10 de abril de 2019

Capítulo 1 - A morte vigia

Havia sangue na plataforma do trono do Conselho, sangue nos degraus, sangue nas paredes e no soalho, e nos fragmentos da Espada Mortal.
Mais tarde, Emma se recordaria daquilo como uma espécie de névoa vermelha. Trechos de um poema melancólico ocupavam seu pensamento, algo sobre a impossibilidade de se imaginar quanto sangue as pessoas tinham dentro de si.
Diziam que o choque era capaz de abrandar golpes tão grandes, mas Emma não tinha essa sensação. Ela viu e ouviu tudo: o Salão do Conselho cheio de guardas. A gritaria. Tentou loucamente abrir caminho até Julian, mas os guardas se postaram diante dela como uma onda. E aí mais gritaria. “Emma Carstairs quebrou a Espada Mortal! Ela destruiu um Instrumento Mortal! Prendam-na!” Emma não se importava com o que lhe fizeram; precisava chegar até Julian. Ele ainda estava no chão com Livvy nos braços, resistindo a todos os esforços dos guardas que tentavam pegar o cadáver para levá-lo dali.
— Me deixem passar — dizia ela. — Eu sou a parabatai dele, me deixem passar.
— Me dê a espada. — Era a voz da Consulesa. — Emma, me dê Cortana e você vai poder ajudar Julian.
Ela arquejou e sentiu o gosto de sangue na boca. Agora Alec estava ajoelhado na plataforma do trono, ao lado do corpo de seu pai. O soalho do Salão era uma confusão de vultos apressados; entre eles, Emma avistou Mark, carregando um Ty inconsciente, deixando o Salão, empurrando com os ombros outros Nephilim em seu trajeto. Ele parecia mais melancólico do que nunca. Kit estava com ele, mas onde estava Dru? Ali — sozinha no chão; não, Diana estava com ela, abraçando-a e chorando, e lá estava Helen também, tentando se aproximar do estrado.
Emma deu um passo para trás e quase caiu. O piso de madeira estava escorregadio por causa do sangue. A Consulesa Jia Penhallow ainda estava diante dela, estendendo a mão magricela, à espera de Cortana.
Cortana. A espada era parte da família de Emma, fora parte de suas recordações desde que ela se entendia por gente. Ainda era firme em sua lembrança o momento em que Julian a depositara em seus braços depois da morte de seus pais, o jeito como ela aninhara a espada junto ao corpo como se fosse uma criança, alheia ao corte profundo que a lâmina fizera em seu braço. Jia estava pedindo que ela abrisse mão de um pedaço de si. Mas Julian estava lá, sozinho, arrasado, encharcado de sangue. E nele havia um pedaço maior dela do que Cortana tinha. Emma entregou a espada e, ao senti-la escapando de suas mãos, o corpo todo se retesou. Ela quase acreditou ter ouvido Cortana gritando ao ser separada dela.
— Pode ir — falou Jia.
Emma ouvia outras vozes, incluindo os berros de Horace Dearborn, alterado, ordenando que ela fosse detida, que a destruição da Espada Mortal e o desaparecimento de Annabel Blackthorn precisavam de respostas. Jia dava ordens aos guardas, mandando que tirassem todos do Salão: agora era hora de luto, não de vingança... Annabel seria encontrada... saia com dignidade, Horace, ou vai ser convidado a sair, agora não é o momento... Aline ajudava Dru e Diana a ficarem de pé, ajudava a saírem do recinto...
Emma caiu de joelhos ao lado de Julian. O odor metálico de sangue estava por toda parte. Livvy era um montinho nos braços dele, a pele da cor do leite desnatado. Ele já havia parado de pedir a ela que acordasse e agora a ninava como se fosse um bebê, o queixo apoiado na cabeça da irmã.
— Jules — murmurou Emma, mas o nome chegou amargo em sua língua, era seu apelido de infância, e agora ele era um adulto, de certo modo um pai de luto. Livvy não tinha sido apenas a irmã dele. Durante anos, ele a criara como a uma filha. — Julian. — Ela tocou a bochecha fria dele e, em seguida, a bochecha ainda mais fria de Livvy. — Julian, meu amor, me deixe te ajudar...
Lentamente, ele ergueu o rosto. Parecia ter sido atingido por um balde cheio de sangue. O líquido rubro cobria seu peito, seu pescoço, e se espalhava pelo queixo e as bochechas.
— Emma. — A voz dele não passava de um sussurro. — Emma, eu desenhei tantos iratzes...
Mas Livvy já estava morta quando atingiu a madeira do estrado. Antes mesmo de Julian erguê-la nos braços. Nenhuma Marca, nenhum iratze, teria ajudado.
