1 de março de 2019

parte cinco

natasha

NÃO VOU DEIXAR QUE ESSA COISA com o Daniel me impeça de ir ao museu. É uma das minhas áreas prediletas da cidade. Os prédios aqui não são tão altos como em Midtown. É bom poder ver trechos ininterruptos do céu.
Dez minutos depois estou no museu, na minha seção preferida: a Sala dos Meteoritos. A maioria das pessoas passa direto por esta sala e se encaminha à sala que fica ao lado, a sala de gemologia, com suas espalhafatosas pedras preciosas e semipreciosas. Mas eu gosto mais desta. Gosto de como ela é escura, fresca e quase vazia. Gosto porque quase nunca há gente aqui.
Por toda a sala, vitrines verticais com refletores reluzentes mostram pequenas seções de meteoritos. As vitrines têm nomes como Joias do Espaço, Construindo Planetas e Origens do Sistema Solar.
Vou direto ao meu meteorito predileto: o Ahnighito. Na verdade, é só um fragmento do meteoro Cape York, muito maior. O Ahnighito é composto de 34 toneladas de ferro e é o maior meteorito em exposição em um museu. Vou até a plataforma onde ele está e passo as mãos nele. A superfície é fria, metálica e salpicada com marcas de milhares de impactos minúsculos. Fecho os olhos, deixo os dedos entrarem e saírem dos furos. É difícil acreditar que este pedaço de ferro veio do espaço. É mais difícil ainda acreditar que contém as origens do sistema solar. Esta sala é minha igreja, e nesta plataforma está meu pilar. Tocar esta pedra é o mais perto que já cheguei de acreditar em Deus.
É aqui que eu teria trazido Daniel. Teria dito para ele escrever poemas sobre rochas espaciais e crateras de impacto. O número de ações e reações necessárias para formar nosso sistema solar, nossa galáxia, nosso Universo, é espantoso. O número de coisas que tiveram que dar — absolutamente — certo é avassalador.
Comparado com o quê? Apaixonar-se? Uma série de pequenas coincidências que dizemos significar tudo porque queremos acreditar que nossa vida minúscula importa em escala galáctica. Mas apaixonar-se não se compara à formação do Universo.
Nem de longe.


daniel

“Simetrias”
Poema de Daniel Jae Ho Bae
Vou
ficar do meu
lado. E você
ficará de
outro


natasha

MEU PAI E EU JÁ FOMOS PRÓXIMOS. Na Jamaica, e mesmo depois de nos mudarmos para cá, éramos inseparáveis. Na maioria das vezes parecia que éramos eu e meu pai — os Sonhadores — contra minha mãe e meu irmão — os Não Sonhadores.
Nós assistíamos juntos a jogos de críquete. Eu era sua plateia quando ele ensaiava os textos para os testes. Dizia que, quando finalmente fosse um ator famoso na Broadway, iria conseguir para mim os melhores papéis de menininhas. Eu ouvia suas histórias de como seria a vida depois de ele ficar famoso. Ouvia por muito tempo depois de mamãe e meu irmão terem parado de escutar.
As coisas começaram a mudar há uns quatro anos, quando eu estava com 13. Minha mãe ficou farta de morar num apartamento de um quarto. Todas as suas amigas na Jamaica moravam em casas próprias. Ficou farta de meu pai trabalhar no mesmo emprego em troca basicamente do mesmo salário. Ficou farta de ouvir o que aconteceria quando a vez dele chegasse. Mas nunca dizia nada a ele, só a mim.
Vocês, crianças, estão grandes demais para dormir na sala. Precisam de privacidade. Nunca vou ter uma cozinha de verdade com uma geladeira de verdade. É hora de ele acabar com essa bobagem.
E então ele perdeu o emprego. Não sei se foi demitido ou se a empresa precisou dispensá-lo. Uma vez minha mãe disse que achava que ele tinha pedido para sair, mas não podia provar.
No dia em que isso aconteceu, ele declarou:
— Talvez seja uma bênção disfarçada. Vai me dar mais tempo para correr atrás do trabalho no teatro.
Não sei exatamente com quem ele estava falando naquela hora, mas a verdade é que ninguém respondeu.
Agora que não estava trabalhando, ele disse que iria fazer testes para diversos papéis. Mas quase nunca fazia. Sempre havia uma desculpa:
O papel não é para mim.
Eles não vão gostar do meu sotaque, cara!
Estou ficando velho demais. Representar é jogo para os novos.
Quando minha mãe voltava do trabalho à tarde, meu pai dizia que estava tentando. Mas meu irmão e eu sabíamos que não era assim.
Ainda me lembro da primeira vez que o vi desaparecer numa peça. Peter e eu tínhamos chegado da escola. Sabíamos que alguma coisa estranha estava acontecendo porque a porta da frente estava aberta. Nosso pai estava na sala — o nosso quarto. Não sei se ouviu a gente chegar, mas não reagiu. Estava segurando um livro. Mais tarde percebi que era uma peça: O sol tornará a brilhar.
Estava usando camisa branca de botões, calça social e recitando as falas. Não sei direito por que estava segurando a peça, porque já havia decorado. Ainda me lembro de partes do monólogo. O personagem dizia alguma coisa sobre ver o futuro que se estendia à sua frente e como ele — o futuro — era apenas um enorme espaço vazio.
Quando finalmente notou que estávamos olhando, meu pai deu uma bronca por chegarmos de fininho. A princípio achei que ele estava sem graça. Ninguém gosta de ser apanhado desprevenido. Porém mais tarde percebi que era mais do que isso. Ele estava com vergonha, como se o tivéssemos flagrado trapaceando ou roubando.
Depois disso, deixamos de fazer coisas juntos. Ele parou de assistir aos jogos de críquete. Recusava todas as minhas ofertas de ajudar a decorar texto. No quarto de casal, seu lado ficou mais atulhado de livros de bolso usados e amarelados com textos de peças famosas. Ele sabia todos os papéis; não somente os principais, mas os pequenos também.
Com o tempo, parou de fingir que ia fazer testes ou procurar emprego. Minha mãe desistiu de fingir que algum dia teríamos uma casa ou mesmo que encontraríamos um apartamento com mais de um quarto. Pegou turnos extras no trabalho para pagar as despesas. No verão passado, arranjei um trabalho no McDonald’s, em vez de ser voluntária no Hospital Metodista de Nova York, como costumava fazer.
A coisa está assim há mais de três anos. Chegamos da escola e o encontramos trancado no quarto, passando texto sozinho. Seus papéis prediletos são os longos monólogos dramáticos. Ele é Macbeth e Walter Lee Younger. Reclama com amargura da falta de talento desse ou daquele ator. Cobre de elogios os que considera bons.
Há dois meses, não por mérito seu, conseguiu um papel. Alguém que ele conheceu anos antes num teste estava montando uma produção de O sol tornará a brilhar. Quando ele contou à minha mãe, a primeira coisa que ela perguntou foi:
— Quanto vão pagar?
Não disse Parabéns. Não disse Estou orgulhosa de você. Não disse Que papel? ou Quando vai ser? ou Você está empolgado?. Somente: Quanto vão pagar?
Ela o encarou com olhos desanimados ao dizer isso. Olhos que não demonstravam estar impressionados com a notícia. Olhos cansados que tinham acabado de trabalhar dois turnos seguidos.
Acho que todos ficamos meio em choque. E minha mãe chocou a si mesma. É, ela vinha se frustrando com ele havia anos, mas esse momento mostrou a todos nós quão separados os dois estavam de fato. Até Peter, que fica do lado da minha mãe em todas as coisas, se encolheu um pouco.
Mas não podíamos culpá-la. De forma nenhuma. Meu pai vinha desperdiçando a vida em sonhos havia anos. Vivia naquelas peças e não no mundo real. Ainda vive. Minha mãe não tinha mais tempo para sonhar.
Nem eu.


