14 de março de 2019

Capítulo 8

Durante a viagem, as esposas tiveram palestras e demonstrações práticas sobre problemas referentes ao racionamento nas compras e no preparo da comida. Suas porções nos estágios finais da viagem sofreram uma pequena redução, para que o efeito da mudança para uma alimentação racionada não fosse severo demais.
DAILY MIRROR, 7 DE AGOSTO DE 1946

CINCO DIAS

Com uma mudança de humor tão abrupta e inflexível como acontecia com as esposas a bordo, as condições do mar pioraram muito no trecho conhecido como Sydney Heads. Os homens diziam, com um misto de alegria e apreensão, que a Grande Baía Australiana indicaria quem eram os verdadeiros marinheiros entre eles.
Era como se, após ter dado à tripulação uma falsa sensação de segurança, o destino decidisse mostrar a vulnerabilidade e a imprevisibilidade do futuro deles. O mar azul tranquilo se tornou mais escuro e barrento, e logo surgiram enormes ondas ameaçadoras. O vento, antes uma brisa suave, soprava rajadas fortes, logo intensificadas para um verdadeiro vendaval. Uma tempestade atingiu os homens que, mesmo sufocados pelas roupas impermeáveis, se empenhavam para prender com mais firmeza os aviões nos conveses. O navio era jogado para o alto e depois voltava a atingir as ondas, rangendo com o esforço.
Foi nesse momento que as passageiras, que haviam passado os dias anteriores vagueando pelos conveses como um bando alvoroçado, se recolheram para suas respectivas cabines, primeiro uma a uma, depois em grupos. As que conseguiam se manter de pé seguiam com dificuldade pelos corredores, cambaleantes e pálidas, apoiando-se nas paredes. As palestras foram canceladas, assim como o treinamento em botes salva-vidas que estava programado, quando ficou claro que apenas um número muito pequeno de mulheres conseguiria participar. As oficiais ainda em condições de andar se empenharam ao máximo para distribuir remédios para enjoo.
O estrondo do mar atingindo o navio, o som intermitente da sirene e o incessante ruído de correntes e aviões tornava impossível dormir. Avice e Jean (tinha que ser Jean, não é mesmo?) estavam deitadas em seus beliches, voltadas para seus mundos particulares de náusea e infortúnio. Pelo menos, o mundo de Avice era particular, mas ela sabia cada sintoma de Jean: que seu estômago estava revirado, que até um pedaço de pão seco a fizera vomitar do lado de fora do refeitório no convés de voo, que aquele terrível fornalheiro que as seguira até a lavanderia tinha comido um sanduíche de queijo com Vegemite bem na frente dela só para deixá-la ainda mais enjoada. E, como se não bastasse, ele comia de boca aberta…
— Sim, sim, Jean. Posso imaginar a cena — dissera Avice, tapando os ouvidos.
— Você não vem tomar chá? — perguntou Margaret, parada no vão da porta. — Hoje também tem patê de carne.
A cachorrinha estava dormindo na sua cama, aparentemente sem se importar com o mau tempo.
Jean se virou para a parede. Sua resposta, talvez positiva, foi inaudível.
— Vamos, então, Frances? — convidou Margaret. — Acho que seremos só eu e você.

* * *

Margaret Donleavy conhecera Joseph O’Brien dezoito meses antes, quando seu irmão Colm o levara para casa depois do pub, com outros seis ou sete amigos que tinham passado a conviver com os Donleavy durante os últimos meses da guerra. Era o jeito que seus irmãos encontraram de manter a casa cheia após a morte da mãe, dizia Margaret. No início, eles não conseguiram suportar o vazio que ficara, o silêncio ensurdecedor causado pela ausência de uma pessoa tranquila. Seu pai e os irmãos não queriam que ela e Daniel ficassem sozinhos enquanto eles afogavam a tristeza no pub (eram atenciosos, por mais que nem sempre demonstrassem), por isso, durante vários meses, levaram o pub para a fazenda.
Havia dias em que cerca de quatorze ou quinze homens se amontoavam na parte de trás da picape, com a presença frequente de americanos cheios de destilados e cerveja, ou irlandeses, cujas canções deixavam Murray com lágrimas nos olhos.
Todas as noites a casa era preenchida pelo som de homens cantando e bebendo.
De vez em quando, Daniel chorava, tentando entender tudo aquilo.
— Joe era o único que não me convidava para sair nem me perturbava — contou ela a Frances, ao atacar o purê de batatas assim que se sentaram no refeitório quase vazio. — Os outros me tratavam como se eu fosse uma garçonete ou tentavam me apalpar quando meus irmãos não estavam olhando. Certa vez, precisei bater com uma pá em um deles, que foi atrevido demais no curral das vacas. — Ela segurou a bandeja de metal antes que deslizasse para o outro lado da mesa. — Ele nunca mais voltou.
Uma semana mais tarde, Colm havia flagrado outro amigo espiando pelo buraco da fechadura do banheiro, e ele, Niall e Liam tinham dado uma surra histórica no sujeito. Depois disso, acabaram parando de levar homens para casa. A não ser Joe, que ia todos os dias. Ele provocava Daniel, que achava graça, dava conselhos ao pai dela sobre a fazenda, pois seu próprio pai também tinha uma pequena propriedade rural em Devon. Ele a observava discretamente e oferecia cigarros e meias de nylon pequenas demais para ela.
— No fim das contas, tive que perguntar por que ele sequer havia me chamado para sair. Ele disse que pensou que, se ficasse tempo demais na nossa casa, eu acabaria achando que ele fazia parte da mobília.
