30 de março de 2019

Capítulo 9

Cadê vc? digitou Elena, com impaciência. Stefan devia encontrá-la em seu quarto de alojamento há mais de vinte minutos. A essa altura, o grupo de estudo dele já havia acabado. Ela estava faminta.
Ela andava pelo quarto, de vez em quando olhando para os galhos escuros da árvore do lado de fora. Não era típico de Stefan se atrasar.
Elena verificou o telefone. Era cedo demais para tentar falar com ele de novo.
Lá fora, algo escuro se mexeu e ela ofegou.
Depois meneou a cabeça. Eram só os galhos das árvores, agitando-se na brisa. Elena se aproximou mais, tentando enxergar através dos reflexos no vidro. Seu quarto ficava no terceiro andar; não haveria ninguém sentado ali, tão no alto. Pelo menos, ninguém humano. Elena deu de ombros.
— Elena — disse uma voz fria e clara vinda de fora.
Com o gritinho de um coelho assustado, Elena deu um pulo para trás, colocando a mão no coração aos saltos. Depois de um instante, foi até a janela e a abriu.
— Damon. Você quase me mata de susto. O que está fazendo aí?
Houve um clarão de dentes brancos nas sombras. Havia um tom zombeteiro na resposta:
— Esperando que me convide para entrar em seu quarto, é claro.
— Não precisa de convite. Você me ajudou na mudança.
— Eu sei — disse Damon, sorrindo. — Estou sendo cavalheiro.
Elena hesitou. Ela confiava em Damon, claro, mas isto parecia tão íntimo. Damon lá fora no escuro, Elena sozinha no quarto, nenhuma das amigas por ali. Ele tinha estado em seu quarto em casa, mas tia Judith e Robert estavam no mesmo corredor. Ela se perguntou se Stefan se importaria de ela ficar a sós com Damon ali, mas afugentou a ideia. Ele confiava em Elena, e era isso que importava.
— Elena — o tom de Damon era doce, mas insistente. — Deixe-me entrar antes que eu caia.
Revirando os olhos, ela falou:
— Você jamais cai. E se cair, vai voar. Mas pode entrar, mesmo assim.
Com um leve silvo, mais rápido do que o olho humano poderia acompanhar, Damon de repente estava ao lado dela. Elena teve de recuar um passo. Olhos e cabelos escuros como a noite, pele clara e luminosa, feições perfeitas. Ele até tinha um cheiro bom. Os lábios dele pareciam tão macios...
Elena se pegou inclinando-se para ele, os próprios lábios se abrindo, e se afastou.
— Pare com isto — disse ela.
— Não estou fazendo nada — afirmou Damon com inocência. Quando Elena lhe arqueou uma sobrancelha cética, ele deu de ombros e abriu um sorrisinho brilhante. Aí está, pensou Elena. É por isso que Stefan pode se importar com a presença de Damon aqui. — Ah, tudo bem. Só estou provocando você.
Ele olhou o quarto e arqueou uma sobrancelha.
— Ora essa, Elena. Estou quase decepcionado. Você e suas amigas estão se comportando como sempre.
Elena acompanhou o olhar dele. O lado de Bonnie do quarto era uma bagunça, uma confusão de bichos de pelúcia, roupas largadas e parafernália da Dalcrest. Já a área de Meredith era meticulosamente arrumada, livros organizados em ordem alfabética, uma única caneta de prata na mesa ao lado do laptop prateado, a cama bem-feita com uma colcha de seda em uma padronagem sutil de cinza e branco. A cômoda dela e o armário estavam fechados, mas, do lado de dentro, Elena sabia, as roupas de Meredith estariam organizadas por tipo, cor e estação. Damon tinha razão: só de olhar para onde cada uma ficava no quarto, podia-se dizer que Meredith era racional, sofisticada, cuidadosamente controlada e reservada, enquanto Bonnie era frívola, adorava se divertir e era desorganizada.
E quanto às coisas de Elena? O que diziam sobre ela? Ela examinou criticamente sua parte do quarto. Gravuras de arte emolduradas de suas exposições preferidas, escova e pente prateados na cômoda, lençóis azul-escuros que ela sabia que destacavam seus olhos e o cabelo. Alguém que valorizava o que gostava e não mudava com facilidade? Alguém muito consciente do que combinava com ela? Elena não tinha certeza.
