1 de março de 2019

parte quatro

daniel


QUERO AGRADECER A ELA por não me odiar. Depois da experiência na loja dos meus pais, quem poderia culpá-la? Além disso, ela não precisava reagir à minha família de modo tão pacífico. Se tivesse gritado com meu irmão e meu pai, eu entenderia. É um milagre (do tipo água transformada em vinho) ela ainda aceitar ficar aqui comigo, e estou mais do que grato.
Em vez de dizer tudo isso, pergunto se ela quer almoçar. Estamos de volta à entrada do metrô e tudo que quero é me afastar o máximo possível da loja. Se a linha D fosse para a Lua, eu compraria um bilhete.
— Estou morrendo de fome — digo.
Ela revira os olhos.
— Morrendo, verdade? Você tem uma queda para o exagero.
— É para dar ênfase.
— Pensou em algum lugar?
Sugiro meu restaurante predileto no bairro coreano e ela concorda.
Encontramos lugares juntos no trem e nos sentamos. Vai demorar quarenta minutos para voltarmos ao centro.
Pego o telefone para encontrar mais perguntas.
— Pronta para mais?
Ela desliza mais para perto, de modo que nossos ombros estão comprimidos, e olha para o meu celular. Está tão perto que seu cabelo pinica o meu nariz. Não consigo evitar. Dou uma discreta cheiradinha que não é nem um pouco discreta.
Ela se afasta, com os olhos arregalados e mortificada.
— Você me cheirou? — Ela toca a parte do cabelo onde meu nariz estava.
Não sei o que dizer. Se admitir, sou tarado e esquisito. Se negar, sou mentiroso além de tarado e esquisito. Ela puxa os fios até o nariz e cheira também. Agora preciso garantir que ela não acha que seu cabelo cheira mal.
— Não. Quero dizer, sim. É, cheirei.
Paro porque os olhos dela ficam mais arregalados do que deveria ser possível.
— E?
Demoro um segundo para deduzir o que ela está pensando.
— O cheiro é bom. Sabe quando às vezes, na primavera, chove tipo uns cinco minutos e aí o sol aparece, a água está evaporando e o ar ainda está úmido? O cheiro é assim. Bom mesmo.
Faço minha boca fechar, mesmo que ela queira continuar falando. Baixo os olhos para o telefone e espero, desejando que ela chegue perto de novo.


natasha

ELE ACHA QUE MEU CABELO cheira a chuva de primavera. Estou tentando mesmo permanecer impassível e não me deixar afetar. Lembro que não gosto de linguagem poética. Não gosto de poesia. Nem gosto de pessoas que gostam de poesia.
Mas também não estou morta por dentro.


daniel

ELA CHEGA PERTO OUTRA VEZ e eu vou em frente, porque parece que é assim que eu sou com essa garota. Talvez parte de se apaixonar por alguém também seja se apaixonar por si mesmo. Gosto de quem sou com ela. Gosto de dizer o que estou pensando. Gosto de prosseguir apesar dos obstáculos que ela coloca. Normalmente eu desistiria, mas não hoje.
Levanto a voz acima do estardalhaço do trem nos trilhos.
— Certo. Segunda seção. — Levanto o olhar do telefone. — Está preparada? Vamos aumentar o nível de intimidade.
Ela franze a testa, mas concorda. Leio as perguntas em voz alta e ela escolhe a 24: o que você acha do seu relacionamento com sua mãe (e seu pai)?
— Você tem que responder primeiro.
— Bem, você conheceu meu pai.
Nem sei por onde começar a responder a essa pergunta. Claro, eu amo meu pai, mas a gente pode amar uma pessoa e ainda assim não ter um relacionamento fantástico com ela. Imagino quanto do nosso não relacionamento seja por causa das típicas coisas de pai versus filho adolescente (ter que voltar para casa às dez da noite, fala sério!) e quanto seja cultural (coreano-coreano versus coreano-americano). Nem sei se é possível separar as duas coisas. Às vezes acho que estamos em lados opostos de um vidro à prova de som. Podemos nos ver, mas não conseguimos nos ouvir.
— Então você acha que é ruim? — provoca ela.
Rio, porque esse é um modo muito simples e conciso de descrever uma coisa muito complicada. O trem freia de repente e faz a gente se aproximar ainda mais. Ela não se afasta.
— E com sua mãe? — pergunta.
— É bastante bom. — E percebo que sou sincero. — Minha mãe é meio parecida comigo. Ela pinta. É artística. — Engraçado, nunca pensei antes que éramos parecidos nesse sentido. — Agora é a sua vez.
Ela me olha.
— Me lembre de novo por que concordei com isso.
— Quer parar? — pergunto, mesmo sabendo que ela vai dizer não. É o tipo de pessoa que termina o que começa. — Vou facilitar sua vida. Você pode responder virando o polegar para cima ou para baixo, certo?
Ela confirma com a cabeça.
— Mãe?
Polegar para cima.
— Muito para cima?
— Não vamos exagerar. Eu tenho 17 anos e ela é minha mãe.
— Pai?
Polegar para baixo.
— Muito para baixo?
— Muito, muito, muito para baixo.


natasha

— É DIFÍCIL AMAR ALGUÉM que não ama a gente — digo a ele.
Daniel abre a boca e fecha de novo. Quer me dizer que, claro, meu pai me ama. Quer dizer que todos os pais amam os filhos. Mas não é verdade. Nada jamais é universal. A maioria dos pais ama os filhos. É verdade que minha mãe me ama. Eis outra coisa que é verdade: sou o maior arrependimento do meu pai.
Como eu sei?
Ele mesmo disse.


samuel kingsley
Uma história de arrependimento — Parte 2

SAMUEL KINGSLEY TINHA CERTEZA de que seu destino era ser famoso.
Deus não iria lhe dar tanto talento sem lhe proporcionar um lugar onde apresentá-lo.
E então surgiu Patricia. Deus não lhe daria uma mulher e filhos lindos se não quisesse que ele os provesse de tudo que há de melhor.
Samuel se lembra do momento em que a conheceu. Ainda estavam na Jamaica, em Montego Bay. Chovia lá fora, e era uma daquelas tempestades tropicais que começam tão de repente quanto param. Ele entrou numa loja de roupas para se abrigar, para não chegar encharcado ao teste. Ela era gerente da loja, de modo que na primeira vez que a viu ela usava crachá e parecia muito profissional. O cabelo era curto e encaracolado e os olhos eram os mais lindos, grandes e tímidos que ele já vira. Samuel jamais conseguira resistir a uma garota tímida — a todo aquele sofrimento e cautela.
Citou Bob Marley e Robert Frost. Cantou. Patricia não teve chance diante da força do seu charme. A hora do teste veio e passou, mas ele não se importou. Não conseguia se fartar daqueles olhos que se arregalavam de modo tão dramático diante do menor flerte.
Mesmo assim, parte dele disse para ficar longe. Alguma parte presciente viu os dois caminhos se separando na floresta amarela, como no poema de Robert Frost “The Road Not Taken”. Se tivesse escolhido o outro caminho, talvez tivesse saído da loja em vez de ficar, e isso teria feito toda a diferença.


