30 de março de 2019

Capítulo 6

Cautelosamente, Matt sentiu o caminho com o pé até achar grama, e se aproximou aos poucos, de mãos estendidas, por fim tocando o tronco áspero de uma árvore. Não devia haver muita gente por perto, fora do portão principal do campus, mas ele não queria que ninguém o visse vendado, de terno de casamento-e-enterro e gravata, parecendo, ele tinha certeza, um idiota.
Por outro lado, ele queria que quem viesse recebê-lo conseguisse localizá-lo. Será melhor parecer um idiota a céu aberto agora e tornar-se parte da Vitale Society do que se esconder e passar o resto da noite vendado na moita. Matt se aproximou aos poucos de onde pensava que devia estar o portão, e cambaleou. Agitando as mãos, conseguiu recuperar o equilíbrio.
De repente, ele queria ter contado a alguém aonde ia. E se o bilhete tivesse sido deixado para ele por outra pessoa, e não pela Vitale Society? E se fosse um plano para ele cair sozinho numa armadilha? Matt passou o dedo por baixo da gola suada e apertada demais. Depois de todas as coisas estranhas que tinham acontecido no ano anterior, ele não podia deixar de ser paranoico.
Se ele sumisse agora, os amigos nunca saberiam o que tinha acontecido. Ele pensou nos olhos azuis e risonhos de Elena, seu olhar claro e perscrutador. Ela sentiria falta se ele desaparecesse, Matt sabia, mesmo que ela nunca o tivesse amado como ele queria. O riso de Bonnie perderia o tom despreocupado se Matt sumisse, e Meredith ficaria mais tensa e agressiva, exigiria mais de si mesma. Ele era importante para elas.
Mas o convite da Vitale Society era claro: não conte a ninguém. Se ele quisesse entrar no jogo, tinha de obedecer às regras. Matt entendia de regras.
De repente, alguém, aliás, dois alguéns agarraram seus braços, um de cada lado. Por instinto, Matt lutou, e ouviu um grunhido de exasperação de quem estava à direita.
— Fortis aeturnus — sibilou o da esquerda como uma senha, a respiração quente no ouvido de Matt.
Matt parou de lutar. Este era o slogan na carta da Vitale Society, não era? Latim, ele tinha certeza. Queria ter tido tempo para descobrir o que significava. Deixou que as pessoas que seguravam seus braços o guiassem pelo gramado e pegassem a estrada.
— Suba — sussurrou o da esquerda, e Matt avançou com cuidado, subindo no que parecia a traseira de um furgão.
Mãos firmes empurraram sua cabeça para baixo para que ele não batesse no teto, e Matt foi lembrado daquela vez terrível no verão passado em que foi preso, acusado de atacar Caroline. Os policiais empurraram sua cabeça para baixo do mesmo jeito quando o colocaram algemado na traseira de uma viatura. Seu estômago se contraiu com o pavor da lembrança, mas ele afugentou a ideia. As Guardiãs apagaram a falsa acusação de Caroline da memória de todos, assim como mudaram todo o resto.
As mãos o guiaram a um banco e fecharam o cinto de segurança nele. Parecia haver gente sentada dos dois lados, e Matt abriu a boca para falar — para dizer o quê, não sabia.
— Fique quieto — sussurrou a voz misteriosa, e Matt fechou a boca, obediente. Esforçou-se para enxergar alguma coisa através da venda, mesmo uma sugestão de luz e sombra, mas tudo era escuridão.
Passos soaram pelo piso do furgão; depois as portas bateram e o motor foi ligado.
Matt se recostou. Tentou acompanhar as curvas que a van fazia, mas depois de alguns minutos perdeu quantas vezes entrou à direita e à esquerda e, em vez disso, ficou em silêncio, esperando para ver o que aconteceria depois.
Após cerca de 15 minutos, o furgão parou. As pessoas dos dois lados de Matt se ajeitaram em seus lugares, e ele ficou tenso. Ouviu as portas da frente se abrirem e fecharem, em seguida contornaram o furgão antes de abrirem a porta de trás.