— Jules! — Finalmente Helen tinha passado pelos guardas; ela se jogou no chão, ao lado de Emma e Julian, alheia a todo o sangue.
Emma ficou observando, entorpecida, enquanto Helen retirava o fragmento da Espada Mortal do corpo de Livvy e o colocava no chão. As mãos dela ficaram manchadas de sangue. Com os lábios descorados de tristeza, ela envolveu os irmãos num abraço, murmurando palavras de consolo.
Em volta deles, o cômodo se esvaziava. Magnus tinha entrado, caminhando muito lentamente, pálido. Era acompanhado por uma longa fila de Irmãos do Silêncio. Ele foi até a plataforma do trono e Alec ficou de pé, lançando-se nos braços do feiticeiro. Eles ficaram abraçados, sem dizer nada, enquanto quatro dos Irmãos se ajoelhavam e erguiam o cadáver de Robert Lightwood. As mãos dele tinham sido cruzadas sobre o peito e os olhos agora estavam cuidadosamente fechados. Palavras baixinhas, “ave atque ave, Robert Lightwood”, ecoavam atrás dele enquanto os Irmãos levavam o corpo para fora.
A Consulesa se aproximou, acompanhada de guardas. Atrás deles, os Irmãos do Silêncio pairavam como espectros, um borrão de pergaminho.
— Você tem que deixá-la ir, Jules — falou Helen com a voz mais gentil. — Eles têm que levá-la para a Cidade do Silêncio.
Julian olhou para Emma; os olhos dele estavam resolutos como o céu de inverno, mas ela era capaz de decifrá-los.
— Deixem que ele faça isso — falou. — Ele quer ser a última pessoa a carregar Livvy.
Helen afagou os cabelos do irmão e lhe deu um beijo na testa antes de se levantar. Daí falou:
— Jia, por favor.
A Consulesa fez que sim com a cabeça.
Lentamente, Julian ficou de pé, ainda aninhando Livvy. Ele começou a descer os degraus do estrado, com Helen ao seu lado e os Irmãos do Silêncio no encalço, mas quando Emma se levantou, Jia esticou a mão e a deteve.
— Só a família, Emma — falou.
Eu sou da família. Me deixe ir com eles. Me deixe ir com Livvy, gritou Emma silenciosamente, mas manteve a boca firmemente fechada. Não podia acrescentar a própria tristeza ao horror já existente. E as regras da Cidade do Silêncio eram imutáveis. A Lei é dura, mas é a Lei.
A pequena procissão seguia em direção às portas. A Tropa havia ido embora, mas ainda havia alguns guardas e outros Caçadores de Sombras no salão. Um coro baixinho de “Saudações e adeus, Livia Blackthorn” os acompanhava.
A Consulesa se virou, Cortana brilhando em sua mão, e desceu os degraus, indo até Aline, que observara Livvy ser levada.
Emma começou a tremer, um calafrio que se iniciava bem fundo em seus ossos. Jamais havia se sentido tão sozinha: Julian a estava abandonando, e os outros Blackthorn pareciam a um milhão de quilômetros, como estrelas distantes, e ela ansiava pela presença dos pais com uma intensidade dolorosa, quase humilhante, e queria Jem e queria Cortana de volta em seus braços, e queria esquecer a imagem de Livvy sangrando e morrendo, amontoada como uma boneca quebrada enquanto a janela do Salão do Conselho explodia e a coroa quebrada capturava Annabel... Será que só ela havia visto aquilo?
— Emma. — Agora alguém a envolvia, braços familiares, gentis, que a ergueram. Era Cristina, que provavelmente aguardara por ela em meio àquele caos, que teimara em permanecer no Salão quando os guardas ordenaram aos berros para que todos saíssem, que não se recusara a sair para permanecer ao seu lado. — Emma, vem comigo, não fique aqui. Eu vou cuidar de você. Sei de um lugar para onde a gente pode ir. Emma. Corazoncita. Venha comigo.
Emma permitiu que Cristina a ajudasse a ficar de pé. Magnus e Alec se aproximavam. O rosto de Alec estava tenso, os olhos, avermelhados. Emma ficou parada, de mãos dadas com Cristina, e olhou ao redor do cômodo, que parecia um lugar totalmente diferente de quando eles chegaram, algumas horas atrás. Talvez porque na hora ainda tivesse sol, pensou ela, ouvindo indistintamente Magnus e Alec conversando com Cristina para que esta a levasse até a casa reservada para os Blackthorn. Talvez fosse porque agora o salão estivesse escuro, as sombras grossas feito tinta nos cantos. Ou talvez porque agora tudo tivesse mudado. Talvez porque nada voltaria a ser a mesma coisa.


