1 de março de 2019

parte três

daniel

Rapaz tenta usar ciência para ganhar garota.
Eu não estava brincando sobre o lance de alguém se apaixonar cientificamente. Saiu até um artigo no The New York Times sobre isso.
Um pesquisador colocou duas pessoas num laboratório e fez com que cada uma fizesse à outra várias perguntas íntimas. Além disso, elas precisavam se olhar nos olhos durante quatro minutos sem falar. Tenho quase certeza de que não vou conseguir que ela faça o negócio de olhar nos olhos neste momento. Para ser honesto, não acreditei de verdade no artigo quando li. Você não pode fazer as pessoas se apaixonarem, certo? O amor é muito mais complicado do que isso. Não é só uma questão de escolher duas pessoas e fazer com que elas se façam algumas perguntas e aí o amor floresce. A lua e as estrelas estão envolvidas. Tenho certeza.
Mesmo assim...
Segundo o artigo, o resultado da experiência foi que as duas pessoas se apaixonaram de verdade e se casaram. Não sei se ficaram casadas. (Eu meio que não quero saber, porque, se os dois ficaram casados, então o amor é menos misterioso do que eu pensava e pode ser cultivado numa placa de Petri. Se não ficaram casados, o amor é tão fugaz quanto Natasha diz.)
Pego meu celular e dou uma olhada no estudo. Trinta e seis perguntas. A maioria é bem idiota, mas algumas são legais. Gosto da coisa de olhar nos olhos.
Não estou acima da ciência.


natasha

ELE ME FALA DE UM ESTUDO envolvendo um laboratório, perguntas e amor.
Fico cética e digo isso. Também fico ligeiramente intrigada, mas não digo.
— Quais são os cinco ingredientes-chave para se apaixonar? — pergunta ele.
— Não acredito no amor, lembra?
Pego minha colher e mexo o café, mesmo não tendo nada para ser misturado.
— Então do que as canções de amor falam de verdade?
— Fácil. De desejo.
— E o casamento?
— Bom, o desejo vai se apagando, então existem os filhos para criar e as contas para pagar. Num determinado ponto ele simplesmente vira amizade com interesse mútuo pelo benefício da sociedade e da próxima geração.
A música termina quando acabo de falar. Por um momento tudo que podemos ouvir são copos tilintando e leite espumando.
— Hã — diz ele, pensativo. — Eu não poderia discordar mais de você.
Ele ajeita o rabo de cavalo sem deixar que o cabelo caia no rosto.
Fato Observável: quero ver seu cabelo cair no rosto.
Quanto mais falo com ele, mais bonito ele fica. Gosto até do jeito sério, apesar de geralmente odiar a seriedade. O rabo de cavalo sensual pode estar atrapalhando o funcionamento do meu cérebro. É só cabelo, digo a mim mesma. Sua função é manter a cabeça quente e protegê-la contra a radiação ultravioleta.
Não há nada inerentemente sensual no cabelo.
— De que estamos falando mesmo? — pergunta ele.
Digo ciência ao mesmo tempo em que ele diz amor, e nós dois rimos. Ele instiga de novo:
— Quais são os ingredientes?
— Interesse mútuo e compatibilidade socioeconômica.
— Será que pelo menos você tem alma?
— Não existe essa coisa de alma — respondo.
Ele ri, como se eu estivesse brincando.
— Bem — diz depois de perceber que não é brincadeira —, meus ingredientes são amizade, intimidade, compatibilidade moral, atração física e o fator X.
— Qual é o fator X?
— Não se preocupe. Nós já temos.
— Bom saber — falo rindo. — Ainda assim não vou me apaixonar por você.
— Me dê o dia de hoje.
Ele fica sério de repente.
— Não é um desafio, Daniel.
Ele só me encara com aqueles olhos castanhos e grandes, esperando uma resposta.
— Você tem uma hora — declaro.
Ele franze a testa.
— Só uma hora? O que acontece em seguida? Você vira abóbora?
— Tenho um compromisso e depois preciso ir para casa.
— Qual é o compromisso?
Em vez de responder, olho ao redor. Um barista grita uma lista de pedidos. Uma pessoa ri. Outra tropeça.
Mexo o café de novo, desnecessariamente.
— Não vou contar.
— Certo — diz ele, inabalável.
Ele decidiu o que deseja, e o que deseja sou eu. Tenho a sensação de que ele pode ser decidido e paciente. Quase o admiro por isso. Mas ele não sabe o que eu sei. Amanhã estarei morando em outro país. Amanhã terei ido embora daqui.


daniel

MOSTRO MEU CELULAR A ELA e discutimos sobre que perguntas escolher.
Não temos tempo para todas as 36. Ela quer riscar os quatro minutos de ficar se encarando expressivamente, mas isso não vai acontecer. O negócio do olhar é minha carta na manga. Todas as minhas ex-namoradas (certo, uma das minhas ex-namoradas — certo, só tive uma namorada, agora ex) gostavam bastante dos meus olhos. Grace (a singular e única ex-namorada mencionada acima) dizia que eles pareciam pedras preciosas, especificamente quartzo esfumado (seu hobby era fazer joias). A gente estava se beijando no quarto dela quando Grace disse isso pela primeira vez, e parou bem no meio para pegar um exemplar dessa pedra para mim.
De qualquer modo, meus olhos são como quartzo (do tipo esfumado) e as garotas (pelo menos uma) curtem isso.
As perguntas se encaixam em três categorias, cada qual mais pessoal do que a anterior. Natasha quer escolher as menos pessoais da primeira categoria, mas eu impeço isso também.
Da categoria 1 (menos íntimas) escolhemos:
1. Se pudesse escolher qualquer pessoa no mundo, com quem você gostaria de jantar?
2. Você gostaria de ser famoso? Em quê?
7. Você tem alguma intuição secreta sobre como vai morrer?
Da categoria 2 (intimidade média):
17. Qual é sua lembrança mais preciosa?
24. O que você acha do seu relacionamento com sua mãe?
Da categoria 3 (mais íntima):
25. Faça três declarações verdadeiras que comecem com “nós”. Por exemplo: “Nós dois estamos nesta sala sentindo...”
29. Conte ao seu companheiro um momento constrangedor da sua vida.
34. Sua casa, contendo tudo que você possui, pega fogo. Depois de salvar seus entes queridos e seus bichos de estimação, você tem tempo para entrar em segurança uma última vez e pegar um único item. O que seria? Por quê?
35. Dentre todas as pessoas da sua família, a morte de quem você acharia mais perturbadora? Por quê?
Acabamos tendo dez perguntas, porque Natasha pensa que na número 24 deveríamos falar do relacionamento com a mãe o pai.
— Por que as mães são sempre as mais culpadas por ferrar os filhos? Os pais sabem muito bem como ferrá-los — diz Natasha, como se tivesse vivido a experiência na própria carne.
Ela olha a hora no celular de novo.
— Preciso ir — diz, empurrando a cadeira para trás e se levantando depressa demais.
A mesa balança. Parte do seu café é derramado.
— Merda. Merda!
É uma reação exagerada. Quero mesmo perguntar sobre o compromisso e sobre o pai dela, mas sei que é melhor não fazer isso agora.
Fico de pé, pego uns guardanapos e limpo o café derramado.
O olhar que ela me dirige é algo entre a gratidão e a exasperação.
— Vamos sair daqui — digo.
— Certo. Obrigada.
Fico observando enquanto ela desvia da fila de pessoas ávidas por café. Eu não deveria ficar olhando as pernas dela, mas são fantásticas (o terceiro par mais incrível que já vi). Quero tocá-las quase tanto quanto quero continuar falando com ela (talvez um pouco mais), porém não existem circunstâncias em que ela me deixaria fazer isso.
Ou ela está tentando me dispensar ou estamos numa competição de caminhada em alta velocidade e eu não percebi. Ela dispara no meio de um casal que anda devagar e contorna um andaime pela beira da calçada para não ter de diminuir o passo.
Talvez eu devesse desistir. Não sei por que ainda não fiz isso. O universo está nitidamente tentando me salvar de mim mesmo. Aposto que, se eu procurasse sinais de separação, iria encontrar.
— Para onde vamos? — pergunto quando paramos num cruzamento.
O corte de cabelo que eu ia fazer vai ter que esperar. Tenho quase certeza de que deixam pessoas de cabelo comprido entrar na faculdade.
— Eu estou indo para meu compromisso e você está me seguindo.
— É, estou — digo, ignorando sua ênfase pouco sutil.
Atravessamos a rua e andamos lado a lado em silêncio por alguns minutos. A manhã se acomoda em si mesma. Algumas lojas deixam as portas totalmente abertas. O tempo está frio demais para ar-condicionado e quente demais para portas fechadas. Tenho certeza de que meu pai fez a mesma coisa na nossa loja. Passamos pela vitrine extraordinariamente bem iluminada e extremamente atulhada de uma loja de produtos eletrônicos. Cada item à mostra tem um adesivo vermelho escrito LIQUIDAÇÃO. Há centenas de lojas assim por toda a cidade. Não entendo como elas conseguem permanecer funcionando.
— Quem faz compras nessas lojas? — penso em voz alta.
— Pessoas que gostam de pechinchar.
Meio quarteirão depois, passamos por outra loja quase idêntica e nós dois rimos.
Pego meu celular.
— Bom. Está pronta para as perguntas?
— Você é implacável.
Ela não olha para mim.
— Persistente — corrijo.
Ela diminui a velocidade e me olha.
— Você não acha de verdade que fazer perguntas profundas e filosóficas vai fazer com que a gente se apaixone, acha?
Ela faz aspas no ar (ah, como odeio aspas no ar) em volta de profundasfilosóficas se apaixone.
— Pense nisso como uma experiência. O que você disse antes sobre o método científico?
Isso me rende um pequeno sorriso. Ela contra-ataca:
— Os cientistas não devem fazer experimentos em si mesmos.
— Nem mesmo para o bem maior? Para aprimorar o conhecimento da humanidade sobre si própria?
Isso me rende uma gargalhada.