daniel

— COMIDA COREANA? Melhor comida. Saudável. Boa para você — digo a Natasha, imitando minha mãe.
É uma coisa que ela repete toda vez que jantamos fora. Charlie sempre sugere irmos a um restaurante americano, mas toda vez mamãe e papai nos levam a um coreano, apesar de comermos essa comida em casa todo dia. Não me importo, porque por acaso concordo com minha mãe. Comida coreana? Melhor comida.
Natasha e eu não temos muito tempo antes do compromisso dela, e estou começando a duvidar de que posso fazer com que ela se apaixone por mim nas próximas duas horas. Mas pelo menos posso fazer com que ela queira me ver de novo amanhã.
Entramos no meu estabelecimento favorito de soon dubu e somos recebidos com um “Annyeonghaseyo” pelos funcionários. Adoro este lugar, e o cozido de frutos do mar é quase tão bom quanto o da minha mãe. Não é chique, só pequenas mesas de madeira no centro, cercadas por reservados no entorno. Não está lotado, de modo que conseguimos pegar um reservado.
Natasha pede que eu escolha por ela.
— Como o que você pedir — diz.
Toco o sininho preso à mesa e uma garçonete aparece quase imediatamente.
Peço soon dubu, kalbi e pa jun.
— Tem um sino? — pergunta ela quando a garçonete se afasta.
— Incrível, né? Somos um povo prático — declaro, meio que brincando. — Tira todo o mistério do serviço. Quando meu garçom vai aparecer? Quando vou receber a conta?
— Os restaurantes americanos sabem disso? Porque deveríamos contar a eles. Os sinos deveriam ser obrigatórios.
Rio e concordo, mas depois ela volta atrás:
— Não, mudei de ideia. Dá para imaginar um idiota tocando o sino sem parar e pedindo o ketchup?
Os panchan, entradas grátis, chegam muito rápido. Parte de mim se prepara para explicar o que ela está comendo. Uma vez o amigo de um amigo fez uma piada do tipo: o que tem nessa comida? Carne de cachorro? Eu me senti um merda, mas ri mesmo assim. É um desses momentos que me levam a desejar um Cartão de Refazer.
Mas Natasha não pergunta nada sobre a comida.
A garçonete vem e nos entrega os hashis.
Natasha pede:
— Ah, pode me dar um garfo, por favor?
A garçonete lança um olhar desaprovador para ela e se vira para mim.
— Ensina namorada usar pauzinhos — repreende, e se afasta.
Natasha me encara com os olhos arregalados.
— Isso quer dizer que ela não vai trazer um garfo?
Rio e balanço a cabeça, dizendo:
— O que foi isso?
— Acho que você deveria me ensinar a usar os pauzinhos.
— Não se preocupe com ela. Certas pessoas não ficam felizes até que tudo seja feito do jeito delas.
Natasha dá de ombros.
— Toda cultura é assim. Os americanos, os franceses, os jamaicanos, os coreanos. Todo mundo acha que seu jeito é o melhor.
— Mas nós, os coreanos, talvez estejamos certos — digo rindo.
A garçonete volta e coloca a sopa e dois ovos crus à nossa frente. Joga colheres embrulhadas em papel no centro da mesa.
— Qual é o nome disso? — pergunta Natasha quando a garçonete vai embora.
Soon dubu.
Ela me olha quebrar o ovo na sopa e afundá-lo, para cozinhar, sob cubos de tofu, camarão e mariscos fumegando. Faz o mesmo e não comenta se é seguro comer isso.
— É delicioso — diz, tomando uma colherada.
Ela praticamente estremece de prazer.
— Por que você diz que é coreano? — questiona depois de mais algumas colheradas. — Você não nasceu aqui?
— Não importa. As pessoas sempre perguntam de onde eu sou. Eu costumava responder que era daqui, mas aí elas perguntavam de onde a gente era de verdade, e eu dizia: da Coreia. Às vezes falo que somos da Coreia do Norte e que meus pais e eu escapamos de uma masmorra subaquática cheia de piranhas onde Kim Jong-un nos mantinha como prisioneiros.
Ela não sorri como espero. Só quer saber por que faço isso.
— Porque não importa o que eu diga. As pessoas me olham e acreditam no que querem.
— Isso é uma bosta — declara ela, pegando um pouco de kimchi e colocando na boca.
Eu poderia olhá-la comendo o dia inteiro.
— Estou acostumado. Meus pais acham que não sou suficientemente coreano. Todas as outras pessoas acham que não sou suficientemente americano.
— É uma bosta mesmo. — Ela passa do kimchi para os brotos de feijão. — Mas acho que você não deveria dizer que é da Coreia.
— Por quê?
— Porque não é verdade. Você é daqui.
Adoro como isso é simples para ela. Adoro que sua solução para tudo seja contar a verdade. Luto com minha identidade e ela só diz para falar o que é verdadeiro.
— Você não deve ajudar as outras pessoas a ajustá-lo numa caixa.
— As pessoas fazem isso com você?
— Fazem; mas, na verdade, eu não sou daqui, lembra? Nós nos mudamos para cá quando eu tinha 8 anos. Eu tinha sotaque. A primeira vez que vi a neve eu estava na sala de aula e fiquei tão pasma que me levantei para olhar.
— Ah, não.
— Ah, sim.
— As outras crianças...
— Não foi bonito. — Ela estremece de mentirinha, lembrando. — Quer ouvir uma coisa ainda pior? No meu primeiro teste de ditado a professora marcou que eu escrevi “favorite” errado porque incluí o u: “favourite”.
— Isso está mesmo errado.
— Não. — Ela balança a colher para mim. — A grafia correta em inglês inclui o u. Assim diz a rainha da Inglaterra. Pesquise, garoto americano. De qualquer modo, eu era tão nerd que mostrei o dicionário para ela e ganhei os pontos de volta.
— Você não fez isso.
— Fiz — diz Natasha, sorrindo.
— Você queria mesmo aqueles pontos.
— Os pontos eram meus.
Ela dá uma risadinha, coisa que eu não achava que ela fazia. Claro, só a conheço há algumas horas, por isso obviamente ainda não sei tudo a seu respeito. Adoro essa parte de conhecer outra pessoa. A forma como cada informação nova, cada expressão nova, parece mágica. Não consigo imaginar isso envelhecendo e ficando chato. Não imagino não querer ouvir o que ela tem a dizer.
— Pare de fazer isso — ordena ela.
— O quê?
— Ficar me encarando.
— Certo. — Desencavo meu ovo e vejo que está perfeitamente cozido e mole. — Vamos comer juntos — digo. — É a melhor parte.
Ela pega o dela, e agora nós dois estamos com o ovo na colher, colher na mão.
— No três. Um. Dois. Três.
Colocamos os ovos na boca. Vejo seus olhos se arregalarem. Percebo o momento em que a gema estoura na sua boca. Ela fecha os olhos como se essa fosse a coisa mais deliciosa que já provou. Disse para eu não encarar, mas estou encarando. Adoro como ela parece sentir as coisas com o corpo inteiro. Imagino por que uma garota tão obviamente passional é tão teimosamente contra a paixão.