Damon sorriu novamente, desta vez sem o traço de zombaria.
— Não pense mais nisso, princesa — disse com afeto. — Você é mais do que suas posses.
— Obrigada — respondeu Elena rispidamente. — Então, só passou na minha janela para dar um olá?
Ele estendeu a mão e colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha dela. Os dois estavam muito próximos, e Elena recuou um pouco.
— Agora que você é uma universitária, pensei que talvez pudéssemos sair à noite e nos divertir um pouco.
— Divertir? — Elena ainda estava distraída com a boca de Damon. — Que tipo de diversão?
— Ah, você sabe. Um jantarzinho, alguns drinques. Coisas de amigos. Nada ousado demais.
— Sei — disse Elena com firmeza. — Parece legal. Mas hoje não posso. Stefan e eu vamos jantar fora.
— Claro. — Damon assentiu de um jeito breve mas firme, e deu o que tão obviamente deveria ter sido um sorriso de apoio e ela precisou reprimir o riso. Apoio, amizade e timidez não eram expressões naturais no rosto de Damon.
Ele tentava ao máximo ser amigo, embora todos soubessem que havia mais que isso entre os dois. Desde que morreu e voltou, ele esteve tentando mudar sua relação com Stefan e com ela, Elena sabia disso. Ele estava se esforçando de uma forma como nunca fizera. Não podia ser fácil para o pobre Damon tentar ser bom. Ele não tinha prática.
O telefone de Elena tocou. Ela leu o texto de Stefan:
Desculpe. O grupo de estudo está atrasado. Acho que ainda vai levar pelo menos uma hora. A gente se vê depois?
— Problemas? — Damon a observava com o mesmo sorriso inocente e simpático, e o carinho por ele dominou Elena. Damon era amigo dela. Por que não podia sair com ele?
— Mudança de planos — disse ela, animada. — Vamos sair, mas só um pouquinho. Preciso voltar para encontrar Stefan daqui a uma hora. — Ela mandou uma mensagem rapidamente a Stefan falando que ia buscar comida, e viu surgir um sorriso triunfante no rosto de Damon enquanto ele estendia a mão para pegar o braço dela.

Bonnie andava pelo campus praticamente pulando no ritmo da música feliz em sua cabeça. Um encontro com Zander, lá  lá . Já não era sem tempo. Ela ficou a semana toda na expectativa de vê-lo de novo e, embora eles tivessem se falado por telefone, ela não deitara os olhos nele no campus, apesar de claramente ter procurado.
Pelo menos ia vê-lo. Lá  lá  lá. O lindo e adorável Zander.
Bonnie estava de jeans e uma espécie de blusa prateada e decotada que pelo menos dava a impressão de que podia ter seios fartos. Era uma boa roupa, pensou ela, discreta o bastante para sair, mas também meio especial. Porque eles podiam decidir ir a uma boate ou coisa assim no último minuto. Zander não disse a Bonnie o que pretendia fazer, só pediu para ela se encontrar com ele na frente do prédio de ciências. Lá  lá  lá, cantarolou Bonnie.
Os passos de Bonnie se reduziram e a música em sua cabeça morreu quando ela viu luzes bruxuleantes iluminando um grupo de pessoas à frente. Estavam reunidos no pátio na frente de um dos alojamentos.
Aproximando-se, ela percebeu que era um grupo de meninas segurando velas. A luz oscilante das chamas criava sombras nos rostos sérios. Encostadas na parede do alojamento havia três fotos ampliadas: duas meninas e um garoto. A grama na frente deles tinha flores amontoadas, cartas e ursinhos de pelúcia.
Hesitante e sem querer romper o silêncio, Bonnie tocou o braço de uma das meninas.
— O que está havendo? — cochichou ela.
— Estamos fazendo uma vigília pelos desaparecidos — cochichou a garota.
Desaparecidos? Bonnie avaliou os rostos nas fotos. Jovens sorridentes, mais ou menos da idade dela.
— São todos alunos daqui? — perguntou, apavorada. — O que aconteceu com eles?
— Ninguém sabe — disse a menina com o olhar sério. — Simplesmente sumiram. Não ouviu falar disso?
O estômago de Bonnie se revirou. Ela sabia que uma menina fora atacada — ou coisa assim — no pátio, na primeira noite, mas não soube de nenhum desaparecimento. Não admirava que outro dia seus instintos tivessem avisado para ter medo de andar pelo campus. Ela podia estar em perigo.