Eles tinham saído pela primeira vez exatamente três meses antes de a Força Aérea dos Estados Unidos jogar a bomba atômica em Hiroshima. O casamento acontecera algumas semanas depois, durante o último dia de folga de Joe.
Margaret usara o vestido de noiva da mãe. Ela sabia que seriam felizes juntos. Dizia que Joe era igual aos seus irmãos: não levava nem ela nem a si mesmo muito a sério.
— Ele ficou contente com o bebê?
— Quando contei que estava grávida, ele perguntou se o bebê ia nascer na época em que os cordeiros davam cria.
Ela riu com desdém.
— Ele não faz o tipo romântico — observou Frances, sorrindo.
— Romantismo não é mesmo o forte dele — concordou Margaret. — Mas não me importo. Nunca liguei muito para essas frescuras. Depois de passar a vida inteira com quatro homens em uma fazenda, é difícil associar romance às pessoas do mesmo sexo daquelas que passaram anos esfregando meleca em você embaixo da mesa da cozinha. — Ela riu de novo, comeu mais uma garfada de purê e prosseguiu: — Eu nem pensava em me casar. Para mim, casamento tinha mais a ver com cozinhar e lavar meias. — Baixou os olhos para o próprio corpo e seu sorriso desapareceu. — De vez em quando ainda me pergunto como consegui acabar assim.
— Sinto muito pela sua mãe — disse Frances.
Margaret reparou que ela havia repetido o purê, mas ainda assim estava magra como um caniço. No seu caso, a posição do bebê não lhe permitiria dar mais uma garfada sem ter uma indigestão. A sobremesa foi um manjar que o chef gostava de comparar com uma bela nadadora, como explicou, rindo, porque tremia no prato e tinha lindas curvas.
— Como foi que ela morreu? Ah, me desculpe — acrescentou Frances ao ver o rosto pálido de Margaret enrubescer. — Não quis ser… indelicada. É coisa de enfermeira.
— Não… não se preocupe. — disse Margaret.
Elas se agarraram à mesa, que estava presa ao chão, e com os braços impediram que sal, pimenta e copos saíssem voando.
— Foi de repente — explicou, por fim, quando o balanço do navio diminuiu. — Ela parecia estar bem, e um minuto depois… se foi.
O refeitório estava quase em silêncio, exceto pelo murmúrio das mulheres corajosas ou resistentes o suficiente para continuar ali, contemplando a comida, e pelo ruído ocasional de alguma louça ou bandeja se espatifando no chão, vítima da fúria de mais uma onda. As filas dos primeiros dias tinham desaparecido, e as poucas jovens ainda com apetite passavam várias vezes na frente das travessas, demorando para decidir.
— Eu diria que esse é um bom jeito de partir — observou Frances. Seus olhos, quando encarou Margaret, estavam límpidos e firmes, de um azul vivo. — Ela não deve ter sentido nada. — Fez uma pausa e, em seguida, acrescentou: — É verdade, coisas muito piores podiam ter acontecido com ela.
Margaret com certeza teria refletido mais sobre essa frase se não tivesse escutado risos vindo de um canto do refeitório. O que a princípio era um barulho de fundo já durava alguns minutos, mas se tornara bem audível, e parecia aumentar e diminuir de acordo com a intensidade das ondas.
As duas olharam para trás e descobriram que algumas mulheres não estavam mais sozinhas: contavam com a companhia de vários homens com macacões de trabalho. Margaret reconheceu um deles, que ela cumprimentara no dia anterior, ao encontrá-lo limpando o convés. Os homens estavam agrupados em torno das mulheres, que pareciam contentes em receber um pouco de atenção masculina.
— Jean devia estar aqui — disse Margaret, distraída, antes de voltar a atenção para o prato.
— Acha que devemos levar alguma coisa para elas? Um pouco de purê de batata? — sugeriu Frances.
— Já vai estar frio quando chegarmos à cabine. Além disso, não gostaria que Jean comesse alguma coisa em cima do meu beliche. Já basta o mau cheiro de agora.
Frances olhou para o lado de fora e contemplou o mar enfurecido, cujas ondas às vezes quebravam com violência nas janelas manchadas de sal.
Ela era reservada, deduziu Margaret, o tipo de pessoa que parece estar sempre com outro assunto na cabeça, mesmo quando é ela quem está falando.
— Espero que Maude Gonne esteja bem — disse, em voz alta.
Frances se virou, como se tivesse sido distraída de pensamentos distantes.
— Estou dividida entre a vontade de conferir se ela está realmente bem e a sensação de que não vou aguentar passar mais um minuto naquela maldita cabine. Estou enlouquecendo. Principalmente com aquelas duas reclamonas — continuou Margaret.
Frances assentiu de forma quase imperceptível. Era o máximo que ela faria para demonstrar que concordava, suspeitava Margaret. No entanto, ela se inclinou à frente para que a escutassem apesar do barulho no refeitório.
— Podemos levá-la mais tarde para dar uma volta no convés, se você quiser. Para tomar um pouco de ar. Você poderia colocá-la naquela cesta de vime e a esconderíamos debaixo de um casaco.
— Olá, senhoras.
Era o mecânico. Margaret se sobressaltou, depois olhou para trás dele, onde estavam as garotas agitadas com quem ele acabara de falar. Algumas, inclusive, continuavam olhando para ele por cima do ombro.
— Bom dia — respondeu ela em tom seco.
— Eu estava agora mesmo conversando com minhas amigas ali e achei que devia comunicar a vocês que vai ter uma festinha de “boas-vindas a bordo” no alojamento dos fornalheiros esta noite. — Ele tinha um sotaque e uma desenvoltura que lhe davam bastante autoconfiança.