a garçonete
Uma história de amor

APRENDE USAR PAUZINHOS.
Ensina namorada usar pauzinhos.
Meu filho fazia a mesma coisa. Ele namora garota branca. Meu marido? Não aceita. No início eu concordo com ele. Nós não fala com nosso filho durante um ano depois que ele conta. Pensei: nós não fala com ele. Faz ele ver a razão, tomar tino.
Nós não fala e eu sinto falta dele. Sinto falta meu menininho, as piadas americanas dele e o modo que ele belisca minha bochecha e diz que sou a omma mais bonita de todas. Meu filho, que nunca ficou com vergonha de mim quando todos os outros garotos ficam americanos demais.
Nós não fala com ele mais de um ano. Então, quando ele telefona, penso: pronto, ele entende finalmente. Garota branca nunca vai entender nós, nunca vai ser coreana. Mas ele só liga para dizer que vai casar. Quer que a gente vai no casamento. Escuto na voz dele como ele ama ela. Escuto como ele ama ela mais do que ama eu. Escuto que se eu não vou no casamento perco meu filho único.
Meu filho único, que me ama.
Mas o pai diz não. Meu filho implorou pra gente ir e eu digo não, até que ele para de implorar.
Ele casou. Vi fotos no Facebook.
Eles têm primeiro filho. Vi fotos no Facebook.
Eles têm outra filha. Uma menina.
Meus sohn-jah, netinhos, e só conheço pelo computador.
Agora, quando aparecem esses garotos aqui com essas garotas que não são como as ommas deles, fico com raiva. Este país tenta tirar tudo de nós. Nossa língua, nossa comida, nossos filhos.
Aprende usar pauzinhos. Este país não pode ter tudo.


natasha

FALTAM SÓ DUAS HORAS para o meu compromisso e Daniel quer mesmo ir ao norebang, que é a palavra coreana para karaokê. Karaokê, por sua vez, é a palavra japonesa que significa pagar mico cantando na frente de uma sala cheia de estranhos que só estão ali para rir da gente.
— Não é como a versão americana — insiste ele quando recuso. — É muito mais civilizada.
Com civilizada ele quer dizer que a gente paga mico numa sala pequena, privativa, na frente só dos amigos. Seu norebang predileto, por coincidência, fica ao lado de onde acabamos de almoçar. Os donos são os mesmos, por isso nem precisamos sair, porque há uma entrada por dentro do restaurante.
Daniel escolhe uma das salas menores, mas mesmo assim é grande.
Obviamente se destina a acomodar grupos de seis ou oito pessoas, em vez de apenas duas. É mal iluminada, com sofás de couro vermelho cobrindo a maior parte do ambiente. Uma grande mesa de centro fica diante dos sofás. Nela há um microfone, um controle remoto de aparência complicada e um livro grosso com Menu de Músicas escrito na capa em três línguas. Perto da porta há uma TV grande onde as letras vão aparecer. Um globo de discoteca pende do teto.
Bev adoraria isto aqui. Em primeiro lugar ela tem uma espécie de obsessão por globos de discoteca. Tem quatro pendurados no teto do quarto e um negócio que é uma fusão de globo de discoteca e relógio. Em segundo, ela tem uma voz ótima e aproveita qualquer desculpa para usá-la na frente das pessoas. Olho o telefone para ver se há mais alguma mensagem dela. Bev só está ocupada, digo a mim mesma. Ainda não se esqueceu de mim. Ainda estou aqui.
Daniel fecha a porta.
— Não acredito que você nunca foi a um norebang — diz ele.
— É chocante, eu sei.
Com a porta fechada, a sala parece pequena e íntima.
Ele me olha como se estivesse pensando a mesma coisa.
— Vamos pedir uma sobremesa — avisa, e aperta o botão na parede para chamar o serviço.
A mesma garçonete do restaurante aparece. Não se dá ao trabalho de olhar para mim. Daniel pede patbingsoo, que por acaso é gelo raspado com fruta, pequenos bolos de arroz macios e feijão vermelho doce.
— Gosta? — Para ele é importante que eu goste.
Acabo em seis colheradas. Como não gostar? É doce, gelado e delicioso.
Ele me dá um sorriso enorme e eu rio de volta.
Fato Observável: gosto de fazer com que ele se sinta feliz.
Fato Observável: não sei quando isso aconteceu.
Ele pega o menu de músicas na mesa e folheia até a parte em inglês. Enquanto sofre escolhendo a música, olho os vídeos de pop coreano na televisão.
Têm cor de bala e são contagiantes.
— Escolha logo uma música — falo quando o terceiro vídeo começa.
— Isto aqui é norebang. Você não escolhe uma música simplesmente. A música escolhe você.
— Diga que está brincando.
Ele pisca para mim e começa a afrouxar a gravata.
— É, estou brincando, mas não conta para ninguém. Estou tentando achar alguma coisa para impressionar você com meu estilo vocal.
Daniel abre o botão de cima da camisa. Olho suas mãos enquanto ele puxa a gravata por cima da cabeça. Não que ele esteja tirando a roupa. Não que vá se despir aqui na minha frente. Mas a sensação é de que vai. Não vejo nada de escandaloso, só um rápido vislumbre da pele do pescoço. Ele tira o elástico do cabelo e o joga na mesa. O cabelo só tem tamanho suficiente para cair em cima do rosto, e ele o empurra para trás da orelha, distraído. Não consigo deixar de olhar. Parece que estive esperando o dia inteiro que ele fizesse isso.
Fato Observável: ele é muito gato com o cabelo solto.
Fato Observável: ele é muito gato com o cabelo preso também.
Afasto o olhar e me viro para o aparelho de ar-condicionado na parede. Estou pensando em baixar a temperatura.
Ele enrola as mangas, o que me faz rir. Está agindo como se fôssemos fazer um trabalho físico sério. Tento não notar as linhas longas e lisas dos antebraços dele, mas meu olhar fica indo até lá.
— Você canta bem? — pergunto.
Ele me olha com falsa solenidade, mas os olhos se movendo de um lado para outro entregam.
— Não vou mentir. Sou bom. Bom tipo cantor de ópera italiana. — Ele pega o controle remoto para digitar o código da música que escolheu. — E você?
Não respondo. Ele vai descobrir logo. Na verdade, minha voz cantando vai curá-lo definitivamente da paixonite.
Fato Observável: sou a pior cantora da Terra.
Ele se levanta e vai até a área diante da televisão. Aparentemente, vai precisar de espaço para manobra. Ajusta a pose até os pés estarem bem plantados, separados, baixa a cabeça de modo que o cabelo cobre o rosto e segura o microfone no ar, numa das mãos — clássica pose de astro do rock. É “Take a Chance on Me”, do ABBA. Ele põe a mão no coração e canta a primeira estrofe. Como a música, que fala sobre se arriscar, ele canta especificamente sobre eu me arriscar com ele.
Na segunda estrofe, ele esquentou e está me lançando olhares cafonas de astro pop, levantando as sobrancelhas, mandando olhares penetrantes e fazendo beicinho. Segundo a letra, podemos fazer um monte de coisas divertidas desde que estejamos juntos. As coisas divertidas incluem dançar, andar, falar e ouvir música. Estranhamente, não há nenhuma menção a beijar. Ele imita cada atividade, como uma espécie de mímico ensandecido, e não consigo parar de rir.
Na terceira estrofe, está de joelhos à minha frente. Na letra há algo sobre sentir-se sozinho quando pássaros bonitos voaram, que não entendo direito. Será que eu sou o pássaro? Será que é ele? Por que existem pássaros?
No resto da música ele está de novo de pé, segurando o microfone com as duas mãos e cantando com a alma. Meu riso histérico não o abala. Além disso, ele não estava brincando quando falou que era bom cantor. É excelente. Faz até a parte do backing vocal, que consiste em cantar “take a chance” repetidamente.
Ele não está tentando ser sensual. É simplesmente engraçado. Tão engraçado que fica sensual. Eu não sabia que coisas engraçadas podiam ser assim. Observo como sua camisa social se estica no peito quando ele faz os passos de discoteca.
Noto como os dedos ficam longos quando ele passa as mãos pelo ar de forma dramática. Reparo como sua bunda parece bonita e firme na calça do terno.
Fato Observável: adoro bundas.
Considerando o meu dia de merda, nada disso deveria estar funcionando comigo. Mas, sem dúvida, está. É a completa falta de autocensura de Daniel. Ele não se importa se está pagando mico. Seu único objetivo é me fazer rir.
É uma música comprida, e, no final, ele está empolgado e suado. Ao terminar, ele olha o monitor até que um microfone de desenho animado rosa dança na tela e levanta uma placa: 99%. A tela se enche de confete.
Resmungo.
— Você não disse que tinha nota.
Ele me lança um riso de triunfo e desmorona no sofá ao meu lado. Nossos braços roçam um no outro, se separam e roçam de novo. Eu me sinto ridícula reparando nisso, mas reparo.
Ele se afasta para pegar o microfone e me entrega.
— Vai fundo.


