1 de março de 2019

parte oito

natasha

AGORA QUE O SOL SE PÔS, o ar ficou bem mais frio. Não é difícil imaginar que o inverno está logo ali na esquina. Vou ter que desencavar meu casacão preto e minhas botas. Aperto mais a jaqueta em torno do corpo e penso em entrar no saguão, onde está mais quente. Estou me dirigindo para lá quando Daniel sai pela porta de vidro deslizante.
Ele me vê e eu espero um sorriso, mas seu rosto está sério. Será que a entrevista foi tão ruim assim?
— O que aconteceu? — pergunto assim que o alcanço.
Estou imaginando o pior, tipo ele brigou com o entrevistador e agora está proibido de se candidatar a qualquer faculdade e seu futuro está arruinado.
Ele põe a mão no meu rosto.
— Amo você de verdade — diz.
Não está brincando. Isso não tem nada a ver com nossa aposta idiota. Ele fala do modo como você falaria com alguém que está morrendo ou que você não espera ver de novo.
— Daniel, o que aconteceu?
Afasto sua mão do meu rosto, mas continuo a segurá-la.
— Eu amo você — repete ele, e recaptura meu rosto com a outra mão. — Você não precisa dizer o mesmo para mim. Só quero que saiba o que sinto.
Meu telefone toca. É do escritório do advogado.
— Não atenda — pede ele.
Claro que vou atender.
Daniel toca minha mão para impedir.
— Por favor, não.
Agora estou assustada. Rejeito a chamada.
— O que aconteceu com você lá dentro?
Ele fecha os olhos com força. Quando abre de novo, eles estão cheios de lágrimas.
— Você não pode ficar aqui — declara.
A princípio, não entendo.
— Por quê? O prédio vai fechar?
Olho em volta, para ver se há algum guarda fazendo sinal para irmos embora.
Lágrimas escorrem pelo rosto dele. Um reconhecimento certo e indesejado cresce na minha mente. Tiro a mão da dele.
— Qual é o nome do seu entrevistador? — sussurro.
Agora ele está confirmando com a cabeça.
— Meu entrevistador era o seu advogado.
— Fitzgerald?
— É.
Pego o telefone e olho o número de novo, ainda me recusando a entender o que ele está dizendo.
— Eu estava esperando que ele ligasse. Ele disse alguma coisa sobre mim?
Já sei a resposta. Sei.
Daniel tenta algumas vezes até conseguir pôr as palavras para fora.
— Ele disse que não conseguiu reverter a ordem.
— Mas ele disse que podia — insisto.
Daniel aperta minha mão e tenta me puxar mais para perto, mas resisto. Não quero ser consolada. Quero entender.
Recuo para longe dele.
— Tem certeza? Por que vocês falaram sobre mim?
Ele passa a mão pelo rosto.
— Estava acontecendo alguma merda esquisita entre ele e a secretária, e sua pasta estava em cima da mesa.
— Isso ainda não explica...
Daniel pega minha mão de novo. Desta vez puxo-a com força.
— Para com isso! Para! — grito.
— Desculpe.
Ele me solta.
Dou outro passo atrás.
— Só diga exatamente o que ele falou.
— Disse que a ordem de deportação está de pé e que é melhor você e sua família irem embora esta noite.
Viro as costas e olho para minha caixa de mensagens de voz. É ele, o advogado Fitzgerald. Diz que eu devo ligar. Que tem notícias ruins.
Fecho a caixa de mensagens e olho em silêncio para Daniel. Ele começa a falar alguma coisa, mas só quero que ele pare. Quero que o mundo inteiro pare.
Há um número demasiado de partes móveis fora do meu controle. Estou me sentido como uma elaborada máquina de Rube Goldberg que outra pessoa projetou. Não sei qual é o mecanismo para ligá-la. Não sei o que acontece em seguida. Só sei que tudo acontece em cascata, e que assim que começar não vai mais parar.


daniel

Corações não se partem.
É só outra coisa que os poetas dizem.
Os corações não são feitos
De vidro
Nem de osso
Nem de qualquer material que possa
Rachar
Ou se fragmentar
Ou se despedaçar.
Não se
Quebram em pedacinhos.
Não
Se desfazem.
Corações não se partem.
Só param de funcionar.
Como um velho relógio de outro tempo, sem peças para o conserto.


natasha

ESTAMOS SENTADOS PERTO da fonte e Daniel segura minha mão. O paletó do terno está nos meus ombros.
Ele é mesmo protetor. Só não pode ser meu.
— Preciso ir para casa. — É a primeira coisa que digo em mais de meia hora.
Ele me puxa para perto de novo. Finalmente estou pronta para deixar que ele faça isso. Seus ombros são largos e firmes. Encosto a cabeça num deles. Eu me encaixo ali. Sabia disso hoje de manhã e sei agora. Ele sussurra:
— O que vamos fazer?
Existem e-mail, Skype, torpedos, WhatsApp e talvez até viagens à Jamaica.
Mas, enquanto penso, sei que não vou deixar que isso aconteça. Temos vidas separadas para levar. Não posso deixar o coração aqui enquanto minha vida estiver lá. E não posso levar o coração dele quando todo o seu futuro está aqui.
Levanto a cabeça do seu ombro.
— Como foi o resto da entrevista?
Daniel toca meu rosto e inclina minha cabeça de volta para o ombro.
— Ele disse que iria me recomendar.
— Fantástico — declaro sem nenhum entusiasmo.
— É.
O entusiasmo dele é igual ao meu.
Estou com frio, mas não quero me mexer. Sair deste lugar vai iniciar a reação em cadeia que acaba com o meu embarque num avião.
Mais cinco minutos se passam.
— Eu deveria ir mesmo para casa — digo. — O voo é às dez.
Ele pega o telefone para olhar a hora.
— Faltam três horas. Já fez as malas?
— Já.
— Vou com você.
Meu coração dá um pulo. Por um segundo louco, acho que ele está dizendo que vai comigo para a Jamaica.
Ele vê o pensamento nos meus olhos.
— Quero dizer, para sua casa.
— Eu sabia que era isso — reajo rispidamente. Estou ressentida. Sou ridícula. — Não acho boa ideia. Meus pais estão lá e tenho muito que fazer. Você só vai atrapalhar.
Ele se levanta e estende a mão para mim.
— Vamos fazer o seguinte. Não vamos discutir. Não vamos fingir que esta não é a pior coisa do mundo, porque é. Não vamos nos separar antes de ser absolutamente necessário. Vou à casa dos seus pais. Vou conhecê-los e eles vão gostar de mim, e não vou dar um soco no seu pai. Em vez disso, vou ver se você se parece mais com ele ou com sua mãe. Seu irmão vai agir como um irmão mais novo. Talvez eu finalmente ouça o sotaque jamaicano que você escondeu de mim o dia inteiro. Vou olhar o lugar onde você dorme, come e vive, e vou desejar ter sabido um pouco antes que você estava bem aqui.
Começo a interrompê-lo, mas ele continua falando:
— Vou com você para sua casa, depois vamos pegar um táxi para o aeroporto, só nós dois. Depois vou ver você entrar num avião e sentir o coração ser arrancado da porra do peito, depois vou ficar pensando pelo resto da vida no que poderia ter acontecido se este dia não tivesse sido exatamente como foi.
Ele para, respira fundo e pergunta:
— Tudo bem para você?


