14 de março de 2019

Capítulo 9


Rondas em todos os conveses, galerias e torres de tiro ocorriam com frequência e a intervalos irregulares após o anoitecer. Todas as mulheres tinham que estar na cama às 23h, e a oficial de serviço fazia a ronda para se certificar de que não havia nenhuma faltando… Estas foram as melhores medidas encontradas e, ainda que não fossem perfeitas, serviram para impedir o mau comportamento e acabaram com muitas festinhas antes mesmo de acontecerem.
COMANDANTE JOHN CAMPBELL ANNESLEY, CITADO EM HMS VICTORIOUS, NEIL MCCART

SETE DIAS

O som da corneta ecoou pelo alto-falante e repercutiu por todo o convés B. Abaixo dele, vários homens fizeram caretas, e pelo menos um tapou as orelhas com as mãos. Movimentos lentos e hesitantes evidenciavam as oito “festinhas” não oficiais que supostamente aconteceram nas noites anteriores. Dos quinze homens alinhados do lado de fora da sala do comandante, onze aguardavam julgamento sumário por algum mau comportamento cometido durante essas noitadas, e os outros por fatos ocorridos ainda na última licença antes do embarque. Em geral, esses assuntos disciplinares eram resolvidos dentro de um ou dois dias após o navio deixar o cais, mas a natureza extraordinária do carregamento e o nível incomum das infrações constatadas indicavam que, pelo menos até determinado ponto, o ritmo normal a bordo do HMS Victorious ainda não havia sido retomado.
O mestre de armas se posicionou na frente de um dos soldados mais jovens, que contava com dois colegas com acne no rosto para segurá-lo por baixo dos braços. O homem estendeu um dedo comprido e gordo e o colocou embaixo do queixo do culpado. Ele franziu a testa quando sentiu o hálito do jovem.
— Não sei o que sua mãe diria se o visse neste estado, meu caro, mas posso muito bem imaginar. — Virou-se para os outros dois. — Ele é colega de vocês?
— Sim, senhor.
— O que fez para ficar assim?
Os garotos, que não estavam num estado muito melhor, olharam para os próprios pés.
— Não sei, senhor.
— Foi uísque com gelo e limão? Ou uísque puro?
— Não sei, senhor.
— Não sei, senhor — repetiu o homem, encarando os dois com seu olhar severo de sempre. — Aposto que sabem.
Henry Nicol, fuzileiro naval, deu um passo para trás e se encostou na parede.
O jovem marinheiro ao seu lado retorcia o quepe nas mãos machucadas e ensanguentadas. Ele suspirou e firmou bem as pernas, preparando-se para o balanço do navio. Já tinham saído da área mais turbulenta da baía, mas era melhor se prevenir.
— Soames, é isso?
Parecendo infeliz, o mais jovem assentiu.
— Sim, senhor.
— Ele é acusado do quê, Nicol?
— Briga e arruaça, senhor. E embriaguez.
— Isso não se parece com você, Soames.
— Não mesmo, senhor.
O mais velho balançou a cabeça.
— Veio para defendê-lo, é isso, Nicol?
— Sim, senhor.
— Depois vá dormir um pouco. Você está de serviço de novo esta noite, e sua aparência está horrível. — Ele assentiu para o marinheiro. — Soames, isto não é nada bom. Use a cabeça na próxima vez, não os punhos.
O mestre de armas se aproximou devagar do jovem seguinte, acusado de conduta prejudicial à ordem e de uso de drogas ou bebida alcoólica. Soames se encostou na parede.
— Você precisa assumir tudo — disse o mestre de armas. — Hoje é o comandante, não o imediato, e posso garantir que ele não está com o melhor humor do mundo.
— Vou conseguir, não vou? — resmungou Soames.
Em circunstâncias normais, Nicol teria rebatido a acusação, talvez tranquilizado Soames, se mostrado otimista. No entanto, com a mão ainda enfiada no fundo do bolso da calça para tocar a carta, ele não tinha energia nem vontade de fazer outra pessoa se sentir melhor. Adiara a leitura por vários dias, pois supunha qual era o conteúdo e tinha medo. Agora, sete dias depois de sair de Sydney, ele sabia.
Como se saber pudesse melhorar alguma coisa.
— Vai dar tudo certo — disse ele.

Querido Henry,
Estou decepcionada, mas não surpresa, por você não ter me respondido.
Quero dizer mais uma vez que sinto muito pelo que aconteceu. Nunca tive a intenção de magoar você, mas quase não recebíamos mais notícias suas há bastante tempo, e estou realmente apaixonada por Anton. Ele é um homem bom, gentil, e tem muita consideração comigo… Não digo isso com a intenção de criticar você. Sei que éramos jovens demais quando nos casamos, e talvez se pelo menos a guerra não tivesse estourado naquele momento… Enfim, como nós dois sabemos, o mundo hoje está cheio de “se pelo menos”…

Ele havia lido o primeiro parágrafo e pensado que, ironicamente, a vida era mais fácil quando as cartas ainda eram censuradas.
Isso tinha acontecido quase vinte minutos antes de subirem. Eles pararam na frente do escritório do comandante, Nicol entrou na sala logo atrás do homem mais jovem, e os dois prestaram continência. O comandante Highfield estava sentado atrás da sua escrivaninha. De um lado estava o capitão fuzileiro e do outro, um tenente que Nicol não reconheceu, que anotava alguma coisa em um grande caderno. Por alguns segundos, Highfield não deu sinal de que notara a presença das novas pessoas na sala.
Nicol cutucou o mais jovem.
— Comandante — disse ele, entre os dentes, segurando o quepe à frente.
Soames tirou o seu.
O oficial ao lado do comandante leu a acusação em voz alta: o rapaz brigara com um colega no alojamento dos marinheiros. Ele também tinha consumido bebida alcoólica em quantidade muito maior do que os “goles” diários permitidos aos marinheiros.
— Você se julga o quê? — perguntou o comandante Highfield, sem parar de escrever.
Ele tinha uma letra grande e elegante que contrastava com seus dedos pequenos e gordos.
— Culpado, comandante — respondeu Soames.

