1 de março de 2019

parte seis

natasha

É DIFÍCIL SABER como me sinto agora. Não confio de verdade no que aconteceu, ou talvez só não tenha tido tempo suficiente para processar.
Verifico o celular. Bev finalmente mandou uma mensagem. Ela ama, ama, ama Berkeley. Diz que acha que seu destino é ir para lá. Além disso, os caras da Califórnia são bonitos de um jeito diferente dos de Nova York. A última mensagem pergunta como estou, com uma fileira de corações partidos. Decido ligar e contar o que o advogado Fitzgerald disse, mas ela não atende.
Ligue para mim, digito.
Passo pela porta giratória, saio na frente do prédio e simplesmente paro de me mover. Um punhado de pessoas lancha nos bancos perto da fonte. Há gente andando depressa, de terno, entrando e saindo do prédio. Uma fila de carros pretos espera junto ao meio-fio enquanto os motoristas fumam e batem papo.
Como é que este pode ser o mesmo dia? Como é que todas essas pessoas podem continuar com a vida sem saber nada do que acontece na minha? Às vezes o mundo da gente balança com tanta força que é difícil imaginar que quem está ao redor não perceba também. Foi assim que me senti quando recebemos a ordem de deportação. E também quando descobri que Rob estava me traindo.
Pego o telefone de novo e olho o número do Rob, antes de lembrar que o apaguei. Mas meu cérebro guarda números, e eu digito de memória. Não percebo que estou ligando até que ele atende.
— Eiiiiii, Nat. — Sua voz sai arrastada.
Ele nem tem o bom gosto de parecer surpreso.
— Meu nome não é Nat — declaro.
Agora que estou falando com ele, não sei por que queria falar com ele.
— Não foi legal o que você e seu novo cara fizeram hoje.
A voz dele é profunda, lenta e preguiçosa, como sempre. É engraçado como coisas que já pareceram tão encantadoras podem ficar chatas e irritantes. Achamos que queremos ter todo o tempo do mundo com a pessoa que amamos, mas talvez a gente só precise do contrário. Só de uma quantidade de tempo finita, para acharmos que o outro ainda é interessante. Talvez não precisemos do segundo e do terceiro atos. Talvez o amor seja melhor no primeiro.
Ignoro sua censura e argumento que ele é que estava roubando a loja, e que portanto ele é que não foi legal.
— Tenho uma pergunta — digo.
— Vai fundo.
— Por que você me traiu?
Alguma coisa cai no chão do lado dele e Rob gagueja o início de três respostas diferentes.
— Calma — peço. — Não estou ligando para brigar e definitivamente não quero voltar com você. Só quero saber. Por que você simplesmente não terminou comigo? Por que trair?
— Não sei — responde ele, conseguindo tropeçar em duas palavras simples.
— Qual é! — instigo. — Tem de haver um motivo.
Ele está quieto, pensando.
— Realmente não sei.
Fico quieta.
— Você é fantástica. E Kelly é fantástica. Eu não queria ferir seus sentimentos e não queria ferir os sentimentos dela.
Ele parece sincero e não sei o que fazer com isso.
— Mas, para chegar a me trair, você devia gostar mais dela, certo?
— Não. Eu só queria vocês duas.
— É isso? Você não queria escolher?
— É isso — responde ele, como se bastasse.
A resposta é tão capenga, tão incrivelmente insatisfatória, que quase desligo. Daniel jamais se sentiria assim. O coração dele escolhe.
— Mais uma pergunta. Você acredita no amor verdadeiro e naquela coisa toda?
— Não. Você me conhece. Você também não acredita.
Não?
— Certo. Obrigada. — Já estou prestes a desligar, mas ele me detém.
— Posso pelo menos dizer que sinto muito?
— Vá em frente.
— Sinto muito.
— Certo. Não traia a Kelly.
— Não vou trair.
Acho que ele é sincero enquanto fala.
Eu deveria ligar para os meus pais e contar sobre o advogado Fitzgerald, mas não é a eles que quero contar agora. É ao Daniel. Preciso encontrá-lo e contar.
Rob diz que eu não acredito no amor verdadeiro. E está certo. Não acredito.
Mas posso querer acreditar.


daniel

SAIO DA LOJA. Há uma violinista de pé num caixote, na frente da loja de penhores que fica ao lado. É pálida, magra e maltrapilha de um jeito poético, como algo saído de David Copperfield. Diferentemente dela, o violino é novíssimo. Ouço por alguns segundos, mas não sei se ela é boa. Sei que há um modo objetivo de julgar essas coisas: ela está tocando todas as notas certas no ritmo e no tom corretos?
Mas também há outro modo de julgar: a música que está sendo tocada aqui, agora, importa para alguém?
Decido que importa para mim. Volto correndo até ela e jogo um dólar em seu chapéu. Há um cartaz ao lado, que não leio. Não quero saber da sua história. Só quero a música e o momento.
Meu pai disse que Natasha e eu nunca poderíamos dar certo. E talvez ele tenha razão, mas não pelos motivos que pensa. Que idiota eu fui! Deveria estar com ela agora, ainda que só tenhamos o dia de hoje. Especialmente se só tivermos o dia de hoje.
Vivemos na Era do Celular, mas não tenho o número dela. Nem sei o sobrenome dela. Como um idiota, digito no Google “Natasha Facebook New York” e surgem 5.790.000 resultados. Clico nuns cem links, e ainda que todas as Natashas sejam bem agradáveis, nenhuma é a minha Natasha. Quem imaginaria que seu nome fosse tão popular?
São 16h15 e as ruas estão começando a se encher de novo com as pessoas se encaminhando para as estações de metrô. Como eu, parecem exaustas. Corro rente ao meio-fio para impedir que os pedestres da calçada diminuam meu ritmo.
Não tenho nenhum plano a não ser encontrá-la de novo. A única coisa a fazer é ir ao Último Local Conhecido — o escritório do advogado na rua 52 — e esperar que o Destino esteja do meu lado e ela ainda esteja lá.