— Dru? — Helen bateu gentilmente à porta fechada do quarto. — Dru, posso falar com você?
Pelo menos, tinha quase certeza de que era o quarto de Dru. A casa do canal, próxima à residência da Consulesa, na Princewater Street, fora preparada para a família Blackthorn antes da reunião, pois era presumido que eles passariam algumas noites em Idris. Diana mostrara a casa mais cedo para Helen e Aline, e Helen gostara bastante de flagrar o toque delicado das mãos amorosas da outra por toda parte: na cozinha, viam-se flores, e os quartos tinham plaquinhas com nomes nas portas — o cômodo com duas camas estreitas era para os gêmeos, o de Tavvy estava cheio de livros e brinquedos que ela trouxera da própria casa no segundo andar da loja de armas.
Helen tinha parado na frente de um quarto pequeno com papel de parede florido.
— É para a Dru? — perguntara. — É bonito.
Diana pareceu em dúvida.
— Ah, não faz o estilo de Dru — dissera ela. — Talvez um papel de parede com morcegos ou esqueletos.
Helen se encolhera. Aline tinha segurado a mão dela e murmurado:
— Não se preocupe. Você vai ficar familiarizada com todos eles de novo. — E então beijara a bochecha de Helen. — Num piscar de olhos.
E talvez tivesse sido assim, pensou Helen, fitando a porta com a plaquinha onde se lia Drusilla. Talvez se tudo tivesse dado certo. A pontada de tristeza ardeu em seu peito — ela se perguntava como se sentia um peixe preso num anzol, se contorcendo e se revirando para escapar da pontada cravando sua carne. Helen se lembrou da dor quando seu pai morreu, quando só conseguira seguir em frente porque sabia que precisava tomar conta da família e cuidar das crianças. Agora ela estava tentando fazer a mesma coisa, mas era evidente que as crianças (se é que elas ainda podiam ser chamadas assim, já que apenas Tavvy era uma criança de fato, e ele estava na casa do Inquisidor e felizmente não tinha participado do horror no Salão do Conselho) ficavam pouco à vontade perto dela. Era como se ela fosse uma desconhecida. E isso só fazia a dor lancetar seu peito ainda mais fundo. Helen queria que Aline estivesse ali, só que Aline ia passar algum tempo mais com os pais.
— Dru — repetiu Helen, batendo com mais força. — Por favor, me deixe entrar.
A porta foi aberta e Helen recuou a mão depressa para evitar socar o ombro da outra acidentalmente. Sua irmã a encarava, estática, de cara feia, usando a roupa preta da reunião, menor do que deveria, apertada demais no peito e na cintura. Os olhos dela estavam tão vermelhos que ela parecia ter passado sombra escarlate nas pálpebras.
— Eu sei que você gostaria de ficar sozinha — falou Helen. — Mas preciso saber se você está...
— Bem? — falou Dru, um pouco rispidamente. A insinuação era óbvia: Como é que alguma coisa pode estar bem?
— Sobrevivendo.
