1 de março de 2019

parte um

daniel

Adolescente aceita o destino, concorda em virar médico; estereótipo.
É culpa do Charlie se meu verão (e agora o outono) se tornou uma sequência de acontecimentos absurdos. Charles Jae Won Bae, vulgo Charlie, meu irmão mais velho, primogênito de um primogênito, surpreendeu meus pais (e os amigos deles, e também toda a fofoqueira comunidade coreana de Flushing, Nova York) ao ser expulso da Universidade Harvard (a Melhor Escola, disse minha mãe quando a carta de aceitação chegou). Agora ele foi expulso da Melhor Escola, e durante o verão inteiro minha mãe ficou carrancuda, sem acreditar e sem entender direito.
Por que suas notas tão ruins? Eles expulsa você? Por que eles expulsa você? Por que eles não faz você ficar e estudar mais?
Meu pai diz: Não expulsa. Eles suspende. Não é igual expulsar.
Charlie resmunga: É temporário, só por dois semestres.
Sob esse tiroteio impiedoso, feito de confusão, vergonha e desapontamento dos meus pais, eu quase me sinto mal pelo Charlie. Quase.


natasha

MINHA MÃE DIZ QUE É HORA de eu desistir, que o que estou fazendo é inútil. Está chateada, por isso seu sotaque é mais forte do que nunca e cada declaração é uma pergunta.
— Não acha que é hora de desistir, Tasha? Não acha que o que está fazendo é inútil?
Ela arrasta a segunda sílaba de inútil por um segundo a mais que o necessário. Meu pai não diz nada. Está mudo de raiva ou impotência. Nunca sei direito o quê. A carranca é tão profunda e completa que fica difícil imaginar o rosto com outra expressão. Se fosse há alguns meses, eu ficaria triste por vê-lo assim, mas agora não me importo nem um pouco. Ele é o motivo de estarmos nessa confusão.
Peter, meu irmão de 9 anos, é o único feliz com essa reviravolta nos acontecimentos. Neste momento está arrumando a mala e ouvindo “No Woman, No Cry”, do Bob Marley. “Música das antigas para arrumar as malas”, ele disse.
Apesar de ter nascido aqui nos Estados Unidos, Peter fala que quer morar na Jamaica. Sempre foi muito tímido e tem dificuldade para fazer amigos. Deve imaginar que a Jamaica vai ser um paraíso e que, de algum modo, lá as coisas vão melhorar para ele.
Nós quatro estamos na sala do nosso apartamento de um quarto. É nela que Peter e eu dormimos. Tem dois pequenos sofás-camas que abrimos à noite e uma cortina de um azul forte no meio, para dar privacidade. Agora a cortina está aberta, de modo que dá para ver as duas metades ao mesmo tempo.
É bem fácil adivinhar qual de nós quer ir e qual quer ficar. Meu lado ainda parece bem ocupado. Meus livros estão na pequena estante da IKEA. Minha foto favorita, em que apareço com minha melhor amiga, Bev, está sobre a escrivaninha. Nós duas estamos usando óculos de proteção e fazendo biquinho sensual para a câmera no laboratório de física. Os óculos foram ideia minha. Os biquinhos, dela. Não tirei uma única peça de roupa da minha cômoda. Nem arranquei meu pôster com o mapa estelar da Nasa. Ele é enorme — na verdade, são oito pôsteres que eu juntei com fita adesiva — e mostra todas as estrelas principais, as constelações e as partes da Via Láctea visíveis do hemisfério norte. Tem até instruções sobre como encontrar a estrela Polar e como se orientar pelas estrelas, caso a gente se perca. Os tubos que comprei para guardá-lo estão encostados na parede, ainda fechados.
No lado do Peter praticamente todas as superfícies estão vazias, a maioria de suas posses já foi colocada em caixas e malas.
Minha mãe está certa, claro: o que estou fazendo é inútil. Mesmo assim, pego meus fones de ouvido, o livro de física e uns quadrinhos. Estou com tempo livre, então vou fazer o dever de casa e ler.
Peter balança a cabeça na minha direção.
— Por que você vai levar isso? — pergunta, indicando o livro didático. — Nós vamos embora, Tasha. Você não precisa fazer o dever de casa.
Peter acabou de descobrir o poder do sarcasmo. Usa sempre que tem chance.
Não me dou o trabalho de responder, só coloco os fones e vou para a porta.
— Volto logo — digo à minha mãe.
Ela faz cara de desaprovação e se vira. Eu me lembro de que ela não está chateada comigo. Tasha, não é com você que estou chateada, sabe? é uma coisa que ela diz um bocado ultimamente. Vou ao prédio do Serviço de Imigração e Cidadania dos Estados Unidos (USCIS, na sigla em inglês), no centro de Manhattan, ver se alguém de lá pode me ajudar. Somos imigrantes ilegais e vamos ser deportados esta noite.
Hoje é minha última chance de tentar convencer alguém — ou o destino — a me ajudar a descobrir um modo de ficar nos Estados Unidos.
Só para esclarecer: não acredito no destino. Mas estou desesperada.


