30 de março de 2019

Capítulo 7

— Teria sido difícil encontrar um grupo menos apto a construir uma nova colônia a partir do zero do que os 105 homens que navegaram pelo rio a partir da baía de Chesapeake em 1607 e fundaram Jamestown. — O professor Campbell dava uma aula na frente da turma de Elena. — Embora entre eles houvesse alguns carpinteiros, um pedreiro, um ferreiro e talvez uma dezena de trabalhadores, eles eram poucos se comparado com os autoproclamados cavalheiros que compunham metade do grupo.
Ele parou e sorriu sardonicamente.
— “Cavalheiros”, neste caso, significa homens sem profissão nem ofício. Muitos eram ociosos, preguiçosos que se uniram à expedição da London Company na esperança de lucrar, sem perceber quanto trabalho realmente implicava fundar uma colônia no Novo Mundo. Os colonos desembarcaram na primavera e, no final de setembro, metade deles estava morta. Em janeiro, quando o capitão Newport voltou com suprimentos e mais colonos, apenas 38 do grupo original ainda estavam vivos.
Preguiçosos e desinformados, escreveu Elena com esmero no caderno. Mortos em menos de um ano.
História do Sul era sua primeiríssima aula, e a faculdade já se provava uma experiência reveladora. Os professores do ensino médio sempre destacaram a coragem e o espírito empreendedor quando falavam dos primeiros colonos da Virgínia, e não suas desventuras.
— Na quinta-feira, falaremos da lenda de John Smith e Pocahontas. Vamos discutir os fatos e como eles diferem do relato pessoal de Smith, uma vez que ele tendia a se promover — anunciou o professor Campbell. — A tarefa de leitura está na apostila, então, por favor, preparem-se para uma discussão animada na próxima aula. — Ele era um baixinho roliço e vigoroso, cujos pequenos olhos pretos percorreram a turma e pararam em Elena enquanto acrescentava: — Elena Gilbert? Por favor, fique um pouco depois da aula. Gostaria de falar com você.
Ela teve tempo de se perguntar, nervosa, como ele sabia qual dos alunos era ela enquanto o resto da turma saía da sala, alguns parando para fazer perguntas ao professor. Ela não falou nada durante a aula, e havia cerca de cinquenta alunos na turma.
Quando os últimos colegas desapareceram pela porta, ela se aproximou da mesa dele.
— Elena Gilbert — disse ele como um tio, os olhos brilhantes procurando os dela. — Peço desculpas por tomar seu tempo. Mas, quando ouvi seu nome, tive de perguntar.
Ele parou, e Elena falou:
— Perguntar o quê, professor?
— Eu conheço o nome Gilbert, sabe — disse ele —, e quanto mais olho para você, mais me lembra alguém... Duas pessoas... Que foram amigos muito queridos meus. Será possível que você seja filha de Elizabeth Morrow e Thomas Gilbert?
— Sim, sou — respondeu Elena devagar.
Ela devia ter esperado conhecer alguém que conhecera os pais dela na Dalcrest, mas mesmo assim foi estranho ouvir os nomes deles.
— Ah! — Ele entrelaçou os dedos sobre a barriga e abriu um sorriso satisfeito. — Você é muito parecida com Elizabeth. Tomei um susto quando entrou na sala. Mas também há algo de Thomas em você, não há como se enganar. Algo em sua expressão, eu acho. Ver você me leva de volta aos velhos tempos, quando eu era aluno da graduação. Ela era uma menina adorável, sua mãe, simplesmente adorável.
— O senhor foi colega dos meus pais? — perguntou Elena.
— Certamente. — Os olhinhos pretos do professor Campbell se arregalaram. — Foram grandes amigos meus aqui. Dois dos melhores que já tive. Tomamos rumos diferentes com o passar dos anos, mas eu soube do acidente. — Ele desentrelaçou os dedos e, hesitante, segurou o braço dela. — Sinto muito.
— Obrigada. — Elena mordeu o lábio. — Eles nunca falaram muito dos tempos da faculdade. Quando eu ficasse mais velha, talvez eles... — A voz falhou e ela percebeu, alarmada, que seus olhos se enchiam de lágrimas.
— Ah, minha cara, eu não pretendia perturbá-la. — O professor Campbell bateu nos bolsos do paletó. — E nunca tenho um lenço quando preciso de um. Ah, por favor, não chore.
A expressão cômica de agonia fez Elena abrir um sorriso apesar dos olhos lacrimosos, e ele também relaxou e sorriu.
— Pronto, assim está melhor — disse ele. — Escute, se quiser saber mais sobre seus pais, como eles eram naquela época, será um prazer lhe contar. Tenho histórias de todo tipo.
— É mesmo? — Elena ficou esperançosa, e sentiu uma centelha de empolgação.
Às vezes tia Judith conversava sobre a mãe de Elena, mas as lembranças que ela partilhava eram principalmente da infância das duas. E Elena não sabia muito do passado do pai: ele era filho único e os pais dele estavam mortos.
— Certamente, certamente — disse o professor Campbell com ânimo. — Venha à minha sala depois das aulas e vou lhe contar nossas farras dos velhos tempos. Estou lá toda segunda e sexta-feira de três às cinco e vou colocar um capacho de boas-vindas para você. Metaforicamente falando, é claro. Servirei a você o horrível café do departamento.
— Obrigada, professor Campbell — agradeceu Elena. — Eu adoraria.
— Pode me chamar de James. Não é nada demais. Disponha do que eu puder fazer para você se sentir à vontade na Dalcrest. — Ele inclinou a cabeça e a olhou indagativamente, com os olhos brilhantes e curiosos de um animalzinho. — Afinal, como filha de Elizabeth e Thomas, você deve ser uma menina muito especial.