Sim, sou culpada. E fraca. Mas, para ser sincera, pela quantidade de cartas que recebi de você nos últimos quatro anos, eu poderia muito bem ser viúva. Passei três desses quatro anos acordada a noite inteira, uma semana atrás da outra, rezando pela sua segurança, esperando sua volta, falando todos os dias sobre você para as crianças, apesar de suspeitar que você não se lembrava de nós. E, quando voltou, parecia um estranho.

Por fim, o comandante ergueu os olhos. Olhou para o jovem, depois se dirigiu ao fuzileiro naval.
— Nicol, é isso?
— Sim, comandante.
— O que pode me dizer sobre o caráter deste jovem?
Nicol pigarreou e colocou os pensamentos em ordem.
— Ele está com a gente há pouco mais de um ano, comandante. É um jovem marinheiro. Sempre teve bom comportamento, é trabalhador, discreto. — Fez uma pausa. — Uma boa pessoa.
— Então, Soames, considerando esta brilhante referência sobre o seu caráter, o que foi que transformou você nesse brigão idiota?
O marinheiro baixou a cabeça.
— Mantenha a cabeça erguida ao falar comigo.
— Comandante. — Ele corou. — É por causa da minha mulher, comandante. Ela… Ela foi se despedir de mim em Sydney. Saímos juntos várias vezes. Mas ela se envolveu com… Bem, com outro homem do convés C, comandante.

Quando Anton apareceu e começou a me dar atenção, não foi como se ele tivesse tomado o seu lugar, Henry. Não havia lugar a ser tomado.

— … e ele começou a me insultar… e então os outros, bem, falaram que eu não era capaz de manter uma mulher ao meu lado, e o senhor sabe como são as coisas nos alojamentos, comandante, então cansei daquilo e… Bem, acho que perdi a cabeça.
— Acha que perdeu a cabeça.

As crianças adoram ele. Você vai ser sempre o pai delas, e elas sabem disso, mas vão amar os Estados Unidos e lá terão todas as oportunidades que jamais teriam em uma pequena e sonolenta cidadezinha em Norfolk.

— Sim, comandante. — Ele colocou a mão na frente da boca para tossir. — Sinto muito, comandante.
— Você sente muito. Então, Nicol, você está dizendo que até agora ele tem sido uma boa pessoa?
— Sim, comandante.
Highfield largou a caneta e entrelaçou as mãos. Seu tom de voz estava muito frio.
— Você sabe que não gosto de brigas no meu navio. Muito menos quando tem álcool envolvido. Acima de tudo, odeio descobrir que eventos sociais envolvendo álcool podem estar acontecendo no meu navio sem o meu conhecimento.
— Sim, comandante.
— Está entendendo? Não gosto de surpresas, Soames.

Mas, meu querido, preciso falar sobre algo difícil. Se esta carta tem certa urgência é porque estou carregando um filho de Anton, e só estamos esperando que você me dê o divórcio para que a gente possa se casar e criar juntos este bebê.

— Você é uma desonra.
— Sim, comandante.
— É a quinta pessoa que recebo aqui hoje com uma acusação relacionada a bebida. Sabia disso?
O rapaz não respondeu.
— O que é uma grande surpresa em um navio que não devia transportar bebida alcoólica, exceto as doses semanais permitidas.
— Sim, comandante.
Nicol pigarreou.
O capitão franziu a testa e fixou os olhos no jovem.
— Vou levar em conta a referência do seu bom caráter até agora, Soames, e você deve se considerar uma pessoa de sorte por ter alguém de caráter exemplar para defendê-lo.
— Sim, comandante.
— Vou liberar você apenas com uma multa. Mas quero que uma coisa fique bem clara, e que repasse aos seus colegas e também aos que estão aguardando lá fora: quase nada me escapa aqui neste navio. Quase nada mesmo. E se acham que não sei sobre as pequenas reuniões que acontecem na hora em que nossos tripulantes e as mulheres que transportamos deveriam estar separados não só por paredes, como também por todos esses corredores, então todo mundo está tremendamente enganado.
— Eu não quis causar nenhum mal, comandante.

Não era minha intenção que as coisas tivessem chegado a este ponto. Por favor, Henry, não permita que esta criança cresça como uma bastarda, eu imploro. Sei que magoei demais você, mas, por favor, não desconte neste pequeno ser o ressentimento que tem de mim.

— Você não quis causar nenhum mal — murmurou Highfield, recomeçando a escrever. — Não quis causar nenhum mal. Nenhum de vocês jamais quis.
Houve um breve silêncio na sala.
— Duas libras. E não quero mais vê-lo aqui.
— Sim, comandante.
— À esquerda, marchar! — ordenou o tenente.
Os dois homens prestaram continência e saíram do escritório.
— Duas malditas libras — resmungou Soames enquanto eles passavam pela fila de acusados, arrastando os pés e colocando de novo o quepe na cabeça. — Duas malditas libras — murmurou para um dos colegas. — Esse Highfield é mesmo um tremendo desgraçado.
— Que falta de sorte.
Soames acelerou o passo, irritado com o que considerava uma injustiça.
— Não sei por que ele me escolheu e não parou de me atacar. Eu nunca falei com uma dessas malditas australianas. Com nenhuma delas. Não sou como o cretino do Tims. Ele recebe mulheres no alojamento quase todas as noites. Jackson me contou.
— É melhor ficar longe desse alojamento — sugeriu Nicol.
— O quê? — O jovem se virou, talvez sentindo a tensão mal contida na voz do fuzileiro. — Você está bem?
— Estou ótimo — respondeu ele, tirando a mão do bolso.