daniel

OS MOTIVOS QUE ME FAZEM ACHAR que Charles Jae Won Bae, vulgo Charlie, é um Cretino (não necessariamente nesta ordem):
1. Antes desse fracasso épico e espetacular (e completamente delicioso) em Harvard, ele era implacavelmente bom em tudo. Ninguém deveria ser bom em tudo. Matemática, inglês, biologia, química, história e esportes. Não é decente ser bom em tudo. No máximo, em três ou quatro coisas. Até mesmo isso já é forçar os limites do bom gosto.
2. Ele é o tipo de homem que os outros homens admiram, ou seja: é um cretino em boa parte do tempo. Na maior parte do tempo. O tempo todo.
3. É alto, com o maxilar marcado, esculpido e todos os outros adjetivos usados para os maxilares em todos os livros românticos. As garotas (todas as garotas, não só as do grupo de estudo da Bíblia coreana) dizem que os lábios dele são beijáveis.
4. Tudo isso seria ótimo — uma quantidade embaraçosa de pontos positivos, sem dúvida; um número um pouquinho grande demais de tesouros para serem concedidos a um único ser humano, certamente — se ele fosse legal. Mas não é. Charles Jae Won Bae não é legal. É metido a besta e, o pior de tudo, adora fazer bullying. É um cretino. Inveterado.
5. Ele não gosta de mim. E não gosta de mim há anos.


natasha

PONHO O CELULAR, OS FONES DE OUVIDO e a mochila na caixa cinza antes de passar pelo detector de metais. A guarda — o crachá diz que o nome dela é Irene — impede minha caixa de viajar pela esteira rolante, como fez todos os dias anteriores.
Olho para ela e não sorrio.
Ela olha para a caixa, vira meu telefone e examina a capinha, como fez todos os dias. A capinha é a ilustração de um disco do Nirvana, chamado Nevermind. Todo dia seus dedos se demoram no bebê da capa e todo dia detesto quando ela passa a mão nele. O vocalista do Nirvana era o Kurt Cobain. Sua voz, a corrosão que existe nela, o modo como não é perfeita, o modo como a gente sente tudo que ele já sentiu, o jeito como a voz se estica tão esgarçada que parece que ela vai se romper e não se rompe, foi a única coisa que me manteve sã desde o início deste pesadelo. Seu sofrimento é muito mais desesperançado do que o meu.
Ela está demorando à beça e não posso perder a hora marcada para a entrevista. Penso em dizer alguma coisa, mas não quero deixá-la com raiva. Provavelmente ela odeia o trabalho. Não quero dar motivo para ela me atrasar mais ainda. Ela me olha de novo, mas não dá qualquer sinal de ter me reconhecido, apesar de eu ter vindo aqui todos os dias na última semana. Para ela sou apenas mais um rosto anônimo, outra requerente, mais alguém que quer alguma coisa dos Estados Unidos.


irene
Uma história

NATASHA NÃO ESTÁ TOTALMENTE certa em relação a Irene. Irene adora seu trabalho. Mais do que adora: precisa dele. É praticamente o único tipo de contato humano que ela tem. É a única coisa que afasta a solidão total e desesperada.
Cada interação com esses requerentes salva pelo menos um pouquinho sua vida. A princípio, eles mal a notam. Jogam os itens na caixa e observam atentamente enquanto os objetos passam pela máquina. A maioria suspeita de que Irene vai embolsar o dinheiro trocado, uma caneta, chaves ou outra coisa qualquer. Numa situação normal o requerente jamais a notaria, mas ela se esforça para que isso aconteça. É sua única ligação com o mundo.
Por isso ela puxa cada caixa com uma única mão enluvada. A demora é longa o suficiente para que o requerente seja obrigado a levantar os olhos e encará-la. Para que veja, de fato, a pessoa à sua frente. A maioria murmura um relutante bom-dia, e as palavras a preenchem um pouquinho. Outros perguntam como ela está, e ela se expande um pouco mais.
Irene jamais responde. Não sabe como. Em vez disso, olha de novo para a caixa e observa cada objeto procurando pistas, algum pedaço de informação para guardar e examinar mais tarde.
Ela gostaria, mais do que tudo, de poder tirar as luvas e tocar as chaves, as carteiras e o dinheiro trocado. Gostaria de poder deslizar a ponta dos dedos pela superfície daqueles pertences, memorizar texturas e deixar que os artefatos da vida dos outros penetrassem nela. Mas não pode atrasar demais a fila. Acaba mandando a caixa e o dono para longe.
A noite passada foi particularmente ruim. A boca faminta de sua solidão queria engoli-la inteira. Nesta manhã ela precisa de contato para salvar sua vida. Com muita dificuldade, desvia o olhar de uma caixa que se afasta e se vira para o próximo requerente.
É a garota que apareceu aqui todos os dias desta semana. Não deve ter mais de 17 anos. Como todo mundo, ela não levanta o olhar da caixa. Mantém os olhos focalizados nela, como se não suportasse ficar separada dos fones de ouvido pink e do celular. Irene encosta a mão enluvada na lateral da caixa para impedir que ela deslize para longe de sua vida, chegando à esteira rolante.
A garota levanta os olhos e Irene se infla. Ela parece tão desesperada quanto Irene. Irene quase sorri para ela. Em sua mente, faz exatamente isso.
Bem-vinda de volta. É um prazer ver você, diz Irene, mas só dentro de sua mente.
Na realidade, já está baixando os olhos, examinando a capinha do telefone da garota. A foto é de um bebê branco e gordinho completamente submerso em água azul-clara. O bebê está com as pernas e os braços abertos e mais parece voar do que nadar. A boca e os olhos estão abertos. Na frente dele uma nota de dólar pende de um anzol. A foto não é apropriada, e toda vez que Irene olha para ela sente necessidade de respirar mais profundamente, como se fosse ela que estivesse embaixo d’água.
Quer encontrar um motivo para confiscar o celular, mas não existe nenhum.