Dru desviou o olhar por um instante; os lábios que ela apertava com força estremeceram. Helen ansiava por dar um abraço bem forte na irmã caçula, aninhá-la do jeito que costumava fazer anos atrás, quando Dru era um bebê teimoso.
— Quero saber como Ty está.
— Ele está dormindo — falou Helen. — Os Irmãos do Silêncio deram uma poção sedativa e Mark está tomando conta dele. Você também quer ficar com ele?
— Eu... — Dru hesitou, e Helen desejou ser capaz de pensar em alguma coisa reconfortante para dizer sobre o irmão. Ela estava apavorada com o que ia acontecer quando ele acordasse. Ele tinha desmaiado no Salão do Conselho, e Mark o levara para os Irmãos, que já estavam no Gard. Eles o examinaram num silêncio sinistro e disseram que fisicamente ele estava bem, mas que lhe dariam ervas soníferas. Disseram que às vezes a mente sabia o momento de se desligar e se preparar para o processo de cura. Embora Helen não soubesse como uma noite de sono ou mesmo um ano dormindo preparassem Ty para a morte da irmã gêmea.
— Eu quero o Jules — falou Dru finalmente. — Ele está aqui?
— Não — respondeu Helen. — Está com Livvy. Na Cidade do Silêncio.
Ela queria dizer que ele voltaria a qualquer momento — Aline comentara que a Cerimônia de preparação para a cremação era rápida —, mas também não queria dizer nada para Dru que, no fim das contas, não seria verdade.
— E onde está Emma? — A voz de Dru era educada, mas clara: Quero ver as pessoas que conheço, não você.
— Eu vou chamá-la — falou Helen. Ela mal tinha se afastado da porta e esta foi fechada com um estalo baixinho, porém determinado.
Helen piscou para conter as lágrimas e viu Mark, parado no corredor a poucos metros. Ele se aproximara de modo tão silencioso que ela sequer percebera. E segurava um pedaço de papel amassado que parecia uma mensagem de fogo.
— Helen — falou com voz rouca. Depois de todos esses anos na Caçada, será que o luto dele seria como o das fadas? Ele estava desgrenhado, abatido: havia rugas muito humanas abaixo dos olhos e nos cantinhos da boca. — Ty não está sozinho, Diana e Kit estão com ele e, além do mais, ele está dormindo. Preciso conversar com você.
— Preciso falar com Emma — falou Helen. — Dru quer ficar com ela.
— O quarto dela é bem ali; sem dúvida conseguiremos falar com ela antes de irmos embora — falou Mark, indicando o extremo oposto do corredor.
As paredes da casa eram forradas por painéis de madeira cor de mel e os lampiões de luz enfeitiçada lançavam uma luz quente ali; em qualquer outro dia, teria sido uma casa bonita.
— Irmos embora? — repetiu Helen, confusa.
— Recebi uma mensagem de Magnus e Alec, que estão na casa do Inquisidor. Temos que pegar Tavvy e contar que nossa irmã está morta. — Mark esticou a mão para ela, o rosto contorcido de dor. — Por favor, Helen, venha comigo.