— Obrigada por ter pensado em nós — respondeu Margaret, tomando um gole de chá —, mas tem uma pessoa que fica de olho na nossa porta.
— Não esta noite, senhoras. Os monitores da moralidade foram dispensados por causa do mau tempo. Teremos uma ou duas noites de liberdade. — Piscou para Frances. Parecia que piscava sem parar desde que nascera. — Vai ser divertido. Arranjamos algumas bebidas, podemos jogar cartas e talvez apresentá-las a alguns costumes ingleses.
Margaret ergueu os olhos para o teto.
— Não é para nós, obrigada.
— Cartas, madame, jogos de cartas. — Sua expressão demonstrava espanto e ofensa. — Não sei o que pensou. Que coisa! A senhora é uma mulher casada e tudo o mais…
Mesmo sem querer, Margaret riu.
— Bem, uma partida de cartas não faz mal a ninguém. O que vocês jogam?
— Gin rummy. Newmarket. Ou o velho e conhecido pôquer.
— O único que é realmente um jogo de cartas — disse ela —, mas só jogo por dinheiro.
— Esse é o tipo de mulher que me agrada.
— É provável que eu acabe com você. Aprendi com os melhores.
— Vou correr o risco. Nem quero saber de quem vou tirar o dinheiro.
— Ah, mas vai ter espaço para mim? — perguntou ela, se recostando na cadeira para deixar sua barriga bem visível. Esperou para ver a reação do rapaz.
Ele hesitou apenas por uma fração de segundo.
— Arranjaremos espaço para a senhora. Qualquer jogador decente de pôquer é bem-vindo no alojamento dos fornalheiros.
Foi como se eles tivessem reconhecido alguma coisa um no outro.
— Dennis Tims.
Ele estendeu a mão, que ela apertou.
— Margaret… Maggie… O’Brien.
Ele fez um sinal com a cabeça para Frances, que não tinha estendido a mão.
— Estamos quase na mesma direção de vocês, quatro conveses abaixo. Desçam a escada ao lado dos banheiros dos oficiais, depois sigam o som da diversão.
Ele se despediu, começou a se afastar, depois acrescentou, em voz baixa:
— Se ficar entalada na escada, Mags, dê um grito que mandarei alguns colegas para ajudar.
A perspectiva de passar algumas horas na companhia de homens deixou Margaret visivelmente animada. Não estava atrás de um flerte, ao contrário de outras mulheres, apenas do mesmo descomplicado ambiente masculino que tinha em casa. Ela suspirou fundo. A presença de Dennis lhe mostrara como era difícil sua nova vida em meio apenas a mulheres.
— Ele parece um cara legal — comentou, em tom alegre, se levantando da mesa com dificuldade.
— É verdade — concordou Frances, seguindo para o carrinho das bandejas para lavar.
— Você vai comigo, Frances?
Margaret precisou se apressar para acompanhar o ritmo da colega alta e magra que seguia a passos largos pelo corredor, mantendo o equilíbrio apesar do balanço forte do navio. Frances ficou com o rosto virado para o outro lado enquanto Dennis conversava com a gente, pensou Maggie. Passaram-se alguns minutos até que ela se deu conta de que, ao longo das duas horas que haviam passado juntas, Frances não dissera uma palavra sequer sobre si mesma.

Querido George,
Espero que esta carta chegue até você e que sua perna esteja bem melhor.
Não tenho certeza se você recebeu a última que mandei, porque faz muito tempo que não tenho resposta. Tomei a liberdade de numerar esta para que você possa saber em que ordem foram mandadas. Todos nós estamos bem aqui em Tiverton. O jardim está simplesmente lindo, e os canteiros novos estão prontos. Patrick anda trabalhando muito, como sempre, e contratou um novo sujeito para ajudá-lo com algumas das contas maiores. Isso fez aumentar para cinco o número total de empregados, o que representa uma despesa e tanto nestes anos de orçamento reduzido.
Estou ansiosa para receber notícias suas, George, porque já perguntei diversas vezes se você quer assumir o aluguel do chalé que fica no limite da propriedade dos Hamworth. Falei pessoalmente com Lorde Hamworth (nos vimos algumas vezes nos encontros promovidos por sua esposa) e ele disse que fica muito feliz em considerar seu nome, tendo em vista os relatos brilhantes do seu serviço. No entanto, ele precisa de uma resposta rápida, meu querido, pois outras pessoas também demonstraram interesse. Há uma professora aposentada na casa ao lado, a Sra. Barnes, uma excelente pessoa, de Cheltenham. E já encontramos alguém para ajudá-lo, portanto não precisa se preocupar em esquentar seus jantares!
E, como eu já disse, Patrick vai ficar feliz em apresentá-lo ao que há de melhor na sociedade de Tiverton. Ele é um nome importante no Rotary Club local e conseguiria colocar você em contato com as pessoas certas da região.
Agora que terá algum tempo livre, que tal se associar ao clube de automóveis local? Ou talvez praticar um pouco de iatismo? Tenho certeza de que você vai continuar amando barcos até os últimos anos da sua vida.
Outro militar aposentado acabou de se mudar para cá com a esposa, mas acho que ele pertence à Força Aérea, então você teria alguém com quem dividir suas “histórias de guerra”. Tenho a impressão de que é uma pessoa reservada — não trocou uma palavra comigo na rua! — e parece ter um problema no olho. Imagino que seja um ferimento de guerra, embora Marjorie Latham jure que ele pisca para ela.