Por favor, me mande uma carta ou um telegrama assim que puder. Ficarei feliz em deixar para você a casa e todo o resto. Deixei tudo organizado, da melhor forma que pude. Não quero lhe causar mais problema. Só quero que concorde com o divórcio.
Da sua Fay

— Sim — disse Nicol, seguindo a passos largos pelo corredor. — Estou ótimo.
Os julgamentos sumários acabaram pouco depois das onze horas. O comandante Highfield largou a caneta e fez sinal para que Dobson, que entrara alguns minutos antes, e o capitão fuzileiro se sentassem. Em seguida, pediram para um copeiro trazer chá.
— Que situação! — disse, se reclinando na cadeira. — Apenas uma semana no mar e veja o que já aconteceu.
O capitão não disse nada. Os fuzileiros navais eram disciplinados e nunca bebiam a bordo. Em geral, apareciam apenas como testemunhas de caráter, ou quando, uma vez ou outra, os atritos naturais entre fuzileiros navais e marinheiros entravam em conflito.
— Isso tudo causa tensão no navio. E a bebida alcoólica também. Quando foi a última vez que tivemos tantos problemas relacionados a bebedeira a bordo?
Os dois homens balançaram a cabeça.
— Vamos fazer uma busca nos vestiários, comandante. Jogaremos fora o que encontrarmos — propôs Dobson.
Atrás deles, do lado de fora da janela, o céu estava azul-claro e o mar, calmo. Era o tipo de paisagem que não tinha como não encher o coração de otimismo.
Mas Highfield não se alegrou: sua perna estivera latejando a manhã inteira, feito uma lembrança constante e intermitente do seu fracasso.
Na hora de se vestir naquela manhã, ele evitara olhar para a perna: a cor o preocupava. O leve tom arroxeado não era indício da formação de um tecido novo e saudável, mas de alguma luta terrível que estava sendo travada sob o ferimento. Se Bertram, o cirurgião que costumava viajar no navio, estivesse a bordo, Highfield poderia pedir para ele dar uma olhada. Ele teria entendido. Mas Bertram não aparecera para o embarque em Sydney e teria que passar pela corte marcial, portanto aquele tal de Duxbury estava no seu lugar.
Dobson se inclinou à frente e apoiou os cotovelos nos joelhos.
— As oficiais me disseram que têm certeza de que há movimentação noturna. A que fica no convés B precisou contornar uma situação ontem à noite.
— Uma briga?
Os dois homens sentados se entreolharam, depois se viraram para o comandante.
— Não, comandante. Bem… foi contato físico entre uma mulher e um de nossos marinheiros.
— Contato físico?
— Sim, comandante. Ele a abraçou atrás… da bomba d’água do porão.
Highfield suspeitava que isso pudesse acontecer e já tinha alertado seus superiores. No entanto, a realidade o atingiu como uma bofetada. A ideia de que, mesmo com ele ali presente, coisas desse tipo acontecessem a bordo do seu navio…
— Eu sabia que isso ia acontecer.
Então percebeu que os outros dois homens estavam bem menos preocupados do que ele. Na verdade, Dobson até passava a impressão de que mal conseguia conter o riso.
— Vamos ter que mandar mais fuzileiros para a parte externa da área do hangar e também para os alojamentos dos fornalheiros e dos marinheiros.
— Com todo o respeito, comandante — interveio o capitão fuzileiro —, mas meu pessoal está de serviço em turnos ininterruptos sete dias por semana, sem considerar as outras tarefas de rotina deles. Não posso exigir mais. O senhor deve ter visto como Nicol estava exausto, e ele não é o único.
— É realmente necessário que eles fiquem na frente dos alojamentos dos homens? — perguntou Dobson. — Os fuzileiros estão ali para garantir que as mulheres fiquem dentro das cabines, além das oficiais fazendo rondas. Tem certeza de que isso não é suficiente?
— Bem, é evidente que não. Acabamos de descobrir que estão fazendo festinhas e não sei mais o quê. Vejam bem, só faz uma semana que saímos do porto. Se deixarmos as coisas soltas, só Deus sabe onde vamos parar.
Ele estava sendo importunado por imagens de casais transando nos depósitos de farinha, de maridos furiosos e almirantes com o rosto vermelho de raiva.
— Calma, comandante. Eu diria que é mais importante colocar a situação em perspectiva.
— Como assim?
— É normal ter alguns contratempos no início, ainda mais com tantos tripulantes novos juntos, mas não é nada que a gente não consiga controlar. Na verdade, depois do que aconteceu com o Indomitable, pode até ser uma coisa boa. Mostra que nossos homens estão mais animados.
Até aquele ponto, talvez por diplomacia ou mesmo pela vontade de não magoar ainda mais o comandante, ninguém tinha comentado sobre o naufrágio, pelo menos não em relação à moral dos homens. À menção do nome do navio, Highfield cerrou o maxilar. Pode ter sido por reflexo. O mais provável, no entanto, é que tenha sido por causa de quem o mencionou.
Enquanto ele organizava seus pensamentos, Dobson falou, tranquilamente:
— Se preferir, comandante, pode deixar as questões disciplinares por nossa conta. Seria triste se, por causa de alguns novatos rebeldes, o senhor não conseguisse aproveitar um pouco esta última viagem.
As palavras mordazes de Dobson, seu jeito descontraído e confiante, revelavam tudo que os homens pensavam sobre Highfield, mas que não diriam em voz alta.
Antigamente, Dobson nunca teria ousado falar com o comandante desse jeito. Highfield ficou tão espantado com esse ato discreto de insubordinação que não conseguiu dizer nada. Quando o copeiro chegou com o chá, precisou esperar alguns segundos até o comandante notar sua presença.
O capitão fuzileiro, mais diplomático, se inclinou para a frente.
— Acredito, comandante, que grande parte dos problemas da semana passada tenham a ver com as condições do tempo na baía — disse ele. — Na minha opinião, os dois marinheiros e a mulher podem ter se aproveitado do fato de que muitos monitores não estavam funcionando para aumentar… como posso dizer… a interação. Aguarde alguns dias e verá que as mulheres estarão mais calmas e os homens terão se acostumado com a presença delas. Acho que daqui a pouco tudo vai se acalmar.
Highfield, desconfiado, observou o capitão fuzileiro. Havia sinceridade na sua expressão, ao contrário do homem ao seu lado.
— Acha que devemos deixar as coisas como estão?
— Acho, comandante.
— Concordo, comandante — acrescentou Dobson. — Por enquanto, é melhor não cutucarmos o abelheiro.
Highfield o ignorou. Depois de fechar o caderno, se virou para o capitão fuzileiro.
— Muito bem — disse. — Vamos com calma. Mas quero ser informado de tudo, de cada passo que for dado nos conveses de baixo depois das dez da noite. E pressionem um pouco as oficiais. Elas precisam manter os olhos bem abertos e os ouvidos atentos. Ao menor indício de má conduta… ao menor indício, prestem atenção… quero que os responsáveis sejam punidos com todo o rigor. Não vou permitir que as normas da Marinha sejam desrespeitadas. Não sob o meu comando.