O grande corvo preto na frente da janela aberta da sala de aula andava de um lado a outro, fechando e abrindo as poderosas garras no galho onde estava encarapitado. Damon queria se transformar em seu eu vampiro, entrar pela janela e submeter aquele professor a uma sessão de interrogatório rápida mas eficaz.
Mas Elena não ia gostar se o fizesse.
Ela era tão ingênua, droga.
Sim, sim, ela era sua princesa linda, brilhante e inteligente, mas também era tremendamente ingênua: todos eles eram. Damon alisou, irritado, as penas de volta ao brilho iridescente. Eles eram tão jovens. A essa altura, Damon conseguia examinar o passado e dizer que ninguém aprendia nada na vida, não nos primeiros cem anos. Era preciso ser imortal, de verdade, para ter tempo de aprender a julgar por conta própria.
Considere Elena, olhando com tanta confiança para o professor. Depois de tudo o que passou, tudo o que viu, ela era tão fácil de seduzir à complacência — o homem só precisou sacudir na cara dela a promessa de informações sobre seus pais e ela correria feliz para encontrá-lo em sua sala sempre que ele sugerisse. Tola sentimental. O que o homem podia dizer que tivesse importância verdadeira? Nada podia trazer seus pais de volta.
O professor não era um perigo, muito provavelmente. Damon o sondara com seu Poder, sem sentir nada além da cintilação da mente humana; nenhuma onda sombria vinha do homenzinho, nenhuma emoção perturbada ou violenta. Mas ele não podia ter certeza, podia? O Poder de Damon não conseguia detectar todos os monstros, não podia prever todas as perversões do coração humano.
Mas o problema real aqui era Elena. Ela claramente se esquecera de que havia perdido todo seu Poder, que as Guardiãs a tinham despojado àquele ser vulnerável e frágil de menina mortal de novo. Ela pensava, erroneamente, que podia proteger a si mesma.
Todos eram assim. Damon se enfurecera no início por aos poucos perceber que começava a sentir que todos eram humanos dele. Não só a adorável Elena e a ruivinha, mas todos: a bruxa da Sra. Flowers, a caçadora e o sarado desmiolado. Os dois últimos nem gostavam dele, mas Damon era compelido a ficar de olho neles para evitar que se metessem em perigo graças à sua estupidez inata.
Não era Damon que queria estar ali. Não, a ideia de “vamos dar as mãos e dançar para completar nossa educação juntos” não foi sua, e ele a tratava com o desdém adequado. Ele não era Stefan. Não ia perder tempo fingido ser uma das crianças mortais.
Mas ele descobrira, para seu desânimo, que também não queria perdê-los.
Era constrangedor. Os vampiros não eram seres gregários, não como os humanos. Ele não devia se importar com o que lhes acontecesse. Essas crianças deviam ser suas presas, mais nada.
Mas morrer e voltar, lutar com o espectro do ciúme e expulsar a inveja e a infelicidade doentias que o mantinham cativo desde que ele era humano tinham transformado Damon. Com aquele nó duro de ódio fora do peito, onde habitara por tanto tempo, ele acabou se sentindo mais leve. Quase como se ele... como se ele se importasse.
Constrangedor ou não, era surpreendentemente agradável ter essa ligação com o pequeno grupo de humanos. Mas ele preferia morrer — de novo — antes de admitir isso em voz alta.
Ele bateu o bico algumas vezes enquanto Elena se despedia do professor e saía da sala. Depois abriu as asas e as bateu até uma árvore ao lado da entrada do prédio.
Perto dali, um sujeito magro colava em outra árvore um cartaz com a foto de uma menina, e Damon voou para ver mais de perto. Aluna Desaparecida, dizia o alto do cartaz, e abaixo da foto havia informações sobre um desaparecimento de pesadelo: sem pistas, sem rastros, nenhuma evidência, nenhuma ideia de onde Taylor Harrison, de 19 anos, poderia estar. Suspeitava-se de um crime. Havia a promessa de uma recompensa da família angustiada por informações que levassem a seu retorno em segurança.
Damon soltou um grasnado áspero. Havia algo errado ali. Ele já sabia — tinha sentido algo um tanto desconexo neste campus assim que chegara, dois dias antes, embora não conseguisse situar o que era. Por que mais ele ficaria tão preocupado com sua princesa?
Elena saiu do prédio e partiu pelo pátio, colocando o cabelo dourado e comprido atrás das orelhas, indiferente ao corvo preto que voava de árvore em árvore acima dela. Damon ia descobrir o que estava acontecendo ali, e o faria antes que a coisa tocasse qualquer um de seus humanos.
Especialmente Elena.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!