daniel

ELA DIZ QUE SIM. Não estou pronto para dizer adeus. Nunca vou estar. Pego a mão dela e começamos a andar em silêncio até o metrô.
Ela leva a mochila num ombro e posso ver de novo o DEUS EX MACHINA impresso na jaqueta. Foi hoje mesmo que nos conhecemos? Foi nessa manhã que eu desejei que o vento me levasse para onde quisesse? O que eu não daria para que Deus estivesse mesmo na máquina!
Manchete: Adolescente derrota a Divisão de Imigração e Alfândega do Departamento de Segurança Interna, vive feliz para sempre com seu amor verdadeiro graças a uma brecha jurídica descoberta apenas no último minuto e agora entrará numa cena de perseguição para impedir que ela entre no avião.
Mas isso não vai acontecer.
Durante o dia inteiro acreditei que estávamos destinados um ao outro. Que todos os lugares e pessoas, e todas as coincidências, estavam nos empurrando para ficarmos juntos para sempre. Mas talvez isso não seja verdade. E se essa coisa entre nós estivesse destinada a durar somente um dia? E se formos as pessoas intermediárias um do outro, uma parada na estrada que ruma a outro lugar?
E se formos apenas um desvio na história de outra pessoa?


natasha

— SABIA QUE A JAMAICA tem a sexta maior taxa de assassinatos do mundo? — pergunto a ele.
Estamos no trem Q, indo para o Brooklyn. Está apinhado de gente voltando para casa e estamos de pé, segurando numa trave de metal. Daniel está com uma das mãos nas minhas costas. Não parou de me tocar desde que saímos do prédio de escritórios. Se ele continuar me segurando, talvez eu não voe para longe.
— Quais são os outros cinco?
— Honduras, Venezuela, Belize, El Salvador e Guatemala.
— Hã — diz ele.
— Sabia que a Jamaica ainda é membro da Comunidade Britânica?
Não espero a resposta.
— Sou súdita da rainha.
Se tivesse espaço para fazer uma reverência, eu faria.
O trem para, guinchando. Entram mais pessoas do que saem.
— Que outras informações posso dar a você? A população é de 2,9 milhões. Entre 1% e 10% dos habitantes se identificam como rastafáris. E 20% dos jamaicanos vivem abaixo da linha de pobreza.
Daniel chega um pouco mais perto, de modo que estou quase completamente envolvida por ele.
— Diga uma coisa boa de que se lembre — pede ele. — Não fatos.
Não quero ser otimista. Não quero me ajustar a esse novo futuro.
— Eu saí de lá quando tinha 8 anos. Não me lembro de muita coisa.
Ele pressiona.
— Nem da família? Primos? Amigos?
— Lembro que tinha, mas não os conheço. No Natal minha mãe obriga a gente a falar com eles pelo telefone. Eles zombam do meu sotaque americano.
— Uma coisa boa. — Agora seus olhos estão de um castanho profundo, quase preto. — De que você sentiu mais falta quando se mudou para cá?
Não preciso pensar muito na resposta.
— Da praia. O mar aqui é esquisito. É o tipo de azul errado. É frio. É forte demais. A Jamaica fica no Caribe. A água é azul-esverdeada e muito calma. Dá para andar um tempão mar adentro com a água pela cintura.
— Parece legal. — A voz dele treme um pouco.
Estou com medo de olhar, porque aí vamos os dois chorar no trem.
— Quer terminar as perguntas da terceira seção? — pergunto.
Ele pega o telefone.
— Número 29. Conte ao seu parceiro um momento constrangedor da sua vida.
O trem para de novo, e dessa vez mais pessoas saem do que entram. Temos mais espaço, mas Daniel fica perto de mim como se não tivéssemos.
— Hoje cedo, na loja de discos, o negócio com o Rob foi bem constrangedor — relembro.
— Verdade? Você não pareceu sem graça, só furiosa.
— Disfarço bem, sei blefar. Diferente de alguém que conheço — digo, cutucando-o com o ombro.
— Mas por que ficou sem graça?
— Ele me traiu com ela. Toda vez que vejo os dois juntos, sinto que eu talvez não tenha sido suficientemente boa.
— Aquele cara é um cafajeste. Isso não tem nada a ver com você.
Ele pega minha mão e fica segurando. Adoro sua seriedade.
— Eu sei. Hoje cedo liguei para ele perguntando por que fez aquilo.
Eu o surpreendi.
— Ligou? O que ele disse?
— Que queria nós duas.
— Cretino. Se um dia eu encontrar aquele sujeito de novo, vou arrebentar a cara dele.
— Está com sede de sangue agora que teve a primeira briga, é?
— Sou um lutador, não um amante — diz, citando erroneamente Michael Jackson. — Seus pais se importavam que ele fosse branco?
— Eles não conheceram o Rob.
Eu não conseguia me imaginar levando-o para conhecer meu pai. Olhar os dois conversando seria uma tortura. Também não queria que ele visse como o nosso apartamento era pequeno. No fundo, acho que não queria que ele me conhecesse de verdade.
Com Daniel é diferente. Quero que ele me veja inteira.
As luzes se apagam e voltam imediatamente. Ele aperta meus dedos.
— Meus pais só querem que os filhos namorem garotas coreanas.
— Você não está fazendo um bom trabalho como filho — provoco.
— Bem, eu não namorei uma tonelada de garotas. Apenas uma coreana. Já o Charlie parece que é alérgico a garotas que não sejam brancas.