Querida Deanna,
Espero que você, mamãe e papai estejam bem. Não sei quando vou poder mandar esta carta, mas pensei em escrever para que fiquem sabendo um pouco sobre a nossa viagem. É tudo muito emocionante. Muitas vezes penso em como você adoraria estar aqui, e em como as condições sob as quais viajamos são surpreendentes, apesar das minhas apreensões.
Fiz três amigas maravilhosas: Margaret, cujo pai é dono de uma grande fazenda não muito longe de Sydney; Frances, que é extremamente elegante e tem feito um ótimo trabalho como enfermeira; e, por fim, Jean. Todas as mulheres do navio são muito mais interessantes do que nossa antiga turma. Uma delas trouxe quinze pares de sapato! Estou muito aliviada por ter conseguido fazer compras antes de embarcar. É tão bom ter coisas novas, não acha?
Minha acomodação fica na parte maior do navio, a uma pequena distância da área conhecida como passadiço e da câmara do comandante. Ficamos sabendo que talvez sejam oferecidos coquetéis quando chegarmos a Gibraltar, pois é bem possível que vários governadores subam a bordo. Estamos ansiosas para essa possibilidade.
Os tripulantes fazem o que podem por nós. Todos os dias nos propõem novos entretenimentos para nos manter ocupadas, como bordado, dança, a exibição de filmes recentes. Hoje à tarde devo ver A mocidade é assim mesmo. Acho que ainda não foi lançado em Melbourne, mas, acredite em mim, você tem que assistir quando sair aí. As meninas que já viram dizem que Elizabeth Taylor está maravilhosa.
Os marinheiros são simpáticos e atenciosos, estão sempre nos oferecendo alguma coisinha para comer. Aliás, Deanna, você adoraria a comida. É como se ninguém nunca tivesse ouvido falar em racionamento. Nada parecido com o ovo em pó que todas nós temíamos! Diga, então, ao papai e à mamãe que eles não precisam se preocupar com nada.
Há um salão de cabeleireiro completo no fundo do navio. Quando eu terminar de escrever, acho que vou lá dar uma olhada nele. Talvez até me ofereça para ajudar! Lembra como a Sra. Johnson sempre dizia que ninguém arrumava um cabelo feito eu? Preciso encontrar um salão decente assim que chegar a Londres. Aliás, pode ficar tranquila, vou te contar tudo sobre a cidade.
Espero receber notícias de Ian antes de nos reencontrarmos para planejarmos nossos dias de férias.
Como já falei, espero que esta carta chegue para vocês e que todos estejam bem. Por favor, não deixe de dar notícias minhas às nossas velhas amigas. Ah, sim, seu recital já terá acontecido quando esta carta chegar. Espero que tenha sido um sucesso. Voltarei a escrever quando tiver um tempo livre!
Da irmã que te ama,
Avice