natasha

UM CASAL, AMBOS COM CABELOS moicanos de um azul vivo, está discutindo na frente do metrô da rua 52. Estão fazendo aquela coisa esquisita, cheia de sussurros e sibilos, que os casais fazem quando brigam em público. Não ouço o que dizem, mas os gestos falam tudo. Ela está indignada com ele. Ele está exasperado com ela. Definitivamente, não estão no início do relacionamento. Os dois parecem muito cansados para isso. Dá para ver a longa história deles só pelo modo como se inclinam um para o outro. Será que esta é a última briga que vão ter? Será que é a briga que termina com tudo?
Olho de volta para eles, depois de ultrapassá-los. Houve um tempo em que estiveram apaixonados. Talvez ainda estejam, mas olhando não é possível saber.


daniel

DESÇO PARA A ESTAÇÃO E REZO aos deuses do metrô (sim, são vários deuses) para que a viagem seja livre de problemas elétricos e condutores com questões religiosas.
E se for tarde demais? E se ela já tiver ido embora? E se dar um dólar àquela violinista tiver provocado uma cadeia de acontecimentos que vai fazer com que eu não a encontre?
O trem entra na estação. Do outro lado da plataforma, o que vai para o sul parte ao mesmo tempo. As portas do nosso se fecham, mas o trem não se mexe. Na plataforma, um grupo de cerca de vinte pessoas vestidas com malhas justas e multicoloridas se materializa. Parecem pássaros tropicais contra o cinza escuro da estação. Enfileiram-se e depois se imobilizam, esperando algo que provoque seu movimento.
É um flash mob. O trem do outro lado da plataforma também não se mexe.
Um dos dançarinos, um cara vestido de azul-royal, aperta o play num som portátil gigante.
A princípio, parece simplesmente um caos, cada qual dançando ao som da sua própria música, mas então percebo que só estão descoordenados por alguns segundos. É como cantar em cânone, só que estão dançando. Começam com balé, passam para discoteca e depois para break, antes que os seguranças do metrô cheguem. Os dançarinos se espalham e meus colegas passageiros aplaudem loucamente.
Partimos, mas agora a atmosfera no trem mudou por completo. As pessoas estão sorrindo umas para as outras e dizendo como aquilo foi legal. Passam-se pelo menos trinta segundos antes que todo mundo recoloque sua cara protetora de “estou num trem cheio de estranhos”. Imagino se essa era a intenção dos dançarinos: fazer todo mundo se conectar só por um instante.


natasha

ESTOU SENTADA DE COSTAS para a plataforma, por isso não vejo de verdade como a coisa começa. Só sei que algo incomum está acontecendo porque todo o vagão do trem parece estar olhando para alguma coisa atrás de mim. Viro o corpo e descubro que há uma dança tipo flash mob na plataforma. Todos estão usando roupas muito coloridas e dançando discoteca.
Só na cidade de Nova York, penso, e pego o telefone para tirar umas fotos.
Meus colegas passageiros gritam animados e aplaudem. Um cara até começa a experimentar uns passos também.
A dança não dura muito porque três seguranças do metrô acabam com a festa. Algumas vaias soam antes que todo mundo volte a ficar impaciente com a imobilidade do trem.
Normalmente, eu questionaria o objetivo daquelas pessoas. Elas não têm um trabalho nem nada melhor para fazer? Se Daniel estivesse aqui, diria que talvez fosse exatamente isso que elas deveriam estar fazendo. Talvez todo o objetivo dos dançarinos seja apenas trazer um pouco de surpresa para nossa vida. E não é um objetivo tão válido quanto qualquer outro?


daniel

SAIO CORRENDO DO METRÔ da rua 52 e quase trombo num casal que se beija como se isso não fosse da conta de ninguém. Mesmo sem o cabelo azul seria difícil não vê-los, porque estão basicamente fundidos da cabeça aos pés. Precisam de um quarto, e ponto final. Fala sério! É como se estivessem dando uma transadinha bem aqui na calçada. Cada um segura firme a bunda do outro. Agarração mútua de bunda.
Um homem com cara de fuinha faz um som de desaprovação ao passar. Um garotinho olha boquiaberto para os dois. O pai cobre os olhos dele.
Observá-los me deixa numa felicidade irracional. Acho que o clichê é verdadeiro. As pessoas apaixonadas querem que todo mundo esteja apaixonado.
Espero que o relacionamento deles dure para sempre.


natasha

VIRO À DIREITA NO BOULEVARD MLK e vou na direção da loja do Daniel.
Diante da loja que fica ao lado da deles, uma garota, de pé sobre um caixote, toca violino. Ela é branca, com um cabelo preto e comprido que não é lavado há um bom tempo. Seu rosto é magro demais: não magro chique, e sim magro de fome. É uma visão tão triste e estranha que preciso parar.
O cartaz ao lado dela diz AJUDE, POR FAVOR. PRECISO DE $$$ PARA RETIRAR O VIOLINO DO PENHOR. Uma seta preta e grossa no cartaz aponta para a loja de penhores. Não imagino como a vida a levou a esse lugar, mas pego um dólar e jogo no seu chapéu, elevando seu total a dois dólares.
A porta da loja de penhores se abre e um cara branco e enorme, com agasalho de moletom branco, sai e vem até nós. É cheio de papadas e carrancas.
— Acabou o tempo — diz ele, estendendo as mãos gigantes para ela.
Ela para de tocar imediatamente e desce do caixote. Pega o dinheiro no chapéu e entrega para ele. Entrega até o chapéu.
O cara de moletom embolsa o dinheiro e coloca o chapéu na cabeça.
— Quanto falta? — pergunta ela.
Ele pega um caderninho e um lápis no bolso e anota alguma coisa.
— Cento e cinquenta e um dólares e vinte e três centavos. — E estala os dedos para ela entregar o violino.
Ela abraça o violino antes de entregá-lo.
— Volto amanhã. Promete que não vende ele?
O homem resmunga, concordando.
— Se você aparecer, eu não vendo — admite.
— Prometo que venho.
— Promessas não significam merda nenhuma — afirma o homem, e se afasta.
Ela olha para a loja durante um longo tempo. Pela expressão, não sei se concorda com ele.