O trem nos sacoleja e eu seguro a trave com as duas mãos.
— Quer saber qual é o segredo do seu irmão?
Ele põe as mãos em cima das minhas.
— Qual é?
— Ele não gosta muito dele mesmo.
— Você acha? — pergunta Daniel, pensativo.
Ele quer que exista um motivo para Charlie ser como é.
— Acredite em mim.
O trem guincha ao fazer uma curva comprida. Daniel me firma com a mão nas minhas costas e a deixa ali.
— Por que seus pais só querem garotas coreanas?
— Eles acham que entendem as meninas coreanas. Até as que foram criadas aqui.
— Mas elas são ao mesmo tempo americanas e coreanas.
— Não estou dizendo que faz sentido — diz ele, sorrindo. — E você? Seus pais se importam com quem você namora?
Dou de ombros.
— Nunca perguntei. Acho que prefeririam que eu acabasse casando com um negro.
— Por quê?
— Pelos mesmos motivos dos seus. De algum modo eles vão entender o cara melhor. E ele vai entendê-los melhor.
— Mas nem todos os negros são iguais.
— E nem todas as garotas coreanas são iguais.
— Os pais são bem idiotas — diz ele, meio que brincando.
— Imagino que eles achem que estão protegendo a gente.
— De quê? Honestamente, quem liga a mínima para esse tipo de coisa? A gente já deveria saber que não é assim.
— Talvez nossos filhos saibam — digo.
E me arrependo das palavras assim que elas voam da minha boca.
As luzes se apagam de novo e paramos completamente entre as estações. Eu me concentro no brilho laranja-amarelado da iluminação de segurança no túnel.
— Não quis dizer nossos filhos — digo no escuro. — Quis dizer a próxima geração.
— Sei o que você quis dizer — observa ele baixinho.
Agora que pensei e disse, não posso “despensar” e desdizer. Como seriam nossos filhos? Sinto a perda de uma coisa que nem sei se quero.
Paramos na estação Canal Street, a última parada subterrânea antes de passarmos pela ponte de Manhattan. As portas se fecham e nós dois nos viramos para a janela. Quando saímos do túnel, a primeira coisa que vejo é a ponte do Brooklyn. Passa pouco do crepúsculo e as luzes estão acesas nos cabos de suspensão. Meu olhar acompanha os longos arcos pelo céu. A ponte é linda à noite, mas é a silhueta da cidade que me deixa pasma toda vez que a vejo. Parece uma gigantesca escultura de vidro iluminado e metal, uma obra de arte. Dessa distância, a cidade parece organizada e planejada, como se toda ela tivesse sido criada com um objetivo. Mas, quando a gente está dentro, parece um caos.
Penso em quando estávamos no topo do prédio. Naquela hora imaginei a cidade enquanto era construída. Agora eu a projeto num futuro apocalíptico. As luzes se apagam e o vidro cai, deixando apenas os esqueletos de metal dos prédios. Com o tempo, até esses enferrujam e desmoronam. As ruas estão esburacadas, cobertas pelo verde de plantas silvestres e invadidas por animais selvagens. A cidade está linda e em ruínas.
Descemos de novo para o túnel. Tenho certeza de que sempre vou comparar cada silhueta de cidade com a de Nova York. Assim como sempre vou comparar cada garoto com Daniel.


daniel

— QUAL É O SEU MOMENTO mais constrangedor? — pergunta ela quando a ponte some de nossa vista.
— Está brincando, certo? Você estava lá. Meu pai dizendo para você mudar o cabelo e meu irmão fazendo piadas de pau pequeno.
Ela ri.
— Foi bem ruim.
— Vou viver mil vidas e essa ainda vai ser a coisa mais vergonhosa que já me aconteceu.
— Não sei. Seu pai e Charlie poderiam bolar um modo de superar isso.
Resmungo e esfrego a nuca.
— Todos deveríamos nascer com um Cartão de Troca de Família. Aos 16 anos a gente teria a chance de avaliar a situação e escolher ficar na família atual ou recomeçar com uma nova.
Ela tira minha mão da nuca e a segura.
— A gente ia poder escolher qual seria a família nova? — pergunta.
— Não. Teria que arriscar.
— Então determinado dia a gente simplesmente chegaria à porta de alguns estranhos?
— Ainda não bolei todos os detalhes. Talvez a gente pudesse renascer numa família nova assim que tomasse a decisão.
— A família antiga ia achar que você morreu?
— É.
— Mas isso é muito cruel.
— Certo, certo. Então eles simplesmente esqueceriam que a gente existiu. De qualquer modo, não creio que muita gente trocaria de família.
Ela balança a cabeça.
— Discordo. Acho que um monte de gente trocaria. Existem famílias ruins neste mundo.
— Você trocaria?
Natasha não diz nada durante um tempo e eu ouço o ritmo do trem enquanto ela pensa. Nunca desejei tanto que um trem diminuísse a velocidade.
— Eu poderia dar meu cartão a alguém que precisasse dele de verdade? — questiona ela.
Sei que está pensando no pai.
Beijo seu cabelo.
— E você? Ficaria na sua família? — pergunta ela.
— Eu poderia, em vez disso, usar o cartão para chutar o Charlie?
Ela ri.
— Talvez esses cartões não sejam uma ideia tão boa. Dá para imaginar se todo mundo tivesse o poder de mexer na vida de todo mundo? Caos.
Mas, claro, esse é o problema. Nós já temos esse poder sobre os outros.


