8 de abril de 2019

Através do Sangue, Através do Fogo



Depois de esperar mais de um século pela união, Jem Carstairs e Tessa Gray estão finalmente juntos. Mas nem tudo está perfeito: uma ameaça parece pairar sobre uma criança do Mercado das Sombras — um Herondale, o mais jovem de uma linhagem que usou o Mercado para se esconder das fadas e dos Caçadores de Sombras. É hora do Herondale perdido ser descoberto. E Jem e Tessa precisam encontrá-lo antes que seja tarde demais.




Era uma vez, em uma terra não tão distante, uma criança que não deveria ter nascido. Um filho de guerreiros desonrados — seu sangue, o sangue dos anjos, seu direito de primogenitura, perdido enquanto ele dormia, sem saber, no ventre de sua mãe. Uma criança condenada à morte pelos pecados de seus ancestrais, uma criança que fugiu da Lei que a condenou e da família que ainda não sabia o quanto um dia poderia precisar dele e de seus descendentes.
Era uma vez, uma criança perdida — ou, pelo menos, essa é a história contada por aqueles que foram tolos o bastante para perdê-la. Ninguém perde a si mesmo.
A criança estava simplesmente se escondendo. Assim como o seu filho, e o filho de seu filho, aprendeu a se esconder, e através das gerações, fugir daqueles que os caçavam — alguns buscando perdão, alguns buscando aniquilação — até, inevitavelmente, o que tinha sido escondido ser revelado. A criança perdida foi encontrada.
E esse foi o fim.


Mais tarde, quando Jem Carstairs tentou se lembrar de como o fim começara, ele se lembraria das cócegas do cabelo de Tessa em seu rosto, quando ele se inclinou, respirou profundamente o aroma dela, que naquele dia carregava um toque de lavanda. Eles estavam em Provence — então, é claro, tudo cheirava a lavanda. Mas Tessa ganhava vida com ela; respirá-la era como respirar em um prado iluminado pelo sol, um mar de flores lilases, a própria primavera. Era disso que Jem se lembraria mais tarde. O desejo que o tempo parasse, congelasse os dois dentro desse momento perfeito; ele se lembraria de pensar, com admiração, que era assim que se sentia perfeitamente satisfeito.
Quando Tessa Gray retornou àquele momento, ao momento anterior, ela se lembraria do sabor do mel que Jem colocara sobre uma fatia de baguete e servira na boca dela. O mel, fresco da colmeia atrás da propriedade, era quase dolorosamente doce. Seus dedos estavam pegajosos, e quando ela os pressionou na bochecha macia de Jem, eles não quiseram soltar. Ela não podia culpá-los.
A memória tem uma tendência a embaçar o mundano. O que Jem e Tessa estavam realmente fazendo: brigando sobre se o queijo que eles haviam comprado naquela manhã era de bode ou vaca, e qual deles era o responsável por comer tanto que seria necessária uma segunda viagem à queijaria. Era uma discussão preguiçosa e amorosa, apropriada para a tarde ensolarada. Eles vinham a este retiro no interior da França para traçar estratégias sobre o Herondale perdido — que, como descobriram recentemente, também era herdeiro das Corte Seelie e Unseelie e, portanto, estava em maior perigo do que qualquer um jamais imaginara. Esta propriedade, cujo uso fora oferecido por Magnus Bane, era um lugar seguro e tranquilo para planejar aonde ir a partir daqui. A Herondale perdida deixara muito claro para Jem que não queria ser encontrada, mas Jem se preocupava porque ela não conhecia as profundezas do perigo em que estava. Eles precisavam encontrá-la. Avisá-la. Agora mais do que nunca.
A urgência era real, mas assim também era a incapacidade de fazer algo a respeito — o que os deixava com muitas horas para preencher, olhando para a encostava iluminada pelo sol — e um para o outro.
Tessa tinha quase decidido ceder e admitir que Jem estava certo sobre a proveniência (cabra), se não estivesse errado sobre quem comera mais (Tessa), quando uma pequena luz acendeu entre eles, como uma pequena estrela cadente. Exceto que não caiu; ela congelou no ar, ficando mais e mais brilhante, ofuscantemente brilhante, e se transformando em uma forma familiar. Tessa respirou fundo.
— Isso é...?
— Uma garça. — Jem confirmou.
Anos antes, Jem havia encantando um pingente de prata na forma de uma garça e o pressionado na palma de uma jovem com sangue Herondale. Uma jovem em perigo, que firmemente recusou sua ajuda.
Com esse pingente, você sempre poderá me encontrar, ele prometera na voz silenciosa com a qual havia falado uma vez. Jem fora o Irmão Zachariah até então, ainda carregando as vestes e os deveres da Irmandade do Silêncio, mas esta missão — e esta promessa — não tinha nada a ver com a Irmandade. Jem ainda estava ligado a ela: sempre estaria. Espero que você me chame para ajudá-la, se e quando precisar. Por favor, confie que eu sempre responderei.
A mulher a quem ele dera esse pingente era uma Herondale, a última herdeira do Herondale perdido, e a garça prateada significava que, depois de todos esses anos, ela precisava dele. Enquanto Jem e Tessa observavam, o pássaro traçou letras de fogo no ar.
Eu me afastei de você antes, mas por favor me ajude agora. Pensei que poderia fazer isso sozinha, mas os Cavaleiros estão se aproximando. Se você não vier por mim, venha pelo meu filho. Pensei que poderia comprar uma vida para ele com o meu sofrimento. Pensei que seu eu o deixasse, ele estaria seguro. Ele não está. Por favor venha. Eu te imploro. Me salve. Salve meu filho.
Rosemary Herondale.
À luz se apagou. Jem e Tessa já estavam em ação. No século e meio desde que se conheciam, muita coisa mudara, mas essa verdade perdurava: quando um Herondale chamava, eles atendiam.


O tráfego de Los Angeles não era tão ruim quanto todos diziam. Era exponencialmente pior. Seis pistas, todas quase paralisadas. Enquanto Tessa avançava, mudando de pista toda vez que um espaço se abria, Jem sentia como se fosse rastejar para fora de sua pele. Eles tinham viajado da França para Los Angeles, emergindo do outro lado da cidade na fonte do pedido de socorro. Magnus havia contatado sua rede de ajudantes da Costa Oeste e garantiu-lhes transporte pelo restante do caminho. O conversível turquesa não gritava exatamente incógnito, mas era bom o bastante para levá-los a poucos quilômetros do Echo Park até a casa de Rosemary Herondale, em Hollywood Hills. A viagem deveria ter levado só alguns minutos. Parecia que tinha sido um ano.
Eu me afastei de você antes, mas por favor me ajude agora.
As palavras ecoavam na mente de Jem. Ele havia passado décadas procurando pelo Herondale perdido — encontrando-o, finalmente, apenas para perdê-lo novamente. Mas após ela ter recusado sua oferta por proteção, ele lhe fez uma promessa. Ele viria quando ela chamasse. Ele a salvaria, quando ela precisasse de salvação.
Eu pensei que poderia fazer isso sozinha.
James Carstairs sempre vinha em auxílio de um Herondale. Ele nunca pararia de pagar as dívidas de amor. Ela o convocara, usando o colar, e ele faria tudo ao seu alcance para honrar sua promessa, mas...
Por favor, venha, eu imploro. Me salve.
Havia mais do que apenas uma vida em jogo agora.
Salve meu filho.
E se fosse tarde demais?
Tessa colocou a mão sobre a de Jem.
— Isso não é culpa sua — disse ela.
Claro que ela sabia o que ele estava pensando. Ela sempre sabia.
— Eu a achei, e a deixei ir. — Jem não conseguia parar de imaginar, naquela manhã na ponte em Paris, quando implorou a Rosemary Herondale para aceitar sua proteção. Ele pedira a um Herondale que confiasse nele e fora julgado indigno.
— Você não a deixou fazer nada — Tessa pontuou. — Ela fez a própria escolha.
— O jeito Herondale — Jem disse ironicamente.
— Você fez com que ela soubesse que sempre estaria lá se ela precisasse, e agora que ela precisa...
— Eu estou girando meus polegares a oito quilômetros de distância, sendo inútil.
— Chega — Tessa abruptamente virou para o acostamento da estrada e passou rapidamente pelas ruas entupidas, em seguida, adentrou na primeira rampa de saída que alcançaram. Em vez de diminuir a velocidade, ela aumentou-a ao chegar às ruas laterais, tecendo descontroladamente de pista para pista para calçada. Logo, finalmente, eles encontraram o caminho para as colinas, a estrada se estreitando em uma única faixa de curvas fechadas por um barranco vertiginoso. Tessa não diminuiu a velocidade.
— Eu sei que você tem reflexos sobre-humanos, mas...
— Confie em mim — disse ela.
— Infinitamente.
Ele não podia contar a Tessa a outra razão pela qual ele se sentia culpado — não era simplesmente que ele deixou Rosemary escapar por entre os dedos todos aqueles anos atrás. Foi o que ele fez por ela desde então, que de repente parecia quase nada. Desde que ele se livrou de sua vida como Irmão Zachariah e lutou de volta para James Carstairs — e de volta para Tessa Gray, a outra metade de sua alma, seu coração, de si mesmo — ele se permitira ser feliz. Eles visitaram Mercados das Sombras em todo o mundo, vigiando Rosemary, sempre procurando maneiras de ajudá-la à distância. Até visitaram o mercado aqui em Los Angeles várias vezes, mas não encontraram nenhum traço dela. E se, apesar de suas melhores intenções, Jem tivesse deixado algo passar, uma oportunidade de encontrar e ajudar Rosemary antes que fosse tarde demais? E se, perdido em sua própria felicidade com Tessa, ele tivesse permitido que ela sofresse?
O carro parou em frente a um pequeno bangalô em estilo espanhol. O quintal era uma profusão de cores: flores Mimilus, sábio beija-flor, malva do deserto, flores de jacarandá. Um vaso de girassóis vigiava o caminho até a porta, acenando com a brisa, como se para recebê-los.
— É como uma casa de um livro de histórias — Tessa maravilhou-se, e Jem concordou. O céu era de um azul impossível, pontilhado de nuvens como algodão doce, e as montanhas no horizonte faziam parecer que estavam em uma aldeia nos Alpes, em vez de no meio de uma metrópole extensa. — É tão pacífico — acrescentou ela. — Como se nada de ruim pudesse acontecer aqui...
Ela foi interrompida por um grito agudo.
Eles entraram em ação. Jem abriu a porta da frente, preparando sua espada para encarar o que quer que fosse. Tessa seguiu logo atrás, suas mãos acendendo com uma luz forte. Lá dentro, encontraram um pesadelo: Rosemary deitada em uma poça de sangue. Pairando sobre ela, uma enorme fada, seu corpo coberto de espessa armadura de bronze, uma espada longa erguida no alto. Seu ponta mirada diretamente no coração de Rosemary.
De muitas maneiras, Jem Carstairs não era mais um Caçador de Sombras. Mas das formas mais importantes, ele sempre seria um.
Ele se lançou para frente, um redemoinho de movimento mortal, uma espada de prata borrada enquanto ele cortava a fada com a força completa e justa da fúria de um Caçador de Sombras. Seus golpes desviaram do corpo da criatura sem deixar uma única marca. Tessa levantou as mãos e despachou uma ofuscante onda branca de energia para a fada — ele absorveu sem vacilar, então, quase descuidadamente, agarrou Tessa em uma mão enorme e atirou-a através da sala. Ela acertou a parede com um baque que causou dor física em Jem. Jem se jogou no caminho da fada, chutou, girou, moveu a espada afiada com a segurança do que deveria ter sido um golpe mortal. Qualquer fada comum — qualquer ser do Submundo comum — teria caído. Este apenas riu, empurrou Jem para o chão e o prendeu sob um pé enorme. Deixando Jem impotente para fazer qualquer coisa, exceto observar como a espada longa encontrou seu alvo e atingiu Rosemary no peito.
A fada recuou, liberando Jem para correr para o lado dela — tarde demais. Ele rasgou sua camisa, pressionou-a desesperadamente na ferida de Rosemary, determinado a evitar que sua vida se esvaísse. Tarde demais.
— Eu não tenho nenhuma desavença com você, Caçador de Sombras — a fada disse, então deu um assobio agudo. Um enorme corcel de bronze atravessou as janelas da frente do bangalô em uma chuva de vidro. A fada subiu no cavalo. — Eu sugiro que você se abstenha de lutar comigo. — O cavalo se levantou e saltou no ar.
E assim, cavalo e cavaleiro foram embora.
O rosto de Rosemary estava mortalmente pálido, os olhos fechados. Ela ainda respirava, mesmo que parcamente. Jem pressionou a ferida, desejando que ela aguentasse. Tessa se ajoelhou ao lado dele.
Ele soltou um suspiro agudo, seu coração apertando.
— Você está ferida?
— Estou bem. Mas Rosemary... — Tessa agarrou as mãos de Rosemary e fechou os olhos em concentração. Segundos se passaram enquanto ela convocava a magia de cura. Ele podia ver o esforço escrito em seu rosto, o tormento. Finalmente, Tessa se virou para Jem, um olhar vazio nos olhos. Ele sabia o que ela diria antes de ela falar.
— É um ferimento fatal — ela murmurou. — Não há nada a ser feito.
Tessa se voluntariara como enfermeira durante uma das guerras mundiais mundanas — ela conhecia um ferimento fatal quando via um. E Jem, durante suas décadas na Irmandade do Silêncio, viu muitos Caçadores de Sombras muito além da ajuda. Muitos na Guerra Maligna. Ele também podia reconhecer a morte, em todas as suas formas.
Os olhos de Rosemary se abriram. Seus lábios se separaram, como se estivesse tentando falar, mas ela conseguiu apenas uma expiração rouca. Ainda havia um Herondale que eles poderiam salvar.
— Seu filho — disse Jem. — Onde ele está?
Rosemary balançou a cabeça, o esforço de se mover causando dor óbvia.
— Por favor — ela sussurrou. Havia muito sangue. Em todo lugar, sangue, sua vida se esvaindo. — Por favor, proteja meu filho.
— Apenas diga-nos onde encontrá-lo — disse Jem. — E enquanto eu viver, vou protegê-lo, eu juro... — Ele parou, percebendo que não havia ninguém para receber sua promessa. A respiração trêmula deu lugar ao silêncio.
Ela se fora.