daniel

MESMO QUE NATASHA AINDA esteja aqui, não sei onde procurá-la neste prédio que é uma monstruosidade de vidro. Olho a lista de ocupantes do edifício, tentando adivinhar onde ela está. Sei que foi ver um advogado, mas a lista não é muito específica. Por exemplo, não diz Fulano de Tal, advogado de imigração para garotas jamaicanas de 17 anos chamadas Natasha. Reviro a mente e não encontro nada.
Pego o celular para ver a hora. Falta pouco mais de uma hora para meu Encontro com o Destino. Penso que deveria verificar o novo endereço que a recepcionista me deu. Se for longe demais, terei a desculpa perfeita para não ir.
Mas, segundo o Google Maps, já estou lá. Ou o Google está tendo uma crise existencial ou eu é que estou. Olho o endereço mais uma vez e depois torno a observar a lista na parede.
Sem sacanagem. Minha entrevista é neste prédio.
Já estou onde deveria estar.


natasha

ABRO A PORTA E O SININHO TOCA com um otimismo feliz. Não estou tão otimista com relação às minhas chances aqui. Mas preciso tentar.
Espero ver o pai de Daniel atrás do balcão, mas em vez disso é Charlie quem está lá. Imagino com quem eu teria mais sorte: com Charlie ou com o pai dele. Mas não tenho escolha porque o pai não está à vista.
Vou até o balcão.
— Oi — digo.
Ele continua digitando por um segundo antes de bater com o telefone no balcão. Certamente não é a melhor maneira de receber uma possível cliente.
— Em que posso ajudar? — pergunta ele quando finalmente levanta os olhos.
Fico chocada ao ver que seu olho está vermelho e inchado. De manhã vai ter um hematoma preto e azul. Ele levanta a mão e toca o olho, sem graça. Os nós dos dedos também estão machucados.
Ele demora um segundo para me reconhecer.
— Espera. Você não é a namoradinha do Daniel?
O cara deve treinar o riso de desprezo no espelho. É excelente nisso.
— Sou.
Ele olha para além de mim, procurando Daniel.
— Cadê aquele merdinha?
— Não sei. Eu esperava... — começo.
Ele me interrompe e dá um sorriso lento, largo. Acho que está tentando ser sensual. Dá para ver que, se não o conhecesse, isso daria certo. Mas eu o conheço um pouquinho, e o sorriso me dá vontade de socar seu outro olho.
— Vejo que voltou para o irmão melhor.
Ele pisca o olho ruim e se encolhe de dor.
Fato Observável: não acredito em carma.
Mas posso começar a acreditar.
— Você sabe o número do celular dele?
Charlie se recosta na cadeira e pega seu telefone no balcão.
— Vocês dois brigaram ou algo assim?
— Algo assim. Você sabe?
Ele vira o telefone de cabeça para baixo.
— Você tem fetiche por coreanos ou o quê?
Está dando um risinho, mas seus olhos me observam com atenção. A princípio, acho que está só me provocando — mas então percebo que é uma pergunta séria. Ele quer saber a resposta. Não sei se ele tem ideia de como sua vontade de saber é grande.
— Por que tem de ser fetiche? Por que não posso simplesmente gostar do seu irmão?
Ele zomba.
— Por favor. O que há para gostar? Caras como ele existem aos montes por aí.
Então entendo qual é o problema do Charlie com o Daniel. Ele odeia o fato de Daniel não se odiar. Apesar de todas as suas incertezas, Daniel ainda se sente mais confortável dentro da própria pele do que Charlie jamais estará.
Sinto pena dele, mas não deixo transparecer.
— Por favor, me ajude.
— Diga por que eu deveria fazer isso.
Ele não está mais sorrindo, zombando ou com ar de desprezo. Tem todo o poder e nós dois sabemos. Não o conheço suficientemente bem para apelar à sua parte boa. Nem sei se existe uma parte boa nele.
— Pense no tamanho da encrenca que vou causar ao seu irmão. Ele está apaixonado por mim. Não vai desistir de mim, não importando o que seus pais digam ou façam. Você pode ficar simplesmente sentado olhando o espetáculo.
Ele vira a cabeça para trás e gargalha. Ele não é mesmo uma boa pessoa.
Quero dizer, pode ter algumas partes boas, a maioria das pessoas tem. Mas as partes ruins do Charlie superam as boas. Tenho certeza de que há bons motivos para ele ser como é, porém decido que os motivos não importam.
Algumas pessoas existem na nossa vida para fazer com que ela seja melhor.
Algumas existem para deixá-la pior.
Mas, de todo modo, ele faz uma coisa boa pelo irmão: me dá o número.


daniel

MEU TELEFONE TOCA e eu quase o largo, como se ele estivesse possuído. Não reconheço o número, mas atendo mesmo assim.
— Alô?
— Daniel?
— Natasha? — pergunto, mesmo sabendo que é ela.
— É, sou eu. — Sua voz sorri. — Seu irmão me deu o seu número.
Agora começo a suspeitar de que é uma pegadinha armada pelo meu irmão cretino. De jeito nenhum ele faria uma coisa tão boa.
— Quem está falando? — pergunto de novo.
— Daniel, sou eu. Sou eu mesmo.
— Ele deu o meu número a você?
— Talvez ele não seja tão ruim, afinal de contas — reflete ela.
— Sem chance — contra-ataco, e nós dois rimos.
Eu a encontrei.
Bom, ela me encontrou.
Não consigo acreditar.
— Onde você está?
— Acabei de sair da sua loja. Onde você está?
— No prédio do seu advogado.
— O quê? Por quê?
— Foi o único lugar onde pensei que poderia encontrar você.
— Você estava me procurando? — A voz dela sai tímida.
— Você me perdoa por ter sido tão idiota?
— Tudo bem. Eu devia ter contado.
— Não era da minha conta.
— Claro que era.
Não são as três palavras que quero ouvir dela, mas estão bem perto.


