue quebrada a pouca distância dali. Archotes apagados deixaram longas manchas de fumaça preta e gordurosa pelas paredes. Corpos de vampiros jaziam flácidos em poças de sangue pegajoso e meio seco, com os pescoços rasgados pelas presas de Damon e Stefan ou os troncos perfurados pelo bastão de Meredith. Elena olhou ansiosamente o rosto pálido de Matt. Ele não esteve ali embaixo durante a luta; não vira o massacre. E ele conhecia aquelas pessoas, conheceu aquela sala quando foi decorada para uma celebração.
Percorrendo a sala com os olhos, Matt visivelmente engoliu em seco. Depois de um instante, franziu o cenho e perguntou, numa voz fraca.
— Onde está Ethan?
Os olhos de Elena foram rapidamente ao local diante do altar onde Ethan, líder dos vampiros Vitale, tinha colocado uma faca em seu pescoço. O lugar onde Meredith o matara com o bastão. Meredith soltou um leve arquejo, negando-se a acreditar.
O chão estava escuro do sangue de Ethan, mas não se via seu corpo em lugar nenhum.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!