— Nós vamos encontrá-lo — Tessa prometeu a Jem. — Nós vamos encontrá-lo antes que alguém possa machucá-lo. Nós vamos.
Jem não se afastou do corpo de Rosemary. Ele segurou a mão fria dela como se não conseguisse se soltar. Ela sabia o que ele estava sentindo e doía. Essa era a alegria e a punição de amar alguém do jeito que ela amava Jem — ela sentia com ele. Sua culpa, seu arrependimento, sua impotência e fúria: enquanto eles o consumiam, ela era consumida também.
Claro, não era apenas a culpa de Jem, a fúria de Jem. Ela tinha muito de si mesma. Todo Herondale era uma parte de Will e, portanto, uma parte dela. Era isso que significava ser família. E ela se ajoelhou ao lado do corpo frio de muitos Herondales. Ela não podia aguentar outra morte sem sentido.
Eles encontrariam o filho de Rosemary. Eles iriam protegê-lo. Se assegurariam de que esta morte não fosse em vão. Custasse o que custasse.
— Não é apenas ela estar morta — Jem falou em voz baixa. Sua cabeça estava abaixada, o cabelo uma cortina no rosto. Mas ela memorizara seu rosto, cada expressão dele. Ela passou muitas horas, desde o seu retorno, olhando para ele, incapaz de acreditar que ele estava realmente aqui, de volta para a vida – de volta para ela. — É que ela morreu sozinha.
— Ela não estava sozinha. Ela não está sozinha. — Não era a primeira vez que ela e Jem ajudaram um Herondale na eternidade. Uma vez, ela se sentou de um lado de Will, Jem do outro, ambos ansiando por segurá-lo, ambos invocando forças para deixá-lo ir. Ele era o Irmão Zachariah, ou era o que o mundo tinha visto: rosto marcado com runas, olhos fechados, pele fria, coração fechado. Ela só tinha visto Jem. Ainda parecia um milagre que ele pudesse abrir os olhos e vê-la de volta.
— Não estava? — muito gentilmente, Jem soltou o colar de Rosemary. Ele segurou a longa corrente de prata, deixando o pingente da garça girar lentamente, brilhando à luz da tarde. — Pensei que isso seria o suficiente, uma maneira de contatá-la caso ela precisasse de mim. Mas eu sabia que ela estava em perigo por conta das fadas. Eu não deveria ter subestimado esse perigo!
— Eu reconheci aquela fada, Jem — Tessa disse. — A trança de bronze, os desenhos em sua armadura, todas aquelas gravuras do mar, aquele era Fal de Mannan. — Ela estudara os Cavaleiros de Mannan durante seu tempo no Labirinto Espiral, parte de seus esforços para entender melhor o mundo das fadas. Eles eram muito velhos – antigos, até mesmo, de uma era de monstros e deuses – e serviam para o prazer do Rei Unseelie. Não eram fadas comuns. Eles eram mais poderosos; eram feitos de magia selvagem. Talvez, mais terrivelmente, eles pudessem mentir. — Lâminas serafim são inúteis contra os Cavaleiros de Mannan, Jem. Eles nasceram assassinos, uma sentença de morte ambulante. Uma vez que ele a encontrou, nenhum poder na Terra poderia tê-lo parado.
— Então, que esperança há para o menino?
— Sempre há esperança. — Ela arriscou colocar seus braços ao redor dele, então, e suavemente tirou a mão de Rosemary do aperto dele. — Nós encontraremos o garoto primeiro. Então nos asseguramos de que as fadas nunca o encontrem.
— Não até que estejamos prontos para eles, pelo menos — Jem disse, uma nota de aço entrando em sua voz.
Havia aqueles que acreditavam que, porque Jem era tão gentil, tão capaz de bondade e generosidade, porque Jem amava tão abnegadamente, que Jem era fraco. Havia aqueles que suspeitavam que ele não era capaz de violência ou vingança, que assumiram que poderiam ferir Jem e os que ele amava com impunidade, porque ele não tinha aquele cerne para revidar.
Aqueles que acreditavam nisso estavam errados.
Aqueles que agiram dessa forma lamentariam.