— Continue em silêncio — ordenou a voz que falou com ele antes. — Você será guiado para a próxima fase de sua jornada.
A pessoa ao lado de Matt roçou nele enquanto ele se levantava, e Matt o ouviu pisar no que parecia cascalho ao ser levado para fora. Matt estava atento, mas, depois que essa pessoa saiu, ele só escutou o remexer nervoso de outros sentados no furgão. Sobressaltou-se quando as mãos pegaram seus braços mais uma vez. De algum modo, eles se aproximaram de novo sem que ele ouvisse.
As mãos o ajudaram a sair do furgão e o guiaram pelo que parecia uma calçada ou pátio, onde seus sapatos bateram primeiro em cascalho, depois em calçamento. Os guias o fizeram subir um lance de escada, andar por uma espécie de corredor, depois voltar a descer. Matt contou três lances para baixo antes de pararem novamente.
— Espere aqui — disse a voz, e seus guias se afastaram.
Matt tentou imaginar onde estava. Ouvia outras pessoas, provavelmente seus companheiros do furgão, remexendo-se em silêncio, mas ninguém falava nada. A julgar pelos ecos que seus pequenos movimentos produziam, eles estavam num espaço grande: um ginásio de esportes? Um porão? Provavelmente um porão, depois de descer tanta escada.
De trás, veio o estalo baixo de uma porta se fechando.
— Agora podem tirar as vendas — disse uma nova voz, grave e confiante.
Matt desamarrou a venda e olhou em volta, piscando enquanto os olhos se adaptavam à luz. Era uma luz fraca e indireta, o que apoiava sua teoria do porão, porém, se isto era um porão, era o mais elegante que ele já vira.
O espaço era imenso, estendendo-se na escuridão do outro lado, e o piso e as paredes eram revestidos de madeira escura e pesada. Arcadas e pilares sustentavam o teto a certos intervalos, e havia entalhes ali: o rosto inteligente e distorcido do que podia ser uma fada olhava-o com sarcasmo de uma pilastra; a figura de um cervo corria por uma arcada. Cadeiras de assento de veludo vermelho e mesas pesadas de madeira ladeavam as paredes. Matt e os outros estavam diante de uma grande arcada central encimada por uma grande letra V ornamentada de diferentes tipos de metais cintilantes e muito polidos, requintadamente soldados. Abaixo do V estava o mesmo lema que aparecia na carta: Fortis Aeturnus.
Olhando as pessoas à volta, Matt viu que não era o único a se sentir confuso e apreensivo. Havia talvez outras 15 pessoas ali, e pareciam vir de turmas diferentes: não havia como aquele cara alto e recurvado com barba cerrada ser calouro.
Uma menina baixa de rosto redondo com cachos curtos de cabelo castanho fitou Matt nos olhos. Ergueu as sobrancelhas para ele, alargando a boca numa expressão exagerada de pasmo. Matt sorriu para ela, relaxando aos poucos. Ele se aproximou um pouco, e tinha acabado de abrir a boca para cochichar uma apresentação quando foi interrompido.
— Bem-vindos — disse a voz grave e autoritária que os instruíra a tirar as vendas, e um jovem se aproximou da arcada central, ficando diretamente abaixo do V imenso.
Atrás dele veio uma roda de outros, aparentemente um misto de meninos e meninas, todos mascarados e vestidos de preto. O efeito devia ter sido extravagante, pensou Matt, mas em vez disso as figuras mascaradas pareciam misteriosas e reservadas, e ele reprimiu um estremecimento.
O cara abaixo do arco era o único que não usava máscara. Era um pouco mais baixo que as figuras silenciosas em volta dele, tinha cabelo preto e cacheado e sorria calorosamente ao estender a mão para Matt e os outros.
— Bem-vindos — disse ele novamente — a um segredo. Talvez tenham ouvido boatos sobre a Vitale Society, a mais antiga e mais ilustre organização da Dalcrest. Sobre esta sociedade costuma-se falar aos sussurros, mas quase ninguém sabe a verdade. Ninguém, exceto seus membros. Meu nome é Ethan Crane, o atual presidente da Vitale Society, e estou feliz que tenham aceitado nosso convite.