natasha

É ESTRANHO ESTAR no meu bairro com Daniel. Estou tentando ver o lugar pelos olhos dele. Depois da relativa riqueza da área central de Manhattan, minha parte do Brooklyn parece mais pobre ainda. Muitas lojas do mesmo tipo se enfileiram nos seis quarteirões que preciso caminhar até minha casa. Existem restaurantes jamaicanos, restaurantes chineses com vidros à prova de bala, lojas de bebidas com vidros à prova de bala, lojas de roupas baratas e salões de beleza.
Cada quarteirão tem pelo menos uma combinação de lanchonete e mercearia, com as vitrines quase totalmente cobertas por propagandas de cerveja e cigarro.
Cada quarteirão tem pelo menos um estabelecimento que troca cheques. Todas as lojas são espremidas umas contra as outras, lutando pelo mesmo pedaço de terreno.
Fico agradecida pelo escuro porque assim Daniel não pode ver como tudo está meio em ruínas. Sinto imediatamente vergonha de mim mesma por ter pensado nisso.
Ele segura minha mão e caminhamos em silêncio durante alguns minutos.
Sinto olhares curiosos. E me dou conta de que isso viraria o normal para nós.
— As pessoas estão olhando a gente — digo.
— É porque você é linda — reage Daniel na bucha.
— Então você notou? — pressiono.
— Claro que notei.
Faço com que paremos diante da porta iluminada de uma lavanderia. O cheiro de sabão em pó está no ar.
— Você sabe por que estão olhando, não sabe?
— Porque eu não sou negro ou porque você não é coreana. — Seu rosto está na sombra, mas posso ouvir o sorriso na voz.
— Sério — digo, frustrada. — Isso não incomoda você?
Não sei direito por que estou insistindo nesse assunto. Talvez queira uma prova de que teríamos chance de continuar, de que sobreviveríamos ao peso dos olhares.
Ele segura minhas mãos e ficamos parados frente a frente.
— Talvez me incomode, mas não muito. É como uma mosca zumbindo, sabe? Irritante, mas não ameaça a vida.
— Mas por que você acha que eles estão fazendo isso? — Quero uma resposta.
Ele me puxa para um abraço.
— Dá para ver que isso é importante para você e quero realmente dar um motivo. Mas a verdade é que não me importo. Talvez eu seja ingênuo, mas estou cagando e andando para a opinião dos outros sobre nós. Não me importo se somos novidade para eles. Não me importo com a questão política nisso. Não me importo se seus pais aprovam e, sinceramente, não me importo se os meus aprovam. O que me importa é você, e tenho certeza de que o amor basta para superar toda essa baboseira. E é baboseira. Toda essa preocupação. A fala sobre choque de culturas, preservar a cultura e o que vai acontecer com os filhos. Tudo cem por cento pura baboseira e não ligo a mínima.
Sorrio junto ao peito dele. Meu garoto poeta de rabo de cavalo. Eu nunca havia pensado que não ligar a mínima seria um ato revolucionário.
Saímos da rua principal para outra mais residencial. Ainda estou tentando enxergar o bairro como Daniel o vê. Passamos por fileiras de casas geminadas com fachada de madeira. São pequenas e velhas, mas coloridas e bem-amadas. As varandas parecem mais povoadas com badulaques e plantas penduradas do que eu lembrava.
Houve um tempo em que minha mãe desejava desesperadamente uma casa daquelas. No início deste ano, antes que esta confusão começasse, ela até me levou com o Peter a uma casa que estava para alugar. Tinha três quartos e cozinha espaçosa. Tinha um porão que ela achou que poderia sublocar para obter um ganho extra. Como Peter adora nossa mãe e sabia que nunca poderíamos pagar pela casa, fingiu que não gostou. Ficou de picuinha.
— O quintal dos fundos é pequeno demais e todas as plantas estão mortas — disse.
Ficou perto dela e, quando saímos, ela não estava mais triste do que ao entrarmos.
Passamos por outro quarteirão de casas semelhantes antes que o bairro mude de novo e estejamos cercados principalmente por prédios de apartamentos feitos de tijolos. São todos alugados.
Dou um aviso a Daniel:
— Está uma bagunça só, por causa das bagagens.
— Tudo bem.
— E é pequeno.
Não digo que só tem um quarto. Ele logo vai ver. Além disso, só é minha casa por mais algumas horas.
As menininhas do apartamento 2C estão sentadas na escada da frente quando chegamos. A presença de Daniel as deixa tímidas. Elas baixam a cabeça e não falam comigo, como fazem normalmente. Paro perto da fileira de caixas de correspondência de metal penduradas na parede. Não temos correspondência, só um cardápio de comida chinesa para viagem enfiado na portinhola. É do lugar preferido do meu pai, o mesmo onde ele comprou a comida no dia em que nos deu os ingressos para a peça.
Alguém está sempre cozinhando alguma coisa, e o saguão tem um cheiro delicioso: manteiga, cebola, curry e outros temperos. Meu apartamento fica no terceiro andar, por isso vamos até a escada. Como sempre, a luz que ilumina a escada no primeiro e no segundo andares está queimada. Acabamos andando em silêncio no escuro até chegarmos ao terceiro.
— É aqui — digo quando finalmente estamos à frente do 3A.
De certa forma é cedo demais para apresentar Daniel à minha casa e à minha família. Se tivéssemos mais tempo, ele conheceria todas as minhas pequenas histórias curiosas. Saberia sobre a cortina na sala, que separa o “quarto” do Peter do meu. Saberia que, se minha mãe oferecer alguma coisa para comer, ele deve pegar e comer tudo, não importando que esteja com a barriga cheia.
Não sei como passar toda essa história. Em vez disso digo de novo:
— Está uma bagunça aí dentro.
É uma espécie de dissonância esquisita vê-lo ali parado, diante da minha porta. Ele combina e não combina ao mesmo tempo. Eu sempre o conheci e nós acabamos de nos conhecer.
Nossa história está comprimida demais. Estamos tentando encaixar uma vida inteira num dia.
— Devo tirar o paletó? — pergunta Daniel. — Estou me sentindo um idiota de terno.
— Não precisa ficar nervoso.
— Vou conhecer seus pais. É uma boa hora para ficar nervoso.
Ele desabotoa o paletó, mas não o tira.
Toco o machucado no lábio dele.
— O bom é que você pode fazer besteira à vontade. Provavelmente nunca vai ver minha família de novo.
Ele dá um sorriso pequeno e triste. Só estou tentando melhorar nossa situação, e ele sabe.
Pego a chave na mochila e abro a porta.
Todas as luzes estão acesas e Peter está ouvindo reggae alto demais. Sinto as batidas no peito. Três malas cheias estão perto da porta. Mais duas estão abertas ao lado.
Vejo minha mãe imediatamente.
— Desligue essa música — diz ela a Peter quando me vê.
Ele desliga e o silêncio repentino é agudo.
Minha mãe se vira para mim.
— Meu Deus, Tasha. Estou ligando e ligando para você desde...
Ela leva um segundo para notar Daniel. Então para de falar e olha para mim e para ele durante um longo tempo.
— Quem é esse aí?


