1 de março de 2019

parte sete

daniel

A PORTA DO ESCRITÓRIO do advogado Fitzgerald fica no final de um corredor comprido, cinza e quase sem ornamentos. Tento (e não consigo) não ver isso como um sinal do meu futuro. Não há nome na porta, só um número. Ninguém atende quando bato. Talvez ele já tenha ido embora. Porque isso seria o ideal. Aí não seria minha culpa se eu não fosse para Yale e não virasse médico. Não importa que eu esteja dez minutos atrasado por causa de todos os beijos. Não me arrependo de nada.
Giro a maçaneta e dou de cara com uma mulher soluçando. Ela nem está escondendo o rosto com as mãos, como as pessoas costumam fazer. Está parada no meio da sala inalando grandes porções de ar, com lágrimas descendo pelo seu rosto. O rímel escorre pelas bochechas e os olhos estão inchados e vermelhos, como se tivesse chorado por muito tempo.
Quando percebe que estou ali parado, ela para de chorar e enxuga o rosto com as costas das mãos. O ato de enxugar piora tudo, pois agora o rímel está no nariz também.
— A senhora está bem?
É a pergunta mais idiota em que posso pensar. Obviamente ela não está bem.
— Estou — diz ela, mordendo o lábio inferior e tentando ajeitar o cabelo, mas de novo piorando o problema. — Você é Daniel Bae — confirma a mulher. — Veio para a entrevista de admissão.
Dou um passo na direção dela.
— Posso pegar um copo d’água, um lenço de papel ou alguma coisa para a senhora?
Vejo uma caixa de lenços de papel vazia na mesa, ao lado de uma caneca onde está escrito ESTAGIÁRIOS SÃO MAIS BARATOS.
— Estou ótima. Ele está bem ali.
Ela aponta para uma porta às suas costas.
— Tem certeza de que a senhora... — começo, mas ela me interrompe.
— Preciso ir agora. Diga a ele que ele é a pessoa mais maravilhosa que já conheci, mas preciso ir.
Digo “Tudo bem”, ainda que não vá falar nada disso a ele. Além do mais, o escritório é bem pequeno. Ele provavelmente já ouviu a declaração dela.
A mulher volta à sua mesa e pega a caneca ESTAGIÁRIOS.
— E diga que quero ficar, mas não posso. É melhor para nós dois.
E volta a chorar. E neste momento posso sentir meus olhos se enchendo de lágrimas. Nem um pouco legal.
Ela para de chorar abruptamente e me encara.
— Você está chorando?
Enxugo os olhos.
— É só um negócio idiota que acontece comigo. Começo a chorar quando vejo as pessoas chorando.
— Que coisa doce! — exclama ela com a voz um tanto musical e já parando de se afogar em lágrimas.
— Na verdade, é um saco.
— Olhe o palavreado — diz ela, franzindo a testa.
— Desculpe.
Que tipo de pessoa é contra uma palavra inocente como saco?
Ela aceita meu pedido de desculpas assentindo ligeiramente.
— Nós acabamos de nos mudar para esse escritório, e agora nunca mais vou ver este lugar de novo. — Ela funga e enxuga o nariz. — Se eu soubesse como iria terminar, jamais teria começado.
— Todo mundo quer ser capaz de prever o futuro — digo.
Os olhos dela se enchem de lágrimas outra vez enquanto confirma com a cabeça.
— Quando eu era pequena, meus livros prediletos eram os de contos de fadas, porque antes mesmo de abrir a gente sabia como ia acabar. Felizes para sempre. — Ela encara a porta fechada, fecha os olhos e abre de novo. — Nos contos de fadas a princesa nunca faz a coisa errada.
A porta atrás de mim se abre. Eu me viro, curioso para saber como é a pessoa mais maravilhosa do mundo. A não ser pelo curativo acima do olho direito, ele parece bem normal.
— Daniel Bae? — pergunta ele me fitando.
Seu olhar não se desvia para ela nem por um segundo.
Estendo a mão.
— Sr. Fitzgerald. É um prazer conhecê-lo.
Ele não aperta minha mão.
— Você está atrasado — diz, e volta para sua sala.
Eu me viro para me despedir da secretária, mas ela já foi embora.


