30 de março de 2019

Capítulo 8

— Ai. Acho que não tem nada no bufê de pratos quentes que eu pensaria em comer — disse Elena a Stefan. — Metade das coisas eu nem consigo identificar.
Stefan olhava pacientemente enquanto ela passava ao bufê de saladas.
— Isto não é muito melhor — continuou ela, erguendo uma colherada aguada de queijo cottage e deixando cair no recipiente, para dar ênfase. — Pensei que a comida da faculdade seria mais comestível que a do refeitório da escola, mas, ao que parece, eu estava enganada.
Stefan soltou um ruído vago de concordância e olhou em volta, procurando um lugar para se sentarem. Ele não ia comer. Agora a comida humana não tinha o mesmo gosto, e ele usara seu Poder para atrair uma pomba até a sacada naquela manhã. Isso lhe dera sangue suficiente para se segurar até a noite, quando precisaria caçar novamente.
Depois que Elena finalmente se decidiu por uma salada, ele a levou à mesa vazia que tinha localizado.
Ela o beijou antes de se sentar, e ele foi tomado por um tremor de prazer quando a mente dos dois se conectou. A ligação familiar entre eles se estabeleceu, e ele sentiu a alegria de Elena, a satisfação por estar com ele, naquela nova vida quase normal. Abaixo disso, uma faísca de emoção atravessou Elena, e Stefan enviou-lhe um pensamento perguntando o que havia acontecido desde que tinham se encontrado de manhã.
Elena interrompeu o beijo e respondeu à pergunta que ele não verbalizou.
— O senhor Campbell, meu professor de história, conheceu meus pais quando eles estavam na faculdade. — Sua voz parecia calma, mas os olhos brilhavam, e Stefan percebeu o quanto aquilo era importante para ela. — Ele foi amigo dos meus pais. Pode me contar histórias sobre eles, partes da vida deles que eu desconheço.
— Que bom — disse Stefan, satisfeito por ela. — Como foi a aula?
— Foi ótima. — Elena começou a comer a salada. — Nas primeiras semanas, falaremos dos tempos coloniais. — Ela levantou a cabeça, com o garfo no ar. — E você? Como foi sua aula de filosofia?
— Boa. — Stefan parou.
Boa não era realmente o que ele pretendia dizer. Era estranho se sentar em uma sala de aula de novo. Ele frequentou a universidade algumas vezes durante sua longa história, vendo a moda mudar na educação. No início, seus colegas de turma formavam um seleto grupo de jovens ricos, e agora havia uma mescla mais diversificada de meninos e meninas. Mas havia uma semelhança essencial em todas essas experiências. O professor lecionava, os alunos ou se entediavam ou se impacientavam. Certa superficialidade de pensamento, um pudor de expor sentimentos mais profundos.
Damon tinha razão. Este lugar não era para Stefan; ele só estava interpretando, de novo. Matando parte de seu tempo ilimitado. Mas Elena — ele a olhou, seus olhos azuis brilhantes fixos nele —, ela pertencia a este lugar. Merecia a chance de uma vida normal, e ele sabia que ela não iria para a faculdade sem ele.
Será que ele podia dizer isso a Elena? Não queria empanar o ânimo naqueles olhos de lápis-lazúli, mas tinha jurado a si mesmo que sempre seria franco com ela, que a trataria como igual. Ele abriu a boca, na esperança de explicar parte do que sentia.
— Soube de Daniel Greenwater? — perguntou uma menina perto deles, a voz aguda de curiosidade enquanto ela e os amigos sentavam-se em cadeiras vagas do outro lado da mesa.
Stefan fechou a boca e se virou para ouvir.
— Quem é Daniel Greenwater? — perguntou outra pessoa.
— Olhe — disse a menina, abrindo um jornal que ela segurava. Olhando de lado, Stefan viu que era o jornal do campus. — É do primeiro ano e simplesmente desapareceu. Saiu do centro acadêmico quando estava fechando ontem à noite, e o colega de quarto disse que não voltou para o alojamento. É bem sinistro.
Os olhos de Stefan encontraram os de Elena na mesa, e ela ergueu uma sobrancelha, pensativa. Seria algo que eles deviam investigar?