Quando Diana era jovem, fizera uma visita a um museu em Londres onde a atração principal era uma Bela Adormecida feita de cera. A pele parecia sebo e o peito subia e descia como se ela “respirasse” devido à ajuda de um motorzinho dentro do corpo. Agora alguma coisa na quietude e na palidez de Ty a fazia se lembrar da garota de cera. Ele estava deitado na cama, o corpo coberto parcialmente, e seu único movimento era a respiração. As mãos pendiam, abertas, junto às laterais do corpo; Diana só queria ver os dedinhos dele se mexendo, brincando com uma das criações de Julian ou com o fio dos fones de ouvido
— Será que ele vai ficar bem? — perguntou Kit à meia-voz. As paredes do quarto eram cobertas por papel de parede amarelo e as duas camas estavam forradas com colchas de retalhos. Kit poderia ter se sentado na cama que seria de Livvy, mas não fizera isso. Estava num canto do quarto, as costas encostadas na parede e as pernas junto ao corpo. E observava Ty.
Diana encostou a mão na testa de Ty; estava fria. Ela sentiu seu corpo todo entorpecido.
— Kit, ele está bem — falou, e ajeitou o cobertor do menino; Ty se remexeu e resmungou alguma coisa, afastando as cobertas.
As janelas estavam abertas, o consenso fora que o ar fresco faria bem ao menino, mas agora Diana cruzava o cômodo para fechá-las. Sua mãe sempre fora obcecada com a ideia de que pegar um resfriado era a pior coisa que podia acontecer a alguém, e aparentemente os alertas de nossos pais são sempre inesquecíveis.
Para além da janela, dava para ver a cidade, delineada pelo início do crepúsculo e pela lua que se erguia. Pensou num vulto cavalgando e cruzando o céu vasto e se perguntou se Gwyn estaria ciente dos acontecimentos naquela tarde ou se devia enviar uma mensagem. E o que ele faria ou diria quando a recebesse? Ele a procurara certa vez, quando Livvy, Ty e Kit estavam em perigo, mas fora Mark quem o chamara na ocasião. Ela não sabia ao certo se o gesto dele fora por apreço às crianças ou simplesmente um meio de quitar uma dívida.
Diana parou com a mão na cortina. Para falar a verdade, pouco sabia sobre Gwyn. Como líder da Caçada Selvagem, ele estava mais para um ser mítico que humano. Ela se perguntava de que modo as emoções eram processadas por seres tão poderosos e antigos a ponto de se tornaram parte dos mitos e histórias. Como ele poderia se importar genuinamente com a vida breve dos mortais depois de já ter vivenciado tantas coisas? E ainda assim ele a abraçara e a consolara em seu velho quarto, quando ela lhe revelara algo que até então havia contado apenas a Catarina e a seus pais, e seus pais estavam mortos. Ele fora um tanto gentil... não fora?
Pare com isso.
Ela voltou para o quarto; agora não era o momento de pensar em Gwyn, mesmo que um pedacinho dela tivesse esperança de que ele voltaria para lhe oferecer consolo. Não quando Ty poderia acordar a qualquer momento em um mundo de dor nova e terrível. Não quando Kit estava sentado e recostado na parede como se tivesse chegado a alguma praia isolada depois de um naufrágio.
Ela estava prestes a apoiar a mão no ombro de Kit quando ele ergueu o rosto. Não havia marcas de lágrimas ali. Diana se lembrou de que ele também não chorara quando o pai morrera, quando ele abrira a porta do Instituto pela primeira vez e se dera conta de que era um Caçador de Sombras.
— Ty gosta das coisas familiares — falou Kit. — Quando acordar, ele não vai saber onde está. A gente devia botar a bolsa dele aqui, e as coisas que ele trouxe de Londres.
— Está tudo ali. — Diana apontou para a bolsa de pano de Ty, debaixo da cama que deveria ser de Livvy.
Sem olhar para Diana, Kit se levantou e foi até a bolsa, abrindo-a e tirando um livro, um livro grosso, com uma encadernação antiquada. Silenciosamente, pousou o livro sobre a cama, bem próximo à mão esquerda aberta de Ty. Diana viu de relance o título em relevo em letras douradas na capa e se deu conta de que ainda sentia pontadas de dor no coração entorpecido. O Retorno de Sherlock Holmes.


