1 de março de 2019

parte dois

natasha

DOU APENAS DOIS PASSOS para fora do prédio e já digito o número.
— Gostaria de marcar uma hora para hoje, o mais cedo possível, por favor.
A mulher que atende parece estar numa construção. Ao fundo ouço o som de uma furadeira e pancadas fortes. Preciso repetir meu nome duas vezes.
— E qual é o assunto? — pergunta ela.
Hesito. O lance de ser imigrante ilegal é que a gente fica craque em guardar segredos. Antes de começar toda essa aventura da deportação, a única pessoa a quem contei foi Bev, ainda que ela não costume ser muito fantástica com segredos.
— Eles simplesmente escapam — diz ela, como se não tivesse nenhum controle sobre as coisas que saem da sua boca.
Mesmo assim, até Bev sabia como era importante guardar esse.
— Alô, senhora? Poderia dizer qual é o assunto? — pergunta de novo a mulher ao telefone.
Pressiono mais o telefone contra o ouvido e fico parada no meio da escadaria. À minha volta o mundo acelera como um filme cujas cenas avançam rapidamente. As pessoas sobem e descem a escada com uma velocidade três vezes maior do que a normal, com movimentos espasmódicos. As nuvens disparam lá em cima. O sol muda de posição no céu.
— Sou imigrante sem documentos — respondo.
Meu coração acelera como se eu estivesse há um longo tempo percorrendo uma distância enorme.
— Preciso saber mais do que isso — diz ela.
Então eu conto. Sou jamaicana. Meus pais entraram no país ilegalmente quando eu tinha 8 anos. Estamos aqui desde então. Meu pai foi preso por dirigir embriagado. Vamos ser deportados. Lester Barnes achou que o advogado Fitzgerald poderia ajudar.
Ela marca uma consulta para as onze horas.
— Posso ajudar em mais alguma coisa? — pergunta.
— Não. Isso basta.
O escritório do advogado fica ao norte de onde estou, perto da Times Square. Verifico o celular: 8h35. Uma brisa fraca sopra, levantando a barra da minha saia e brincando com meu cabelo. O tempo está surpreendentemente bom para meados de novembro. Talvez eu não precisasse da jaqueta de couro, afinal. De repente torço para que o inverno não seja gelado demais, e então me dou conta de que é provável que eu não esteja aqui para ver. Se a neve cai numa cidade e não há ninguém para sentir, mesmo assim faz frio?
Faz. A resposta a esta pergunta é sim.
Aperto a jaqueta em volta do corpo. Ainda é difícil acreditar que meu futuro vai ser diferente do que planejei.
Faltam duas horas e meia. Minha escola fica a apenas quinze minutos de caminhada daqui. Penso em ir até lá e dar uma última olhada no prédio. É uma escola muito competitiva na área de ciências e me esforcei um bocado para entrar nela. Não acredito que depois de hoje posso não vê-la nunca mais. No fim decido não ir; são muitas pessoas que eu poderia encontrar e muitas perguntas — como “Por que não foi à aula hoje?” — a que não quero responder.
Em vez disso decido matar o tempo andando os cinco quilômetros até o escritório do advogado. Minha loja de discos de vinil predileta fica no caminho. Ponho os fones de ouvido e boto para tocar o disco Temple of the Dog. Este é um dia do tipo rock grunge dos anos 1990, todo feito de angústia e guitarra barulhenta.
A voz de Chris Cornell sobe e eu deixo que ela carregue para longe parte das minhas preocupações.


samuel kingsley
Uma história de arrependimento — Parte 1

O PAI DE NATASHA, SAMUEL, mudou-se para os Estados Unidos dois anos antes do resto da família. O plano era: Samuel iria primeiro e se estabeleceria como ator da Broadway. Seria mais fácil assim, sem ter que se preocupar com uma esposa e uma filha pequena. Sem elas, estaria livre para ir aos testes a qualquer momento. Estaria livre para fazer contatos com a comunidade teatral de Nova York. Originalmente, isso deveria valer apenas por um ano, mas virou dois. Teria virado três, mas a mãe de Natasha não pôde e não quis esperar mais.
Natasha tinha apenas 6 anos na época, mas se lembra dos telefonemas para os Estados Unidos. Sempre sabia quando era para lá porque a mãe precisava discar todos aqueles números extras. A princípio os telefonemas eram tranquilos. Seu pai parecia seu pai. Parecia feliz.
Depois de cerca de um ano, a voz dele mudou. Tinha um sotaque novo e engraçado que era mais engrolado do que o patois. Parecia menos feliz. Ela se lembra de ouvir as conversas dos dois. Não conseguia escutar o que ele falava, mas não precisava.
“Quer que a gente espere você mais quanto tempo?”
“Mas, Samuel, com você aí e a gente aqui, não somos mais uma família.”
“Fale com sua filha, homem.”
Até que um dia deixaram a Jamaica de vez. Natasha se despediu dos amigos e do resto da família acreditando que os veria de novo, talvez nas festas de fim de ano. Na época, não sabia o que significava ser imigrante ilegal. Que isso implicava nunca mais voltar para casa. Que sua casa nem pareceria mais sua casa, só um outro lugar estranho sobre o qual iria ler. No dia em que foram embora ela se lembra de estar no avião e pensar, preocupada, em como voariam através das nuvens, antes de perceber que as nuvens não se pareciam nem um pouco com bolas de algodão. Perguntou-se se seu pai iria reconhecê-la, se ainda iria amá-la. Fazia muito tempo.
Mas ele a reconheceu e ainda a amava. No aeroporto ele abraçou as duas, apertando muito.
— Meu Deus, como senti saudade de vocês! — disse, e apertou-as mais ainda.
Parecia o mesmo. Nesse momento até falou do mesmo jeito, com o sotaque de sempre. Mas o cheiro era diferente, de sabonete americano, roupas americanas e comida americana. Natasha não se importou. Estava muito feliz em vê-lo. Poderia se acostumar com qualquer coisa.
Durante os dois anos em que Samuel ficou sozinho nos Estados Unidos, morou com um velho amigo da família da mãe dele. Não precisava de emprego e usou as economias para cobrir as poucas despesas que tinha.
Quando todos se reuniram nos Estados Unidos, isso precisou mudar. Ele conseguiu um emprego de segurança num prédio de Wall Street. Arranjou um apartamento de um quarto para alugar na parte do Brooklyn chamada de Flatbush.
— Posso fazer isso dar certo — disse ele a Patricia.
Escolheu o turno da madrugada para ter tempo de comparecer aos testes durante o dia.
Mas durante o dia ficava cansado.
E não havia papéis para ele; e o sotaque não sumia, por mais que Samuel tentasse. E também não ajudou muito o fato de Patricia e Natasha falarem com ele usando um sotaque jamaicano forte, mesmo ele tentando ensinar a elas a pronúncia americana “certa”.
E a rejeição não era uma coisa fácil. Para ser ator é necessário criar uma casca, mas a de Samuel nunca era grossa o bastante. A rejeição parecia lixa. E sua pele foi se desgastando sob o ataque constante. Depois de um tempo, Samuel não sabia direito o que duraria mais: ele mesmo ou seus sonhos.