samuel kingsley
Uma história de arrependimento — Parte 3

PARA SER HONESTO, ele tem um pouco de medo de Natasha. As coisas pelas quais ela se interessa agora, química, física e matemática... De onde veio isso?
Às vezes, quando a observa fazendo o dever de casa à mesa da cozinha, acha que ela é filha de outra pessoa. O mundo de Natasha é maior do que ele e as coisas pelas quais ele a ensinou a se interessar. Ele não sabe quando ela o ultrapassou.
Certa noite, depois que ela e Peter já estavam na cama, ele foi à cozinha pegar água. Ela havia deixado o livro de matemática e o dever de casa sobre a mesa. Samuel não sabe o que o dominou, mas acendeu a luz, sentou-se e folheou o livro. Pareciam hieróglifos, como uma língua antiga e um povo que ele jamais teria esperança de entender. Isso o encheu de uma espécie de pavor. Ficou sentado por um longo tempo, passando os dedos sobre os símbolos, desejando que sua pele fosse suficientemente porosa para absorver todo o conhecimento e toda a história do mundo.
Depois daquela noite, sempre que olhava para a filha, tinha a vaga sensação de que alguém entrara em casa quando ele não prestava atenção e levara sua doce menininha para longe.
Mas às vezes ainda tem vislumbres da antiga Natasha. Ela o olha como fazia quando era mais nova. É um olhar que quer alguma coisa dele. Um olhar que quer que ele seja mais, faça mais e ame mais. Ele se ressente disso. Às vezes se ressente dela. Já não fez o bastante? Ela é sua primeira filha. Ele já abriu mão de todos os sonhos por ela.


daniel

NÃO SEI O QUE FAZER DE MIM. Deveria estar voando com o vento, mas não há mais vento. Quero arranjar uma roupa de mendigo, um pedaço de papelão e escrever nele: E agora, Universo? Mas este seria um bom momento para admitir que o Universo não está prestando atenção.
É justo dizer que odeio tudo e todos.
O Universo é um escroto, igual ao Charlie.
Charlie.
Aquele merda.
Charlie, que disse à minha futura namorada que não tínhamos chance.
Charlie, que a acusou de ser ladra de loja. Charlie, que disse a ela que meu pau era pequeno. Charlie, em quem eu quero dar um soco na cara há onze anos.
Talvez este seja o vento. Meu ódio por Charlie.
Não há momento melhor do que o presente.
Hoje não tenho nada a perder.