Tenho que ir agora, George, não sem antes avisar que nossa irmã está um pouco melhor. Ela pediu para agradecer por tudo que você fez, e disse que em breve espera poder lhe escrever pessoalmente. Ela tem enfrentado a perda com muita coragem.
Rezo, como sempre, para que sua viagem ocorra em segurança.
Da irmã que o ama,
Iris

Sentado em sua câmara, com uma das mãos na taça de vinho de cristal e outra no garfo que distraidamente erguera para levar à boca, o comandante Highfield lia a carta que relutava em abrir desde Sydney. O garfo já estava suspenso havia vários parágrafos, e quando chegou ao final da carta, o comandante o largou e empurrou para longe seu prato de filé de presunto com batatas cozidas que já esfriara.
Ele ficara contente com a mudança no tempo: era mais fácil administrar a presença das mulheres quando elas ficavam confinadas em seus beliches e cabines e, com exceção de dois casos sérios de vômito e da garota que ganhara hematomas ao cair do beliche de cima, a enfermaria não tinha sido muito utilizada. Ainda assim, ele não estava conseguindo tirar o médico da cabeça.
No início, atribuíra o problema à umidade. A dor aguda que sentia seria consequência do reumatismo, causado pela repentina queda na pressão. A dor na perna, no entanto, se tornara cada vez mais insistente e também não era a mesma de antes, pois às vezes ficava mais penetrante, como um sinal de perversidade. Ele sabia que precisava se consultar: o médico em Sydney insistira que era necessário. Mas tinha certeza de que, se descobrissem o que ele suspeitava, teriam uma boa razão para privá-lo daquela última viagem. Ele seria mandado de avião para casa. E até mesmo um navio cheio de mulheres era preferível a navio nenhum.
Alguém bateu na porta. Como se por reflexo, Highfield escondeu a perna embaixo da mesa.
— Entre.
Era Dobson, carregando um calhamaço de papéis.
— Desculpe incomodá-lo, comandante, mas trouxe a lista atualizada dos doentes. Achei que gostaria de saber que cinco das oito oficiais não têm condições de trabalhar.
— Todas doentes?
— Quatro doentes, comandante. A outra precisa ficar de repouso porque caiu da escada ao lado da sala de transmissão e torceu o tornozelo.
Dobson olhava fixo para a comida intocada. Sem dúvida, mais tarde seria relatado na praça-d’armas e discutiriam o motivo disso, pensou Highfield.
— Que diabo ela estava fazendo fora da sala de transmissão?
— Estava perdida, comandante.
Dobson recuperou com destreza o equilíbrio quando o chão balançou sob seus pés e a chuva bloqueou a visão pela janela.
— Um dos mecânicos encontrou duas jovens no depósito de farinhas número dois hoje de manhã. De algum jeito, elas conseguiram se trancar lá dentro. Parece que muitas não sabem ler mapa.
O vinho deixara um gosto ácido na boca. Highfield suspirou baixinho.
— E como vão ficar as rondas desta noite?
— Pensei em requisitar alguns fuzileiros navais para essa tarefa, comandante. Clive e Nicol são muito responsáveis. Para ser sincero, não acho que teremos muitos problemas com as mulheres durante a travessia. Eu diria que pelo menos metade delas está ocupada demais choramingando na cama para fazer alguma besteira. Os refeitórios estão quase vazios.
Dobson tinha razão. No fundo, Highfield esperava que o mau tempo durasse as seis semanas inteiras.
— Ótimo. Coloque os homens para fazer isso. Como está o nível da água?
— Não é dos piores, comandante. Estamos quase conseguindo alcançar o nível máximo, mas devo dizer que os sistemas deste bom e velho navio estão bem cansados. O maquinário parece resistir ainda graças a alguns remendos e sorte. De todo modo, é bom que muitas mulheres fiquem na cama. — Ele riu. — Menos cabelos para lavar, essas coisas.
— Isso mesmo. Bem, tenho pensado no assunto. Não se esqueça de providenciar mais uma palestra sobre a regra da economia de água. E que seja compulsória. Para quem desrespeitar, a ameaça de ficar sem água nos três dias antes do reencontro com os maridos deve resolver a questão.
Dobson saiu da câmara. Havia algo irritante no modo como ele andava. Sonhava com o cargo de comandante, conforme Rennick, intendente de Highfield, lhe contara mais de uma vez. Ele ficava feliz com a promoção dos homens que tinham trabalhado sob seu comando, mas algo em Dobson o incomodava. Alguma coisa nos olhos daquele sujeito lhe dizia que, fosse pelo que acontecera com Hart ou pela sua aposentadoria iminente, ele podia se considerar descartado. Apesar do seu histórico, da sua posição, Highfield não era mais um homem com quem contavam.
— Esse sujeito é um cretino — disse Rennick quando chegou para recolher o prato do comandante.
Ele trabalhava com Highfield havia quase dez anos, e dava suas opiniões com a confiança de quem tinha um longo relacionamento.
— É um cretino, mas é o único imediato que tenho.
— Os homens não o respeitam. Ele não vai ajudar em nada nesta viagem.
— Sabe de uma coisa, Rennick? Cretino ou não, neste momento Dobson é a menor das minhas preocupações.
O intendente deu de ombros. Seu rosto enrugado de escocês estava fixo no comandante com uma expressão que sugeria que os dois sabiam mais do que preferiram contar. Quando ele saiu da câmara, os olhos de Highfield voltaram para a carta à sua frente, em cima da mesa de mogno. Depois pegou a taça de vinho com uma das mãos e com a outra jogou o papel no lixo.