Tessa apertou o pingente da garça com força, o bico espetando a carne macia da palma da mão. Ela podia sentir a essência de Rosemary fervendo na prata, e alcançou com sua mente, abrindo-se para os traços da mulher deixada para trás. Era uma segunda natureza para ela agora, transformar-se em outra pessoa. Normalmente, ela só precisava fechar os olhos e deixá-la passar por cima dela.
Isso foi diferente. Algo parecia... não errado, exatamente, mas pegajoso. Como se ela tivesse que se arrancar de sua própria forma e forçá-la a outra. A transformação parecia difícil, quase dolorosa, como em seus primeiros dias em Londres, seus ossos e músculos e carne se rasgando e se distorcendo em forma estranha, corpo se rebelando contra a mente, enquanto a mente lutava sua própria batalha, defendendo seu território contra a colonização forçada de outra. Tessa se forçou a ficar calma, focada. Lembrou-se de que era sempre mais difícil incorporar os mortos. Sentiu-se encolhendo, desvanecendo-se, membros firmes estreitando-se na delicada estrutura óssea de Rosemary e, ao fazê-lo, o horror inundou os últimos momentos. O flash da espada longa. O hálito quente do cavaleiro fada. A impensável dor e dor e dor da lâmina que a penetrou uma vez, duas e, enfim, fatalmente. O terror, o desespero, e abaixo disso, a fúria feroz e amorosa em nome do garoto que tinha, em algum lugar lá fora, que sobreviver, ele tinha, tinha, tinha...
— Tessa!
Então Jem estava lá, firme, os braços nos ombros dela, seu olhar firme e gentil, seu amor uma corda para impedi-la de flutuar. Jem, como sempre, trazendo-a para casa, para si mesma.
— Tessa, você estava gritando.
Ela respirou. Se concentrou. Ela era Rosemary e ela era Tessa, ela era a própria Mudança, a possibilidade de transformação, a inevitabilidade do fluxo, e então, misericordiamente, tudo se desenevoou.
— Estou bem. Tudo bem. — Mesmo agora, depois de mais de um século de mudanças, era estranho ouvir-se falar com a voz de outra mulher, olhar para baixo e ver o corpo de outra mulher como dela mesma.
— Você sabe onde ele está? O menino?
Meu menino. Tessa podia ouvir a maravilha na voz de Rosemary, podia sentir a surpresa da outra mulher que fosse possível amar assim. Eles não vão tê-lo. Eu não vou permitir.
Havia medo, mas principalmente raiva, e Tessa percebeu que ela não quis dizer fadas. Era Caçadores de Sombras. Este era um segredo que ela guardaria para si mesma. Jem não precisava saber que Rosemary tinha morrido da mesma maneira que vivia: convencida de que eles eram o inimigo.
 — Deixe-me ir mais fundo — disse Tessa. — Ela passou anos enterrando o que ela sabe sobre ele, mas está lá, eu posso sentir.
Rosemary estava em batalha contra si mesma. Ela tinha sido totalmente consumida com seu filho, com a feroz necessidade de protegê-lo, mas também passou esses anos tentando com toda sua força esquecê-lo, forçar todo o pensamento dele para fora de sua consciência, para sua própria segurança.
— Ela sabia que o maior perigo na vida dele era ela mesma — disse Tessa, horrorizada com o sacrifício que essa mulher tinha feito. — Ela sabia que a única maneira de mantê-lo vivo era deixá-lo ir.
Tessa deixou-se afundar na memória — ela se soltou de Tessa e se entregou completamente a Rosemary. Focada no garoto, nas lembranças mais fortes dele e no que vinha dele, e deixou que elas a possuíssem.
Ela lembrou.
— Eu não entendo — seu marido está dizendo, mas o desespero em seus olhos, o aperto de suas mãos sobre as dela, como se ele soubesse o que vai acontecer quando soltar? Isso soa diferente. Isso significa que ele entende que esse é o fim, que a segurança do filho é mais importante que qualquer coisa. Mais importante até do que os dois, que Rosemary costumava pensar que era tudo.
As coisas eram diferentes, antes de ela ser mãe.
Christopher tem três anos. Ele parece e ao mesmo tempo não se parece com sua mãe, parece e ao mesmo tempo não se parece com seu pai. Ele é o amor deles que ganhou vida, seus dois corações entrelaçados e entregues a uma forma que respirava, bochechas e cabelos dourados e um nariz para beijar e uma testa para acariciar e um corpo perfeito que nunca conheceu a dor ou o horror e nunca deveria. Nunca.
— É sobre ele agora. Isso é tudo o que importa.
— Mas nós já somos tão cuidadosos...
Por um ano, eles se forçaram a viver separados. Em um pequeno apartamento, a quarteirões decadentes da área de Vegas: seu filho e seu marido — que agora se chamava Elvis, mas que já foi Barton e Gilbert, e Preston, e Jack e Jonathan, que mudou não apenas seu nome, mas seu rosto, e de novo, tudo por ela. Em um apartamento ainda menor e muito mais solitário em um triste trecho de deserto atrás do aeroporto: Rosemary, sentindo sua ausência a cada respiração. Ela assombra suas sombras, observa Christopher no playground, no zoológico, na piscina, nunca deixando que ele a veja. Seu filho crescerá incapaz de reconhecer o rosto da mãe.
Ela se permite encontros mensais com o marido — uma hora de beijos roubados e todos os detalhes de uma infância se passando sem ela — mas isso era egoísmo. Ela vê isso agora. Ruim o suficiente para que os Caçadores de Sombras pudessem chegar tão perto quanto eles. Agora as fadas a farejaram. Ela pôs amuletos ao redor do apartamento, um sistema de alerta — ela sabia que seus emissários estavam lá; sua posição fora comprometida. E ela sabe o que vai acontecer se eles a encontrarem. Se eles o encontrarem.
— Você tem que ir mais a fundo —, ela diz a seu marido. — Você tem que mudar suas identidades novamente, mas desta vez, não sei o que eles são. Se eles me encontrarem... você não pode me deixar levá-los até vocês.
E ele está balançando a cabeça, está dizendo não, ele não pode fazer isso, não pode criar Christopher sozinho, ele não pode deixá-la ir sabendo que nunca poderá tê-la de volta, ele não pode arriscar que ela enfrente o perigo sem ele, não pode, ele não vai, ele não faria.
— Eu tenho a garça, — lembra ela. — Tenho uma maneira de pedir ajuda se precisar.
— Mas não a minha ajuda — diz ele. Ele odeia o colar, sempre o odiou, mesmo antes de ser contaminado pelo encantamento do Caçador de Sombras. Ele tentou vendê-lo uma vez, sem dizer a ela, porque sabe que sua herança só lhe traz dor; ela o perdoou. Ela sempre o perdoa. — E se você precisar de mim?
Ela sabe que ele odeia isso, a ideia de que ela chamaria um estranho ao invés dele. Ele não entende: isso é porque a vida de um estranho não significa nada para ela. Ela deixaria o mundo queimar se isso significasse manter Jack e Christopher a salvo.
— O que eu preciso é que você o mantenha vivo.
O mundo acredita que Jack — pois foi assim que ela o amou primeiro e como sempre pensa nele — é um bandido. Não confiável, mercenário, sem capacidade de confiança ou amor. Rosemary sabe melhor. A maioria das pessoas é esbanjadora com seus afetos, espalhando-os sem discrição. Jonathan ama apenas duas coisas neste mundo: sua esposa e seu filho.
Ela deseja, às vezes, que ele inclua ele mesmo nessa lista. Ela se preocuparia menos com ele, se achasse que ele permitia qualquer preocupação para consigo mesmo.
— Ok, mas e se vencermos? — ele diz.
— O que você quer dizer?
— Digamos que você derrote as fadas do mal e convença os Caçadores de Sombras que você não tem utilidade para eles. E se todos simplesmente pararem de procurar por você e por Christopher, e finalmente for seguro estarmos juntos. Como você vai nos encontrar?
Ela ri, mesmo em seu desespero. Ele sempre foi capaz de fazê-la rir. Desta vez, porém, ele não vê a piada.
— Isso nunca vai acontecer — diz ela suavemente. — Você não pode arriscar que isso aconteça.
— Então vamos até a Clave, todos nós. Vamos nos lançar à sua misericórdia, pedir sua proteção. Você sabe que eles a darão a você.
Isso tira sua risada abruptamente. Os Caçadores de Sombras não têm piedade. Quem sabe disso melhor do que ela? Ela aperta as mãos dele, aperta o suficiente para doer. Ela é muito forte.
— Nunca — diz ela. — Nunca se esqueça de que os Caçadores de Sombras são uma grave ameaça para Christopher como qualquer outra pessoa. Nunca esqueça o que eles estavam dispostos a fazer ao meu ancestral. A um deles. Eles não vão colocar as mãos nele. Prometa-me.
— Eu prometo. Mas só se você prometer também.
Não há outro jeito. Ele não vai fazer o que ela pede, não vai desaparecer para sempre a menos que ela deixe um fio fino entre eles. Uma esperança.
— O lugar em que você me contou quem você realmente era — diz ele. — O primeiro lugar em que você confiou em mim. Se precisar de ajuda, vá para lá. Ajuda vai te encontrar. Eu vou te encontrar.
— É muito perigoso...
— Você não precisa saber onde estamos. Não precisa nos encontrar. Eu nunca vou procurar por você, eu prometo. E Christopher estará seguro. Mas você, Rosemary... — sua voz captura seu nome, como se ele soubesse quão raramente ele se permitiria falá-lo novamente. — Se você precisar de mim. Eu vou te encontrar.
Eles não dizem adeus. Entre eles, não pode haver adeus. Apenas um beijo que deve durar para sempre. Apenas uma porta fechada, um silêncio, um vazio. Rosemary se afunda no chão, abraça os joelhos, reza para um deus que não acredita para ter força suficiente para nunca se deixar ser encontrada.
— Eu sei como encontrá-lo — disse Tessa, já saindo da transformação. Foi, novamente, mais difícil do que deveria ter sido. Uma fricção desconhecida segurando a forma de Rosemary no lugar.
Exceto que não era totalmente estranho, era? Algo fez cócegas no fundo de sua mente, uma lembrança fora de alcance. Tessa a buscou, quase conseguiu — mas que deslizou para longe, se foi.