natasha

A SECRETÁRIA ESTÁ UM POUQUINHO mais amarrotada quando a vejo desta vez. Uma mecha do cabelo está fora do lugar e cai sobre os olhos. Os olhos brilham embaixo das luzes fluorescentes e o batom vermelho-vivo sumiu. Ela parece ter sido beijada.
Olho o celular para garantir que não estou nem adiantada nem atrasada, e estou na hora certa.
— Bem-vinda de volta, Srta. Kingsley. Me acompanhe, por favor.
Ela se levanta e começa a andar.
— Jeremy... quero dizer, o Sr. Fitz... quero dizer, o advogado Fitzgerald está aqui.
Ela bate baixinho à porta e espera, os olhos ainda mais brilhantes do que antes.
A porta se abre.
É como se eu não estivesse ali, porque o advogado Fitzgerald não me vê. Fita sua assistente de um modo que me dá vontade de pedir desculpas por me intrometer. Ela está olhando para ele do mesmo modo.
Pigarreio muito alto.
Finalmente ele desvia o olhar.
— Obrigado, Srta. Winter — diz, e parece que está declarando seu amor.
Acompanho-o. Ele se senta atrás da mesa e aperta as têmporas com os dedos. Está com um pequeno curativo logo acima da sobrancelha e outro em volta do pulso. Parece uma versão mais velha e mais atormentada da imagem em seu site. As únicas coisas iguais são que ele é branco e que seus olhos são de um verde intenso.
— Sente-se sente-se sente-se sente-se — diz ele, num fôlego só. — Desculpe o atraso. Tive um pequeno acidente hoje cedo, mas agora não temos muito tempo, de modo que, por favor, diga como tudo isso aconteceu.
Não sei direito por onde começar. Será que devo contar toda a história a esse advogado? O que devo incluir? Sinto que preciso voltar no tempo e explicar tudo. Será que devo contar sobre os sonhos abortados do meu pai? Será que devo dizer que acho que os sonhos nunca morrem, nem quando estão mortos? Será que devo dizer que meu pai tem uma vida melhor dentro da cabeça? Nessa vida ele é famoso e respeitado. Seus filhos o admiram. Sua mulher usa diamantes e é invejada por homens e mulheres.
Eu também gostaria de viver nesse mundo.
Não sei por onde começar, por isso começo pela noite que arruinou nossa vida.


natasha kingsley
A história de uma filha

O TEATRO ERA AINDA MENOR do que Peter e eu esperávamos. A placa dizia: CAPACIDADE MÁXIMA: 40 PESSOAS. Os ingressos custavam 15 dólares e a bilheteria pagaria o aluguel do espaço por duas horas numa noite de quarta-feira.
Os atores não recebiam ingressos para oferecer a amigos e parentes, de modo que ele precisou comprar três para que fôssemos.
Meu pai adora rituais e cerimônias, mas tem poucas coisas com as quais ser ritualista ou cerimonioso. Agora tinha essa peça e esses ingressos. Não podia se conter. Primeiro saiu e comprou comida chinesa para viagem: frango, camarão e arroz frito do General Tso para todo mundo. Fez com que todos nos sentássemos em volta da mesinha da cozinha. Nunca comemos à mesa porque ela fica atulhada com mais de duas pessoas ao redor.
Mas naquela noite ele insistiu que comêssemos juntos, como uma família. Até serviu a gente, coisa que nunca havia acontecido. Para minha mãe, disse:
— Está vendo? Peguei pratos descartáveis para que você não precise lavar um monte de pratos mais tarde.
Falou com perfeito sotaque americano.
Minha mãe não respondeu. Deveríamos ter considerado isso um sinal.
Assim que acabamos de comer, ele se levantou e segurou um envelope branco no ar, como se fosse um troféu.
— Vejamos o que temos para sobremesa.
Ele fez contato visual com cada um de nós. Olhei enquanto minha mãe afastava os olhos antes que ele se virasse para Peter e depois para mim.
— Minha família. Por favor, me deem a grande honra de me assistir fazendo o papel de Walter Lee Younger na produção da Village Troupe de O sol tornará a brilhar.
Então abriu o envelope devagar, como se estivesse no Oscar anunciando a categoria de melhor ator. Pegou os ingressos e entregou a cada um de nós. Parecia muito orgulhoso. Mais do que isso, parecia presente demais. Durante alguns minutos não estava perdido dentro da própria cabeça, ou numa peça, ou em alguma fantasia de sonho. Estava ali com a gente e não desejava estar em outro local. Eu tinha esquecido como era isso. Ele tinha um olhar que fazia com que a pessoa se sentisse vista.
Houve um tempo em que meu pai me achava o máximo, e eu senti falta disso naquela hora. Porém era mais do que isso. Senti falta dos dias em que eu o achava o máximo e ele não poderia fazer nada errado. Acreditava que tudo que era necessário para deixá-lo feliz éramos nós, sua família. Há fotos minhas quando tinha 3 anos, usando uma camiseta onde estava escrito MEU PAI É UM GATO. Nela havia um pai gato e uma filha gatinha de mãos dadas, cercados por novelos de lã que formavam um coração.
Gostaria de ainda me sentir daquele jeito. Crescer e ver os defeitos dos pais é como perder a fé. Não acredito mais em Deus. Também não acredito no meu pai.
Minha mãe fez um muxoxo quando ele lhe entregou seu ingresso. Era o mesmo que dar um tapa nele.
— Você e suas bobagens — disse, e se levantou. — Pode ficar com seu ingresso. Não vou a lugar nenhum.
E saiu da cozinha. Ouvimos enquanto ela dava os vinte passos até o banheiro e batia a porta com toda a força.
Ninguém sabia o que dizer. Peter afundou na cadeira e baixou a cabeça, de modo que não dava para ver o seu rosto embaixo dos dreadlocks. Eu simplesmente fiquei olhando para o espaço onde ela estivera. Os olhos do meu pai desapareceram atrás de seu véu de sonho. Em sua típica negação da realidade, ele declarou:
— Não se preocupem com sua mãe. Ela não falou a sério, cara!
Mas falou. E não foi com a gente. Nem Peter conseguiu convencê-la. Ela disse que o preço do ingresso era um desperdício de seu dinheiro ganhado com tanto esforço.
Na noite da peça, Peter e eu pegamos o metrô sozinhos até o teatro. Meu pai foi antes, para se preparar. Nós nos sentamos na primeira fila e não falamos do lugar vazio ao lado.
Agora eu queria ser capaz de dizer que ele não era bom. Que seu talento era medíocre. A mediocridade explicaria todos os anos de rejeição. Explicaria por que ele desistiu e se retirou da vida para dentro de sua mente. E não sei se posso ver meu pai claramente. Talvez ainda o esteja vendo com os olhos antigos, de culto ao herói, mas o que vi foi o seguinte:
Ele era excelente.
Era transcendente.
Ele pertencia àquele palco mais do que jamais pertenceu a nós.