natasha

ELE ESTÁ SENTADO NUM DOS BANCOS virados para a fonte e escreve em seu caderno. Eu sabia que ficaria satisfeita em vê-lo, mas não esperava ficar tão feliz. Preciso me conter para não sair pulando, batendo palmas e fazendo piruetas.
Feliz.
O que não é do meu estilo.
De modo que não faço isso.
Mas o sorriso na minha cara precisa ser medido em quilômetros, não em centímetros.
Deslizo no banco e bato com o ombro no dele. Ele leva o caderno ao rosto, cobrindo a boca, e depois se vira para mim. Seus olhos estão arregalados e dançando. Não creio que alguém já tenha ficado tão feliz em ver alguém quanto Daniel ao me ver.
— Oi — diz ele por trás do caderno.
Estendo a mão para baixar o caderno, mas ele afasta o corpo.
— O que foi? — pergunto.
— Talvez eu tenha tido uma briguinha.
— Você teve uma briguinha e agora não posso ver seu rosto?
— Eu só queria avisar primeiro.
Estendo a mão de novo. Desta vez ele me deixa baixar o caderno. O lado direito do seu lábio está inchado e machucado. Parece que disputou uma luta de boxe.
— Você brigou com seu irmão — digo, ligando os pontos.
— Ele mereceu. — Daniel mantém o rosto neutro, tentando, por minha causa, não demonstrar os sentimentos.
— Eu achava que os poetas não brigavam.
— Está brincando? Nós somos os piores. — Ele sorri para mim, mas se encolhe de dor. — Tudo bem — diz, olhando meu rosto. — Parece pior do que é.
— Por que você brigou?
— Não importa.
— Importa, sim...
— Não importa, não. — Seus lábios estão firmes e retos. O que quer que tenha acontecido, ele não vai me contar.
— Foi por minha causa? — questiono, já sabendo a resposta.
Ele confirma com a cabeça.
Decido deixar para lá. Na verdade, me basta saber que ele acha que vale a pena brigar por mim.
— Fiquei bem furiosa com você, antes. — Preciso dizer isso antes de irmos adiante.
— Eu sei. Desculpe. Simplesmente não pude acreditar.
— Que eu não contei?
— Não. Que depois de todas as coisas que precisaram acontecer para que a gente se conhecesse hoje, outra coisa iria nos separar.
— Você realmente não tem jeito.
— É possível.
Pouso a cabeça no ombro dele e falo sobre a ida ao museu, o Ahnighito e todas as coisas que tiveram de acontecer do modo certo para que nosso sistema solar, nossa galáxia e o Universo se formassem. Digo que, comparado com isso, ficar apaixonado só parece uma sequência de pequenas coincidências. Ele não concorda, e fico feliz. Estendo a mão de novo e toco seu lábio. Ele pega minha mão, vira o rosto para minha palma e beija o centro dela. Nunca entendi de verdade a expressão eles têm uma química até o dia de hoje. Afinal de contas, tudo é química. Tudo é combinação e reação. Os átomos do meu corpo se alinham com os do dele. Foi assim que eu soube, mais cedo, que ele ainda estava no saguão.
Ele beija de novo a palma da minha mão e eu suspiro. Tocá-lo é ordem e caos, é como ser montada e desmontada ao mesmo tempo. Ele diz:
— Você falou que tinha uma boa notícia.
Vejo a esperança escancarada em seu rosto. E se não tivesse dado certo? Como sobreviveríamos separados? Porque agora parece impossível a ideia de não pertencermos um ao outro. Mas afinal de contas, penso, claro que sobreviveríamos. A separação não é fatal.
Mesmo assim fico feliz por não precisarmos descobrir.
— O advogado disse que acha que pode dar um jeito. Acha que eu consigo ficar.
— Ele tem certeza? — pergunta Daniel, surpreendentemente mais cético do que eu.
— Não se preocupe. Ele pareceu ter bastante certeza.
Deixo minhas lágrimas de felicidade rolarem. Pela primeira vez não fico sem graça por chorar.
— Está vendo? Somos feitos um para o outro. Vamos comemorar.
Ele me puxa para perto. Solto o elástico do seu cabelo e passo os dedos por eles. Ele enterra as mãos nos meus e se inclina para me beijar, mas encosto o dedo nos seus lábios para impedir.
— Guarde esse beijo.
Eu me dou conta de que preciso dar um telefonema. É um impulso idiota, mas Daniel quase me fez acreditar no “feitos um para o outro”.
Toda essa cadeia de eventos foi disparada pela mulher da segurança que me atrasou hoje cedo. Se ela não tivesse acariciado as minhas coisas, eu não me atrasaria. Então não teria havido Lester Barnes nem o advogado Fitzgerald. Nem Daniel.
Remexo na mochila e pego o cartão de visita de Lester Barnes. Meu telefonema cai direto na secretária eletrônica. Deixo uma mensagem desconexa agradecendo por me ajudar e pedindo que ele agradeça à mulher da segurança por mim.
— Ela tem cabelos castanhos, olhos tristes e mexe nas coisas de todo mundo — descrevo. Prestes a desligar, lembro o nome. — Acho que o nome dela é Irene. Por favor, agradeça a ela por mim.
Daniel me lança um olhar interrogativo.
— Explico mais tarde — declaro, e volto para os seus braços. — Vamos de novo ao norebang? — peço, grudada nos lábios dele.
Meu coração está tentando escapar do peito.
— Não. Tenho uma ideia melhor.