daniel

GOSTARIA DE TER PENSADO ANTES em fazer norebang. Estar sozinho com ela numa sala mal iluminada é um pedaço do céu (céu de discoteca). Natasha folheia o livro de músicas fazendo ruídos, dizendo que é péssima cantora. Eu a encaro, aproveitando que ela está distraída demais para mandar que eu pare.
Não consigo decidir que parte do seu rosto é a minha predileta. Neste momento podem ser os lábios. Ela está mordendo o inferior, no que acho que é sua cara de sofrimento por causa do excesso de opções.
Por fim escolhe. Em vez de pegar o controle remoto, curva-se sobre a mesa para alcançá-lo e digita o código. Seu vestido sobe um pouco e dá para ver a parte de trás das coxas. Estão com marquinhas de franzido do sofá. Quero envolvê-las com a mão e alisar as marcas com o polegar.
Ela se vira para me olhar e nem posso fingir que não estava olhando. Não quero. Quero Natasha e quero que ela saiba que a quero. Ela não afasta o olhar. Seus lábios se separam (são mesmo os lábios mais incríveis do universo) e ela encosta a língua no de baixo.
Vou me levantar e vou beijá-la. Nenhuma força na terra pode me impedir, só que a música começa e aniquila o momento com melancolia.
Reconheço a introdução. É “Fell on Black Days”, do Soundgarden. A música começa com o cantor da banda, Chris Cornell, dizendo que tudo que ele temia aconteceu. A partir daí vai ladeira abaixo até chegarmos ao refrão, onde ficamos sabendo um bilhão de vezes (mais ou menos) que ele está em dias sombrios. É (em termos objetivos) a música mais depressiva que já foi composta.
Mesmo assim Natasha adora. Ela estrangula o microfone com as duas mãos e fecha os olhos com força. Canta de forma séria, sentida e completamente medonha.
Não é bom.
Nem um pouco.
Tenho quase certeza de que ela é surda para a afinação. Qualquer nota que acerta é pura coincidência. Fica balançando, desajeitada, de um lado para outro, de olhos fechados. Não precisa ler a letra porque conhece a música de cor.
Quando chega ao último refrão, já se esqueceu de mim. Sua falta de jeito vai embora. O canto ainda não é bom, mas ela está com uma das mãos no coração e berrando um verso que diz que não conhece o próprio destino, e há verdadeira emoção em sua voz.
Graças a Deus, ela termina. A música é uma cura para a felicidade. Natasha me espia. Nunca a vi parecer tímida. Ela morde outra vez o lábio inferior e franze o rosto. É adorável.
— Adoro essa música — diz.
— É meio tristinha, não é? — provoco.
— Um pouco de angústia não faz mal a ninguém.
— Você é a pessoa menos dominada pela angústia que já conheci.
— Não é verdade. Só sou boa em fingir.
Não creio que ela quisesse admitir isso para mim. Não creio que ela goste de expor seus pontos frágeis. Ela se vira e coloca o microfone na mesa.
Mas não vou deixar que Natasha se afaste deste momento. Seguro sua mão e a puxo para mim. Ela não resiste, e eu não paro de puxar até que nossos corpos inteiros estejam se tocando. Não paro de puxar até que ela esteja respirando o mesmo ar que eu.
— Foi a pior apresentação de todos os tempos — declaro.
Seus olhos estão brilhando.
— Eu disse que era ruim.
— Não disse.
— Na minha cabeça, eu disse.
— Eu estou na sua cabeça?
Ela está tão perto que sinto o ligeiro calor de seu rubor.
Ponho a mão na sua cintura e enterro os dedos em seu cabelo. Qualquer coisa pode acontecer no espaço que há entre nós. Espero por ela, espero que seus olhos digam sim, e então a beijo. Seus lábios parecem almofadas macias e eu afundo neles. Começamos castos, só os lábios se tocando, sentindo o gosto, mas logo não aguentamos. Ela abre os lábios e nossas línguas se embolam, recuam e se embolam de novo. Estou duro em toda parte, mas a sensação é boa demais, certa demais para sentir vergonha. Ela está emitindo pequenos gemidos que me fazem querer beijá-la mais ainda.
Não me importo com o que ela diz sobre o amor e substâncias químicas. Isto não vai acabar. Isto é mais do que química. Ela se afasta e seus olhos são estrelas negras reluzindo, olhando os meus.
— Volte — digo, e a beijo como se não existisse amanhã.


natasha

NÃO CONSIGO PARAR. Não quero parar. Meu corpo não se importa de jeito nenhum com o que meu cérebro pensa. Sinto o beijo dele em toda parte. Nas pontas dos cabelos. No centro da barriga. Na parte de trás dos joelhos. Quero puxá-lo para mim e quero me derreter nele.
Recuamos e a parte de trás das minhas pernas bate no sofá. Ele me guia para baixo até que está meio em cima de mim, mas com uma perna ainda no chão.
Preciso continuar beijando. Meu corpo está febril. Não consigo me fartar. Não consigo chegar suficientemente perto. Alguma coisa caótica e insistente cresce dentro de mim. Estou arqueando no sofá para chegar mais perto dele do que já estou. Sua mão aperta minha cintura e viaja até o peito. Ele roça ligeiramente o meu seio. Envolvo seu pescoço com os braços e depois enfio os dedos no seu cabelo. Finalmente. Quis fazer isso o dia inteiro.
Fato Observável: não acredito em magia.
Fato Observável: nós somos magia.


daniel

PUTA QUE O...