daniel

Adolescente tem certeza de que o dia não pode piorar. Está errado.
Meu pai está com uma cliente quando entro. Seus olhos me dizem que terá muitas coisas para me falar mais tarde.
É melhor eu lhe dar mais assuntos.
Já passou a agitação da hora do almoço, por isso a loja está bem vazia. Só há mais uma cliente: uma mulher querendo um secador de cabelo.
Não vejo Charlie limpando nem abastecendo nenhuma prateleira, então acho que deve estar embromando lá atrás, no estoque.
Nem estou nervoso. Não ligo a mínima se ele arrebentar minha cara, desde que eu diga primeiro o que tenho a dizer. Largo o paletó do lado de fora do estoque e viro a maçaneta, mas a porta está trancada. Não há motivo para ela estar trancada com ele dentro. Provavelmente está tocando uma lá dentro.
Ele abre a porta antes que eu possa bater. Em vez do ar de desprezo de sempre, seu rosto é uma mistura de cansaço e defensiva. Deve ter pensado que era meu pai tentando entrar.
Assim que vê que sou apenas eu, seu rosto reassume o risinho superior e cretino de costume. Exagera olhando por cima do meu ombro e em volta de mim.
— Cadê sua namorada? — Ele diz namorada como se fosse uma piada, como você diria uma palavra tipo meleca.
Fico parado olhando tentando descobrir não como somos parentes, mas por quê. Ele passa trombando de propósito no meu ombro.
— Ela já largou você? — pergunta depois de olhar rapidamente por dois corredores, para verificar se ela não está mesmo ali.
Seu riso de comedor de merda está firme no lugar.
Está me jogando a isca, eu sei. Sei e permito. Estou deixando o anzol me furar como se eu fosse um peixe idiota, fisgado um bilhão de vezes, que ainda não descobriu que os anzóis são inimigos.
— Vai se foder, Charlie.
Isso o pega desprevenido. Ele para de sorrir e me dá uma boa olhada. Estou sem o paletó e a gravata. A camisa está fora da calça. Não pareço alguém que vai ter a Entrevista Mais Importante da Vida em duas horas. Pareço alguém que quer brigar.
Ele se estufa como um baiacu. Sempre foi muito orgulhoso dos dois anos e dos cinco centímetros que tem a mais do que eu. Aqui atrás estamos só eu e ele, e isso o deixa ousado.
— Por que você está aqui, irmãozinho? — pergunta ele, chegando mais perto e encostando seus pés nos meus e trazendo o rosto mais para perto do meu.
Ele espera que eu recue.
Não recuo.
— Vim fazer uma pergunta.
Ele recua o rosto só um pouco.
— Claro, eu treparia com ela — diz. — Foi isso que aconteceu? Ela me quer, em vez de você?
O negócio de ser um peixe fisgado é que, quanto mais você tenta se livrar, mais preso fica. O anzol simplesmente se enterra mais fundo e você sangra mais um pouco. Não consegue se soltar. Só consegue fazer com que ele prenda mais.
Dizendo de outro modo: o anzol precisa atravessar você e vai doer pra caralho.
— Por que você é assim? — pergunto.
Se eu o surpreendi, ele não demonstra. Só continua com a porcaria de sempre.
— Assim, como? Maior, mais forte, mais inteligente, melhor?
— Não. Por que você é escroto comigo? O que eu fiz pra você?
Dessa vez ele não consegue esconder a surpresa. Sai do meu espaço, até dá um passo atrás.
— E daí? Foi por isso que você veio? Para choramingar porque sou mau com você? — Ele me olha de cima a baixo de novo. — Você está com uma aparência de merda. Não precisa tentar entrar na Segunda Melhor Faculdade hoje?
— Não estou nem aí para isso. Nem quero entrar. — Digo isso baixinho, mas mesmo assim a sensação é boa.
— Fale alto, irmãozinho. Não escutei você.
— Não quero entrar — digo mais alto, antes de perceber que meu pai saiu de sua posição junto à caixa registradora e agora está perto o suficiente para me ouvir.
Ele começa a dizer alguma coisa, mas então a sineta da porta toca. Ele gira e se afasta.
Eu me viro de novo para Charlie.
— Tento deduzir há anos. Talvez eu tenha feito alguma coisa a você quando éramos mais novos, mas não lembro.
Ele funga.
— O que você poderia ter feito comigo? Você é patético demais.
— Então você é simplesmente um escroto? Você nasceu assim?
— Sou mais forte. E mais inteligente. E melhor do que você.
— Se é tão inteligente, o que está fazendo aqui, Charlie? É uma síndrome de peixe grande em lago pequeno? Lá em Harvard você era só um peixinho que cabia num tubo de lavagem intestinal?
Ele fecha os punhos.
— Olha como fala.
Minha suposição é boa. Mais do que boa.
— Estou certo, não é? Lá você não é o melhor. Por acaso você também não é o melhor aqui. Qual é a sensação de ser o Segundo Melhor Filho?
Agora sou eu que seguro o anzol. Seu rosto está vermelho e ele está se estufando de novo. Quase encosta na minha cara. Se ele trincar mais o maxilar, vai quebrá-lo.
— Quer saber por que não gosto de você? Porque você é igual a eles. — Ele aponta o queixo na direção do meu pai. — Você, sua comida coreana, seus amigos coreanos e a escola coreana. É patético. Você não saca, irmãozinho? Você é igual a todo mundo.
Espera. O quê?
— Você me odeia porque eu tenho amigos coreanos?
— Você é todo coreano. Nós nem somos da porcaria daquele país.
E então eu entendo. Entendo de verdade. Tem dias em que é difícil estar nos Estados Unidos. Tem dias em que parece que estou na metade do caminho para a Lua, preso entre ela e a Terra.
Perco a vontade de brigar. Agora só sinto pena dele, e essa é exatamente a pior coisa que posso fazer com ele. Ele vê a pena no meu rosto. Isso o enfurece.
Ele me agarra pelo colarinho.
— Foda-se. Acha que porque deixou o cabelo crescer e gosta de poesia alguém vai tratar você de modo diferente? Acha isso porque traz uma garota negra para cá? Ou será que eu devo chamá-la de afro-americana, ou talvez só...
Mas não deixo ele dizer a palavra. Achei que teria de me obrigar a isso, mas não preciso.
Dou-lhe um soco bem no meio da porra da cara.
Meu punho bate na área em volta do olho, de modo que os nós dos dedos acertam principalmente no osso. Dói mais em mim do que tinha o direito de doer, já que eu é que deveria estar batendo. Ele cambaleia para trás mas não cai, como as pessoas nos filmes.
Francamente, isso me decepciona. Mesmo assim, a expressão de seu rosto vale todos os ossos na mão que tenho certeza de que quebrei. Machuquei de verdade o cara. O que quero dizer é: causei dor física, como era minha intenção.
Queria que ele soubesse que eu, seu irmãozinho, posso bater, e não apenas apanhar. Agora ele sabe que posso machucá-lo e que estou farto de suas cretinices.
Mas não causo dano suficiente. Olho a expressão dele passar de dor para a surpresa e então para a fúria. Ele vem para cima de mim com todos os seus centímetros e quilos de músculos a mais.
Primeiro me dá um soco no estômago. Juro que parece que o punho dele atravessa a barriga e sai pela coluna vertebral. Eu me dobro e acho que talvez só vá ficar nessa posição, mas ele não aceita isso. Me puxa pelo colarinho. Tento bloquear o rosto com as mãos porque sei que é onde ele vai mirar, mas o soco no estômago me deixa lento.
Seu punho acerta o lado da minha boca. Meu lábio se parte por dentro, devido ao choque contra os dentes. E se parte por fora porque o desgraçado me acertou usando um gigantesco anel de alguma sociedade secreta. Isso vai deixar marca (possivelmente para sempre).
Ele continua segurando meu colarinho, pronto para dar outro soco, mas estou preparado. Bloqueio o rosto com as mãos e mando o joelho direto contra seu saco — com força, mas não o suficiente para impedir que ele gere futuros demoniozinhos.
Para vocês verem como sou legal.
Ele está caído no chão, apertando as joias da família que ele preferia que não fosse coreana, e eu estou segurando o queixo, tentando verificar se ainda tenho todos os dentes, quando meu pai chega perto de nós.
— Museun iriya? — pergunta ele.
O que pode ser traduzido mais ou menos como: “O QUE ESTÁ ACONTECENDO AQUI?”