Parecia errado estar em Los Angeles sem procurar Emma Carstairs. Mas Jem lembrou a si mesmo que envolvê-la nisso poderia trazer perigo à porta dela, e a garota enfrentara o suficiente. Ela às vezes o fazia lembrar-se de si mesmo — ambos órfãos, criados por um Instituto, adotados por outra família, mas abrigando, sempre, a dor secreta de perder os seus. Eles haviam encontrado a salvação em um parabatai, e Jem só podia esperar que Emma tivesse encontrado em Julian o que ele sempre encontrara em Will: não apenas um parceiro, mas um refúgio. Um lar. Ninguém, nem mesmo um parabatai, poderia substituir o que foi perdido. Mesmo agora, havia um buraco no coração de Jem, um ferimento cru onde seus pais foram arrancados. Este era um membro que não podia ser substituído, apenas compensado. Como tinha sido quando ele perdeu Will. Como seria se ele perdesse Tessa.
A perda era uma inevitabilidade do amor, do preço inescapável da alegria. Todo mundo tinha que aprender algum dia — talvez fosse isso que significava crescer. Ele desejava, por Emma, ​​que a infância dela pudesse ter durado um pouco mais. E desejava que pudesse estar lá para ela quando esta terminasse. Mas era sempre cálculo frio quando se tratava de Emma Carstairs: equilibrar seu desejo de fazer parte da vida dela com as consequências. Quando era um Irmão do Silêncio, ele a teria provocado com algo que ela não poderia ter — sua única família restante, que poderia, no entanto, não ser sua família. Agora, como Jem Carstairs, ele a teria trazido alegremente aos seus cuidados, mas ele não era mais um Caçador de Sombras — e escolhê-lo significaria que Emma teria que desistir de todo o mundo. A Lei era dura — também era, muitas vezes, solitária.
Ele ficava dizendo a si mesmo: em breve. Logo, quando ele e Tessa firmassem seu relacionamento. Logo, quando ele e Tessa tivessem encontrado o Herondale perdido, aquele pedaço de Will perdido para o mundo de Will. Logo, quando o perigo passasse.
Ele se preocupava, às vezes, que essas fossem todas desculpas frágeis. Ele vivera, de um jeito ou de outro, por quase duzentos anos. Deveria saber agora que o perigo nunca passava. Apenas pausava, e só se você tivesse sorte.
— Tem certeza de que este é o lugar? — Jem perguntou a Tessa. Ela se Transformara em Rosemary novamente, e ele mal podia olhar para ela. Às vezes, Jem sentia falta da distância fria que a Irmandade do Silêncio o forçava, da maneira como nenhuma emoção, por mais poderosa que fosse, podia penetrar em seu coração de pedra. A vida era mais fácil sem sentir. Não era vida, ele sabia. Mas era mais fácil.
— Infelizmente, este é definitivamente o lugar.
Cada cidade tinha um Mercado das Sombras e, de certa forma, eles eram todos do mesmo mercado, ramos de uma única árvore — mas isso não impedia que cada mercado assumisse o caráter de seus frequentadores. Pelo que Jem podia dizer, aqueles de Los Angeles eram: bronzeados, conscientes da saúde e obcecados por automóveis. O Mercado das Sombras ficava localizado em um canto de Pasadena, e tudo lá era brilhante, incluindo seus ocupantes: vampiros com presas brancas, fadas fisiculturistas cujos músculos protuberantes eram cheios de suor dourado, bruxas com cabelos cor de néon e roteiros autografados à venda, ifrits apresentando falsos “mapas estelares” que, em um exame mais detalhado, não tinham nada a ver com astronomia, mas eram de fato mapas de atualizados de Los Angeles com uma pequena fotografia de Magnus Bane marcando cada local em que o infame feiticeiro causara algum caos infame. (Tessa comprou três deles.)
Eles entraram na multidão o mais rápido que puderam. Jem ficou aliviado por não usar mais as vestes da Irmandade do Silêncio, a marca inerradicável de seu credo. Havia um gostinho nos limites do Mercado das Sombras, uma sensação de que as regras só se aplicavam aqui na medida em que alguém estivesse disposto a aplicá-las. As fadas se divertiam abertamente com seus colegas do Submundo; feiticeiros faziam negócios com mundanos que nunca deveriam ser feitos; Caçadores de Sombras eram, por razões óbvias, indesejados.
Seu destino estava além do caos alegre. No limiar entre o Mercado das Sombras e as sombras, havia uma estrutura em ruínas, sem placas e sem janelas. Não havia nada que sugerisse que fosse algo além de uma ruína, certamente nada para marcá-la como um decadente bar do Submundo, um lar longe do lar para os seres do Submundo que achavam que nem mesmo o Mercado das Sombras não era sombrio o bastante. A última coisa que Jem queria fazer era deixar Tessa entrar, especialmente usando o rosto de alguém que a Corte Unseelie pretendia assassinar — mas desde que a conhecia, ninguém deixava Tessa fazer nada.
De acordo com Tessa, Rosemary e seu marido fizeram um acordo. Se Rosemary precisasse dele, ela viria a este lugar, de alguma forma ele saberia que ela precisava dele, e ele apareceria. Era aquela parte do meio do plano que parecia um pouco vaga, mas não havia saída além de seguir em frente, Tessa dissera alegremente, em seguida, beijou-o. Mesmo no corpo de outra pessoa, mesmo com os lábios de outra pessoa, seu beijo era todo Tessa.
Eles entraram. Tessa foi primeiro, Jem seguindo alguns minutos depois. Parecia prudente parecer que não estavam juntos. O bar não era lá muita coisa. Era tão desordenado por dentro como fora. O grande lobisomem da porta farejou-o uma vez, com cautela, grunhiu algo que soou como comporte-se, depois acenou para dentro. As paredes desmoronadas estavam enegrecidas por marcas de queimado, o chão respingado de cerveja e, pelo cheiro, icor. Jem furtivamente observou os outros clientes em busca de uma ameaça em potencial: uma fada de biquíni dançando lentamente sozinha, apesar do silêncio, oscilando bêbada em seus saltos altíssimos. Um licantrope envolto em uma capa de seda esfarrapada, caído de bruços na mesa, seu cheiro sugerindo que estava lá há dias. Jem observou-o tempo suficiente para ter certeza de que ele ainda estava respirando, então se sentou no bar. O barman, um vampiro encarquilhado e careca que parecia estar se escondendo do sol desde muito antes de se transformar, olhou para Jem de cima a baixo, então deslizou-lhe uma bebida. O copo estava manchado, seu conteúdo era verde-claro. O que quer que flutuasse no centro, parecia que poderia estar vivo. Jem decidiu que provavelmente era mais seguro ficar com sede.
A três bancos de distância, Tessa curvou-se sobre o próprio copo. Jem fingiu não notar. A fada se esgueirou entre eles, sua cauda bifurcada acariciando a borda do copo de Jem.
— O que um cara como você e et cetera?
— Desculpe-me?
— Você sabe, todo alto, moreno e bonitos e... — ela disparou um olhar para o homem no canto, agora roncando com tanta força que sua mesa sacudia embaixo dele a cada expiração — tudo em cima. Você não parece o tipo de cara que fica por aqui.
— Você sabe o que dizem sobre livros e capas — disse Jem.
— Então você não é tão sozinho quanto parece?
Jem percebeu que Tessa, fingindo não ouvir, reprimia um sorriso — e só então entendeu que a fada estava flertando com ele.
— Eu poderia ajudá-lo com isso, você sabe — disse ela.
— Eu vim aqui para ficar sozinho, na verdade — respondeu Jem, educadamente, como pôde. A cauda da fada escorregou do copo para a mão dele, percorrendo os dedos. Jem se afastou. — E, hã, sou casado.
— Que pena. — Ela se inclinou, muito perto, seus lábios roçando a orelha dele. — Vejo você por aí, Nephilim. — Ela se afastou do bar, liberando Jem para se concentrar totalmente na conversa que Tessa estava tendo com o barman.
— Eu a conheço? — perguntou o barman.
Jem ficou rígido.
— Eu não sei — disse Tessa. — Conhece?
— Você parece familiar. Um pouco como uma garota que costumava entrar aqui o tempo todo, com o namorado. Má influência, aquele cara, mas ela não ouviria. Caída de amor, como só uma criança pode ser.
Com o canto do olho, Jem pegou o leve sorriso de Tessa.
— Ah, eu não sei se colocaria um limite de idade para se cair de amor.
O barman lançou-lhe um olhar avaliador.
— Se você diz. Não esta menina, no entanto. Ela cresceu para ser do tipo sozinha. Fugiu dele e do filho deles, ouvi dizer.
— Terrível. — Tessa disse secamente. — E o Sr. Má Influência?
— Talvez não seja uma má influência. Fiel o suficiente para voltar para cá depois de todos esses anos. O tipo de cara que um certo tipo pode contar quando se precisa de ajuda, se é que você me entende.
— E como o tipo certo de pessoa poderia encontrá-lo? — Tessa perguntou. Jem podia dizer que ela estava se esforçando muito para manter a ansiedade fora de sua voz.
O barman limpou a garganta, começou a limpar o bar sem entusiasmo.
— O tipo certo de mulher, eu soube, saberia exatamente como encontrá-lo — disse ele, sem olhar para ela. — Porque ele é exatamente o mesmo pássaro que costumava ser, apenas mudou um pouco o look. — Ele colocou ênfase especial nas palavras, e Jem podia dizer pela expressão de Tessa que elas significavam algo para ela. Seu coração pulou.
Tessa ficou de pé e jogou alguns dólares no bar.
— Obrigada.
— Qualquer coisa pela menina tão bela quanto uma rosa. Boa sorte com... — A adaga pareceu se materializar no centro de sua testa. Ele estava morto antes de atingir o chão. Jem e Tessa se viraram para encontrar Fal de Mannan e seu cavalo de bronze trovejando pela porta, avançando sobre eles com velocidade inumana, a espada longa de Fal descendo, o corpo de Jem reagindo antes que sua mente tivesse tempo de processar, cada segundo de uma vida de treinamento dos Caçadores de Sombras derramado em uma tempestade de ataques, chutes, lutas, pulos — tudo isso em menos de um segundo, tudo isso ineficaz, porque a lâmina já estava descendo, estava derrubando Tessa no chão em uma pilha de sangue e carne, e Fal de Mannan, insensível, já tinha voado no momento em que Jem caiu de joelhos ao lado de sua forma pálida.
— Eu sugiro que você permaneça morta desta vez — a fada aconselhou, e foi embora.
Ela estava tão pálida.
Suas feições estavam derretendo de volta para ela própria. A Transformação era sempre liberada quando ela perdia a consciência, mas algo estava errado desta vez, quase tão inquietante quanto a ferida. Suas feições quase retornaram às de Tessa quando, como um elástico esticado de repente libertado, elas voltaram para Rosemary. E voltaram a ser Tessa, e novamente Rosemary, como se o corpo dela não pudesse decidir quem queria ser. Jem apertou o ferimento, tentando manter o sangue, não se importava com quem ela parecia, só queria que seu corpo escolhesse a vida em vez da morte. A fada do biquíni. O pensamento cortou sua névoa de pânico. Talvez ela tivesse sido plantada lá para espionar para os Cavaleiros, sabendo que este lugar tinha um significado especial para Rosemary e sua família; talvez ela simplesmente reconhecesse “Rosemary” como uma mulher com um alvo nas costas, uma mulher que deveria estar morta, e cumpriu seu dever de fada. Não importava como isso tinha acontecido. O que importava era que Jem a tinha ignorado como uma ameaça, o que tornava isso sua culpa, e se Tessa não...
Mas ele parou o pensamento antes que pudesse continuar. O ferimento teria matado um mundano. Talvez até um Caçador das Sombras. Mas o corpo de Tessa se moldou à forma de Rosemary no momento do ataque, a forma de uma mulher que não era apenas Caçadora de Sombras, mas herdeira do trono das fadas — quem sabia que magia o corpo poderia estar trabalhando em sua luta pela sobrevivência. Talvez fosse por isso que a Transformação não a deixasse — talvez esse fosse o jeito de seu corpo impedir a morte até que ela pudesse se curar. Tessa gemeu. Jem pegou Tessa em seus braços, implorando para ela aguentar.
Ele aprendeu muito sobre cura na Irmandade do Silêncio e fez o que pôde. Pensou em como ela se sentou no que todos pensavam ser o seu leito de morte, seu suprimento de yin fen finalmente acabado, o veneno demoníaco que ultrapassava seu sistema, e lembrou de ter dito a ela que ela tinha que deixá-lo ir. Ele também se lembrava de estar sentado com um Will agonizante, dando-lhe permissão para partir. Ele não sabia se era força ou egoísmo agora, mas ele se recusava a fazer o mesmo por Tessa. Ainda não: esperaram tanto tempo por uma vida juntos. Eles tinham acabado de começar.
— Fique — ele implorou. — Lute.
Ela estava tão fria. Tão leve em seus braços. Como se algo essencial já tivesse fugido.
— Custe o que custar, você fica aqui. Eu preciso de você, Tessa. Eu sempre precisei de você.


Ela não estava morta. Um dia inteiro se passou e ela não estava morta. Mas também não estava acordada, e ela não parava de mudar, de Tessa para Rosemary e vice-versa. Às vezes durava minutos, uma vez até uma hora, em uma única forma.
Às vezes, a mudança passava de uma para a outra tão rapidamente que ela parecia não ter forma alguma. Sua pele estava escorregadia de suor. No começo, estava fria ao toque. Então, quando a febre a atravessou, queimava. Ela recebeu remédios — para estancar a perda de sangue, para lhe dar força, resistência — remédios que Jem, não sendo mais um Irmão do Silêncio, não podia conseguir sozinho. No momento em que Jem a levou para a segurança, ele convocou ajuda.
Ou melhor, porque ele e Tessa não faziam parte da Clave e não tinham direito sobre a Irmandade do Silêncio, nenhum poder com o qual convocar, ele pediu ajuda. Implorou por isso. Agora o Irmão Enoch estava aqui, misturando tônicos, encenando os complicados e secretos rituais que Jem já fora capaz de realizar sozinho. Nunca antes ele se arrependeu de deixar a Irmandade do Silêncio, retornando a terra dos mortais e do perigo mortal, mas para salvar Tessa, ele teria alegremente prometido o resto de sua eternidade àquelas vestes de pergaminho, aquele coração de pedra. Em vez disso, ele podia apenas ficar ao lado de Enoch, desamparado. Sem utilidade. Às vezes, o Irmão Enoch até o fazia sair do quarto.
Ele entendia; ele próprio fizera o mesmo, muitas vezes, se escondendo com o paciente, sem nunca pensar muito na tortura que seu amado poderia sentir do outro lado da porta. Em sua primeira vida, o próprio Jem tinha sido o paciente, Tessa e Charlotte e Will pairando ansiosamente ao redor de sua cama, lendo para ele, murmurando em vozes reconfortantes enquanto ele nadava entre a escuridão e a vigília, esperando que ele ficasse mais forte a cada dia, mas ele não iria.
Exilado no corredor do pequeno apartamento que Magnus — via sua rede sempre expansiva e sempre ambígua de “amigos” — tinha assegurado para eles, Jem encostou-se a parede. Me desculpe, Will, ele pensou. Eu nunca soube.
Assistir a pessoa que você mais ama lutar por cada respiração. Observá-la escapulindo, impotente para ajudar. Ver o rosto que você ama se contorcer de dor, o corpo que você morreria para proteger tremendo, estremecendo, quebrado. Não era que Jem nunca tivesse suportado isso antes. Mas sempre antes, houve um intercessor entre ele e o horror bruto da ausência. Enquanto crescia como Caçador de Sombras, Jem sempre tinha, no fundo de sua mente, consciência do fato de que morreria jovem. Ele sabia que provavelmente morreria muito antes de Will ou Tessa, e mesmo quando Tessa ou Will se atiravam ao perigo — como costumava acontecer — havia uma parte de Jem que entendia que ele não seria forçado a ficar muito tempo em um mundo sem eles. Houve momentos também, na Irmandade do Silêncio, quando ele ficou ao lado de Will ou Tessa, incerto se eles viveriam ou morreriam — mas a dor disso sempre foi atenuada pela mesma distância fria que mitigava todo o resto. Agora, porém, não havia nada em seu caminho, nada para distrair seu olhar da terrível verdade disso. Tessa poderia morrer, e ele viveria sem ela, e não havia nada a fazer a não ser esperar e ver. Suportar isso tomou toda a força que Jem tinha.
Will nunca tinha se esquivado do sofrimento de Jem — repetidas vezes, ele havia suportado. Ele se sentou ao lado cama de Jem, segurou a mão de Jem, viu Jem nas horas mais negras. Você foi o homem mais forte que conheci, Jem disse silenciosamente para seu amigo perdido, e eu nunca soube da metade disso.
A porta se abriu, e o Irmão Enoch emergiu. Jem ainda se maravilhava com o quão estranho os Irmãos do Silêncio pareciam para ele agora que não estava mais entre eles. Levou algum tempo para se acostumar com o silêncio em sua mente, o coro de vozes que o acompanhara a cada momento por décadas e desaparecera de repente. Mas agora ele não podia imaginar. Parecia tentar lembrar de um sonho.
— Como ela está?
A ferida não é mais uma ameaça mortal. Suas habilidades de transformação de forma parecem ter impedido que ela tivesse o efeito esperado.
Jem quase desmaiou de alivio.
— Eu posso vê-la? Ela está acordada?
O rosto marcado de runas do Irmão do Silêncio estava imóvel, os olhos e a boca costurados, e Jem ainda podia sentir sua preocupação.
— O que foi? — ele perguntou. — O que você não está me dizendo?
A ferida está cicatrizando. Sua Transformação a salvou, mas temo que agora seja a mudança que representa a maior ameaça. Seu corpo e sua mente estão presos dentro dela. Ela parece incapaz de encontrar seu caminho de volta para si mesma — a Transformação não a deixará ir. É como se ela tivesse perdido o controle sobre o que a faz, essencialmente, Tessa Gray.
— Como podemos ajudá-la?
Houve um verdadeiro silêncio então.
— Não. — Jem se recusou a aceitar isso. — Há sempre alguma coisa. Você tem um milênio de conhecimento para explorar. Deve haver alguma coisa.
Em todos esses anos, nunca houve um ser como Tessa. Ela é uma mulher forte e poderosa. Você deve ter fé, ela encontrará seu próprio caminho para casa.
— E se ela não o fizer? Ela só ficar assim no limbo para sempre?
A mudança tem seu preço, James. Toda transformação requer energia, e nenhum corpo pode sustentar este nível de energia indefinidamente. Nem mesmo o dela.
A voz na cabeça de Jem era tão fria, tão medida, que era fácil imaginar que ele não se importava nem um pouco. Jem sabia melhor. Era simplesmente que o cuidado, por um Irmão do Silencio, tinha uma forma diferente, estranha. Esse tanto, Jem podia lembrar: a distância fria da vida. A calma inumana com que os eventos eram processados. Palavras como cuidado, necessidade, medo, amor: elas tinham significado; era apenas um significado irreconhecível para qualquer um que não pudesse dormir, comer e falar, que vivesse uma vida de paixões animais.
Ele se lembrava de quão grato ele era pelos raros momentos — quase sempre, um momento com Tessa — no qual ele sentiu uma centelha de verdadeira emoção. Como ele ansiava pelo fogo da paixão humana, pelo privilégio de sentir novamente, até mesmo medo, até tristeza.
Agora ele quase invejava o Irmão Enoch, o gelo. Esse medo, essa tristeza; era grande demais para suportar.
— Quanto tempo, então?
Você deveria ir até ela agora. Fique com ela, até... Até acabar, de um jeito ou de outro.