Natasha

… PARIU.


daniel

NÃO PODEMOS FAZER SEXO no norebang.
Não.
Podemos.
Mas vou em frente, admitindo que quero. Se não parar de beijá-la, vou acabar pedindo, e não quero que ela pense que sou o cara que pediria a uma garota que ele acabou de conhecer para fazer sexo no norebang depois do primeiro (quase) encontro, mesmo que eu seja totalmente esse tipo de cara porque, meu Deus, quero mesmo fazer sexo com ela aqui e agora, no norebang.


Natasha

MINHAS MÃOS NÃO CONSEGUEM parar de tocá-lo. Deslizam para longe do seu cabelo e descem até os músculos rijos das costas. Por vontade própria, descem até a bunda.
Como eu suspeitava, é espetacular. Firme, redonda e perfeitamente proporcionada. É o tipo de bunda que pede para ser segurada. Ele jamais deveria usar calça.
Passo a mão, aperto, e parece melhor ainda do que eu esperava.
Ele se ergue, os braços dos dois lados da minha cabeça, e sorri para mim.
— Não sou um melão, você sabe.
— Eu gosto — digo, e aperto de novo.
— É toda sua.
— Já pensou em usar calça de couro de vaqueiro? Daquelas que deixam o traseiro de fora?
— Absolutamente não — responde ele, rindo e ficando vermelho.
Gosto de fazer com que ele fique vermelho.
Ele se abaixa e me beija de novo. Parece que não existe nenhuma parte de mim que não esteja sendo beijada. Afasto as mãos da sua bunda e levo aos ombros, para diminuir nosso ritmo. Se eu beijá-lo mais, só vou tornar a coisa mais difícil para mim depois.
Portanto.
Chega de beijar.


daniel

SINTO A HESITAÇÃO NOS SEUS lábios e, para ser honesto, estou meio tonto vendo como isso é intenso. Levanto o corpo e puxo Natasha até ela ficar sentada. Seguro sua nuca e encosto a testa na dela. Nós dois estamos respirando depressa demais, entrecortado demais. Eu sabia que tínhamos química, mas não esperava isto.
Somos palha seca e tempestade de raios. Fósforo aceso e papel. Placas de Perigo de Incêndio e uma floresta esperando para pegar fogo.
De tudo que o dia de hoje poderia ter se tornado, eu não poderia prever isto.
Mas agora tenho certeza de que cada acontecimento teve como propósito me trazer para ela, para nós, para este momento — e para este momento nos levar para o resto da nossa vida.
Até a suspensão de Charlie em Harvard parece fazer parte do plano para nos trazer até este ponto.
Não fosse Charlie e seu fracasso, minha mãe não teria dito o que disse hoje de manhã. Se ela não tivesse dito aquilo, eu não teria saído tão cedo para cortar o cabelo, coisa que ainda não fiz.
Não teria pegado o trem 7 com o condutor procurando Deus.
Não fosse ele, eu não teria saído do metrô para caminhar e não teria testemunhado Natasha em sua experiência musical religiosa. Não fosse o condutor falar de Deus, eu não teria notado sua jaqueta com o DEUS EX MACHINA.
Não fosse a jaqueta, eu não a teria acompanhado até a loja de discos.
Não fosse seu ex-namorado ladrão, eu não teria falado com ela.
Até o idiota no BMW merece algum crédito. Se ele não tivesse avançado o sinal vermelho, eu não teria uma segunda chance com ela.
Tudo isso, absolutamente tudo, estava nos trazendo para cá.
Quando recomeçamos a respirar normalmente, beijo a ponta do seu nariz.
— Eu falei — digo, e beijo o nariz de novo.
— Fetichista de nariz. O que você falou?
Pontuo as palavras com beijos no nariz.
— Nós.
Beijo.
— Estávamos.
Beijo.
— Destinados.
Beijo.
— Um.
Beijo.
— Ao.
Beijo.
— Outro.
Beijo.
Ela se afasta. Seus olhos se transformam em nuvens de tempestade e ela desembola seus membros dos meus. É difícil deixá-la ir, como separar dois ímãs.
Será que fiz com que ela pirasse, com meu papo de destino? Ainda sentada no sofá, ela se distancia e coloca muito espaço entre nós. Não quero deixar que o momento passe. Há alguns segundos achava que ele duraria para sempre.
— Quer cantar outra? — Minha voz falha e eu pigarreio.
Olho para a TV. Não tivemos chance de ver a nota dela antes de começarmos a nos beijar. É 89%, o que é terrível. É bem difícil conseguir menos de 90% no norebang.
Ela também olha para a TV, mas não diz nada. Não consigo imaginar o que está se passando em sua cabeça. Por que está resistindo a essa coisa entre nós?
Ela põe a mão no cabelo, puxa uma mecha e solta, puxa outra e solta.
— Desculpe — diz.
Deslizo para perto e diminuo a distância entre nós. Suas mãos estão cruzadas no colo.
— Desculpe por quê?
— Porque fico pulando de um lado para outro o tempo todo.
— Você estava pulando para o lado certo há um minuto — digo, fazendo a piada mais capenga (junto com os trocadilhos, as insinuações são a pior forma de humor) que eu poderia fazer neste momento.
Até mexo as sobrancelhas e espero a reação dela. Isso pode ir para um lado ou para outro.
Um sorriso domina seu rosto. Aquelas nuvens de tempestade em seus olhos não têm chance.
— Uau. — Sua voz sai quente ao redor do sorriso. — Você tem mesmo jeito com as palavras.
— E com as damas — completo, mais canastrão ainda.
Vou me fazer de idiota só para ela rir. Ela ri mais um pouco e se recosta no sofá.
— Tem certeza de que você é qualificado para ser poeta? Essa foi a pior frase que já ouvi.
— Você estava esperando alguma coisa...
— Mais poética.
— Está brincando? A maioria dos poemas é sobre sexo.
Ela fica cética.
— Você tem dados para sustentar isso? Quero ver números.
— Cientista! — acuso.
— Poeta! — devolve ela.
Nós dois sorrimos, deliciados, sem tentar esconder o prazer com o outro.
— A maioria dos poemas que li são sobre amor, sexo ou as estrelas. Vocês, poetas, são obcecados pelas estrelas. Estrelas cadentes. Estrelas riscando o céu. Estrelas morrendo.
— As estrelas são importantes — afirmo, rindo.
— Claro, mas por que não existem mais poemas sobre o sol? O sol também é uma estrela, e é a mais importante para nós. Só isso deveria valer um ou dois poemas.
— Feito. De agora em diante só vou escrever poemas sobre o sol.
— Ótimo.
— Mas, sério. Acho que a maioria dos poemas é sobre sexo. Robert Herrick escreveu um poema chamado “Às virgens, para aproveitar ao máximo o tempo”.
Ela cruza as pernas em posição de lótus no sofá e se dobra de rir.
— Ele não fez isso.
— Fez. Ele basicamente estava dizendo às virgens para perder a virgindade quanto antes, para o caso de morrerem. Que Deus não permita que morram virgens.
O riso dela some.
— Talvez ele só estivesse dizendo que deveríamos viver o momento. Como se só tivéssemos o dia de hoje.
Ela está séria de novo, e triste, e não sei por quê. Encosta a nuca no sofá e olha o globo de discoteca.
— Fale sobre seu pai — peço.
— Não quero falar sobre ele.
— Eu sei, mas fale mesmo assim. Por que disse que ele não ama você?
Ela levanta a cabeça para me olhar.
— Você é implacável — afirma, e deixa a cabeça cair para trás de novo.
— Persistente.
— Não sei como dizer. A principal emoção do meu pai é o arrependimento. É como se ele tivesse cometido um erro gigantesco no passado, como se tivesse pegado a estrada errada e, em vez de parar onde deveria, acabasse vivendo com minha mãe, meu irmão e comigo.
Sua voz fica embargada, mas ela não chora. Estendo a mão, seguro a dela e nós dois olhamos para a tela de TV. Sua nota foi substituída por um anúncio mudo dos cassinos de Atlantic City.
— Minha mãe faz uns quadros lindos — digo. — Incríveis mesmo.
Ainda posso ver as lágrimas nos olhos dela quando meu pai lhe deu o presente. Ela disse: “Yeobo, você não precisava fazer isso.”
Ele disse: “É uma coisa só para você. Você pintava o tempo todo.”
Fiquei surpreso com aquilo. Achava que sabia tudo sobre minha mãe — sobre os dois, na verdade —, mas havia essa história secreta que eu não conhecia. Perguntei por que ela tinha parado e ela balançou a mão no ar, como se estivesse varrendo os anos para longe.
“Faz muito tempo”, disse.
Beijo a mão de Natasha e confesso:
— Às vezes acho que ela pegou a estrada errada quando teve a gente.
— É, mas ela acha isso?
— Não sei. Mas, se tivesse de adivinhar, diria que ela está feliz com o que aconteceu na sua vida.
— Isso é bom. Dá para imaginar alguém passar a vida inteira achando que cometeu um erro? — Natasha estremece ao falar.
Levo a mão dela aos lábios e beijo. Sua respiração se altera. Puxo-a, querendo beijá-la, mas ela me impede.
— Diga por que você quer ser poeta.
Eu me recosto e passo o polegar sobre os nós dos seus dedos.
— Não sei. Quero dizer, nem sei se essa é a profissão que quero. Não entendo por que eu já deveria saber isso. Só sei que gosto. Gosto mesmo. Tenho pensamentos e sinto necessidade de escrevê-los, e quando escrevo eles saem como poemas. É desse jeito que me sinto melhor comigo mesmo, a não ser...
Paro de falar, não querendo fazer com que ela pire de novo.
Ela levanta a cabeça do sofá.
— A não ser o quê? — Seus olhos estão brilhantes. Ela quer saber a resposta.
— A não ser com você. Você faz com que eu me sinta bem comigo mesmo.
Natasha afasta a mão da minha. Acho que vai entrar outra vez no modo de isolamento, mas não. Ela se inclina e me beija.