daniel

Jovem resignado pega o trem 7 sentido oeste, em direção ao fim da infância.
Claro, posso estar sendo meio dramático, mas este é o sentimento. Este trem é uma Porra de Trem Mágico me levando rapidamente da infância (alegria, espontaneidade, diversão) para a vida adulta (sofrimento, previsibilidade, absolutamente nenhuma diversão). Quando sair, meu cabelo estará simples e cortado com bom gosto (ou seja: curto). Não vou mais ler (nem escrever) poesia — só biografias de Pessoas Muito Importantes. Vou ter um Ponto de Vista sobre assuntos sérios como imigração, o papel da Igreja Católica numa sociedade cada vez mais secular, a relativa mediocridade dos times de futebol profissional.
O trem para e metade das pessoas desce. Vou para meu lugar predileto: o banco duplo no canto perto da cabine do condutor. Esparramo o corpo e ocupo os dois lugares.
É, é detestável. Mas tenho um bom motivo para este comportamento, que envolve um trem completamente vazio certa noite às duas da madrugada (muito depois do toque de recolher) e um homem com uma cobra enorme enrolada no pescoço que optou por se sentar perto de mim, apesar de haver (mais ou menos) mil lugares vazios.
Pego o caderno no bolso interno do paletó. Tenho cerca de uma hora até a rua 34 em Manhattan, onde fica meu barbeiro favorito, e esse poema não vai se escrever sozinho. Cinquenta minutos (e três versos muito mal escritos) mais tarde, só faltam duas paradas para a minha. A porta da Porra do Trem Mágico se fecha. Seguimos por uns cinco metros pelo túnel e paramos com um rangido. As luzes se apagam, claro. Ficamos sentados por cinco minutos antes que o condutor decida que seria bom se comunicar. Espero ouvi-lo dizer que o trem vai prosseguir em pouco tempo, etc., mas o que ele diz é o seguinte:
— SEnhoras e SEnhores. Até ontem eu era exatamente igual a vocês. Estava num trem indo para lugar NEnhum, como vocês.
Puta que o pariu. Em geral os malucos estão no trem, e não dirigindo o trem.
Meus colegas passageiros ficam tensos. “Que diabo é isso?” aparece em balõezinhos de fala sobre nossas cabeças.
— Mas aconteceu uma coisa COmigo. Tive uma EXperiência religiosa.
Não sei de onde ele é (Malucópolis, população: 1 pessoa). Ele exagera na pronúncia do início das palavras e parece que está sorrindo o tempo todo em que evangeliza.
— O PRÓprio Deus desceu do céu e me SALvou.
Há testas franzidas e olhos revirados numa incredulidade completa.
— ELE vai salvar vocês também, porque vocês precisam Aceitá-lo no coração. ACEItem agora antes de chegarem ao DEStino final.
Agora estou resmungando também, porque as frases de duplo sentido são o pior de tudo. Um cara de terno berra que o condutor deveria simplesmente fechar a porra da boca e dirigir o trem. Uma mãe cobre os ouvidos da filhinha e diz ao sujeito que ele não precisa usar uma linguagem dessas. A gente pode acabar dando uma de Senhor das Moscas no trem número 7.
Nosso condutor/evangelista fica quieto e passamos mais um minuto sentados no escuro antes de voltarmos a nos mover. Entramos na estação Times Square, mas as portas não se abrem imediatamente. Os alto-falantes estalam.
— SEnhoras e SEnhores. Este trem está fora de SERviço. Façam um FAvor a si mesmos. Saiam daqui. Vocês vão encontrar Deus se procurarem por ele.
Saímos todos do trem, em algum estado entre o alívio e a raiva. Todo mundo tem que ir para algum lugar. Encontrar Deus não está na programação.


natasha

OS SERES HUMANOS não são criaturas razoáveis. Em vez de governados pela lógica, somos governados pelas emoções. O mundo seria um lugar mais feliz se o oposto fosse verdade. Por exemplo, baseada num único telefonema, comecei a esperar um milagre.
E nem acredito em Deus.


o condutor
Uma história evangélica

O DIVÓRCIO DO CONDUTOR não foi fácil. Um dia sua mulher simplesmente anunciou que não o amava mais. Não conseguia explicar por quê. Não estava tendo um caso. Não queria estar com outra pessoa. Mas o amor que sentia antes havia acabado.
Nos quatro anos desde que o divórcio se oficializou, é justo dizer que o condutor se tornou uma espécie de descrente. Ele se lembra dos votos que os dois fizeram diante de Deus e de todo mundo. Se a pessoa que deveria amar você eternamente para de amá-lo repente, em que acreditar?
Inseguro e sem amarras, ele ficou à deriva, de cidade em cidade, de apartamento em apartamento, de emprego em emprego, ancorado ao mundo por quase nada. Tem dificuldade para dormir. A única coisa que ajuda é assistir à TV tarde da noite, sem som. A cascata interminável de imagens acalma a mente e o leva ao sono.
Certa noite, enquanto está cumprindo o mesmo ritual, um programa que nunca tinha visto atrai seu olhar. Um homem está de pé num pódio diante de uma plateia gigantesca. Atrás dele há uma tela enorme com o rosto do mesmo homem projetado. Ele está chorando. A câmera gira e mostra a plateia fascinada. Algumas pessoas choram, mas o condutor sabe que não é de tristeza.
Nessa noite ele não dorme. Aumenta o som e fica acordado a noite toda assistindo ao programa.
No dia seguinte pesquisa um pouco e encontra o Cristianismo Evangélico, e isso o leva a uma viagem da qual ele não sabia que necessitava. Descobre que existem quatro etapas principais para se tornar cristão evangélico. Primeiro, você precisa renascer. O condutor adora a ideia de alguém poder se renovar, livre do pecado e, portanto, digno do amor e da salvação. Segundo e terceiro, você precisa acreditar totalmente na Bíblia e no fato de que Cristo morreu para que nossos pecados possam ser perdoados. Por fim, você precisa virar uma espécie de ativista, compartilhando e espalhando a mensagem do evangelho.
E é por isso que o condutor faz seu anúncio pelos alto-falantes. Como ele poderia não compartilhar o júbilo recém-descoberto com seus companheiros humanos? E é júbilo. Há uma espécie de júbilo puro na certeza da crença. A certeza de que sua vida tem um propósito e um significado. De que, ainda que sua vida terrena possa ser difícil, existe um lugar melhor no futuro e que Deus tem um plano para você chegar lá.
De que todas as coisas que aconteceram com ele, mesmo as ruins, aconteceram por um motivo.