daniel

— QUER SABER DE UMA COISA MALUCA? — pergunto, levando-a de volta para o prédio. — Minha entrevista é aqui também.
— Sério? — Natasha para de andar brevemente.
Rio para ela, morrendo de vontade de saber como seu cérebro científico vai lidar com esse nível épico de coincidências.
— Quais são as chances?
Ela ri para mim.
— Está adorando isso, né?
— Viu? Eu estava certo o dia inteiro. Estávamos destinados a nos conhecermos. Se não tivéssemos nos encontrado antes, é provável que nos encontrássemos agora.
Minha lógica é completamente questionável, mas ela não me questiona. Em vez disso, pega a minha mão e sorri. Talvez eu ainda a transforme em alguém que acredita.
Meu plano é irmos até o topo do prédio para termos privacidade para namorar. Nossa entrada é autorizada no balcão da segurança com a justificativa da entrevista. O guarda indica os elevadores. O que pegamos para praticamente em todos os andares. Gente de terno entra e sai, falando alto sobre Coisas Muito Importantes. Apesar do que Natasha disse antes, eu nunca poderia trabalhar num prédio assim. Por fim, chegamos ao último andar. Saímos, encontramos uma escada e subimos um lance, chegando direto a uma porta cinza, trancada, com uma placa dizendo SEM ACESSO À COBERTURA.
Eu me recuso a acreditar. Sem dúvida, o topo do prédio está do outro lado daquela porta. Viro a maçaneta, esperando um milagre, mas ela está trancada.
Encosto a testa na placa.
— Abre-te, sésamo — digo para a porta.
Magicamente, ela se abre.
— Que diabo...?
Cambaleio para a frente, trombando no mesmo guarda do saguão.
Diferentemente de nós, o cara deve ter pegado um elevador expresso. Ele solta um grunhido:
— Vocês não podem vir aqui em cima.
Ele cheira a fumaça de cigarro.
Empurro Natasha e passamos juntos pela porta.
— Só queríamos olhar a vista — digo na minha voz mais respeitosa, com uma leve sugestão de pedido, mas sem choramingar.
Ele levanta as sobrancelhas céticas e começa a dizer alguma coisa, mas um ataque de tosse o domina até que ele fica encurvado e bate no coração com o punho.
— O senhor está bem? — pergunta Natasha.
Agora ele só está ligeiramente dobrado, com as mãos nos joelhos. Natasha põe a mão no seu ombro.
— É só essa tosse — informa ele em meio à tosse.
— Bem, o senhor não deveria fumar — argumenta ela.
Ele ajeita o corpo e enxuga os olhos.
— Você fala igual à minha mulher.
— Ela está certa — afirma Natasha, na lata.
Tento lhe lançar um olhar que diz não discuta com o velho segurança com problema nos pulmões ou ele não vai deixar a gente ficar aqui se beijando, mas, mesmo que tenha interpretado corretamente minha expressão facial, ela me ignora.
— Já trabalhei como voluntária numa enfermaria de doenças pulmonares. Essa tosse não parece coisa boa.
Nós dois a encaramos. Eu porque estou visualizando Natasha num uniforme de enfermeira e depois visualizando-a sem o uniforme. Tenho certeza de que essa vai ser minha nova fantasia noturna.
Não sei por que ele a encara. Espero que não seja pelo mesmo motivo.
— Me dá os cigarros — ordena ela, estendendo a mão para o maço. — O senhor precisa parar de fumar.
Não sei como ela consegue parecer tão genuinamente preocupada e ao mesmo tempo tão mandona.
Ele tira o maço do bolso do paletó e pergunta:
— Acha que eu não tentei?
Olho para ele. É velho demais para esse emprego. Parece que deveria estar aposentado e mimando os netos em algum lugar da Flórida.
Natasha continua com a mão estendida até que ele entrega o maço.
— Tenha cuidado com essa aí — avisa o guarda, sorrindo para mim.
— Sim, senhor.
Ele veste o paletó.
— Como você sabe que não vou comprar outro? — pergunta a ela.
— Acho que não sei. — Natasha dá de ombros.
Ele a encara por um longo momento.
— A vida nem sempre acontece como a gente planeja — declara.
Dá para ver que ela não acredita nele. Ele também vê, mas deixa para lá.
— Fiquem longe da beirada — diz, piscando para nós dois. — Aproveitem.


joe
Uma história planejada

A GAROTA FEZ COM QUE ELE se lembrasse um pouco da sua Beth. Direta, mas doce. Foi por isso, mais do que qualquer outra coisa, que ele deixou que ficassem na cobertura. Sabe perfeitamente bem que a única vista para a qual vão olhar será um para o outro. Não há nada de mal nisso, pensa ele.
Ele e sua Beth eram assim. E não só no começo do casamento, mas o tempo todo. Gostavam de dizer que tinham ganhado na loteria um com o outro.
Beth morreu no ano passado. Seis meses depois de os dois se aposentarem.
Na verdade, o diagnóstico de câncer veio um dia depois da aposentadoria.
Tinham tantos planos... Cruzeiro no Alasca para ver a aurora boreal (plano dela).
Veneza para beber grapa e ver os canais (dele).
É isso que perturba Joe até agora. Todos os planos que tinham feito. Todas as economias. Toda a espera pelo tempo perfeito.
E para quê? Para nada.
A garota está certa, claro. Ele não deveria fumar. Depois de perder Beth, voltou a trabalhar e retomou o vício. O que importava se morresse de tanto trabalhar? O que importava se fumasse até morrer? Não restava nenhum motivo para viver, nada para planejar.
Joe olha uma última vez para a garota e o rapaz antes de fechar a porta. Estão se encarando como se não existisse outro lugar onde quisessem estar. Ele e sua Beth foram assim, um dia.
Talvez ele pare de fumar, afinal. Talvez faça alguns planos novos.