daniel

NATASHA ME APRESENTA À MÃE DELA.
— É meu amigo — diz.
Tenho quase certeza de que ouvi uma hesitação antes de amigo. A mãe dela também ouviu, e agora está me estudando como se eu fosse um inseto alienígena.
— Desculpe conhecer a senhora nestas circunstâncias, Sra. Kingsley — digo, estendendo a mão para um cumprimento.
Ela dá um olhar para Natasha (do tipo Como você pôde fazer isso comigo?), mas depois enxuga a palma na lateral do vestido, aperta minha mão rapidamente e me dá um sorriso mais rápido ainda.
Eu e Natasha saímos do minúsculo hall de entrada para uma sala apertada. Pelo menos acho que é uma sala. Um pano de um azul vivo está embolado no chão e uma corda para varal divide o cômodo. Então noto que há duas coisas de cada: sofá-cama, gaveteiro, escrivaninha. Este é o quarto deles. Ela divide a sala com Peter. Quando Natasha disse que o apartamento era pequeno, não percebi que queria dizer que eles eram pobres.
Ainda há muita coisa que não sei sobre ela.
Seu irmão vem até mim com a mão estendida e sorrindo. Ele tem dreadlocks e um dos rostos mais amigáveis que já vi.
— Tasha nunca trouxe um cara aqui antes — declara ele.
Seu sorriso contagiante fica ainda maior. Rio de volta para ele e aperto sua mão. Natasha e a mãe nos observam escancaradamente.
— Tasha, preciso falar com você — chama a mãe.
Natasha não afasta o olhar de Peter e de mim. Penso se está imaginando um futuro em que viramos amigos. Sei que eu estou.
Ela vira o rosto para a mãe.
— É sobre o Daniel? — pergunta.
Os lábios agora franzidos da mãe não poderiam franzir ainda mais.
— Tasha...
Até eu posso ouvir o mamãe está ficando furiosa na voz dela, mas Natasha simplesmente ignora isso.
— Porque se for sobre o Daniel, podemos falar aqui mesmo. Ele é meu namorado.
Ela me lança um ligeiro olhar interrogativo e eu confirmo com a cabeça.
Neste exato momento o pai dela entra em casa.
Devido a uma anomalia no continuum espaço-tempo, os pais estão com perfeita noção de tempo o dia inteiro.
— Namorado? — questiona ele. — Desde quando você tem namorado?
Eu me viro e o examino. Agora tenho a resposta à minha pergunta sobre com quem Natasha se parece. Ela é basicamente o pai, só que numa linda forma de garota.
E sem a carranca. Nunca vi uma carranca mais profunda do que a que existe no rosto dele agora. Seu sotaque jamaicano é forte e eu processo as palavras um pouquinho depois de ele falar.
— Foi isso que você andou fazendo o dia todo em vez de ajudar sua família a arrumar as malas? — pergunta ele, entrando mais na sala.
Afora o pouco que Natasha me contou, não conheço de verdade a história do relacionamento deles, mas dá para ver no rosto dela neste instante como as coisas são difíceis. A raiva está ali, a mágoa e a incredulidade. Ainda assim o pacificador que existe em mim não quer ver os dois brigando. Encosto a mão na cintura dela.
— Tudo bem — diz Natasha baixinho para mim.
Dá para ver que está se preparando para alguma coisa. E se vira para ele.
— Não. O que fiz o dia inteiro foi tentar consertar seus erros. Estava tentando impedir que nossa família fosse expulsa do país.
— Não é isso que está parecendo — retruca ele. Depois se volta para mim, com a carranca se aprofundando. — Você sabe da situação?
Estou tão surpreso por ele se dirigir a mim que não respondo, só confirmo com a cabeça.
— Então você sabe que não é hora de estranhos virem aqui.
A coluna de Natasha se enrijece na minha mão.
— Ele não é um estranho. É meu convidado.
— E esta casa é minha. — Ele fica empertigado quando fala isso.
— É sua? — A voz dela agora sai alta e incrédula.
Qualquer tentativa de se conter está se esvaindo depressa. Ela vai até o centro da sala, abre os braços e gira.
— Este apartamento em que nós vivemos há nove anos porque você acha que seu navio vai partir a qualquer momento é a sua casa?
— Querida. Não adianta isso agora — fala a mãe dela, perto da porta.
Natasha abre a boca para dizer mais alguma coisa, mas fecha de novo. Posso vê-la se desinflar.
— Certo, mãe.
Ela desiste do que iria dizer. Imagino quantas vezes Natasha agiu assim pela mãe. Acho que esse vai ser o fim da coisa, mas estou errado.
— Não, cara — diz o pai. — Não, cara. Quero ouvir o que ela tem para me dizer.
Ele estufa o peito e cruza os braços.
Natasha faz a mesma coisa e eles se encaram, imagens espelhadas um do outro.


