1 de março de 2019

epílogo

Irene: Uma história alternativa

FAZ DEZ ANOS, mas Irene jamais esqueceu o momento — nem a garota — que salvou sua vida. Na época, ela trabalhava como segurança no prédio do USCIS em Nova York. Um dos encarregados dos processos — Lester Barnes — foi até o posto dela. Disse que uma garota havia deixado um recado para Irene na caixa postal dele. A garota pediu que ele agradecesse a ela. Irene jamais soube o porquê do agradecimento, mas ele veio na hora certa. Irene tinha planejado cometer suicídio no fim do dia.
Escrevera o bilhete de suicídio na hora do almoço. Já tinha mapeado mentalmente o caminho até o topo do seu prédio.
E então aconteceu aquele agradecimento.
O fato de que alguém a enxergou foi o início de tudo.
Naquela noite escutou de novo o disco do Nirvana. Na voz de Kurt Cobain, Irene ouviu um sofrimento perfeito e lindo, uma voz tão esgarçada de solidão e carência que poderia se partir. Mas a voz dele não se partia, e existia nela também uma espécie de alegria.
Pensou naquela garota fazendo questão de ligar e deixar um recado só para ela. Isso mudou alguma coisa dentro de Irene. Não foi o suficiente para curá-la, mas bastou para fazê-la ligar para o número de prevenção ao suicídio. O telefonema levou à terapia. A terapia levou à medicação que salva sua vida diariamente.
Dois anos depois daquela noite Irene deixou o emprego no USCIS.
Lembrava-se de que, na infância, sonhava ser comissária de bordo. Agora sua vida é simples e feliz e ela vive nos aviões. E, por saber que o avião pode ser um lugar solitário e por ter a noção exata de como a solidão pode ser desesperadora, presta uma atenção extra aos passageiros. Cuida deles com uma seriedade que nenhum outro comissário tem. Conforta os que vão para casa sozinhos depois de enterros, com a tristeza fluindo através de cada poro. Segura a mão dos que têm acrofobia e agorafobia. Irene pensa em si mesma como um anjo da guarda com asas de metal.
E agora está fazendo as últimas verificações antes da decolagem, procurando passageiros que precisem de uma ajudinha adicional. O rapaz na 7A está escrevendo num caderninho de capa preta. É asiático, com cabelo preto curto e olhos gentis, mas sérios. Ele morde a caneta, pensa, escreve, depois morde mais um pouco. Irene admira a ausência de constrangimento do rapaz. Ele age como se estivesse sozinho no mundo.
Seu olhar continua viajando e chega à moça negra na 8C. Ela está usando fones de ouvido e tem um cabelo afro enorme e crespo, tingido de rosa nas pontas. Irene fica imóvel. Conhece aquele rosto. Aquela pele. Os cílios compridos. Os lábios cheios e rosados. A intensidade. Será a mesma garota? A que salvou sua vida? Aquela a quem ela quer agradecer há dez anos?
O comandante anuncia a decolagem e Irene é obrigada a se sentar. De seu assento dobrável observa a mulher até que não haja mais dúvida.
Assim que o avião alcança a altitude de cruzeiro, ela vai até a mulher e se ajoelha no corredor a seu lado.
— Moça — fala, e não consegue impedir o tremor na voz.
A mulher tira os fones de ouvido e lhe lança um sorriso hesitante.
— Isso vai parecer estranho — começa Irene.
Conta à mulher sobre aquele dia em Nova York: a caixa cinza, a capinha de celular do Nirvana, conta que ela a viu todos os dias.
A mulher a observa com cautela, sem dizer nada. Um certo ar de dor passa pelo rosto dela. Há alguma história ali.
Mesmo assim, Irene continua:
— Você salvou minha vida.
— Não estou entendendo — diz a mulher.
Ela tem sotaque. Caribenho misturado com outra coisa qualquer.
Irene segura a mão da mulher. A mulher fica tensa, mas aceita. Olhos curiosos observam as duas de todos os lados.
— Você deixou um recado me agradecendo. Nem sei por que estava agradecendo.
O rapaz da 7A olha por entre as poltronas. Irene vê e franze a testa. Ele se afasta. Ela volta a atenção para a mulher.
— Você se lembra de mim? — pergunta Irene.
De repente é muito importante que essa garota, agora mulher, se lembre. A pergunta sai de sua boca e ela se transforma na antiga Irene: sozinha e com medo. Afetada, mas incapaz de afetar.
O tempo soluça e Irene se sente rasgada entre dois universos. Imagina que o avião se desintegra; primeiro o piso, depois as poltronas e em seguida a estrutura metálica. Ela e os passageiros estão suspensos no ar sem nada para segurá-los a não ser a possibilidade. Em seguida, os próprios passageiros tremeluzem e se desmaterializam. Um a um, vão sumindo, fantasmas de uma história diferente.
Só restam Irene e essa mulher.
— Eu me lembro de você — afirma a mulher. — Meu nome é Natasha, e eu  e lembro de você.
O rapaz da 7A olha por cima da poltrona.
— Natasha — diz ele.
Seus olhos estão arregalados e seu mundo está cheio de amor.
Natasha levanta os olhos.
O tempo tropeça e volta ao lugar. O avião e os bancos se restabelecem. Os passageiros se solidificam em carne. E sangue. E osso. E coração.
— Daniel — diz ela. E de novo: — Daniel.

6 comentários:

  1. YESSS YESS!!!!!
    10 longos anos mas o que é o tempo para o amor verdadeiro? xDDDDDD

    Ainda assim fiquei triste que demorou tanto tempo :(

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  2. Insano , principalmente pelo final não ser cliche e se encaixar no contexto

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  3. Sinceramente esse foi um dos melhores livros que eu já li tanto pela escrita sincera quanto pela história...e que história é lá linda e romântica,mas acima de tudo... Real.

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  4. 😂😢😂😢 acho que estou ficando bipolar!!! Que felicidade!!! Dez anos depois ele se reencontram... mais vale tarde do que nunca. Ao menos se passaram apenas dez anos... rosie e alex levaram quase conquenta anos para saber que pertenciam um ao outro...😍😍😍❤❤❤
    Annna!!!

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  5. Eu sabia que ia terminar assim, com um reencontro improvável. Obrigada sociedade.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!