A lua já surgia no céu, e as torres demoníacas de Alicante brilhavam sob sua luz.
Fazia muitos anos desde que Mark estivera em Alicante. A Caçada Selvagem sobrevoara a região e ele se recordava de ver os terrenos de Idris em sua vastidão lá embaixo enquanto seus companheiros uivavam e gritavam, em deleite por estarem sobrevoando a terra dos Nephilim. Mas o coração de Mark sempre batera mais rápido ao avistar o lar dos Caçadores de Sombras; o Lago Lyn, uma moeda de prata brilhante, o verdume da Floresta Brocelind, os solares de pedra no interior e o brilho de Alicante na montanha.
E Kieran, ao seu lado, pensativo, fitando Mark enquanto este observava Idris.
Meu lugar, meu povo. Meu lar, pensara ele. Mas, do solo, ela parecia diferente: mais prosaica, com o cheiro da água do canal no verão e as ruas iluminadas pela forte luz enfeitiçada.
A casa do Inquisidor não era muito longe, mas eles caminhavam devagar. Passaram-se alguns minutos antes de Helen falar pela primeira vez:
— Você viu nossa tia no Reino das Fadas. Nene. Só Nene, não é?
— Ela estava na Corte Seelie. — Mark assentiu, feliz por ter quebrado o silêncio. — Quantas irmãs nossa mãe tinha?
— Seis ou sete, acho — falou Helen. — Nene é a única boazinha.
— Eu pensei que você não soubesse onde ela estava.
— Ela nunca me disse onde era, mas em mais de uma ocasião entrou em contato desde que fui enviada para a Ilha Wrangel — falou Helen. — Acho que no fundo ela se solidarizava comigo.
— Ela ajudou a gente a se esconder e cuidou de Kieran — falou Mark. —Ela me contou sobre nossos nomes de fada. — Ele olhou ao redor; tinham chegado à casa do Inquisidor, a maior casa naquele trecho, com varandas que davam para o canal. — Eu nunca imaginei que voltaria para cá. Não para Alicante. E não como um Caçador de Sombras.
Helen apertou o ombro do irmão e eles caminharam juntos até a porta. Ela bateu e um Simon Lewis um tanto cansado abriu a porta. Fazia anos que Mark não o via, e agora o outro parecia mais velho: ombros mais largos, os cabelos castanhos mais compridos e a barba por fazer. Ele deu um sorriso torto para Helen.
— Da última vez que estivemos aqui, eu estava bêbado e aos berros debaixo da janela de Isabelle. — Ele se virou para Mark. — E da última vez que te vi, eu estava preso numa jaula no Reino das Fadas.
Mark se lembrava. Simon olhando por entre as barras da jaula das fadas, e Mark dizendo: Não sou fada. Sou Mark Blackthorn do Instituto de Los Angeles. Não importa o que digam ou façam comigo. Ainda lembro quem eu sou.
— Sim — concordou Mark. — Você me deu notícias dos meus irmãos e irmãs, e do casamento de Helen. Eu fiquei agradecido. — Por puro hábito, ele fez uma breve mesura, e flagrou o olhar surpreso da irmã.
— Eu queria ter te contado mais coisas — falou Simon num tom de voz mais sério. — E eu lamento muito. Sobre Livvy. Também estamos de luto.
Simon escancarou a porta e Mark viu um grande saguão, com um imenso candelabro pendendo do teto; do lado esquerdo, via-se a sala de estar, onde Rafe, Max e Tavvy estavam sentados diante de uma lareira apagada, brincando com uma pequena pilha de brinquedos. Isabelle e Alec estavam sentados no sofá. Os braços dela envolviam o pescoço dele, e ela chorava baixinho de encontro ao peito do irmão. Soluços inaudíveis e desesperados que soavam como um eco dentro do coração de Mark, um coro de saudade em sintonia.
— Por favor, diga a Isabelle e Alec que lamentamos a morte do pai deles — falou Helen. — Não queremos nos intrometer. Viemos para buscar Octavian.
Nesse momento, Magnus apareceu no saguão, acenou com a cabeça para eles e foi até as crianças, pegando Tavvy no colo. Embora o menino estivesse ficando demasiado grande para ser carregado, pensou Mark, em muitos aspectos Tavvy era miúdo para a idade, como se o excesso de luto precoce o tivesse mantido infantilizado.
Quando Magnus se aproximou deles, Helen fez menção de erguer as mãos, mas Tavvy esticou os braços para Mark.
Meio surpreso, Mark pegou o irmão caçula nos braços. Tavvy forçava a vista à sua volta, cansado, porém, alerta.