Avice estava sentada no pequeno refeitório do convés de voo e, pela janela manchada de sal, observava o voo rasante das gaivotas na direção do navio, contrastando com o céu claro ao fundo. Durante a meia hora que levou para escrever a carta, quase começou a acreditar na versão fantasiosa que criara para a viagem. Tanto que, no momento de assinar, sentiu um grande vazio por estar de novo naquele hangar enferrujado e flutuante, cercada não por festas, coquetéis e novas amigas encantadoras, mas por aviões com os narizes arranhados alinhados no convés, por marinheiros inconvenientes de macacões encardidos, por água do mar e sal, por cheiro de fritura, combustível e corrosão.
— Quer uma xícara de chá, Avice? — perguntou Margaret, inclinada na direção da amiga, com a enorme barriga quase apoiada na mesa de tampo de madeira. — Vou pegar uma para mim. Nunca se sabe, talvez faça bem para o seu estômago.
— Não, obrigada.
Avice engoliu em seco e tentou imaginar o gosto do chá. Um enjoo imediato confirmou que ela fizera bem em recusar. Ainda não tinha se habituado ao cheiro penetrante das gotinhas de combustível de avião que parecia segui-la por onde fosse, invadir suas narinas e impregnar as roupas. Por mais perfume que passasse, ela tinha sempre a impressão de que cheirava igual a um mecânico.
— Você devia beber alguma coisa.
— Um copo d’água, então. E talvez um biscoito, se tiverem.
— Estou com pena de você. Poucas pessoas passam tão mal assim.
Havia três poças no chão, que refletiam a claridade que vinha das janelas.
— Tenho certeza de que vou ficar boa logo.
Avice se esforçou para sorrir. Poucas coisas na vida resistem ao poder de um sorriso simpático, era o que sua mãe sempre dizia.
— Eu estava desse jeito nos primeiros meses. — Margaret deu um tapinha na própria barriga. — Não conseguia engolir nem uma torrada. Eu me sentia muito mal. Até me surpreendi por não ter ficado mareada como você e Jean.
— Você se incomoda de mudar de assunto?
Margaret riu.
— Claro que não, Avi. Desculpe. Vou pegar o chá.
Avi. Se Avice não estivesse se sentindo tão mal, teria corrigido a colega: não havia nada pior do que a abreviação de um nome. Mas Margaret já estava andando até o balcão, deixando-a com Frances, o que a desagradava ainda mais.
Ao longo dos últimos dias, Avice chegara à conclusão de que havia algo extremamente desconcertante em relação a Frances. Ela parecia cautelosa, como se, naquele momento, mesmo sentada em silêncio, estivesse julgando os outros. Até quando era legal e buscava remédios para amenizar o enjoo de Avice ou verificava se não estava muito desidratada, agia de forma muito reservada, como se quisesse manter distância de alguns aspectos da personalidade de Avice.
Como se ela fosse alguém especial!
Margaret lhe contara que o médico recusara a oferta de Frances para trabalhar na enfermaria. A parte mais generosa de Avice questionou o que a Marinha teria considerado inadequado nela, enquanto a outra parte pensou em como sua vida teria sido mais fácil sem ela por perto o dia inteiro, sem suas conversas inconvenientes e seu semblante sisudo. Avice deu uma olhada nas outras mesas e percebeu que a maioria das mulheres conversava como se já se conhecesse havia anos. Tinham se separado em grupinhos e criado elos já impenetráveis para quem estava de fora. Avice, com os olhos fixos em um grupo particularmente feliz, resistiu à vontade de lhes dizer que não estava na companhia daquela pessoa estranha e séria por escolha própria. Mas isso, claro, teria sido uma grosseria.
— Já pensou no que vai fazer à tarde?
Frances estava concentrada lendo um exemplar do Daily Ship News. Ergueu os olhos com uma expressão tão desconfiada que Avice ficou com vontade de gritar: “Não é uma pergunta ardilosa, calma.” Seu cabelo ruivo desbotado estava preso para trás em um coque firme. Se fosse outra pessoa, Avice teria se oferecido para fazer um penteado mais elegante. Ela até ficaria bonita se soubesse se valorizar um pouco.
— Não — respondeu Frances. Depois, quando o silêncio que se seguiu se tornou quase insuportável para as duas, acrescentou: — Pensei em ficar aqui sentada um pouco, só isso.
— Ah. Bem, parece que o tempo melhorou, não é?
— Sim.
— Achei a palestra de hoje muito entediante — comentou Avice, por mais que detestasse esse tipo de conversa sem propósito.
— Ah, é?
— Racionamento e coisas do tipo. — Ela fungou. — Sinceramente, quando chegarmos na Inglaterra, pretendo cozinhar o mínimo possível.
Atrás delas, um grupo de garotas fez tanto barulho empurrando as cadeiras ao se levantar da mesa que as duas foram obrigadas a interromper a conversa. Avice e Frances esperaram elas se afastarem.
— Acabou de escrever sua carta? — perguntou a enfermeira.
As mãos de Avice taparam o bloco de anotações, como se o conteúdo pudesse de algum modo se tornar visível.
— Sim. — Sua voz saiu mais seca do que era a intenção. Fez um esforço consciente para relaxar. — É para minha irmã.
— Ah.
— Escrevi mais duas agora de manhã. Uma para Ian e outra para uma amiga da época de escola. Ela é filha dos McKillen, sabe?
Frances negou com a cabeça. Avice suspirou.
— Eles são grandes proprietários de imóveis. Não escrevo para Angela desde que saí de Melbourne… Mas não sei quando vamos conseguir mandar as cartas. Eu adoraria saber quando vou receber uma de Ian. — Ela deu uma olhada nas próprias unhas. — Espero que seja no Ceilão. Ouvi dizer que talvez entreguem cartas no navio quando chegarmos lá.
Avice sonhara com uma grande pilha de cartas de Ian à sua espera em algum correio tropical abafado. Ela as amarraria com fita vermelha e as leria escondida, uma por uma, em êxtase, como se fosse alguém se deliciando com uma caixa de chocolate.
— É estranho — disse, quase que para si mesma — navegar essa distância toda e não conseguir falar com ele há tanto tempo. — Ela percorreu com o dedo o nome de Ian escrito no envelope. — Às vezes, tudo parece um pouco irreal. Quase não consigo acreditar que me casei com esse homem e que agora estou num navio no meio do nada. Quando não dá para falar com a pessoa, é difícil entender que é tudo real.
Cinco semanas e quatro dias desde a última carta dele. A primeira que ela recebera depois de casada.
— Fico tentando imaginar o que ele está pensando agora, porque a pior coisa de esperar tanto tempo por cartas é saber que todos os sentimentos podem estar obsoletos. Coisas com as quais ele podia estar aborrecido talvez já tenham passado. Um pôr do sol que ele descreveu já foi há muito tempo. Nem ao menos sei onde ele está. Mas imagino que todas nós esperamos que os sentimentos deles por nós não tenham mudado, mesmo sem termos como nos falar. Acho que este é um teste de confiança.
Sua voz ficou mais branda, contemplativa. Avice percebeu que passara vários minutos sem pensar no enjoo. Endireitou-se na cadeira.
— Concorda comigo?
Alguma coisa estranha aconteceu com a expressão de Frances: ficou ainda mais fechada, indiferente, quase uma máscara.
— Acho que sim.
Avice sabia que a colega poderia ter dito qualquer coisa, até que o céu se tornara verde. Ficou perturbada e irritada, como se sua tentativa de criar alguma intimidade tivesse sido rechaçada de propósito. Estava quase tentada a comentar com Frances a respeito disso quando Margaret voltou para a mesa bamboleando e carregando uma bandeja de chá. Ao lado da caneca havia um imenso sorvete de baunilha, o terceiro que ela tomava desde que se sentaram no refeitório.
— Escutem isto, meninas. Jean vai adorar. Estão preparando uma cerimônia para comemorar que passamos da linha. Parece que é uma tradição dos marinheiros celebrar a travessia da Linha do Equador, e vai haver diversas atividades no convés de voo. O rapaz que serve o chá acabou de me contar.
A austeridade de Frances foi esquecida.
— Vamos ter que nos arrumar? — perguntou Avice, levando a mão ao cabelo.
— Não sei. Não tenho informação sobre isso… Mais tarde vão colocar alguma coisa no quadro de avisos principal. Mas vai ser divertido, não acham? Teremos alguma coisa para fazer.
— Hum, não posso acompanhar vocês. Não com meu estômago ruim.
— E você, Frances? — perguntou Margaret logo depois de morder sua casquinha e um pouco de sorvete grudar na ponta do seu nariz.
— Não sei.
— Ah, vamos! — insistiu Margaret. A cadeira rangeu em protesto quando ela se sentou. — Solte o cabelo, menina. Relaxe um pouco.
Frances deu um sorriso tímido, deixando à mostra seus pequenos dentes brancos. Avice percebeu, com surpresa, que ela podia ser bonita.
— Talvez — respondeu.