— Não — respondeu Bonnie devagar. — Não soube de nada. — Ela baixou os olhos e a cabeça, em silêncio, enquanto enviava uma oração fervorosa para que aqueles três rostos felizes fossem encontrados, e que estivessem seguros e bem.
Ao longe, uma sirene começou a soar.
— Aconteceu alguma coisa.
— Acha que alguém foi atacado?
Um tagarelar de vozes assustadas se elevou enquanto as sirenes se aproximavam. Uma menina perto de Bonnie começou a chorar, um som magoado e assustado.
— Muito bem, qual é o problema aqui? — perguntou uma voz nova e cheia de autoridade, e Bonnie viu dois seguranças do campus abrindo caminho pela multidão.
— Nós... Hummm... — A menina que falara com Bonnie gesticulou para as fotos e flores encostadas na parede. — Estamos fazendo uma vigília. Pelos desaparecidos.
— Por que essas sirenes? — perguntou outra menina, elevando a voz.
— Não há nada com que se preocupar — respondeu o segurança, mas seu rosto se abrandou ao ver a menina chorosa. Com um leve choque, Bonnie percebeu que ele não era muito mais velho que ela. — Senhorita? — disse ele à menina. — Vamos ajudá-la a ir para casa.
Seu parceiro olhou o grupo.
— Está na hora de terminar essas coisas e entrar — disse ele com severidade. —
Andem juntas e tenham cuidado.
— Pensei que tinha dito que não havia por que se preocupar — falou outra menina com raiva. — O que vocês não estão nos contando?
— Não há nada que vocês já não saibam — disse o homem com paciência. — Há desaparecidos. Todo cuidado é pouco.
Se não há motivo de preocupação, por que temos de ter cuidado?, perguntou-se Bonnie, mas engoliu as palavras e correu pelo caminho até o prédio de ciências, onde Zander sugerira que eles se encontrassem.
A ideia de tentar ter uma visão para talvez descobrir alguma coisa sobre os desaparecidos cutucou a mente de Bonnie, mas ela a afastou. Detestava isso. Detestava a perda de controle que sentia quando entrava em uma de suas visões.
De qualquer modo, era improvável que desse certo. Suas visões sempre foram de pessoas que ela conhecia, de problemas imediatos que eles enfrentavam. Ela não conhecia nenhum dos desaparecidos. Mordeu o lábio e acelerou o passo. A emoção relacionada ao encontro tinha passado, e ela agora não se sentia segura. Pelo menos, se conseguisse chegar até Zander, não estaria só.
Quando chegou ao prédio de ciências, porém, Zander não estava lá. Bonnie hesitou e olhou em volta, nervosa. Aquela parte do campus parecia mais deserta.
Ela tentou abrir a porta do prédio de ciências, mas estava trancada. É claro — não havia aulas a essa hora. Frustrada, Bonnie sacudiu a maçaneta. Colocou a mão na bolsa, depois percebeu que tinha deixado o telefone no quarto.
De repente, sentiu-se muito exposta. A polícia do campus disse para ficarem juntas, que ninguém andasse sozinho à noite, mas ali estava ela, completamente só. Uma brisa fria farfalhou seu cabelo e ela tremeu. Estava ficando pavorosamente escuro.
— Bonnie. Pssst, Bonnie!
A voz de Zander. Mas onde ele estava?
Bonnie não viu nada além do pátio às escuras, as luzes dos postes lançando pequenos círculos de luz no caminho. Acima dela, as folhas farfalhavam ao vento.
— Bonnie! Aqui em cima.
Levantando a cabeça, ela enfim localizou Zander no terraço, a espiando pela lateral, o cabelo claro quase brilhando ao luar.
— O que está fazendo aí em cima? — perguntou ela, confusa.
— Suba aqui — convidou Zander, apontando a escada de incêndio na lateral do prédio. Estava abaixada, a pouca distância do chão.
— Sério? — perguntou Bonnie em dúvida.
Ela se aproximou da escada de incêndio. Podia subir, tinha certeza, mas ia parecer desajeitada e inábil. E se fosse apanhada? Ela não leu todo o regulamento do campus, mas subir uma escada de incêndio até o terraço de um prédio fechado não contrariava as regras?