* * *

Dennis tinha se enganado a respeito do fuzileiro naval. Quando Margaret e Frances voltaram para a cabine, ele estava ali do lado de fora, com a mão erguida como se fosse bater na porta.
— Ei! — gritou Margaret, tentando correr pelo corredor, apesar da sua barriga pesada e do chão instável. — Ei!
O fuzileiro baixou a mão para permitir que Margaret parasse entre ele e a porta.
— Posso ajudar? — perguntou ela, ofegante e segurando a barriga.
— Trouxe alguns biscoitos para as senhoras. Ordem do comandante. Estamos fazendo isso com quem está doente.
— Elas estão dormindo — argumentou Margaret. — É melhor não incomodá-las, não é mesmo, Frances?
A colega encarou o homem, mas logo desviou o olhar.
— É, sim.
— Frances é enfermeira — explicou Margaret. — Ela sabe o que é melhor para quem está doente.
Houve um breve silêncio.
— Biscoitos costumam ajudar — disse Frances.
O fuzileiro segurava o pacote com ambas as mãos.
— Posso deixá-los com a senhora, então?
— Sim, obrigada.
Margaret segurou o pacote de biscoitos e se encolheu: o bebê não tinha gostado da movimentação.
O fuzileiro estava com os olhos fixos em Frances. Quando percebeu que Margaret o observava, desviou rapidamente o olhar.
— Não vou estar aqui esta noite. Alguns colegas estão doentes por causa do mau tempo, então preciso ajudar nas rondas. Mas tenho permissão para passar aqui, se quiserem. — Ele falava depressa, como se não se sentisse à vontade com uma conversa descontraída.
— Não será preciso. Ficaremos bem — respondeu Margaret, com um grande sorriso. — De qualquer jeito, obrigada. E não precisa nos chamar de “senhora”. Parece um pouco… formal.
— São ordens, senhora.
— Ah. Ordens.
— Isso mesmo.
Ele ergueu a mão para se despedir.
— Até logo, então. E obrigada pelos biscoitos — disse Margaret, acenando com a ponta dos dedos.
Ela estava rezando para que Maude Gonne, alertada por sua voz, não latisse.
Quando elas abriram a porta, Jean acordou, erguendo o rosto pálido que estivera embaixo do cobertor. Ela recusou os biscoitos e se sentou devagar, deixando à mostra a parte de cima da camisola de flanela estampada com pequenos botões de rosa. Margaret reparou que ela tinha uma aparência surpreendentemente jovem.
— Acha que devemos levar alguma coisa? — perguntou Margaret.
Maude Gonne tinha pulado para o seu colo e tentava lamber seu rosto.
— Levar alguma coisa para onde?
— Para a festa de hoje. Uma bebida ou outra coisa.
— Eu não vou — avisou Frances.
— Você precisa ir! Não posso ir sozinha.
Jean semicerrou os olhos, que estavam sombreados.
— Ir aonde? — murmurou.
— A uma festinha lá embaixo — respondeu Margaret. — Combinei de jogar uma partida de pôquer. Vou para lá depois de levar Maude Gonne para um rápido passeio. Vamos, Frances, você não pode ficar aqui sentada a noite inteira. Vai acabar entediada.
— Não é programa para mim — comentou Frances, mas sem parecer muito segura.
— Posso te ensinar a jogar.
— Vocês não vão me deixar aqui sozinha — reclamou Jean, jogando as pernas por cima da beirada do beliche.
— Tem certeza? — perguntou Margaret. — O mar está muito agitado lá fora.
— É melhor do que vomitar na companhia da “Sra. Arrumadinha” — disse ela, apontando o polegar para a silhueta adormecida de Avice, no beliche do lado oposto, onde estava pendurado um longo robe de seda rosa-claro. — Vou com você. Não posso perder essa festa. Vai ser a coisa mais divertida que acontece aqui desde que partimos.

* * *

Se Margaret achara as cabines das esposas estreitas, era porque não imaginava que fosse possível abarrotar vários homens em um lugar tão pequeno como aquele alojamento, não muito maior do que a sala da casa de um trabalhador comum. O primeiro indicador foi o cheiro: o mesmo almíscar que caracterizara os quartos dos seus irmãos na fazenda, porém muito mais forte, mais concentrado, chegando às suas narinas até mesmo com a porta fechada. Era o cheiro de corpos masculinos em contato permanente, próximos demais, lavados ou não; de suor, álcool e cigarro; de roupa suja e outras coisas sobre as quais nem Frances nem Margaret queriam pensar. Não era nenhuma surpresa: quatro andares abaixo delas, bem na linha de flutuação, era pouco provável que aquele lugar tivesse algum dia sentido mais do que um levíssimo sopro de ar fresco.
Localizada logo acima da casa de máquinas a estibordo, a área também estava sujeita a uma vibração quase constante dos motores enormes, cujo ruído regular e ensurdecedor fazia o chão tremer sob seus pés.
— Acho que devíamos voltar — sugeriu Frances.
Ela havia se arrastado até lá e previsto o problema no fim de cada corredor. Margaret acabara puxando a colega pela manga, decidida a fazê-la se divertir um pouco, pelo menos uma vez, a qualquer custo.
— Ao lado dos banheiros dos oficiais, certo? Acha que são estes?
— Não vou entrar para conferir — respondeu Jean.
Durante os minutos que se passaram entre sair da cabine e descer a escada, ela tinha recuperado a cor no rosto. Atrás de Jean, Frances tropeçava e tentava retomar o equilíbrio apesar do balanço do navio.