natasha

DANIEL ANDA ATÉ A BEIRA DO PRÉDIO e olha para a cidade. O cabelo está solto e balançando ao vento e ele está com sua cara de poeta. O lado não machucado do rosto sorri.
Vou até ele e seguro sua mão.
— Não vai escrever alguma coisa, garoto poeta?
Ele dá um sorriso mais largo, mas não se vira para me olhar.
— Parece tão diferente aqui de cima, não é?
O que ele vê quando olha lá para fora? Vejo quilômetros de topos de prédios, a maioria vazios. Alguns são povoados por coisas abandonadas há muito tempo: aparelhos de ar-condicionado que não funcionam, móveis de escritório quebrados. Alguns têm jardins, e fico pensando em quem cuida deles.
Daniel pega o caderno e eu chego mais perto da beirada.
Antes de esses prédios serem prédios, eram apenas esqueletos de edifícios. Antes de serem esqueletos, eram colunas e vigas. Metal, vidro e concreto. E antes disso eram projetos de construção. Antes disso, plantas baixas. E antes disso, apenas alguma ideia que alguém teve para fazer uma cidade.
Daniel guarda o caderno e me puxa para longe da beirada. Põe a mão na minha cintura.
— O que você escreve aí? — pergunto.
— Planos.
Seus olhos estão alegres e fitam meus lábios, e estou tendo dificuldade para pensar. Dou um passinho para trás, mas ele me acompanha, como se estivéssemos dançando.
— Eu... meu Deus. Você é sedutor assim o dia inteiro? — pergunto.
Ele ri e fica vermelho.
— Fico feliz por você me achar sedutor.
O olhar dele ainda está grudado nos meus lábios.
— Vai doer se eu beijar?
— Vai ser uma dor boa.
Ele põe a outra mão na minha cintura como se estivesse nos ancorando. Meu coração simplesmente não se acalma. Beijá-lo pode não ser tão bom quanto me lembro. Quando tivemos nosso primeiro beijo, achei que estava beijando Daniel pela última vez. Tenho certeza de que isso tornou a coisa mais intensa. Esse beijo vai ser mais normal. Sem fogos de artifício nem caos, só duas pessoas que se gostam à beça se beijando.
Fico nas pontas dos pés e chego mais perto ainda. Por fim, seu olhar encontra meus olhos. Ele tira a mão da minha cintura e põe no meu coração. Que bate sob a palma da sua mão como se estivesse batendo para ele.
Nossos lábios se tocam e eu tento manter os olhos abertos pelo máximo de tempo possível. Tento não sucumbir à louca entropia, à doida casualidade dessa coisa entre nós. Não entendo. Por que essa pessoa? Por que Daniel e não qualquer um dos caras antes dele? E se não tivéssemos nos encontrado? Será que eu teria um dia perfeitamente comum sem saber que estava perdendo alguma coisa?
Passo os braços em volta do pescoço dele e me encosto, mas não consigo chegar suficientemente perto. O sentimento inquieto, caótico, voltou. Quero coisas às quais possa dar um nome e algumas coisas às quais não possa. Quero que este momento dure para sempre, mas não quero perder todos os momentos que virão. Quero todo o nosso futuro juntos, mas quero aqui e agora.
Estou meio atarantada e interrompo o longo beijo.
— Vá. Para. Lá — digo, pontuando cada palavra com um beijinho.
Aponto para um lugar longe de mim, fora do alcance de beijar.
— Aqui? — pergunta ele, dando um passo atrás.
— Pelo menos mais cinco passos.
Ele ri, mas obedece.
— Nem todos os nossos beijos vão ser assim, vão? — pergunto.
— Assim como?
— Você sabe. Insanos.
— Adoro como você é direta.
— Verdade? Minha mãe diz que eu exagero.
— Talvez. Mas mesmo assim adoro.
Baixo os olhos e não respondo.
— Quanto tempo falta para a sua entrevista?
— Quarenta minutos.
— Tem mais daquelas perguntas do amor para fazer?
— Ainda não está apaixonada por mim? — A voz dele está cheia de uma incredulidade fingida.
— Não — respondo, sorrindo.
— Não se preocupe. Temos tempo.