— Venha, Bonnie — chamou Zander. Os pés dele faziam barulho nos degraus de ferro. Ele desceu a escada de incêndio, balançando-a, e saltou no chão, pousando como um felino ao lado dela. Abaixou-se num joelho e uniu as mãos. — Eu faço escadinha para você poder alcançar.
Bonnie engoliu em seco, depois subiu nas mãos de Zander e se esticou para a escada. Depois de passar a perna no primeiro degrau, foi moleza, embora o metal levemente enferrujado fosse áspero em suas mãos. Ela parou um instante para agradecer a todos os poderes do universo por ter decidido usar jeans em vez de saia.
Zander a seguia pela escada de um patamar a outro, até que enfim chegaram ao terraço.
— Temos permissão de subir aqui? — perguntou Bonnie, nervosa.
— Bem — disse Zander, devagar —, provavelmente não. Mas eu subo aqui o tempo todo e ninguém me disse para não vir. — Ele abriu aquele sorriso quente e maravilhoso para ela e acrescentou: — Este é um dos meus lugares preferidos.
Era uma linda vista, Bonnie tinha de admitir. Abaixo deles, o campus se estendia, arborizado, verde e misterioso.
Se outro a tivesse levado ali em cima, porém, ela teria reclamado da escada enferrujada e do terraço de concreto, e sugerido que talvez um encontro envolvesse ir a algum lugar. Isto era um encontro, não era? Ela ficou paralisada por um momento de pânico, tentando se lembrar exatamente do que Zander dissera quando sugeriu que se encontrassem ali. Não se lembrava das palavras exatas, mas definitivamente tinham algo de encontro; ela não era mais criança, sabia quando alguém a convidava para sair.
E Zander era tão gracinha que valia o esforço.
— É bonito aqui — disse ela, sem jeito, e então, olhando o concreto sujo e sem graça: — Eu quis dizer a vista aqui do alto.
— Ficamos mais perto das estrelas. — Zander a pegou pela mão. — Venha aqui. — Seu toque era quente e firme, e Bonnie apertou a mão dele. Zander tinha razão: as estrelas eram lindas. Era bom poder vê-las com mais clareza, ali, acima das árvores.
Ele a levou para um canto do terraço, onde uma manta antiga e puída do exército estava estendida com uma caixa de pizza e umas latas de refrigerante.
— Todos os confortos do lar — disse ele. Depois, mais baixo: — Sei que não é um encontro muito elegante, Bonnie, mas eu queria partilhar isto com você. Achei que entenderia como é especial estar aqui em cima.
— E entendo mesmo. — Bonnie ficou lisonjeada.
Um gritinho secreto cresceu dentro dela: Oba! Zander sabe que estamos num encontro!
Logo Bonnie se viu aninhada ao lado dele, o braço de Zander em seus ombros, comendo uma pizza quente, gordurosa e deliciosa enquanto olhavam as estrelas.
— Venho muito aqui sozinho — disse Zander. — Uma vez, no ano passado, fiquei deitado olhando uma lua cheia e gorda ser tragada pela sombra da terra num eclipse. Ficou quase preto como breu sem a luz da lua cheia, mas eu ainda enxergava sua forma vermelha no céu.
— Os vikings achavam que os eclipses eram causados por dois lobos, um que queria devorar o sol, outro que queria comer a lua — disse Bonnie, indolente. — Esqueci qual deles queria comer a lua, mas, sempre que acontecia um eclipse solar ou lunar, as pessoas faziam muito barulho para assustar o lobo.
Zander a olhou.
— Isso é que é cultura inútil. — Mas sorriu ao dizer isso.
Bonnie se remexeu com prazer sob a mera força do sorriso dele.
— Tenho interesse por mitologia — disse ela. — Druida e celta, principalmente, mas mitos e histórias em geral. Os druidas também veneravam a lua; tinham toda uma astrologia baseada no calendário lunar. — Ela se sentou reta, desfrutando do olhar de admiração de Zander. — Tipo agora, do final de agosto ao final de setembro, estamos no mês da Lua Artista. Mas, daqui a algumas semanas, vamos para o mês da Lua Agonizante.
— O que isso quer dizer? — perguntou Zander. Ele estava muito perto dela, olhando-a bem nos olhos.
— Bem, quer dizer que é tempo de términos — disse Bonnie. — Tudo gira em torno de morrer e dormir. O ano druida começa de novo depois do Halloween.