daniel

JÁ QUE ESTOU DEIXANDO O UNIVERSO determinar minha vida neste Último Dia da Infância, decido não esperar outro trem que me leve à rua 34. O condutor mandou encontrar Deus. Talvez Ele (ou Ela... Ah, até parece. Deus é, definitivamente, um cara. De que outro modo explicar as guerras, as doenças e as ereções matinais?) esteja aqui na Times Square, só esperando ser encontrado.
Mas assim que chego à rua lembro que a Times Square é uma espécie de inferno (um poço feroz de anúncios de néon piscando e vendendo todos os sete pecados capitais). Deus jamais pararia aqui.
Ando pela Sétima Avenida em direção ao meu barbeiro, mantendo o olhar atento a alguma espécie de Sinal. Na 37 vejo uma igreja. Subo a escada e experimento a porta, mas está trancada. Deus deve estar dormindo lá dentro.
Olho à esquerda e à direita. Ainda nenhum Sinal. Estou procurando alguma coisa sutil, tipo um homem de cabelo comprido transformando água em vinho e segurando uma placa em que proclama ser Jesus Cristo, Nosso Senhor e Salvador.
Que se dane a sutileza: sento-me nos degraus. Do outro lado da rua as pessoas estão desviando de uma garota que oscila ligeiramente. É negra, com uma enorme cabeleira afro encaracolada e fones de ouvido cor-de-rosa quase igualmente enormes. Os fones são do tipo que tem almofadas gigantes para bloquear o som externo (e também o resto do mundo). Seus olhos estão fechados e ela está com uma das mãos no coração. Em completo êxtase.
A coisa toda dura uns cinco segundos antes que ela abra os olhos. Olha ao redor, encolhe os ombros como se estivesse sem graça e vai andando rapidamente. O que quer que esteja ouvindo deve ser incrível, para fazer com que ela se perca bem ali no meio de uma calçada em Nova York. A única coisa capaz de fazer com que eu me sinta assim é escrever poesia, e isso não vai poder acontecer nunca mais.
Eu daria tudo para desejar de verdade a vida que meus pais querem para mim. As coisas seriam mais fáceis se a carreira de medicina me empolgasse.
Ser médico parece uma daquelas coisas pelas quais a gente deveria ter paixão. Salvar vidas e coisa e tal. Mas tudo que sinto é eca.
Observo enquanto a garota se afasta. Ela muda a mochila para um dos ombros e eu vejo: nas costas da jaqueta de couro está impresso DEUS EX MACHINA em letras grandes e brancas. Deus saído da máquina. Ouço a voz do condutor na cabeça e me pergunto se é um Sinal.
Em geral não sou de perseguir ninguém, e não estou exatamente seguindo a garota. Estou mantendo a distância inocente de meio quarteirão entre nós.
Ela entra numa loja chamada Discos Segundo Advento. Sem sacanagem.
Agora sei: é definitivamente um Sinal, e estou falando sério sobre voar na direção do vento hoje. Quero saber aonde ele me leva.


