14 de março de 2019

Capítulo 7

Eu, como muitos outros, desenvolvi uma relação de amor e ódio com o Vic. Detestávamos a vida a bordo, mas tínhamos orgulho da unidade de combate que o navio formava. Entre nós mesmos, sempre o insultávamos, mas não deixávamos alguém de fora dizer algo que o desacatasse… Era um navio de sorte. Os marinheiros são muito supersticiosos.
L. TROMAN, MARINHEIRO, HMS VICTORIOUS,
EXTRAÍDO DE WINE, WOMEN AND WAR

DUAS SEMANAS ANTES

De acordo com o diário de bordo, o HMS Victorious tinha estado em ação no Atlântico Norte, no Pacífico e, mais recentemente, em Morotai onde, graças aos aviões Corsair que transportava, ajudou no recuo dos japoneses, missão que lhe rendera cicatrizes. O navio, como tantos outros, havia parado várias vezes no estaleiro de Woolloomooloo para reparar o casco danificado por minas, fechar os buracos causados por balas e mísseis e consertar os estragos devidos à permanência no mar, antes de partir de novo levando a bordo homens que também haviam sido tratados e deixados em forma para o combate.
O comandante George Highfield era um homem de imaginação fértil, mas quando andava pelo cais seco e observava, através da névoa do mar, o casco do Victorious e dos navios ali perto, muitas vezes se permitia considerá-los seus colegas.
Era difícil não imaginar que eles também sofriam com algum ferimento, que tinham personalidade ao se aliarem aos seus ocupantes e darem tudo o que podiam ao enfrentarem o mar furioso e um tiroteio violento. Em quarenta anos de serviço, Highfield tivera seus navios favoritos: aqueles que, sem dúvida, ele considerava seus, aqueles em que a ligação entre navio e tripulação era total e nos quais sabia que cada homem ali daria de bom grado a vida para protegê-lo. Em segredo, ele contivera as lágrimas de desgosto no momento de deixar esses navios, mas não as escondera quando alguns foram afundados. Muitas vezes, imaginava que as gerações anteriores de soldados deviam ter sentido o mesmo com relação aos seus cavalos.
— Meu pobre companheiro — murmurou ao olhar para o buraco aberto na lateral do porta-aviões.
A embarcação era muito parecida com o Indomitable, seu antigo navio. O cirurgião havia recomendado que ele usasse uma bengala. Highfield suspeitava que o médico tivesse dito para os outros não permitirem de modo algum a volta dele ao mar.
— Na sua idade, esse tipo de lesão leva mais tempo para curar — comentara ele sobre sua cicatriz pálida e sobre a pele enrugada ao redor, resultado das queimaduras nos locais em que o metal atravessara o osso. — Não acho que deva andar de um lado para outro por enquanto, comandante.
Highfield decidira sair do hospital naquela manhã.
— Tenho um navio para levar para casa — dissera, encerrando a conversa.
Ele não permitiria que o declarassem inválido num momento como aquele. Como todos os outros, o cirurgião não dissera nada. Às vezes, Highfield tinha a impressão de que ninguém sabia mais o que lhe dizer. Não chegava a culpá-los: no lugar deles, talvez tivesse sentido a mesma coisa.
— Ah, Highfield, me disseram que você estava aqui.
— Almirante.
Ele parou e o cumprimentou. O almirante se aproximou sob a chuva fraca, dispensando com a mão o guarda-chuva que um oficial ao seu lado oferecia.
Acima deles, as gaivotas voavam e mergulhavam. Seus gritos eram abafados pela névoa.
— A perna está melhor?
— Está ótima, almirante. Parece nova.
Ele percebeu que o almirante fixou os olhos em sua perna. Como seus homens costumavam dizer, quando alguém encontra um almirante do lado de fora, a céu aberto, nunca sabe se deve polir os botões do seu uniforme para uma cerimônia ou se preparar para uma reprimenda. McManus, no entanto, era um bom almirante, e de algum modo sempre sabia o que estava acontecendo. Muitos deles passavam o tempo inteiro atrás das suas escrivaninhas, só embarcavam um dia antes de voltar para o porto e ainda reivindicavam parte da glória do navio.
Mas esse almirante era um caso raro: sempre queria saber o que estava acontecendo nos estaleiros, mediava conflitos, questionava tudo, não deixava nada passar.
Highfield controlou o impulso de trocar o peso do corpo para a outra perna de novo. De repente, ele se deu conta de que era provável que McManus também soubesse tudo sobre isso.
— Pensei em dar uma olhada no Victorious — disse. — Faz anos que não o vejo. Desde que embarquei para acompanhar os comboios do Adriático.
— Vai achá-lo um pouco diferente — advertiu McManus. — Ele sofreu sérios ataques.