natasha

AS PONTAS DOS DEDOS das duas mãos do advogado Fitzgerald estão unidas e ele tem os olhos fixos em mim. Ele se inclina ligeiramente na cadeira. Não consigo saber se está ouvindo ou se só quer parecer que ouve.
Quantas histórias iguais à minha escutou ao longo dos anos? Estou pasma por ele não me mandar ir direto ao ponto. Termino de contar tudo sobre a noite em questão.
Os atores agradecem três vezes. Agradeceriam uma quarta se a plateia não tivesse começado a sair.
Depois, Peter e eu ficamos sentados, esperando que nosso pai voltasse para nos pegar. Esperamos trinta minutos antes que ele aparecesse. E não creio que fosse porque sabia que estávamos esperando. Ele surgiu de repente, passando pela pesada cortina vermelha, e andou até o centro do palco. Ficou parado ali um minuto inteiro, só olhando o teatro vazio.
Não acredito em almas, mas a alma dele estava no rosto. Jamais vi meu pai feliz daquele jeito. Tenho certeza de que ele nunca mais se sentirá tão feliz de novo.
Peter quebrou o feitiço, pois eu não consegui me obrigar a fazer isso.
— Está pronto, pai? — gritou ele.
Meu pai nos olhou com uma expressão distante. Quando nos olha assim, não sei se é ele quem está ausente ou se somos nós.
Peter ficou desconfortável, como costuma ficar quando meu pai faz isso.
— Pai? Está pronto, cara?
Quando meu pai finalmente falou, não tinha nenhum traço de sotaque nem de dicção da Jamaica. Parecia um estranho.
— Vão na frente, crianças. Vejo vocês mais tarde.
Acelero o resto da história. Meu pai passa o resto da noite bebendo com seus novos amigos atores. Bebe demais. Indo para casa, bate com o carro numa viatura de polícia estacionada. Bêbado, conta ao policial toda a história da nossa vinda para os Estados Unidos. Imagino que fez um monólogo para uma plateia de uma pessoa. Conta ao policial que somos imigrantes ilegais e que os Estados Unidos nunca lhe deram uma chance justa. O policial o prende e liga para o departamento de imigração.
A testa do advogado Fitzgerald está franzida.
— Mas por que seu pai fez isso? — pergunta.
É uma coisa que eu gostaria de saber.