natasha

ENTRO NA LOJA DE DISCOS esperando evitar os olhares de qualquer pessoa que tenha me visto agindo feito uma desequilibrada na rua. Estava tendo um momento de êxtase com minha música. Chris Cornell cantando “Hunger Strike” me pega toda vez que ouço. Ele canta o refrão como se sempre tivesse sentido fome.
Dentro da Segundo Advento as luzes são fracas e o ar cheira a poeira e odorizador de ambiente com perfume de limão, como sempre. Eles mudaram um pouco a arrumação desde a última vez em que estive aqui. Os discos eram organizados por década, mas agora são por gênero musical. Cada seção tem seu pôster definidor de era: Nevermind, do Nirvana, para o grunge. Blue Lines, do Massive Attack, para o trip-hop. Straight Outta Compton, do N. W. A., para o rap.
Eu poderia passar o dia inteiro aqui. Se hoje não fosse Hoje, eu passaria o dia inteiro aqui. Mas não tenho tempo nem dinheiro.
Estou indo para o trip-hop quando noto um casal se beijando na seção de divas pop, no canto do fundo. Estão de lábios colados perto de um pôster do Like a Virgin, da Madonna, por isso não posso ver os rostos exatamente, mas conheço intimamente o perfil do cara. É meu ex-namorado Rob. Sua parceira de grude é Kelly, a garota com quem ele me traiu.
De todas as pessoas nas quais eu poderia trombar... e logo hoje! Por que ele não está na escola? Sabe que este lugar é meu. Ele nem gosta de música. A voz da minha mãe ressoa na minha cabeça. As coisas acontecem por um motivo, Tasha. Não acredito nessa ideia, mas mesmo assim tem que haver uma explicação lógica para este dia horrível. Queria que Bev estivesse aqui comigo. Se estivesse, eu nem teria entrado na loja. Velha demais e chata demais, diria ela. Em vez disso provavelmente estaríamos na Times Square observando os turistas e tentando adivinhar, com base em suas roupas, de onde eram. Os alemães costumam usar bermuda não importa o clima.
Como se ver Rob e Kelly tentando comer o rosto um do outro não fosse nojento o suficiente, vejo a mão dela se estender, pegar um disco e depois enfiar entre os corpos dos dois e para dentro de sua jaqueta muito larga, perfeita para roubos.
Meu. Deus.
Eu preferiria ter os olhos queimados a continuar espiando, mas olho. Na verdade, não consigo acreditar no que vejo. Eles devoram um ao outro por mais alguns segundos e depois ela estende a mão de novo.
— Ah, meu Deus, eles são nojentos. Por que são tão nojentos?
As palavras escorrem da minha boca antes que eu possa impedir. Como minha mãe, tenho tendência a pensar em voz alta.
— Ela vai mesmo roubar aquilo? — questiona uma voz igualmente incrédula ao meu lado.
Dou uma olhada rápida para ver com quem estou falando. É um garoto asiático de terno cinza e gravata vermelha ridiculamente espalhafatosa.
Viro o rosto outra vez para olhar mais um pouco.
— Não tem ninguém trabalhando aqui? Eles não veem o que está acontecendo? — pergunto mais para mim mesma do que para ele.
— Não deveríamos falar alguma coisa?
— Com eles? — Indico os ladrõezinhos.
— Com os funcionários, talvez?
Balanço a cabeça sem olhar para ele.
— Eu conheço os dois.
— A Mão Leve é sua amiga? — A voz dele sai ligeiramente acusadora.
— É namorada do meu namorado.
O Gravata Vermelha afasta a atenção do crime em progresso e se vira para mim.
— Como isso funciona, exatamente?
— Quero dizer, ex-namorado. Ele me traiu com ela, na verdade.
Estou mais incomodada por ver o Rob do que imagino. É a única explicação para eu me dispor a dar essa informação a um estranho.
Gravata Vermelha volta a atenção de novo para o pequeno delito.
— Grande casal: um traidor e uma ladra.
Dou um meio sorriso. Ele diz:
— Deveríamos contar a alguém.
Balanço a cabeça.
— De jeito nenhum. Conta você.
— Juntos teremos mais credibilidade — devolve ele.
— Se eu disser alguma coisa, vai parecer que estou com ciúme.
— E está?
Olho para ele. Seu rosto é simpático.
— Essa pergunta é meio pessoal, não é, Gravata Vermelha?
Ele dá de ombros, dizendo:
— Estávamos tendo um momento íntimo.
— Não.
E me viro mais uma vez para observar os dois. Rob sente que estou olhando e me vê antes que eu possa desviar o olhar.
— Jesus Cristo — sussurro baixinho.
Rob me lança seu meio sorriso idiota e um aceno. Quase faço um sinal mandando ele para aquele lugar. Como foi que namorei esse cara durante oito meses e quatro dias? Como deixei que esse cúmplice de roubo segurasse minhas mãos e me beijasse?
Encaro o Gravata Vermelha.
— Ele está vindo para cá?
— Está.
— Talvez a gente devesse se beijar ou algo assim, tipo os espiões nos filmes — sugiro.
Gravata Vermelha fica vermelhíssimo.
— Estou brincando — digo sorrindo.
Ele não responde nada, só fica um pouquinho mais rubro. Olho a cor aquecer seu rosto.
Rob chega antes que o Gravata Vermelha possa se controlar e reagir.
— Oi — diz ele.
Sua voz tem um tom profundo, um barítono tranquilizante. É uma das coisas de que eu gostava. Além disso, ele parece um jovem Bob Marley, só que branco e sem os dreadlocks.
— Por que você e sua namorada estão roubando coisas? — intervém o Gravata Vermelha antes que eu possa dizer algo ao Rob.
Rob levanta as mãos e dá um passo para trás.
— Ei, cara. Fala baixo. — Ele gruda de novo o meio sorriso idiota no rosto idiota.
Gravata Vermelha fala mais alto ainda:
— Esta é uma loja de discos independente. Isso quer dizer que pertence a uma família. Vocês estão roubando de pessoas de verdade. Sabe como é difícil os negócios pequenos sobreviverem quando pessoas como vocês roubam coisas?
Gravata Vermelha está indignado e Rob até consegue parecer um tanto sem graça.
— Não olhe agora, mas acho que sua namorada acaba de ser apanhada — digo.
Dois funcionários da loja estão sussurrando furiosamente com Kelly e batendo de leve na frente da jaqueta dela.
O rosto idiota de Rob finalmente perde o sorriso idiota. Em vez de ir salvar Kelly, ele enfia as mãos nos bolsos e anda/corre em direção à porta da loja. Kelly chama seu nome enquanto ele foge, mas Rob não para. Um funcionário ameaça chamar a polícia. Ela implora a ele que não faça isso e tira dois discos da jaqueta. Kelly tem bom gosto. Vejo Massive Attack e Portishead.
O funcionário arranca os discos da mão dela.
— Se voltar aqui, eu chamo a polícia.
Ela sai correndo da loja gritando por Rob.
— Bom, isso foi divertido — diz o Gravata Vermelha depois de ela sair.
Ele dá um sorriso enorme e me fita com olhos felizes. Tenho uma sensação de déjà vu. Já estive aqui. Já vi esses olhos brilhantes e esse sorriso. Até já tive essa conversa.
Mas então o momento passa.
Ele estende a mão e se apresenta:
— Daniel.
Sua mão é quente, grande e macia, e segura a minha por um tempo um pouquinho maior do que deveria.
— Prazer em conhecê-lo — digo, puxando a mão de volta.
O sorriso dele é legal, legal mesmo, mas não tenho tempo para garotos de terno com sorrisos legais. Ponho os fones de volta. Ele ainda está esperando que eu diga meu nome.
— Tenha uma vida boa, Daniel — falo.
E saio pela porta.


daniel

Pretenso dom-juan aperta a mão de garota bonita e oferece empréstimo imobiliário com taxa de juros razoável.
Aperto a mão dela. Estou usando terno e gravata e aperto a mão dela.
O que eu sou? Um funcionário de banco?
Quem conhece uma garota bonita e aperta a mão dela?
Charlie diria alguma coisa encantadora para ela. Os dois estariam tomando um café em algum lugar escuro e romântico. Ela já estaria sonhando com bebezinhos mestiços, meio coreanos, meio afro-americanos.


natasha

DO LADO DE FORA AS RUAS estão mais apinhadas do que antes. A multidão é uma mistura de turistas que se afastaram demais da Times Square e nova-iorquinos de verdade querendo que os turistas simplesmente voltem para a Times Square. Um pouco adiante na rua vejo Rob e Kelly. Fico parada olhando os dois por um tempo. Ela está chorando, e sem dúvida ele está tentando dizer que não é um sacana infiel e desleal. Tenho a sensação de que ele vai ter sucesso. Rob é muito convincente e ela quer ser convencida.
Nós nos sentávamos perto um do outro na aula de física avançada no ano passado. Eu só o notei porque ele me pediu ajuda a respeito de isótopos e meia-vida. Sou excelente nessa matéria. Ele me chamou para ir ao cinema depois de ir bem no teste na semana seguinte.
Ser parte de um casal era novidade para mim, mas gostei. Gostei de nos encontrarmos perto do armário dele entre as aulas e de sempre ter planos para o fim de semana. Gostei de ser considerada parte de um casal e de sair com Bev e Derrick. Por mais que odeie admitir agora, eu gostava dele. E aí ele me traiu.
Ainda me lembro de ter me sentido magoada, enganada e, estranhamente, envergonhada. Como se eu tivesse culpa de ele me trair. Mas o que nunca pude entender foi por que ele mentiu. Por que não terminar comigo e namorar a Kelly ?
Mesmo assim, não demorei muito a superar. E é isso que me deixa cautelosa. Para onde foram todos aqueles sentimentos? As pessoas passam a vida inteira procurando o amor. Mas como a gente vai confiar numa coisa que pode acabar tão subitamente quanto começa?