daniel

SEI QUAL FOI O MOMENTO EXATO em que Charlie parou de gostar de mim.
Foi no verão em que fiz 6 anos e ele, 8. Ele estava em sua bicicleta nova e brilhante (vermelha, de dez marchas, maneiríssima) com seus amigos novos e brilhantes (brancos, de 10 anos, maneiríssimos). Apesar das várias dicas durante o verão inteiro, eu não tinha entendido de verdade que havia sido rebaixado a Irmão Mais Novo Chato.
Naquele dia, ele e seus amigos saíram sem mim. Fui atrás por um monte de quarteirões, gritando “Charlie”, convencido de que ele se esquecera de me chamar. Pedalei tão depressa que me cansei (garotos de 6 anos andando de bicicleta não se cansam facilmente; isso mostra quanto os persegui). Por que não desisti, simplesmente? Claro que ele podia me ouvir gritando.
Até que ele parou e desceu da bicicleta. Jogou-a no chão — para que usar o descanso? — e ficou ali, parado, esperando que eu chegasse. Dava para ver que estava com raiva. Ele chutou terra na bicicleta para garantir que todo mundo percebesse isso claramente.
— Hyung — comecei, usando a palavra que os irmãos mais novos usam para os mais velhos.
Soube que foi um grande erro assim que falei. O rosto inteiro dele ficou vermelho: bochechas, nariz, as pontas das orelhas, tudo. Ele estava praticamente pegando fogo. Seus olhos se viraram para o ponto de onde os novos amigos nos espiavam como se estivéssemos na TV.
— Do que ele chamou você? — perguntou o mais baixo.
— É algum tipo de código coreano secreto? — completou o mais alto.
Charlie ignorou os dois e partiu para cima de mim.
— O que você está fazendo aqui?
Ele estava tão irritado que sua voz falhou um pouco.
Eu não tinha o que dizer, mas, na verdade, ele não queria uma resposta. Queria era bater em mim. Vi isso no modo como ele fechava e abria os punhos. Vi como ele tentava calcular a encrenca em que se meteria se me batesse bem ali no parque, na frente de uns garotos que ele mal conhecia.
— Por que não arranja uns amigos e para de ficar atrás de mim que nem um bebezinho? — disse Charlie em vez disso.
Deveria ter me batido.
Ele pegou a bicicleta no chão e se estufou com tanta raiva que achei que ele ia explodir, e aí eu teria que contar a mamãe que seu filho mais velho e mais perfeito tinha explodido.
— Meu nome é Charles — disse àqueles garotos, desafiando-os a falarem mais uma palavra. — Vocês vêm ou não?
Não esperou por eles nem olhou para trás para ver se o acompanhavam. E eles o seguiram em direção ao parque, ao verão e ao ensino médio, como tantas outras pessoas o seguiriam. De algum modo eu tinha transformado meu irmão num rei.
Nunca mais chamei Charlie de hyung.


charles jae won bae
Uma história futura

DANIEL ESTÁ CERTO EM RELAÇÃO A CHARLES. Ele é um completo idiota.
Algumas pessoas amadurecem e melhoram o caráter, mas Charles não fará isso. Vai se acomodar dentro dela, na pele que sempre será sua.
Mas, antes disso, antes de virar político e ser bem casado, antes de mudar o nome para Charles Bay, antes de trair sua boa esposa e seus eleitores em todas as oportunidades, antes de ter muito dinheiro e sucesso, antes de conseguir absolutamente tudo que quer, ele vai fazer uma coisa boa e altruísta pelo irmão.
Essa vai ser a última coisa boa e altruísta que ele fará na vida.


família
Uma história de nomes

QUANDO MIN SOO SE APAIXONOU por Dae Hyun, não esperava que o amor os levasse da Coreia do Sul para os Estados Unidos. Mas Dae Hyun havia sido pobre a vida inteira. Tinha um primo que estava se dando bem na cidade de Nova York. O primo prometeu ajudar.
Para a maioria dos imigrantes, mudar para um país novo é um ato de fé. Mesmo que você tenha ouvido histórias sobre segurança, oportunidade e prosperidade, ainda assim é um grande salto se afastar de sua língua, de seu povo e de seu país. De suas raízes. E se as histórias não fossem verdadeiras? E se você não conseguisse se adaptar? E se não fosse desejado no país novo?
No fim, apenas algumas histórias eram verdadeiras. Como todos os imigrantes, Min Soo e Dae Hyun se adaptaram tanto quanto possível. Evitavam as pessoas e os lugares que não os desejavam. O primo de Dae Hyun ajudou e eles prosperaram. A fé recompensou.
Alguns anos depois, quando Min Soo descobriu que estava grávida, seu primeiro pensamento foi sobre qual nome dariam ao filho. Tinha a sensação de que nos Estados Unidos os nomes não significavam nada, diferentemente do que acontecia na Coreia. Na Coreia, o nome de família vinha primeiro e contava toda a história de sua ancestralidade. Nos Estados Unidos, o nome de família é chamado de último nome. Dae Hyun dizia que isso provava que os americanos acham que o indivíduo é mais importante do que a família.
Min Soo se torturou com a escolha do nome pessoal, que os americanos chamam de primeiro nome. Será que seu filho deveria ter um nome americano, algo fácil para os professores e colegas pronunciarem? Será que eles deveriam se ater à tradição e escolher dois caracteres chineses para formar um nome pessoal de duas sílabas?
Nomes são coisas poderosas. Servem como marcadores de identidade e uma espécie de mapa, localizando a pessoa no tempo e na geografia. Mais do que isso, podem ser uma bússola. No fim das contas, Min Soo escolheu um meio-termo. Deu ao filho um nome americano seguido de um nome pessoal coreano seguido do nome da família. Chamou-o de Charles Jae Won Bae. Chamou o segundo filho de Daniel Jae Ho Bae.
Por fim, escolheu as duas coisas. Coreano e americano. Americano e coreano.
Para que eles soubessem de onde vinham.
Para que soubessem para onde iam.