natasha

USAR A CIÊNCIA CONTRA MIM é bem inteligente.
Quatro Fatos Observáveis: ele é perfeitamente bobo. E otimista demais. E sério demais. E muito bom em me fazer rir.
— A número um é muito difícil — afirma ele. — Vamos começar com a pergunta dois: Você gostaria de ser famosa? Em quê?
— Primeiro você — digo.
— Eu seria o poeta supremo.
Claro que seria. Fato Observável: ele é um romântico inveterado.
— Você ficaria falido.
— Falido em dinheiro, mas rico em palavras — devolve ele imediatamente.
— Vou vomitar bem aqui na calçada — falo alto demais, e uma mulher de terninho se afasta de nós.
— Eu limparia você.
Ele realmente passa do ponto no quesito sinceridade. Pergunto:
— O que um poeta supremo faz?
— Oferece conselhos sábios e poéticos. Eu seria a pessoa que os líderes mundiais procurariam em busca de solução para os mais terríveis problemas filosóficos.
— Que você resolveria escrevendo um poema para eles? — O ceticismo na minha voz não pode passar despercebido.
— Ou lendo um — responde ele com mais sinceridade inabalável.
Faço sons de engasgo.
Ele tromba ligeiramente em mim com o ombro e depois me firma colocando a mão nas minhas costas. Gosto tanto da sensação que acelero um pouco para evitá-la.
— Você pode ser cética quanto quiser, mas muitas vidas podem ser salvas com poesia.
Examino seu rosto procurando um sinal de que ele está brincando, mas não.
Ele acredita mesmo nisso. O que é doce. E também idiota. Mas acima de tudo doce. Ele pergunta:
— E você? Que tipo de fama você quer?
Essa é fácil.
— Eu seria uma ditadora benevolente.
Ele gargalha.
— De algum país específico?
— Do mundo inteiro — respondo, e ele ri mais um pouco.
— Todos os ditadores se acham benevolentes. Até os que seguram facões.
— Tenho quase certeza de que esses sabem que estão sendo uns sacanas gananciosos e assassinos.
— Mas você não seria?
— Não. De mim só viria benevolência. Eu decidiria o que é bom para todo mundo e faria isso.
— E se o que é bom para uma pessoa não for bom para outra?
Dou de ombros.
— Não se pode agradar a todo mundo. Como meu poeta supremo, você poderia consolar o perdedor com um bom poema.
— Touché.
Ele sorri, pega o celular de novo e começa a examinar as perguntas. Olho rapidamente o meu telefone. Por um segundo fico surpresa com a rachadura na tela, até que me lembro do tombo. Que dia! De novo penso em multiversos e imagino aqueles em que meu telefone e os fones de ouvido ainda estão inteiros.
Há um universo em que fiquei em casa e fiz as malas, como minha mãe queria. O celular e os fones estão bem, mas não conheci Daniel.
Há um universo em que fui à escola e estou sentada na aula de inglês em vez de quase ser atropelada. De novo, nada de Daniel.
Em outro universo sem Daniel eu fui ao USCIS, mas não conheci Daniel na loja de discos, por isso nossa conversa não teve oportunidade de me atrasar. Cheguei à calçada antes que o motorista do BMW aparecesse e não houve um quase atropelamento. Meu celular e os fones continuam inteiros.
Claro, há um número infinito desses universos, inclusive um em que conheci Daniel mas ele não pôde me salvar no cruzamento, e não foram só o celular e os fones que se quebraram.
Suspiro e verifico a distância até o prédio do advogado Fitzgerald. Mais doze quarteirões. Imagino quanto vai custar para consertar a tela. Mas, afinal de contas, talvez eu não precise que ela seja consertada. Provavelmente vou precisar de um telefone novo na Jamaica.
Daniel interrompe meus pensamentos e fico agradecida. Não quero pensar em nada que tenha a ver com ir embora.
— Certo — diz ele. — Vamos passar para a número sete. Qual é sua intuição secreta sobre o modo como você vai morrer?
— Em termos estatísticos, uma mulher negra morando nos Estados Unidos provavelmente vai morrer aos 78 anos de doença cardíaca.
Chegamos a outro cruzamento e ele me puxa para não ficar perto demais da beirada. Seu gesto e minha reação são familiares demais, como se tivéssemos feito isso muitas vezes. Ele belisca minha jaqueta no cotovelo e puxa só um pouquinho. Eu recuo na direção dele e cedo ao seu gesto protetor.
— Então o coração vai pegar você, é?
Por um momento esqueço que estamos falando da morte.
— Provavelmente. E você?
— Assassinato. Num posto de gasolina, numa loja de bebidas ou algo assim. Um cara armado vai assaltar o lugar. Vou tentar bancar o herói, mas farei alguma coisa idiota, tipo derrubar a pirâmide de latas de refrigerante, e isso vai fazer o cara pirar. E o que seria um assalto comum vai virar um banho de sangue. Vai passar no noticiário das onze.
Rio dele.
— Então você vai morrer como um herói incompetente?
— Vou morrer tentando.
E nós rimos juntos.
Atravessamos a rua.
— Por aqui — digo quando ele está indo em frente, em vez de virar à direita. — Precisamos ir à Oitava.
Ele gira e ri para mim, como se estivéssemos numa aventura épica.
— Espere um pouco.
Ele tira o paletó. Parece uma coisa estranhamente íntima ficar olhando, por isso observo dois caras muito velhos e mal-humorados discutindo por causa de um táxi a poucos metros de nós. Há pelo menos outros três táxis livres nas proximidades.
Fato Observável: as pessoas não são lógicas.
— Isto cabe na sua mochila? — pergunta ele estendendo o paletó para mim.
Sei que não está pedindo para eu usá-lo, como se eu fosse sua namorada ou algo assim. De qualquer modo, carregar o paletó dele parece ainda mais íntimo do que olhar enquanto ele o tira.
— Tem certeza? Vai ficar amarrotado.
— Não faz mal.
Ele me guia para o lado, para não bloquearmos o caminho dos outros pedestres, e de repente estamos muito perto um do outro. Não me lembro de ter notado os ombros dele antes. Eram tão largos assim há um segundo? Desvio o olhar do peito dele para o rosto, mas isso não melhora o meu equilíbrio. Seus olhos são ainda mais límpidos e castanhos à luz do sol. Na verdade, são lindos.
Tiro a mochila do ombro e a coloco entre nós, de modo que ele precisa recuar um pouco.
Ele dobra o paletó muito bem e o coloca dentro dela.
Sua camisa é de um branco brilhante e a gravata se destaca mais ainda sem o paletó. Fico imaginando como ele fica com roupas comuns, e quais são as roupas comuns dele. Sem dúvida jeans e camiseta — o uniforme de todos os garotos americanos em toda parte.
Será o mesmo para os jamaicanos?
Meu humor fica sombrio com esse pensamento. Não quero recomeçar. Já foi bem difícil quando a gente se mudou para os Estados Unidos. Não quero ter de aprender os rituais e os costumes de outra escola. Amigos novos. Panelinhas novas. Novos códigos de vestimenta. Novos pontos de encontro.
Eu volto a andar. Digo:
— Os homens americanos de origem asiática têm mais probabilidade de morrer de câncer.
Ele franze a testa e acelera o passo para me alcançar.
— Verdade? Não gosto disso. De que tipo?
— Não sei bem.
— Nós deveríamos descobrir.
Ele diz nós como se existisse algum futuro juntos, onde a morte de um importasse para o outro.
— Você acha mesmo que vai morrer de doença cardíaca? E não de uma coisa mais épica?
— Quem se importa com o épico? Morto é morto.
Ele só me encara, esperando a resposta.
— Certo — digo. — Não acredito que vou contar isso. Secretamente, acho que vou me afogar.
— Tipo no oceano aberto, salvando a vida de alguém ou algo assim?
— No fundo de uma piscina de hotel.
Ele para de andar e me puxa de lado outra vez. Nunca houve pedestre mais atencioso. A maioria das pessoas simplesmente para no meio da calçada.
— Espera aí. Você não sabe nadar?
Encolho a cabeça contra a jaqueta.
— Não.
Seu olhar está examinando meu rosto e ele está rindo de mim sem rir.
— Mas você é jamaicana. Cresceu cercada de água.
— Apesar de ter nascido numa ilha, não sei nadar.
Dá para ver que ele quer se divertir à minha custa, mas resiste.
— Eu ensino a você.
— Quando?
— Um dia desses. Logo. Você sabia nadar quando morava na Jamaica?
— Sabia, mas então viemos para cá, e em vez do oceano existem piscinas. Não gosto de cloro.
— Mas você sabe que agora existem piscinas de água salgada.
— Agora é tarde. Esse barco já partiu.
Agora ele curte com minha cara.
— Qual é o nome do seu barco? Garota que cresceu numa ilha, que é uma coisa cercada de água por todos os lados, não sabe nadar? Seria um bom nome.
Rio e lhe dou um soco no ombro. Ele pega minha mão e segura meus dedos. Tento não querer que ele pudesse cumprir a promessa de me ensinar a nadar.