natasha

BEIJO PARA QUE ELE PARE DE FALAR. Se continuar falando, vou amá-lo, e não quero amá-lo. Não mesmo. Em termos de estratégia, não é a melhor. Beijar é apenas outro modo de falar, só que sem palavras.


daniel

UM DIA VOU ESCREVER uma ode sobre o beijo. Vou chamar de “Ode a um beijo”.
Vai ser épica.


natasha

PROVAVELMENTE AINDA ESTARÍAMOS nos beijando se a garçonete mal-humorada não tivesse voltado para saber se queríamos comer mais alguma coisa. Não queríamos, e de qualquer modo era hora de ir. Ainda quero levá-lo ao Museu de História Natural, meu lugar predileto em Nova York. Digo isso e saímos.
Depois da escuridão do norebang o sol parece claro demais. E não apenas o sol: tudo parece demais. A cidade é ruidosa demais e apinhada demais.
Durante alguns segundos fico desorientada com as lojas empilhadas umas nas outras, com os letreiros em coreano, e me lembro de onde estamos. Essa parte da cidade deveria se parecer com Seul. Imagino se realmente se parece. Franzo os olhos por causa do sol e penso em voltar para dentro. Ainda não estou pronta para a realidade ruidosa e agitada de Nova York.
Este é o pensamento que faz com que eu volte a mim: realidade. Isto é realidade. O cheiro de borracha e escapamento, o barulho de uma quantidade imensa de carros indo a lugar nenhum, o gosto de ozônio no ar. Isto é a realidade.
No norebang podíamos fingir, mas aqui, não. É uma das coisas de que mais gosto em Nova York. Ela afasta qualquer tentativa que você faz de mentir para si mesmo.
Nós nos viramos um para o outro ao mesmo tempo. Estamos de mãos dadas, mas até isso parece fingimento agora. Tiro minha mão da dele para ajeitar a mochila. Ele espera que eu a devolva, mas ainda não estou pronta.


daniel

Adolescente incapaz de deixar para lá.
Estamos sentados lado a lado no trem e, mesmo que ele fique nos jogando um em cima do outro, sinto que Natasha desliza para longe. Ninguém está sentado à nossa frente; olhamos nosso reflexo na janela. Meu olhar passeia pelo rosto dela quando ela olha para longe. Seu olhar passeia pelo meu quando faço o mesmo. Sua mochila está no colo e Natasha a aperta contra o peito como se ela pudesse se levantar e ir embora a qualquer segundo.
Eu poderia pegar sua mão, forçar a barra, mas quero que ela faça isso dessa vez. Quero que ela reconheça escancaradamente esta coisa entre nós. Não posso deixar para lá. Quero que ela diga as palavras. Estamos destinados um ao outro. Alguma coisa. Qualquer coisa. Preciso ouvir. Saber que não estou sozinho nisto.
Eu deveria deixar para lá.
Vou deixar.
— De que você tem tanto medo? — pergunto, sem deixar nem um pouco para lá.


natasha

ODEIO FINGIR, MAS AQUI ESTOU, FINGINDO.
— Do que você está falando? — digo para o reflexo dele na janela do metrô, e não para ele.