natasha

ESTOU ATRASADA. Entro na sala de espera e vou até a recepcionista. Ela balança a cabeça para mim, como se já tivesse visto aquela cena. Todo mundo aqui já viu tudo antes, e eles realmente não se importam que tudo seja novo para você.
— Você terá que ligar para a linha principal do USCIS e marcar outra entrevista.
— Não tenho tempo para isso.
Explico sobre a guarda, Irene, e sua estranheza. Falo em voz baixa e razoável. Ela dá de ombros e baixa os olhos. Estou dispensada. Em qualquer outra ocasião eu cederia.
— Por favor, ligue para ela. Ligue para Karen Whitney. Ela disse para eu voltar.
— Sua entrevista era às oito horas. Agora são oito e cinco. Ela está falando com outro requerente.
— Por favor, não é minha culpa se estou atrasada. Ela me disse...
O rosto da mulher endurece. Não importa o que eu diga, ela não vai se comover.
— A Sra. Whitney já está com outro requerente. — Ela fala isso como se o inglês não fosse minha primeira língua.
— Ligue para ela — exijo.
Meu tom de voz é alto e pareço histérica. Todos os outros requerentes, até os que não falam inglês, estão me olhando. O desespero se traduz em qualquer língua.
A recepcionista balança a cabeça na direção de um segurança parado junto à porta. Antes que ele possa me alcançar, a porta que dá para as salas de reunião se abre. Um homem negro muito alto e magro me chama. Ele faz um sinal para a recepcionista.
— Tudo bem, Mary. Eu falo com ela.
Passo rapidamente pela porta, antes que ele mude de ideia. Ele não me olha, só se vira e vai andando por uma série de corredores. Acompanho em silêncio até que ele para na frente da sala de Karen Whitney.
— Espere aqui.
O homem só passa alguns segundos lá dentro, mas quando volta está segurando uma pasta vermelha: a minha.
Andamos por outro corredor até chegarmos, finalmente, à sua sala.
— Meu nome é Lester Barnes — apresenta-se. — Sente-se.
— Eu venho...
Ele levanta uma das mãos para me calar.
— Tudo o que preciso saber está nesta pasta. — Ele belisca o canto da pasta e a sacode para mim. — Faça um favor a você mesma e fique quieta enquanto eu leio.
A mesa é tão arrumada que dá para ver que ele se orgulha disso. Tem um conjunto de acessórios prateados: porta-canetas, bandejas para correspondência e até um porta-cartões de visita com LRB gravado. Quem ainda usa cartões de visita? Estendo a mão, pego um e enfio no bolso.
O armário alto atrás dele é um mar de pilhas de pastas separadas por cor. Cada pasta guarda a vida de alguém. Será que as cores são tão óbvias quanto imagino? A minha é Vermelho Rejeição.
Depois de alguns minutos ele me olha.
— Por que você está aqui?
— Karen... A Sra. Whitney disse para eu voltar. Ela foi gentil comigo. Disse que talvez houvesse alguma coisa.
— Karen é nova. — Ele diz isso como se me explicasse algo, mas não sei o que é. — A última apelação da sua família foi rejeitada. A deportação está mantida, Srta. Kingsley. Você e sua família terão de partir esta noite às dez horas.
Ele fecha a pasta e empurra uma caixa de lenços de papel para mim, antecipando minhas lágrimas. Mas não sou chorona.
Não chorei no dia em que meu pai falou pela primeira vez sobre a ordem de deportação nem quando as apelações foram rejeitadas.
Não chorei no inverno passado ao descobrir que Rob, meu ex-namorado, estava me traindo.
Nem chorei ontem quando Bev e eu tivemos nossa despedida oficial. Nós duas sabíamos havia meses que aquele momento ia chegar. Não chorei, mas, mesmo assim... não foi fácil. Ela teria vindo comigo hoje, mas está na Califórnia com a família, conhecendo Berkeley e algumas outras faculdades do estado.
— Talvez você ainda esteja aqui quando eu voltar — insistiu Bev depois do nosso milésimo abraço. — Talvez tudo dê certo.
Bev sempre foi implacavelmente otimista, mesmo diante de situações muito difíceis. Ela é o tipo de garota que compra bilhetes de loteria. Eu sou o tipo que zomba de pessoas que compram bilhetes de loteria.
Pois é. Definitivamente, não vou começar a chorar agora. Fico de pé, pego minhas coisas e vou para a porta. Preciso de toda a energia para continuar não sendo chorona. Na minha mente, ouço a voz da minha mãe.
Não deixe seu orgulho dominar você, Tasha.
Dou meia-volta.
— Não existe mesmo nada que o senhor possa fazer para me ajudar? Preciso mesmo ir embora?
Falo isso tão baixo que mal escuto. O Sr. Barnes não tem dificuldade para ouvir. Ouvir vozes baixas e sofridas faz parte de seu trabalho.
Ele tamborila na pasta fechada.
— Seu pai foi apanhado dirigindo embriagado...
— Isso é problema dele. Por que eu preciso pagar pelo erro dele?
Meu pai. Sua única noite de fama o levou a ser apanhado por dirigir bêbado, o que nos levou a ser descobertos e me levou a perder o único lugar que chamo de lar.
— Ainda assim, vocês estão aqui ilegalmente. — Mas a voz dele não está tão dura quanto antes.
Confirmo com a cabeça, mas não digo nada, porque agora vou chorar mesmo. Ponho os fones de ouvido e me encaminho de novo para a porta.
— Já estive no seu país. Já estive na Jamaica. — Ele está sorrindo com a lembrança da viagem. — Foi um período ótimo. Tudo lá é irie, cara. Você vai ficar bem.
Os psiquiatras dizem para a gente não guardar os sentimentos porque eles acabam explodindo. Não estão errados. Venho sentindo raiva há meses. Parece que estou com raiva desde o início dos tempos. Com raiva do meu pai. Com raiva do Rob, que na semana passada disse que nós deveríamos ser amigos apesar de “tudo”, isto é, apesar de ele ter me traído.
Nem Bev escapou da minha raiva. Durante todo o outono ela ficou preocupada com a faculdade a que iria se candidatar, baseada naquela a que seu namorado — Derrick — está se candidatando. Ela vive checando o tempo de deslocamento entre diferentes faculdades. Será que os relacionamentos a distância funcionam?, pergunta dia sim, dia não. Na última vez que perguntou, eu disse que ela talvez não devesse basear todo o futuro em seu namorado atual. Ela não recebeu isso bem. Bev acha que os dois vão ficar juntos para sempre. Eu acho que vão durar até a formatura do ensino médio. Talvez até o verão. Tive que fazer o dever de física para ela durante semanas, para compensar.
E agora um homem que provavelmente não passou mais de uma semana na Jamaica está dizendo que tudo vai ficar irie.
Tiro os fones de ouvido.
— Aonde o senhor foi? — pergunto.
— Negril. Um lugar muito bom.
— Saiu da área do hotel?
— Eu quis, mas minha...
— Mas sua mulher não quis porque ficou com medo, certo? O guia turístico disse que era melhor permanecer na área do balneário.
Eu me sento de novo.
Ele pousa o queixo sobre as mãos fechadas. Pela primeira vez desde o início da conversa ele não está no comando.
— Ela estava preocupada com a segurança? — Ponho aspas no ar em volta de segurança, como se isso não fosse algo digno de preocupação. — Ou talvez ela simplesmente não quisesse arruinar o clima das férias vendo como todo mundo é pobre de verdade.
A raiva que guardei sobe da barriga para a garganta.
— O senhor ouviu Bob Marley, um barman lhe arranjou um pouco de maconha e alguém disse qual é o significado de irie, e o senhor acha que sabe de alguma coisa. O senhor viu um bar temático, uma praia e um quarto de hotel. Isso não é um país. É um balneário.
Ele levanta as mãos como se estivesse se defendendo, como se estivesse tentando empurrar as palavras no ar, de volta para mim.
É, estou sendo uma pessoa horrível.
Não, não me importo.
— Não diga que vou ficar bem. Eu não conheço aquele lugar. Estou aqui desde os 8 anos. Não conheço ninguém na Jamaica. Não tenho sotaque. Não conheço minha família de lá, pelo menos não como a gente deve conhecer a família. Estou no último ano do colégio. E o baile de formatura, a cerimônia e meus amigos?
Quero me preocupar com as mesmas coisas idiotas com as quais eles estão se preocupando. Até comecei a preparar minha inscrição para o Brooklyn College. Minha mãe economizou durante dois anos para viajar para a Flórida e me comprar um cartão do seguro social “bom”. Um cartão “bom” é um que tem números roubados impressos, em vez de números falsos. O homem que o vendeu a ela disse que os mais baratos, com números fajutos, não passam nas verificações sobre o passado da pessoa e nas inscrições para faculdades. Com o cartão posso me candidatar a um auxílio financeiro. Se eu conseguir também uma bolsa, posso até entrar para a SUNY Binghamton e outras faculdades no interior do estado.
— E a faculdade? — pergunto, agora chorando.
Minhas lágrimas são incontroláveis. Esperaram muito tempo para cair.
O Sr. Barnes empurra a caixa de lenços de papel para perto de mim. Pego uns seis ou sete, uso e depois pego mais seis ou sete. Junto minhas coisas de novo.
— O senhor tem alguma ideia de como é não se encaixar em lugar nenhum? — De novo falo baixo demais para ser ouvida, e de novo ele escuta.
Estou me encaminhando para a porta, ponho a mão na maçaneta quando ele diz:
— Srta. Kingsley. Espere.