* * *

Frances achara que detestaria a presença do homem de plantão na porta da sua cabine. A primeira noite que ele passou ali, ela não conseguira dormir, sabendo da proximidade daquele estranho, da sua própria vulnerabilidade, vestindo apenas uma camisola. Do fato de, pelo menos em teoria, ele ter autoridade sobre ela.
Frances tinha ficado atenta a cada movimento dele, a cada mudança de posição, a cada fungada ou tosse, ao som da sua voz quando ele murmurava um cumprimento ou uma instrução a alguém que passava. Às vezes, deitada no escuro, ela avaliava o significado daquilo: a presença dele reforçava a ideia de que elas eram uma carga, uma encomenda que devia ser transportada em segurança de um lado para outro do mundo, em muitos casos dos pais para os maridos, de um grupo de homens para outro.
Aqueles passos pesados, a postura rígida, sua arma, tudo a fazia lembrar que estavam confinadas, aprisionadas. Ao mesmo tempo, eram vigiadas e se sentiam protegidas das forças desconhecidas dos conveses inferiores. Às vezes, quando ficava angustiada com a proximidade de tanta gente, de tantos homens estranhos, e também com seu isolamento, ela se sentia aliviada por ele estar montando guarda na porta. Mas na maior parte do tempo, ela o repudiava por fazer com que se sentisse um objeto, a propriedade de alguém a ser protegida.
As outras pareciam não se preocupar muito com essas considerações filosóficas. Na verdade, nem reparavam nele. Para elas, como muitas outras coisas a bordo, ele era apenas parte do mobiliário de todas as noites, alguém a quem davam boa-noite, de quem precisavam esconder a cachorrinha na hora do passeio noturno ou a si mesmas quando, na ponta dos pés, saíam para alguma festa. Como naquela outra noite. Margaret e Jean se preparavam para encontrar Dennis para mais uma rodada de pôquer. Cochichavam enquanto penteavam o cabelo e escolhiam meias e sapatos, e Jean pegava emprestada a maquiagem das outras. Eram quase nove da noite, cedo demais para se entocarem nas cabines, conforme mandava o toque de recolher, mas os dois turnos do jantar já tinham acabado, ou seja, era suficientemente tarde para que uma das oficiais perguntasse aonde iam, caso notassem a movimentação.
— Tem certeza de que não quer ir com a gente, Frances?
Elas já tinham ido a várias festas. Jean conseguira ficar sóbria em pelo menos uma. Frances negou com a cabeça.
— Você não precisa se comportar como uma freira — disse Margaret enquanto acabava de amarrar os sapatos. — Tenho certeza de que seu marido não vai se incomodar se você se divertir um pouco com a gente, pelo amor de Deus.
— Não contaremos nada — prometeu Jean, fazendo biquinho para passar mais uma camada de batom.
Margaret ergueu a cachorrinha e a colocou no espaço livre do seu colo.
— Você vai enlouquecer se passar todas as noites aqui dentro, sabe.
— Vão precisar tirar você do navio em uma camisa de força quando chegarmos a Plymouth — disse Jean, rindo e batendo o indicador na lateral da cabeça. — Vão acabar achando que você perdeu o juízo.
— Vou correr o risco. — Frances sorriu.
— E você, Avice?
— Não, obrigada. Vou descansar esta noite.
Os enjoos de Avice haviam piorado de novo. Ela estava deitada no beliche, pálida e fraca. De vez em quando, erguia e baixava seu livro.
— Agradeço se puder manter a cadela bem longe de mim. O cheiro dela está me deixando pior ainda.
Não tinham imaginado que o fuzileiro naval estaria na frente da cabine delas.
Ele não aparecera na noite anterior, e nenhuma delas havia escutado os passos que costumavam anunciar sua chegada. Jean e depois Margaret pararam no vão da porta.
— Ah… Nós vamos… tomar um pouco de ar fresco — explicou Margaret e, em seguida, fechou a porta às suas costas.
— Voltaremos às onze — acrescentou Jean.
— Mais ou menos nesse horário.
Frances, que se levantara para pegar a camisola no cabide, parou perto da porta ao ouvir uma voz masculina e notar não só a surpresa, mas também uma leve tensão na voz das duas mulheres.
— Eu evitaria o “Black Squad”, se é lá que vocês gostam de tomar ar fresco. — Ele falou tão baixo que nenhuma delas entendeu direito.
Frances se aproximou ainda mais da porta, segurando a camisola no alto.
— O alojamento dos fornalheiros. Vão fazer uma inspeção lá hoje à noite — explicou ele.
— Ah, certo. Bem, obrigada — disse Margaret.
Frances ouviu os passos das amigas ressoarem pelo corredor. Logo depois, o fuzileiro tossiu baixinho. Elas ficariam quietas até chegar no canto onde estava a mangueira de incêndio. Lá, fora de vista, mesmo em choque, cairiam na gargalhada e se abraçariam depressa antes de, após dar uma olhada discreta por cima do ombro, seguir para o alojamento dos fornalheiros.
Avice não estava dormindo. Teria sido mais fácil, pensou Frances, se estivesse. Confinadas naquela pequena cabine, as duas se movimentavam em silêncio uma ao redor da outra. Depois Avice se deitou virada para a parede. Constrangida, Frances folheou uma revista, esperando que sua concentração parecesse mais verdadeira do que realmente era.
Elas tinham ficado sozinhas uma com a outra em pouquíssimas ocasiões. Margaret era uma pessoa fácil e espontânea, seu temperamento descomplicado estava estampado no sorriso fácil. Jean era menos previsível, mas era direta: expressava exatamente o que sentia, irritação ou entusiasmo, e dizia o que vinha à sua cabeça, por mais desagradável que fosse.
No entanto, Frances achava que Avice considerava Jean uma pessoa difícil. Além de não terem nada em comum, a personalidade e o modo de ser de Jean irritavam muito Avice. Ela suspeitava que, em outras circunstâncias, Avice poderia ter se comportado de forma abertamente hostil: sua experiência lhe comprovara que pessoas assim muitas vezes têm necessidade de menosprezar os outros para se sentir superiores.
Mas não havia espaço para emoções tão sinceras em uma cabine de três por dois metros. O que as fazia continuar fechadas em seus próprios mundos martirizantes de gentilezas diplomáticas. Frances perguntaria de vez em quando se Avice precisava de alguma coisa ou se seu enjoo diminuíra. Avice, por sua vez, perguntaria se Frances se incomodaria de deixar a luz acesa até um pouco mais tarde. E, assim, as duas passariam o resto da noite fingindo acreditar que a outra estava dormindo.
Frances se deitou de costas no beliche. Tentou ler, mas logo percebeu que percorrera o mesmo parágrafo diversas vezes sem saber o que tinha lido. Fez um esforço para se concentrar e descobriu que já lera aquela revista. Por fim, se contentou em observar as tiras entrecruzadas que sustentavam o beliche de cima e vê-las se mexer.
A cachorrinha, visível embaixo do cardigã de Margaret, gemeu baixinho durante o sono. Frances olhou para o chão e confirmou que ainda havia água na tigela.
Lá de cima, vinha um ruído acompanhado de risadas abafadas.
No corredor, o fuzileiro murmurou alguma coisa para alguém que passava. O tempo transcorria devagar, tornava-se elástico.
Frances suspirou em silêncio, para que Avice não ouvisse. Margaret tinha razão. Se ficasse mais uma noite naquela cabine, enlouqueceria.