daniel

QUASE ACREDITO QUE ELA NÃO SABE do que estou falando. Nossos olhares se encontram na janela como se fosse o único lugar onde podemos nos olhar.
— Nós estamos destinados um ao outro — insisto. Sai tudo errado: autoritário, cheio de repreensão e ao mesmo tempo suplicante. — Sei que você também sente.
Ela não diz nada, só se levanta e vai para perto da porta do trem. Se a raiva fosse parecida com calor, eu poderia ver as ondas se irradiando do seu corpo.
Parte de mim quer ir até ela e pedir desculpas. Parte de mim quer saber qual é o problema dela, afinal. E me obrigo a ficar sentado durante as duas paradas que restam até que o trem finalmente guincha ao entrar na estação da rua 81.
As portas se abrem. Ela abre caminho pela multidão e sobe a escada correndo. Assim que chegamos ao topo, ela me puxa de lado e gira para me encarar.
— Não diga o que devo sentir — sussurra gritando.
Vai dizer outra coisa, mas decide que não. Em vez disso se afasta.
Está frustrada, mas também estou. Eu a alcanço.
— Qual é o seu problema? — Até levanto as mãos ao dizer isso.
Não quero brigar com ela. O Central Park fica do outro lado da rua. As árvores estão luxuriantes, lindas nas cores de outono. Quero andar pelo parque com ela e escrever poemas no meu caderno. Quero que ela curta com a minha cara por escrever poemas no caderno. Quero que ela me explique como e por que as folhas mudam de cor. Tenho certeza de que ela conhece a ciência por trás disso.
Ela coloca a mochila nos dois ombros e cruza os braços na frente do corpo.
— Não existe essa coisa de destino.
Não quero uma discussão filosófica, por isso admito.
— Certo, mas se existisse...
Ela me interrompe:
— Não. Chega. Não existe. E, mesmo que existisse, nós dois não estamos destinados um ao outro.
— Como você pode dizer isso?
Sei que estou sendo pouco razoável e irracional, e provavelmente um monte de outras coisas que não deveria ser. Mas isso não é uma coisa pela qual seja possível brigar com outra pessoa.
Não é possível convencer alguém a amar a gente.
Uma brisa fraca agita as folhas ao redor. Agora está mais frio do que esteve o dia inteiro.
— Porque é verdade. Não estamos destinados um ao outro, Daniel. Eu sou uma imigrante ilegal. Vou ser deportada. Hoje é meu último dia nos Estados Unidos. Amanhã vou embora.
Talvez haja outro modo de interpretar as palavras dela. Meu cérebro pega as mais importantes e rearruma, esperando um significado diferente. Tento até compor um pequeno poema, mas as palavras não colaboram. Elas simplesmente ficam ali, pesadas demais para que eu possa ajeitá-las.
Último.
Ilegal.
Estados Unidos.
Embora.


natasha

NORMALMENTE UMA COISA ASSIM, brigar em público, me deixaria sem graça, mas não noto praticamente ninguém além do Daniel. Para ser honesta comigo mesma, foi desse jeito o dia inteiro.
Ele pressiona a testa com as mãos e seu cabelo forma uma cortina em volta do rosto. Não sei o que eu deveria dizer nem fazer. Quero engolir as palavras de volta. Quero continuar fingindo. É culpa minha as coisas terem ido tão longe. Eu deveria ter contado no início, mas não achei que chegaríamos a este ponto. Não pensei que sentiria tanto.


daniel

— EU ADIEI MEU COMPROMISSO por sua causa.
Minha voz sai tão baixa que não sei se falei para ela ouvir, mas ela ouve.
Seus olhos se arregalam. Ela começa a falar três coisas diferentes antes de se decidir por:
— Espera aí. Isso é minha culpa?
Eu a estou acusando de alguma coisa. Não sei bem de quê.
Um sujeito de bicicleta sobe na calçada, muito perto de nós. Uma pessoa grita para ele usar a rua. Quero gritar com ele também. Quero dizer: siga as regras!
— Você podia ter me avisado. Podia ter contado que ia embora.
— Eu avisei — diz ela, agora na defensiva.
— Não o suficiente. Você não disse que em menos de 24 horas iria morar em outro país.
— Eu não sabia que a gente...
Interrompo:
— Você sabia o que estava acontecendo com você quando a gente se conheceu.
— Naquela hora isso não era da sua conta.
— E agora é?
Ainda que a situação seja sem esperança, só de dizer que é da minha conta agora me dá alguma esperança.
Ela insiste de novo:
— Tentei avisar.
— Não o suficiente. É isto que você deveria fazer: abrir a boca e dizer a verdade. Nada dessa merda de não acreditar no amor e na poesia. Você diz: “Daniel, eu vou embora. Daniel, não se apaixone por mim.”
— Eu disse essas coisas.
Ela não está gritando, mas também não está falando baixo.
Um menininho de uns 2 anos, com um casaco muito chique, nos observa com os olhos arregalados e puxa a mão do pai. Um bando de turistas (com guias de viagem e tudo) nos espia como se fizéssemos parte de uma exposição.
Baixo a voz.
— É, mas não achei que você estivesse falando sério.
— De quem é a culpa?
Não tenho o que responder, e ficamos nos encarando.
— Você não pode estar se apaixonando por mim de verdade — diz ela, agora mais baixo.
Sua voz é algo entre a perturbação e a incredulidade.
De novo não tenho o que dizer. Até eu estou surpreso com o que senti por ela o dia inteiro. O problema de se apaixonar, de cair de quatro, é que a gente não tem o controle da queda.
Tento acalmar o ar entre nós.
— Por que não posso estar me apaixonando por você?
Ela puxa com força as alças da mochila.
— Porque é idiotice. Eu disse para você não...
E agora já estou cheio. Meu coração ficou na minha mão o dia inteiro e está todo arranhado.
— Fantástico. Você não sente nada? Eu estava beijando sozinho lá dentro?
— Você acha que alguns beijos significam para sempre?
— Achei que aqueles significavam.
Ela fecha os olhos. Quando abre de novo, acho que vejo pena ali.
— Daniel...
Interrompo. Não quero pena.
— Não. Deixa para lá. Não quero ouvir. Saquei. Você não sente a mesma coisa. Você vai embora. Tenha uma vida boa.
Dou dois passos inteiros antes que ela diga:
— Você é igual ao meu pai.
— Eu nem conheço o seu pai — respondo, vestindo o paletó.
Ele parece mais apertado, não sei como.
Ela cruza os braços.
— Não importa. Você é igual a ele. Egoísta.
— Não sou. — Agora estou na defensiva.
— É, sim. Acha que o mundo inteiro gira em torno de você. Dos seus sentimentos. Dos seus sonhos.
Levanto as mãos.
— Não há nada de errado em ter sonhos. Posso ser um sonhador idiota, mas pelo menos eu tenho sonhos.
— E isso é uma virtude? Vocês, sonhadores, acham que o Universo existe para vocês e para sua paixão.
— É melhor do que não ter paixão nenhuma.
Ela estreita os olhos para mim, pronta para debater.
— Verdade? Por quê?
Não acredito que preciso explicar.
— Foi para isso que fomos colocados na Terra.
— Não — diz ela, balançando a cabeça. — Fomos colocados aqui para evoluir e sobreviver. Só isso.
Sabia que ela ia trazer a ciência para o assunto. Ela não pode acreditar de verdade no que diz.
— Você não acredita nisso.
— Você não me conhece o suficiente para dizer. Além do mais, sonhar é um luxo, e nem todo mundo tem esse luxo.
— É, mas você sonha. Você tem medo de virar o seu pai. Não quer escolher a coisa errada, por isso não escolhe nada.
Sei que há um modo melhor de falar essas coisas, mas não estou me sentindo na minha melhor condição.
— Já sei o que eu quero ser.
Não consigo deixar de zombar.
— Uma cientista de dados ou sei lá o quê? Isso não é paixão. É só um emprego. Ter sonhos nunca matou ninguém.
— Não é verdade. Como você pode ser tão ingênuo?
— Bom, prefiro ser ingênuo a ser o que você é. Você só vê as coisas que estão na sua cara.
— Melhor do que ver coisas que não existem.
E agora estamos num impasse.
O sol se esconde atrás de uma nuvem e uma brisa fresca sopra sobre nós, atravessando o Central Park. Ficamos nos encarando por um tempo. Ela parece diferente ao sol. Imagino que eu também. Ela me acha ingênuo. Mais do que isso, me acha ridículo.
Talvez seja melhor acabar com tudo agora. Melhor um fim trágico e súbito do que longo, arrastado, em que percebemos que somos muito diferentes e que somente o amor não é suficiente para nos manter unidos.
Penso em todas essas coisas. Não acredito em nenhuma.
O vento sopra mais forte. Agita um pouco o cabelo dela. Posso visualizá-lo nitidamente com as pontas cor-de-rosa. Gostaria de ver.