daniel

PARECE UM MILAGRE ESTARMOS AQUI no topo deste edifício, como se fizéssemos parte de uma cidade secreta no céu. O sol está recuando lentamente do outro lado dos prédios, mas ainda não escureceu. Vai escurecer logo, mas por enquanto só existe uma ideia de escuridão.
Natasha e eu estamos sentados de pernas cruzadas, encostados na parede ao lado da porta da escada. Estamos de mãos dadas, ela com a cabeça apoiada no meu ombro. Seu cabelo é macio contra a lateral do meu rosto.
— Já está pronta para a pergunta sobre o convidado para o jantar? — pergunto.
— Isso é para saber quem eu convidaria?
— É.
— Ah, não. Você primeiro.
— Fácil. Deus.
Ela levanta a cabeça e me olha.
— Você acredita mesmo em Deus?
— Acredito.
— Um cara? No céu? Com superpoderes? — Sua incredulidade não é de zombaria, apenas investigativa.
— Não exatamente assim.
— Como, então?
Aperto a mão dela.
— Sabe como a gente está se sentindo agora? A conexão entre nós, que não entendemos e não queremos que vá embora? Isto é Deus.
— Mas que inferno! Vocês, poetas, são perigosos.
Ela puxa minha mão para o colo e a prende entre as suas.
Inclino a cabeça para trás e olho o céu, tentando captar formas nas nuvens.
— Eu acho o seguinte: todos nós estamos conectados, todo mundo na Terra — digo.
Ela passa as pontas dos dedos sobre os meus.
— Até as pessoas ruins?
— É. Mas todo mundo tem pelo menos um pouquinho de coisa boa.
— Não é verdade.
— Certo — admito. — Mas todo mundo fez pelo menos uma coisa boa na vida. Concorda?
Ela pensa e confirma devagar com a cabeça.
Continuo:
— Acho que todas as nossas partes boas estão conectadas em algum nível. A parte que divide com outra pessoa o último biscoito de chocolate do pacote, que faz doação para uma instituição de caridade, que dá um dólar para um músico de rua, que trabalha como voluntária, que chora com os comerciais da Apple, que diz eu te amo ou eu te perdoo. Acho que isso é Deus. Deus é a conexão com a melhor parte de nós.
— E você acha que essa conexão tem uma consciência?
— Acho, e nós a chamamos de Deus.
Ela dá um riso baixinho.
— Você é sempre tão...
— Erudito? — pergunto, interrompendo.
Agora ela ri mais alto.
— Eu ia dizer piegas.
— Sou. Sou conhecido em toda parte pela minha pieguice.
— Estou brincando. — Ela bate com o ombro no meu. — Gosto muito de você ter pensado nisso.
E pensei mesmo. Não foi a primeira vez que tive esses pensamentos, mas foi a primeira que pude articular essas ideias de verdade. Alguma coisa no fato de estar com ela me transforma na melhor versão de mim.
Puxo a mão dela para os lábios e beijo seus dedos.
— E você? — pergunto. — Não acredita em Deus?
— Gosto da sua ideia de Deus. Definitivamente, não acredito no Deus de fogo e enxofre.
— Mas acredita em alguma coisa?
Ela franze a testa, insegura.
— Realmente não sei. Acho que me interesso mais em saber por que as pessoas acham que precisam acreditar em Deus. Por que não pode ser só a ciência? A ciência é maravilhosa. O céu noturno? Incrível. O interior de uma célula humana? Espantoso. Já alguma coisa que diz que nascemos maus e que as pessoas usam para justificar todos os preconceitos e maldades... Não sei. Acho que acredito na ciência. A ciência basta.
— Hã.
A luz do sol se reflete nos prédios e o ar em volta de nós assume um tom alaranjado. Estou me sentindo num casulo, mesmo neste espaço tão aberto.
— Sabia que aproximadamente 27% do Universo é composto de matéria escura?
— O que é matéria escura?
Deleite é a única palavra para definir a expressão dela. Natasha afasta a mão da minha, esfrega as palmas e se acomoda para explicar.
— Bem, os cientistas não têm certeza, mas é a diferença entre a massa de um objeto e a massa calculada a partir do seu efeito gravitacional.
Ela levanta as sobrancelhas com expectativa, como se tivesse dito uma coisa profunda e capaz de abalar os alicerces da Terra.
Meus alicerces estão profundamente inabalados.
Ela suspira. Dramaticamente.
— Poetas! — murmura, com um sorriso. — Essas duas massas deveriam ser iguais. — Ela levanta um dedo, explicando. — Deveriam ser iguais, mas não são, para corpos muito grandes, como os planetas.
— Ah, isso é interessante — digo sinceramente.
— Não é? — Ela está dando um sorriso enorme e eu sinto que estou realmente de quatro por essa garota. — A massa visível de uma galáxia não tem gravidade suficiente para explicar por que ela não se despedaça.
Balanço a cabeça para ela saber que não entendo.
Ela continua:
— Se calcularmos as forças gravitacionais de todos os objetos que não podemos detectar, ela não é suficiente para manter as galáxias e as estrelas na órbita umas das outras. Tem de haver mais matéria que não podemos ver. Matéria escura.
— Certo, entendi.
Ela me olha com ceticismo.
— Verdade. Entendi. Você disse que a matéria escura é 27% do Universo?
— Mais ou menos.
— E ela é o motivo de os objetos não saírem voando pelo espaço escuro? É isso que nos mantém unidos?
O ceticismo dela vira suspeita.
— O que seu cérebro confuso de poeta está pensando?
— Você vai me odiar.
— Talvez — concorda Natasha.
— A matéria escura é o amor. É a força de atração.
— Ah, meu Deus, Jesus, não! Eca. Você é o pior de todos.
— Ah, eu sou bom — digo, gargalhando.
— Absolutamente o pior — contradiz ela, mas se inclina para perto e gargalha comigo.
— Estou totalmente certo — insisto, triunfante.
Recapturo a mão dela. Ela geme de novo, mas dá para ver que está pensando. Talvez não discorde tanto quanto imagina.
Olho as perguntas no meu telefone.
— Certo, tenho outra. Complete a seguinte frase: nós dois estamos neste lugar sentindo...
— Que preciso mijar — diz ela, sorrindo.
— Você odeia mesmo falar de coisas sérias, não é?
— Você já precisou mijar muito mesmo? É uma coisa séria. Pode causar um dano sério à bexiga se...
— Você precisa mesmo mijar?
— Não.
— Responda à pergunta.
Não vou deixar que ela saia dessa com piadas.
— Primeiro você — ordena ela, suspirando.
— Empolgação, excitação e esperança.
— Aliteração. Legal.
— É a sua vez, e precisa ser sincera.
Ela mostra a língua para mim.
— Confusão. Medo.
Puxo a mão dela para o meu colo.
— Por que está com medo?
— Foi um dia longo. Hoje de manhã achei que ia ser deportada. Venho me preparando para isso há dois meses. Agora parece que vou ficar.
Ela se vira para mim.
— E aí você aparece. Hoje de manhã eu não conhecia você; agora não me lembro de quando não conhecia você. É tudo um pouco demais. Estou me sentindo fora de controle.
— Por que isso é tão ruim?
— Gosto de ver as coisas chegando. Gosto de planejar com antecedência.
E eu entendo. Entendo mesmo. Somos programados para planejar com antecedência. Isso faz parte do nosso ritmo. O sol nasce todo dia e cede espaço para a lua toda noite.
— Mas, como disse o segurança, planejar nem sempre funciona — falo.
— Você acha que isso é verdade? Acho que na maior parte das vezes a gente pode planejar. Na maior parte das vezes as coisas não chegam simplesmente do nada e derrubam a gente.
— Provavelmente os dinossauros também achavam isso, e olha o que aconteceu com eles — provoco.
Seu sorriso é tão largo que preciso tocar seu rosto. Ela o encosta na palma da minha mão e a beija.
— Apesar dos eventos de extinção, acho que é possível planejar com antecedência — diz.
— Eu surpreendi você — lembro, e ela não nega. — De qualquer modo, até agora você só tem duas coisas: confusão e medo.
— Certo, certo. Vou fazer o que você quer e dizer “feliz”.
Solto um suspiro dramático.
— Você poderia ter dito essa primeiro.
— Gosto de suspense.
— Não gosta, não.
— Está certo. Odeio suspense.
— Feliz por minha causa?
— E por não ser deportada. Mas principalmente por sua causa.
Ela puxa nossas mãos juntas para os lábios e beija a minha. Eu poderia ficar aqui para sempre, interrompendo nossa conversa com beijos, interrompendo nossos beijos com conversas.
— Quando vamos fazer o negócio de olhar nos olhos um do outro? — pergunto.
Ela revira os olhos que eu quero olhar.
— Mais tarde. Depois da sua entrevista.
— Não fique com medo — provoco.
— Medo de quê? Você só vai ver íris e pupila.
— Os olhos são as janelas da alma — contraponho.
— Bobagem e absurdo.
Verifico desnecessariamente a hora no telefone. Sei que está quase na hora da entrevista, mas quero me demorar mais um pouco na cidade do céu.
— Vamos ver mais algumas perguntas. Rodada rápida. Qual é a sua lembrança mais valiosa?
— A primeira vez que tomei sorvete de casquinha em vez de no copinho — responde ela sem hesitar.
— Quantos anos você tinha?
— Quatro. Sorvete de chocolate, usando um vestido de Domingo de Páscoa totalmente branco.
— De quem foi a ideia?
— Do meu pai — responde ela, sorrindo. — Ele me achava a coisa mais fantástica do mundo.
— E não acha mais?
— Não.
Espero que ela continue, mas Natasha vai em frente:
— Qual é a sua lembrança?
— Nós fizemos uma viagem de família à Disney quando eu tinha 7 anos. Charlie queria muito andar na Space Mountain e minha mãe achou que ia ser muito assustadora para mim, mas também não deixou que ele fosse sozinho. E meus pais não queriam ir.
Ela aperta minhas mãos com mais força, o que é superdoce, já que eu claramente sobrevivi à experiência.
— Convenci minha mãe de que não estava com medo. Disse que estava louco por aquilo desde que me entendia por gente.
— Mas não estava?
— Não. Estava me cagando de medo. Só fiz aquilo por causa do Charlie.
Ela dá uma trombada no meu ombro e provoca:
— Já gosto de você. Não precisa me convencer de que é um santo.
— Aí é que está. Eu não estava sendo santo. Acho que sabia que nosso relacionamento não iria durar. Só estava tentando convencer meu irmão de que eu valia a pena. E deu certo. Charlie disse que eu era corajoso e deixou eu comer a pipoca dele.
Inclino a cabeça para trás e olho as nuvens. Elas mal se movem pelo céu.
— Não acha engraçado que nossas lembranças prediletas tenham a ver com as pessoas de quem nós menos gostamos agora? — pergunto.
— Talvez seja por isso que a gente não gosta mais delas. A distância entre quem elas eram e quem são agora cresceu tanto que não temos esperança de recuperar essas pessoas.
— Talvez. Sabe qual é a pior parte da história?
— Qual?
— Até hoje odeio montanhas-russas por causa daquela vez.
Ela ri e eu rio junto.