daniel

SOU UM ESTUDIOSO COMPILANDO o Livro de Natasha. O que sei até agora é o seguinte: ela é ligada em ciência. Na certa é mais inteligente do que eu. Seus dedos são ligeiramente mais compridos do que os meus e a sensação deles na minha mão é boa. Gosta de música angustiante. Está preocupada com alguma coisa que tem a ver com seu compromisso misterioso. Ela pede:
— Me conta outra vez por que está usando terno.
Solto um gemido longo, alto e sentido.
— Vamos falar sobre Deus, em vez disso.
— Eu também posso fazer perguntas — diz ela.
Andamos em fila embaixo de mais andaimes na calçada. (Em qualquer época, aproximadamente 99% de Manhattan estão em construção.)
— Eu me candidatei a Yale. Tenho uma entrevista com um ex-aluno mais tarde.
— Está nervoso? — pergunta ela quando ficamos lado a lado outra vez.
— Estaria se não estivesse cagando e andando.
— E está?
— Talvez só andando — respondo rindo.
— Então seus pais estão obrigando você a fazer isso?
Um grito súbito na rua atrai nossa atenção, mas é só um motorista de táxi berrando com outro.
— Meus pais são imigrantes coreanos de primeira geração — explico.
Ela diminui o passo e me olha.
— Não sei o que isso significa.
Dou de ombros.
— Significa que não importa o que eu quero. Vou para Yale. Vou ser médico.
— E você não quer isso?
— Não sei o que quero.
Pela expressão dela, essa era a pior coisa que eu poderia dizer. Ela vira as costas e começa a andar mais depressa.
— Bem, então poderia ser médico.
— O que eu deveria fazer? — pergunto ao alcançá-la.
— A vida é sua.
Sinto como se estivesse perto de fracassar numa prova.
— O que você quer ser quando crescer?
— Uma cientista de dados — responde ela sem hesitar.
Abro a boca para perguntar “que diabo é isso?”, mas ela se adianta com um discurso ensaiado. Não sou a primeira pessoa que reagiu com “que diabo é isso?” sobre sua escolha profissional.
— Os cientistas de dados analisam dados, separam o ruído do sinal, discernem padrões, chegam a conclusões e recomendam ações baseadas nos resultados.
— Tem computadores envolvidos nisso?
— Claro. Existe um monte de dados neste mundo.
— Isso é muito prático. Você sempre soube o que queria ser? — É difícil esconder a inveja na minha voz.
Ela para de andar outra vez. Nesse ritmo nunca vamos chegar aonde ela vai.
— Isso não tem a ver com destino. Eu escolhi essa carreira. Ela não me escolheu. Não estou destinada a ser uma cientista de dados. Há uma seção sobre carreiras na biblioteca da escola. Eu pesquisei sobre os campos da ciência que estão em crescimento e... encontrei. Não tem nada de destino, só pesquisa.
— Então não é uma coisa pela qual você é apaixonada?
Ela dá de ombros e começa a andar de novo.
— Combina com minha personalidade.
— Não quer fazer alguma coisa que ame?
— Por quê? — questiona ela como se genuinamente não entendesse o apelo de amar alguma coisa.
— A vida é meio longa para passar fazendo uma coisa que você só acha... legal — insisto.
Contornamos um carrinho que vende pretzel e cachorro-quente, que já está com uma fila. Tem cheiro de chucrute e mostarda (ou seja, o céu).
Ela franze o nariz.
— A vida é mais longa ainda se você a passa perseguindo sonhos que nunca, jamais, vão se realizar.
— Espera aí. — Ponho a mão no seu braço para fazer com que ela ande um pouco mais devagar. — Quem disse que eles não podem se realizar?
Isso me rende um olhar de lado.
— Por favor. Sabe quantas pessoas querem ser atores, escritores ou astros do rock? Um monte. Bem, 99% não vão conseguir. E 0,9% dos que restam mal vão ganhar algum dinheiro fazendo isso. Só 0,1% será bem-sucedido de verdade. Todo o resto só desperdiçará a vida tentando ser alguma coisa.
— Você é meu pai disfarçado?
— Estou falando igual a um coreano de 50 anos?
— Sem o sotaque.
— Bom, ele só está protegendo você. Quando você for um médico feliz e ganhar um dinheirão, vai agradecer a ele por não ter virado um artista morto de fome que odeia o emprego que encontrou para sobreviver e que sonha inutilmente com o sucesso.
Imagino se ela percebe como é passional com relação a não ser passional.
Ela se vira para me encarar com os olhos apertados.
— Por favor, diga que não está falando sério sobre o negócio de poesia.
— Que Deus não permita — reajo com ultraje fingido.
Passamos por um homem segurando uma placa em que está escrito AJUDE, POR FAVOR. ESTOU SEM SORTE. Um motorista de táxi apressado buzina alto e demoradamente para outro taxista, também apressado.
— Será que a gente deveria mesmo saber o que quer fazer pelo resto da vida na idade madura de 17 anos?
— Você não quer saber? — Ela definitivamente não é fã da incerteza.
— Não sei. Gostaria de viver dez vidas ao mesmo tempo.
— Você só não quer escolher.
— Não é isso. Não quero ficar preso a uma coisa que não significa nada para mim. Essa trilha onde estou... ela segue sem fim. Yale. Faculdade de medicina. Residência. Casamento. Filhos. Aposentadoria. Asilo de idosos. Funerária. Cemitério.
Talvez seja por causa da importância deste dia, talvez seja por ter conhecido Natasha, mas neste momento é crucial dizer exatamente o que quero dizer.
— Nós temos cérebros grandes e lindos. Inventamos coisas que voam. Voam. Escrevemos poesia. Você provavelmente odeia poesia, mas é difícil questionar “Devo comparar-te a um dia de verão? És por certo mais linda e mais amena” em termos de pura beleza. Somos capazes de grandes vidas. De uma grande história. Por que aceitar menos? Por que escolher a coisa prática, a coisa corriqueira? Nós nascemos para sonhar e fazer as coisas com as quais sonhamos.
Tudo sai de modo mais passional do que pretendo, mas falo cada palavra com sinceridade.
Nossos olhares se encontram. Há algo entre nós que não havia um minuto atrás.
Espero que ela diga alguma coisa irreverente, mas não diz.
O universo para e nos espera.
Ela abre a mão e vai segurar a minha. Ela deveria segurar minha mão.
Deveríamos passar juntos por este mundo. Vejo isso nos olhos dela. Somos feitos um para o outro. Tenho certeza disso como não tenho certeza de mais nada.
Mas ela não segura minha mão. Sai andando.


natasha

ESTAMOS TENDO UM MOMENTO que não quero ter.
Quando dizem que o coração quer o que quer, estão falando do coração poético — o coração das canções de amor e dos solilóquios, o que pode se partir como se fosse vidro recém-feito.
Não estão falando do coração de verdade, que só precisa de comida saudável e exercícios aeróbicos.
Mas o coração poético não é de confiança. É volúvel e leva a gente a se desviar do caminho. Ele vai dizer que tudo que a gente precisa é de amor e sonhos. Não vai dizer nada sobre comida, água, abrigo e dinheiro. Vai dizer que essa pessoa que está à sua frente, a que atraiu seu olhar por algum motivo, é a Certa. E ele é. E ela é. A Certa. Por enquanto, até que o coração dele ou dela decida se voltar para outra pessoa ou outra coisa.
O coração poético não é confiável em termos de decisões de longo prazo. Sei de tudo isso. Sei como sei que a estrela Polar não é a mais brilhante do céu: é a quinquagésima.
E, ainda assim, estou com Daniel no meio da calçada, no que é quase certamente meu último dia nos Estados Unidos. Meu coração volúvel, nada prático, que não pensa no futuro, absurdo quer Daniel. Não se importa que ele seja sério demais, que ele não saiba o que quer nem que esteja acalentando sonhos de ser poeta, uma profissão que leva ao coração partido e à pobreza.
Sei que não existe isso de “feitos um para o outro”, no entanto fico imaginado se talvez não esteja errada.
Fecho a mão que quer tocá-lo e saio andando.


amor
Uma história química

SEGUNDO OS CIENTISTAS, existem três estágios no amor: desejo, atração e ligação. E, por acaso, cada estágio é orquestrado por substâncias químicas — neurotransmissores — no cérebro.
Como seria de esperar, o desejo é governado pela testosterona e pelo estrogênio.
O segundo estágio, a atração, é governado pela dopamina e pela serotonina. Quando, por exemplo, os casais dizem que se sentem indescritivelmente felizes na presença um do outro, isso é a dopamina — o hormônio do prazer — fazendo seu trabalho.
Cheirar cocaína induz o mesmo nível de euforia. De fato, cientistas que estudam os cérebros de amantes recentes e de viciados em cocaína têm dificuldade em dizer qual é a diferença.
A segunda substância química da fase da atração é a serotonina. Quando cada membro do casal confessa que não consegue parar de pensar no outro é porque seu nível de serotonina baixou. As pessoas apaixonadas têm o mesmo nível baixo de serotonina das que têm TOC. O motivo de não conseguirem parar de pensar no outro é que estão literalmente obcecadas.
A oxitocina e a vasopressina controlam o terceiro estágio: a ligação, ou a conexão de longo prazo. A oxitocina é liberada durante o orgasmo e faz a gente se sentir mais próxima da pessoa com quem fez sexo. Também é liberada durante o parto e ajuda a ligar mãe e filho. A vasopressina é liberada pós-coito.
Natasha conhece esses fatos friamente. Ter esse conhecimento a ajudou a superar a traição de Rob. Por isso sabe: o amor não passa de substâncias químicas e coincidência.
Então por que Daniel parece algo mais?