— Podemos falar o mesmo sobre muitos de nós.
Era o mais próximo que Highfield conseguiria chegar de uma brincadeira, e McManus respondeu apenas com um sorriso silencioso.
Os dois caminharam devagar pelo cais, um acompanhando inconscientemente o ritmo do passo do outro.
— Então, Highfield, está em forma de novo e pronto para partir?
— Sim, almirante.
— Foi terrível o que aconteceu. Sentimos muito, é claro.
Highfield continuou olhando para a frente.
— Sim — prosseguiu McManus. — Hart teria chegado no topo da carreira. Era um piloto fora do comum. Foi mesmo uma tragédia, e logo quando estavam tão perto de voltar.
— Entrei em contato com a mãe dele, almirante, enquanto estive no hospital.
— Ótimo. Típico de um homem bom. Eu não esperaria outra coisa de você.
Era constrangedor ser elogiado por tão pouco. Então Highfield se sentiu, como muitas vezes acontecia quando o jovem Hart era mencionado, incapaz de dizer mais alguma coisa.
Após instantes de silêncio, o almirante parou e se virou para ele.
— Você não deve se culpar.
— Sim, almirante.
— Fiquei sabendo que anda um pouco… deprimido por causa disso. Bem, todos nós tivemos perdas e passamos noites em claro nos perguntando se poderíamos ter evitado isso. — Ele lançou um olhar avaliador para Highfield. — Você não tinha escolha. Todo mundo sabe disso.
Highfield ficou tenso. Não conseguia encarar o almirante.
— É verdade. E se as carreiras dos seus homens durarem tanto quanto a sua, eles vão presenciar acontecimentos piores. Não insista nisso, Highfield. Essas coisas acontecem.
McManus ficou quieto, como se estivesse perdido em seus pensamentos, e Highfield também continuou em silêncio, escutando o som dos seus passos no cais agora escorregadio. Ao longe, ouvia-se o rangido e as pancadas abafadas dos guindastes.
Eles estavam quase chegando à passarela de embarque. De onde estava, Highfield conseguia ver os mecânicos a bordo substituindo o metal que tinha sido danificado com o impacto, podia ouvir os golpes de martelo e o ruído das furadeiras, o que indicava que os soldadores estavam ocupados no hangar. Eles tinham trabalhado muito, mas uma enorme fissura carbonizada a estibordo ainda estava parcialmente visível no metal cinza liso. O navio não ganharia nenhum concurso de beleza, mas, ao olhar para ele, Highfield sentiu a tristeza das últimas semanas diminuir.
Pararam na beira da passarela de embarque, semicerrando os olhos por causa da chuva fraca. Highfield voltou a sentir uma pontada na perna e perguntou a si mesmo se daria para se apoiar sem que McManus percebesse.
— Então, Highfield, o que vai fazer quando voltar?
O comandante hesitou.
— Bem, estarei aposentado, almirante.
— Sei disso. Estou perguntando o que vai fazer com seu tempo livre. Tem algum hobby? Ou andou escondendo alguma Sra. Highfield durante todos esses anos?
— Não, almirante.
— Entendi.
Highfield achou que tinha detectado uma pitada de pena na última palavra do almirante. Queria dizer que nunca sentira falta de uma presença feminina em sua vida. Aproxime-se demais de uma mulher e nunca será feliz em lugar algum. Ele vira homens com saudades das esposas enquanto estavam no mar, depois irritados com as limitações da feminilidade e da vida familiar quando estavam em terra.
Não se importava mais em tocar no assunto: nas poucas ocasiões em que isso acontecia, os homens olhavam para ele com curiosidade.
O almirante se virou para o Victorious.
— Bem, não há nada como aproveitar a vida, não é? Imagino que não teríamos o melhor de você se sua cabeça estivesse sempre em alguma mulher em algum lugar.
— É verdade, almirante.
— Meu hobby é o golfe. Planejo passar dias inteiros em campos de golfe. Acho que minha esposa também vai gostar muito disso. — O almirante riu. — Ao longo de todos esses anos ela se acostumou a levar uma vida própria, se é que você me entende.
— Sim — respondeu Highfield, embora não entendesse.
— Não me atrai a ideia de viver o tempo inteiro debaixo das asas dela.
— Entendo.
— Não é uma coisa com a qual você precise se preocupar, certo? Pode jogar todo o golfe que quiser.
— Não gosto muito de golfe, almirante.
— Ah, não?
— Acho que sou mais feliz na água.
Ele quase disse o que pensava: que não sabia direito o que ia fazer. E que estava confuso por não saber. As últimas quatro décadas da sua vida tinham sido planejadas quase minuto a minuto, e ele sabia com dias ou até mesmo semanas de antecedência o que estaria fazendo, e até em que lugar do mundo estaria, de acordo com o planejamento datilografado das suas missões curtas ou longas.