— É aqui. Olá? — gritou Margaret e bateu timidamente na porta, sem saber se alguém conseguiria ouvir em meio a tanto barulho. — Dennis está aí?
Houve um segundo de silêncio e logo depois uma explosão de comemoração e assobios. Alguém gritou:
— Animem-se, companheiros, temos visita!
Após vários minutos, durante os quais Margaret e Frances ficaram se perguntando se não seria melhor ir embora, e Jean tentou, sem sucesso, espiar pela pequena fresta iluminada, a porta se abriu. Dennis apareceu, cheiroso, com uma camisa bem passada e uma garrafa com um líquido âmbar. Abriu os braços para convidá-las a entrar.
— Senhoras — disse, fazendo uma mesura —, bem-vindas ao verdadeiro coração do Victorious.
Dos trinta e dois homens alojados naquele setor, apenas metade estava presente, e mesmo assim as mulheres ficaram tão próximas do sexo oposto que, em circunstâncias normais, teriam esperado um noivado iminente. Frances passou a primeira meia hora espremida no único pedacinho livre da parede, pois a presença de tantos homens, vários sem camisa, parecia deixá-la aterrorizada demais para se sentar. Jean não parava de rir, com o rosto ruborizado, e gritava “Atrevidos!” num tom de voz falsamente rígido toda vez que não conseguia pensar em nada mais interessante para dizer, o que acontecia com frequência. Talvez Margaret fosse a que se sentia menos incomodada: devido a sua condição de grávida e por ter sempre convivido com vários homens, ela os deixava à vontade para que a tratassem quase como uma irmã. Depois de uma hora, ela não só havia ganhado várias partidas de pôquer, como respondera a diversas perguntas sobre as melhores coisas para escrever nas cartas para as namoradas, sobre como lidar com sogras intrometidas e até sobre qual gravata usar em um evento civil. O ar estava denso por causa da fumaça do cigarro, das emanações etílicas e dos eventuais palavrões, seguidos por um pedido de desculpa, como concessão à presença das mulheres. No canto oposto, um homem ruivo e magro feito um palito tocava trompete tranquilamente. Estava sendo ignorado por todos, o que fez Margaret achar que ele devia tocar todas as noites.
— As senhoras aceitam um drinque? — perguntou Dennis, se inclinando na direção delas com dois copos nas mãos.
Elas logo compreenderam que ele não seguia as normas gerais do navio. Bebida, cigarro, empréstimo até o dia do pagamento, tudo isso fluía dele e para ele como água. Frances, que havia sido convencida a se sentar ao lado de Margaret, balançou a cabeça. Ela parecia ser imune às manifestações de admiração dos homens, e passara tanto tempo olhando fixo para os seus sapatos que Margaret se sentiu culpada por ter insistido que ela viesse. Jean, enquanto isso, já bebera dois copos e cada vez dizia mais besteira.
— Vá com calma, Jean — sussurrou Margaret. — Lembre-se de como passou mal mais cedo.
— Davy está dizendo que a bebida vai fazer bem ao meu estômago — argumentou Jean, cutucando o homem ao seu lado.
— Farrer ben ao estômaco? — repetiu Jackson, um dos marinheiros que tinha achado o sotaque delas fascinante, e imitava tudo o que diziam.
— Espero que não acredite no que essa gente fala — disse Margaret, erguendo as sobrancelhas. — Vai fazer bem ao seu estômago, sem dúvida!
— Foi isso que o seu Joe lhe disse também, não foi? — perguntou Dennis, apontando para a barriga de Margaret. Os outros riram.
Havia barras metálicas nas paredes para sustentar as redes, e fileiras de armários com tranca, todos identificados com cartões-postais ou etiquetas com os nomes dos usuários escritos à mão. No pequeno espaço que restava da parede, fotos de artistas com pouquíssima roupa disputavam espaço com outras desbotadas e menos glamorosas de namoradas, esposas e filhos sorridentes, lembranças amareladas pela nicotina de outros mundos, mais amplos e distantes.
Ali em volta, os homens que não estavam jogando cartas nas mesas de madeira descansavam nas redes, escreviam cartas, dormiam, fumavam, liam ou observavam a cena, simplesmente aproveitando a presença das mulheres. Como sinal de respeito, a maioria tinha colocado a camisa, e vários ofereceram balas, cigarros e até mostraram fotos para que elas admirassem suas namoradas.
Apesar da falta de espaço, Margaret não se sentia ameaçada, como acontecia na época em que seu pai levava para casa todos aqueles sujeitos do pub. Os homens eram hospitaleiros, simpáticos e flertavam com discrição. Margaret entendia a situação: após meses longe de quem eles amavam, contar com a presença de alguém que lhes fizesse lembrar de um mundo sem guerra, sem soldados nem combates, era suficiente. Ela sentira o mesmo quando vira homens vestindo um uniforme igual ao de Joe.
— Frances? Tem certeza de que não quer jogar uma partida?
Margaret ganhara de novo. Dennis tinha assobiado e jogado as cartas na mesa, prometendo uma revanche impiedosa quando se encontrassem novamente. Para ele, parecia óbvio que teria uma próxima vez.
— Não, obrigada — respondeu Frances.
— Você seria muito boa no pôquer.
Com certeza. O rosto de Frances estava impassível, suas feições elegantes não deixavam transparecer o desconforto que Margaret sabia que ela estava sentindo. Ela mencionara várias vezes naquela noite que Frances era enfermeira, e em todas as ocasiões a colega tentara desconversar para não ter que contar sobre seus anos de serviço. Até então, fizera isso com delicadeza.
— Sua amiga está bem? — perguntou Dennis, baixinho.