— O que aconteceu? — perguntou. — Todo mundo está chorando.
Magnus passou a mão pelos cabelos. Parecia extremamente esgotado.
— Ainda não contamos — falou. — Achamos melhor vocês contarem.
Mark deu alguns passos, se afastando da porta, acompanhado de Helen, e os dois ficaram parados no quadrado iluminado pela claridade da porta de entrada.
Ele pôs Tavvy na calçada. Era assim que o povo fada dava uma notícia ruim: cara a cara.
— Livvy se foi, criança — falou ele.
Tavvy pareceu confuso.
— Foi para onde?
— Ela foi para as Terras das Sombras — falou Mark. Ele lutava para buscar palavras; a morte no Reino das Fadas tinha um significado muito diferente do que para os humanos.
Tavvy arregalou os olhos azuis-esverdeados dos Blackthorn.
—Então podemos resgatá-la — falou. — Podemos ir atrás dela, não é? Igual trouxemos você do Reino das Fadas. Como você fez com Kieran.
Helen resmungou baixinho.
— Ah, Octavian — falou ela.
— Ela está morta — insistiu Mark, desolado, e viu Tavvy recuar ao ouvir as palavras. — Vidas mortais são breves e... e frágeis face à eternidade.
Os olhos do menino marejaram.
— Mark — falou Helen e se ajoelhou no chão, oferecendo os braços para Tavvy. — Ela morreu com muita bravura — falou. — Estava defendendo Julian e Emma. Nossa irmã... era muito corajosa.
As lágrimas começaram a escorrer pelo rosto de Tavvy.
— Onde está Julian? — perguntou. — Aonde ele foi?
Helen baixou os braços.
— Está com Livvy na Cidade do Silêncio... Vai voltar logo... Vamos levar você para a nossa casa, perto do canal.
— Para a nossa casa? — repetiu Tavvy com desdém. — Não tem nada aqui que seja a nossa casa.
Mark se deu conta da presença de Simon.
— Meu Deus, pobre criança — comentou. — Olha, Mark...
— Octavian. — Era a voz de Magnus.
Ele estava junto à entrada da casa, observando o menininho choroso à sua frente. Em seus olhos havia exaustão, mas também uma compaixão imensa: o tipo de compaixão que só chega com o avançar da idade. Ele parecia ávido por dizer mais alguma coisa, mas Rafe e Max se aproximaram. Em silêncio, eles desceram os degraus e foram até Tavvy; Rafe era quase tão alto quanto ele, embora só tivesse cinco anos. Ele esticou os braços para abraçar o outro menino, e Max fez a mesma coisa — e, para a surpresa de Mark, Tavvy pareceu relaxar um pouco e se permitiu ser abraçado, assentindo quando Max falou alguma coisa para ele baixinho.
Helen ficou de pé, e Mark se perguntou se por acaso estaria ostentando a mesma expressão que ela, de dor e vergonha. Vergonha por não serem capazes de fazer mais nada para consolar um irmão caçula que mal os conhecia.
— Está tudo bem — falou Simon. — Olha só, vocês tentaram.
— E fracassamos — completou Mark.
— Não dá para anular o luto — observou Simon. — Um rabino me disse isso quando meu pai morreu. A única coisa que abranda o luto é o tempo, e o amor das pessoas que se importam com você, e o Tavvy tem isso. — Ele apertou o ombro de Mark de leve. — Se cuida — falou. — Shelo ted’u od tza’ar, Mark Blackthorn.
— O que isso significa? — quis saber Mark.
— É uma bênção — explicou Simon. — Outra coisa que o rabino me ensinou: “Que não haja mais tristeza.”
Mark meneou a cabeça em sinal de gratidão; as fadas conheciam o valor de bênçãos oferecidas espontaneamente.
Mas seu peito ainda parecia pesado. Ele não achava que a tristeza em sua família fosse acabar tão cedo.

5 comentários:

  1. Charles Morgenstern11 de abril de 2019 00:24

    Esperei tanto pra sofrer lendo, é isso mesmo? 😢

    (A saudação para o Robert não seria "Ave atque vale"?)

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  2. Karina! Obrigada! Estava super ansiosa pra continuar a trilogia!

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  3. Eu tô muito triste com esse capítulo.

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  4. Tinha esperanças no fundo do meu coração que a Livy não ia morrer 😭😭😭

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Boa leitura, E SEM SPOILER!