Tessa sabe e não sabe que isso é um sonho.
Ela sabe que Jem está vivo e então deve ser um sonho, esse cadáver em seu colo usando o rosto de Jem, este corpo em decomposição nos braços, pele arrancada dos músculos, músculo esfolado dos ossos, ossos se dissolvendo em pó. Ele pertenceu a ela, tão brevemente, e agora ele era pó, e ela estava sozinha.


Ele está frio, ele está sem vida, ele é carne, o Jem dela, carne de vermes, e eles eram enxame em sua carne, e de alguma forma ela podia ouvi-los, comendo e devorando, milhões de bocas mordiscando-a até o nada, e ela grita seu nome, mas não há ninguém para ouvir além dos minúsculos vermes contorcidos, e ela sabe que é impossível, mas ainda assim, ela pode ouvi-los rir.


Jem está vivo, seus olhos brilham de rir, seu violino apoiado no queixo, sua música, a música que ele escreveu para ela, o canto de sua alma, e a flecha que navega em sua direção é rápida e segura e coberta de veneno, isso perfura seu coração, a música para. O violino se quebra. Tudo é silêncio para sempre.


Ele se joga entre ela e o demônio Mantid e ela é salva, mas ele é espetado no estômago, e quando consegue recuperar o fôlego o suficiente para gritar, ele se foi.


O demônio Dragonidae bafeja uma nuvem de fogo e as chamas o consomem, um fogo azul e branco ofuscante que o queima de dentro para fora, e ela assiste as chamas dispararem de sua boca, observa seus olhos derreterem com o calor e correrem para baixo nas bochechas, e sua pele estala como bacon, até que, quase misericordiosamente, a luz é brilhante demais, consumindo tudo, e ela se afasta, apenas por um único momento de fraqueza, mas quando ela se volta, há apenas uma pilha de cinzas. Tudo o que era Jem se foi.


Um flash de espada, e ele se foi.


Uma besta grita ao descer do céu, uma garra raspou a pele pálida e ele se foi.


E ele se foi.


Ela está viva e está sozinha e ele se foi.


Quando ela não aguenta mais, quando vê o amor morrer dez vezes, uma centena de vezes, sente seu próprio coração morrer com ele, quando não há mais nada a não ser um oceano de sangue e um fogo que é queimado, exceto a dor excruciante. De perda após perda após perda, ela foge para o único lugar que pode, o único porto seguro do horror.
Ela foge para Rosemary.


O ar da noite é denso e doce com jacarandá. O rugido quente dos ventos de Santa Ana parece um secador de cabelo voltado para o rosto dela. Suas mãos estão arranhadas e ensanguentadas dos espinhos da treliça, mas Rosemary mal percebe. Ela desce da treliça, excitação que surge através dela no momento em que seus pés tocam o cimento. Ela conseguiu. A mansão brilha perolada ao luar, um imenso monumento ao privilégio e à privacidade. No interior, protegidos por seus alarmes e patrulhas de segurança, seus pais dormem profundamente, ou pelo menos tão profundamente quanto dois paranoicos. Mas Rosemary é livre durante a noite.
Ao redor do quarteirão, um Corvette negro como azeviche está parado no meio-fio, seu motorista na sombra. Rosemary pula dentro e o favorece com um longo e profundo beijo.
Desde quando você tem um Corvette?
Desde que encontrei esse rapazinho estacionado atrás do In-N-Out, implorando por um novo dono. Como um cachorrinho perdido — disse Jack. Eu não poderia exatamente dizer não, eu poderia.
Ele pisa no acelerador. Eles se afastam rapidamente, os guinchos das rodas rompendo o silêncio de Beverly Hills.
Ele está mentindo sobre como conseguiu o carro, provavelmente. Ele mente sobre tudo, seu Jack Crow. Provavelmente está mentindo sobre o nome dele. Ela não se importa. Ela tem dezesseis anos, não precisa se importar, só precisa ver o mundo, o mundo real, o Submundo, o mundo do qual seus pais estão tão odiosamente determinados a mantê-la longe, e ele está feliz em mostrar a ela. Ele é apenas um ano mais velho que ela, assim ele diz, mas já viveu o suficiente por vinte vidas.
Eles se conheceram na praia. Ela estava matando aula; estava sempre faltando na escola; procurando problemas, sem perceber que procurava por ele. Ele apontou para um casal que passeava, bronzeados, de cabelos dourados e brilhantes, como se tivessem saído de um catálogo de Los Angeles, para que ela lhes pedisse informações, distraindo-os enquanto ele levava a bolsa. Não que ele tivesse dito a ela que esse era o plano. Ele não lhe disse nada antes do tempo, além de confie em mim, e então ela esperou até que eles estivessem sozinhos, compartilhando um burrito comprado com o dinheiro roubado, para perguntar por que ele não estava mais preocupado por roubar de fadas. Não lhe ocorrera que ela tinha a Visão, que ela podia ver a verdade sob o glamour deles. Ela disse, “O que você achou, que eu fosse apenas uma menina rica entediada?” Ele concordou. Ela o informou que era uma menina rica entediada: entediada porque podia ver quão mais interessante o mundo poderia ser. Ele disse, “O que você acha de mim, que sou apenas um bad boy bonitinho que você pode usar para irritar mamãe e papai?” Ao que ela respondeu “Se mamãe e papai soubessem que você existe, eles o matariam. E ninguém disse que você era bonitinho.” Uma verdade e uma mentira: ele era muito, muito bonitinho, com cabelos escuros sobre olhos castanhos encobertos, sorriso esperto que era aberto apenas para ela, o rosto como uma rocha, afiado em todos os lugares certos. Era verdade que, se os pais dela soubessem, eles o iriam querer morto. Que geralmente era tudo o que precisava. Naquele primeiro dia, ele a levou para um café no Submundo em Veneza. Ela sempre teve a Visão, e sua mãe também, claro. Mas seus pais lutaram tanto para mantê-la longe do Submundo, para impedi-la de conhecer suas delícias e terrores. Este era sua primeira prova; literalmente, um sundae que, o que quer que as fadas tivessem infundido, tinha gosto de sol de verão. Quando ela o beijou, ele tinha gosto de chocolate.
Esta noite, ele finalmente, após semanas de súplicas, a levara ao Mercado das Sombras. Ela vive por essas noites com ele; não apenas por causa dele, mas por causa do mundo que ele abriu para ela.
Ele está certo, também, porque ela sabe o quanto isso iria irritar seus pais. Ele a faz esperar com as ninfas vendedoras de pulseiras de algas marinhas enquanto conduz seus negócios, então ela espera e observa e se pergunta sobre o caos mágico rodopiando ao seu redor. Ela não está tão boquiaberta que não percebe a figura encapuzada sombreando Jack, o licantrope com bigode que o segue quando ele passa, o djinn que fica tenso com a aproximação dele, e lança um olhar para alguém atrás dela, e ela não conhece o Submundo, mas foi ensinada desde a infância a reconhecer o perigo, a sentir os sinais dos inimigos à espreita. Ela foi educada apenas nas hipóteses da batalha, aprendeu a avaliar, lutar, criar estratégias, fugir, tudo no conforto mimado de sua própria casa, e sempre se perguntou se a prática poderia prepará-la para a realidade, se seu treinamento evaporaria na caro do terror. Agora ela sabia a resposta: ela reconhecia uma emboscada quando via uma, e não havia hesitação sobre o que fazer a seguir.
Ela grita. Cai no chão. Agarra o tornozelo. Gritos Jack, Jack, Jack, algo me mordeu, eu preciso de você, — e como um raio ele está ao seu lado, uma ternura em seu rosto que ela nunca soube que era possível. Ele a pega em seus braços, murmura garantias, até que ela sussurra seu aviso em seu ouvido, emboscada, e eles correm.
O Corvette é cercado por três lobisomens. Jack grita para ela correr, se salvar, enquanto ele se lança na luta, mas ela não recebeu todas aquelas horas e anos de treinamento para simplesmente correr. É diferente, lutar contra um inimigo real; mas não tão diferente. Ela gira e pula, tira a adaga de seus coldres de tornozelo, golpes e facadas, e ela pode sentir o calor em suas bochechas, o fogo em seu coração enquanto os lobisomens fogem derrotados e ela e Jack se jogam no Corvette, acelerando, ultrapassando limites de velocidade nas colinas e ao redor das curvas fechadas de  Mulholland Drive, sem falar, sem olhar um para o outro, até que ele se vira com dificuldade para um mirante e o carro grita até parar. Então ele está olhando para ela. Deixe-me adivinhar, ela diz, eu nunca pareci mais bonita. Ela sabe que suas bochechas estão vermelhas, seu rosto reluzindo, seus olhos brilhando. Ele disse Quem se importa como você parece. A maneira como você lutou! A maneira como você pensa! Ele pergunta onde ela aprendeu a fazer o que ela faz. Ela não pode dizer a ele que seus pais se certificaram de que ela soubesse se defender, que ela não saía de casa sem uma arma desde os cinco anos de idade. Ela simplesmente disse que há muitas coisas que ele não sabe sobre ela. Ele diz que sabe o suficiente. Ele diz Acho que estou apaixonado. Ela bate nele, diz que é rude dizer isso como uma piada, mesmo para uma garota como ela, dura como adamas. Ele diz, O que a faz pensar que estou brincando?