natasha

TIRO MEU CELULAR DA MOCHILA. Bev ainda não respondeu à minha mensagem. Talvez esteja fazendo outra visita. Lembro que ela disse que queria ir à Universidade da Califórnia, em São Francisco, também.
Eu deveria ligar para minha mãe. Na verdade, acho que deveria ter ligado em muitas ocasiões no dia de hoje. Ela ligou três vezes enquanto Daniel e eu estávamos no topo do prédio.
Mando uma mensagem: Já vou para casa.
O telefone zumbe quase imediatamente. Acho que ela estava esperando notícias minhas.
Estou tentando falar com você há duas horas.
Desculpe!, digito de volta.
Ela sempre precisa dar a última palavra, por isso espero a resposta inevitável.
Nenhuma novidade, né? Espero que você não tenha tido esperança demais.
Jogo o telefone na mochila sem responder.
Às vezes acho que o maior medo da minha mãe é o de se decepcionar. Ela combate isso tentando ao máximo nunca ter esperança e instigando todo mundo a fazer a mesma coisa.
Nem sempre funciona. Uma vez ela trouxe para casa um anúncio de teste para uma peça Off-Off-Off-Broadway para o meu pai. Não sei onde ela encontrou aquilo nem qual era o papel. Ele pegou e até agradeceu, mas tenho certeza de que nunca ligou para aquele número.
Decido esperar o último telefonema do advogado Fitzgerald antes de dizer qualquer coisa a ela. Minha mãe já teve muitas decepções.
O problema de elevar a esperança às alturas é: a queda é muito longa.


samuel kingsley
Uma história de arrependimento — Parte 4

ALGUMAS PESSOAS NASCEM para a grandeza. Deus dá a uns poucos de nós algum talento e nos coloca na Terra para usarmos esse talento.
Só pude usar o meu duas vezes na vida. Há dois meses, quando fiz O sol tornará a brilhar, em Manhattan, e há dez anos, quando fiz a peça em Montego Bay. Simplesmente existe alguma coisa entre mim e essa peça, algo que estava destinado a ser. Na Jamaica, o Daily chamou meu desempenho de milagroso. Fui aplaudido de pé. Eu. Não os outros atores. Só eu.
É engraçado. A peça me mandou para os Estados Unidos e agora está me mandando de volta para a Jamaica.
Patricia perguntou como é que fui contar da nossa vida ao policial. Ele não é pastor, ela disse. Isso não é confissão. Expliquei a ela que só estava bêbado e que tinha saído empolgado do palco. A coisa mais importante que a gente pode fazer é realizar aquilo que Deus colocou a gente nesta Terra para fazer. Falei que não era minha intenção. E é verdade; mas o oposto também é.
Talvez eu tenha feito de propósito. Isso não é confissão. Só estou dizendo que o pensamento está na minha cabeça. Talvez eu tenha feito de propósito. A gente nem conseguiu lotar o teatrinho.
Este país está cheio de mim e eu estou cheio dele. Mais do que qualquer coisa, aquela noite me fez lembrar. Na Jamaica fui aplaudido de pé. Nos Estados Unidos nem consigo uma plateia.
Não sei. Talvez eu tenha feito de propósito. A gente pode se perder na própria mente, como se tivesse ido para outro país. Todos os seus pensamentos são em outra língua e não dá para ler os sinais, apesar de estarem em toda parte à sua volta.