irie
Uma história etimológica

TALVEZ VOCÊ JÁ TENHA OUVIDO a palavra irie. Talvez tenha viajado à Jamaica e saiba que ela tem algumas raízes no dialeto jamaicano, o patois. Ou talvez saiba que tem outras raízes na religião rastafári. O famoso cantor de reggae Bob Marley era rastafári e ajudou a espalhar a palavra para além das fronteiras do país. De modo que, quando ouve a palavra, talvez você tenha alguma ideia da história da religião.
Talvez você saiba que o rastafári é uma pequena ramificação das três principais religiões abraâmicas: o cristianismo, o islamismo e o judaísmo. Que as religiões abraâmicas são monoteístas e se baseiam em diferentes personificações de Abraão. Talvez na palavra você ouça ecos da Jamaica da década de 1930, quando o rastafári foi inventado. Ou talvez ouça ecos de seu líder espiritual, Haile Selassie I, imperador da Etiópia de 1930 a 1974.
E assim, quando ouve a palavra, você ouve o antigo sentido espiritual. Tudo está bem entre você e seu Deus, e portanto entre você e o mundo. Estar irie é estar num lugar espiritual elevado e contente. Na palavra você ouve a invenção da própria religião.
Ou talvez você não conheça a história.
Você não sabe nada sobre Deus, espírito ou língua. Conhece a definição atual dos dicionários coloquiais. Estar irie é simplesmente estar bem.
Às vezes, quando você procura uma palavra no dicionário, vê algumas definições indicadas como obsoletas. Natasha pensa nisso com frequência, em como a língua pode ser escorregadia. Uma palavra pode começar significando uma coisa e acabar significando outra. Será que isso decorre do excesso de uso e do excesso de simplificação, igual ao modo como irie é ensinado aos turistas nos balneários jamaicanos? Será por emprego incorreto, como o pai de Natasha vem fazendo ultimamente?
Antes do aviso de deportação ele se recusava a falar com sotaque jamaicano ou a usar gírias jamaicanas. Agora que a família está sendo obrigada a voltar, tem usado um vocabulário novo, como um turista estudando expressões estrangeiras para uma viagem. Tá tudo irie, cara, diz aos caixas nas mercearias quando lhe fazem a pergunta padrão: Como vai? Ele responde irie para o carteiro que entrega a correspondência e pergunta a mesma coisa de volta. Seu sorriso é largo demais. Ele enfia as mãos nos bolsos, joga os ombros para trás e age como se o mundo tivesse derramado sobre sua cabeça mais dons do que ele pode, de modo razoável, aceitar. Sua atuação é tão ruim que Natasha tem certeza de que todo mundo vai enxergar isso, mas ninguém enxerga. Ele faz com que as pessoas se sintam bem momentaneamente, como se parte de sua sorte evidente fosse passar para elas.
Natasha pensa que as palavras deveriam se comportar mais como unidades de medida. Um metro é um metro. As palavras não deveriam ter permissão de mudar de significado. Quem decide que o significado mudou, e quando? Será que existe um tempo intermediário em que a palavra significa as duas coisas? Ou um tempo em que a palavra não significa absolutamente nada?
Ela sabe que, se tiver que deixar os Estados Unidos, todas as suas amizades, até mesmo com Bev, vão desaparecer. Claro, no início as duas tentarão manter contato, mas não será o mesmo que se encontrarem todo dia. Não irão juntas ao baile de formatura, com seus acompanhantes. Não vão comemorar as cartas de aceitação na faculdade nem chorar com as de rejeição. Não haverá fotos de formatura idiotas. Em vez disso, o tempo vai passar e a distância vai parecer maior a cada dia. Bev estará nos Estados Unidos fazendo coisas de americanos. Natasha estará na Jamaica sentindo-se estrangeira no país em que nasceu.
Quanto tempo até que os amigos se esqueçam dela? Quanto tempo até falar com sotaque jamaicano? Quanto tempo até esquecer que já esteve nos Estados Unidos?
Um dia, no futuro, o significado de irie vai mudar de novo e ela vai se tornar apenas mais uma palavra com uma lista de significados arcaicos ou obsoletos. Alguém vai perguntar Tá tudo irie?, num sotaque perfeitamente americano, e você vai responder Tudo irie, querendo dizer que está tudo bem, mas realmente sem vontade de falar a respeito. Nenhum dos dois vai saber sobre Abraão, a religião rastafári ou o dialeto jamaicano. A palavra estará desprovida de qualquer história.