daniel

NÃO EXISTE NENHUM ITEM na lista de coisas que eu queira menos fazer do que ir à minha entrevista. E no entanto... São quase onze da manhã e, se vou fazer essa coisa, preciso ir logo.
Natasha e eu estamos andando juntos em silêncio desde O Momento. Eu gostaria de dizer que é um silêncio confortável, mas não é. Quero falar com ela sobre isso — O Momento —, mas como saber se ela o sentiu? De jeito nenhum ela acredita nesse tipo de coisa.
A região central de Manhattan é diferente do lugar onde nos conhecemos. Mais arranha-céus e menos lojas de suvenires. As pessoas também agem de modo diferente. Não são turistas passeando ou fazendo compras. Não há empolgação, bocas abertas nem sorrisos. Essas pessoas trabalham nesses arranha-céus. Tenho quase certeza de que meu compromisso é em algum lugar por aqui.
Continuamos andando sem dizer uma palavra até chegarmos a um prédio que é uma monstruosidade de concreto e vidro. Fico pasmo pensando quantos indivíduos passam o dia inteiro dentro de lugares assim, fazendo coisas que não amam para pessoas de quem não gostam. Pelo menos ser médico vai ser melhor do que isso.
— É aqui que eu fico — avisa ela.
— Posso esperar aqui fora — digo, como uma pessoa que não tem, dentro de pouco mais de uma hora, um compromisso capaz de determinar seu futuro.
— Daniel. — Ela usa o tom sério que sem dúvida vai usar com nossos futuros filhos (definitivamente, vai ser a disciplinadora). — Você tem uma entrevista e eu tenho essa... coisa. É aqui que a gente se despede.
Ela está certa. Não quero o futuro que meus pais planejaram para mim, mas não tenho nenhuma ideia melhor. Se eu ficar aqui por mais tempo, meu trem vai descarrilar.
Então me ocorre que talvez eu queira exatamente isso. Talvez todas as coisas que estou sentindo por Natasha sejam apenas desculpas para fazer com que ele saia do trilho. Afinal de contas, meus pais nunca aprovariam. Não somente ela não é coreana, é negra. Não existe futuro aqui.
Isso e o fato de que meu apreço extremo por ela claramente não é retribuído.
E o amor não é amor se não for retribuído, certo?
Eu deveria ir embora.
Vou embora.
Vou indo.
— Você está certa — digo.
Ela fica surpresa e talvez até um pouco desapontada, mas que diferença isso faz? Ela tem de querer, e obviamente não quer.


natasha

EU NÃO ESPERAVA QUE ELE dissesse isso. E não esperava ficar desapontada, mas fico. Por que estou pensando em romance com um cara que nunca mais vou ver? Meu futuro vai ser decidido em cinco minutos.
Estamos suficientemente perto da porta deslizante de vidro para sentir o ar-condicionado fresco na minha pele quando as pessoas entram e saem.
Ele estende a mão para um aperto, mas recua rapidamente.
— Desculpe — pede ele, ficando vermelho.
Daniel cruza os braços na frente do peito.
— Bom, estou indo — digo.
— Você está indo — concorda ele.
E nenhum de nós se mexe. Ficamos parados sem falar nada por mais alguns segundos até que me lembro de que ainda estou com o paletó dele na mochila. Tiro e fico olhando enquanto ele o veste de novo.
— Com esse terno, parece que você trabalha neste prédio.
Falo isso como um elogio, mas ele não entende assim.
Puxa a gravata e faz uma careta.
— Talvez venha a trabalhar um dia.
— Certo — digo depois de ficarmos nos olhando por mais um tempo sem falar. — Isso está ficando esquisito.
— Será que deveríamos nos abraçar?
— Pensei que vocês, de terno, só apertavam as mãos.
Estou tentando manter o tom leve, mas minhas cordas vocais ficam roucas e estranhas.
Ele sorri e não tenta esconder a tristeza do rosto. Como pode ficar tão à vontade expondo o coração?
Preciso desviar os olhos. Não quero que o que está acontecendo entre a gente aconteça, mas parece igual a tentar impedir que o clima aconteça.
A porta se abre e sinto de novo o ar fresco em minha pele. Estou com calor e frio ao mesmo tempo. Abro os braços para um abraço ao mesmo tempo que ele. Tentamos nos abraçar pelo mesmo lado e acabamos trombando os peitos. Rimos sem jeito e paramos de nos mexer.
— Vou pela direita — diz ele. — Você vem pela esquerda.
— Ok — respondo, e vou pela esquerda.
Ele me abraça, e como temos mais ou menos a mesma altura meu rosto roça no dele, que é macio, liso e quente. Deixo a cabeça baixar sobre seu ombro e meu corpo relaxa nos braços dele. Por um minuto, me permito sentir como estou cansada. É difícil ficar num lugar que não quer a gente. Mas Daniel me quer.
Sinto no modo como ele me abraça.
Saio dos braços dele e não o encaro.
Ele decide não dizer o que ia dizer.
Pego meu celular e olho a hora.
— É hora de ir — diz ele, antes que eu possa falar.
Eu me viro e entro no prédio frio.
Penso nele enquanto assino o livro da segurança. Penso nele enquanto atravesso o saguão. Penso nele no elevador, andando pelo corredor comprido e em todos os momentos até o instante em que preciso parar de pensar nele, quando entro no escritório.
Os ruídos que ouvi pelo telefone eram mesmo de construção, porque o escritório ainda está sendo montado. As paredes estão parcialmente pintadas e lâmpadas nuas pendem do teto. Serragem e manchas de tinta sujam o chão coberto de lona. Atrás da mesa, uma mulher está sentada com as duas mãos pousadas no telefone do escritório, como se quisesse que ele tocasse. Apesar do batom vermelho-vivo e das bochechas com ruge, é muito pálida. O cabelo é de um preto intenso e perfeitamente arrumado. Algo nela não parece real. Parece estar representando um papel: uma figurante de um desenho animado antigo da Disney ou de um filme passado nos anos 1950 sobre secretárias. A mesa é bem organizada, com pilhas de pastas separadas por cor. Há uma caneca onde está escrito ESTAGIÁRIOS SÃO MAIS BARATOS.
Ela dá um sorriso triste e trêmulo quando me aproximo.
— Estou no lugar certo? — pergunto em voz alta.
Ela me olha sem dizer nada.
— Aqui é o escritório do advogado Fitzgerald?
— Você é Natasha — afirma ela.
Deve ser a pessoa com quem falei antes. Chego perto da mesa.
— Tenho más notícias — continua ela.
Meu estômago se contrai. Não estou pronta para o que ela vai dizer. A coisa acabou antes de começar? Será que meu destino já foi decidido? Vou ser mesmo deportada esta noite?
Um homem com macacão sujo de tinta entra e começa a usar uma furadeira. Outra pessoa, que não vejo, começa a martelar. Ela não muda o volume para se ajustar ao ruído. Chego mais perto ainda.
— Jeremy, o advogado Fitzgerald, teve um acidente de carro há uma hora. Ainda está no hospital. A esposa disse que ele está bem, só teve alguns arranhões. Mas só vai vir mais tarde.
Sua voz parece calma, mas seus olhos não. Ela puxa o telefone um pouco mais para perto e olha para ele, não para mim.
— Mas temos hora marcada agora. — Minha reclamação é pouco compassiva, mas não consigo evitar. — Preciso tanto da ajuda dele...
Agora a mulher se vira para mim, os olhos arregalados e incrédulos.
— Não ouviu o que eu disse? Ele foi atropelado. Não pode estar aqui agora. — Ela empurra um maço de formulários para mim e não me olha de novo.
Demoro pelo menos quinze minutos para preencher a papelada. No primeiro formulário respondo a várias perguntas do tipo: se sou comunista, criminosa ou terrorista e se pegaria em armas para defender os Estados Unidos. Não pegaria, mas mesmo assim marco o quadrado que diz que sim.
Outro formulário pede detalhes do que aconteceu no processo de deportação até agora.
O último formulário é um questionário sobre o cliente, pedindo que eu faça um relato completo do tempo que passei nos Estados Unidos. Não sei o que dizer. Não sei o que o advogado Fitzgerald está procurando. Será que ele quer saber como entrei no país? Como nos escondemos? Qual é a sensação sempre que escrevo meu número falso do seguro social num formulário de escola? Como, em toda vez que faço isso, visualizo minha mãe entrando naquele ônibus para a Flórida? Será que ele quer saber qual é a sensação de ser imigrante ilegal? Ou como vivo esperando alguém descobrir que não pertenço a este lugar?
Provavelmente não. Ele está querendo fatos, não filosofia, por isso anoto fatos. Viajamos para os Estados Unidos com vistos de turista. Quando chegou a época de irmos embora, ficamos. Desde então não saímos do país. Não cometemos nenhum crime a não ser a direção embriagada do meu pai.
Entrego os formulários e ela vai imediatamente para o questionário do cliente.
— Você precisa de mais coisas aqui — diz.
— De que, por exemplo?
— O que os Estados Unidos significam para você? Por que quer ficar? Como vai contribuir para tornar o país melhor?
— Isso é mesmo...?
— Qualquer coisa que Jeremy possa usar para humanizar você vai ajudar. Se as pessoas que nasceram aqui tivessem que provar que eram dignas de viver nos Estados Unidos, este seria um país muito menos povoado.
Ela folheia os outros formulários enquanto escrevo sobre a cidadã trabalhadora, otimista e patriota que eu seria. Escrevo que os Estados Unidos são meu lar no coração e que a cidadania legalizaria o que já sinto. Meu lugar é aqui.
Resumindo, sou mais sincera do que jamais me senti confortável sendo. Daniel sentiria orgulho de mim.
Daniel.
Provavelmente está num trem rumo ao compromisso dele. Será que vai fazer a coisa certa e virar médico, afinal de contas? Será que vai pensar em mim no futuro e se lembrar da garota com quem passou duas horas um dia em Nova York? Será que vai se perguntar o que aconteceu comigo? Talvez faça uma busca no Google usando só meu primeiro nome e não chegue muito longe. Porém, o mais provável é que se esqueça de mim hoje à tarde, como eu certamente vou me esquecer dele.
O telefone toca enquanto escrevo, e a mulher o pega antes de ele ter a chance de tocar outra vez.
— Ah, meu Deus, Jeremy. Você está bem? — Ela fecha os olhos, segura o telefone com as duas mãos e o aperta com força contra o rosto. — Eu queria ir, mas sua mulher disse que eu deveria manter as coisas funcionando por aqui.
Seus olhos se abrem quando ela diz a palavra mulher.
— Tem certeza de que você está bem?
Quanto mais ela ouve, mais animada fica. Seu rosto está vermelho e os olhos brilham com lágrimas de felicidade.
Está tão obviamente apaixonada por ele que espero ver bolhas em formato de coração voando pela sala. Será que estão tendo um caso?
— Eu queria ir — sussurra ela de novo. E, depois de uma série de “ok” murmurados, ela desliga. — Ele está bem — diz sorrindo, enquanto todo o seu corpo reluz de alívio.
— Isso é ótimo — digo.
Ela pega os formulários na minha mão. Espero enquanto lê.
— Gostaria de receber uma boa notícia? — pergunta.
Claro que eu gostaria. Confirmo lentamente com a cabeça.
— Já vi um monte de casos assim, e acho que você vai ficar bem.
Não sei o que esperava que ela dissesse, mas certamente não era isso.
— A senhora acha mesmo que ele vai poder ajudar? — Posso ouvir a esperança e o ceticismo na minha voz.
— Jeremy nunca perde — responde ela, tão orgulhosa que parece estar falando de si mesma.
Mas, claro, isso não pode ser verdade. Todo mundo perde alguma coisa alguma vez. Eu deveria pedir que ela fosse mais precisa, que me fornecesse uma porcentagem de ganhos e perdas exata, para que eu pudesse decidir como me sentir.
— Há esperança — afirma simplesmente.
Mesmo eu odiando poesia, um poema que li na aula de inglês surge na minha cabeça. “Esperança” é a coisa que tem penas. Agora entendo concretamente o que isso significa. Alguma coisa dentro do meu peito quer sair voando, quer cantar, rir e dançar aliviada.
Agradeço e saio rapidamente do escritório, antes que possa perguntar algo que leve embora esse sentimento. Em geral sou a favor de saber a verdade, mesmo que a verdade seja ruim. Não é o modo mais fácil de se viver. Às vezes a verdade pode doer mais do que a gente espera.
Há algumas semanas meus pais estavam discutindo no quarto, de porta fechada. Era uma daquelas ocasiões raras em que minha mãe fica com raiva do meu pai na cara dele. Peter me flagrou xeretando do lado de fora da porta. Quando eles pararam de discutir, perguntei se ele queria saber o que eu tinha ouvido, mas ele não quis. Disse que dava para ver que o que eu havia escutado era ruim e que ele não queria nada de ruim na vida dele naquele momento. Na hora fiquei chateada. Mas depois achei que talvez ele estivesse certo. Senti vontade de “desouvir” o que tinha ouvido.
De volta ao corredor, encosto a testa na parede e hesito. Penso se vale a pena voltar e pressionar a mulher por mais detalhes, mas decido não fazer isso. De que vai adiantar? É melhor esperar a notícia oficial do advogado. Além disso, estou cansada de me preocupar. Sei que o que ela disse não é garantia. Mas preciso sentir alguma coisa que não o pavor resignado. A esperança parece uma boa alternativa.
Penso em ligar para os meus pais e contar a novidade, mas também não faço isso. Não tenho qualquer informação nova para dar. O que eu diria? Um homem que não conheço me mandou falar com outro homem que não conheço. Uma secretária, que não é advogada, e que também não conheço, diz que tudo pode ficar bem. De que adianta criar grandes expectativas?
A pessoa com quem quero mesmo falar é Daniel, mas ele já foi há um tempo para sua entrevista.
Eu gostaria de ter sido mais legal com ele.
Gostaria de ter pedido o número do seu telefone.
E se esse absurdo da imigração se solucionar? E se eu ficar, como vou encontrá-lo de novo? Porque, não importa quanto eu tenha fingido o contrário, algo aconteceu entre nós. Algo grande.