olhos
Uma história evolucionária

OS CIENTISTAS TEORIZAM que os primeiros “olhos” não passavam de um ponto pigmentado e sensível à luz na pele de alguma criatura ancestral.
Esse ponto tinha a capacidade de diferenciar a luz da escuridão — uma vantagem, já que a escuridão poderia indicar que um predador estava suficientemente perto para bloquear a luz. Por causa disso, ela sobreviveu mais, se reproduziu mais e passou essa capacidade para a prole.
Mutações aleatórias criaram uma depressão no ponto sensível à luz. Essa depressão levou a uma visão ligeiramente melhor e, portanto, a mais sobrevivência. Com o passar do tempo, esse ponto sensível à luz evoluiu até se tornar o olho humano.
Como nós passamos dos olhos como mecanismo de sobrevivência para a ideia do amor à primeira vista? Ou para a ideia de que os olhos são as janelas da alma? Ou para o clichê de dois amantes olhando interminavelmente nos olhos um do outro?
Estudos demonstraram que as pupilas das pessoas que se sentem mutuamente atraídas dilatam por causa da presença de dopamina. Outros estudos sugerem que riscas nos olhos podem indicar tendências da personalidade, e que talvez os olhos sejam afinal de contas uma espécie de janelas para a alma.
E os amantes que passam horas se olhando nos olhos? É uma demonstração de confiança? Vou deixar você chegar perto e vou confiar que você não vai me ferir enquanto estou nesta posição vulnerável.
E, se a confiança é um dos fundamentos do amor, talvez o costume de olhar nos olhos seja um modo de construí-la ou reforçá-la. Ou talvez seja mais simples do que isso.
Uma simples busca de conexão.
De ver.
De ser visto.

3 comentários:

  1. Gosto do modo como o autor (ou é autora?) coloca alguns pontos de vista diferentes e essas "curiosidades" ^_^

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  2. — Talvez seja por isso que a gente não gosta mais delas. A distância entre quem elas eram e quem são agora cresceu tanto que não temos esperança de recuperar essas pessoas.

    MEU CORACAO

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Boa leitura, E SEM SPOILER!