daniel

Adolescente preso em um turbilhão de expectativas e desapontamento dos pais; não espera ser salvo.
O lado bom de ter um irmão mais velho cretino e cheio de conquistas é que isso tira a pressão. Charlie sempre foi o melhor dos dois filhos. Mas agora que não é mais tão perfeito, a pressão está sobre mim.
Eis o tipo de conversa que já tive 1,3 bilhão de vezes (mais ou menos) desde que ele voltou para casa:
Mamãe: Suas notas ainda boas?
Eu: Sim.
Mamãe: Biologia?
Eu: Sim.
Mamãe: E matemática? Você não gosta de matemática.
Eu: Eu sei que não gosto de matemática.
Mamãe: Mas notas ainda boas?
Eu: Ainda tiro B.
Mamãe: Por que não A, ainda? Aigo. É hora de você ficar sério. Você não menininho mais.
Hoje tenho uma entrevista para ver se sou aceito na Universidade Yale. Yale é a Segunda Melhor Escola, mas pela primeira vez bati o pé e me recusei a me candidatar à Melhor Escola (Harvard). A ideia de ser o irmão mais novo de Charlie em outra escola é uma ambição remota demais. Além disso, será que Harvard me aceitaria, agora que Charlie foi suspenso?
Minha mãe e eu estamos na cozinha. Por causa da entrevista que vou fazer, ela está fervendo mandu (bolinhos) para mim, como um petisco. Estou comendo Cap’n Crunch (o melhor cereal conhecido pela humanidade) como aperitivo pré-mandu e escrevendo em meu caderno moleskine. Estou trabalhando, desde o início dos tempos (mais ou menos), num poema sobre coração partido. O problema é que nunca tive o coração partido, por isso estou com dificuldade.
Escrever à mesa da cozinha é um luxo. Eu não poderia fazer isso se meu pai estivesse aqui. Ele não desaprova em voz alta meu costume de escrever poemas, mas definitivamente desaprova.
Minha mãe interrompe minha comida e minha escrita para uma variação de nossa conversa de todo dia. Ouço sem prestar atenção, acrescentando “sim” através de bocados de cereal, quando ela muda de roteiro. Em vez do “Você não menininho mais”, ela diz:
— Não seja igual ao seu irmão.
Diz isso em coreano. Para dar ênfase. E por causa de Deus, do Destino ou por Puro Azar, Charlie entra na cozinha bem a tempo de ouvir. Paro de mastigar.
Qualquer pessoa que nos olhasse de fora pensaria que as coisas estão ótimas. Uma mãe fazendo o café da manhã para os dois filhos. Um filho à mesa comendo cereal (sem leite). Outro filho entrando em cena pela esquerda do palco. Também vai tomar o café da manhã.
Mas não é isso que está acontecendo de verdade. Mamãe sente tanta vergonha por Charlie ter ouvido o que ela disse que fica vermelha. É um leve rubor, mas está ali. Ela lhe oferece um pouco de mandu, mesmo que ele odeie comida coreana e se recuse a comê-la desde o primeiro ano do ensino médio.
E Charlie? Simplesmente finge. Finge que não entende coreano. Finge que não ouviu a oferta de bolinhos. Finge que eu não existo.
Ele quase me engana, até que olho para suas mãos. Os punhos se fecham e revelam a verdade. Ele ouviu e entendeu. Ela poderia tê-lo chamado de grande babaca ou de cretino animatrônico, e seria melhor do que me dizer para não ser igual a ele. Toda a minha vida tem sido o oposto disso. Por que você não pode ser mais parecido com seu irmão? Essa reviravolta não é boa para nenhum de nós dois. Charlie pega um copo no armário e enche com água da torneira. Bebe a água da torneira só para irritar mamãe. Ela abre a boca para dizer o “Não. Bebe do filtro” de sempre, mas fecha de novo. Charlie bebe a água em três goles rápidos e recoloca o copo no armário, sem lavar. Deixa o armário aberto.
— Umma, dá um tempo a ele — digo depois que Charlie saiu.
Estou chateado com ele e estou chateado por ele. Meus pais têm sido implacáveis com as críticas. Imagino como deve ser um saco para ele trabalhar o dia inteiro na loja com meu pai. Aposto que papai fica dando bronca nos intervalos entre os sorrisos para os clientes e as respostas às perguntas sobre apliques, óleos vegetais e tratamento para cabelos danificados por química (meus pais têm uma loja de cosméticos que vende produtos para cabelos de negros. Chama-se Tratamento para Cabelos Negros).
Ela destampa o cesto de cozimento a vapor para verificar os mandu. O vapor embaça seus óculos. Quando eu era pequeno isso me fazia rir, e ela incrementava a coisa deixando que eles ficassem o mais embaçados possível e fingindo que não conseguia me ver. Agora simplesmente os tira do rosto e limpa com uma toalha.
— O que acontece com seu irmão? Por que fracassa? Ele nunca fracassa.
Sem os óculos ela parece mais nova, mais bonita. É estranho pensar que a mãe da gente é bonita? Provavelmente. Tenho certeza de que Charlie nunca pensa isso. Todas as namoradas dele (as seis) eram muito bonitas, garotas brancas ligeiramente rechonchudas de cabelo louro e olhos azuis.