hannah winter
Um conto de fadas — Parte 1

HANNAH SEMPRE PENSOU em si mesma como alguém que vivia num conto de fadas no qual não é a personagem principal. Não é a princesa nem a fada madrinha. Nem a bruxa malvada nem os parentes. Hannah é um personagem menor, ilustrado pela primeira vez na página doze ou treze. A cozinheira, talvez, preparando os bolinhos e os confeitos. Ou talvez seja a criada, afável e simplesmente fora das vistas.
Só quando conheceu o advogado Jeremy Fitzgerald e começou a trabalhar para ele imaginou que poderia virar a estrela. Nele reconhecia seu Amor Verdadeiro. Seu Felizes Para Sempre. Isso apesar de ele ser casado. Apesar de ser pai de duas crianças pequenas.
Hannah jamais acreditou que ele retribuiria seu amor até o dia em que ele fez exatamente isso.
Esse dia é hoje.


Advogado jeremy fitzgerald
Um conto de fadas — Parte 1

JEREMY FITZGERALD ESTAVA atravessando a rua quando um homem bêbado e perturbado — um corretor de seguros —, num BMW branco, o atropelou a 30 quilômetros por hora. A pancada não foi suficiente para matá-lo, mas bastou para fazê-lo pensar na morte e em sua vida atual. Bastou para fazer com que ele admitisse que estava apaixonado por sua assistente, Hannah Winter, e que já se sentia assim havia algum tempo.
Mais tarde, quando voltar ao escritório, vai pegar Hannah nos braços sem dizer nada. Vai segurá-la e pensar, muito brevemente, no futuro que o amor por ela vai lhe custar.


daniel

Adolescente escolhe mal.
Minha mãe, a pacifista, me mataria se soubesse o que acabei de fazer.
Remarquei minha entrevista. Por causa de uma garota. E nem é uma garota coreana, é uma negra. Uma garota negra que eu não conheço de verdade. Uma garota negra que não conheço de verdade e que pode nem gostar de mim.
A mulher ao telefone disse que minha noção de tempo foi perfeita. Ela já ia ligar para mim, também, para remarcar o compromisso. Só consegui horário para o fim da tarde, seis horas, portanto aqui estou, no saguão do prédio onde deixei Natasha, lendo a lista de escritórios e atento à chegada dela. A maioria dos ocupantes do prédio é de advogados (J. D., Adv.) e contadores (CPA, CFA, etc.).
Nunca vi tantas abreviações de títulos. Daniel Jae Ho Bae, SI (Sujeito Idiota), CAF (Condenado ao Fracasso).
Que compromisso ela poderia ter neste prédio? Ou é uma herdeira com dinheiro para investir ou está com problemas e precisa da ajuda de um advogado.
Do outro lado do saguão a porta do elevador se abre e ela sai.
Enquanto remarcava meu compromisso, parte de mim se perguntou se eu estava sendo ridículo. Uma garota que acabei de conhecer não vale colocar meu futuro em risco. Era mais fácil pensar assim quando não estava olhando para ela, porque agora não consigo lembrar por que hesitei.
Claro que ela vale. Não sei como explicar...
É, ela é bonita. A combinação do cabelo volumoso, dos olhos pretos e brilhantes e dos lábios rosados e cheios é linda. Além disso, ela tem as pernas mais incríveis que existem no mundo conhecido (depois de um estudo cuidadoso, elevei-as do terceiro para o primeiro lugar. Estou sendo objetivo aqui). Portanto, sim, definitivamente me sinto atraído por ela, mas é muito mais que isso... e não estou dizendo isso só porque ela tem as pernas mais incríveis no universo conhecido. Mesmo.
Observo enquanto ela atravessa o saguão. Está olhando em volta, tentando encontrar alguma coisa ou alguém. Seus ombros se afrouxam quando não encontra. Deve estar me procurando, certo? A não ser que tenha conhecido outro potencial amor de sua vida nos trinta minutos em que ficou longe de mim.
Do lado de fora, faz um lento giro de 360° para um lado e depois um 360° mais lento para o outro. A pessoa que ela está procurando ainda não está lá.


natasha

ELE NÃO ESTÁ NO SAGUÃO e não está do lado de fora, no pátio. Devo admitir que ele não está aqui e que eu queria que estivesse. Meu estômago parece meio oco, como se eu estivesse com fome, mas não é comida que desejo.
O dia ficou mais quente. Tiro a jaqueta, dobro-a no antebraço e fico parada, decidindo o que vou fazer. Reluto em ir embora e reluto em admitir que não quero ir. Não que eu ache que estávamos destinados um ao outro ou qualquer coisa ridícula assim. Mas seria legal passar as próximas horas com ele. Poderia ser legal sair com ele. Eu adoraria saber se fica vermelho quando beija.
Este foi o último lugar em que o vi. Se eu for embora, não terei chance de vê-lo de novo. Imagino como está sendo a sua entrevista. Se está dizendo as coisas certas ou se está deixando a dúvida e a angústia existencial aparecerem. Esse cara precisa de um coaching de vida.
Estou prestes a ir embora quando algo me faz olhar em volta uma última vez.
Sei que não é possível sentir a presença de uma pessoa específica. É provável que meu subconsciente o tenha visto enquanto eu atravessava o saguão. As pessoas usam linguagem poética para descrever coisas que não entendem. Em geral há uma explicação científica, se você se der ao trabalho de procurá-la.
De qualquer modo, aí está ele.
Ele está aqui.