meia-vida
Uma história de decaimento

A MEIA-VIDA DE UMA SUBSTÂNCIA é o tempo que ela demora para perder  metade do valor inicial.
Na física nuclear, é o tempo que os átomos instáveis demoram para perder energia emitindo radiação. Na biologia, geralmente se refere ao tempo necessário para eliminar metade de uma substância (água, álcool, medicamentos) do corpo. Na química, é o tempo necessário para converter metade de um reagente (hidrogênio, oxigênio, por exemplo) em um produto (água).
No amor, é a quantidade de tempo que demora para os amantes sentirem metade do que sentiram um dia.
Quando Natasha pensa no amor, é nisto que pensa: nada dura para sempre. Como o hidrogênio-7, o lítio-5 ou o boro-7, o amor tem uma meia-vida infinitesimalmente pequena que decai até o nada. E quando acaba é como se nunca tivesse existido.


daniel

A GAROTA SEM NOME parou num cruzamento à minha frente. Juro que não estou indo atrás dela. Ela apenas está indo para onde eu vou. Ela recolocou os fones de ouvido e está balançando com a música outra vez. Não posso ver seu rosto, mas suponho que os olhos estejam fechados. Ela perde a oportunidade de atravessar uma vez e agora estou logo atrás. Se ela se virasse acharia, sem dúvida, que a estou perseguindo. O semáforo fica vermelho e ela sai do meio-fio.
Não está prestando atenção suficiente para perceber que um cara num BMW branco vai avançar o sinal vermelho. Mas eu estou suficientemente perto.
Puxo seu braço para trás. Nossos pés se embolam. Tropeçamos um no outro e caímos na calçada. Ela meio que aterrissa em cima de mim. Seu celular não tem tanta sorte e cai na calçada.
Umas duas pessoas perguntam se estamos bem, mas a maioria apenas desvia de nós como se fôssemos só mais um objeto na pista de obstáculos que é Nova York.A Garota Sem Nome sai de cima de mim e olha para o celular. Algumas rachaduras imitam teias de aranha na tela.
— O que foi isso?! — diz ela, e é tanto uma pergunta quanto um protesto.
— Você está bem?
— Aquele cara quase me matou.
Levanto os olhos e vejo que o carro parou perto da calçada no quarteirão seguinte. Tenho vontade de gritar com o motorista, mas não quero deixá-la sozinha.
— Você está bem? — pergunto de novo.
— Sabe há quanto tempo eu tenho isto?
A princípio, acho que a garota está falando do telefone, mas são os fones de ouvido que ela aninha nas mãos. De algum modo eles quebraram na nossa queda. Uma das almofadas está rasgada e pendurada no fio e o invólucro rachou.
Ela parece prestes a chorar.
— Compro outro para você.
Estou desesperado para impedir suas lágrimas, mas não porque eu seja nobre nem nada. Sou do tipo chorão por contágio. Sabe quando uma pessoa começa a bocejar e todo mundo também começa? Sou assim, só que com o choro; e não tenho intenção de chorar na frente da garota bonita cujos fones de ouvido acabei de quebrar.
Parte dela quer dizer sim à minha oferta, mas já sei que não vai. Ela aperta os lábios e balança a cabeça.
— É o mínimo que posso fazer — digo.
Por fim ela me olha.
— Você já salvou minha vida.
— Você não teria morrido. Ficaria meio aleijada, talvez.
Estou tentando fazer com que ela ria, mas de nada adianta. Seus olhos se enchem de lágrimas.
— Estou tendo o pior dia da minha vida — confessa.
Desvio os olhos para que ela não veja minhas lágrimas se formando.


donald christiansen
Uma história de dinheiro

DONALD CHRISTIANSEN SABE o preço de coisas que não têm preço. Chega a ter tabelas na mente. Sabe o custo da vida humana perdida num acidente de avião, num acidente de carro, num desastre de mineração. Sabe essas coisas porque já trabalhou com seguros. Seu trabalho era precificar as coisas indesejadas e inesperadas.
O preço por atropelar sem querer uma garota de 17 anos que obviamente não estava prestando atenção é consideravelmente menor do que o preço por sua filha ser morta por um motorista digitando no celular. Na verdade, a primeira coisa em que pensou ao saber da notícia da filha foi o preço que a companhia de seguros pagaria.
Ele para o carro, acende o pisca-alerta e apoia a cabeça no volante. Toca o frasco que está no bolso do paletó. As pessoas se recuperam dessas coisas? Ele acha que não.
Já faz dois anos, mas o sofrimento não o abandonou, não dá sinais de ir embora até tirar tudo dele. Custou seu casamento, seu sorriso, a capacidade de comer o suficiente, dormir o suficiente e sentir o suficiente.
Custou a capacidade de ficar sóbrio.
E foi por isso que quase atropelou Natasha.
Donald não sabe direito o que o Universo estava tentando dizer ao lhe tirar a filha única, mas o que aprendeu foi o seguinte: ninguém pode colocar preço em todas as perdas. E outra coisa: todas as nossas histórias futuras podem ser destruídas num único instante.