Não, estou mentindo. Houve uma garota, Agatha. Foi a última namorada antes da faculdade.
Tinha olhos verdes.
Mamãe recoloca os óculos e espera, como se eu fosse ter uma resposta para ela. Odeia não saber o que acontece em seguida. A incerteza é sua inimiga. Acho que é porque ela cresceu pobre na Coreia do Sul.
— Ele nunca fracassa. Alguma coisa aconteceu.
E agora estou mais chateado ainda. Talvez nada tenha acontecido com Charles. Talvez ele tenha fracassado porque não gostava das aulas. Talvez ele não queira ser médico. Talvez não saiba o que quer. Talvez tenha simplesmente mudado.
Mas em nossa casa não temos permissão para mudar. Estamos no rumo para ser doutores e não há fuga possível.
— Vocês, garotos, têm muita facilidade aqui. América faz vocês moles.
Se eu tivesse ganhado um neurônio a cada vez que ouvi isso na vida, seria um gênio.
— Nós nascemos aqui, mamãe. Sempre fomos moles.
Ela funga.
— E entrevista? Você pronto? — Ela me olha de cima a baixo e acha que não estou à altura. — Corta o cabelo antes entrevista.
Há meses ela vem pegando no meu pé para eu cortar meu rabo de cavalo.
Faço um som que pode ser de concordância ou discordância. Ela põe um prato de mandu à minha frente e eu como em silêncio.
Por causa da grande entrevista meus pais permitem que eu falte à escola. São só oito da manhã, mas de jeito nenhum vou ficar em casa e ter mais uma conversa assim. Antes que eu possa escapar, ela me dá uma bolsa de dinheiro com envelopes de depósito para eu entregar ao meu pai na loja.
— Appa esqueceu. Você leva para ele.
Tenho certeza de que ela pretendia dar ao Charlie antes de ele sair para a loja, mas esqueceu por causa do pequeno incidente na cozinha.
Pego a bolsa, o caderno e subo a escada para me vestir. Meu quarto fica no fim de um corredor comprido. Passo pelo quarto do Charlie (porta fechada, como sempre) e pelo dos meus pais. Minha mãe deixou, ainda embrulhadas e encostadas no portal, duas telas em branco. Hoje é seu dia de folga na loja e aposto que está ansiosa para passar um tempo sozinha, pintando. Ultimamente tem pintado baratas, moscas e besouros. Andei provocando-a, dizendo que está em seu Período Insetos Nojentos, mas gosto mais deste do que do Período Orquídeas Abstratas, de alguns meses atrás.
Faço um desvio rápido até o quarto vazio que ela usa como ateliê, para ver se pintou alguma coisa nova. Na verdade, há um quadro de um besouro enorme. A tela não é especialmente grande, mas o besouro ocupa todo o espaço. As pinturas da minha mãe sempre foram muito coloridas e lindas, mas algo na aplicação de toda aquela cor em seus desenhos complexos, quase anatômicos, de insetos as torna mais do que lindas. Este é pintado em verdes, azuis e pretos sombrios e perolados. A carapaça reluz como óleo derramado em água.
Há três anos, no aniversário dela, meu pai a surpreendeu contratando um funcionário para a loja em meio expediente, de modo que ela não precisasse ir todo dia. Também comprou um kit de tintas a óleo para iniciantes e algumas telas.
Eu nunca a tinha visto chorar por causa de um presente. Desde então ela tem pintado.
De volta ao meu quarto, imagino pela décima milésima vez (mais ou menos) como seria a vida da minha mãe se ela jamais tivesse saído da Coreia. E se não tivesse conhecido meu pai? E se nunca tivesse tido Charlie e eu? Seria uma artista?
Visto o terno cinza novo, feito sob medida, e ponho a gravata vermelha. “Cor forte demais”, disse minha mãe sobre a gravata no momento em que estávamos comprando. Evidentemente, apenas as pinturas a óleo podem ser coloridas. Eu a convenci dizendo que o vermelho faria com que eu parecesse confiante. Agora, me olhando no espelho, devo dizer que o terno me faz mesmo parecer confiante e sofisticado (é, sofisticado). Uma pena só usá-lo para essa entrevista, e não para alguma coisa importante de verdade para mim. Verifico a previsão do tempo no aplicativo do celular e decido que não preciso de sobretudo. A máxima vai ser de 20 graus — um perfeito dia de outono.
Apesar de eu ter ficado chateado com ela pelo modo como tratou o Charlie, dou um beijo em mamãe e prometo cortar o cabelo, e então saio de casa. Hoje à tarde minha vida vai entrar num trem destinado à estação Doutor Daniel Jae Ho Bae, mas até lá o dia é meu. Vou fazer o que o mundo mandar. Vou agir como se estivesse numa porcaria de uma música do Bob Dylan e voar na direção do vento. Vou fingir que meu futuro está em aberto e que qualquer coisa pode acontecer.