* * *

Ele se virou quando ela abriu a porta.
— Estou só esticando as pernas.
— Se formos seguir estritamente as instruções, a senhora não pode sair da cabine a esta hora.
Frances não reclamou nem implorou, apenas continuou ali, à espera. Ele balançou a cabeça para ela.
— O alojamento dos fornalheiros?
— Não — respondeu ela com um sorriso e logo em seguida olhou para o chão. — Não é programa para mim.
Ela seguiu depressa pelo corredor, sabendo que os olhos dele estavam fixos nas suas costas. Ficou com medo de que ele gritasse para avisá-la que mudara de ideia, que já estava quase na hora do toque de recolher, e que ela precisava voltar.
Mas ele não disse nada.
Já fora do campo de visão do homem, ela subiu a escada perto da sala de projeção, assentiu de forma educada para as duas garotas que, de braços dados, recuaram para ela passar. Seguiu em frente, de cabeça baixa. Passou por cabines, por malas enfileiradas e presas por correias na parede, por armários com coletes salva-vidas, por armamento, munição, instruções pintadas nas paredes: “Manter seco”, “Não utilizar após as 11h47”, “Proibido fumar”. Subiu de dois em dois os degraus que levavam às acomodações do comandante e baixou a cabeça para não bater nos suportes metálicos.
Ela se aproximou da escotilha, deu uma rápida olhada para trás para se certificar de que ninguém a observava, depois a abriu e entrou no convés de voo.
Então parou de repente, extasiada com a imensidão negra do céu e do mar.
Frances ficou algum tempo ali, respirando ar puro e fresco, sentindo a brisa no rosto e aproveitando o suave balanço do navio. Lá embaixo, muitas vezes a vibração dos motores a fazia se sentir nas entranhas de um animal pré-histórico, que trepidava, resfolegava e gemia, mal-humorado pelo esforço. Ali no convés, o movimento não passava de um leve ronronar, a criatura estava calma e obediente, transportando-a em segurança pelo vasto oceano, feito uma fera mítica.
Frances observou o convés deserto, interditado após o anoitecer. Ao seu redor dava para ver as silhuetas dos aviões, alguns sob a luz da lua, outros no escuro, como crianças reunidas no parquinho. Havia algo estranhamente atraente nos perfis das aeronaves, com os narizes empinados que pareciam farejar o ar. Ela andou devagar entre eles, se permitindo acariciar a fuselagem brilhante, desfrutar da sensação úmida e fria na sua mão. Por fim, se sentou sob a estreita barriga aerodinâmica de um dos aviões. Na sua posição privilegiada no chão de concreto, entre duas correias, cruzou as mãos ao redor dos joelhos e contemplou os milhões de estrelas, os intermináveis vestígios de espuma branca que marcavam o rastro do navio na água, o ponto irreconhecível onde o mar escuro encontrava o céu preto e infinito. Possivelmente pela primeira vez desde que embarcara, Frances Mackenzie fechou os olhos e, com um arrepio que percorreu seu corpo inteiro, se permitiu respirar fundo.