natasha

GRAVATA VERMELHA AFASTA os olhos de mim. Acho que ele está prestes a chorar, e isso não faz sentido. Ele se oferece para me comprar fones de ouvido novos. Mesmo que eu permita, os novos não podem substituir estes.
Tenho estes fones desde que chegamos aos Estados Unidos. Quando meu pai os comprou para mim, ainda tinha esperanças de realizar muita coisa aqui. Ainda estava tentando convencer minha mãe de que, no fim das contas, a mudança de país, para longe de todos os amigos e parentes, valeria a pena. Ele ia fazer sucesso. Ia alcançar o Sonho Americano que os próprios americanos sonham.
Eu e meu irmão éramos usados para ajudar a convencer minha mãe. Ele nos comprava, à prestação, muitos presentes — coisas que não poderíamos ter nem pagando a prazo. Mas se nós dois estávamos felizes aqui, talvez a mudança tivesse sido, afinal, a coisa certa.
Eu não me importava com os motivos para os presentes. Os fones caríssimos foram meu presente favorito. A mim só importava o fato de que eles tinham a minha cor favorita e prometiam som de alta qualidade. Foram meu primeiro amor. Eles conhecem todos os meus segredos. Sabem quanto eu adorava meu pai. Sabem que estou me odiando por não adorá-lo nem um pouco agora.
Parece fazer muito tempo desde quando eu o achava o máximo. Ele era um planeta exótico e eu era seu satélite predileto. Mas ele não é nenhum planeta, é só a última luz desbotada de uma estrela morta.
E não sou um satélite. Sou lixo espacial, me distanciando dele o máximo que posso.


daniel

NÃO ACHO QUE EU JÁ TENHA REPARADO em alguém como estou reparando nessa garota. A luz do sol se infiltra pelo cabelo dela, formando uma espécie de halo ao redor de sua cabeça. Mil emoções passam pelo seu rosto. Os olhos são pretos e grandes, com cílios longos. Posso me imaginar olhando para eles por um tempo enorme. Neste momento estão opacos, mas sei exatamente como ficariam se estivessem brilhantes e sorridentes. Imagino se consigo fazer com que ela ria. Sua pele é de um marrom quente e sedoso. Os lábios são rosados e cheios, e é provável que eu esteja olhando para eles há muito tempo.
Felizmente ela está triste demais para notar o sacana superficial (e cheio de tesão) que eu sou.
Ela ergue o olhar dos fones de ouvido quebrados. Quando nossos olhos se encontram, sinto uma espécie de déjà vu, mas, em vez de parecer que estou repetindo alguma coisa do passado, parece que experimento algo que vai acontecer no futuro. Vejo nós dois velhos. Não consigo enxergar nossos rostos; não sei quando nem onde estamos. Mas tenho uma sensação estranha e feliz que não consigo descrever de modo exato. É como conhecer todas as palavras de uma música mas ainda assim achar que são lindas e surpreendentes.


natasha

FICO DE PÉ E LIMPO A SUJEIRA da minha roupa. Este dia não pode piorar. Vai ter de acabar em algum momento.
— Você estava me seguindo? — pergunto.
Estou mais irritada do que deveria ficar com alguém que acaba de salvar minha vida.
— Cara, eu sabia que você ia pensar isso.
— Por acaso você estava atrás de mim? — Remexo nos fones de ouvido, tentando reencaixar a almofada, mas não adianta.
— Talvez eu estivesse destinado a salvar sua vida hoje.
Ignoro isso.
— Certo, obrigada pela ajuda — digo, me preparando para ir embora.
— Pelo menos diga qual é o seu nome.
— Gravata Vermelha...
— Daniel.
— Certo, Daniel. Obrigada por me salvar.
— Esse é um nome comprido.
Ele não tira os olhos dos meus. Não vai desistir até eu dizer.
— Natasha.
Acho que ele vai apertar minha mão de novo, mas em vez disso enfia as mãos nos bolsos.
— Belo nome.
— Fico feliz que você aprove. — Ofereço meu tom mais sarcástico.
Ele não diz mais nada, só me olha com a testa ligeiramente franzida, como se tentasse deduzir alguma coisa.
Por fim, não aguento mais.
— Por que está me encarando?
Ele fica vermelho de novo, e agora eu é que estou encarando. Dá para ver como seria divertido provocá-lo, só para ele ficar vermelho. Deixo o olhar percorrer os ângulos do seu rosto. Ele é classicamente bonito; até mesmo sofisticado. Olhando esse cara aqui parado, de terno, posso visualizá-lo numa comédia romântica antiga de Hollywood, em preto e branco, trocando diálogos espirituosos com sua heroína. Os olhos são de um castanho límpido e profundo.
De algum modo sei que ele sorri bastante. O cabelo preto e grosso está preso num rabo de cavalo.
Fato Observável: o rabo de cavalo o promove de bonito para sexy. Ele diz:
— Agora você está me encarando.
É minha vez de ficar vermelha.
Pigarreio.
— Por que você está de terno?
— Tenho uma entrevista mais tarde. Quer comer alguma coisa?
— Para quê?
— Yale. Entrevista para admissão, com um ex-aluno. Foi a única universidade para a qual me inscrevi.
Nego com um gesto de cabeça.
— Não. Quero saber por que você quer comer alguma coisa.
— Porque estou com fome? — responde ele perguntando, como se não tivesse certeza.
— Hmmm. Eu não.
— Café, então? Ou chá, ou refrigerante, ou água filtrada?
— Por quê? — pergunto, percebendo que ele não vai desistir.
Seus ombros se encolhem, mas os olhos não.
— Por que não? Além disso, tenho certeza de que você me deve sua vida, já que acabei de salvá-la.
— Acredite, você não quer minha vida.