samuel kingsley
A história de um pai

PERSONAGENS
Patricia Kingsley, 43 anos
Samuel Kingsley, 45 anos

SEGUNDO ATO
CENA TRÊS
Quarto. Uma cama tamanho queen, com cabeceira, domina o espaço. Talvez uma ou duas fotos emolduradas. O chão no lado de Samuel está entulhado de livros. À direita, vemos a abertura para um corredor. A filha adolescente de Samuel e Patricia está ouvindo, mas Samuel e Patricia não sabem. Não está claro se se importariam caso soubessem.
PATRICIA: Que Deus tenha misericórdia de nós, Kingsley.
Ela está sentada na beira da cama. O rosto apoiado nas mãos. Sua fala sai abafada.
SAMUEL: Isso não quer dizer nada, cara. Vamos arranjar um bom advogado.
Samuel está de pé em seu lado do quarto. Está encolhido, com o rosto na sombra. Um refletor ilumina a folha de papel em sua mão esquerda.
PATRICIA: E como vamos pagar um advogado, Kingsley?
SAMUEL: Meu Deus, Patsy. Vamos dar um jeito, cara.
Patricia afasta o rosto das mãos e olha o marido como se o visse pela primeira vez.
PATRICIA: Você se lembra de como a gente se conheceu?
Samuel amassa devagar o papel. Continua a fazer isso durante toda a cena.
PATRICIA: Lembra, Kingsley? Um dia você entrou na loja, e a partir daí continuou voltando, dia após dia. Foi tão engraçado! Num dia você comprava uma coisa e no outro voltava para devolver, até me vencer pelo cansaço.
SAMUEL: Eu não estava cansando você, Patsy. Estava cantando você.
PATRICIA: Você se lembra de todas as promessas que me fez, Kingsley?
SAMUEL: Patsy...
PATRICIA: Você dizia que todos os meus sonhos iriam se realizar. Nós íamos ter filhos, dinheiro e uma casa grande. Você dizia que minha felicidade era mais importante do que a sua. Lembra, Kingsley?
Ela se levanta da cama e o refletor a acompanha.
SAMUEL: Patsy...
PATRICIA: Deixa eu dizer uma coisa. Não acreditei em você quando a gente começou. Mas depois de um tempo mudei de ideia. Você é um bom ator, Kingsley, porque me fez acreditar em todas as coisas bonitas que me disse.
Agora o papel na mão de Samuel está completamente amassado. O refletor se move para seu rosto e ele não está mais encolhido. Está com raiva.
SAMUEL: Sabe o que cansei de ouvir? Cansei de ouvir os seus sonhos. E os meus? Se não fossem você e as crianças, eu teria todas as coisas que desejo. Você reclama da casa, da cozinha e pede um quarto a mais. E eu? Não tenho nenhuma das coisas que quero. Não posso usar o talento que Deus me deu. Me arrependo do dia em que entrei naquela loja. Se não fossem você e as crianças, minha vida seria melhor. Eu estaria fazendo aquilo que Deus me pôs na Terra para fazer. Não quero mais ouvir sobre seus sonhos. Eles não são nada, comparados aos meus.