natasha

— VOCÊ DEVERIA IR — DIGO.
— Então é isso? — questiona ele.
Fico feliz por ele estar sendo um cretino. Torna as coisas mais fáceis.
— Você ao menos está pensando em mim? Como será que Natasha está se sentindo? Como ela acabou sendo uma imigrante ilegal? Será que ela quer morar num país que não conhece? Será que está completamente arrasada pelo que está acontecendo em sua vida?
Leio a culpa no rosto dele. Ele dá um passo na minha direção, mas recuo.
Ele para de se mover.
— Você só está esperando alguém que o salve. Você não quer ser médico? Então não seja.
— Não é tão simples — diz ele baixinho.
Estreito os olhos para ele.
— Vou citar o que você disse há cinco minutos. Você faz assim; abre a boca e diz a verdade: “Mamãe e papai, não quero ser médico. Quero ser poeta porque sou idiota e não sei das coisas.”
— Você sabe que não é tão fácil — diz ele, mais baixo ainda.
Puxo as alças da mochila. É hora de ir. Só estamos adiando o inevitável.
— Sabe o que eu odeio? — pergunto. — Realmente odeio poesia.
— É, eu sei.
— Cale a boca. Eu odeio, mas uma vez li uma coisa de um poeta chamado Warsan Shire. Diz que você não pode fazer um lar a partir de seres humanos, e que alguém deveria ter lhe dito isso.
Espero que ele diga que esse sentimento não é verdadeiro. Até quero que ele diga, mas ele fica quieto.
— Seu irmão estava certo. Isso não vai dar em nada. Além do mais, você não me ama, Daniel. Só está procurando alguém que o salve. Salve a si mesmo.


daniel

Adolescente é convencido de que sua vida é uma merda total e absoluta.
Como eu gostaria que ela estivesse certa! Como quero não estar me apaixonando por ela!
Olho Natasha se afastando e não faço nada para impedi-la nem vou atrás.
Que completo idiota eu fui. Estive agindo como um imbecil místico, do tipo que adora cristais. Claro que é isso que está acontecendo agora. Todo esse papo absurdo sobre destino e feitos um para o outro.
Natasha está certa. A vida não passa de uma série de decisões, indecisões e coincidências idiotas às quais decidimos dar significado. A lanchonete da escola não tem seu doce predileto hoje: deve ser porque o Universo está tentando fazer você manter a dieta.
Obrigado, Universo!
Perdeu o trem? Talvez o trem vá explodir no túnel; ou o Paciente Zero de alguma gripe aviária horrível (ave aquática, ganso, pterodátilo) esteja no trem, e graças aos céus você não se contaminou.
Obrigado, Universo!
Mas nesses casos ninguém se incomoda com o destino. O pessoal da lanchonete simplesmente esqueceu que havia outra caixa nos fundos e de qualquer modo você ganhou uma fatia de bolo do seu amigo. Você ficou irritado enquanto esperava outro trem, mas acabou chegando um. Ninguém morreu no trem que você perdeu. Ninguém nem mesmo espirrou.
Dizemos a nós próprios que existem motivos para as coisas que acontecem.
Mas, na verdade, só estamos contando histórias para nós mesmos. Inventando.
Elas não significam nada.


destino
Uma história

O DESTINO SEMPRE ESTEVE no âmbito dos deuses, mas até os deuses estão sujeitos a ele.
Na antiga mitologia grega, as Três Irmãs do Destino tecem a sorte da pessoa nas três primeiras noites de vida. Imagine seu filho recém-nascido no berço. Está escuro, macio e quente, em algum momento entre duas e quatro da madrugada, uma daquelas horas que pertencem exclusivamente aos recém-nascidos ou aos que estão morrendo.
A primeira irmã — Cloto — aparece perto de você. É uma donzela, jovem e de pele lisinha. Nas mãos segura uma roca de fiar e nela produz os fios da vida de seu filho. Ao seu lado está Láquesis, mais velha e mais matronal do que a irmã. Nas mãos segura a haste para medir o fio da vida. O tamanho e o destino da vida de seu filho estão nas mãos dela. Por fim, temos Átropos — velha, desfigurada. Inevitável. Nas mãos segura a tesoura terrível que vai usar para cortar o fio da vida de seu filho. Ela determina a hora e a maneira como a criança morrerá.
Imagine a visão espantosa dessas três irmãs reunidas junto ao berço, determinando o futuro do menino.
Nos tempos modernos, as irmãs desapareceram do consciente coletivo, mas a ideia do Destino não. Por que ainda acreditamos? Será que a tragédia fica mais suportável se acreditarmos que não tivemos responsabilidade sobre ela, que não poderíamos tê-la impedido? Sempre foi assim.
As coisas acontecem por um motivo, diz a mãe de Natasha. O que ela quer dizer é que o Destino tem um Motivo, e, mesmo você não o conhecendo, há um certo conforto em saber que há um Plano.
Natasha é diferente. Acredita no determinismo: causa e efeito. Uma ação leva a outra e a outra. As ações determinam seu futuro. Nesse sentido ela não é diferente do pai de Daniel.
Daniel vive no nebuloso espaço intermediário. Talvez não estivesse destinado a conhecer Natasha hoje. Talvez tenha sido uma coisa aleatória.
Mas...
Uma vez que se conheceram, o resto, o amor entre eles, era inevitável.

2 comentários:

  1. "— Não importa. As pessoas sempre perguntam de onde eu sou. Eu costumava responder que era daqui, mas aí elas perguntavam de onde a gente era de verdade, e eu dizia: da Coreia."

    Exatamente isso. Nasci no Brasil mas sou descendente de chineses, e as pessoas sempre acham que vim da China por causa da minha aparência, não importa se eu digo que sou brasileira. Aí tenho que dizer que sou da China, mesmo que não seja verdade porque nasci aqui e sequer sei falar chinês :/ é muito frustrante...

    "— Porque não importa o que eu diga. As pessoas me olham e acreditam no que querem."

    ResponderExcluir
  2. Que mistura de emoções: felicidade pelo beijo, desapontamento pela briga, compreensão no pós briga e o momento de clareza no final.Sério Nicola Yoon QUE "CAPÍTULO"

    ResponderExcluir

Para comentar, por favor utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!