Algumas pessoas o consideravam um sortudo por encerrar a carreira no fim da guerra: na chama da glória, brincavam, mas depois percebiam o que haviam falado. Vou levar meus homens de volta para casa, pensava ele. Será um bom jeito de encerrar a carreira. Ele conseguia ser muito convincente. Diversas vezes precisou conter a vontade de pedir para o almirante deixá-lo ficar.
— Vai subir, então?
— Pensei em inspecionar o serviço. Parece que andaram muito ocupados.
Agora que estava de novo a bordo, Highfield recuperou um pouco da sua autoridade, a sensação de segurança e organização que lhe haviam escapado durante o período que passara no hospital. O almirante não respondeu, apenas subiu rapidamente a passarela de embarque com as mãos cruzadas nas costas.
O painel de presença tinha sido virado para a parede. Highfield parou no vão da porta, o desvirou e encaixou ali o crachá com seu nome para confirmar que estava a bordo. Um gesto que o tranquilizava. Depois eles passaram pela soleira da porta, curvando-se juntos ao entrar no hangar cavernoso.
Nem todas as luzes estavam acesas, e Highfield levou alguns minutos para se habituar à escuridão. Ao seu redor, marinheiros usavam correias enormes para fixar caixas de equipamentos nas prateleiras estreitas, subindo e descendo baldes pretos cheios de ferramentas para os que trabalhavam acima deles. Ao fundo, três jovens marinheiros repintavam os tubos de encanamento. Eles olharam para trás, aparentemente sem saber se deviam cumprimentá-lo ou não. Highfield reconheceu um deles, um jovem que quase perdera um dedo ao prendê-lo nas amarras algumas semanas antes. O marinheiro o cumprimentou com a mão protegida por uma espécie de bolsa de couro. Highfield assentiu, satisfeito por vê-lo de volta ao trabalho. Depois olhou à sua frente, para o gigantesco elevador que transportava os aviões para o convés. Vários homens trabalhavam, e um deles, em um andaime, parecia soldar a intervalos regulares suportes metálicos que chegavam até ao convés de voo. Ele observou a cena, tentando encontrar uma possível explicação. Não conseguiu.
— Ei! Você!
O jovem soldador no andaime ergueu o capacete de segurança. Highfield foi até a beirada do elevador.
— Que diabo acha que está fazendo aí?
O homem não respondeu, apenas exibiu uma expressão confusa.
— O que está fazendo com esse elevador? Ficou doido? Sabe o que os elevadores fazem? Permitem que os malditos aviões subam e desçam. Quem foi que lhe disse para…
O almirante colocou a mão no braço de Highfield. Passaram-se alguns segundos até que o comandante, ainda atordoado com o que via à sua frente, percebesse o gesto.
— Era isso que eu queria lhe falar.
— Esse idiota está colocando suportes metálicos no elevador. Suportes para beliches, pelo amor de Deus! Não sabe o que está fazendo, cara?
— Ele está seguindo as minhas ordens, Highfield.
— Não entendi, almirante.
— O Victorious. Algumas coisas mudaram durante o tempo que você passou no hospital. Novas ordens de Londres. Não faremos uma travessia de rotina, como deve ter imaginado.
Highfield pareceu desapontado.
— Mais prisioneiros de guerra?
— Não.
— Espero que não sejam prisioneiros inimigos. Lembre-se dos problemas que tivemos…
— Acho que pode ser pior do que isso, Highfield. — Ele respirou fundo, com os olhos fixos no rosto do comandante. — São beliches para mulheres.
Houve um longo silêncio.
— Vocês ainda vão levar seus homens para casa, como previsto. Mas receberam um carregamento extra. Seiscentas e tantas mulheres australianas que vão encontrar seus maridos em Blighty. Os elevadores serão usados para os beliches extras.
O soldador retomou o trabalho e o maçarico voltou a espalhar faíscas pela superfície metálica.
Highfield se virou para o almirante.
— Mas elas não podem viajar no meu navio.
— É a guerra, Highfield. As pessoas estão se virando como podem.
— Mas elas viajam em navios de transporte de tropas, almirante, que possam lhes fornecer boa comida. Não podemos ter mulheres, bebês e não sei mais o que em um porta-aviões. É loucura. É preciso explicar isso.
— Não posso dizer que fiquei inteiramente feliz com a ideia. Mas ordens são ordens, meu caro. Todos os navios já foram requisitados. — Ele bateu de leve no ombro de Highfield. — São só seis semanas. Vão passar sem que você perceba. Além disso, depois do que aconteceu com Hart e aquela história da mina, será bom para levantar o moral dos homens. Eles vão pensar em outra coisa.