natasha

TUDO ACONTECE POR UM MOTIVO. É o que se costuma dizer. Minha mãe sempre fala isso. Em geral, as pessoas dizem isso quando algo vai mal, mas não mal demais. Um acidente de carro que não seja fatal. Um tornozelo torcido, não quebrado.
De modo revelador, minha mãe não disse isso ao se referir à nossa deportação. Que motivo poderia haver para algo tão terrível? Meu pai, que é culpado de tudo, diz:
— A gente nem sempre sabe qual é o plano de Deus.
Quero dizer a ele que talvez não devesse deixar tudo por conta de Deus, e que esperar mesmo sem esperança não é uma estratégia de vida. Mas isso significaria falar com ele, o que não desejo fazer.
As pessoas repetem essas coisas para que o mundo faça sentido. Secretamente, no fundo do coração, quase todo mundo acredita que existe algum sentido, alguma objetividade na vida. Justiça. Coisas boas acontecem com pessoas boas. Coisas ruins acontecem com pessoas ruins.
Ninguém quer acreditar que a vida é aleatória. Meu pai diz que não sabe de onde vem meu ceticismo; mas não sou cética. Sou realista. É melhor ver a vida como ela é, e não como a gente quer que seja. As coisas não acontecem por algum motivo. Simplesmente acontecem.
Mas aqui vão alguns Fatos Observáveis: se eu não tivesse me atrasado para o compromisso, não teria conhecido Lester Barnes. E, se ele não tivesse dito a palavra irie, eu não iria desmoronar. E, se eu não tivesse desmoronado, não traria agora, apertado na mão, o nome de um advogado conhecido como “solucionador”.
Saio do prédio passando pela segurança. Tenho uma ânsia irracional, e totalmente fora do meu estilo, de agradecer a essa guarda — Irene —, mas ela está meio longe e ocupada passando a mão nas coisas de outra pessoa.
Verifico as mensagens no celular. Mesmo sendo apenas 5h30 na Califórnia, onde ela está, Bev mandou uma fila de pontos de interrogação. Penso em contar sobre essa última novidade, mas decido que não é de fato uma novidade.
Por enquanto nada, digito de volta. Desejo mais uma vez, egoisticamente, que ela esteja aqui comigo. Na verdade, o que desejo é estar lá com ela, visitando faculdades e tendo uma experiência normal de último ano do ensino médio. Olho de novo o bilhete na minha mão. Jeremy Fitzgerald. O Sr. Barnes não quis deixar que eu ligasse do telefone dele para marcar uma consulta.
— É uma possibilidade muito remota — disse, antes de basicamente me colocar porta afora.
Fato Observável: a gente nunca deveria tentar uma possibilidade remota. Melhor estudar as chances e tentar a possibilidade provável. Mas, se a remota é a única, é preciso tentar.


irene
Uma história experimental

NA PAUSA PARA O ALMOÇO IRENE baixa o disco do Nirvana. Ouve três vezes seguidas. Na voz de Kurt Cobain escuta a mesma coisa que Natasha: um sofrimento perfeito e lindo, uma voz tão esgarçada de solidão e carência que poderia se partir. Irene acha que seria melhor se ela se partisse, melhor do que viver querendo e não tendo, melhor do que simplesmente viver.
Ela acompanha a voz de Kurt Cobain descendo, descendo até um lugar onde é escuro o tempo todo. Depois de pesquisar sobre ele na internet, descobre que a história de Cobain não tem um final feliz.
Irene planeja. Hoje será o último dia da sua vida.
A verdade é que vem pensando em se matar há anos. Nas letras de Cobain encontra finalmente as palavras. Escreve um bilhete de suicídio endereçado a ninguém: “Oh well. Whatever. Nevermind (Ah, bom. Tanto faz. Deixa pra lá)”.

6 comentários:

  1. Nunca ouvi falar desse livro... mas estou gostando muito \(*v*)/

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  2. caramba, essa Irene é... INTENSA!

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  3. Fantástico!!! 😊😊😊
    Anna!!!

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  4. este livro e tao bom mas triste ao mesmo tempo. Adoro a maneira como o escritor escreve, suave mas direto ao mesmo tempo

    vish/

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Boa leitura, E SEM SPOILER!