daniel

ELA VEM ANDANDO NA MINHA DIREÇÃO. Há duas horas eu diria que seu rosto estava inexpressivo; mas estou ficando especialista em Natasha, e seu rosto só está tentando ser inexpressivo. Se eu tivesse de adivinhar, diria que ela está feliz em me ver.
— O que aconteceu com sua entrevista? — pergunta ela assim que chega perto.
Sem abraço. Sem “Que bom ver você”. Talvez eu não seja tão especialista em Natasha, afinal de contas.
Será que apresento os fatos ou a verdade? (Curiosamente, as duas coisas não são sempre o mesmo.) O fato é que adiei. A verdade é que adiei para passar mais tempo com ela. Parto para a verdade:
— Adiei para passar mais tempo com você.
— Ficou maluco? Você está falando da sua vida.
— Não taquei fogo no prédio, Tash. Só adiei para mais tarde.
— Quem é Tash? — questiona ela, mas há um sorriso no canto dos seus lábios.
— Como foi a sua coisa?
Aponto o queixo na direção dos elevadores. O sorriso dela some. Nota para mim mesmo: não puxe esse assunto de novo.
— Foi bem. Preciso voltar às três e meia.
Olho meu celular: 11h35.
— Parece que temos mais tempo juntos — digo.
Espero que ela revire os olhos, mas não faz isso. Recebo como uma pequena vitória.
Ela estremece um pouco e esfrega as mãos nos antebraços. Dá para ver o arrepio na pele, e agora fico sabendo outra coisa sobre ela: sente frio com facilidade. Pego a jaqueta e a ajudo a vestir. Ela enfia um braço e depois o outro, então ajeita os ombros. Ajudo com a gola.
É uma coisa pequena. Deixo a mão pousar na sua nuca e ela se encosta em mim ligeiramente. Seu cabelo pinica meu nariz. É uma coisa boba, mas parece algo que já fazemos há muito tempo.
Ela se vira e preciso recolher as mãos para não tocá-la de modo mais íntimo.
Aonde quer que estejamos indo, ainda não chegamos lá.
— Tem certeza de que não está colocando em risco... — começa a falar.
— Não me importo.
— Deveria. — Ela para de falar e me olha com expressão inquieta. — Você fez isso por minha causa?
— Fiz.
— Por que tem tanta certeza de que eu valho a pena?
— Instinto.
Não sei o que há nela que me deixa sem medo da verdade.
Seus olhos se abrem mais e ela estremece ligeiramente.
— Você é impossível.
— É possível — respondo.
Ela ri e seus olhos pretos brilham para mim.
— O que vamos fazer agora? — pergunta.
Preciso cortar o cabelo e levar a bolsa e as fichas de depósito para o meu pai.
Não quero fazer nada disso. O que quero é achar um local aconchegante e ficar aconchegado a ela. A bolsa precisa ser entregue. Pergunto se ela topa uma ida ao Harlem e ela concorda. Na verdade, essa é absolutamente a última coisa que eu deveria fazer. Não poderia ter tido uma ideia pior. Meu pai vai deixá-la apavorada. Ela vai conhecê-lo e imaginar que em cinquenta anos estarei do mesmo jeito, e aí vai sair correndo para bem longe, porque é isso que eu faria no seu lugar.
Meu pai é um cara esquisito. Digo esquisito, mas o que quero dizer é estranho pra cacete. Primeiro, ele não fala de verdade com ninguém, a não ser com os clientes. Isso inclui Charlie e eu. A não ser que as broncas contem como diálogo. Se as broncas contam, ele falou mais com o Charlie nesse último verão e no outono do que em 19 anos. Posso estar exagerando, mas só um pouco.
Não sei como vou explicar Natasha a ele ou ao Charlie. Bom, com Charlie não me importo mesmo, mas meu pai vai notá-la. Vai saber que há alguma coisa, assim como sabe qual cliente vai roubar algo e qual é confiável o suficiente para comprar fiado.
Mais tarde, no jantar, dirá alguma coisa em coreano à minha mãe, na voz que ele usa para reclamar dos americanos. Não quero nenhum deles envolvido nisto por enquanto. Não estamos prontos para esse tipo de pressão.
Natasha diz que todas as famílias são estranhas, e é verdade. Mais tarde, depois de encararmos esse “evento”, terei que perguntar sobre a família dela. Descemos para o metrô.
— Prepare-se — aviso.


natasha

O HARLEM FICA A APENAS vinte minutos de metrô de onde estávamos, mas é como se tivéssemos ido para um país diferente. Os arranha-céus foram substituídos por lojas pequenas, espremidas umas nas outras, com letreiros multicoloridos. O ar tem um cheiro diferente, menos de cidade e mais de subúrbio. Quase todo mundo na rua é negro.
Daniel não diz nada enquanto andamos pelo boulevard Martin Luther King na direção da loja dos pais dele. Desacelera quando passamos por uma loja vazia com uma enorme placa de ALUGA-SE e por uma loja de penhores com toldo verde. Por fim, paramos diante de uma loja de cosméticos e artigos de beleza para os cabelos dos negros.
Chama-se Tratamento para Cabelos Negros. Já estive em um monte de lugares assim. “Vá à loja de cosméticos ali da esquina e pegue um relaxante de cabelos para mim”, diz minha mãe a cada dois meses, mais ou menos. É incrível. Todo mundo sabe que é incrível como todas as lojas de cosméticos para negros pertencem a coreanos, e que injustiça isso é. Não sei por que não pensei nisso quando Daniel falou que eles tinham uma loja.
Não consigo enxergar o lado de dentro porque as vitrines estão cobertas por cartazes velhos e desbotados de negras sorridentes, de terninho, todas com o mesmo estilo de cabelo tratado quimicamente. Pelo jeito — ao menos segundo esses cartazes —, apenas certos estilos de cabelo são permitidos em reuniões de diretoria. Até minha mãe é culpada desse tipo de sentimento. Ela não ficou feliz quando decidi usar o cabelo afro, dizendo que não parece uma coisa profissional.
Mas gosto do meu afro grandão. Também gostava quando meu cabelo era comprido e relaxado. Fico feliz em ter opções. Elas são minhas.
Perto de mim, Daniel está tão nervoso que treme. Imagino se é porque vou conhecer o pai dele ou por causa da política de seus pais serem donos desta loja.
Ele me encara e puxa a gravata para um lado e para outro, como se estivesse apertada demais o tempo todo.
— Bom, o meu pai é... — Ele para e recomeça: — E meu irmão é...
Seu olhar está em toda parte, menos nos meus olhos, e sua voz está tensa, provavelmente porque tenta falar sem respirar.
— Talvez você devesse esperar aqui fora — diz, conseguindo enfim desembuchar uma frase inteira.
A princípio não penso nada sobre isso. Acho que todo mundo tem vergonha da própria família. Eu tenho da minha. Bom, pelo menos do meu pai. No lugar do Daniel eu faria a mesma coisa. Meu ex traidor, Rob, não conheceu meu pai. Era mais fácil assim. Não ouvir o sotaque americano falso do meu pai. Não vê-lo tentando encontrar uma abertura para falar sobre si mesmo e sobre todos os seus planos para o futuro e de como ele vai ser famoso um dia.
Estamos parados na frente da loja quando duas adolescentes negras saem rindo. Outra mulher, também negra, entra.
Ocorre-me que talvez ele não esteja com vergonha da família. Talvez esteja com vergonha de mim. Ou talvez tenha medo de seus pais terem vergonha de mim. Não sei por que não pensei nisso antes.
Na verdade, os Estados Unidos não são um caldeirão de raças. É mais como uma daquelas bandejas de metal com partes separadas para carboidrato, carne e vegetais. Estou olhando para ele e ele ainda não olha para mim. De repente estamos tendo um momento que eu não esperava.


cabelo
Uma história afro-americana

NAS CIVILIZAÇÕES AFRICANAS DO SÉCULO XV os estilos de cabelo eram marcas de identidade. O estilo de cabelo podia indicar tudo, desde a tribo ou a família até a religião ou o status social. Penteados elaborados designavam poder e riqueza. Um estilo discreto podia ser sinal de que você estava de luto. Mais do que isso, o cabelo podia ter importância espiritual. Como ele está na cabeça — a parte mais alta do corpo e a mais próxima do céu —, muitos africanos o enxergavam como uma passagem para os espíritos até a alma, um modo de interagir com Deus.
Essa história foi apagada com o início da escravidão. Nos navios negreiros, os africanos recém-capturados tinham a cabeça raspada à força, num profundo ato de desumanização, um ato que cortava efetivamente o elo entre cabelo e identidade cultural.
Depois da escravidão o cabelo afro-americano assumiu associações complexas. Cabelo “bom” era qualquer coisa mais próxima dos padrões europeus de beleza. O cabelo bom era liso e macio. O cabelo crespo, texturizado, natural de muitos afro-americanos, era considerado ruim. Cabelo liso era lindo. Cabelo crespo era feio. No início da década de 1900, madame C. J. Walker, uma afro-americana, ficou milionária inventando e vendendo seus produtos de beleza para as negras. Ficou mais famosa por melhorar o projeto do “pente quente”, um instrumento para alisar o cabelo. Na década de 1960, George E. Johnson lançou o “relaxante”, um produto químico usado para alisar cabelos afro-americanos crespos. Segundo algumas estimativas, a indústria de produtos para cabelos de negros movimenta mais de 1 bilhão de dólares por ano.
Desde os dias pós-escravatura até os tempos modernos, o debate na comunidade afro-americana tem sido feroz. O que significa usar o cabelo natural versus o alisado? Alisar o cabelo é uma forma de ódio contra si mesmo? Significa que seu cabelo no estado natural não é bonito? Se você usa o cabelo de modo natural está fazendo uma declaração política, reivindicando o poder dos negros?
O modo como as afro-americanas usam o cabelo costuma ter a ver com mais coisas do que só com a vaidade. Tem a ver com algo mais do que a noção de um indivíduo sobre sua própria beleza.
Quando Natasha decide usar o cabelo afro não é porque tem consciência de toda essa história. Ela faz isso apesar das afirmativas de Patricia Kingsley de que o cabelo afro faz as mulheres parecerem militantes e pouco profissionais. Essas afirmações são enraizadas no medo — medo de que a filha seja prejudicada por uma sociedade que com muita frequência ainda teme a negritude. Além disso, Patricia não expõe sua outra objeção: o novo estilo de cabelo de Natasha parece uma rejeição. Ela vem alisando o cabelo ao longo de toda a vida. Alisou o de Natasha desde que a menina tinha 10 anos. Hoje em dia, quando olha para a filha, Patricia não vê tanto de si mesma refletido nela como antes, e isso dói.
Mas, claro, todos os adolescentes fazem isso. Todos os adolescentes se afastam dos pais. Crescer é se afastar.
O cabelo natural de Natasha demora três anos para crescer totalmente. Ela não faz isso como uma afirmação política. Na verdade, gostava do cabelo liso. No futuro pode alisá-lo de novo. Faz isso porque quer tentar uma coisa nova.
Faz apenas porque parece bonito.