Mas é minha última viagem. A última travessia com meus homens. Com o meu navio, pensou Highfield, sentindo crescer dentro dele uma imensa vontade de gritar, uma onda de fúria vindo da humilhação.
— Almirante…
— Olhe, George, os telefonemas que recebi de Londres foram incisivos. Há um interesse político por trás dessa história das mulheres. As esposas dos soldados britânicos têm se manifestado diante do Parlamento porque acham que foram esquecidas. Tanto o alto comando quanto o governo australiano não gostariam que esse tipo de coisa se repetisse aqui. Além disso, os australianos não estão nada contentes que tantas mulheres do país deles estejam se casando com estrangeiros. Acho que os dois lados acreditam que a melhor coisa é levar as mulheres embora o mais depressa possível e deixar que a situação se acalme. — Seu tom de voz agora estava conciliatório. — Sei que é difícil para você, mas tente entender o ponto de vista das jovens. Algumas não veem os maridos há dois anos ou mais. A guerra acabou, e elas estão desesperadas para encontrá-los. — Ele reparou que Highfield estava com o maxilar cerrado. — Coloque-se no lugar delas, George. Só querem voltar para os maridos o mais depressa possível e sem confusão. Você precisa entender.
— Mulheres a bordo é a receita para o desastre. — A força dos sentimentos de Highfield endureceu sua voz e vários homens ali perto pararam de trabalhar para observá-los. — Não aceito levá-las! Não vou permitir que mulheres perturbem a ordem deste navio. Precisam entender. Enxergar a real situação.
— Não terá bebê nem criança a bordo. — O tom de voz do almirante parecia mais suave, e ao mesmo tempo mais seco, como se ele estivesse perdendo a paciência. — O grupo foi cuidadosamente escolhido. Só mulheres jovens, saudáveis, embora algumas talvez estejam grávidas.
— E os homens?
— Não haverá homens. Quer dizer, alguns, como sempre, mas só saberemos detalhes poucos dias antes do embarque. Ainda não recebi a lista completa. — O almirante fez uma pausa. — Ah, você está se referindo aos seus homens. Bem, eles estarão em outro convés. Os monta-cargas, onde ficarão as cabines, terão acesso restrito. Algumas… as que estão grávidas… terão direito a cabines individuais. O trabalho dos seus homens continuará normal. E ainda estamos providenciando toda a vigilância possível para impedir intromissões inconvenientes, sabe o que quero dizer.
O comandante Highfield se virou para o seu superior. A tensão do momento retirou do seu rosto a habitual neutralidade. Ele estava desesperado para explicar que a ideia era um tremendo erro e impossível de ser levada adiante.
— Veja bem, almirante, alguns dos meus homens não desfrutam de… companhia feminina há meses. Isto é como jogar um fósforo em um barril de pólvora. Não ouviu falar dos incidentes no Audacious? Todos nós sabemos o que aconteceu, pelo amor de Deus.
— Acho que todos nós aprendemos com o que aconteceu no Audacious.
— Isso é impossível, almirante. É perigoso, ridículo, vai desestabilizar todo o clima do navio. O senhor sabe como essas coisas são frágeis.
— Não há nada a fazer, Highfield.
— Trabalhamos meses a fio para restabelecer o equilíbrio entre os homens. O senhor sabe pelo que eles passaram. Não pode simplesmente jogar centenas de mulheres no meio deles e achar que…
— Elas estarão sob ordens muito rígidas. A Marinha vai dar orientações…
— E o que as mulheres entendem de ordens? Aproximar homens e mulheres significa que vai haver problema com certeza.
— São mulheres casadas, Highfield. — O tom de voz do almirante estava severo. — Elas vão para casa reencontrar os maridos. É isto que devemos levar em conta.
— Bem, com todo o respeito, almirante, isso mostra quanto o senhor entende de natureza humana.
Suas palavras pairaram no ar, deixando os dois homens abalados. A respiração do comandante Highfield estava entrecortada.
— Permissão para me retirar, almirante.
Ele mal esperou pelo aceno de cabeça. Pela primeira vez na sua carreira na Marinha, o comandante Highfield virou as costas para seu superior e se afastou furioso.
O almirante permaneceu onde estava e observou o outro atravessar o hangar e desaparecer dentro do navio, como um coelho buscando refúgio em sua toca. Em alguns casos, tamanho desrespeito poderia significar o fim da carreira de um homem. No entanto, embora Highfield fosse um velho rabugento, McManus tinha muito respeito por ele. Não queria que o comandante encerrasse a carreira profissional em desonra. Enquanto acenava para os marinheiros retomarem o trabalho, o almirante refletiu que, por mais que amasse a esposa e as filhas, para ser sincero, se fosse seu navio, ele provavelmente teria reagido da mesma forma.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!