Seus pais querem se mudar de novo.
Ela se recusa. Não desta vez, não de novo.
Eles querem saber se é por causa dele, Aquele garoto, aquele com quem você foge, e ela não pode acreditar que eles sabem. Eles a estão seguindo. Eles não estão arrependidos. Eles dizem que ela não entende quão perigoso é o mundo, esse mundo, o Submundo, e ela diz que é porque eles não a deixam. Com dezesseis anos de idade e ela nunca morou em um lugar por mais de um ano, porque nunca param de se mudar.
Quando ela era criança, ela aceitava suas explicações, acreditava no conto de fadas de pesadelo do monstro espreitando no escuro, ansiando por destruí-los. Mas o monstro nunca se mostrou, o perigo nunca se manifestou, e ela começou a se perguntar se seus pais são simplesmente paranoicos, se correr e se esconder tornou-se mais fácil para eles do que ficar parado.
Não é fácil para ela. Ela nunca teve uma amiga de verdade, porque é proibida de contar a alguém quem ela realmente é.
Ela está sozinha.
Ela tem uma coisa: ele. Ela não vai deixar que eles levem isso embora.
A mãe dela diz Você tem dezesseis anos, tem tempo de sobra para preencher sua vida com amor, mas só se a gente a mantiver viva tempo suficiente para fazê-lo. Ela responde que já está enchendo sua vida com amor, ela o ama, ela fica. O pai dela diz: Você é jovem demais para saber o que é o amor. Ela pensa em Jack, no toque da mão dele, o riso silencioso em seu sorriso torto.  Ela pensa sobre ele segurando um guarda-chuva sobre a cabeça para protegê-la da chuva, sobre ele pedir para ela ensiná-lo a lutar, para que ele possa se proteger. Ela pensa em treiná-lo, como ele ama que ela seja mais forte, mais rápida, melhor e pensa em sentar com ele, imóvel e em silêncio, observando as ondas.
Ela é jovem, mas ela sabe. Ela o ama.
O pai dela diz que eles estão saindo de manhã, todos eles, uma família. Ele diz que ela não vai mais sair se esgueirando.
Então ela corre para a porta à vista de todos, abertamente desafiando seus pais pela primeira vez, e eles são muito lentos, seus avisos tão familiares, para impedi-la. Ela sai, sem ter para onde ir; Jack está cuidando de algum negócio tipicamente vago em algum lugar vagamente no centro, e então ela caminha pelas ruas desertas, contornando rodovias, derretendo nas sombras de passagens subterrâneas, mata os minutos até ter certeza de que seus pais foram dormir. Ela sabe exatamente como entrar na casa sem acordá-los, mas não há necessidade.
As portas estão escancaradas.
O corpo de sua mãe está na grama, em pedaços.
O sangue de seu pai está acumulando na entrada de mármore. Ele está esperando por ela. Ele diz, Eles nos encontraram. Ele diz Prometa-me que você desaparecerá. E ela promete, promete e promete, mas só tem o cadáver dele para ouvir.


Ela foge sem documentos ou cartão de crédito, nada que possa ser usado para rastreá-la, não que o inimigo use a tecnologia para rastrear, mas essas coisas nunca podem ser contadas, e seus pais estão mortos.
Seus pais estão mortos.
Seus pais estão mortos, porque ela diminuiu a velocidade, porque eles sabiam que era hora de ir e ela insistiu que eles ficassem, ela lutou, ela reclamou e ela se manteve contra eles e agora eles estão mortos.
Ela espera no bar favorito de Jack, aquele do Mercado das Sombras que tenta o seu melhor para parecer que não existe. Ela espera por ele lá, porque ele sempre volta, eventualmente, e quando ele chega, alarmado por vê-la coberta de sangue, ela desmaia em seus braços.
Então ela diz a verdade.
Ela conta a ele que é uma Caçadora de Sombras, por linhagem, e não por escolha. Ela é fada, por espírito e sangue, e não por escolha. Ela conta a ele que ela é caçada, ela é perigosa para todos aqueles que amam, e ela está indo embora para sempre. Ela diz a ele que isso é um adeus.
Ele não entende. Ele quer vir com ela. Ela tenta novamente. Diz-lhe que a Corte Unseelie a quer morta, enviou um antigo grupo fadas assassinas com poderes divinos para matá-la. Permiti-lo ficar com ela significaria assinar sua sentença de morte. Ela diz a ele que ficar com ela significaria desistir de sua identidade, sua cidade, toda sua vida. Ele diz: Você deveria ser inteligente, mas não entende. Você é minha vida. Você é minha identidade. Eu não vou desistir de você. Quanto a tudo mais? Ele encolhe os ombros. Quem precisa disso?
Ela ri. Ela treme de rir. Não pode acreditar que está rindo. Em seguida, sente a umidade em sua bochecha, sente-o pressionar o rosto dela contra o seu peito, envolve os braços ao redor dela, e ela percebe: ela não está rindo, está chorando. Ele promete que sempre a protegerá. Ela diz em voz alta, pela primeira vez na vida: Eu sou um Herondale. Eu protegerei você. Ele diz que é um acordo.


Não parecem viver em fuga. Parecem pedras caindo sobre um lago. Eles mergulham em uma vida, onde quer que eles estejam — Berlim, Tóquio, Rio, Reykjavik — estabelecem identidades, conexões com o Submundo, e quando Jack queima pontes demais ou Rosemary fareja uma fada, ou como uma vez em Paris, eles descobrem um Caçador de Sombras em seus rastros, eles eliminam suas identidades, mudam seus nomes e rostos, ressurgem em outro lugar. Eles consideraram, às vezes, ir à clandestinidade, viver como mundanos, mas essa foi a escolha de seus pais, e isso se mostrou fatal. Eles serão mais inteligentes, mais seguros e, quando criarem novas identidades para si próprios, construirão uma rede de contatos para chamarem, se necessário.
Contatos, mas nunca aliados, nunca amigos, nunca alguém que faria muitas perguntas quando aparecessem ou desaparecessem. Sem obrigações, sem vínculos, sem raízes. Eles precisam apenas um do outro — e então eles tiveram Christopher, e tudo mudou.
Ela insiste em ter o bebê em segredo. Ninguém pode saber que há outro elo nesta corrente amaldiçoada. Mesmo quando estava grávida, ela percebe mais tarde, ela entendia em algum nível o que teria que fazer.
Uma vez que ela tem Christopher, finalmente entende seus pais, suas vidas consumidas pelo medo. Não por si, mas por ela. Ela se recusa a impor isso ao filho. Ela quer uma vida melhor para ele, algo mais que arame farpado e alarmes de segurança. Ela quer que ele tenha um lar. Ela quer que ele conheça a confiança, conheça o amor. Ela quer salvá-lo de se esconder.
Jack odeia isso. Então você quer protegê-lo de ter que manter seu segredo, mantendo-o por ele? Você quer impedi-lo de saber que ele tem um segredo? E ela diz Sim, exatamente, e então ele crescerá sem medo do mundo.
Jack diz que crescer sem medo do mundo é uma boa maneira de ser destruído por ele.
Ela espera até que o bebê tenha idade suficiente para comer comida sólida, com idade suficiente para sobreviver sem ela, ou — mais precisamente — que ela consiga convencer a si mesma de que ele pode sobreviver sem ela. Ela não sabe se pode sobreviver sem ele, sem nenhum deles, mas é hora.
Ela os manda embora.
Ela está deitada no chão. Ela está morrendo. Há estranhos aqui, mas ela está sozinha.
Ela está se escondendo no lugar secreto em sua mente, onde ela mantém suas memórias de Jack e Christopher. Ela pensa, talvez soubesse que isso era inevitável, por que mais voltaria para Los Angeles, onde seria tão fácil encontrá-la?
Ela está tão cansada de ficar sozinha. Está cansada de sentir falta do filho e do marido, cansada de não se obrigar a procurá-los. Pelo menos em Los Angeles, ela pode se sentir perto do passado, da família que está perdida para ela. Esta é a única cidade em que já se sentiu em casa, porque foi onde ela encontrou seu lar nos braços de Jack, e em seus momentos mais fracos, foi onde imaginou um lar para eles, Rosemary e Jack e Christopher, uma família de novo, uma vida de conto de fadas no bangalô. Ela plantou um jardim que achava que Christopher gostaria. Encheu seus dias imaginando-os com ela, e agora, morrendo, os imagina ainda com ela.
Talvez ela tenha vencido. Talvez Fal acredite que a linhagem morreu com ela, e Christopher pode estar seguro. Este é o alívio em morrer. Isso, e saber que, se ela estiver errada, se ela falhar, ela será salva de não ter que vê-lo sofrer. Ela nunca o verá morrer por causa de quem é sua mãe. Este é seu último pensamento, enquanto a dor a leva à escuridão. Ela nunca terá que conhecer um mundo sem Christopher...


E então ela é Tessa novamente, e está ao lado de Will, e Jem está lá, e Will está escapulindo, e ela está tentando entender como vai enfrentar um mundo sem ele.


E então Tessa está em uma ponte, o Tâmisa abaixo dela, um milagre ao seu lado. O amor despertou, o amor voltou. Jem, o verdadeiro, real, de carne e sangue James Carstairs, voltou para ela do silêncio e pedra, e Tessa, cujo coração permaneceu tão cheio ao longo dos anos e anos de dias vazios, finalmente não está mais sozinha.