daniel

A PRIMEIRA COISA QUE VEJO na mesa dele é uma pasta com o nome de Natasha. Natasha Kingsley. Tem de ser ela, não é? Quantas Natashas Kingsley podem existir? Não somente nossos compromissos eram no mesmo prédio, mas o advogado dela e meu entrevistador são a mesma pessoa? Mal posso esperar para ver a cara dela quando eu contar.
Olho para ele e depois ao redor da sala, procurando outros sinais.
— O senhor é advogado de imigração? — pergunto.
Ele levanta os olhos do que eu presumo que seja minha candidatura.
— Sou. Por quê?
— Acho que conheço uma cliente sua — digo, e pego a pasta.
Ele a arranca da minha mão.
— Não toque nisto. É sigiloso — repreende ele enquanto empurra a pasta para o mais longe possível de mim.
Rio para Fitzgerald e ele franze a testa.
— Desculpe — digo. — É que o senhor acaba de salvar minha vida.
— Do que você está falando?
Ele flexiona o pulso direito e noto um curativo em sua mão. Agora me lembro de que a secretária disse que ele teve um acidente de carro.
Aponto para a pasta.
— Eu conheci a Natasha hoje.
Ele ainda está franzindo a testa, sem entender.
— Quando a conheci ela ia ser deportada, mas então ela se encontrou com o senhor, que fez a magia de advogado, e agora ela vai ficar.
Ele pousa a mão com o curativo na mesa.
— E como isso salvou a sua vida?
— Ela é a mulher da minha vida.
Ele estranha.
— Você não disse que a conheceu hoje?
— É.
Não consigo fazer nada com relação ao sorriso enorme no meu rosto.
— E ela é a mulher da sua vida?
Ele não coloca aspas aéreas em volta de “mulher da sua vida”, mas posso ouvi-las em sua voz. Aspas vocais (que não são melhores do que as aéreas).
Ele junta as pontas dos dedos das mãos e me olha por um bom tempo.
— Por que você está aqui?
É uma pergunta capciosa?
— Para minha entrevista de admissão?
Ele me examina com atenção.
— Não. Me diga com sinceridade. Por que está no meu escritório agora? Você obviamente não está se importando com esta entrevista. Chegou parecendo que participou de uma briga de rua. É uma pergunta séria. Por que veio aqui?
Não há outro modo de responder a não ser com honestidade.
— Meus pais me obrigaram.
— Quantos anos você tem?
— Dezessete.
Ele olha para a minha pasta.
— Aqui diz que você está interessado na área de medicina. Está?
— Na verdade, não.
— Na verdade não ou simplesmente não? — Os advogados gostam das certezas.
— Simplesmente não.
— Agora você está chegando a algum lugar. Você quer estudar em Yale?
— Nem sei se quero cursar faculdade.
Ele se inclina para a frente. Eu me sinto como alguém que está sendo interrogado num tribunal.
— E qual é o seu grande sonho?
— Ser poeta.
— Ah, bom — diz ele. — Uma coisa prática.
— Acredite ou não, já ouvi isso antes.
Ele se inclina mais ainda.
— Vou perguntar de novo. Por que está aqui?
— Preciso estar.
— Não precisa, não — dispara ele de volta. — Você pode se levantar e sair por aquela porta.
— Eu devo isso aos meus pais.
— Por quê?
— O senhor não entenderia.
— Tente explicar.
Suspiro (do tipo sofrido).
— Meus pais são imigrantes. Eles se mudaram para cá em busca de uma vida melhor. Trabalham o tempo todo para que meu irmão e eu possamos viver o Sonho Americano. Em nenhum lugar no Sonho Americano diz que você pode deixar a faculdade de lado e virar um artista morto de fome.
— Diz que você pode ser o que quiser.
Fungo.
— Não na minha família. Se eu não fizer isso, sou cortado. Sem verba para a faculdade. Sem nada.
Essa confissão ao menos faz com que ele pare de disparar a metralhadora daquele interrogatório e volte a recostar na cadeira.
— Eles fariam mesmo isso?
Sei a resposta, mas não posso me obrigar a dizer neste momento. Penso no rosto de meu pai hoje à tarde. Ele está tremendamente decidido a que Charlie e eu tenhamos uma vida melhor do que a dele. Faria qualquer coisa para garantir isso.
— Fariam. Ele faria. Mas não porque é mau. E não porque é o Estereótipo do Pai Coreano. Mas porque não consegue enxergar além da própria história para deixar que nós tenhamos a nossa.
Um monte de gente é assim.
Fitzgerald assobia baixo.
— Então acho que você tem que garantir que o negócio de poesia valha a pena.
Agora sou eu que estou me inclinando para a frente.
— O senhor nunca fez uma coisa só porque foi obrigado a fazer? Só porque fez uma promessa?
Seu olhar se afasta do meu. Por algum motivo essa pergunta muda a dinâmica entre nós. Parece que estamos no mesmo barco.
— Cumprir com as obrigações é a definição de vida adulta, garoto. Se você vai cometer erros e violar promessas, a hora é agora.
Ele para de falar, flexiona o pulso e faz uma careta.
— Faça as besteiras que tiver de fazer agora, quando as consequências não são tão ruins. Confie em mim. Mais tarde fica mais difícil.
Às vezes as pessoas dizem coisas quando não dizem coisas. Olho para a mão esquerda dele e vejo a aliança de casamento.
— Foi isso que aconteceu com o senhor?
Ele separa as pontas dos dedos e gira a aliança no dedo.
— Sou casado e tenho dois filhos.
— E está tendo um caso com sua secretária.
Fitzgerald esfrega o curativo acima do olho.
— Começou hoje. — Ele olha para a porta fechada, como se esperasse que ela estivesse ali. — E acabou hoje, também — diz baixinho.
Eu não esperava de fato que ele admitisse, e agora não sei bem o que dizer.
— Você me acha um sujeito ruim — murmura.