— Sim, ela só é um pouco tímida. — Margaret não tinha outra explicação a dar.
Ela baixou a cabeça, constrangida pela alegada familiaridade com uma mulher que conhecia havia pouco tempo.
— Un poc timid — murmurou o marinheiro atrás dela.
— Cale a boca, Jackson. Então, onde está seu marido?
— Na Marinha — respondeu Margaret. — Joseph O’Brien. É mecânico do Alexandra.
— Mecânico? Ei, pessoal, Mags é uma das nossas. Esposa de um mecânico. Assim que olhei para você, percebi que tinha bom gosto.
— E aposto que você olha para muitas mulheres.
Margaret ergueu as sobrancelhas.
— Muito poucas com bom gosto — acrescentou seu colega.
Jogaram mais quatro ou cinco partidas. O clima ficou mais tranquilo com a ajuda do pôquer, e aos poucos as jovens foram deixando de se sentirem estranhas ali. Margaret sabia que havia grande chance de ela se dar bem com Dennis: ele era o tipo de homem que gostava de companhia feminina se estivesse descartada a possibilidade de conquista sexual. No início, ela achara que sua gravidez poderia dificultar as coisas durante a viagem, mas agora percebia que seu estado talvez tornasse tudo mais fácil.
Melhor ainda, paradoxalmente, era que os homens não a definiam pela sua barriga. Quase todas as mulheres que ela encontrara até então no navio tinham perguntado com quantos meses estava, se esperava um bebê “bom” (ela se questionava o que seria um bebê “ruim”), se preferia menino ou menina. Era como se ela houvesse deixado de ser Margaret para se tornar uma incubadora ambulante. Algumas queriam tocar sua barriga e confidenciavam no seu ouvido, sem que ela perguntasse nada, que sonhavam em ter filhos. Outras, feito Avice, olhavam para o seu corpo com desdém ou simplesmente não mencionavam a gravidez, como se tivessem medo de que de algum modo pudesse ser contagiosa.
Margaret quase nunca tocava no assunto: atormentada pelas lembranças das vacas da fazenda do pai parindo, ela ainda não se reconciliara com seu destino biológico.
Jogaram duas, três, muitas outras partidas. A sala estava cada vez mais enfumaçada. O homem no canto tocou duas músicas que ela não reconheceu no trompete, depois The Green Green Grass of Home, em um ritmo mais rápido do que de costume. Os homens haviam interrompido o jogo para cantar. Jean se enfiou no meio deles e os acompanhou com a voz desafinada, mas acabou esquecendo a letra dos versos finais. Ela quase caiu no chão de tanto rir.
Já era tarde, ou pelo menos parecia: sem luz natural nem relógio, era impossível saber se o tempo parara ou se as horas tinham avançado madrugada adentro. O resto da noite transcorreu entre partidas ganhas ou perdidas, as risadas de Jean, o trompete no canto, e sons que, com um pouco de imaginação, podiam lembrar vagamente sua casa.
Margaret largou as cartas e concedeu a Dennis um segundo para perceber que tinha perdido.
— Acho que está me devendo, Sr. Tims.
— Estou quebrado — confessou ele, com falsa consternação. — Posso acertar com pacotes de cigarro? Pode dar para o seu marido.
— Fique com eles — respondeu ela. — Estou com muita pena para tirar mais alguma coisa de você.
— É melhor voltarmos para a nossa cabine. Está ficando tarde — disse Frances, a única delas que continuava tensa e formal.
Ela olhou ostensivamente para o relógio e depois para Jean que, deitada em uma rede, não parava de rir enquanto lia uma revista em quadrinhos que um jovem marinheiro lhe emprestara.
Faltavam quinze minutos para a meia-noite. Margaret se levantou sem ânimo, triste por ter que ir embora.
— Foi ótimo, rapazes, mas acho que devemos ir enquanto está tudo bem.
— Não querem ser mandadas para casa em um bote salva-vidas?
A expressão de Frances deixava claro que, por vários segundos, ela levara o comentário dele a sério.
— Mais uma vez, muito obrigada pela hospitalidade.
— Hopidalidade — murmurou Jackson.
— Nós é que agradecemos — retrucou Dennis. — Quer que um de nós verifique se o corredor está livre? — De repente, seu tom de voz ficou mais sério: — Ei, Plummer, tenha um pouco de respeito.
A música parou. Todos os olhos se voltaram para onde Dennis olhava. Como quem não quer nada, o dono da revista em quadrinhos que Jean lia tinha colocado a mão na parte interna da coxa dela, mas já a retirara. Não ficou claro se Jean estava bêbada demais para ter percebido. De todo modo, houve uma sensível mudança no clima. Por alguns segundos, todos ficaram quietos.
Depois, Frances deu um passo à frente.
— Sim, vamos embora, Jean! — insistiu ela, como que reanimada. — Levante-se dessa rede. Precisamos voltar.
— Desmancha-prazeres!
Jean meio que deslizou, meio que caiu da rede, jogou um beijo para o marinheiro e deixou Frances lhe dar o braço para ajudá-la a ficar de pé.
— Boa noite, rapazes. Obrigada pela excelente noite.
Seu cabelo caía no rosto, deixando apenas o sorriso à mostra.
— Precisamos acordar cedo amanhã — justificou ela.
Desajeitadamente, balançou uma das pernas, e Frances se inclinou para baixar a saia da amiga até uma altura decente.
Margaret assentiu para os homens em torno da mesa e seguiu para a porta.
De repente, se sentiu constrangida, como se só naquele instante se desse conta da cilada em que podiam ter se metido.
Dennis pareceu perceber.