E então ela está de pé junto a um grande mar, montanhas imponentes contra um céu cristalino. As ondas batem alto e límpidas contra a praia, e Jem está ao lado dela, seu rosto tão bonito quanto o mar. Ela sabe que esse momento nunca existiu, mas aqui estão eles, juntos. Eu não posso acreditar que isso é real, ela diz, que você está aqui comigo.
Volte para mim, Jem diz.
Mas ela está bem aqui, com ele.
Fique comigo, diz Jem. Por favor.
Mas aonde ela iria?
Ele está envelhecendo, bem na frente dela, pele flácida, cabelos grisalhos, carne murchando dos ossos, e ela o está perdendo, ela vai vê-lo morrer enquanto assiste todos morrerem, ela terá que aprender tudo de novo para sobreviver. Um mundo sem amor.
Ele diz: Por favor, Tessa, eu te amo.
Ele está desmoronando diante de seus olhos, e ela pensa em Rosemary, suportando tantos anos sem os que mais amava; sabendo que sua família vivia, mas não podia estar com ela; e ela é grata, porque Jem está aqui. Agora. Isso é suficiente, ela diz para Jem. Nós temos agora. Nós temos um ao outro.
Jem diz, Por favor, Tessa, fique comigo, eu te amo, e ela se agarra a ele, e vai continuar segurando, enquanto puder, sem medo de...
Tessa acordou e encontrou Jem ao seu lado, sua mão quente na dela, os olhos fechados, a voz baixa, urgente, cantando, “Fique comigo, eu te amo, fique comigo...”
Aonde eu iria? — ela pergunta fracamente, e seu olhar encontrou o dela, seu rosto se dividiu no sorriso mais bonito que já vira.
Tudo doía, mas a dor era uma lembrança bem-vinda da vida. Os lábios de Jem eram incrivelmente macios contra os dela, com se temesse que ela fosse quebrar. Tessa não reconheceu o quarto em que estava deitada, mas reconheceu a figura encapuzada que deslizou para dentro do quarto por causa do chamado frenético de Jem.
Irmão Enoch ela disse calorosamente. Já faz algum tempo.
Ele tem estado muito preocupado com você, o Irmão do Silêncio falou em sua mente.
Os sonhos febris de Tessa já estavam desaparecendo, mas ela sentia como se vibrasse com amor e desespero. Ela entendeu o alívio do pânico nos olhos de Jem, porque ela tinha vivido dentro de seu próprio terror, assistindo-o morrer de novo e de novo, e mesmo agora, acordada, os sonhos pareciam sólidos demais, muito parecidos com a memória.
Ela sentiu os traços de Rosemary em sua mente, aqueles últimos segundos desesperados da vida dando lugar à morte, quase de bom grado, e entendeu: era mais fácil proteger as pessoas que você ama do que vê-las morrer em seu lugar. Que escolhas horrendas a mortalidade tinha a oferecer.
Essa foi a barganha do diabo do retorno de Jem, a verdade da qual ela tentou escapar.
Ele poderia viver para sempre, mas nunca viver de verdade; nunca amar; ou ela poderia tê-lo de volta, totalmente vivo e completamente mortal, inevitavelmente para perdê-lo para sempre. Não tinha sido escolha dela, é claro. Mas Jem a escolheu. Ela nunca poderia se arrepender disso. O Irmão do Silêncio pediu que Jem saísse e os deixasse a sós por um momento, e Jem, dando um último beijo em sua testa, se despediu. Tessa se apoiou na cama, sua força já voltando.
Você se lembra do que aconteceu? Irmão Enoch perguntou.
Eu lembro que Fal atacou, e então...  havia tantos sonhos, e eles eram tão vividos. E... Tessa fechou os olhos, tentando recuperar os detalhes das entranhas vidas que ela viveu em sua cabeça. Eles não eram todos meus.
Você ficou presa por vários dias dentro da Transformação — disse o Irmão Enoch.
Como isso pôde acontecer? Tessa perguntou, alarmada. Quando ela primeiro experimentou seus poderes, sempre havia medo ligado à Transformação. Deixar-se afundar no corpo e na mente de outra pessoa era se arriscar. Demorou muito tempo para conseguir confiar na Transformação, acreditar que não importava quantas formas ela se forçasse, permanecia, indelevelmente, Tessa Gray. Se essa fé foi deslocada, então como ela poderia se arriscar a mudar novamente? Foi algo sobre a arma?
Não foi a arma que causou isso. A causa está em você.


Você tem certeza de que vai fazer isso? Jem perguntou quando ele e Tessa se aproximaram do Mercado das Sombras de Los Angeles.
Pela centésima vez, sim. Ela girou em uma pirueta muito anti-Tessa, e Jem sorriu, fazendo o seu melhor para disfarçar sua preocupação. O Irmão Enoch lhe atestara a saúde, mas ela estava se esforçando demais para parecer que tudo estava bem. E quanto mais ela tentava, mais Jem suspeitava que não estava.
Ele confiava em Tessa, até os confins da Terra. Se houvesse algo errado, ela diria quando estivesse pronta. Enquanto isso, ele se preocuparia.
Já perdemos tempo suficiente disse Tessa. Rosemary está contando conosco para encontrar seu filho.
Acontece que Jem estava certo em dizer que havia algo estranho no que o barman disse à Tessa sobre como encontrar o pai de Christopher Herondale, o homem que uma vez foi conhecido como Jack Crow.
Ele é exatamente o mesmo pássaro que costumava ser, apenas mudou um pouco o look.
É um enigma explicou Tessa, uma vez que ela sacudiu a neblina de seus sonhos febris. E nem mesmo um particularmente bom. O nome de um pássaro... mudou um pouco o look.
Um rook, gralha em inglês Jem percebeu rapidamente. Isso lhes dava, pelo menos, uma pergunta a fazer; e, dada a propensão de Jack Crow para os sombrios habitantes do Submundo e pequenos crimes, o Mercado das Sombras de Los Angeles parecia o lugar óbvio para perguntar. Mesmo no meio da noite e a quilômetros da costa, o Mercado cheirava a sol e mar. Estava lotado naquela noite, com bruxas bronzeadas vendendo pulseiras de cânhamo encantadas, lobisomens vendendo equipamentos de montanhismo de ferro forjado que prendiam armas a carros de luxo, e estandes de sucos artesanais, orgânicos, que pareciam ter uma combinação de antigas poções místicas e banana.
Garantimos que aumenta os músculos, masculinidade e magnetismo pessoal em 200%? Tessa leu com ceticismo enquanto passava por um vendedor de sucos feiticeiro.
Também uma excelente fonte de vitamina C observou Jem, rindo.
Ambos estavam tentando tanto parecer normal.
Não demorou muito para encontrar alguém que tivesse ouvido falar de um pequeno criminoso com o nome de Rook.
Estão procurando por Johnny Rook? perguntou um lobisomem grisalho, depois cuspiu no chão. Rook aparentemente tinha seu próprio estande no mercado, mas não tinha sido visto naquela noite. Digam a ele que Cassius diz olá, e que se ele tentar me enganar novamente, eu vou arrancar seu rosto com meus dentes.
Nós faremos isso disse Tessa.
Eles tiveram uma resposta semelhante de todos com quem falaram —Johnny Rook, aparentemente, havia aberto uma onda de má vontade por toda a comunidade do Submundo de Los Angeles.
É incrível que ele ainda tenha um rosto para ser arrancado observou Tessa, depois que uma jovem e bonita bruxa explicou detalhadamente a maneira como ela iria desfigurá-lo se alguma vez conseguisse sua tão esperada chance.
Ele não é muito bom nessa coisa de se ocultar, não é? comentou Jem.
Eu não acho que ele queira ser muito bom disse Tessa, com o olhar distante que às vezes ela ficava quando ouvia a voz interior de outra pessoa. Depois de todo esse tempo, todas as identidades, ele volta para casa, faz um nome para si mesmo no Mercado das Sombras; um nome dolorosamente próximo do que Rosemary conhecia por ele? Ele queria que ela viesse encontrá-lo.
Ela voltou para Los Angeles também. Talvez quisesse a mesma coisa.
Tessa suspirou, e nenhum deles disse o óbvio, que se eles apenas se amassem um pouco menos, Rosemary ainda poderia estar viva, e seu filho poderia ter uma melhor chance de permanecer assim.
Eles vagavam pelo Mercado; ninguém sabia onde encontrar Johnny Rook naquela noite, e a maioria parecia encantada com a perspectiva de que ele pudesse ter desaparecido para sempre. Tessa e Jem ouviram sobre a má atitude de Johnny, más práticas de negócios, acobertamentos ruins, mau hábito fornecer informações a quem quer que pedisse, inclusive – o vampiro que se queixava tinha parado para lançar um olhar assassino para Jem – Caçadores de Sombras imundos. Até que finalmente, quando o sol estava nascendo e os últimos vendedores estavam partindo, eles ouviram algo que eles poderiam usar: um endereço.


Mais uma vez, o tráfego estava terrível. Tessa e Jem finalmente chegaram ao bairro certo, apenas para se encontrar circulando pelas ruas sombrias por um período de tempo alarmantemente longo, incapazes de localizar a casa de Rook. Tessa eventualmente percebeu que isso era devido a feitiços de confundir que rodeavam seu destino, a magia cintilando através de algumas últimas explosões de energia enquanto ela se desvanecia. Por que se desvanecendo? Tessa se perguntou com uma sensação de medo. Pelo menos com a deterioração do feitiço significava que eles poderiam encontrar o marido e o filho de Rosemary.
Mas eles não eram os únicos a procurar. Eles chegaram, novamente, tarde demais. A casa era uma ruína de sangue e icor, demônios Mantid causando destruição sangrenta em batalha desesperada com – os olhos de Tessa se arregalaram – Emma Carstairs?
Não havia tempo para fazer perguntas, não com os demônios insetoides enxameando furiosamente em busca de presas de sangue quente. Os Cavaleiros de Mannan nunca teriam enviado demônios para fazer esse trabalho, mas depois do que Tessa tinha aprendido sobre Rook, ela supôs que não fosse surpresa que ele tivesse mais do que um inimigo para se preocupar.
Embora talvez suas preocupações estivessem no fim: o corpo arruinado deitado em uma poça de sangue era certamente de Johnny Rook. Enquanto entrava em ação, cortando uma pata dianteira afiada, espetando uma órbita saliente, ela dispensou um momento de tristeza por Rosemary, que morrera tão desesperadamente na esperança de que seu marido vivesse.
Mas nem tudo estava perdido. Porque lá, milagrosamente vivo apesar do enxame de Mantids, estava o tesouro que Rosemary havia sacrificado para proteger: seu filho. Enquanto Emma e Jem travavam uma batalha feroz contra os demônios restantes, Tessa se aproximou do menino. Ela pensou que o teria reconhecido em qualquer lugar; não apenas das memórias de Rosemary de seu filho quando criança, mas das memórias de Tessa sobre seus filhos e netos, suas memorias de Will. A determinação em seus olhos azuis, a maneira feroz e graciosa como ele se mantinha diante do perigo; não havia dúvida, este era um Herondale.
Ela se apresentou. Ele não disse nada. Ele era tão jovem e se esforçava tanto para parecer corajoso. Ela honrou esse esforço, falando com ele como homem, em vez de uma criança que precisava de seus cuidados.
Levante-se, Christopher.
Ele não se moveu, seu olhar se desviando para o corpo; rapidamente se afastando dele. O jeans do menino estava coberto de sangue, Tessa se perguntou se pertencia ao pai dele.
Meu pai, ele... Sua voz tremeu.
Você deve se lamentar mais tarde Tessa disse a ele. Ele era pelo sangue, se não por treinamento, um guerreiro. Ela conhecia sua força melhor do que ele próprio. Agora você está em grande perigo. Mais dessas coisas podem vir e coisas piores também.
Você é uma Caçadora de Sombras?
Ela se encolheu com desgosto em sua voz.
Eu não sou disse ela. — Mas... Rosemary tentou tanto esconder isso dele. Tinha sacrificado tudo para que ele pudesse viver na ignorância das trevas que o rodeavam. Essa vida estava acabada agora, essa mentira estava morta, e Tessa seria a única a lidar com isso, o último golpe fatal. Mas você é.
Os olhos do garoto se arregalaram. Ela estendeu a mão.
Venha agora. De pé, Christopher Herondale. Nós estamos procurando por você há muito tempo.