— Acho que o senhor é meu entrevistador.
Talvez seja melhor nós dois recolocarmos esta entrevista nos trilhos.
Ele cobre os olhos com as mãos.
— Eu a conheci tarde demais. Sempre tive uma péssima noção de tempo.
Não sei o que dizer. Não que ele esteja querendo meu conselho.
Normalmente eu diria: siga seu coração. Mas ele é um homem casado. O coração dele não é o único envolvido.
— E o que vai fazer? Deixar que ela vá embora? — pergunto.
Ele me olha por um longo tempo, pensando.
— Você terá que fazer o mesmo — diz finalmente.
E aproxima de mim a pasta de Natasha.
— Não consegui. Achei que conseguiria, mas não consegui.
— O quê?
— Impedir a deportação dela.
Ele vai ter de soletrar para mim, porque não estou processando as palavras.
— Sua Natasha vai ser deportada esta noite, no fim das contas. Não pude impedir que isso acontecesse. O juiz não quis cancelar a Remoção Voluntária.
Não sei o que é uma Remoção Voluntária, mas só consigo pensar que há algum engano. É definitivamente um engano. Agora espero que seja mesmo outra Natasha Kingsley.
— Sinto muito, garoto.
Ele empurra a pasta para mim, como se o fato de eu olhá-la fosse ajudar.
Abro. É uma espécie de formulário oficial. Só vejo o nome dela: Natasha Katherine Kingsley. Eu não sabia qual era o segundo nome. Katherine. Combina com ela.
Fecho a pasta e a empurro de volta para ele.
— Tem de haver alguma coisa que o senhor possa fazer.
As pontas dos dedos estão unidas de novo e ele dá de ombros.
— Já tentei de tudo.
O dar de ombros acaba comigo. Isso não é uma coisa pequena. Não é tipo Ah, você perdeu a hora da entrevista. Volte amanhã. Isso é a vida de Natasha. E a minha.
Fico de pé.
— O senhor não tentou o suficiente — acuso.
Aposto que o caso com a secretária tem alguma coisa a ver com isso. Aposto que ele passou o dia violando as promessas feitas à mulher e aos filhos. E a Natasha também.
— Olhe, sei que você está chateado. — A voz dele está tranquila, como se tentasse me acalmar.
Mas não quero me acalmar. Pressiono as mãos na mesa e me inclino para a frente.
— Tem de haver alguma coisa que o senhor possa fazer. Não é culpa dela se o pai é um cretino.
Ele empurra a cadeira para trás.
— Desculpe. O Departamento de Segurança Interna não gosta se a pessoa fica mais tempo do que o visto permite.
— Mas ela era só uma criança. Não tinha escolha. Não é como se pudesse ter dito Mãe, pai, nosso visto expirou. Deveríamos voltar para a Jamaica.
— Não importa. A lei tem de estabelecer um limite em algum ponto. A última apelação deles foi negada. A única esperança era o juiz. Se eles forem embora esta noite, há uma pequena chance de ela pedir um visto novo daqui a alguns anos.
— Mas os Estados Unidos são o lar dela! — grito. — Não importa onde ela nasceu.
Não digo o resto: que ela pertence a mim.
— Eu gostaria de poder fazer alguma coisa. — Ele toca de novo no curativo acima do olho e parece lamentar de verdade. Talvez eu esteja errado. Talvez ele tenha tentado mesmo. — Pretendo ligar para ela depois de nós dois terminarmos aqui.
Depois de terminarmos. Esqueci completamente que esta entrevista deveria ser sobre minha ida para Yale.
— O senhor vai apenas ligar e contar a ela pelo telefone?
— Importa como ela vai saber? — Ele franze a testa.
— Claro que importa. — Não quero que ela receba a pior notícia da vida pelo telefone, dada por uma pessoa que ela mal conhece. — Eu faço isso. Eu conto.
Ele balança a cabeça.
— Não posso deixar. É o meu trabalho.
Fico sentado, sem saber o que fazer. Meu lábio lateja. O ponto nas costelas onde Charlie me deu um soco dói. O lugar do coração onde está Natasha dói.
— Sinto muito, garoto — repete ele.
— E se ela não entrar no avião? E se ela simplesmente ficar?
Estou desesperado. Violar a lei parece um preço pequeno a pagar para que ela fique.
Outro balanço de cabeça.
— Não recomendo. Nem como advogado nem como pessoa.
Preciso ir até ela e contar primeiro. Não quero que ela esteja sozinha quando souber.
Saio da sala para a recepção vazia. A secretária não voltou.
Ele me acompanha.
— Então é isso? Chega de entrevista?
Não paro de andar.
— O senhor mesmo disse. Eu não me importo de verdade com Yale.
Ele põe a mão no meu braço para que eu vire e o encare.
— Olhe, sei que eu disse que você deveria fazer suas besteiras agora, enquanto ainda é um garoto, mas Yale é um negócio importante. Estudar lá pode abrir um monte de portas para você. Abriu para mim.
E talvez ele esteja certo. Talvez eu precisasse enxergar mais longe.
Olho o escritório ao redor. Quanto tempo falta para a reforma terminar? Quanto tempo vai demorar para ele conseguir outra secretária?
Aponto o queixo na direção da mesa dela.
— O senhor fez todas as coisas que deveria, e ainda assim não está feliz.
Ele esfrega de novo o curativo e não olha para a mesa. Está cansado, mas não é o tipo de cansaço que pode ser resolvido com uma noite de sono.
— Se eu não for agora, vou me arrepender para sempre — digo.
— Que tal mais meia hora para terminar esta entrevista? — insiste ele.
Será que ele precisa mesmo que eu fale que todos os segundos importam? Que nosso Universo surgiu no intervalo de uma respiração?
— O tempo importa, Sr. Fitzgerald.
Por fim, ele me dá as costas e olha para a mesa vazia.
— Mas o senhor já sabe disso — declaro.