Ele parou e olhou em volta.
— Vocês foram convidados a fazer o juramento porque são os melhores entre os melhores. Cada um de vocês tem pontos fortes diferentes. — Ele gesticulou para o cara alto e barbudo que Matt havia notado. — Stuart Covington é a mente científica mais brilhante do último ano, talvez um dos mais promissores do país. Seus artigos sobre biogenética já foram publicados em vários periódicos.
Ethan andou pelo grupo e parou ao lado de Matt. De perto, Matt via que os olhos de Ethan eram de um castanho quase dourado, cheios de calor.
— Matt Honeycutt entrou para a Dalcrest como titular do time de futebol americano depois de levar sua escola ao campeonato estadual no ano passado. Podia ter escolhido outros programas de futebol universitário, mas preferiu vir para a Dalcrest. — Matt baixou a cabeça com modéstia, e Ethan apertou o ombro dele antes de ir à menina bonitinha de rosto redondo ao lado de Matt.
— A segundanista Chloe Pascal, como sabem os que compareceram à exposição de arte do campus no ano passado, é a artista mais talentosa da universidade. Suas esculturas dinâmicas e inspiradoras lhe garantiram o prêmio Gershner por dois anos consecutivos. — Ele afagou Chloe no braço enquanto ela corava.
Ethan continuou, passando por cada um dos que integravam o pequeno grupo e listando suas realizações. Matt apenas entreouvia enquanto olhava em volta as expressões de êxtase dos outros candidatos, mas teve a impressão de um amplo leque de talentos e de que este era um encontro dos melhores entre os melhores, uma reunião dos vencedores do campus. E ele parecia ser o único calouro.
Sentiu que Ethan tinha acendido uma chama dentro dele: ele, Matt, que era o menos especial de seu grupo de amigos, agora estava em destaque.
— Como podem ver — disse Ethan, voltando à frente do grupo —, cada um de vocês tem habilidades diferentes. Intelecto, criatividade, virtudes atléticas, capacidade de liderar. Essas virtudes, quando unidas, podem fazer de vocês a elite mais poderosa, não só no campus, mas por toda a vida. A Vitale Society é uma organização com uma longa história e, depois que vocês se integrarem a ela, serão parte disto por toda a vida. Para sempre. — Ele ergueu um dedo, num alerta. — Mas esta reunião é apenas o primeiro passo na estrada para se tornar um Vitale. E é uma estrada difícil. — Ele sorriu de novo. — Creio... Nós cremos... Que todos vocês têm o necessário para se tornar um Vitale. Não teriam sido convidados se não pensássemos que eram dignos.
Matt endireitou os ombros e manteve a cabeça erguida. Sendo ou não o menos notável de seu grupo de amigos, ele havia salvado o mundo — ou pelo menos sua cidade natal — mais de uma vez. Mesmo que só fosse um integrante de uma equipe, ele tinha certeza absoluta de que podia lidar com o que a Vitale Society lhe impusesse.
Ethan sorriu diretamente para ele.
— Se estiverem preparados para fazer o juramento à Vitale Society, a guardar nossos segredos e conquistar nossa confiança, deem um passo à frente agora.
Sem hesitar, Matt deu um passo. Chloe e o barbudo — Stuart — o acompanharam e, olhando em volta, Matt viu que cada um dos candidatos tinha avançado um passo.
Ethan se aproximou de Matt e segurou a lapela de seu terno.
— Tome — disse ele, prendendo rapidamente alguma coisa ali e soltando Matt. — Use isto o tempo todo, mas discretamente. Deve guardar segredo de seu envolvimento com a sociedade. Entraremos em contato novamente. Meus parabéns. — Ele abriu um breve e genuíno sorriso para Matt e passou a Chloe, dizendo o mesmo.
Matt virou a lapela e viu o V azul-escuro mínimo que Ethan havia prendido ali. Nunca pensou muito em fraternidades, nem em sociedades secretas, nem em nenhuma organização que não fosse um time esportivo. Mas isto, ser o único calouro desejado pela lendária Vitale Society, era diferente. Eles viram algo nele, algo especial.

Um comentário:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!