Outra menina na outra ponta da mesa deu de ombros.
— Ele deve ter ficado estressado e foi para casa. Ou talvez o colega de quarto dele o tenha matado. Sabia que você tira nota máxima automaticamente quando seu colega de quarto morre?
— Isso é um mito — disse Stefan distraidamente, e as meninas olharam para ele, surpresas. — Posso ver o jornal um minuto, por favor?
Elas o passaram adiante, e Stefan examinou a foto na primeira página. Uma foto de anuário escolar sorria para ele, um garoto de cabelo bagunçado e magrelo, com um leve prognatismo e olhos simpáticos. Ele reconheceu o rosto. Tinha achado o nome familiar.
— Ele mora no nosso alojamento — disse Stefan mansamente a Elena. — Lembra dele na orientação? Parecia feliz de estar aqui. Não acho que tenha ido embora, não por livre e espontânea vontade.
Elena o fitou com os olhos arregalados, agora apreensivos.
— Acha que aconteceu alguma coisa ruim com ele? Houve algo estranho no pátio na nossa primeira noite aqui. — Ela engoliu em seco. — Disseram que uma menina tinha se metido em problemas, mas a polícia não nos contou nada. Acha que pode estar relacionado ao desaparecimento de Daniel Greenwater?
— Não sei — respondeu Stefan rigidamente. — Mas estou preocupado. Não gosto de nada fora do comum. — Ele se levantou. — Está pronta para ir? — Elena assentiu, embora metade do almoço ainda estivesse na bandeja. Stefan devolveu o jornal educadamente às meninas e seguiu Elena para fora do refeitório.
— Talvez seja paranoia nossa, porque estamos acostumados a coisas horríveis — disse Elena depois que eles estavam no caminho que subia a colina até seu alojamento. — Mas as pessoas desaparecem o tempo todo. Às vezes meninas são assediadas ou atacadas. É uma infelicidade, mas não quer dizer que haja alguma trama sinistra por trás disso.
Stefan parou, olhando um cartaz pregado numa árvore perto do refeitório. Aluna Desaparecida, dizia a legenda na foto de uma menina.
— Prometa que terá cuidado, Elena. Fale com Meredith e Bonnie também. E com Matt. Nenhum de vocês deve andar pelo campus sozinho. Não à noite, pelo menos.
Elena assentiu, pálida, vendo a foto no cartaz. Stefan sentiu uma forte onda de remorso, apesar da ansiedade. Ela estava tão animada quando eles se encontraram para almoçar, e agora aquela sensação havia sumido.
Ele passou o braço pela cintura de Elena, querendo abraçá-la, mantê-la segura.
— Por que não saímos esta noite? — perguntou ele. — Preciso ir a um grupo de estudos, mas não deve demorar muito. Vamos jantar fora do campus. Talvez você pudesse passar a noite fora? Eu me sentiria melhor se soubesse que está segura.
Elena o fitou, os olhos de repente brilhando de alegria.
— Ah, desde que essa seja a única razão para me querer em seu quarto — disse ela, sorrindo. — Detestaria pensar que você tem planos secretos para minha virtude.
Stefan pensou na pele leitosa e no cabelo dourado e sedoso de Elena, em seu calor, no delicioso vinho de seu sangue. A ideia de tê-la nos braços de novo, sem tia Judith e a senhoria dele, a Sra. Flowers, no mesmo corredor, era inebriante.
— Claro que não — murmurou ele, baixando a cabeça em direção à dela. — Eu não tenho planos secretos. Vivo apenas para servi-la.
Ele beijou Elena novamente, enviando-lhe todo seu amor e desejo.
No alto, Stefan ouviu um grasnado estridente e um bater de asas e, com os lábios ainda nos de Elena, franziu a testa. Ela pareceu sentir a súbita tensão e se afastou, seguindo o olhar até o corvo preto que rodava acima deles.
Damon. Vigiando-os, vigiando Elena, como sempre.