Jem olhou para uma paisagem perfeita; cristas brancas em um mar ensolarado, os picos das paliçadas cutucando um céu azul de conto de fadas, e ao lado dele, Tessa Gray, o amor de suas muitas vidas; e tentou descobrir porque se sentia tão desconfortável. Christopher Herondale, ou Kit, como ele preferia ser chamado, estava em segurança sob a proteção do Instituto de Los Angeles. Jem e Tessa não tinham falhado com Rosemary, não inteiramente; eles a perderam, mas salvaram seu filho. Devolveram um Herondale perdido para o mundo dos Caçadores de Sombras, onde, esperançosamente, ele encontraria um novo lar. Ele e Tessa logo se separariam; ela havia sido convocada para o Labirinto Espiral para investigar alguns relatos preocupantes de doença na comunidade de feiticeiros, enquanto Jem ia em busca do corpo de Malcolm Fade e do Volume Negro dos Mortos. Ele tinha a sensação de que o que Fade começara aqui em Los Angeles apenas o início de um perigo maior. Todos esses eram motivos amplos para se sentir desconfortável, mas não era isso.
Era Tessa, que ainda estava se mantendo em algum lugar longe dele, como se houvesse algo que ela não pudesse suportar que ele soubesse.
Este lugar disse Tessa, parecendo perturbada. Jem colocou um braço em volta dos ombros dela, segurando-a perto. Estes pareciam momentos roubados, antes de se voltarem para suas respectivas missões. Ele respirou tentando memorizar a sensação dela, já se preparando para sua ausência. Há algo tão familiar sobre isso.
Mas você nunca esteve aqui antes? ele perguntou.
Ela balançou a cabeça.
Não é... é mais parecido com algo que vi em um sonho.
Eu estava lá com você?
O sorriso de Tessa tinha um traço inconfundível de tristeza.
Você está sempre em meus sonhos.
O que há de errado? disse Jem. É Rosemary? Não posso deixar de sentir que a morte dela está nos meus ombros.
Não! Tessa insistiu. Fizemos tudo que podíamos por ela. Ainda estamos fazendo tudo que podemos; Kit está seguro, no momento, e esperamos que os Cavaleiros de Mannan ainda não tenham ideia de que ele existe. Talvez a Corte Unseelie considere seu trabalho feito.
Talvez, disse Jem, em dúvida. Ambos sabiam que era improvável que terminasse aqui, mas pelo menos compraram algum tempo a Kit. Eu gostaria que pudéssemos fazer mais por ele. Nenhuma criança deveria ver seu pai assassinado.
Tessa pegou a mão dele. Ela sabia exatamente o que Jem estava pensando; não apenas em todos os órfãos espalhados pelo mundo dos Caçadores de Sombras que tinham visto seus pais serem mortos na Guerra Maligna, mas em seus próprios pais, torturados e mortos diante de seus olhos. Jem não havia contado a ninguém além de Tessa e Will todo o horror que suportou nas mãos daquele demônio, e contar a história uma vez foi quase mais do que ele poderia aguentar.
Ele está em boas mãos, assegurou Tessa. Ele tem uma Carstairs ao seu lado. Emma vai ajudá-lo a encontrar uma nova família, como fizemos com Charlotte, Henry e Will.
E um ao outro disse Jem.
E um ao outro.
Não será um substituto para o que ele perdeu, no entanto.
Não. Você nunca pode substituir o que perdeu, não é? disse Tessa. Só pode encontrar um novo amor para preencher o vazio deixado para trás.
Como sempre, a memória de Will estava entre eles, sua ausência era uma presença.
Nós dois aprendemos essa lição muito jovens disse Jem, mas acho que todos aprendem isso eventualmente. Perda é o que significa ser humano.
Tessa começou a dizer alguma coisa e depois começou a chorar. Jem passou os braços em volta dela, segurando-a com força contra os soluços fortes. Alisou seu cabelo, esfregou suas costas, esperou a tempestade passar. A dor era a dor dele, mesmo quando ele não entendia a fonte.
Eu estou aqui ele sussurrou. — Estou com você.
Tessa respirou profundamente, depois encontrou seu olhar.
O que foi? ele perguntou. — Você pode me dizer qualquer coisa.
É...  é você. Ela tocou seu rosto, gentilmente. Você está comigo agora, mas não estará sempre. Isso é o que significa ser humano, como você disse. Eventualmente eu vou te perder. Porque você é mortal, e eu sou... eu.
Tessa... Não havia palavras para dizer o que ele precisava dizer, que seu amor por ela se estendia além do tempo, além da morte, que ele passara muito tempo nos últimos dias imaginando seu próprio mundo sem ela, que mesmo a uma perda inimaginável era possível sobreviver, que se amariam o máximo que pudessem – então, em vez disso, ele a abraçou com força, deixou que ela sentisse seus braços firmes e seguros em volta dela, evidência física: Eu estou aqui.
Por que agora? ele perguntou gentilmente. É algo que o Irmão Enoch falou?
Talvez eu não tenha percebido o quanto me desliguei da humanidade todos esses anos no Labirinto Espiral ela admitiu. Você lutou na guerra, viu tanta violência, tanta morte, mas eu estava me escondendo...
Você estava lutando Jem a corrigiu. Da sua maneira que era tão essencial quanto a minha.
Eu estava lutando. Mas também estava me escondendo. Eu não queria estar totalmente no mundo até que você pudesse estar lá também. E agora, suponho, estou acordando para ser totalmente humana novamente. O que é assustador, especialmente agora.
Tessa, por que agora? ele perguntou novamente, o alarme crescendo. O que o Irmão Enoch disse a ela para puxá-la para essa espiral de pânico?
Tessa pegou a mão dele e apertou-a contra a barriga.
A razão pela qual eu tive tantos problemas na Transformação, para voltar a mim mesma, é que eu não sou apenas eu mesma agora.
Você quer dizer...? — ele estava quase com medo de ter esperança.
Eu estou grávida.
Sério? Ele se sentiu como um fio vivo, a ideia disso, um bebê, acendendo suas sinapses em chamas. Ele nunca se permitira esperar por isso, porque sabia melhor do que ninguém quão difícil tinha sido para Tessa assistir seus filhos envelhecerem quando ela não envelhecia. Ela fora uma mãe maravilhosa, amara ser mãe, mas sabia o que lhe custara. Ele assumiu que ela nunca iria querer suportar aquilo novamente.
Sério. Fraldas, carrinhos de bebê, encontros com Magnus e Alec, assumindo que podemos persuadir Magnus a esperar alguns anos antes de começar a treinar nosso filho para explodir tudo e todas as coisas. Então... O que você acha?
Jem sentiu como se seu coração fosse explodir.
Eu estou feliz. Estou... feliz não começa nem a descrever o que sinto. Mas você... Ele examinou a expressão dela cuidadosamente. Ele conhecia o rosto dela melhor do que o próprio, podia lê-lo com um dos livros amados de Tessa, e ele o leu agora: terror, saudade, tristeza e, acima de tudo, alegria. Você está feliz também?
Eu não pensei que poderia me sentir assim de novo disse Tessa. Houve uma época em que pensei que não havia mais alegria para mim. E agora... Seu sorriso brilhava como o sol. Por que você parece tão surpreso?
Ele não sabia como dizê-lo sem machucá-la, tornando a dor novamente, lembrando-a de sua perda; mas é claro, ela podia ler o rosto dele tão bem quanto ele podia ler o dela.
Sim. Eu posso perdê-los um dia. Como eu vou te perder. Eu não suporto pensar nisso.
Tessa... Mas nós suportamos tanto que parece impensável. O único fardo verdadeiramente insuportável é viver sem amor. Você me ensinou isso. Ela entrelaçou os dedos nos dele, apertou-a com força. Ela era tão inimaginavelmente forte. Você e Will.
Jem segurou o rosto dela com as mãos, sentiu a pele quente contra as palmas das mãos e sentiu-se novamente agradecido pela vida que lhe havia sido devolvida.
Estamos tendo um filho?
Os olhos de Tessa brilharam. As lágrimas tinham parado e, no rastro delas, havia uma determinação. Jem sabia o que custou a ela perder Will, então perder a família que ela construiu com ele. Jem havia perdido um pedaço de si mesmo quando seu parabatai morreu; Will havia deixado para trás um vazio que nada poderia preencher. Todos esses anos depois, ainda havia dor. Mas a dor era evidência de amor, era um lembrete de Will.
Era mais fácil não sentir. Era mais seguro não amar. Era possível tornar-se silencioso e ainda como pedra, isolar-se do mundo e de suas perdas, esvaziar o coração de alguém. Era possível, mas não era humano.
Não valia a pena perder a chance de amar. Ele havia aprendido isso na Irmandade do Silêncio e, antes disso, com Tessa. E antes disso, claro, com Will.
Os dois haviam tentado tanto se esconder da dor da perda futura, ficar solitários, a salvo dos perigos da conexão. Eles falharam tão lindamente.
Estamos tendo um filho Tessa repetiu. Espero que você esteja pronto para desistir do sono por alguns anos.
Felizmente eu tenho muita prática nisso — ele lembrou. — Menos quando se trata de fraldas.
Ouvi dizer que elas melhoraram muito desde a última vez que precisei delas — comentou Tessa. Teremos que descobrir juntos. Tudo isso.
Você tem certeza? Quer trazer tudo isso para si mais uma vez?
Ela sorriu como a Madonna de Raphael.
As fraldas, as noites sem dormir, o choro sem fim, o amor que você nunca imaginou ser possível, como se seu coração estivesse vivendo do lado de fora do seu corpo? O caos e o medo e o orgulho e a chance de colocar alguém na cama e ler para que durma? Fazer tudo isso com você? Eu não poderia ter mais certeza.
Ele a tomou em seus braços, imaginando a vida crescendo dentro dela e o futuro que eles teriam juntos, uma família, mais amor para preencher as ausências deixadas por aqueles que perderam, mais amor do que qualquer um deles jamais imaginou ainda ser possível.
O futuro era tão precário, sombreado por um perigo iminente não totalmente compreendido, e Jem se perguntou em que tipo de mundo seu filho nasceria. Ele pensou em todo o sangue que havia sido derramado nos últimos anos, o crescente sentimento entre os Caçadores de Sombras que ele conhecia de que algo sombrio estava surgindo, que essa Paz Fria após a guerra poderia ser apenas a calmaria no olho do furacão, aqueles momentos silenciosos e parados em que era possível iludir-se imaginando que o pior passou.
Ele e Tessa estavam vivos há muito tempo para se iludirem, e ele pensou sobre o que poderia acontecer com uma criança nascida no olho de uma tempestade dessas. Ele pensou em Tessa, sua recusa em deixar perda após perda endurecê-la contra o amor, sua recusa em se esconder da brutalidade do mundo mortal, sua determinação em lutar, aguentar firme.
Ela também era uma criança nascida de tempestades, ele pensou, assim como ele, assim como Will.
Todos os três se ergueram com paixão através de suas lutas para encontrar a felicidade; e sem luta, a felicidade teria sido tão grande?
Ele fechou os olhos e deu um beijo no cabelo de Tessa. Atrás de suas pálpebras, ele não viu a escuridão, mas a luz de uma manhã londrina e Will ali, sorrindo para ele. Uma nova alma feita de você e Tessa, disse Will. Mal posso esperar para conhecer tal perfeição.
Você o vê também? Tessa sussurrou.
Eu o vejo — disse Jem, e a abraçou ainda mais firmemente, a nova vida que eles tinham criado juntos entre eles.

5 comentários:

  1. Toda a felicidade e amor para o meu husbando jem, que merece o mundo

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  2. Jessa não tem um defeito, amo o meu casal que é a coisa mais linda desse mundo e agora vai por um serzinho maravilhoso nesse mundo tambpem. ♥

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  3. Não tenho nem palavras pra me expressar!!! 😍😍

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Boa leitura, E SEM SPOILER!