jeremy fitzgerald
Um conto de fadas — Parte 2

JEREMY FITZGERALD NÃO CONTOU a verdade a Daniel. O motivo pelo qual não conseguiu impedir a deportação de Natasha foi que faltou ao encontro marcado com o juiz que poderia ter cancelado a Remoção Voluntária. Faltou porque está apaixonado por Hannah Winter, e em vez de ir falar com o juiz passou a tarde num hotel com ela.
Sozinho em seu escritório inacabado, Jeremy não vai parar de pensar em Daniel Bae durante a semana seguinte. Vai se lembrar do que Daniel disse, que o tempo importa. Vai se lembrar com perfeita clareza do lábio partido e da camisa ensanguentada de Daniel. Vai se lembrar de como isso não era nada comparado à devastação completa no rosto de Daniel ao saber da notícia sobre Natasha. Como se alguém tivesse lhe entregado uma granada e explodido sua vida.
Em algum momento do mês seguinte Jeremy vai dizer à esposa que não a ama mais. Que será melhor para ela e para os filhos se ele for embora. Vai ligar para Hannah Winter, fazer promessas e cumprir todas elas.
Seu filho nunca vai se ajeitar na vida, não vai se casar nem ter os próprios filhos, nem vai perdoar a traição do pai. Sua filha vai se casar com a primeira namorada, Marie. Vai passar a maior parte do primeiro casamento prevendo e depois provocando o final, e depois de Marie ninguém mais vai amá-la tanto. E, apesar de se casar mais duas vezes, nunca vai amar tanto quanto amou Marie.
Os filhos de Jeremy e Hannah vão crescer e amar outras pessoas do modo simples e descomplicado das pessoas que sempre souberam de onde vem o amor e não têm medo de perdê-lo.
Tudo isso não é para dizer se Jeremy fez a coisa certa ou a coisa errada. É só para dizer o seguinte: o amor sempre muda tudo.


hannah winter
Um conto de fadas — Parte 2

E VIVERAM FELIZES PARA SEMPRE.

2 comentários:

  1. Mas e a Natasha??????? Nãããããoooooo.... pelo menos não poderia ter adiado pra ficar com a Hannah depois??
    Ainda assim... cara, deixar a mulher e os filhos quando já se é casado...

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  2. Que advogado filho da mãe!

    -Gabriela

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Boa leitura, E SEM SPOILER!