— Hummm. — Zander ainda a olhava atentamente. — Como sabe de tanta coisa, Bonnie McCullough? — Um sorrisinho brincava em sua boca.
— Bem, meus ancestrais eram druidas e celtas. — Bonnie se sentia idiota. — Minha avó me disse que descendíamos de sacerdotisas druidas, e é por isso que às vezes eu vejo coisas. Minha avó também vê.
— Que interessante — disse Zander suavemente. Seu tom ficou mais leve. — Então você vê coisas?
— Vejo mesmo — afirmou Bonnie, séria, olhando para ele. Não pretendia contar aquilo. Não queria causar estranheza, não no primeiro encontro, mas também não queria mentir.
Tão azul. Os olhos de Zander eram profundos como o mar, e ali ela caía, cada vez mais perdida neles. Não havia nada acima dela, nada abaixo; ela caía incessante e suavemente.
Com um solavanco, Bonnie desviou os olhos de Zander.
— Desculpe — disse ela, meneando a cabeça. — Isso foi esquisito. Acho que quase dormi por um minuto.
— Não se preocupe — disse Zander, mas sua expressão estava tensa e estranha. Depois ele abriu o sorriso caloroso e encantador de sempre, e se levantou. — Vamos, quero te mostrar uma coisa.
Bonnie se levantou devagar. Ainda se sentia meio estranha, e apertou brevemente a testa.
— Por aqui. — Zander a puxou pela outra mão. Levou-a até o canto do telhado e subiu no ressalto estreito que corria por ele.
— Zander — disse Bonnie, apavorada. — Desça! Você pode cair!
— Não vamos cair. — Zander sorriu para ela. — Suba aqui.
— Ficou maluco? — Ela jamais gostara de altura. Lembrou-se de atravessar uma ponte muito alta uma vez, com Damon e Elena. Eles tinham de atravessar, se quisessem salvar Stefan, mas ela nunca teria conseguido se Damon não tivesse usado seu Poder e a convencido de que ela era acrobata, que andava na corda-bamba e para ela a altura não significava nada. Quando ele a liberou do Poder, depois de eles terem cruzado a ponte, seu medo retroativo foi nauseante.
Ainda assim, ela havia conseguido atravessar a ponte, não foi? E prometeu a si mesma que seria mais confiante, mais forte, agora que estava na faculdade. Olhou para Zander, que sorria de cima para ela, com doçura e ansiedade, de mão estendida. Bonnie a pegou e deixou que ele a ajudasse a subir.
— Oh — disse ela, depois de chegar lá em cima. O chão oscilou vertiginosamente bem abaixo e ela virou o rosto. — Oh. Não, esta não é uma boa ideia.
— Confie em mim. — Zander pegou a outra mão dela para mantê-la segura. — Eu não vou deixar você cair.
Bonnie olhou em seus olhos muito azuis e se sentiu reconfortada. Havia algo tão sincero e franco ali...
— O que eu faço agora? — Ela teve orgulho quando a voz saiu firme.
— Feche os olhos — disse Zander e, quando ela obedeceu: — E coloque o pé direito para fora do ressalto.
— O quê? — Bonnie quase abriu os olhos de novo.
— Confie em mim — repetiu Zander, e desta vez havia uma insinuação de riso em sua voz. Hesitante, Bonnie levantou o pé.
Nessa hora, o vento aumentou, e Bonnie sentiu que sua força estava prestes a arrebata-la do ressalto e atirá-la no céu como uma pipa de linha arrebentada. Apertou mais as mãos de Zander.
— Está tudo bem — disse ele, tranquilizador. — É incrível, Bonnie, eu prometo. Relaxe. Não vale a pena viver se não assume riscos.
Inspirando devagar e deixando a respiração fluir, Bonnie se obrigou a relaxar. O vento soprava os cachos de seu cabelo para todo lado, assobiando em suas orelhas, puxando suas roupas e sua perna erguida. À medida que relaxava, ela quase sentiu que era erguida gentilmente no céu, sustentada pelo ar à volta. Parecia que estava voando.
Bonnie percebeu que ria por mero prazer e abriu os olhos, fitando diretamente os de Zander. Ele também ria, e a segurava com força, ancorando-a à terra enquanto ela quase voava. Ela nunca esteve tão consciente do sangue correndo por suas veias, de cada nervo captando as sensações do ar à volta.
Ela nunca se sentira tão viva.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!