natasha

PELA MINHA MÃE EU TERIA deixado para lá. Sempre deixo. Ontem à noite mesmo ela falou que nós quatro tínhamos de ficar unidos.
— A princípio, vai ser difícil — disse ela na ocasião.
Precisaríamos morar com a mãe dela até termos dinheiro suficiente para alugar um lugar.
— Nunca achei que minha vida chegaria a este ponto — declarou ela antes de irmos dormir.
Eu teria deixado para lá se não tivesse conhecido Daniel. Se ele não tivesse aumentado significativamente o número de coisas que eu perderia hoje. Teria deixado para lá se meu pai não estivesse usando de novo seu sotaque jamaicano forte e forçado. É só outra representação. Ouvindo-o, você imaginaria que ele nunca saiu da Jamaica e que os últimos nove anos jamais aconteceram. Ele acha mesmo que nossa vida é de mentirinha. Estou farta do fingimento dele.
— Ouvi o que você disse para mamãe depois da peça. Que nós éramos seu maior arrependimento.
Ele murcha e a carranca some do seu rosto. Não sei qual é o nome da emoção que substitui aquilo, mas parece genuína. Finalmente. Alguma coisa real da parte dele.
Ele começa a falar, mas tenho mais coisas a dizer.
— Sinto muito se a vida não deu a você todas as coisas que queria.
Enquanto falo, percebo que sou sincera. Sei o que é decepção, agora que entendo que ela pode durar a vida inteira.
— Não falei a sério, Tasha. Era só papo furado. Foi só...
Levanto a mão para interromper seu pedido de desculpas. Não é isso que quero dele.
— Quero que você saiba que foi realmente maravilhoso na peça. Simplesmente incrível. Sublime.
Ele tem lágrimas nos olhos. Não sei se é porque eu o elogiei, se é arrependimento ou outra coisa.
— Talvez você estivesse certo — continuo. — Não deveria ter tido a gente. Talvez tenha sido mesmo enganado pela vida.
Ele está balançando a cabeça, negando minhas palavras.
— Foi papo furado, Tasha. Eu não quis dizer nada daquilo.
Mas claro que quis. Quis e não quis. As duas coisas. Ao mesmo tempo.
— Não importa se quis dizer ou não. Esta é a vida que você tem. Não é temporária, não é de mentirinha e não há como refazer.
Estou falando igual ao Daniel.
A pior parte de ter ouvido aquela conversa entre ele e minha mãe foi que estragou todas as boas lembranças que eu tinha dele. Será que meu pai se arrependeu da minha existência quando assistíamos juntos aos jogos de críquete? E quando ele me abraçou com força no momento em que finalmente estávamos todos reunidos? E no dia em que nasci?
Agora as lágrimas estão escorrendo pelo rosto dele. Vê-lo chorar dói mais do que jamais imaginei. Mesmo assim preciso dizer mais uma coisa.
— Você não precisa se arrepender de nós.
Ele emite um ruído, e agora sei qual é o som de uma vida inteira de dor.
As pessoas cometem erros o tempo todo. Erros pequenos, como pegar a fila errada para a caixa do supermercado. A fila onde está a mulher com cem cupons de desconto e um talão de cheques.
Às vezes a gente comete erros de tamanho médio. Vai para a faculdade de medicina em vez de ir atrás da nossa paixão.
Às vezes comete erros grandes.
Desiste.
Sento-me no meu sofá-cama. Estou mais cansada do que pensava e não estou com tanta raiva como pensava.
— Quando chegarmos à Jamaica, você precisa ao menos tentar. Fazer testes para o teatro. E ser melhor com mamãe. Ela fez de tudo e está cansada, e você nos deve isso. Não precisa viver mais dentro da própria cabeça.
Agora minha mãe está chorando. Peter corre para dar um abraço nela. Meu pai vai até os dois e minha mãe o aceita. Como se fossem um só, viram-se para mim e fazem um gesto para eu me juntar a eles. Eu me viro primeiro para Daniel. Ele me aperta com tanta força que é como se já estivéssemos nos despedindo.


daniel + natasha

O MOTORISTA COLOCA A MALA de Natasha no porta-malas. Peter e os pais dela já foram para o aeroporto em outro táxi.
Dentro do carro, Natasha pousa a cabeça no ombro de Daniel. Seu cabelo pinica o nariz dele. É uma sensação à qual ele gostaria de ter tido mais tempo para se acostumar.
— Acha que nós teríamos dado certo, no fim das contas? — pergunta ela.
— Acho. — Ele diz isso sem hesitar. — E você?
— Acho.
— Você finalmente admitiu. — Há um sorriso na voz dele.
— Seria muito difícil para os seus pais? — questiona ela.
— Levaria tempo até eles aceitarem. O meu pai demoraria mais. Acho que eles não iriam ao nosso casamento.
Uma imagem desse futuro flutua na mente de Natasha. Ela vê o oceano. Daniel bonito de smoking. A mão dela no rosto dele, enxugando a tristeza pela ausência dos pais. A alegria no rosto dele quando ela finalmente diz sim.
— Quantos filhos você quer? — pergunta ela, depois que a dor dessa visão recua.
— Dois. E você?
Ela levanta a cabeça, hesitando, mas depois confessa:
— Não sei se quero filhos. Você aceitaria isso?
Ele não esperava essa resposta e demora um pouco para aceitar.
— Eu acho que sim. Não sei. Talvez você mudasse de ideia. Talvez eu mudasse.
— Tenho uma coisa para dizer. — Ela apoia a cabeça de novo.
— O quê?
— Você não deveria ser médico.
Ele vira a cabeça e sorri no cabelo dela.
— E aquilo de fazer a coisa prática?
— A praticidade é superestimada.
— Você ainda vai ser cientista de dados?
— Não sei. Talvez não. Seria bom sentir paixão por alguma coisa.
— Que diferença um dia faz! — diz ele.
Nenhum dos dois fala, porque, afinal, o que há para dizer? Foi um dia longo.
Natasha interrompe o silêncio sombrio.
— E então, quantas perguntas faltam?
Ele pega o celular.
— Mais duas da terceira seção. E ainda precisamos olhar nos olhos um do outro por quatro minutos.
— Podemos fazer isso ou nos beijarmos aqui mesmo.
No banco da frente, o motorista, Miguel, interrompe:
— Vocês sabem que estou ouvindo, não sabem? — Ele olha para os dois pelo retrovisor. — E também posso ver. — Então ele dá uma risada grande e sonora. — Certas pessoas entram no táxi e gostam de fingir que sou cego e surdo, mas não sou. Só para vocês saberem.
Ele dá sua sonora risada outra vez. Natasha e Daniel não conseguem evitar e o acompanham.
Mas o riso conjunto acaba quando a realidade do momento se restabelece. Daniel segura o rosto de Natasha e eles se beijam suavemente. A química continua presente. Os dois estão quentes demais, ambos sem saber o que fazer com mãos que parecem destinadas apenas a tocar um ao outro.
Miguel não diz nada. Já teve o coração partido. Sabe como dói.
Daniel fala primeiro:
— Pergunta 34. O que você salvaria de um incêndio?
Natasha pensa. Parece que todo o seu mundo está sendo arrasado. E a única coisa que ela quer salvar, não pode.
Para Daniel, diz:
— Ainda não tenho nada, mas vou pensar.
— Está bom. A minha é fácil. Meu caderno.
Ele passa a mão no bolso do paletó para garantir que o caderno continua ali.
— Última pergunta — informa ele. — De todas as pessoas da sua família, a morte de quem você acharia mais perturbadora e por quê?
— De papai.
Daniel nota que é a primeira vez que Natasha o chama de papai, e não de pai.
— Por quê?
— Porque ele ainda não está pronto. E você?
— A sua.
— Mas não sou da sua família.
— É, sim — afirma ele, pensando no que Natasha disse antes sobre os multiversos. Em algum outro universo eles são casados, talvez com dois filhos ou talvez sem nenhum. — Você não precisa dizer o mesmo. Só quero que saiba.
Existem coisas para dizer a ele e Natasha não sabe nem como nem por onde começar. Talvez por isso Daniel queira ser poeta, para encontrar as palavras certas.
— Eu amo você, Daniel — diz finalmente.
Ele ri para ela.
— Acho que o questionário funcionou.
Ela sorri.
— Viva a ciência.
Um momento passa.
— Eu sei — declara Daniel. — Eu já sei.