— Desculpe pelo que aconteceu. Foi a bebida, mas não houve má intenção.
— Não tem problema — tranquilizou Margaret, abrindo um sorriso neutro.
Ele estendeu a mão.
— Volte outra vez. — Inclinou-se à frente e murmurou: — Fico enjoado de ver sempre estas mesmas pessoas.
Ela entendeu o que ele tentava dizer e se sentiu grata.
— E eu adoraria jogar mais pôquer — acrescentou ele.
— Vamos voltar com certeza — confirmou ela, enquanto Frances arrastava Jean porta afora.

* * *

Avice estava acordada quando elas entraram na cabine da forma mais silenciosa possível, apesar dos risinhos de Jean.
No caminho, haviam encontrado só outras duas jovens, também discretas, que trocaram com elas um breve sorriso de cumplicidade antes de desaparecerem numa cabine escura. Margaret, no entanto, vira guardas imaginários por todo lado. Seus ouvidos tinham ficado atentos a possíveis gritos como: “Ei! Vocês! O que pensam que estão fazendo?” Ela percebeu, pela expressão séria de Frances, que a colega se sentia da mesma forma. Nesse meio-tempo, Jean tinha vomitado duas vezes, felizmente no banheiro dos oficiais, que ficava vazio naquele horário. Agora estava rindo enquanto tentava contar a elas a história em quadrinhos que lera.
— Era muito engraçada. Toda vez que a menina fazia alguma coisa… qualquer coisa… — Jean fez uma expressão de espanto — … a roupa dela caía.
— Hilário — murmurou Margaret.
Ela era uma mulher forte (“parecida com uma bezerra”, costumavam dizer seus irmãos), mas o bebê, aliado ao peso quase morto de Jean, e o balanço incessante do navio a tinham feito resmungar e suar ao longo de todo o caminho.
Frances suportara a maior parte do peso de Jean e a arrastara em silêncio, agarrando-se com uma das mãos nos canos e corrimãos, o rosto contorcido pelo esforço.
— Ela estava quase sempre só de calcinha e sutiã, ou nem isso. Em pelo menos dois desenhos estava sem nada mesmo. Nadinha. Precisou fazer assim com as mãos…
Jean teve dificuldade para se livrar dos braços de Frances, que era surpreendentemente forte para uma garota tão pequena, e fingiu tapar os seios e a virilha, fazendo um “Ah!” de surpresa.
— Já chega, Jean!
Margaret tinha espiado pelo canto do corredor que levava à sua cabine e viu que, por sorte, os fuzileiros não estavam de serviço.
— Rápido! Talvez a gente só tenha um minuto.
Nesse momento, uma mulher surgiu da escuridão e as surpreendeu.
— Ah! — exclamou Frances.
Margaret sentiu o rosto corar.
— O que está acontecendo, senhoras?
A oficial se aproximou depressa, e seu peito pareceu chegar pouco antes dela. Era uma das oficiais do corpo técnico e administrativo da Marinha, baixa, de cabelo ruivo, e que mais cedo as acompanhara até a lavanderia. Havia algo quase desonesto na sua pressa, como se andasse esperando que alguma infração fosse cometida.
— O que está acontecendo? — insistiu ela. — Sabem que as mulheres não têm permissão para estarem fora da cabine a esta hora da noite.
Margaret sentiu sua língua ficar pastosa e não conseguiu falar.
— Nossa amiga está enjoada — explicou Frances com calma. — Ela precisou ir ao banheiro, e achamos que talvez não fosse conseguir chegar lá sozinha.
Como se para confirmar, o convés se ergueu sob seus pés e fez as quatro cambalearem e caírem na parede. Enquanto deslizava de joelhos, Jean xingou e, em seguida, vomitou.
— Ela está mareada?
— Muito — respondeu Margaret, levantando Jean.
— Bem, não tenho certeza…
— Sou enfermeira — interrompeu Frances.
Sua voz, mesmo tão fraca, consegue ser surpreendentemente autoritária, notou Margaret.
— Achei que seria mais higiênico que ela vomitasse longe dos beliches. Tem outra garota passando mal na cabine — explicou, apontando para a porta.
A oficial olhou para Jean, que continuava de cabeça baixa.
— Tem certeza de que é só enjoo?
— Ah, sim — insistiu Frances. — Eu a examinei, e fora isso ela está ótima.
A mulher parecia desconfiada.
— Já vi casos como este — continuou Frances — enquanto prestava serviço no navio de assistência hospitalar Ariadne. — Ela enfatizou a palavra “serviço”, depois estendeu a mão. — Frances Mackenzie.
A oficial estava confusa, incomodada com a situação. Margaret tinha certeza de que era porque ela não sabia muito bem o que estava acontecendo.
— Bem, nesse caso…
Ela não apertou a mão de Frances, que ficou suspensa. A aparente desenvoltura com que a enfermeira a baixou fez Margaret se perguntar quantas vezes seu gesto já havia sido recusado.
— Bem, então vou pedir para retornarem à cabine, e que não saiam de lá, a não ser em caso de emergência. Como sabem, os fuzileiros navais não estão de serviço esta noite, e o toque de recolher precisa ser respeitado.
— Tenho certeza de que ficaremos bem agora — garantiu Frances.
— São ordens, as senhoras sabem.
— Sim, sabemos — respondeu a enfermeira.
Margaret fez menção de seguir caminho, mas Frances esperou a oficial ir embora.
Claro, pensou Margaret. A cadela.
Com o passo instável, a oficial seguiu na direção do refeitório e, no meio do caminho, se virou para lançar mais um olhar desconfiado.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!