daniel

Adolescente é tão cretino quanto o irmão.
— Talvez você devesse esperar aqui fora — digo.
Falo como se sentisse vergonha dela, como se estivesse tentando mantê-la escondida. Meu arrependimento é instantâneo. Sem esperar alguns segundos para perceber todo o impacto das palavras. Não. Não. Não. É imediato e consome tudo.
E, assim que as palavras saem, não acredito no que falei. É disso que sou feito? De nada?
Sou mais cretino do que o Charlie.
Não consigo olhar para ela. Seu olhar está no meu rosto e não consigo olhá-la.
Quero aquela máquina do tempo. Quero o último minuto de volta.
Ferrei tudo.
Se vai ser Daniel e Natasha, lidar com o racismo do meu pai é só o início.
Mas ela e eu só estamos no início, e simplesmente não quero ter que lidar com ele agora. Quero fazer a coisa fácil, e não a certa. Quero me apaixonar, cair de quatro.
Sem obstáculos na queda, por favor. Ninguém quer se machucar quando cai de amor. Só quero cair como todo mundo cai.


natasha

VOU FICAR BEM.
Vou ficar bem esperando aqui. Entendo. Entendo de verdade. Mas há uma parte de mim, a parte que não acredita em Deus nem no amor verdadeiro, que deseja que ele prove que estou errada em não acreditar nessas coisas. Quero que ele me escolha. Mesmo sendo cedo demais na história de nós dois. Mesmo não sendo o que eu faria. Quero que ele seja tão nobre quanto pareceu a princípio, mas, claro, não é. Ninguém é. Por isso deixo que ele se solte do anzol.
— Não se preocupe tanto — digo. — Eu espero.


daniel

QUANDO A GENTE NASCE, ELES (Deus, os pequenos alienígenas ou sei lá o quê) deveriam mandar a gente para o mundo com um punhado de passes livres.
Um Cartão de Refazer, um de Adiar, um de Voltar Atrás, um de Soltura da Cadeia. Eu usaria o meu de Refazer agora mesmo.
Olho para Natasha e percebo que ela sabe exatamente o que estou passando. Vai entender se eu simplesmente entrar, entregar a bolsa e voltar lá para fora. Então poderemos continuar nosso caminho e eu não precisarei ter, mais tarde com meu pai, nenhuma conversa do tipo “Quem era aquela garota?” Nem precisarei ouvir qualquer piadinha do tipo “Tá vendo a coisa preta?” por parte do Charlie. Esse pequeno incômodo vai ser um pequeno soluço na nossa estrada para a grandeza, para a perfeita união.
Mas não posso. Não posso deixar Natasha aqui fora. Em parte porque é a coisa certa. Mas principalmente porque ela e eu não estamos de fato no início.
— Posso tentar de novo? — pergunto, apresentando meu Cartão de Refazer.
Ela dá um sorriso tão grande que sei que, o que quer que aconteça, valerá a pena.


natasha

UM SININHO TOCA ASSIM que entramos. É como todas as outras lojas de produtos de beleza em que estive. Pequena e atulhada de fileiras de estantes de metal transbordando de frascos de plástico prometendo que sua fórmula secreta é a melhor para o seu cabelo, sua pele, etc.
A caixa registradora fica de frente para a entrada, por isso vejo o pai dele no mesmo instante. Sei imediatamente de quem Daniel herdou a beleza. O pai é meio velho e está ficando careca, mas tem a mesma estrutura óssea e o mesmo rosto perfeitamente simétrico que torna Daniel tão atraente. Está ocupado fechando a conta de um cliente e não reconhece o filho, mas tenho certeza de que viu nós dois. O cliente é um cara mais ou menos da minha idade, negro, com cabelo curto e roxo, três argolas no lábio, uma no nariz, uma na sobrancelha e mais brincos do que posso contar. Quero ver o que ele está comprando, mas já foi empacotado.
Daniel tira a bolsinha do bolso do paletó e começa a se dirigir ao caixa. Seu pai olha rapidamente para ele. Não sei bem o que foi comunicado, mas Daniel para de andar e suspira.
— Você precisa ir ao banheiro ou algo assim? — pergunta. — Há um nos fundos.
Balanço a cabeça. Ele estrangula a bolsa com as mãos.
— Bom, é isso aí. Esta é a loja.
— Quer me mostrar as coisas? — pergunto para ajudar a distraí-lo.
— Não há muito para ver. Os três primeiros corredores são de produtos para o cabelo: xampu, condicionador, apliques, tinturas, um monte de coisas químicas que eu não entendo. O terceiro é de maquiagem. O quarto é de equipamentos.
Ele olha para o pai, que ainda está ocupado.
— Você quer alguma coisa?
Toco meu cabelo.
— Não, eu...
— Não estou falando de algum produto. Nós temos uma geladeira nos fundos, com refrigerantes e coisas assim.
— Está bem. — Gosto da ideia de dar uma olhada nos bastidores.
Vamos pelo corredor de tinturas. Todas as caixas mostram mulheres com sorrisos largos e os cabelos perfeitamente tingidos e arrumados. O que é vendido naqueles frascos não é tintura de cabelo, é felicidade.
Paro na frente de um monte de caixas com tinturas multicoloridas e pego uma cor-de-rosa. Há uma parte muito pequena de mim, pouco prática, que sempre quis um cabelo cor-de-rosa.
Daniel demora alguns segundos para ver que parei de andar.
— Rosa? — pergunta ele, quando vê a caixa na minha mão.
Balanço-a para ele.
— Por que não?
— Não parece o seu estilo.
Claro que ele está completamente certo, mas odeio que pense assim. Será que sou tão previsível e tediosa? Penso no cara que vi quando entramos na loja. Aposto que ele deixa todo mundo intrigado.
— Isso mostra quanto você sabe — digo e dou um tapinha no meu cabelo.
O olhar dele acompanha minha mão. Agora estou realmente sem jeito e espero que ele não peça para tocar meu cabelo nem faça um monte de perguntas idiotas. Não que eu não queira que ele toque meu cabelo; quero. Só que não como uma curiosidade.
— Acho que você ficaria linda com um afro rosa gigante.
A sinceridade é sensual, e meu coração cético nota isso.
— Não seria todo rosa. Talvez só as pontas.
Ele estende a mão para a caixa, de modo que agora nós dois estamos segurando-a e nos encarando num corredor em que só há espaço suficiente para um.
— Iria parecer uma cobertura de morango.
Com a outra mão ele puxa alguns fios do meu cabelo entre os dedos e eu descubro que não me importo nem um pouquinho.
— Ah, olha. Meu irmãozinho — diz uma voz no fim do corredor.
Daniel tira a mão rapidamente do meu cabelo. Nós dois largamos a caixa ao mesmo tempo e ela cai no chão. Daniel se abaixa para pegar. Eu me viro para o intruso.
É mais alto e mais corpulento do que Daniel. No rosto a estrutura óssea da família parece ainda mais acentuada. Ele encosta numa estante a vassoura que estava segurando e vem andando pelo corredor. Seus olhos grandes e escuros estão cheios de curiosidade e uma espécie de alegria maliciosa.
Não sei se gosto dele.
Daniel se levanta e me devolve a tintura.
— E aí, Charlie? — pergunta.
— Aqui tudo bem, irmãozinho — diz Charlie.
Está me olhando enquanto responde, e a expressão é mais de desprezo do que um sorriso.
— Quem é essa? — pergunta ele, ainda olhando só para mim.
Daniel respira fundo e se prepara para dizer alguma coisa, mas sou mais rápida:
— Natasha. — Ele me encara como se devesse haver mais alguma coisa a dizer. — Amiga do seu irmão — continuo.
— Ah, achei que ele tinha apanhado uma freguesa roubando. — Seu rosto é uma paródia de inocência. — Temos muito disso numa loja assim. — Seus olhos são risonhos e maus. — Tenho certeza de que você entende.
Definitivamente, não gosto dele.
— Meu Deus, Charlie.
Daniel dá um passo na direção de Charlie, mas eu seguro sua mão. Ele para, entrelaça os dedos nos meus e aperta.
Charlie exagera o olhar que lança para nossas mãos juntas e depois olha para nosso rosto.
— Isso é o que eu acho que é? Amoooooor. É, irmãozinho?
Ele bate palmas ruidosamente e faz uma dancinha, gargalhando.
— Isso é fantástico. É. Você sabe o que significa, não sabe? Vão parar de pegar no meu pé. Quando nossos pais descobrirem, vou ser o perfeito escoteiro de novo. Foda-se a suspensão acadêmica.
Agora ele está gargalhando e esfregando as mãos, como um vilão detalhando os planos para dominar o mundo.
— Você é um escroto — digo, incapaz de me conter.
Ele sorri como se eu tivesse feito um elogio. Mas o sorriso não dura.
Olha para nossas mãos de novo e em seguida para Daniel.
— Você é um tremendo idiota — diz. — Aonde você vai com isso?
Aperto a mão de Daniel com mais força e a puxo. Quero provar que Charlie está errado.
— Faça o que tem que fazer e vamos embora daqui — peço.
Daniel confirma com a cabeça e nós nos viramos — e damos de cara com o pai dele. Tiro a mão da sua ao mesmo tempo em que ele está soltando a minha, mas é tarde demais. O pai já viu.