quatro minutos
Uma história de amor

DANIEL AJUSTA O CRONÔMETRO do telefone para quatro minutos e segura as mãos de Natasha. Será que deveriam ficar de mãos dadas durante essa parte da experiência? Não tem certeza. Segundo o estudo, este é o último passo para se apaixonar. O que acontece se você já estiver apaixonado?
A princípio, os dois se sentem bastante idiotas. Natasha quer dizer em voz alta que isso é bobo demais. Um sorriso impotente, quase sem graça, domina o rosto dos dois. Natasha desvia o olhar, mas Daniel aperta suas mãos. Fique comigo é o que ele sugere.
No segundo minuto, estão menos sem graça. Os sorrisos somem e cada um cataloga o rosto do outro.
Natasha pensa em sua aula de biologia avançada e no que ela sabe sobre os olhos e como eles funcionam. Uma imagem do rosto dele está sendo mandada para sua retina. Sua retina está convertendo essas imagens em sinais eletrônicos. Seu nervo óptico está transmitindo esses sinais para o córtex visual. Agora ela sabe que nunca vai esquecer essa imagem do rosto dele. Vai saber exatamente quando os olhos castanho-claros se tornaram seu tipo preferido.
De sua parte, Daniel está tentando encontrar as palavras certas para descrever os olhos dela. São claros e escuros ao mesmo tempo. Como se alguém tivesse colocado um pano preto e pesado sobre uma estrela brilhante.
No terceiro minuto, Natasha está revivendo o dia e todos os momentos que levaram os dois até ali. Vê o prédio do USCIS, aquela estranha mulher da segurança acariciando a capinha do seu telefone, a gentileza de Lester Barnes, Rob e Kelly roubando a loja, ela conhecendo Daniel, Daniel salvando sua vida, ela conhecendo o pai e o irmão de Daniel, o norebang, os beijos, o museu, o topo do prédio, mais beijos, o rosto de Daniel dizendo que ela não podia ficar, o rosto de seu pai chorando cheio de arrependimento, este momento agora no táxi.
Daniel não está pensando no passado, mas no futuro. Será que há algo que possa juntá-los de novo?
No último minuto, a dor se acomoda nos ossos dos dois. Coloniza os corpos, espalha-se pelos tecidos e pelos músculos, pelo sangue e pelas células.
O cronômetro do telefone toca. Eles sussurram promessas que suspeitam que não poderão cumprir — telefonemas, e-mails, torpedos e até voos internacionais, danem-se as despesas.
— Não pode existir apenas este dia — diz Daniel uma vez, e depois mais duas.
Natasha não conta qual é sua suspeita. Que destinados um ao outro não precisa ser para sempre.
Eles se beijam, e se beijam de novo. Quando finalmente se separam é com um novo conhecimento. Têm a sensação de que a duração de um dia é mutável, e que do início jamais dá para ver o final. Têm a sensação de que o amor muda todas as coisas o tempo todo.
É para isso que existe o amor.


natasha

MAMÃE SEGURA MINHA MÃO enquanto olho pela janela. Tudo vai ficar bem, Tasha, ela diz. Nós duas sabemos que é mais uma esperança do que uma garantia, mas vou aceitar mesmo assim.
O avião sobe e o mundo que eu conheço vai se esvaindo. As luzes da cidade viram pontos até parecerem estrelas no chão. Uma daquelas estrelas é Daniel. E eu me recordo de que as estrelas são mais do que simplesmente poéticas.
Se for preciso, você pode se orientar por elas.


daniel

MEU CELULAR TOCA. São meus pais ligando pela milionésima vez. Vão ficar putos quando eu chegar em casa, mas tudo bem.
A esta hora, daqui a um ano, vou estar em outro lugar. Não sei onde, mas não aqui. Não sei bem se a faculdade é para mim. Pelo menos não Yale. Pelo menos ainda não.
Será que estou cometendo um erro? Talvez. Mas o erro é meu, posso cometê-lo.
Olho o céu e imagino que consigo ver o avião de Natasha.
Nova York tem muita poluição luminosa. Impede que a gente veja as estrelas, os satélites, os asteroides. Às vezes, quando olhamos para cima, não vemos nada.
Mas aqui vai uma coisa verdadeira: quase tudo no céu noturno emite luz.
Mesmo que não possamos ver, a luz está lá.