daniel

CAMINHAMOS DOIS QUARTEIRÕES compridos para o oeste, na direção da Nona Avenida, e passamos por nada menos do que três cafés. Dois deles são da mesma cadeia nacional. Escolho o independente, porque nós, ligados a estabelecimentos de família, precisamos nos apoiar.
O lugar tem móveis de madeira escura e cheira exatamente como você acha que cheiraria. Além disso, é ligeiramente elegante demais. E com ligeiramente quero dizer que há vários quadros a óleo pendurados na parede, cada um representando um único grão de café. Quem imaginaria que os retratos de grãos de café são chiques? Quem imaginaria que eles poderiam parecer tão solitários?
Não há quase ninguém aqui, e os três baristas atrás do balcão parecem bem entediados. Tento animar a vida deles pedindo uma bebida tremendamente elaborada na qual entram meia dose de café, leites com vários níveis de gordura, caramelo e xarope de baunilha.
Eles continuam parecendo entediados.
Natasha pede café puro sem açúcar. É difícil não ler sua personalidade no pedido de café. Quase digo alguma coisa, mas percebo que ela pode achar que estou fazendo uma piada racista, o que seria um modo Muito Ruim (numa escala que vai de Ruim a Extremamente Ruim. A escala inteira é: Ruim, Um Pouco Ruim, Moderadamente Ruim, Muito Ruim e Extremamente Ruim) de começar esse relacionamento.
Ela insiste em pagar, dizendo que é o mínimo que pode fazer. Minha bebida custa 6,38 dólares, e eu digo que o custo de salvar uma vida é de pelo menos duas bebidas elaboradas. Ela nem sorri.
Escolho uma mesa no fundo e o mais longe possível da não ação. Assim que nos sentamos, ela pega o celular para verificar a hora. Ele ainda funciona, apesar das rachaduras na tela. Ela passa o polegar por elas e suspira.
— Precisa ir a algum lugar? — pergunto.
— Preciso — responde ela, e desliga o telefone.
Espero que ela continue a falar, mas definitivamente não vai fazer isso. Seu rosto me desafia a perguntar mais, porém alcancei minha cota de coisas ousadas (1 = seguir uma garota bonita, 2 = gritar com o ex-namorado da garota bonita, 3 = salvar a vida da garota bonita, 4 = convidar a garota bonita para um café) para o dia.
Ficamos sentados num silêncio bem desconfortável durante 33 segundos.
Entro naquele estado de constrangimento de quando você está com uma pessoa nova e quer muito que ela goste de você.
Vejo todos os meus movimentos através dos olhos dela. Será que esse gesto de mão me faz parecer um idiota? Será que minhas sobrancelhas estão se arrastando para fora do rosto? Isto é um sorriso sensual ou será que pareço estar tendo um derrame?
Estou nervoso, por isso exagero todos os movimentos. SOPRO meu café, TOMO UM GOLE, MEXO, representando o papel de um adolescente moderno tomando uma bebida de verdade chamada café.
Sopro a bebida com muita força e um pouco de espuma voa. Eu não poderia ser mais descolado. Eu me namoraria (na verdade, não). É difícil dizer, mas ela pode ter sorrido ligeiramente do voo da espuma.
— Ainda está feliz porque salvou minha vida?
Tomo um gole grande demais e queimo não somente a língua mas todo o caminho garganta abaixo. Meu Deus. Talvez seja um sinal de que devo desistir.
Obviamente não estou destinado a impressionar essa garota.
— Eu deveria me arrepender?
— Bom, não estou sendo exatamente legal com você.
Ela é bem direta, por isso decido ser direto também.
— É verdade, mas não tenho uma máquina do tempo para voltar e desfazer tudo. — Falo isso sem demonstrar emoção.
— Você desfaria? — pergunta ela, franzindo a testa ligeiramente.
— Claro que não.
Que tipo de imbecil ela acha que eu sou?
Ela pede licença para ir ao banheiro. Para não estar sentado de modo desinteressante quando ela voltar, pego meu caderno e fico mexendo no poema.
Ainda estou escrevendo quando ela volta.
— Ah, não — resmunga ela ao se sentar.
— O que foi?
Ela indica meu caderno.
— Você não é poeta, é?
Seus olhos estão sorrindo, mas mesmo assim fecho o caderno depressa e enfio de volta no paletó.
Talvez não seja uma ideia muito boa. O que estou pensando, com esse absurdo de déjà vu reverso? Só estou afastando o futuro. Como meus pais querem, vou me casar com uma adorável garota coreano-americana.
Diferentemente do Charles, não tenho nada contra as coreanas. Ele diz que não fazem o seu tipo, mas não entendo de verdade o conceito de ter um tipo. Meu tipo são garotas. Todas. Por que iria limitar as opções de namoro?
Vou ser um médico fantástico que sabe ouvir seus pacientes.
Vou ser perfeitamente feliz.
Mas alguma coisa em Natasha me faz pensar que minha vida poderia ser extraordinária.
É melhor que ela seja babaca e a gente siga por caminhos separados. Não consigo pensar em nenhum modo de meus pais (principalmente meu pai) acharem bom que eu namore uma garota negra.
Mesmo assim, faço uma última tentativa:
— O que você faria se tivesse uma máquina do tempo?
Pela primeira vez desde que nos sentamos ela não parece irritada nem entediada. Franze a testa e se inclina sobre a mesa.
— Ela pode viajar para o passado?
— Claro. É uma máquina do tempo.
O olhar dela me diz que há muita coisa que eu não sei.
— A viagem para o passado é um negócio cheio de complicações.
— Digamos que a gente supere as complicações. O que você faria?
Ela pousa o café, cruza os braços na frente do peito. Seus olhos estão mais brilhantes.
— E vamos ignorar o paradoxo do avô? — pergunta.
— Completamente — respondo, fingindo que sei do que ela está falando.
Mas ela percebe que não faço ideia do que aquilo significa.
— Não conhece o paradoxo do avô?
Sua voz sai incrédula, como se eu desconhecesse uma informação básica sobre o mundo (tipo como os bebês são feitos). Será que ela é uma nerd fanática por ficção científica?
— Não, não conheço.
— Certo. Digamos que você tenha um avô mau.
— Ele morreu. Só me encontrei com ele uma vez na Coreia. Ele parecia legal.
— Você é coreano?
— Coreano-americano. Nasci aqui.
— Sou jamaicana. Nasci lá.
— Mas não tem sotaque.
— Bom, estou aqui há um tempo.
Ela aperta a xícara e sinto que seu humor está começando a mudar.
— Fale do paradoxo — cutuco, tentando distraí-la.
Isso funciona e ela se anima de novo.
— Certo. Digamos que seu avô estivesse vivo e que ele fosse mau.
— Vivo e mau — digo, confirmando com a cabeça.
— Ele é mau de verdade, por isso você inventa uma máquina do tempo e volta ao passado para matá-lo. Digamos que você o mate antes de ele conhecer sua avó. Isso significaria que um dos seus pais nunca nasceu e que você nunca nasceu, então não pode voltar no tempo para matá-lo. Mas... se você matá-lo depois de ele conhecer sua avó, aí você vai nascer, e aí vai inventar uma máquina do tempo para matá-lo. Esse círculo vai continuar para sempre.
— Hã. É, estamos definitivamente ignorando isso.
— E também estamos ignorando o princípio de autoconsistência de Novikov, imagino?
Antes eu achava que ela era bonita, mas agora ela é mais bonita ainda. Seu rosto está animado, o cabelo balançando e os olhos reluzindo. Está gesticulando com as mãos, falando sobre pesquisadores do MIT e de alterar a probabilidade para impedir os paradoxos.
— De modo que, teoricamente, você não poderia matar seu avô, porque a arma iria falhar no momento exato, ou você teria um ataque cardíaco...
— Ou uma jamaicana bonita entraria na sala e me derrubaria.
— É. Alguma coisa estranha e improvável aconteceria de modo que o impossível não acontecesse.
— Hã — digo de novo.
— Isso é mais do que um “hã” — diz ela, sorrindo.
É mais do que um hã, mas não consigo pensar em nada inteligente ou espirituoso para dizer. Estou tendo dificuldade para pensar e olhar para ela ao mesmo tempo.
Há uma expressão japonesa da qual eu gosto: koi no yokan. Não significa exatamente amor à primeira vista. É mais parecido com amor à segunda vista. É a sensação que a gente tem quando conhece uma pessoa por quem vai se apaixonar. Talvez você não a ame imediatamente, mas é inevitável que acabe amando.
Tenho quase certeza de que é isso que estou experimentando. O único probleminha (possivelmente intransponível) é que tenho quase certeza de que Natasha não está.