* * *

Fazia quase vinte minutos que ela estava sentada ali quando viu o comandante.
Ele tinha saído pela mesma porta que ela fechara ao passar. Usava seu quepe branco com as insígnias muito visíveis, e sua postura ereta estava curiosamente acentuada. Ela recuou depressa para se esconder na sombra, já antecipando o grito furioso de: “Ei! Você!”, que significaria sua desgraça. Frances o observou fechar a porta com cuidado para evitar fazer barulho. Então, com a mesma discrição que ela devia ter exibido ao chegar, ele seguiu, mancando cada vez mais, na direção do estibordo do navio e até um ponto onde não pudesse ser visto do passadiço. Com o uniforme iluminado pela lua, parou ao lado de um dos maiores aviões e estendeu o braço para se apoiar em uma barra metálica da asa.
Depois, enquanto ela prendia a respiração, ele se inclinou e esfregou a perna. Ficou ali por alguns minutos, com o peso apoiado em uma perna, os ombros caídos para a frente e os olhos fixos no mar. Em seguida, se empertigou e voltou para a escotilha. Ao chegar lá, já não parecia mancar.
Mais tarde, Frances não conseguiu descobrir o que a reconfortara tanto naquela breve cena: se o próprio mar, sua capacidade de conquistar vinte minutos de liberdade despercebida, ou o pequeno indício de humanidade na perna manca do comandante, um lembrete da falibilidade humana, da capacidade que temos de esconder a dor, de sofrer… Enquanto descia de novo a escada, percebeu que ficava menos constrangida com os olhares de quem passava, e que parte da sua confiança havia sido recuperada.
Normalmente, ela não pediria um cigarro a um homem. Não se intrometeria em uma conversa e, com certeza, não puxaria papo. Mas estava se sentindo muito melhor. O céu estava lindo. E havia certa melancolia na expressão do comandante.
Ele estava encostado na parede ao lado da porta da cabine, segurando o cigarro entre o polegar e o indicador e os olhos fixos em um ponto no chão à sua frente. O cabelo cobria parte do rosto e os ombros estavam caídos, como se algum pensamento desagradável o atormentasse. Assim que viu Frances, ele apagou o cigarro e o colocou no bolso. Ela ficou com a impressão de que ele havia corado. Mais tarde, lembrou-se de ter ficado um pouco espantada: até aquele momento, ele parecera um autômato. Como tantos fuzileiros navais. Ela nunca imaginara que poderia haver espaço para sentimentos tão humanos quanto constrangimento, ou até mesmo culpa, por trás daquela máscara.
— Por favor, não se preocupe — disse ela. — Não por minha causa.
Ele deu de ombros.
— Eu não devia. Não em serviço.
— Por mim, tudo bem.
Ele agradeceu secamente, quase sem olhar para ela.
E, por alguma razão, em vez de entrar na cabine e desaparecer, ela permaneceu onde estava, com o casaco nos ombros, até que, de forma surpreendente até para ela mesma, perguntou se ele podia lhe dar um cigarro também.
— Não estou com vontade de entrar ainda — explicou.
Mas, mesmo constrangida e já arrependida do pedido, ficou ao lado dele.
Ele tirou um cigarro do maço e entregou a ela sem dizer uma palavra. Em seguida, o acendeu e, ao proteger a chama, sua mão roçou na dela. Frances tentou não recuar, depois pensou no que fazer para fumar depressa sem se sentir mal e ter que entrar. Era evidente que ele não queria companhia. Ela, mais do que ninguém, devia ter percebido.
— Obrigada — disse. — Vou dar só algumas baforadas.
— Fique à vontade.
Durante duas ocasiões ela reparou que estava sorrindo, o que não era comum; um gesto instintivo, conciliatório. O dele, em resposta, foi esquivo. Ficaram ali, um de cada lado da porta, com o olhar fixo nos próprios pés, nos avisos de segurança ou no extintor de incêndio, até que o silêncio ficou constrangedor.
Ela olhou de soslaio para a manga da camisa do fuzileiro.
— Qual é o seu cargo?
— Cabo.
— Suas divisas estão invertidas.
— Sou fuzileiro com três divisas.
Ela deu uma longa tragada no cigarro. Já fumara um terço.
— Pensei que três divisas significassem sargento.
— Não se estiverem invertidas.
— Não estou entendendo.
— São pelo longo tempo de serviço. Boa conduta. — Ele piscou ao observá-las, como se raramente prestasse atenção nelas. — Contribuição para deter brigas, esse tipo de coisa. Acho que é um jeito de recompensar alguém que não quer uma promoção.
Dois marinheiros surgiram no corredor. Olharam para Frances ao passar por ela, depois observaram o fuzileiro e se voltaram para ela. Frances esperou eles se afastarem. Seus passos ecoaram no corredor. Um instante depois, um breve som de conversa surgiu e desapareceu, o que indicava que a porta de uma cabine tinha sido aberta e fechada.
— Por que não quis uma promoção?
— Não sei. — Ele devia ter percebido que a resposta parecera um pouco seca, porque logo acrescentou: — Talvez porque nunca me imaginei como sargento.
O rosto dele foi tomado pela decepção, e os olhos, embora não estivessem hostis, mostravam o desconforto que ele sentia durante conversas banais. Frances conhecia aquele olhar: muitas vezes o dela era igual.
Por um instante, seus olhares se encontraram, mas ele logo desviou o seu.
— Talvez eu não quisesse a responsabilidade.
Então ela reparou na fotografia. Ele devia estar olhando para a imagem antes de ela chegar. Era uma foto em preto e branco, um pouco menor do que uma carteira, que ele segurava entre os dedos da mão direita.
— Seus filhos? — perguntou ela, indicando com a cabeça.
Ele ergueu a foto e a olhou como se pela primeira vez.
— Sim.
— Um menino e uma menina?
— Dois meninos.
Ela pediu desculpa, e os dois sorriram constrangidos.
— O mais novo precisa cortar o cabelo.
Ele lhe entregou a foto. Ela a pegou e a colocou contra a luz para observar os rostos radiantes, sem saber direito o que devia dizer.
— São simpáticos.
— A foto é de dezoito meses atrás. Devem ter crescido bastante.
Frances assentiu, como se ele tivesse compartilhado com ela um pouco da sua sabedoria de pai.
— E você?
— Ah, não… — Ela devolveu a foto. — Não.
O silêncio voltou.
— Sente falta deles?
— Todos os dias. — O tom de voz dele ficou mais rígido. — É provável que nem se lembrem mais do meu rosto.
Ela não sabia o que dizer. No que quer que tenha se intrometido na vida dele, a situação não seria atenuada por um cigarro e alguns minutos de conversa fiada.
De repente, sentiu que havia sido imprudente ao puxar assunto e que poderia ser mal-interpretada. O trabalho dele era ficar de guarda na porta da cabine. Portanto, não tinha como fugir se alguém decidisse falar com ele. E é claro que não gostaria de ser importunado toda hora por mulheres.
— Vou entrar agora — disse ela, em voz baixa. Em seguida, acrescentou: — Obrigada pelo cigarro.
Apagou-o com o pé e se abaixou para catar a guimba. Estava com medo de levá-la para dentro da cabine: o que faria com aquilo no escuro? Mas, se enfiasse no bolso, correria o risco de queimar a roupa. O fuzileiro não percebera seu dilema, mas ao vê-la hesitar diante da porta, se virou.
— Aqui — disse ele, estendendo a mão dura e calejada pelos anos de contato com sal e trabalho pesado.
Ela balançou a cabeça, mas ele aproximou ainda mais a mão, insistente. Então ela lhe entregou a guimba do cigarro e corou.
— Desculpe — sussurrou.
— Não se preocupe.
— Boa noite, então.
Ela abriu a porta e já estava entrando de mansinho na escuridão quando ouviu a voz do homem. Era baixa o suficiente para confirmar que a opinião dela sobre ele estava certa, mas amável o bastante para indicar que ele não se aborrecera.
Amável o bastante para sugerir que ele queria dar algum tipo de contribuição.
— Então, de quem é o cachorro? — perguntou ele.

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