tempo e distância
Uma história medida

NATASHA E DANIEL TENTAM manter contato, e durante um tempo conseguem. São e-mails, telefonemas e torpedos.
Mas o tempo e a distância são inimigos naturais do amor.
E os dias são cheios.
Natasha se matricula na escola em Kingston. Para entrar na universidade ela precisa estudar para os Exames de Proficiência Avançada do Caribe e para os exames de A-Level. O dinheiro é pouco, por isso ela trabalha como garçonete para ajudar a família. Finge um sotaque jamaicano até que ele vira real. Encontra uma família de amigos. Aprende a gostar e depois a amar o país onde nasceu.
Não que Natasha queira deixar Daniel ir embora; é que ela precisa. Não é possível viver simultaneamente em dois mundos, o coração num lugar e o corpo no outro. Solta-se de Daniel para não ser rasgada ao meio.
De sua parte, Daniel termina o ensino médio, mas não vai para Yale. Muda-se da casa dos pais, trabalha em dois empregos e cursa o Hunter College. Forma-se em inglês e escreve poemas pequenos e tristes. E até os que não são sobre ela ainda são sobre ela.
Não que Daniel queira deixar Natasha ir embora. Ele se segura o máximo que pode. Mas ouve, mesmo a distância, a tensão na voz dela. No novo sotaque, ouve a cadência do afastamento.
Mais anos se passam. Natasha e Daniel entram no mundo adulto, das questões práticas e das responsabilidades.
A mãe de Natasha adoece cinco anos depois da mudança da família para a Jamaica. Morre antes do sexto. Alguns meses depois do enterro, Natasha pensa em ligar para Daniel, mas já faz muito tempo. Ela não confia na lembrança que tem dele.
Peter, seu irmão, prospera na Jamaica. Faz amigos e finalmente encontra um lugar onde se encaixa. Em algum momento no futuro, muito depois da morte da mãe, ele vai se apaixonar por uma jamaicana e se casar com ela. Vão ter uma filha e vão dar a ela o nome de Patricia Marley Kingsley.
Samuel Kingsley se muda de Kingston para Montego Bay. Apresenta-se num teatro comunitário. Depois da morte de Patricia, consegue enfim compreender que escolheu certo naquele dia na loja.
A mãe e o pai de Daniel vendem a loja para um casal afro-americano. Compram um apartamento na Coreia do Sul e passam metade do ano lá e metade em Nova York. Aparentemente, pararam de esperar que os filhos sejam somente coreanos. Afinal de contas, eles nasceram nos Estados Unidos.
Charlie melhora as notas e se forma com mérito em Harvard. Após a formatura, mal volta a falar com qualquer membro da família. Daniel preenche o vazio no coração dos pais do jeito que pode. Não sente muita falta de Charlie.
Mais anos ainda se passam e Natasha não sabe mais o que significa aquele dia em Nova York. Passa a acreditar que imaginou a magia de estar com Daniel. Quando pensa naquele dia tem certeza de que o romantizou, como acontece com os primeiros amores.
Uma coisa boa resultou do tempo passado com Daniel. Ela procura uma paixão e a encontra no estudo da física. Em algumas noites, nos momentos suaves e desamparados antes da chegada do sono, lembra-se da conversa no topo do prédio sobre amor e matéria escura. Ele disse que o amor e a matéria escura eram a mesma coisa — a única coisa que impede o Universo de se despedaçar. Seu coração acelera toda vez que pensa nisso. Depois ela sorri e coloca a lembrança numa prateleira, no lugar das coisas antigas, sentimentais e impossíveis.
E nem mesmo Daniel sabe mais o que aquele dia — que já significou tudo — significa agora. Lembra-se de todas as pequenas coincidências necessárias para que eles se conhecessem e se apaixonassem. O condutor de metrô religioso. Natasha se comunicando com a música. A jaqueta do DEUS EX MACHINA. O ex-namorado ladrão. O motorista do BMW distraído. O segurança fumando no topo do prédio.
Claro, se Natasha pudesse ouvir as lembranças dele, comentaria que os dois não terminaram juntos e que as mesmas coisas que deram certo também deram errado.
Ele se lembra de outro momento: tinham acabado de se reencontrar depois da briga. Ela falou sobre o número de eventos que precisaram acontecer de modo exato para formar o Universo. Disse que se apaixonar não podia competir com isso.
Ele sempre achou que ela estava errada.
Porque de perto tudo parece caos. Daniel acredita que é uma questão de escala. Se você se afastar o suficiente e esperar por tempo suficiente, a ordem emerge.
Talvez o universo deles só esteja demorando mais para se formar.

2 comentários:

  1. Eu tava pensando que terminaria meio que desse modo, que nem os livros do John Green (no sentido trágico), mas também pensei que se era 1° lugar na lista do New York Times, terminaria de forma melhor, sabe? Menos realista e mais que nem aqueles romances fantásticos com finais "e viveram felizes para sempre", mesmo que algo assim não seja exatamente real... (T_T)

    E na verdade, se o juiz realmente tivesse negado, seria uma coisa, mas o que me incomoda é que a deportação dela na verdade não foi impedida porque o cara ficou com a moça e faltou à sessão, o que REALMENTE me irrita...

    Esses livros com finais agridoces são demais para meu pobre coração de manteiga ='x me faz apreciar mais os finais felizes de outros livros. Às vezes é meio "sério que isso aconteceu? As probabilidades são tãããão pequenas desse final feliz acontecer...", mas aí nesses livros "mais realistas", vem esses finais e eu fico "epa epa prefiro os finais (mais) felizes :/"

    Mas quem sabe o epílogo vai fazer o final mais feliz? Assim espero ToT!

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  2. 😢😢😢 chorando oceanos de lágrimas!!! Não estou acreditando que já acabou. Livro fantástico mas muiiito triste e não acredito que no final eles não ficaram juntos...😢😢😢
    Anna!!!

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Boa leitura, E SEM SPOILER!