natasha

NÃO DIGO AO GRAVATA VERMELHA toda a verdade sobre o que eu faria se tivesse uma máquina do tempo. Viajaria ao passado e faria com que o dia mais importante da vida do meu pai jamais acontecesse. É uma coisa completamente egoísta, mas é o que eu faria para que o meu futuro não tivesse de ser apagado.
Em vez disso explico toda a ciência a ele. Quando termino, ele está me olhando como se estivesse apaixonado por mim. Acontece que ele nunca ouviu falar do paradoxo do avô ou do princípio de autoconsistência de Novikov, o que me surpreende um pouco. Acho que presumi que ele seria nerd porque é asiático, o que é sacanagem minha porque odeio quando as outras pessoas supõem coisas a meu respeito, como que eu gosto de rap ou sou boa em esportes.
Só para constar, apenas uma dessas coisas é verdade.
Além do fato de que vou ser deportada hoje, realmente não sou uma garota por quem vale a pena se apaixonar. Para começo de conversa, não gosto de coisas temporárias, sem provas concretas, e o amor romântico é temporário e não é passível de prova.
A outra coisa secreta que não conto a ninguém é o seguinte: não tenho certeza se sou capaz de amar. Nem temporariamente. Quando estava com Rob, nunca me senti como as músicas dizem que a gente deveria se sentir. Não me senti dominada nem consumida. Não precisava dele como precisava do ar. Gostava realmente dele. Gostava de olhar para ele. Gostava de beijá-lo. Mas sempre soube que poderia viver sem ele.
— Gravata Vermelha — digo.
— Daniel — insiste ele.
— Não se apaixone por mim, Daniel.
Ele engasga com o café.
— Quem disse que vou me apaixonar?
— Aquele caderninho preto em que vi você escrevendo, e seu rosto. Seu rosto grande, escancarado, incapaz de enganar qualquer pessoa com relação a qualquer coisa, diz que vai.
Ele fica vermelho de novo, porque ficar vermelho é todo o seu estado de ser.
— E por que não deveria?
— Porque não vou me apaixonar por você.
— Como você sabe?
— Não acredito no amor.
— O amor não é uma religião. Ele existe, quer você acredite ou não.
— É mesmo? Você consegue provar?
— Canções de amor. Poesia. A instituição do casamento.
— Por favor. São palavras no papel. Dá para usar o método científico nele? Você pode observar, medir, fazer experiências com ele e repetir as experiências? Não pode. Você pode fatiá-lo, pôr um corante, estudá-lo ao microscópio? Não pode. Pode cultivá-lo numa placa de Petri ou mapear a sequência genética?
— Não pode — diz ele, imitando minha voz e rindo.
Não consigo evitar e rio também. Às vezes eu me levo um tanto a sério demais.
Ele pega uma camada de espuma do café com a colher e leva à boca.
— Você diz que são apenas palavras no papel, mas precisa admitir que todas aquelas pessoas estão sentindo alguma coisa.
Confirmo com a cabeça.
— Alguma coisa temporária e nem um pouco mensurável. As pessoas simplesmente querem acreditar. Caso contrário precisariam admitir que a vida não passa de uma série aleatória de coisas boas e ruins que se sucedem até o dia em que a gente morre.
— E você se sente bem acreditando que a vida não tem sentido?
— Que opção eu tenho? A vida é assim.
Outra colherada de espuma e mais riso da parte dele.
— Então para você não existe destino, nada de “feitos um para o outro”?
— Não sou completamente palerma — digo, definitivamente me divertindo mais do que deveria.
Ele afrouxa a gravata e recosta na cadeira, fazendo com que ela fique apenas com os pés traseiros no chão. Uma mecha de cabelo escapa do rabo de cavalo e eu observo enquanto ele a enfia atrás da orelha. Em vez de afastá-lo, meu niilismo só está deixando que ele fique mais confortável.
— Acho que nunca encontrei uma pessoa tão encantadoramente iludida. — Ele diz isso como se eu fosse um objeto curioso.
— E acha isso atraente?
— Acho interessante.
Olho o ambiente ao redor. De algum modo o café se encheu sem que eu notasse. Pessoas fazem fila junto ao balcão, esperando os pedidos. Os alto-falantes estão tocando “Yellow Ledbetter”, do Pearl Jam — outra das minhas bandas grunge prediletas dos anos 1990. Não consigo evitar. Preciso fechar os olhos e ouvir Eddie Vedder murmurando o refrão.
Quando os abro, Daniel está me encarando. Ele se inclina para a frente de modo que a cadeira está agora de novo apoiada nos quatro pés.
— E se eu dissesse que poderia fazer com que você se apaixonasse por mim cientificamente?
— Eu acharia ridículo — respondo. — E muito.


multiversos
Uma história quântica

UMA SOLUÇÃO POSSÍVEL para o paradoxo do avô é a teoria dos multiversos, apresentada originalmente por Hugh Everett. Segundo a teoria dos multiversos, cada versão da história do nosso passado e do nosso futuro existe, só que num universo alternativo.
Para cada evento no nível quântico, o universo atual se divide em múltiplos universos. Isso significa que, para cada escolha que a gente faz, existe um número infinito de universos em que você fez uma escolha diferente.
A teoria resolve muito bem o paradoxo do avô propondo universos separados em que cada resultado possível existe, evitando assim o paradoxo.
Desse modo nós vivemos vidas múltiplas.
Por exemplo, existe um universo em que Samuel Kingsley não estraga a vida da filha. Um universo onde ele a estraga mas Natasha consegue consertá-la. Um universo onde ele a estraga e ela não consegue consertá-la. Natasha não sabe direito em que universo está vivendo agora.

2 comentários:

  1. "Puta que o pariu. Em geral os malucos estão no trem, e não dirigindo o trem."
    Não sei por que isso me fez rir.... xD

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Boa leitura, E SEM SPOILER!