natasha

MAS NÃO CONTO ESSA PARTE ao advogado Fitzgerald... Não conto que nós, a mulher e os filhos do meu pai, somos o seu maior arrependimento, porque atrapalhamos a vida com a qual ele sonhou.
Em vez disso digo:
— Algumas semanas depois de ele ser preso, recebemos a intimação do Departamento de Segurança Interna.
Ele olha um dos formulários que preenchi para a secretária e pega um bloco de papel amarelo na gaveta da mesa.
— Então vocês foram à audiência. Levaram um advogado?
— Só meus pais foram. E não levaram advogado.
Minha mãe e eu conversamos muito sobre isso. Deveríamos contratar um advogado pelo qual não poderíamos pagar ou seria melhor ver o que aconteceria na audiência? Tínhamos lido na internet que não era preciso de verdade de um advogado na primeira vez. Até então, meu pai ainda insistia em que tudo se resolveria naturalmente, como por milagre. Não sei. Talvez nós quiséssemos acreditar que seria mesmo assim.
O advogado Fitzgerald balança a cabeça e anota alguma coisa em seu bloco.
— Então, na audiência, o juiz disse a eles que poderiam aceitar a Remoção Voluntária ou se candidatar ao Cancelamento da Remoção. — Ele olha meus formulários. — Seu irmão mais novo é cidadão americano?
— É — respondo, olhando enquanto ele anota isso também.
Peter nasceu praticamente nove meses depois de nos mudarmos para cá. Meus pais ainda estavam felizes um com o outro.
Naquela audiência meu pai não aceitou a Remoção Voluntária. À noite, mamãe e eu pesquisamos sobre o Cancelamento de Remoção. Para se qualificar, meu pai precisaria ter morado nos Estados Unidos por ao menos dez anos, ter demonstrado bom caráter moral e ser capaz de provar que ser deportado causaria dificuldades extremas para um cônjuge, um pai ou um filho que fosse cidadão americano. Achamos que a cidadania do Peter seria a salvação. Contratamos a advogada mais barata que pudemos encontrar e fomos à Audiência de Mérito armados com essa nova estratégia. Mas acontece que é muito difícil provar “dificuldades extremas”. Voltar à Jamaica não colocaria a vida de Peter em risco, e ninguém se incomoda com os danos psicológicos de desenraizar uma criança de seu lar, nem mesmo Peter.
— E na Audiência de Mérito o juiz negou o pedido e seu pai aceitou a Remoção Voluntária. — O advogado Fitzerald diz isso sem rodeios, como se o resultado fosse inevitável.
Confirmo com a cabeça, em vez de falar em voz alta. Não sei se vou conseguir falar sem chorar. Qualquer esperança que eu tivesse está indo embora. Cheguei a dizer que deveríamos apelar da decisão do juiz, mas a advogada nos aconselhou a não fazer isso. Falou que não tínhamos argumento e que estávamos sem opções. Sugeriu que fôssemos embora voluntariamente para não termos uma deportação na ficha. Assim teríamos esperança de voltar um dia.
Fitzgerald pousa a caneta e se recosta na cadeira.
— Por que você foi ao USCIS hoje? Isso nem é da jurisdição deles.
Preciso afastar as lágrimas presas nos meus olhos antes de responder.
— Eu não sabia mais aonde ir.
A verdade é que, apesar de não crer em milagres, eu esperava um.
Ele fica em silêncio por um longo tempo.
Por fim, não aguento mais.
— Tudo bem — digo. — Sei que não tenho opções. Nem sei por que vim aqui.
Faço menção de me levantar, mas ele sinaliza para eu ficar sentada. Junta as pontas dos dedos de novo e olha o escritório à sua volta. Acompanho seu olhar até as caixas encostadas na parede à direita. Atrás dele há uma escada dobrável encostada numa estante vazia.
— Acabamos de nos mudar para cá — diz ele. — O pessoal da reforma deveria ter terminado há semanas, mas você sabe o que dizem sobre os planos.
Ele sorri e toca o curativo na testa.
— O senhor está bem, Sr. Fitz...
— Estou — confirma ele, passando os dedos no curativo.
Ele pega uma foto emoldurada na mesa e a admira.
— Esta é a única coisa que desencaixotei até agora.
O advogado vira a foto para eu ver. É ele com a mulher e dois filhos.
Parecem felizes.
Dou um sorriso educado.
Ele a coloca de volta no lugar e me olha.
— A gente nunca fica sem opções, Srta. Kingsley.
Demoro um segundo para perceber que ele está falando de novo do meu caso. Inclino o corpo para a frente.
— Está dizendo que o senhor pode dar um jeito nisso?
— Sou um dos melhores advogados de imigração desta cidade.
— Mas como? — pergunto, apoiando as mãos na mesa e pressionando os dedos contra a madeira.
— Deixe eu falar com um juiz, meu amigo. Ele pode reverter a Remoção Voluntária, de modo que pelo menos vocês não precisem ir embora esta noite. Depois disso podemos fazer uma apelação ao Conselho de Apelação de Imigração.
Ele olha o relógio.
— Só me dê umas duas horas.
Abro a boca para pedir mais fatos e esclarecimentos. Acho essas coisas reconfortantes. O poema me volta à mente. “Esperança” é a coisa com penas.
Fecho a boca. Pela segunda vez hoje estou abrindo mão dos detalhes. Talvez não precise deles. Seria bom demais, por um tempinho, deixar outra pessoa assumir esse fardo.
“Esperança” é a coisa com penas. Sinto-a batendo asas no meu coração.