* * *

— Excelência. — A voz de Ethan soou pela quadra externa de basquete, onde os aspirantes estavam reunidos. Amanhecia, e não havia ninguém por perto exceto Ethan e os outros, os olhos inchados de sono. — Como sabem de nosso primeiro encontro, cada um de vocês aqui exemplifica o auge de uma ou mais realizações. Mas isso não basta. — Ele parou, olhando de um rosto a outro. — Não basta que cada um de vocês tenha uma parte do melhor. Vocês podem englobar todos esses atributos. Durante o processo de admissão, descobrirão mundos dentro de si que nunca imaginaram existir.
Matt friccionou os tênis contra o asfalto e tentou manter a expressão cética. Esperar que eles alcançassem o pináculo do sucesso artístico ou acadêmico, ele sabia, era um tiro no escuro.
Não tinha muita modéstia, mas era realista e podia citar suas maiores virtudes: atleta, bom amigo, honrado. Também não era burro, mas se a excelência no intelecto e na criatividade eram requisitos para fazer parte da Vitale Society, ele podia desistir agora mesmo.
Esfregando a nuca, ele olhou seus companheiros aspirantes. Era tranquilizador ver que a maioria mal conseguia disfarçar a expressão de pânico: aparentemente “englobar todos esses atributos” não era algo que eles também tenham considerado. Chloe, a garota bonitinha de rosto redondo que ele notou na primeira reunião, captou seu olhar e piscou, os cílios roçando de leve, e ele sorriu, sentindo-se estranhamente feliz.
— Hoje — anunciou Ethan — trabalharemos no aspecto atlético.
Matt suspirou de alívio. Atletismo ele podia fazer.
Em volta, ele viu as expressões deprimidas. Os intelectuais, os líderes, os gênios criativos... eles não ansiavam por testar seu valor atlético. Um murmúrio baixo de rebeldia cresceu entre eles.
— Não se deprimam — disse Ethan, rindo. — Garanto-lhes que, quando se tornarem membros plenos da sociedade, cada um de vocês terá alcançado o auge de sua perfeição física. Pela primeira vez, sentirão o que é estar verdadeiramente vivo. — Seus olhos brilharam de possibilidades.
Ethan continuou a delinear as tarefas dos aspirantes. Eles estavam prestes a embarcar numa corrida de 25 quilômetros, com vários obstáculos pelo caminho.
— Preparem-se para se sujar — disse ele animadamente. — Mas será maravilhoso. Quando terminarem, terão realizado algo novo. Podem ajudar uns aos outros. Mas cuidado: se não concluírem a corrida em três horas, não serão convidados a passar à próxima fase do processo. — Ele sorriu. — Só os melhores podem ser parte da Vitale Society.
Matt olhou em volta e viu que os aspirantes, até os que davam a impressão de nunca saírem do laboratório de ciências ou da biblioteca, amarravam os tênis com mais força e se alongavam, com uma expressão decidida.
— Santa mãe do céu — disse uma voz ao lado dele. O tom era gentil e sincero, o sotaque de algum lugar mais ao sul do que a Virgínia, e Matt sorriu antes mesmo de ver que era Chloe. — Imagino que você seja a única pessoa aqui que não terá muitos problemas com isto — comentou ela.
Ela era tão lindinha. Covinhas apareciam nas bochechas quando ela sorria e o cabelo, preto e curto, caía em cachos atrás das orelhas.
— Oi, meu nome é Matt — disse ele, sorrindo para ela.
— Sei disso — respondeu, animada. — Você é nosso astro do futebol.
— E você é Chloe, a incrível artista — elogiou ele.
— Ah. — Ela corou. — Não sei nada disso.
— Adoraria ver seu trabalho um dia desses — disse Matt, e o sorriso dela se ampliou.
— Alguma dica para hoje? — perguntou ela. — Eu nunca corro, a não ser que esteja prestes a perder o ônibus, e acho que vou me arrepender disso.
O rosto dela era tão atraente que Matt por um momento teve vontade de abraçá-la. Em vez disso, franziu a testa pensativamente para o céu.
— Com essas condições — disse ele —, o melhor a fazer é inclinar os braços 45 graus em relação ao chão e correr em um ritmo mais leve.
Chloe o fitou por um minuto e riu.
— Está brincando comigo. Isso não é justo. Não entendo nada dessas coisas.
— Eu te ajudo — disse Matt, sentindo-se bem. — Podemos fazer isto juntos.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!