daniel

Gigantesco saco de canalhice se disfarça de adolescente e não engana ninguém.
Charlie é um gigantesco saco de canalhice que eu adoraria incendiar. Quero dar um soco naquela cara presunçosa. Não é uma emoção nova, já que quero fazer isso desde os meus 10 anos, mas desta vez ele finalmente foi longe demais.
Estou pensando em como seria bom quebrar a mão na cara dele, mas também estou concentrado na sensação da mão de Natasha na minha.
Preciso tirá-la daqui antes que minha família escangalhe minha vida justo quando ela está começando.
— O que você está fazendo? — meu pai pergunta em coreano.
Decido ignorar a pergunta que ele faz. Em vez disso estendo a bolsa.
— Mamãe disse que eu precisava trazer isto. — Respondo em inglês para que Natasha não pense que estamos falando dela.
Charlie vem para perto de mim.
— Quer que eu ajude a traduzir para sua amiga?
Ele superenfatiza o amiga. Porque ser um saco de canalhice é a razão da existência de Charlie.
Meu pai lança um olhar duro para ele.
— Achei que você não entendia coreano — diz ao Charlie.
Charlie dá de ombros.
— Eu me viro.
Nem a desaprovação do meu pai consegue impedir que ele se divirta à minha custa.
— Foi por isso que fracassou em Harvard? Você só se vira?
Essa parte meu pai diz em coreano, porque a última coisa que ele faria seria lavar nossa roupa suja na frente de uma miguk saram. Uma americana.
Charlie não liga a mínima e traduz mesmo assim, mas está sorrindo um pouco menos.
— Não se preocupe — explica a Natasha. — Ele não está falando de você. Ainda não. Só está me chamando de idiota.
O rosto do meu pai fica totalmente inexpressivo, portanto sei que agora ele está com raiva de verdade. Charlie o encurralou. Charlie vai traduzir qualquer coisa que ele disser, e o senso de adequação do meu pai não pode permitir isso.
Então ele se transforma no Lojista Educado, como o vi fazer um milhão de vezes com um milhão de clientes.
— Quer alguma coisa antes de sair? — pergunta a Natasha.
Ele junta as mãos, se curva um tantinho e dá seu melhor sorriso de atendimento ao cliente.
— Não, obrigada, senhor... — Ela para porque não sabe meu sobrenome.
Meu pai não responde.
— Sim. Sim. Você amiga do Daniel. Pegue o que quiser.
Sinto que é um acidente prestes a acontecer, mas não sei como impedi-lo. Ele bate nos bolsos até encontrar os óculos e olha os frascos na prateleira.
— Este corredor, não — murmura. — Venha comigo.
Talvez a coisa termine rápido se concordarmos com isso. Natasha e eu o acompanhamos, impotentes, enquanto Charlie ri.
Meu pai encontra o que está procurando no corredor seguinte.
— Aqui. Relaxante para o seu cabelo.
Ele pega um tubo grande, preto e branco, numa prateleira e entrega a Natasha.
— Relaxante — repete. — Faz seu cabelo não tão grande.
Charlie dá uma gargalhada longa.
Começo a dizer que ela não precisa de nada, mas Natasha interrompe.
— Obrigada, senhor...
— Bae — digo, porque ela deveria saber meu sobrenome.
— Sr. Bae. Não preciso de...
— Cabelo grande demais — repete ele.
— Gosto de grande — diz ela.
— Então é melhor arranjar outro namorado. — Charlie mexe as sobrancelhas para garantir que todos entendemos sua insinuação.
Fico surpreso porque ele não acompanha isso com um gesto de mão, para ser absolutamente claro. Minha surpresa não dura, porque ele mostra o polegar e o indicador separados por dois centímetros.
— Boa piada, Charlie — digo. — É, meu pênis só tem dois centímetros.
Não me incomodo em encarar meu pai.
Natasha se vira para mim e parece meio chocada. Está definitivamente reconsiderando suas escolhas recentes na vida. Praticamente jogo a bolsa para o meu pai. As coisas não podem piorar, por isso pego a mão dela apesar de meu pai estar ali parado. Graças a Deus, ela deixa que eu a pegue.
— Obrigado, volte sempre — troveja Charlie quando estamos quase saindo pela porta.
Ele parece um pinto no lixo. Ou talvez só o lixo.
Faço um gesto obsceno para ele e ignoro a enorme desaprovação que vem do meu pai, porque mais tarde haverá tempo para isso.


natasha

ESTOU RINDO, MESMO SABENDO que não deveria. Foi uma experiência completamente medonha. Coitado do Daniel.
Fato Observável: as famílias são a pior coisa do mundo.
Estamos quase de volta à estação do metrô quando ele para de me puxar. Dá um tapa na própria nuca e baixa a cabeça.
— Desculpe — diz, tão baixinho que mais leio seus lábios do que ouço.
Estou tentando segurar o riso, porque ele parece estar de luto por alguém, mas tenho dificuldade. A imagem do pai dele tentando me empurrar o tubo de relaxante de cabelos me vem à mente e é quase impossível conter o riso. Quando começo não consigo mais parar. Aperto a barriga e a histeria me domina. Daniel só me olha. Ele franze tanto a testa que é capaz de ela ficar assim permanentemente.
— Aquilo foi terrível — digo ao me acalmar. — Acho que não poderia ter sido pior. Pai racista. Irmão mais velho racista sexista.
Daniel esfrega um ponto na nuca e franze a testa mais um pouco.
— E a loja! Puxa, aqueles cartazes velhíssimos com aquelas mulheres, e seu pai criticando meu cabelo, e seu irmão fazendo uma piada de pau pequeno.
Quando termino de fazer a lista de todas as coisas horríveis estou gargalhando outra vez. Ele demora mais alguns segundos, mas finalmente sorri também, e fico feliz com isso.
— Que bom que você acha engraçado — declara ele.
— Qual é! Tragédia é um negócio engraçado.
— Estamos numa tragédia? — pergunta ele, agora com um sorriso largo.
— Claro. A vida não é isso? No fim, todos nós morremos.
— Acho que é.
Ele chega mais perto, pega a minha mão e a coloca em seu peito.
Examino minhas unhas. Examino as cutículas. Qualquer coisa para não olhar aqueles olhos castanhos. O coração dele bate sob os meus dedos.
Por fim levanto a cabeça e ele cobre minha mão com a sua.
— Desculpe — diz. — Desculpe pela minha família.
Confirmo com a cabeça, porque a sensação do coração batendo está fazendo coisas esquisitas com minhas cordas vocais.
— Desculpe tudo, toda a história do mundo, todo o racismo e a injustiça disso.
— O que você está dizendo? A culpa não é sua. Você não pode se desculpar pelo racismo.
— Posso e me desculpo.
Meu Deus. Me salve dos caras legais e sinceros que sentem as coisas de modo muito profundo. Ainda acho que o que aconteceu é engraçado em seu horror perfeito, mas também entendo a vergonha dele. É difícil vir de um lugar ou de uma pessoa de quem a gente não se orgulha.
— Você não é o seu pai — afirmo.
Mas ele não acredita. Entendo seu medo. Quem somos nós, senão produtos dos nossos pais e da história deles?


cabelo
Uma história coreano-americana

A FAMÍLIA DE DANIEL NÃO ENTROU no mercado de cosmética para negros por acaso. Quando Dae Hyun e Min Soo se mudaram para Nova York, havia toda uma comunidade de imigrantes sul-coreanos querendo ajudá-los. O primo de Dae Hyun emprestou dinheiro e aconselhou que abrissem uma loja de cosméticos para negros. Seu primo tinha um comércio semelhante, assim como muitos outros imigrantes na nova comunidade. As lojas estavam prosperando.
O domínio dos sul-coreanos no ramo de cosmética para negros também não aconteceu por acaso. Começou na década de 1960, com o aumento da popularidade das perucas feitas com cabelos de sul-coreanos entre a comunidade afro-americana. As perucas eram tão populares que o governo sul-coreano proibiu a exportação de cabelo. Isso garantiu que as perucas de cabelos sul-coreanos só pudessem ser feitas na Coreia do Sul. Essas duas ações solidificaram o domínio da Coreia do Sul no mercado de perucas. O negócio de perucas evoluiu naturalmente para o de produtos para os cabelos dos negros.
Estima-se que empresas sul-coreanas controlem entre 60% e 80% desse mercado, incluindo distribuição, varejo e, cada vez mais, produção. Seja por motivos culturais ou raciais, esse domínio torna impossível qualquer outro grupo colocar os pés no negócio. Os distribuidores sul-coreanos vendem principalmente para os varejistas sul-coreanos, deixando todos os outros fora do mercado.
Dae Hyun não sabe dessa história. O que sabe é o seguinte: os Estados Unidos são a terra da oportunidade. Seus filhos terão mais do que ele teve.

3 comentários:

  1. Que ódio desse Charlie......................................

    ResponderExcluir
  2. Não sei exatamente o que pensar desse capitulo,mas Deus,como esses dois são uma gracinha

    ResponderExcluir
  3. Nossa até parece q sou a primeira a ler este livro

    ResponderExcluir

Para comentar, por favor utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!