daniel

MEU PAI ME OLHA DA CABEÇA AOS PÉS e eu me sinto como o malandro de segunda classe que ele sempre me considerou. Para ele sempre vou ser o Segundo Filho, não importando o que Charlie faça. Devo parecer ainda pior agora do que quando entrei. O botão de cima da camisa, onde Charlie me agarrou, foi arrancado. Há até uma mancha de sangue nela, do lábio partido. Estou suado e meu cabelo está grudado na bochecha. Material de alta classe para Yale, bem aqui.
Ele me dá uma ordem:
— Pegue gelo para o lábio e volte para cá.
O próximo é Charlie.
— Você bateu no seu irmão mais novo? Foi isso que aprendeu nos Estados Unidos? A bater na sua família?
Quase quero ficar e ouvir isso, mas meu lábio gordo está ficando mais gordo ainda. Vou para a sala dos fundos, pego uma lata de Coca e encosto no lábio.
Nunca gostei dessa sala. É pequena demais e está sempre abarrotada de caixas meio abertas. Não há cadeiras, por isso me sento no chão e encosto na porta, para que ninguém possa entrar. Preciso de cinco minutos antes de enfrentar a vida de novo.
Meu lábio lateja no ritmo do coração. Imagino se vou precisar de pontos.
Aperto mais a lata e espero sentir (ou não sentir) o entorpecimento.
É isso que ganho por deixar que o Destino me guie — espancado, sem namorada e sem futuro. Por que adiei a entrevista? Pior. Por que deixei Natasha ir embora?
Talvez ela estivesse certa. Só estou procurando alguém para me salvar. Estou procurando alguém para me tirar dos trilhos em que minha vida está porque não sei como fazer isso sozinho. Estou querendo ser dominado pelo amor, pelo feitos um para o outro e pelo destino, de modo que as decisões sobre meu futuro estejam fora das minhas mãos. Não serei eu a desafiar meus pais. Será o Destino.
A lata de Coca funciona. Não consigo mais sentir o lábio. Que bom que Natasha não está aqui, porque meus dias de beijar acabaram, pelo menos por hoje. E com ela não existe amanhã.
Não que ela fosse me deixar beijá-la outra vez.
Do outro lado da porta meu pai ordena que eu saia. Recoloco a lata na geladeira e enfio a camisa para dentro da calça.
Abro a porta e o encontro parado, sozinho. Ele se inclina para perto de mim.
— Tenho uma pergunta — diz. — Por que você acha que importa o que você quer?
Pelo modo como ele pergunta, é como se estivesse genuinamente confuso com a emoção. Que negócio é esse de desejo e de querer, de que você fala? Ele está confuso com o significado.
— Quem se importa com o que você quer? Só importa o que é bom para você. Sua mãe e eu só nos importamos com o que é bom para você. Você vai para faculdade, vira médico, tem sucesso. Aí nunca precisa trabalhar numa loja assim. Aí tem dinheiro e respeito e então todas as coisas que você quer vão chegar. Você encontra uma garota boa, tem filhos e tem o Sonho Americano. Por que jogar fora o futuro por causa de coisas temporárias que você só quer agora?
É a maior quantidade de coisas que meu pai já me disse de uma só vez. Ele nem está com raiva ao dizer. Fala como se estivesse tentando me ensinar uma coisa básica. Um mais um é igual a dois, filho.
Desde que ele comprou as tintas a óleo para omma eu quero ter uma conversa assim com meu pai. Quero saber por que ele quer as coisas que quer para nós. Por que isso é tão importante para ele. Quero perguntar se ele acha que a vida de omma seria melhor se ela continuasse pintando. Quero saber se ele ficou triste porque ela desistiu disso por ele e por nós.
Talvez este momento entre meu pai e eu seja o significado do dia de hoje.
Talvez eu possa começar a entendê-lo. Talvez ele possa começar a me entender.
— Appa — começo, mas ele levanta a mão para me calar e a mantém ali.
Ele olha para mim, através de mim e para além de mim, para um outro tempo.
— Não. Deixa eu terminar. Talvez eu deixei a coisa fácil demais para vocês. Talvez seja minha culpa. Vocês não conhecem sua história. Não sabem o que pobreza pode fazer. Não conto porque acho que é melhor assim. Melhor não saber. Talvez esteja errado.
Estou muito perto. Estou à beira de conhecê-lo. Estamos à beira de nos conhecermos. Vou contar a ele que não quero as coisas que ele quer para mim. Vou dizer que vou ficar bem de qualquer modo.
— Appa — começo de novo, mas outra vez a mão dele atravessa o ar.
De novo sou silenciado. Ele sabe o que vou falar e não quer escutar.
Meu pai é moldado pela lembrança de coisas que nunca vou conhecer.
— Chega. Se não vai para Yale virar médico, arranja um emprego e paga sua faculdade.
Ele volta para a frente da loja.
Devo admitir que há algo revigorante em ter tudo exposto para mim dessa forma. Com Futuro ou sem Futuro.
O paletó do meu terno ainda está amarrotado perto da porta. Pego-o e visto. A lapela quase cobre a mancha de sangue.
Olho em volta procurando Charlie, mas ele não está em lugar nenhum.
Vou até a porta. Meu pai está atrás da caixa registradora, olhando para o nada. Estou prestes a sair quando ele fala a última coisa, a coisa que estava esperando para dizer:
— Vi como você olha aquela garota. Mas isso não pode ser, nunca.
— Acho que o senhor está errado.
— Não importa o que você acha. Faz a coisa certa.
Fazemos contato visual e mantemos os olhos um no outro. É a manutenção do contato visual que diz que ele não sabe o que vou fazer.
Nem eu.


dae Hyun bae
A história de um pai

DAE HYUN BAE ABRE E FECHA a caixa registradora. Abre e fecha de novo.
Talvez seja mesmo sua culpa os filhos serem como são. Ele não lhes contou nada sobre seu passado. Fez isso porque é um pai que ama ferozmente os filhos, e esse é seu modo de protegê-los. Pensa na pobreza como uma espécie de doença contagiosa e não quer que eles ouçam sobre isso, para não se contaminarem.
Abre a caixa registradora e coloca as notas grandes na bolsa para o depósito.
Charlie e Daniel acham que o dinheiro e a felicidade não se relacionam. Não sabem o que é a pobreza. Não sabem que a pobreza é uma faca afiada cortando a gente. Não sabem o que ela faz ao corpo. À mente.
Quando Dae Hyun tinha 13 anos e ainda morava na Coreia do Sul, seu pai começou a prepará-lo para assumir o pequeno negócio de pesca de caranguejo da família. O negócio mal rendia algum dinheiro. Cada temporada era uma luta pela sobrevivência. E a cada temporada eles sobreviviam, mas por pouco.
Durante a maior parte da infância, na mente de Dae Hyun nunca houve dúvida de que ele acabaria assumindo o negócio. Era o mais velho de três filhos. Esse era o seu lugar. Família é destino.
Ainda se lembra do dia em que provocou uma pequena rebelião em sua mente. Pela primeira vez seu pai o havia levado num barco de pesca. Dae Hyun odiou aquilo. Presos nos cestos de metal trançado e frio, os caranguejos formavam uma coluna furiosa de desespero se retorcendo. Arranhavam e lutavam, abrindo caminho uns por cima dos outros, tentando chegar ao topo e escapar.
Mesmo agora, a lembrança daquele primeiro dia surge em momentos inesperados. Dae Hyun deseja ser capaz de esquecer. Tinha imaginado que vir para os Estados Unidos apagaria isso. Mas a lembrança sempre volta. Aqueles caranguejos nunca desistiam. Lutavam até morrer. Fariam qualquer coisa para escapar.

2 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!